Da cena do contato ao inacabamento da história: Os últimos isolados (1967-1999), Corumbiara (1986-2009) e Os Arara (1980-)
Um tríptico
Em Francis Bacon: Lógica da sensação, Gilles Deleuze dedica um capítulo a responder à pergunta: “O que é um tríptico?”. Sua hipótese: “Haveria uma ordem nos trípticos, e essa ordem consistiria na distribuição de três ritmos fundamentais, dos quais um seria como que a testemunha ou a medida dos outros dois.” (DELEUZE, 2007, p. 79)
Em pintura, um tríptico é um quadro formado por três painéis que se relacionam. Podemos imaginar o movimento extenso de Os Arara como um tríptico, no sentido de que se trata de uma série composta por três episódios contíguos, coextensos, entretanto heterogêneos. Essa é uma forma de se elaborar as relações que se estabelecem entre os episódios, para além da análise de cada um em separado.
Entre os três episódios da série, há uma diferença sugerindo que algo acontece para além da linearidade narrativa de um filme. Nessa diferença de nível entre um episódio e outro se localiza, talvez, o potencial narrativo do filme de Tonacci.
Tal como observa Deleuze em relação ao tríptico, é como se houvesse uma distância muito grande entre cada um dos painéis, mas, ao mesmo tempo, eles estão ligados.
É um imenso espaço-tempo que reúne todas as coisas, mas introduzindo entre elas as distâncias de um Saara, os séculos de um Aion: o tríptico e seus painéis separados. O tríptico, neste sentido, é uma maneira de ultrapassar a pintura de cavalete: os três quadros permanecem separados, mas não estão mais isolados; a moldura ou as bordas de um quadro
remetem não mais à unidade limitadora de cada um, mas à unidade distributiva dos três. (DELEUZE, 2007, p. 90)
No filme de Tonacci, observa-se a distância entre os episódios, mas ao se relacionarem, eles ampliam o sentido um do outro justamente por suas diferenças. A heterogeneidade formal do filme como um todo, de algum modo, revela as diferenças que perpassam os diversos níveis em que o primeiro contato e a relação com o outro se dão e se deixam inscrever. O primeiro episódio apresenta, no nível da informação, a conjuntura vivenciada pelos Arara na sua relação com as instituições, a partir do uso de depoimentos, da narração em voz over, do recurso ao material de arquivo (fotografias, matérias de jornal, relatórios e mapas) e de planos gerais e imagens aéreas do seu território. Nesse momento a cena é constituída a partir da tentativa de relacionar os corpos dos brancos com os documentos, mapas e relatórios. Os Arara habitam o extenso extracampo – a floresta onde eles estão abrigados apesar de não serem vistos.
O segundo episódio de Os Arara seria uma espécie de interpelação, uma convocação ao posicionamento do espectador em relação à situação vivenciada pelo grupo. O mundo dos homens brancos e o mundo dos Arara ainda são tomados como estáveis, ainda que conflituosos, contrastantes ou contraditórios. Isso é feito a partir de interpelações, depoimentos dirigidos diretamente para a câmera, tendo Possuelo como mobilizador da cena. Ainda no segundo episódio, os indícios da presença indígena tornam-se mais contundentes (os estrepes, as flechas, os presentes descartados), apesar deles permanecerem no extracampo.
O terceiro episódio é a medida do encontro com o outro, naquilo que tem de imponderável, desregrado e, ao mesmo tempo, de reversível. Mais do que um regime do visível, estamos diante de um tatear, em situação limiar.
Mas como essas várias instâncias do filme se relacionam sob a forma de um tríptico? Como é que a experiência de ver cada um dos episódios modifica, ressignifica o outro episódio visto? Afinal, é essa a questão que Deleuze endereça aos trípticos: ver um dos painéis modifica a forma de ver os outros.
Se tomo o filme composto sob a forma dos três episódios, cada um dando sequência ao outro – o que me parece ser o objetivo de uma série –, seria preciso nos perguntar: como fica o todo do filme a partir do momento em que os episódios não se encerram em si próprios, numa moldura claramente definida, mas se abrem uns aos outros, numa unidade distributiva?
Como fica a paisagem da região Amazônica, as ordens do Estado depois do ataque dos indígenas que acontece entre o primeiro e o segundo episódios? Parece-me que tanto a paisagem quanto os procedimentos da política lidam com a ausência do indígena, mantido no extracampo, entretanto não conseguem escondê-los por muito tempo, visto que sua ausência se faz presente, ainda que sob a forma do temor que nitidamente impõem.
Do segundo para o terceiro episódio, o que se passa? A ausência dos indígenas acaba por se tornar presença em cena. Entretanto, essa presença, apesar de toda a sua intensidade ou justamente por ela, acaba não solucionando as questões que estão postas nos dois primeiros episódios, tal como espera o discurso institucional. A presença dos indígenas simplesmente interrompe o discurso, cessa a argumentação, expondo, no lugar, algo de outra natureza, algo, como vimos, da ordem do tato, da escuta e da reciprocidade.
Apesar de “atraídos” pela Frente de Atração, os Arara não parecem ter sido capturados. A questão da construção da Transamazônica, dividindo o território ao meio, que seria o mote do primeiro contato, acaba nem sendo abordada nesse primeiro encontro. Como reconfigurar a argumentação que é feita em prol dos índios a partir da presença deles? Como lidar com esse fato concreto? Os índios existem. Então, como lidar com o mundo que eles descrevem? Como relacionar o nosso mundo com o deles? Essas são algumas das questões que o filme não se propõe responder, mas deixa em aberto a partir do seu inacabamento.
Sua forma inacabada é, portanto, mais uma maneira de conservar a potência de uma interrogação sobre questões que estão longe de serem solucionadas. O material não montado dos Arara ultrapassa claramente a moldura, modificando a forma do filme como um todo. Nesse caso, o inacabamento me parece sugerir uma boa dimensão para o tamanho do problema que o filme esboça.