Da cena do contato ao inacabamento da história: Os últimos isolados (1967-1999), Corumbiara (1986-2009) e Os Arara (1980-)
Os equívocos do contato
Apesar de se colocarem ao lado dos indígenas, a resposta destes a toda a elaboração dos brancos atingiu os corpos dos integrantes da expedição, colocando-os em risco real. A narração do filme é tensionada pela proximidade dos indígenas, pelo risco real que correm a partir do posicionamento defensivo dos Arara contra a Frente de Atração.
Concretamente, os estrepes são um sinal não percebido pela equipe, cujos integrantes tiveram seus pés fincados. Que sinal exatamente seria esse? No caso do filme, seria possível imaginar que, no contexto da floresta, não é possível mais se ter o controle sobre exatamente o que se está filmando e mesmo sobre o que está acontecendo.
Em meio à pouca luminosidade, enquanto os integrantes da expedição constatam que os presentes deixados para os Arara foram amassados e descartados, ouvimos pela primeira vez a voz de Tonacci conservada em som direto: “Tem que tomar cuidado. Porque ele não tá afim, não, de pegar o presente. É o sinal claro.”
Talvez por isso, ao final desse primeiro episódio, o intérprete da expedição, o índio Ananu Arara, tendo em mãos uma tampa de panela amassada pelos Arara, grita palavras de aproximação (não traduzidas pelo filme), lançadas em meio à floresta, onde supostamente os índios estão a observar seus invasores. As falas lançadas por Ananu à floresta evidenciam que a presença dos indígenas constitui um extracampo, já que não se pode vê-los, nem filmá-los, apesar de se saber que estão lá.
Os equívocos do contato
O segundo episódio centra-se no relato sobre o ataque dos indígenas ao chamado Posto de Vigilância 1, que integra o acampamento da Frente de Atração, no dia 12 de julho de 1980, dois meses e meio depois da instalação do grupo na região e também do início das filmagens. Segundo Possuelo, o ataque, que feriu três funcionários da Funai com flechas, é justificado. Fazia 15 dias que máquinas e motosserras da empresa extrativista Cotrijuí atuavam a poucos metros do território Arara. Para Possuelo, os indígenas não fazem distinção entre os brancos da Cotrijuí e os brancos da Frente de Atração. “Os índios não nos distinguem, não nos separam de outros homens brancos”, afirma Possuelo para a câmera.
Todo o posicionamento, que aproximava Possuelo e Tonacci dos indígenas, encontra um obstáculo: os próprios índios não têm conhecimento de nada do que elaboram, nem mesmo os distinguem dos demais brancos que exploram a região, o que já se havia insinuado no episódio anterior quando desprezaram os presentes deixados na mata, colocando, em retorno, estrepes pelo caminho.
Fica claro que a aproximação que a Funai e o filme forjaram dos indígenas é algo produzido por eles, não passando exatamente pela elaboração dos índios. É como se estivessem do lado dos indígenas, mas os indígenas não necessariamente estivessem do lado deles. Enfim, a aproximação dos Arara é fácil de ser elaborada teórica e ideologicamente, mas difícil de se efetuar de fato, no âmbito da experiência concreta naquele contexto específico. Ou, elaborar a relação com os indígenas institucionalmente via documentos, relatórios e mapas é diferente de estar concretamente diante deles, de seus corpos, de seus artefatos e artifícios.
Por isso há nesse segundo episódio uma mudança de posicionamento de Possuelo no interior do filme. Ao invés de atuar como narrador, muitas vezes fora de cena, outras em cena, mas com sua voz over cobrindo as imagens, tal como acontecia no primeiro episódio, o sertanista assume uma postura de convocação ao espectador e aos demais personagens do filme, olhando para a câmera, interpelando ora o espectador, ora os personagens que cercam o acampamento da Frente de Atração.
Em dois momentos é possível identificar essa alteração de posicionamento. O primeiro é uma sequência na qual Possuelo interpela funcionários da Cotrijuí que trabalhavam na extração da madeira. Primeiramente, a câmera descreve a atuação dos trabalhadores, o uso das máquinas, o ruído que provocam na mata – o filme reproduz o incômodo que o ruído das máquinas provocaria aos Arara. Possuelo convoca o espectador: “Isso aqui que os senhores estão vendo é extração de madeira. A 23 Km do Posto de Vigilância 1, onde houve o ataque dos Arara”, diz ele. Em seguida, inicia uma conversa com os trabalhadores, que dizem que aquela terra pertence à Cotrijuí. Ao final, após argumentação de Possuelo, um deles, um homem de traços indígenas, conclui: “Acredito que eles (os Arara) tenham um pouco de razão, né, senhor”. A câmera acompanha Possuelo e mostra, em planos de detalhe, bonés e camisas dos funcionários com a marca da Cotrijuí.
Fotogramas 186 a 188 – Sydney Possuelo interpela trabalhadores
da empresa extrativista Cotrijuí
Fonte: Frames do segundo episódio de Os Arara (Andrea Tonacci,
1980-).
O segundo momento (que surge, na montagem, logo depois dessa abordagem), é um depoimento em tom confessional no qual Posssuelo, já no acampamento da Frente de Atração, dirige-se diretamente à câmera, em defesa dos Arara, argumentando em favor do grupo que, segundo ele, teria razões para se sentir ameaçado.
Fotogramas 189 e 190 – Possuelo concede ao filme depoimento
em tom confessional
Fonte: Frames do segundo episódio de Os Arara (Andrea Tonacci,
1980-).
A partir do ataque, altera-se a situação que cerca o filme e também o uso que se faz da linguagem. O discurso de defesa dos indígenas continua o mesmo, entretanto, a forma como os corpos encarnam em cena esse discurso é outra. O que se observa é um enfrentamento maior das situações concretas, reais (os presentes descartados, os estrepes, as flechas), a presença da câmera no interior dos acontecimentos e uma reiteração da situação de convocação dos espectadores e dos próprios brancos que vivem ao redor do território (com Possuelo em cena a olhar para a câmera), numa tentativa de reunir forças ao lado da Frente de Atração.
A situação de primeiro contato (primeira imagem) corresponde a um momento intenso dentro do filme. Apesar dos encontros entre brancos e indígenas não se efetivarem nos dois primeiros episódios da série, a iminência do primeiro contato concede à cena uma forte tensão. Do extracampo, mesmo não sendo enquadrados, os Arara participam da cena; sua presença nela incide. Ela se faz perceptível nos vestígios deixados na floresta, não notados pelos brancos; nos ataques que empreendem ao Posto de Vigilância 1; e na mudança da postura do sertanista Sydney Possuelo, que passa a olhar para a câmera, convocando tanto os brancos que vivem no entorno do acampamento (os funcionários da empresa Cotrijuí) quanto os espectadores do filme a manterem um posicionamento ao lado dos Arara.
Nesses momentos que antecedem o contato em si, a câmera enquadra as reações dos homens brancos. O adensamento da cena se dá nos momentos em que a floresta é enquadrada, pois sabemos que os Arara ali estão mesmo que não seja possível vê-los, e nos momentos em que os funcionários da Funai, sobretudo Sydney Possuelo, dirigem o olhar para a câmera, pelo fato de convocarem o espectador.
Os momentos intensos identificados no primeiro contato, ou na iminência dele, nos apresentam inúmeros equívocos. Como vimos, para Eduardo Viveiros de Castro, o equívoco não é um erro, mas um problema que aponta afirmativamente para uma condição de possibilidade.
O problema que a equipe da Funai e do filme enfrentam ao tentarem estabelecer uma relação com os Arara não passa exatamente pela dificuldade de comunicação decorrente, por exemplo, do desconhecimento da língua. O principal problema é a diferença entre os mundos que estão em questão na situação do contato, o que não se resolve apenas pela via da tradução (ao menos, da tradução tal como a concebemos habitualmente).
Como lembra Viveiros de Castro, o que se altera na passagem entre uma espécie de sujeito e outra não são os conceitos, mas é o correlato objetivo ao qual os conceitos se ligam, daí a pertinência do equívoco. No caso do filme, o equívoco surge como aquilo que permite tornar visível a relação entre perspectivas diferentes, os mundos que entram em determinada relação.