Desenvolvimentismo: o conceito, as bases teóricas e as políticas

Teoria neoschumpeteriana e desenvolvimento econômico

Teoria neoschumpeteriana e

 

desenvolvimento econômico1

 

Ricardo Dathein

 

1. Introdução

 

A corrente teórica neoschumpeteriana tem avançado

substancialmente o pensamento econômico sobre desenvolvimento.

Esta teoria é apropriada para análises desenvolvimentistas e, além

disso, é adequada para uso como instrumento de elaboração de

políticas econômicas, podendo ser adaptada para casos de países

não desenvolvidos, como o Brasil, o que tem sido feito por muitos

autores internacionais e brasileiros.

A visão teórica de Schumpeter diverge de maneira fundamental

da concepção neoclássica, em sua época, com seu foco na dinâmica endógena ao sistema econômico e no poder de mercado

como meta e fonte das ações empresariais. Nesse sentido, é,

concomitantemente, em suas duas vertentes, uma teoria sobre

desenvolvimento econômico e sobre a ação microeconômica das

empresas e dos indivíduos.

A teoria schumpeteriana teve um renascimento nas últimas

décadas do século XX. Isso pode ter ocorrido devido à revolução

tecnológica desse período e ao maior reconhecimento da importância da dinâmica das inovações e das flutuações

econômicas de longo prazo (Acs, 2007, p. 97; Freeman, 2007). Essa

teoria neoschumpeteriana ou evolucionária 2, que se desenvolve a partir dos anos 1980, é formada por um conjunto de contribuições

de modelos formais e análises apreciativas ou históricas não

necessariamente formando um todo uniforme.

Outra característica importante desse pensamento evolucionário é

que, apesar de Schumpeter poder ser caracterizado como um “liberal devoto do livre mercado” (Fagerberg, 2000, p. 99), sua teoria

pode ser muito útil como base para políticas econômicas, tendo em

vista a forma como entende o funcionamento da economia, dos

determinantes do crescimento e de suas instituições.

Além disso, há uma aproximação entre o pensamento

neoschumpeteriano ou evolucionário com o neoinstitucionalista, se

complementando e formando uma abordagem “institucionalista-

evolucionária”, a qual analisa a coevolução de tecnologias,

estruturas econômicas e instituições (Nelson, 2002).

O objetivo fundamental deste capítulo é analisar as diferentes

contribuições teóricas da escola neoschumpeteriana. O capítulo

está estruturado em quatro seções. A seção um analisa as principais concepções da teoria evolucionária, ressaltando a lógica

econômica das firmas e as interrelações da estrutura do mercado

com as inovações no âmbito microeconômico. Além disso, examina

o tema do desenvolvimento econômico, com destaque para as

conexões entre o processo de aprendizado e a acumulação de

capacitações e para o conceito de “eficiência schumpeteriana”. A

seção dois apresenta uma discussão sobre Sistemas de Inovação

(SIs), a partir da qual se explica a dinâmica da mudança econômica (os determinantes das invenções, inovações e sua difusão,

absorção e uso) em suas relações tecnológicas, organizacionais e

institucionais. A seção três trata dos paradigmas tecnoeconômicos e

dos ciclos de longo prazo, levando em conta que o desenvolvimento

não é linear no tempo e que existem processos de convergência e

divergência econômica entre países. A seção quatro, por fim,

considera as relações entre tecnologia e inserção econômica

internacional, com suas elaborações teóricas evolucionárias sobre gap tecnológico e o papel dos investimentos externos diretos.

 

2. Teoria evolucionária

 

Fagerberg (2000) argumenta que, em Schumpeter, o fator

determinante do desenvolvimento (ou o que “dirige o crescimento”)

não seria a acumulação de capital ou a “mecanização” (como

aparece nas teorias clássica, marxista, neoclássica e keynesiana), mas as inovações, como um processo que provoca mudança

qualitativa na economia. O que mede a acumulação seria, de certa

forma, apenas uma descrição do crescimento econômico. As

inovações, entretanto, explicariam a causa da acumulação. Segundo Fagerberg, esse destaque só (re)aparece tão

recentemente nas teorias econômicas devido ao fato de que a

indústria baseada na ciência e o processo de pesquisa e

desenvolvimento organizado são muito novos.

A partir do modelo schumpeteriano, surge uma análise dos

microfundamentos das inovações (uma microeconomia

evolucionária), com pressupostos de incerteza e de diferenciação da

importância dessas inovações (incrementais ou radicais), assim como uma teoria sobre o desenvolvimento econômico (Verspagen,

2005, p. 493). Nessa passagem da micro para a macro, a órbita

meso adquire relevância, não havendo uma lógica de agregação do

micro para a macro, tendo em vista as mudanças qualitativas na

estrutura econômica (Dopfer, 2007, p. 65) e a característica

heterogênea dos agentes econômicos, o que justamente é

fundamental para explicar os estímulos às inovações (Fagerberg,

2000, p. 100).

Nelson e Winter (1982, p. 303 e 396) afirmam que a teoria

neoclássica é inadequada para a análise da mudança técnica e não

fornece meios de conciliar as abordagens de crescimento com o

nível microeconômico. A partir dessa crítica, os dois autores

elaboraram uma teoria evolucionária do crescimento econômico, do

comportamento da firma e da dinâmica da concorrência e sobre a

lógica das políticas públicas.

Nelson (1996) caracteriza o capitalismo como um “motor de

progresso”, sendo o avanço técnico um processo cultural 3 (não

biológico) evolucionário. Nesse processo, ocorrem desperdícios e

redundância (pois não há coordenação), com perdas de economias de escala e de escopo na atividade de Pesquisa e Desenvolvimento

(P&D). Segundo Nelson, os resultados nem sempre são os

melhores, e P&D com alto valor social pode não ser realizada, tendo

em vista o objetivo de lucro. Nesse sentido, o planejamento é uma

possibilidade. Nelson, no entanto, argumenta que o resultado dessa

atividade inovadora no mercado tem tido resultados “notáveis” e que o planejamento do progresso técnico é difícil, tendo em vista sua

incerteza inerente sobre como melhorar as tecnologias, quais os

caminhos alternativos e por que existe a necessidade de se

explorarem diferentes possibilidades. Assim, a competição definiria um caminho viável. Apesar do papel do governo e da coordenação e

planejamento terem aumentado, a rivalidade continuaria sendo a

regra. Entre as definições ex post (mesmo com desperdícios) sobre

o que e como produzir e a coordenação ex ante, a primeira

continuaria sendo melhor, tendo em vista as virtudes do manuseio

experimental (Nelson, 1996, p. 89-96 e 133-139).

 

2.1 Bases da microeconomia schumpeteriana

 

As firmas possuem aptidões e procedimentos de decisão, e

“buscam” melhores maneiras de “fazer as coisas” em um ambiente

de seleção (mercado) que é parcialmente endógeno (Nelson;

Winter, 1982, p. 304). Por outro lado, em termos microeconômicos,

a dinâmica da estrutura do mercado é fundamental. 4 O crescimento

confere vantagens às firmas, o que facilita seu desempenho futuro

(quanto maior seu tamanho, maior sua capacidade de apropriação

dos retornos positivos de seus investimentos em P&D, segundo Nelson e Winter (1982, p. 497)), assim como o declínio tende a se

ampliar. Além disso, existem vantagens do pioneirismo (que podem

ser mais importantes do que os direitos de propriedade,

dependendo do setor), tendo em vista que a imitação é cara,

consome tempo, o aprendizado ocorre na linha de produção,

competências especiais são de difícil transferência e as tecnologias

são cumulativas no tempo (Nelson, 1996, p. 108-111). Esse

processo tende a gerar concentração. No entanto, as inovações tendem a gerar monopólios apenas temporários, pois estes, ao

produzirem maiores lucros, provocam um efeito de imitação e de

difusão, o que tende a eliminar o lucro extraordinário com o aumento

da concorrência. Essa dinâmica estimula novas inovações, e assim

indefinidamente. Isso depende da escala necessária na entrada e

do nível tecnológico dos entrantes. Ou seja, a estrutura do setor e o desempenho inovador das firmas são interdependentes (Nelson;

Winter, 1982, p. 465-9).

O Schumpeter de 1911, n’A Teoria do Desenvolvimento

Econômico, destacava que a expectativa de lucros acrescidos derivados do maior poder de mercado é o determinante endógeno

das inovações. 5 O Schumpeter de 1942, na obra Capitalismo,

Socialismo e Democracia, de outra parte, ressaltava que o poder de mercado favorece as inovações, pois os oligopólios possuem mais

recursos internos para investimentos em inovações (com

tecnologias mais custosas e baseadas em ciência), enquanto o

comportamento dos rivais é mais previsível. Para os oligopólios, a

inovação é parte essencial da concorrência (um imperativo,

portanto) (Scherer, 2007). No entanto, uma concentração excessiva

(com menor pressão competitiva) poderia gerar menores incentivos

às inovações.

A partir da análise de Schumpeter, os dois padrões básicos de

inovações ou regimes tecnológicos das empresas foram

classificados como de tipo Mark I (ou ampliador) e Mark II (ou de

aprofundamento). O primeiro é um padrão de “destruição criadora”,

a partir de firmas que nunca inovaram antes, com baixas barreiras

tecnológicas à entrada, com papel fundamental dos empresários e

de novas firmas. O segundo é um padrão de “acumulação criadora”,

a partir de firmas que já possuem um histórico inovador, em que prevalecem grandes empresas já estabelecidas e existem maiores

barreiras à entrada para novas firmas. Esse último, portanto, está

relacionado positivamente com o grau de concentração das

atividades inovadoras e com a estabilidade hierárquica das firmas

inovadoras, e negativamente com a importância da presença de

novos inovadores (Breschi; Malerba; Orsenigo, 2000; Nelson;

Winter, 1982, parte V).

Esses regimes tecnológicos são definidos pela combinação de

quatro fatores. Altas oportunidades tecnológicas significam que,

para um dado montante de recursos aplicados, existe elevada

probabilidade de ocorrência de inovações. A apropriabilidade das

inovações representa a possibilidade de proteção contra imitação e,

portanto, captura de lucros. A cumulatividade dos avanços

tecnológicos representa a capacidade das inovações presentes gerarem um fluxo de inovações subsequentes. Por fim, a natureza

do conhecimento subjacente às atividades inovativas que pode ser

mais genérica, codificada, ou mais específica, tácita e complexa. Em

geral, menores oportunidades tecnológicas, maiores condições de apropriabilidade, maior cumulatividade tecnológica e alta

importância da ciência básica como fonte de inovações são fatores

que favorecem o padrão inovativo de aprofundamento (Schumpeter

Mark II). Ao contrário, altas oportunidades tecnológicas, menores

condições de apropriabilidade e cumulatividade, maior importância

relativa das ciências aplicadas e um maior papel das fontes externas

de conhecimento são fatores que favorecem o padrão inovativo

ampliador (Schumpeter Mark I) (Breschi; Malerba; Orsenigo, 2000).

Llerena e Oltra (2002) consideram a existência de diferentes

estratégias inovativas por parte das firmas, o que gera resultados

importantes sobre a estrutura do mercado e a dinâmica tecnológica.

Em um modelo de duas estratégias coexistentes, existem dois tipos

de firmas, as com estratégia cumulativa (C-firms) e as com

estratégia não cumulativa (NC-firms). As C-firms adotam uma

estratégia interna de aprendizado por busca (learning by searching),

enquanto as NC-firms usam uma estratégia de aprendizado de fontes externas, absorvendo conhecimento. Essas estratégias

inovativas determinam a evolução da estrutura industrial. A

estratégia das C-firms tende a gerar uma estrutura de mercado

altamente concentrada, muito intensa em capital e em P&D,

enquanto a estratégia das NC-firms tende a produzir um mercado

muito menos concentrado/mais homogêneo. A coexistência entre as

duas produz uma estrutura de mercado oligopolista, com um núcleo

de poucas C-firms e um grande número de NC-firms entrantes sobreviventes. Segundo Llerena e Oltra (2002), existe uma forte

correlação, com mútua determinação, entre o tamanho das firmas e

sua estratégia inovativa, com as C-firms ampliando seu estoque de

capital e, por isso, possuindo altos e heterogêneos market shares,

enquanto as NC-firms (com menor estoque de capital) têm baixos e

homogêneos market shares. Por fim, concluem que a diversidade de

estratégias também tende a produzir uma melhor performance

tecnológica da indústria como um todo.

Essa análise também pode ser aplicada para o ciclo de vida das

indústrias, podendo passar-se de um padrão Schumpeter Mark I

para um padrão Schumpeter Mark II. No início da história de uma

indústria, com tecnologia mudando rapidamente, alta incerteza e baixas barreiras à entrada, novas firmas são as maiores inovadoras,

determinando a dinâmica industrial. Com a maturação dessa

indústria, com trajetórias tecnológicas mais definidas, tornam-se

mais importantes na concorrência fatores como economias de

escala, curvas de aprendizado, barreiras à entrada e recursos

financeiros. Assim, grande empresas com poder monopolístico

assumem um papel mais relevante no processo inovativo. No

entanto, havendo grandes descontinuidades tecnológicas, o padrão Schumpeter Mark II pode ser substituído por um padrão Schumpeter

Mark I, com novas firmas focando sua atuação em novas

tecnologias e novas demandas (Breschi; Malerba; Orsenigo, 2000,

p. 389, nota 2).

 

2.2. Aprendizado e crescimento

 

Na abordagem neoschumpeteriana, o processo de aprendizado é

fundamental para explicar a ligação entre a órbita microeconômica e

o desempenho macroeconômico de um país. Nessa concepção, o

conhecimento é o principal insumo produtivo, responsável pelas

constantes inovações e pelo seu uso eficiente, sendo a empresa

(onde se cria e se acumula conhecimento) o agente central da

inovação. O aprendizado tecnológico e organizacional (e sua produção e transmissão) é determinado nas relações internas da

empresa, entre indivíduos e desses com a empresa, e nas relações

externas da empresa, entre essas e outras instituições.

O processo de aprendizado,6 com mecanismos de produção e

transmissão de conhecimento, desenvolve competências e

capacitações para a busca de soluções de problemas, por parte dos

indivíduos e das organizações (Johnson; Lundvall, 2005; Bell; Pavitt,

1995). Ou seja, objetiva-se a substituição de rotinas inadequadas

por outras que, tendo em vista alterações do ambiente interno ou

externo à empresa, deem respostas mais eficientes. Nesse sentido, o crescimento econômico está associado diretamente à maneira

como as rotinas afetam o funcionamento das organizações (Nelson,

2002).7

Esse processo de aprendizado pode ser diferenciado entre

passivo e ativo. No primeiro caso, seria automático e relativamente

barato (o conhecimento como um bem comercializável), apropriado

em uma reação adaptativa ao conhecimento já produzido e codificado. No segundo caso, trata-se de um processo evolutivo e

idiossincrático, de difícil imitação, uma vez que é inseparável das

particularidades de cada empresa. Essas empresas (os seus

recursos humanos) capacitam-se a realizar avanços técnicos

incrementais ou radicais, em um processo ativo, não automático e

relativamente caro (envolvendo gastos em P&D), com resultados

mais ou menos incertos. Desse modo, não é suficiente o acesso ao

conhecimento codificado para haver aprendizado ativo. Portanto, diferencia-se aquisição/utilização de tecnologia, e desenvolvimento

de capacitação tecnológica (Bell, 1984; Bell; Pavitt, 1995).

Essa capacitação tecnológica, segundo Bell e Pavitt (1995), pode

ser de quatro tipos, de acordo com a sua intensidade. Em um nível

básico, seria relacionada a investimentos e pós-investimentos, com

melhorias ou adaptações em processos, produtos, materiais e

componentes. Em um nível mais elevado, com maiores

contribuições em termos de mudança técnica, estaria relacionada à capacidade de interação com outras firmas e instituições e à

capacidade de contribuição para o desenvolvimento de bens de

capital.

O processo de aprendizado visa ao desenvolvimento de

competências e capacitações. Hodgson (1999) observa que o

conhecimento (tácito e codificado) não depende apenas da

capacidade intelectual do indivíduo, mas de sua interação com

outros em um determinado ambiente. O aprendizado é enraizado (embedded), dependente da trajetória (path dependent), interativo,

cumulativo (no tempo) e, portanto, evolutivo, tanto para as

organizações quanto para os indivíduos no interior delas. Por ser

esse processo de aprendizado um fenômeno coletivo, é necessário

dotar os indivíduos de um ambiente favorável ao aprendizado e, por

conseguinte, à inovação.

A criatividade tem um papel fundamental no processo inovativo.

Assim, o aprendizado é uma condição imprescindível para a

inovação, justamente porque exerce influência direta sobre o

processo criativo. Ou seja, a inovação não é resultado de um processo aleatório, mas sim do aprendizado individual e, sobretudo,

organizacional, com forte peso da interação.

Cohen e Levinthal (1989) destacam a existência de uma dupla

face do processo de P&D, a inovação e o aprendizado. O estoque

de conhecimento de uma firma é função de seu investimento em

P&D e da sua capacidade de absorção do conhecimento existente

(e que pode ser absorvido, de acordo com a taxa de

transbordamento) no seu mercado e de outros mercados e de instituições extramercado. Nesse sentido, segundo os autores, as

firmas não investem em P&D apenas para a produção direta de

inovações, mas também para manter e desenvolver uma maior

capacidade de identificar, assimilar e explorar o conhecimento

externo disponível. Desse modo, ampliam seu estoque de

conhecimento com uma maior capacidade de absorção (que é um

tipo de aprendizado), expandindo sua capacidade de gerar

inovações.

Na visão evolucionária, portanto, a inovação é entendida como

resultado do processo de aprendizado. Tendo em vista que a

geração de competências e de capacitações é condicionada pela

interação entre os agentes econômicos e as instituições, a difusão

do conhecimento, proporcionada pelo processo de aprendizado,

passa a ter papel fundamental na determinação do desenvolvimento

econômico. Nesse sentido, o processo de aprendizado, em seu

sentido individual e, sobretudo, coletivo, tem se configurado como um elo entre a geração, o uso e a disseminação de inovações e o

desenvolvimento econômico (Dosi, 1984).8

 

2.3 Eficiência schumpeteriana e crescimento

 

Dosi (1984, p. 402-3) classifica em três as forças básicas que

atuam no sistema econômico, em termos macroeconômicos. A

primeira refere-se às leis de ajuste interno do tipo clássico (ou ricardiano), com o uso da melhor tecnologia, que se mantém

constante. A concorrência, a difusão tecnológica e a mobilidade do

capital são forças que tenderiam a produzir eficiência, no sentido

estático. A segunda diz respeito às leis de expansão quantitativa via demanda, tratadas pelos modelos keynesianos de crescimento, que

associam maiores investimentos “autônomos” derivados do

surgimento de novos produtos e mercados. A terceira refere-se às

leis de transformação, com mudanças de longo prazo nas

tecnologias, nos padrões de demanda e na estrutura produtiva. Dosi

(1984) destaca que a tecnologia está relacionada a essas três

forças, bem como as determina.

A mudança técnica provoca difusão interindustrial de inovações, o

que produz impactos macroeconômicos, tanto em termos de oferta

quanto de demanda agregada. O resultado é um aumento da

eficiência sistêmica, com o crescimento da produtividade do

trabalho. Isso porque ocorrem inovações e aperfeiçoamentos

adicionais derivados da expansão das empresas inovadoras e das

imitadoras. As empresas que adquirem e adotam bens de produção

inovadores normalmente também promovem inovações maiores ou

menores. Tal atitude cria novos mercados e amplia os existentes, o que estimula novos investimentos. Assim, a difusão tecnológica na

produção e na demanda são fortemente interdependentes (Dosi,

1984, cap. 5).

A partir disto, Dosi, Pavitt e Soete (1990) classificam três

conceitos de eficiência que devem ser analisados para a

determinação do desempenho de longo prazo de um país. A

eficiência alocativa (ou ricardiana) é estática, no sentido de gerar um

ganho de uma vez por todas para a produtividade dos países, e está relacionada com as maiores taxas de lucro de curto prazo. A

eficiência dinâmica de crescimento (ou keynesiana) é função da

taxa de crescimento da demanda internacional. Por fim, a eficiência

dinâmica inovativa (ou schumpeteriana) está relacionada com as

taxas de crescimento da produtividade de longo prazo.

Dosi, Pavitt e Soete (1990) argumentam que, havendo a

propriabilidade e cumulatividade nos avanços tecnológicos,

economias de escala estáticas e dinâmicas, gaps tecnológicos e interdependências entre países em setores não comercializáveis, podem ocorrer importantes trade-offs entre eficiência estática e

dinâmica. O critério de “eficiência alocativa” não seleciona a

especialização em setores com maior potencial dinâmico de avanço

tecnológico ou de economias de escala, de forma que podem ocorrer círculos virtuosos ou viciosos de avanço técnico. A

especialização internacional tem um efeito dinâmico, pois as

capacitações tecnológicas estão associadas aos processos de

produção e de inovação atuais, os quais têm potenciais muito

diferentes entre setores. Assim, as escolhas alocativas presentes

determinam a direção e a taxa de inovações. Nesse sentido, o que

se produz importa, pois existem setores com potencial inovativo e

produtivo superiores a outros.

A “eficiência ricardiana” determina um padrão de especialização

que é função das diferenças relativas de produtividade entre países.

Sempre que essa diferença relativa é maior nos setores mais

dinâmicos tecnologicamente (com maiores oportunidades

tecnológicas), a “eficiência alocativa” está em conflito com a

“eficiência schumpeteriana”. Dosi, Pavitt e Soete (1990)

argumentam que esse trade-off entre eficiência alocativa e inovativa

é proporcional a distância que cada país está da fronteira técnica, considerando que esta é mais dinâmica e penetrante.

A “eficiência ricardiana” e a “eficiência de crescimento” também

estarão em conflito sempre que as elasticidades de demanda

internacionais pelos produtos transacionados forem distintas entre

países (o que é o caso geral), o que gera diferentes potenciais de

crescimento compatíveis com o equilíbrio do balanço de

pagamentos. De uma maneira mais simples, países podem se

especializar “eficientemente” na produção de mercadorias com fraca dinâmica de demanda internacional, restringindo o seu potencial de

crescimento. Como ressaltado por Palma (2004), o aumento da

competitividade não garante catch-up, sendo necessário evoluir no

comércio internacional segundo a dinâmica tecnológica das

indústrias estratégicas em termos de variações da demanda

internacional.

Nesses casos, os sinais de mercado sobre rentabilidade relativa

para os agentes microeconômicos são contraditórios com os sinais de “eficiência em crescimento” e de eficiência inovativa. Por isso, podem emergir decisões que produzam resultados

macroeconômicos subótimos ou nefastos, caso a decisão dos

agentes privilegiar a alocação de recursos baseada no critério de

“eficiência ricardiana”, o que é racional, sob o ponto de vista microeconômico. Podem, portanto, surgir padrões de crescimento

virtuosos ou viciosos. É mais provável que em países desenvolvidos

os três critérios de eficiência coincidam em termos de sinais para o

mercado. No entanto, em países aquém da fronteira tecnológica

(que gera as maiores oportunidades de inovações e de crescimento

da demanda), ao contrário, a eficiência alocativa pode conflitar com

a eficiência dinâmica. Mais do que isso, é possível que, quanto

maior for essa distância da fronteira tecnológica, maiores tendem a ser as diferenças entre os sinais de mercado que privilegiam a

eficiência alocativa (que produz as maiores taxas de lucro de curto

prazo). Isso penaliza esses países, pois as escolhas alocativas

presentes influenciam (induzem) a direção e a velocidade da

evolução futura das vantagens/desvantagens tecnológicas de um

sistema econômico (Dosi; Pavitt; Soete, 1990, cap. 8).9

A assimetria dos sinais ao mercado dos três critérios de eficiência

para países líderes (coincidente) e defasados (conflitante) ocorre

pelo seguinte motivo: uma situação de alta oportunidade tecnológica

(com elevado grau de apropriabilidade associado) funciona como

um incentivo à inovação em países na fronteira técnica. No entanto, essa mesma situação de oportunidade funciona como um sinal

negativo (uma barreira à entrada) em países distantes da fronteira

técnica, e tanto mais negativo quanto maior essa distância. Ou seja,

em cada país, os sinais são particulares e diferentes para a mesma

oportunidade, pois eles refletem suas especificidades com relação a

ativos e a capacitações. 10 Isto tende a ampliar as defasagens,

sendo provocado pela existência generalizada de cumulatividade ou

de rendimentos crescentes nas atividades produtivas e tecnológicas

(Baptista, 1997, cap. 3).

Além disso, com mudanças tecnológicas acentuadas, em fases de

transição entre paradigmas tecnológicos, defasagens ou lideranças tecnológicas moldam sinais de lucratividade e alocação

microeconômica de recursos, o que afeta o dinamismo econômico

de longo prazo das economias. Surgem, nesses casos, oportunidades e também novas ameaças. Aparece ainda com mais

importância a necessidade de políticas que afetem os padrões dos

sinais econômicos (como preços e rentabilidades relativos), sendo

estas tanto mais essenciais quanto maior for a distância que separa o país da fronteira tecnológica. Trata-se, portanto, das há muito

defendidas (como por Myrdal e Amsden) políticas para deixar os

preços “errados” (Cimoli; Dosi; Nelson; Stiglitz, 2009, p. 31).

 

3. Sistemas de Inovação (SIs)

 

Na discussão sobre como as inovações surgem em um sistema

econômico e sobre o que determina a capacidade competitiva

internacional e o crescimento de um país, nasce a abordagem sobre

Sistemas de Inovação (SIs) no final dos anos 1980. A base é o Schumpeter de 1942, mas também List, que já chamava a atenção,

a partir do exemplo da Prússia, para questões relativas aos

sistemas nacionais de produção. Por exemplo, em relação à

interdependência de investimentos tangíveis e intangíveis, à

importância de instituições de ciência e educação, e à correlação

entre importação de tecnologias e desenvolvimento/ aprendizado

técnico doméstico, antecipando, com isso, teorias contemporâneas

sobre SIs (Lundvall, 2007).

A teorização parte de interpretações sobre a relação entre

inovações e conhecimento (que é diferente de informação de

agentes racionais), sobre o fato de que os agentes adquirem

conhecimento (a) por seu esforço e (b) por transbordamentos de

outros atores, de que as inovações e o aprendizado são

dependentes do contexto; de processos interativos e estão

enraizados na estrutura produtiva; e de que o crescimento

econômico depende de sinergias extramercado. No processo de crescimento econômico existem (a) invenções, (b) inovações e (c)

sua difusão, absorção e uso. A análise dos SIs foca o primeiro e o

terceiro elementos, enquanto a atuação do empresário está mais no

segundo, que é o foco do Schumpeter de 1911 (Carlsson, 2007;

Lundvall, 2007; Freeman e Soete, 1997, cap. 12). Assim, um SI

inclui todos os fatores econômicos, sociais, políticos, organizacionais e institucionais (e outros) que influenciam o

desenvolvimento, a difusão e o uso das inovações (Edquist, 2005).

Os principais atores de um SI são as empresas, que investem em

P&D e usam e fornecem tecnologias; o governo, com suas agências públicas, que formulam e executam políticas de ciência e tecnologia;

e instituições, como universidades e centros de pesquisa, que

podem ter maior ou menor apoio governamental. Esse conjunto de

atores representa a “infraestrutura tecnológica” de um país, e sua

ação integrada projeta o seu potencial de desenvolvimento.

Segundo Malerba (2003), a trajetória dos SIs é dependente de

tecnologia, de conhecimento, de atores (governos, empresas,

laboratórios, universidades etc.) e arranjos institucionais, sendo o foco da análise a interação dos atores econômicos, sociais e

políticos, com o potencial de fortalecimento de capacitações e de

difusão de inovações (Tigre, 2005).

Freeman e Soete (1997, cap. 12) destacam os aspectos

institucionais do conceito. Para eles, um sistema de inovação

(nacional, regional, local, tecnológico ou setorial) pode ser entendido

como uma rede de instituições científicas e técnicas, dos setores

público e privado, cujas atividades e interações geram, adotam, importam, modificam e difundem novas tecnologias, sendo a

inovação e o aprendizado seus aspectos cruciais, levando em conta

que esse ambiente social pode estimular, facilitar ou impedir

inovações das firmas. Um SI é definido, portanto, por suas

fronteiras, seus componentes, suas interrelações e os atributos dos

componentes.

Pela forte relação dos Systems of Innovation (SIs) com o sistema

educacional e o aprendizado em geral, foi desenvolvido o conceito de Sistemas de Aprendizado (Systems of Learning) (Edquist, 2001;

Viotti, 2001). Ou seja, apesar da importância da P&D, um conjunto

de outros fatores também é fundamental na determinação das

inovações, principalmente a incremental, como, por exemplo, o

sistema educacional, o treinamento, a acumulação de conhecimento

e a interação dos produtores com os usuários de tecnologia. Edquist

(2001) ressalta que o “aprendizado individual” é fundamental para o

“aprendizado organizacional”. Ou seja, o conhecimento e o aprendizado (individual e coletivo) são fundamentais para o processo de inovação. Por isso, são elementos fundamentais de um

SI.

Um aspecto fundamental da análise evolucionária é o de que os

elementos que explicam a dinâmica da mudança são de natureza tecnológica, organizacional e também institucional. Desse modo, é

necessária a criação de condições organizacionais e institucionais,

de forma simultânea e interrelacionada, para que as inovações

tecnológicas sejam potencializadas. As próprias instituições estão

sujeitas a inovações e possuem uma trajetória evolucionária.

Portanto, essas inovações institucionais criam as condições para o

desenvolvimento econômico, conjuntamente com as outras

inovações ressaltadas originalmente por Schumpeter, em 1911. Em 1942, esse autor já apresentava outra formulação, com destaque

para a incerteza e os aspectos institucionais do processo de

“destruição criativa”. Assim, as inovações teriam também uma

dimensão institucional para a empresa e seu ambiente de interação.

Ou seja, a forma como as diferentes inovações são combinadas

condiciona o desempenho e a trajetória das economias (Chang,

2003a e 2007).

O surgimento de um pensamento econômico neoinstitucionalista,

derivado do velho institucionalismo e em contraposição ao novo

institucionalismo liberal (NEI), tornou patentes as aproximações

deste com as elaborações teóricas evolucionárias. Surge, a partir

daí, a possibilidade de uma abordagem conjunta chamada de

“institucionalista-evolucionária”, que trata da coevolução das

tecnologias, organizações e instituições, como já destacado por

Richard Nelson (1996) (Cimoli; Dosi; Nelson; Stiglitz, 2009).

 

4. Paradigmas tecnoeconômicos e

 

ciclos de longo prazo 11

 

Freeman e Soete (1997, cap. 13) afirmam que as inovações e a

acumulação de conhecimento, interagindo com a acumulação de

capital, com economias de escala e com mercados em expansão,

são os mais dinâmicos elementos determinantes de crescimento, pois geram oportunidades para novos investimentos, com fortes

implicações macroeconômicas. A partir dessa dinâmica, poder-se-ia

entender o crescimento desigual (processos de convergência ou

divergência) entre países e ao longo do tempo, dependendo também de uma combinação entre mudanças técnicas e

institucionais.

Nesse sentido, surgem novos conceitos no âmbito da teoria

evolucionária. Segundo Carlota Perez (2002, cap. 2), “revoluções

tecnológicas” são clusters de novas e dinâmicas tecnologias,

produtos, indústrias e infraestruturas, que promovem modificações

em toda a economia e geram desenvolvimento de longo prazo.

Podem ser, por exemplo, novos insumos, fontes de energia, materiais, novos produtos e processos ou nova infraestrutura. Isso

cria princípios tecnológicos e organizacionais genéricos,

promovendo ampliação do potencial da produtividade para toda a

economia (com a possibilidade de rejuvenescimento e upgrade das

indústrias maduras), o que caracteriza o surgimento de um novo

“paradigma tecnológico”, com a generalização de novas práticas

para empresários, administradores, inovadores, investidores e

consumidores. Esses modelos ou padrões de solução de problemas a serem seguidos (uma nova fronteira de princípios que se torna

senso comum) precisam ser socialmente aprendidos, enfrentando a

inércia (a necessidade de desaprender “o velho”), o que exige

tempo (Dosi, 1984, cap. 2). Esse desenvolvimento, portanto, não é

um processo linear, ocorrendo em etapas, em surtos, significando

modificações qualitativas na sociedade.

Uma característica importante desses novos paradigmas

tecnológicos é a de que eles podem criar vantagens para newcomers, pois mudanças de paradigmas abrem “janelas de

oportunidade” para processos de catch up e de ultrapassagens. No

entanto, um excesso de inércia pode gerar atrasos. Portanto, a

capacidade de mudança estrutural é uma habilidade social de alto

valor12 (Perez, 2002, cap. 2).

Esses paradigmas tecnológicos determinam “trajetórias

tecnológicas”, ou padrões relativamente ordenados de mudanças,

de atividades “normais” de resolução de problemas (Dosi, 1984,

cap. 2). Os clusters de inovações radicais exigem não só mudanças na produção, mas também nas sociedades, instituições e

organizações (Freeman e Soete, 1997, cap. 13). Assim, esses

paradigmas tecnológicos (com suas bases hard, soft e ideológica)

transformam-se em “paradigmas tecnoeconômicos” 13 (Perez, 2002,

cap.2).

Segundo os teóricos sobre ciclos econômicos, não existem

apenas estágios ou períodos na história econômica, mas ondas ou ciclos, o que significa que são recorrentes. Uma crítica a essas

concepções é a de que elas representariam a existência de

determinismo tecnológico. Louçã (2007) argumenta que as

sucessivas ondas longas não surgem desconectadas das atividades

sociais e das instituições. Para esse autor, ocorrem recorrentemente

vários fenômenos. Um deles é a repetição de sucessivas ondas

longas de excepcionais oportunidades de lucros derivadas de

inovações bem-sucedidas em certas atividades econômicas. 14

Louçã, em sua interpretação, enfatiza, em vez dos fenômenos

agregados, as mudanças estruturais e as divergências setoriais

características das inovações-chave (fenômenos desagregados), as quais geram um “efeito demonstração” (com a alta taxa de lucro), o

que estimula a sua difusão e generalização de aplicação.

Outro fenômeno característico das ondas longas é a ocorrência,

não de poucas, mas de “constelações” de inovações técnicas e

organizacionais interdependentes e que se apoiam mutuamente.

Além disso, há a recorrência de ondas de mudanças

organizacionais e administrativas nas empresas. De outra parte,

sempre existem crises de ajustamento estrutural. 15 Também

aparecem modificações de regimes regulatórios sobre a tecnologia

ou sobre a economia como um todo, tanto nacional quanto

internacionalmente (comércio internacional), que são demandadas pelos novos setores líderes. Por fim, Louçã (2007) também destaca

a recorrência de modificações sociais, políticas e culturais nas

ondas longas, as quais estão relacionadas às alterações dos

regimes regulatórios e às crises de ajustamento estrutural.

Silverberg (2007) observa que o destaque dado às questões

sociais e políticas nos modelos schumpeterianos e regulacionistas

possui uma semelhança com a visão de Marx sobre a relação entre

a infraestrutura material (na qual a tecnologia é fundamental) e a superestrutura sociopolítica. Em Marx, as duas esferas precisam

estar adequadamente correlacionadas, mas pode ocorrer

descompasso, o que gera a necessidade de ajuste. Para Silverberg,

na concepção evolucionária, parece que o paradigma-tecnoeconômico é determinante, e o social/político/ cultural se

adapta, sendo determinado pelo primeiro.

O próprio Kondratieff já havia destacado a existência de ciclos de

investimentos em infraestrutura. Esses processos já ocorreram

várias vezes na história econômica, com inovações radicais de

meios de transporte e de fontes de energia, por exemplo. Essas

novas tecnologias criam necessidades de investimentos

generalizados (e sincronizados) em outros setores correlacionados ou formam novos clusters produtivos. Isso suscita a possibilidade de

grandes volumes de investimentos, o que produz fortes impactos

agregados e mudanças estruturais com padrões determinados

(Silverberg, 2007).

As inovações impactam a economia de forma agregada quando

ocorre um processo de forte difusão. Por isso, um aumento

considerável na produtividade média da economia necessita de

certo tempo para se fazer sentir. Por outro lado, as inovações, para produzirem impactos agregados, precisam se transformar em

demanda por bens de capital, o que gera efeitos multiplicadores e

aumento de demanda efetiva (Silverberg, 2007).

Uma interpretação importante para explicar a não homogeneidade

no tempo das inovações radicais foi elaborada pelo teórico Gerhard

Mensch (1975). Em seu modelo, as inovações são adotadas ou não

de acordo com a fase do ciclo. Quando o ciclo está ascendente,

inovações radicais novas podem não ser adotadas, pois as antigas estão sendo satisfatoriamente lucrativas. Em situações de

depressão, ao contrário, essas inovações originais podem ser

adotadas, pois aí são necessárias para recuperar a rentabilidade.

Carlota Perez (2002; 2007) apresenta um modelo sobre ondas ou

surtos de desenvolvimento, ou paradigmas tecnoeconômicos,

evitando o uso do termo “ciclos”, tendo em vista a dificuldade de

comprovação da homogeneidade desse processo. Mesmo com esse

problema, o fato é que, segundo ela, ocorreram sucessivas revoluções tecnológicas na história, com a recorrência de certas dinâmicas (inclusive em relação à regularidade de duração, cerca de

40 a 60 anos) a partir do surgimento de tecnologias genéricas que

modernizam a estrutura econômica como um todo.

Para Schumpeter (1911), as inovações são baseadas na criação

de crédito (função de emprestador) e na capacidade empresarial

(função de tomador de empréstimo), como as duas faces da mesma

moeda. No entanto, estranhamente, segundo Perez (2007), o

verdadeiro “herói”, tanto em Schumpeter quanto nos

neoschumpeterianos, é o empresário, aparecendo o banqueiro

apenas como facilitador. O empresário é enfatizado, enquanto o

agente financiador é negligenciado. Criticando essa interpretação, o

modelo de Perez incorpora na análise a dinâmica do capital financeiro e suas relações com o capital produtivo e com as

revoluções tecnológicas.

Segundo Perez (2002, cap. 5), as ondas/surtos (surge) de

desenvolvimento possuem dois períodos: de instalação (installation)

e de implantação (deployment) dos paradigmas tecnoeconômicos.

Nos dois, ocorre a difusão das tecnologias da nova revolução

tecnológica, sendo mais “forçada” (contra as rotinas do velho

paradigma) no primeiro e mais coerente, enquanto senso comum, no segundo. No primeiro, o capital financeiro lidera, enquanto, no

segundo, a liderança é do capital produtivo. Dividindo os dois

períodos, ocorre um ponto de inflexão (turning point).

Esses dois períodos estão divididos em quatro fases. No primeiro

período, de instalação, após o big-bang tecnológico, ocorrem a fase

de irrupção e a fase especulativa (ou frenzy). No segundo, de

implantação, tem-se a fase de sinergia e a de maturidade.

A fase de irrupção (o “tempo da tecnologia”) começa em um

contexto no qual o velho paradigma está maduro, com mercados

saturados e desemprego (derivado da estagnação e da

modernização anteriores), com deflação ou inflação (em função das

condições institucionais) e envolto em um sentimento de impotência

para trabalhadores e governos, pois suas políticas não mais

funcionam adequadamente. Nesse contexto, existe ociosidade,

sendo a mão de obra e os lucros de empresas do velho paradigma

recursos potenciais para novos investimentos. Nessa situação, com empresas em busca de soluções, há necessidade de que ocorra algo novo. Ao mesmo tempo, também existem a oportunidade e as

condições adequadas de custos (salários e taxas de juros baixos).

Dessa maneira, historicamente surgiram inovações fundamentais (o

big-bang), as quais estimulam iniciativas empresariais em massa, com grande potencial de crescimento da produtividade agregada,

em decorrência de sua difusão e assimilação.

Enquanto o capital produtivo, no contexto de maturidade da

revolução tecnológica anterior, permanece mais rígido (é path-

dependent em termos de investimentos em equipamentos,

estruturas, conhecimento, experiência, organização e relações com

fornecedores, distribuidores e clientes), o capital financeiro é muito

mais flexível na alocação de recursos, podendo mudar rapidamente do velho para o novo paradigma, desde que tenha liberdade. Nesse

contexto, o capital financeiro cumpre um papel fundamental ao

realocar poupanças de setores ociosos para onde ele está sendo

demandado. Na interpretação de Perez, o capital financeiro segue

critérios similares ao do capital produtivo em seu processo inovador.

Um setor financeiro flexível e inovador, que aceita financiar

atividades de alto risco (inovações radicais) parece ser o mais

adequado, pois o anterior, sendo rígido, não está dando conta das novas necessidades. Desse modo, o capital financeiro passa a

exigir flexibilização, e isso parece ser adequado para o setor

produtivo (Perez, 2007).

Assim, surgem novas oportunidades técnicas e de lucros em meio

à estagnação, novos setores atraem investidores e novos produtos

atraem consumidores. Ao mesmo tempo, a formação de clivagem

tecnológica exige que velhos setores se modernizem. Além disso, o

capital financeiro atende às necessidades de investimentos nessas inovações. Assim, existe, nessa primeira fase, um love affair do

capital produtivo com o financeiro.

Na fase seguinte, especulativa (o “tempo da finança”), existe

intenso investimento nas novas tecnologias, com forte geração de

lucros, com possibilidade de excesso de investimentos e com

criação de recursos superior à sua capacidade de absorção por

investimentos reais. Essa renda financeira busca valorização, com

formação de bolhas especulativas e inflação no mercado acionário. Assim, a finança se aparta da economia real. Ocorre tendência à dissociação das esferas produtiva e financeira, e o capital financeiro

impõe seus interesses, com muita riqueza e exclusão social e

extremo individualismo. Em contrapartida, o arcabouço regulatório

torna-se impotente.

Ao mesmo tempo, o capital financeiro dirige um intenso acúmulo

de novas infraestruturas e tecnologias, ocorre grande exploração de

novas oportunidades técnicas e se fortalece a “livre” concorrência,

com a criação de novos mercados e rejuvenescimento de velhas

indústrias. Ao final dessa fase, o potencial do novo paradigma está

fortemente instalado na economia. No entanto, concomitantemente

geram-se tensões estruturais, que tornam essa fase insustentável.

Ocorre, neste momento, um processo de transição (turning point),

com possibilidade de crash e recessão, pois a fase especulativa

anterior é instável. Existe um desbalanceamento entre o potencial

produtivo e a demanda existente, que aparece como saturação

prematura do mercado. Na formulação de Perez, a dificuldade

nesse momento não é tecnológica. Mudanças institucionais com

intervenções do Estado na regulação do mercado são requeridas

para passar da fase especulativa para a fase de sinergia, mas essa

solução não é garantida, podendo ser rápida ou demorar anos, dependendo da consciência sobre a insustentabilidade da regulação

anterior e dos interesses, da lucidez e do poder relativo das forças

sociais participantes. As mudanças necessárias exigiriam também

maior atenção aos interesses sociais, com intervenção do Estado,

não por interesses ideológicos ou voluntaristas, mas porque as

tensões precisam ser superadas, com a recomposição de condições

adequadas para o crescimento. Fundamentalmente, o capital

financeiro agora deve ser mais regulado, reconectando-se à esfera produtiva.

Com a superação dos problemas institucionais do turning point,

surge uma fase de sinergia (o “tempo da produção”). Existem

condições adequadas para crescimento, com a infraestrutura

instalada (permitindo externalidades positivas) e os investimentos

básicos realizados, derivando-se daí as possibilidades dinâmicas

das economias de escala. Há possibilidades de pleno emprego e de

melhor distribuição de renda, ou de uma “Idade de Ouro”. Segundo Perez (2002), com as finanças como suporte do capital produtivo, o

novo paradigma agora “governa supremo”.

No entanto, necessariamente surge a fase de maturidade, o que

significa que a difusão da tecnologia foi concluída para as principais indústrias. Com isso, ocorre gradual saturação dos mercados e

menores oportunidades de investimentos, com aumento de

desemprego e crescente frustração de expectativas. A produtividade

cresce menos e os lucros diminuem. Ocorrem fusões, aquisições e

migração de atividades para o exterior. Isso produz a necessidade

de busca por novas soluções tecnológicas fora do paradigma

existente, ou seja, a necessidade de novo big-bang, a partir do qual

se retoma o ciclo. Nessas circunstâncias, podem coexistir dois paradigmas tecnológicos, um em declínio e outro em ascensão.

Segundo Perez (2002), as passagens entre fases na história

podem parecer contínuas e invisíveis para os contemporâneos.

Além disso, existem diferenças importantes entre países. Portanto, a

análise é realizada com forte estilização, com determinação de

fases por interpretação e não por séries de dados.

Existem dificuldades para a comprovação da existência de ciclos

longos via cálculos econométricos, por problemas de qualidade dos dados ou da própria existência de longas séries de dados. Por outro

lado, dificilmente as técnicas econométricas conseguem detectar o

fenômeno dos ciclos longos, ainda mais quando se espera que ele

tenha um padrão de cerca de 50 anos. Portanto, a existência de

fenômenos de ciclos longos com periodicidade média de 40 a 60

anos não tem comprovação econométrica. No entanto, Silverberg

(2007) considera que não existem dúvidas sobre a existência de

flutuações de longo prazo. Mesmo sem comprovação econométrica definitiva, a formulação teórica correlacionando inovações, difusão

tecnológica, condições financeiras e capacidade empresarial

inovadora, segundo esse autor, é altamente frutífera e foi derivada

de pesquisas sobre ciclos longos.

 

5. Tecnologia e inserção econômica

 

internacional

O comércio internacional tem sido um poderoso impulsionador de

crescimento econômico, e existe forte evidência de que as melhores

performances exportadoras estão associadas a inovações técnicas

e organizacionais bem-sucedidas e seus impactos dinâmicos, pois elas determinam a competitividade de longo prazo. Segundo Dosi

(1984, cap. 4), a capacidade exportadora de um país é função de

sua capacidade de gerar inovações e/ou imitações, de forma rápida

e criativa. No entanto, curiosamente, como observam Freeman e

Soete (1997, cap. 14), as teorias sobre comércio internacional

ortodoxas não incorporaram essas variáveis, com seus resultados

cumulativos. 16

Em contraposição às teorias baseadas em dotação de fatores (e

suas extensões), a vertente interpretativa schumpeteriana enfoca a

origem dos retornos crescentes, não na concorrência imperfeita em

si, mas nas tecnologias produtivas e nas inovações, em geral, com seus impactos cumulativos, e também em elementos como path

dependence/irreversibilidade dos processos (Arthur, 1994) e

economias de aglomeração.

No comércio internacional, a ideia de eficiência alocativa exige

que haja rendimentos constantes e pleno emprego, e que não haja

externalidades ou economias de escala. Nesse caso, o comércio

internacional livre será eficiente para todos os países, a partir de

suas vantagens comparativas. O problema é que esses pressupostos não são base adequada para a teoria, pois são

improváveis. Nesses contextos, os ajustes derivados das diferenças

internacionais de preços, de produtividades e de tecnologia não são

suficientes para garantir ganhos para os países no curto e no longo

prazo (Kaldor, 1981). Para isso, é necessário comparar os efeitos da

eficiência alocativa sobre a taxa de crescimento macroeconômico de

longo prazo, compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos

(a “eficiência keynesiana”), e sobre o dinamismo tecnológico (a “eficiência schumpeteriana”). Não há nada no mecanismo da

eficiência alocativa garantindo que, ao mesmo tempo, serão

alcançados os outros critérios de eficiência. Ou seja, é necessário

analisar quais os efeitos da especialização derivados das vantagens

comparativas sobre as “eficiências keynesiana e schumpeteriana”,

no caso de pressupostos ultrarrestritivos não existirem. 17

Pressupostos importantes dessa interpretação são que as

assimetrias de nível tecnológico e de capacidade inovativa de

empresas e países são determinantes para as exportações e

importações, assim como o são para a renda do país; que o equilíbrio macroeconômico internacional tem determinação fraca, de

forma que o comércio internacional possui fortes efeitos sobre a

atividade econômica (dito de outra forma, o crescimento é

constrangido pelo balanço de pagamentos); que a tecnologia não é

um bem livre; e que os padrões de comércio internacional têm

implicações dinâmicas de longo prazo, podendo essas ser

“virtuosas” ou “perversas” (Dosi; Pavitt; Soete, 1990, cap. 2; Dosi,

1984, cap. 4).

Estendendo o modelo de criação de vantagens de monopólio

derivadas das inovações para a economia internacional, chega-se à

interpretação de um modelo baseado em technology gap. A difusão

internacional das tecnologias eliminaria essas vantagens, de modo

que seria necessária a criação continuada de inovações para a

manutenção do gap tecnológico e as vantagens do país no comércio

internacional (Fagerberg, 2007). O fluxo de comércio do país

inovador para os demais se origina da existência de uma diferença positiva entre o nível de demanda e de produção do bem

comercializado no país comprador, e esse fluxo de comércio é

mantido em função da taxa de inovação do primeiro. Fatores como

diferenciais de salários, proximidade, custos de transporte,

adaptabilidade, mais a capacidade de aprendizado (ou tecnologia

padronizada e internacionalmente disponível) podem erodir a

vantagem do país inovador exportador depois de um tempo de

defasagem. No caso de ciclos de vida muito curtos, com novos produtos entrando rapidamente no mercado, ou com taxas de

mudança técnica alta, a vantagem do país inovador se manteria

(Dosi, 1984, cap. 4).

Outra interpretação teórica importante é sobre o “ciclo do

produto”, com sua dinâmica de alocação da produção internacional

(investimento externo direto) e do comércio internacional

determinada pela estrutura dos mercados e de acordo com as

características dos bens relacionados à sua diferenciação/padronização/grau de maturidade. Nesse modelo, os padrões de demanda induzem inovações por parte das firmas (Dosi;

Pavitt; Soete, 1990, cap. 2).

O modelo de Thirlwall, apesar de keynesiano (considerando a

demanda externa como uma força autônoma), poderia ser encaixado na linha teórica schumpeteriana em sua conclusão final,

com a determinação tecnológica das elasticidades de demanda das

exportações e das importações definindo os limites do crescimento

econômico pelo constrangimento do Balanço de Pagamentos (Dosi;

Pavitt; Soete, 1990, cap. 2). Fagerberg (2007) observa que essas

elasticidades precisam ser explicadas (como Kaldor já apontara).

Nesse sentido, cria um modelo (Fagerberg, 1988) com a inclusão de

indicadores de competitividade (habilidade inovativa e capacidade de adaptação) nas equações de exportações e importações,

transformando-o em um modelo schumpeteriano.

Freeman e Soete (1997) argumentam que nem esses modelos

(de gap tecnológico, ciclo do produto e de Thirlwall), nem os

modelos de Heckscher-Ohlin expandidos, conseguem identificar

adequadamente as consequências cumulativas das inovações.

Com o atual processo de globalização, visões liberais consideram

que teria aumentado ainda mais a tendência à convergência entre países ricos e pobres, pois a tecnologia seria mais móvel e as

informações mais acessíveis, com custos de transmissão cadentes.

Sanjaya Lall (2003) critica essa visão de que a tecnologia fluiria para

países pobres que adotassem políticas liberalizantes. Segundo ele,

as novas tecnologias não fluem assim, mas dependem de esforço,

de acesso e de adaptação, exigindo cada vez mais habilidades e

capacidade organizativa, tornando-as mais difíceis para novos

entrantes. Em compensação, as economias de escala e o aprendizado cumulativo tendem a fazer os investimentos se

concentrarem em poucos locais, com externalidades ou

determinantes de localização formando clusters.

Os dados mostram que o comércio internacional possui maior

dinamismo em setores de alta tecnologia, o que demonstra a

importância desse fator (Lall, 2003; Fagerberg, 1987). Além disso,

há forte concentração das exportações industriais, em regiões e

países, que aumentou com o tempo, indicando maiores barreiras. Isso é provocado pela realocação produtiva de empresas dos países ricos para os pobres, principalmente em atividades trabalho-

intensivas, que está também correlacionada aos menores custos de

transporte, à liberalização comercial e às políticas de atração de

atividades exportadoras por esses países (Lall, 2003).

Na interpretação de Lall, a tecnologia em países em

desenvolvimento depende de um processo evolucionário de

construção de capacitações, o qual é difícil de criar e mudar. A

simples liberalização não mudaria isso, e esse conhecimento é algo

muito distinto do simples acesso à informação. Essa capacidade

tecnológica é função de um processo de aprendizado que tem como

características a incerteza (sem plena informação de todas as

alternativas), a especificidade (com difícil transferência de capacitações), a cumulatividade (com a experiência e a imitação,

não dependendo apenas de inovações complexas, mas de

aprofundamento continuado), que é path-dependence, que possui

externalidades e que depende de interações (aprendizado coletivo).

Nesse sentido, são fundamentais a educação formal, o treinamento

nas firmas e fora delas e o aprendizado no trabalho.

Dessa forma, a importação de tecnologias é necessária, mas não

é substituto para desenvolvimento de capacidades, pois sua absorção depende da capacidade de aprendizado. Um país pode

adquirir tecnologias prontas, mas pode não desenvolver

capacidades (Bell; Pavitt, 1995). Além disso, não existe relação

direta entre investimentos diretos externos (IDE) e capacitação

técnica.

Um elemento determinante para o desempenho inovador e de

comércio internacional é o fluxo de investimento externo direto e a

participação das empresas multinacionais no país. Segundo a teoria “eclética” de Dunning, as diferenças internacionais de

especialização e competitividade (tanto de empresas quanto de

países) são função de economias de escala (tamanho), de aptidões

inovadoras e imitadoras e do pioneirismo, de diferenciais de custos

relacionados às curvas de aprendizado e da internalização das

interdependências tecnológicas. Vários fatores levam uma empresa

inovadora a definir por IDE em vez de por exportações em um

determinado mercado. Ressaltam-se os custos de transporte ou diferenciais salariais, as diferentes características da demanda e de padrões de relacionamento entre usuários e produtores, a

concorrência com as empresas domésticas do país receptor dos

IDE com as outras multinacionais e a existência de tarifas e cotas de

importação. Empresas podem se instalar também visando à maximização do seu crescimento, mesmo que a rentabilidade

presente não seja ideal (DOSI, 1984, cap. 4). No entanto, esses IDE

não significam que haverá criação de capacitações tecnológicas,

apesar de certamente haver modernização da estrutura produtiva.

Enfim, a ocorrência de convergência ou divergência internacional

dependeria do balanço entre forças que favorecem a acumulação de

vantagens tecnológicas dos países avançados (com perpetuação de

gaps tecnológicos) e das oportunidades de catch-up para a fronteira tecnológica, a partir de processos de difusão e imitação (Freeman;

Soete, 1997, cap. 14).

 

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