Desenvolvimentismo: o conceito, as bases teóricas e as políticas
Introdução
O desenvolvimento econômico continua sendo um desafio
essencial para o Brasil, assim como para a maioria dos países. Apesar das melhorias sociais e do desempenho econômico dos
últimos anos, depois de mais de duas décadas de semiestagnação,
o país ainda está longe de diminuir para níveis adequados suas
principais contradições. A concentração de renda, a pobreza, a
heterogeneidade estrutural e a inserção econômica internacional
continuam em padrões longe dos apropriados. Nos indicadores de
desempenho econômico e social, o Brasil costuma se posicionar em
níveis ainda muito distantes dos alcançados por países desenvolvidos, e mesmo também dos atingidos por outros países
em processo de desenvolvimento. Além disso, a existência de uma
cultura conservadora entre as elites e o surgimento de evidências de
desindustrialização podem significar uma perda de perspectiva de
superação do subdesenvolvimento ou de adiamento para o longo
prazo do catching up, ao contrário do que ocorre em alguns países
que têm, em poucas décadas, superado o subdesenvolvimento.
Os principais fatores estruturais que impedem o desenvolvimento
continuam presentes no país, e alguns, inclusive, têm se acentuado.
É por isso que o desenvolvimentismo continua atual e essencial
para o futuro da sociedade brasileira. A sedução do liberalismo, com
sua ideologia individualista, é muito forte, mas não é o caminho para
o desenvolvimento econômico e social. Por isso, esse livro busca
contribuir na discussão teórica e de políticas sobre o
desenvolvimento econômico, partindo das concepções sobre o
desenvolvimentismo e o Estado desenvolvimentista, analisando suas diferentes e possíveis bases teóricas atuais, que, muitas
vezes, são complementares. Assim, em seus capítulos, estudam-se
as abordagens institucionalistas, as concepções evolucionárias ou
neoschumpeterianas, a teoria keynesiana e a visão marxista,
sempre levando em conta as experiências internacionais e a história
do desenvolvimento.
Esta obra é de autoria de professores e pesquisadores ligados à
área de Desenvolvimento Econômico do Programa de Pós-
Graduação em Economia da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul. Os capítulos são resultantes de suas pesquisas teóricas, com uma característica comum de visão crítica ao liberalismo.
O primeiro capítulo, “Desenvolvimentismo: a construção do
conceito”, de Pedro Cezar Dutra Fonseca, elabora um conceito para
o desenvolvimentismo. O autor parte da constatação de que, apesar
das opiniões de críticos de que o desenvolvimentismo está
superado, o fato de esse termo continuar sendo usado por
economistas e pelo público indica que ele segue útil e necessário. A
pesquisa identifica a origem e a formação do conceito, seus usos na literatura e experiências históricas (mediante sua aplicação por
diversos governos da América Latina) até chegar à conceituação,
pelo teste de um conjunto de variáveis. O autor conclui que o termo
desenvolvimentismo segue em uso, porque, apesar de as condições
históricas que provocaram o seu surgimento terem se alterado, elas
não foram superadas.
O segundo capítulo, “O paradigma do Estado Desenvolvimentista
e o ‘retorno’ da política industrial”, de André Moreira Cunha, argumenta que esse retorno é resultante da ascensão dos países
emergentes, da crise financeira global e da perda de credibilidade
do modelo neoliberal, e que sua base conceitual é o paradigma do
“Developmental State”. Ressalta que as pesquisas associadas ao
Estado Desenvolvimentista têm enfatizado o estudo das políticas
industriais, gerando a conclusão de que o Estado teria sido um ator
central na conformação do assim chamado “milagre asiático”. Para
desenvolver essa ideia, o autor analisa a origem e a evolução do paradigma do Estado Desenvolvimentista e, com base nisso,
argumenta sobre a importância da manutenção de políticas ativas
de desenvolvimento nos marcos das atuais transformações
estruturais da economia mundial.
O terceiro capítulo, “A Economia Política Institucionalista e o
desenvolvimento”, de Henrique de Abreu Grazziotin, Róber Iturriet
Avila e Ronaldo Herrlein Jr., parte da constatação de que o
desenvolvimento institucional tornou-se novamente muito importante na teoria econômica. Os autores elaboram um marco teórico da Economia Política Institucionalista como uma alternativa de
abordagem teórica consistente na análise da relação entre
instituições e desenvolvimento econômico. Para isso, o capítulo
desenvolve as definições básicas sobre a Economia Política Institucionalista e o papel da cultura; analisa o processo de
mudança institucional; estuda as relações entre mercado, Estado e
política a partir dessa base teórica; e examina as relações de
causalidade entre instituições e desenvolvimento econômico, além
de discutir uma metodologia de análise das instituições.
O quarto capítulo, “A relação entre instituições e crescimento
econômico: uma análise heterodoxa e evolucionária”, de Octávio A.
C. Conceição, apresenta o crescimento econômico como um processo de relações de mútua causalidade, no qual o papel das
firmas, das decisões individuais e das instituições é decisivo, e cuja
história e as mediações culturais também têm importância, em um
contexto de incerteza e de instabilidade inerente ao processo de
decisão capitalista. O objetivo é especificar em que consiste a
heterodoxia econômica e qual sua natureza ontológica em oposição
à ortodoxia, passando-se a compreender o processo de crescimento
econômico sob uma perspectiva evolucionária.
O quinto capítulo, “Teoria neoschumpeteriana e desenvolvimento”,
de Ricardo Dathein, destaca a contribuição teórica dessa escola de
pensamento para o entendimento do processo de desenvolvimento
econômico e sua compatibilidade com o desenvolvimentismo e para
a compreensão da dinâmica dos países não desenvolvidos. Nesse
sentido, o objetivo é analisar as principais contribuições da teoria
evolucionária schumpeteriana, em seus aspectos micro e
macroeconômicos, com destaque para o processo de aprendizado e a acumulação de capacitações e para o conceito de “eficiência
schumpeteriana”. Além disso, discute o conceito de Sistemas de
Inovação, a dinâmica dos ciclos econômicos de longo prazo e as
relações entre tecnologia e inserção econômica internacional.
O sexto capítulo, “Padrões históricos da mudança tecnológica e
ondas longas do desenvolvimento capitalista”, de César Conceição
e Luiz Faria, também apresenta o processo de desenvolvimento
econômico na perspectiva evolucionária, no qual ocorre a coevolução das tecnologias e instituições mediante sucessivas ondas de mudança estrutural. Para isso, analisa-se teoricamente o
papel da mudança tecnológica para a dinâmica do sistema
econômico e estuda-se o processo de evolução e mudança
econômica por meio da emergência e difusão das inovações e revoluções tecnológicas. Também examinam-se suas implicações
como fatores explicativos das sucessivas ondas de desenvolvimento
capitalista e como determinantes do processo desigual de
desenvolvimento entre países.
O sétimo capítulo, “Processo de aprendizado, acumulação de
conhecimento e Sistemas de Inovação: a ‘coevolução das
tecnologias físicas e sociais’ como fonte de desenvolvimento
econômico”, de Adriano José Pereira e Ricardo Dathein, discute, a partir da teoria “institucionalista-evolucionária”, o papel do processo
de aprendizado em sua relação com a consolidação de um sistema
nacional de inovações. Destacam-se as políticas que articulam os
âmbitos micro, meso e macroeconômico e a importância da
institucionalização das “tecnologias sociais”, criando o suporte
necessário para que as “tecnologias físicas” evoluam, visando ao
desenvolvimento. Para isso, apresenta a taxonomia e o significado
econômico do processo de aprendizado como resultado de ações coordenadas pelas empresas e outros agentes da inovação e
desenvolve a relação entre inovação, processo de aprendizado e
desenvolvimento econômico.
O oitavo capítulo, “Padrões de eficiência no comércio: definições
e implicações normativas”, de Marcilene Martins, defende a
perspectiva de que a qualidade do padrão de especialização do
comércio exterior de um país remete à necessidade de alguma
noção de “eficiência econômica”. Para tanto, o texto desenvolve as noções de “eficiência ricardiana”, “eficiência em crescimento” e
“eficiência schumpeteriana”, ressaltando também dificuldades
relacionadas à sua operacionalização. Essencialmente, são
analisados os padrões de especialização comercial definidos em
correspondência aos distintos conceitos de eficiência, destacando-
se a possibilidade de trade-offs entre eles e as implicações
normativas daí decorrentes.
O nono capítulo, “Riscos macrofinanceiros, preferência pela
liquidez e acumulação real no capitalismo financeirizado”, de Marcelo Milan, analisa o processo de financeirização e sua relação
com o tratamento dos riscos macrofinanceiros, com suas
consequências para a acumulação de ativos e para o crescimento
econômico. Para isso, o autor avalia a evolução histórica do tratamento desses riscos, comparando o regime de regulamentação
e controles internacionais e domésticos da volatilidade financeira
com a sua gestão privada por meio de derivativos. A comparação
institucional e as consequências para a acumulação de capital são
feitas com o uso do conceito de preferência pela liquidez. Em suma,
o estudo mostra teoricamente e de acordo com a evolução histórica
e institucional o aumento da volatilidade relacionada ao processo de
financeirização, com importantes consequências sobre o crescimento econômico e a distribuição de renda, concluindo que a
regulamentação financeira é necessária e desejável.
O décimo e último capítulo, “As disfunções do capitalismo na
visão de Keynes e suas proposições reformistas”, de Fábio Terra e
Fernando Ferrari Filho, mostra como a visão de mundo de Keynes
se relaciona com suas proposições de política econômica e com sua
teorização sobre a atuação econômica estatal. Para tanto,
desenvolve-se a concepção de Keynes da sociedade como uma unidade orgânica e apresentam-se sua teoria da probabilidade e sua
filosofia da prática, além de suas proposições de política econômica,
fundamentalmente as políticas monetária e fiscal. Em suma, o texto
evidencia como os objetivos de crescimento econômico sustentável
e de desenvolvimento social são baseados coerentemente nas
proposições reformistas e intervencionistas de Keynes, enquanto
teórico e homem público.
Ricardo Dathein