Desenvolvimentismo: o conceito, as bases teóricas e as políticas
As disfunções do capitalismo na visão de Keynes e suas proposições reformistas
As disfunções do capitalismo
na visão de Keynes e suas
proposições reformistas
Fábio Terra, Fernando Ferrari Filho
1. Introdução
Com a recente crise econômica mundial, o debate sobre uma
maior intervenção do Estado na economia voltou à “ordem do dia”
com uma ressonância não observada desde meados dos anos
1970, quando, como decorrência do processo de estagflação,
acadêmicos e policymakers passaram a preconizar o arrefecimento
da intervenção estatal. No interim desse debate, a teoria econômica
de John Maynard Keynes, declarada morta por Lucas (1980), foi
novamente trazida ao centro das discussões por importantes economistas do chamado Novo Consenso Macroeconômico, dentre
os quais Mankiw (2008) e Krugman (2009).
Neste particular, duas questões surgem: como Keynes apreendeu
a realidade humana e social a ponto de teorizar sobre a importância
da intervenção estatal para o alcance de uma dinâmica estável do
sistema capitalista? Como Keynes concebia a administração da
política econômica – isto é, a atuação econômica estatal – para que
o sistema econômico incorresse em uma trajetória estável?
As pistas para a primeira resposta centram-se na própria forma
pela qual Keynes concebeu a ciência econômica, como uma ciência
moral. Enquanto tal, ela é uma ciência que lida com um elemento
independente e determinante, o homem, que é idiossincrático em
relação aos objetos das ciências naturais porquanto agente apto a
alterar seu comportamento ao longo do tempo histórico,
influenciando, assim, a sociedade que o circunda e, não obstante, influenciado por esta mesma sociedade. Logo, a teoria econômica
deve preocupar-se em estabelecer sua epistemologia de forma a
considerar as possibilidades ontológicas do homem, não somente
para consigo, mas para com o todo no qual emergem suas ações.
Para Keynes, o agente econômico é, por natureza, incerto, porém
livre para tomar suas decisões de investimento, sendo esta uma
condição indispensável para a ampliação da sua riqueza. É neste
cenário que Keynes aponta que a probabilidade não deve ser
tratada como um cálculo baseado em frequências de eventos
passados, mas como uma relação lógica e racional de se conhecer
algo a partir da ausência de fontes de informação perfeitas. Não
obstante, a própria trajetória social é incerta, uma vez que as consequências das decisões individuais afetam não somente os
seus tomadores, mas os outros, de tal sorte que sempre há, na
repercussão das decisões sobre o todo, alguma parcela que supera
o esperado pelos tomadores de decisão. Somente compartilhando-
se dessa concepção de organicidade entre o ser humano e a
sociedade é que se sugere ser possível responder à segunda
questão supracitada e compreender as proposições de política
econômica em Keynes. Nesse sentido, as políticas econômicas keynesianas são fundamentais para mitigar as crises do sistema
capitalista, caracterizadas por insuficiência de demanda efetiva 1.
Tais proposições, por sua vez, são relacionadas à administração
das políticas monetária e fiscal, notadamente essa, uma vez que
impacta diretamente sobre a demanda efetiva do sistema
econômico e, consequentemente, sobre a expectativa do agente
tomador de decisão, qual seja, o empresário. Para Keynes, a
política monetária deve viabilizar a precificação dos ativos em prol
de inversões produtivas, enquanto a política fiscal deve estabelecer
um acordo tácito entre Estado e investidores. Em suma, as políticas
econômicas devem servir como mantenedoras e incentivadoras das expectativas dos empresários, balizando suas esperanças sobre a
demanda efetiva por seu produto e fornecendo-lhes peso aos seus
argumentos, a fim de lhes oferecer melhores estados de confiança
sobre o tempo futuro no qual suas decisões se efetivam.
Diante do exposto, o objetivo deste capítulo é mostrar como a
visão de mundo de Keynes se relaciona com suas proposições de política econômica e justifica sua teorização sobre a atuação
econômica estatal. Para tanto, a seção 2 apresenta, inicialmente, a
concepção de Keynes da sociedade como uma unidade orgânica.
Em seguida, são apresentadas a ideia central da teoria da probabilidade de Keynes e a sua filosofia da prática. Na seção 3,
apresentam-se as proposições keynesianas de política econômica,
especificamente as políticas monetária e fiscal. Por fim, a seção 4
apresenta as considerações finais do capítulo.
2. A visão de mundo em Keynes
2.1 A unidade orgânica
As percepções de Keynes acerca da conduta racional do homem
apropriaram-se da noção de unidade orgânica do filósofo George
Moore (contemporâneo de Keynes em Cambridge), conforme se
observa no artigo “My Early Beliefs”, de 1938 (Collected Wrtitings of
John Maynard Keynes, X, 1972b)2, que expõe o pensamento de
Keynes quando de sua chegada em Cambridge, no início dos
1900 3. A unidade orgânica é caracterizada pelo fato de o indivíduo
não formar suas convenções e valores apenas com base em sua
razão, mas relacionando-a tanto com as partes quanto com o todo
ao qual ele está circunscrito. A consciência do indivíduo, desta forma, construirá “valores dependentes, de acordo com o princípio
da unidade orgânica, do estado das coisas como um todo, que não
podem ser utilmente analisadas em nível [somente] das partes”
(CWJMK, X, 1972b, p. 436).
No que interessa à ciência econômica, a unidade orgânica
relaciona o homem e a sociedade. Nesse sentido, para Keynes, a
principal relação orgânica é a travada entre uma categoria
específica de agente, qual seja, o empresário (ou investidor) e a sociedade na qual ele atuará em busca da ampliação de sua riqueza
monetária 4. À medida que é esta categoria específica de homem, o
empresário, a que detém a capacidade de empregar recursos monetários em bens de capital, máquinas e equipamentos, será ela a responsável pelo emprego dos demais indivíduos, criando assim,
renda e, consequentemente, ampliando a riqueza social. Contudo, a
unidade orgânica implica que o lucro monetário do empresário
dependerá do comportamento dos outros agentes, especificamente, da demanda efetiva social pela sua oferta individual.
Em contraste, como alerta Keynes em sua The General Theory of
Emploment, Interest and Money (doravante GT), o sucesso do
empresário neoclássico, não suposto como pertencente a um todo
em unidade orgânica, não está condicionado à possibilidade de
ocorrência de demanda efetiva pela sua oferta. A Lei de Say,
rejeitada por Keynes, garante que toda oferta promova sua própria
demanda, pois toda decisão individual de produzir é motivada pela utilidade que será alcançada ao se trocar os frutos da produção por
algum outro produto pretendido. Assim sendo, consoante a Lei de
Say, o preço de demanda agregada, isto é, o produto efetivamente
demandado, equivale exatamente ao preço de oferta esperado
pelos empresários, para todo e qualquer nível de emprego (Keynes,
1964). Toda expansão no emprego, com respectiva ampliação da
oferta agregada, cria uma elevação em mesma magnitude na
demanda agregada. Não há, por parte do empresário, uma expectativa de demanda, mas uma demanda determinada pela
própria oferta. Logo, a insuficiência de demanda efetiva é uma
situação inexistente, que implica em todo e qualquer desemprego
ser de natureza voluntária. Nas palavras de Keynes,
[...] isto quer dizer, a demanda efetiva, ao invés de ter um único
valor de equilíbrio, comporta uma série infinita de valores todos
igualmente admissíveis; e que o volume de emprego é
indeterminado [...]. Então, a lei de Say, segundo a qual o preço de demanda agregada da produção em conjunto equivale ao preço da
sua oferta agregada para todo volume de produção, equivale à
proposição de que não há obstáculo para o pleno emprego.
(Keynes, 1964, p. 26).
Sendo esse o modus operandi das forças de oferta e demanda no
arcabouço teórico clássico, que conta ainda com a sinalização de
preços no mercado oferecendo toda informação necessária à
melhor alocação daquilo que se deve produzir e demandar, não há surpresa na interação entre as partes e entre a parte e o todo. Há, na verdade, uma perfeita simetria, com ajustes instantâneos entre
os desejos de demanda e a oferta de bens e serviços. Além disso,
sob tal lógica, a ampliação do nível de emprego e renda da
sociedade depende apenas da concorrência entre os empresários que, ao ampliarem a demanda por trabalhadores, aumentam os
salários reais e fazem com que a desutilidade marginal do trabalho
torne-se custosa a ponto de fazer com que o nível de desemprego
se reduza constante e voluntariamente. A competição empresarial,
assim, levará o emprego a seu nível máximo em que a oferta torna-
se inelástica. Pela validade da Lei de Say, a trajetória até a
indisponibilidade de recursos voluntariamente ociosos é sempre
estável, isto é, sem que existam pessoas desejosas de trabalho que estejam dele involuntariamente desocupadas.
Keynes, ao refutar a 5 Lei de Say, afirma que o pleno emprego
apenas ocorrerá quando a totalidade das propensões individuais a consumir somada à totalidade dos incentivos individuais a investir se
combinarem de uma forma que impeça qualquer discrepância entre
o investimento corrente e o preço de oferta da produção deduzido
do que a sociedade demandou em consumo. Nesse cenário,
Keynes (1964, p. 28) argumenta que, diferentemente do que
apregoa a Lei de Say, a demanda efetiva correspondente ao pleno
emprego somente acontecerá por “acidente ou desígnio”.
Dessa maneira, a realidade social como uma unidade orgânica
cria a dificuldade para que as intenções individuais sejam acertadas
ao ponto do alcance do pleno emprego. O organicismo social é a
concepção de que o resultado social das livres ações individuais
não é um mero somatório das ações individuais, mas é sempre algo
que se atinge além daquilo que é pretendido pelo indivíduo ao agir 6.
Assim,
[...] um sistema orgânico na teoria econômica de Keynes não é viciar um
indivíduo em favor de algum todo independente, mas é o reconhecimento de
que a natureza do indivíduo bem como sua percepção de si mesmo são
funções de, e mudam com, suas interações com outros indivíduos. (Rotheim,
1989-1990, p. 322).
À medida que as ações individuais repercutem de formas
inesperadas e não ocorrem as possibilidades coeteris paribus de ação de todos os outros indivíduos, a sociedade orgânica é incapaz
de ser apreendida pelos indivíduos. Dessa forma, o processo de
conformação do todo, a todo tempo, traduzir-se-á aos indivíduos
como algo que lhes implicará novas percepções sobre o ambiente que lhes circunda. Nesse contexto dinâmico, “[...] ao reajustarem as
estratégias de ação, os agentes também alteram o contexto e as
condições em que atuam [...] os agentes se adaptam ao mundo – o
padrão agregado – por eles cocriado” (Cardoso; Lima, 2008, p. 15).
Novamente em contraposição à teoria neoclássica, se ela
postulasse como um dos seus princípios a unidade orgânica, seu
indivíduo utilitarista necessitaria ter em sua função-utilidade
variáveis explicativas representativas das funções-utilidade de todos outros indivíduos. Somente nessas condições o equilíbrio geral
neoclássico seria mantido. Caso contrário,
[...] pode ocorrer de duas partes [...] não estarem carregando suas intuições
para alcançarem precisamente o mesmo objetivo e, por conta do princípio da
unidade orgânica, uma bem pequena diferença nos objetivos pode produzir
uma grande diferença no resultado (CWJMK, X, 1972b, p. 437)7.
Essa dinâmica de reciprocidade causal entre homem e sociedade,
em que os efeitos da ação humana guardam resultados sociais
imprevisíveis e em que esses resultados sociais impactam sobre o modo pelo qual o homem – agente social – compreende o mundo,
tem como uma de suas mais relevantes consequências a “existência
de uma incerteza radical” (Skidelsky, 1999, p. 109).
A incerteza está sempre presente em função da incapacidade do
homem em apreender o todo no qual ele está inserido. Porém, o
homem é criativo, de modo que o destino do mundo não se
configura como algo a ser desvelado, mas criado por ele. Assim, as
decisões de ação dos agentes, a todo instante, construirão trajetórias histórico-institucionais para a sociedade e, não obstante,
resultarão em contextos não plenamente cognoscíveis. Nesse
particular, não há a possibilidade de se conhecer, no presente, o
futuro, pois não há a possibilidade de se definir e calcular tudo
aquilo que a criatividade humana e sua interação criativa podem
erigir (Skidelsky, 1999). Nas palavras de Carvalho (2003, p. 180), “o
caminho é criado pelo caminhante ao caminhar, mas nem todas as trilhas podem ser abertas, ainda que não se saiba com
antecedência quais realmente podem ser proficuamente
exploradas”.
Inobstante a incerteza radical acerca do futuro, não se pode
desconsiderar o tempo como um elemento central na visão de
mundo de Keynes, como destacam alguns economistas pós-
keynesianos 8. Consoante Carvalho (2003), o tempo deve ser analisado de duas formas: expectacional e histórica. No primeiro, a
incerteza é elemento sine qua non, pois é devido à ocorrência dela
que se forma uma expectativa, e não uma antecipação certa, do
futuro. É por não se saber como se comportarão o todo e as partes
em uma unidade orgânica que os agentes esperam determinados
resultados. Por sua vez, o tempo histórico refere-se à
irreversibilidade temporal. As conjunturas sociais e suas percepções
por parte dos indivíduos alteram-se de forma crucial na dinâmica da unidade orgânica. Assim, o tempo histórico implica trajetória
histórico-institucional futura diversa do contexto presente, porém
composta a partir deste. Não obstante, tal trajetória futura é
irreversível ao presente do qual emana.
Neste particular, acompanhando Davidson (1991b), ocorrerá, no
tempo e no espaço probabilísticos, a não ergodicidade tanto dos
dados resultantes das ações humanas quanto destas próprias
ações. A apuração intelectual do conjunto de variáveis que cada indivíduo considera relevante para decidir agir pode ser bastante
díspar ao longo do tempo histórico, impossibilitando a construção de
uma formulação estatística que traga, no momento de decisão
presente, os cálculos corretos das possíveis, em termos
probabilísticos, consequências futuras. A ergodicidade, por isso, é
uma hipótese não aplicável à ciência econômica, pois um de seus
objetos centrais, o homem, não é uma medida invariável como os
objetos das ciências naturais, mas uma medida variável. Dessa forma,
[...] eu também gostaria de enfatizar fortemente o ponto de que a economia é
uma ciência moral [...]. Eu devo adicionar que ela lida com motivações,
expectativas, incertezas psicológicas. Deve-se estar constantemente em
guarda contra tratar o material [de estudo da ciência econômica] como
constante e homogêneo. É como se pensar que a queda da maçã ao chão
dependa dos motivos da maçã: se a ela vale à pena cair no chão, e se o chão
deseja que a maçã caia (CWJMK, XIV, 1973b, p. 300).
Keynes considera a ciência econômica como uma ciência moral
por crer que o homem é o agente social e criativo. Suas motivações,
expectativas, o levam a atuar socialmente, ainda que enfrentem “o
fato dominante da vida [...] a incerteza fundamental e incontornável
que cerca o futuro” (Carvalho, 2003, p. 176). Imerso no sistema
capitalista, definido por Keynes como a “economia monetária da
produção”, somente arriscando-se ante o inalcançável futuro poderá
ter o homem, agindo enquanto investidor, maior poder de comando sobre a riqueza social.
2.2 A teoria da probabilidade e a filosofia da
prática
Para compreender como se processa a ação humana diante do
incerto contexto no qual se vive, entra em cena a teoria da
probabilidade de Keynes, exposta em seu livro “A Treatise on
Probability”, de 1921 9. De forma inovadora em relação aos padrões
de teóricos sobre a probabilidade em vigor no início dos 1920 10,
Keynes propôs uma teoria da probabilidade não ancorada em bases
quantitativas: “a probabilidade é o estudo das bases que nos levam a termos em mente, racionalmente, a preferência em uma crença a
expensas de outra” (CWJMK, VIII, 1973a p. 106) 11.
Consoante Carvalho (1988), a preocupação de Keynes em
observar como sepode qualificar uma determinada relação entre
variáveis enquanto mais ou menos confiável, ao invés de mensurá-
la e determiná-la enquanto mais ou menos provável, decorre da sua
intenção de compreender os parâmetros que comovem um indivíduo
a uma tomada de decisão: “Keynes primeiramente aproximou-se da
probabilidade na busca por critérios que suportassem as decisões
práticas” (Carvalho, 1988, p. 67).
A tomada de decisão do indivíduo é, segundo a teoria da
probabilidade de Keynes, resultado de um processo de duas etapas.
A primeira diz respeito ao conjunto de informações que um indivíduo elenca e apreende imediata ou diretamente. A essas informações
Keynes denominou premissas e elas conformam o que é conhecido
pelo indivíduo objetiva e diretamente: é o conhecimento direto. A
segunda etapa, subjetiva e mediata, configura-se em como as premissas, ou seja, o conhecimento direto do indivíduo, são por ele
raciocinadas até se transformarem em proposições ou argumentos.
Portanto, na segunda etapa, o sujeito elabora racionalmente seu
conhecimento direto, transformando-o em uma determinada
proposição.
Assim sendo, a probabilidade em Keynes define-se enquanto
[...] dado o corpo de conhecimento direto que constitui nossas premissas
básicas, essa teoria [da probabilidade] nos diz quais crenças racionais, certas
ou prováveis, podem ser derivadas por proposições válidas, de nosso
conhecimento direto (CWJMK, VIII, 1973a, p. 4).
A probabilidade em Keynes envolve o grau em que se pode crer
racionalmente numa relação lógica travada entre um conjunto de premissas conhecidas e apreendidas pelo indivíduo e as
proposições que se lhe são permitidas concluir a partir do raciocínio
que ele faz, imbuído das referidas premissas. Em outros termos, a
probabilidade para Keynes refere-se ao grau em que o indivíduo
racionalmente crê que suas premissas possam tornar-se argumento.
Isto é, por sua vez, qualificar a força com que um agente
racionalmente acredita que sua proposição poderá tornar-se
concretude e, por conseguinte, conhecimento estabelecido e hábil a ser imediatamente absorvido por outros indivíduos.
O critério elencado por Keynes para validar essa forma de
conceber a probabilidade é a lógica, entendida como as regras que
permitem a sistematização e a verificação da pertinência de
argumentações, tornando-as válidas12. A possibilidade de premissas
tornarem-se argumento com algum grau de crença racional de ser
provável ou certo decorre do último “designa[r] apenas uma
determinada combinação de elementos, que não é um simples
amontoado, mas sim uma articulação cujo caráter lógico pode ser
apreendido e claramente mostrado” (Moreno, 2006, p. 23, itálicos
originais).
Um empresário em busca do lucro monetário, somente investe
após raciocinar, baseado em determinadas premissas conhecidas
por ele. Por exemplo, caso estas premissas o informassem que a
cultura da localidade na qual ele se encontra e investirá condena radicalmente a ingestão de bebida alcoólica, sua crença racional lhe
conduziria a ter como muito pouco confiável o lucro monetário, caso
ele investisse em uma fábrica de bebida alcoólica. Em
contraposição, em uma localidade em que os habitantes são
habituados a consumir bebida alcoólica, as proposições do
empresário que o fazem decidir produzir a referida bebida são mais
confiáveis de se tornarem concretas.
Ao investir, um empresário crê em elevado grau que suas
proposições são certas. Principalmente, o empresário crê, no
presente, que aquilo que ele espera, enquanto provável no futuro,
efetive-se. A isto, Keynes chamou, na GT de estado de confiança do
empresário (Keynes, 1964, cap. 12). O estado de confiança é
justamente o grau de crença racional do empresário sobre a
validade futura de suas proposições e decisões presentes.
Neste ponto é importante ressaltar, conforme fazem Cardoso e
Lima (2008), que a habilidade criativa do homem, o uso constante desta capacidade, bem como a imprevisibilidade do destino das
transformações sociais, não significam para a sociedade o caos
completo e, para o homem, a inação e a desconfiança generalizada.
Embora dinâmica, a trajetória histórica da unidade orgânica é
percebida pelos indivíduos como apresentando uma série de
regularidades, motivadas, principalmente, por certas regras ou
convenções tacitamente incorporadas pelos agentes e que se
configuram em premissas das quais se supõem maiores graus de
crença racional13 (Bateman; Davis, 1991). Nesse sentido, essas
convenções, que podem até mesmo ser materializadas em
contratos entre as partes envolvidas, funcionam para manter determinadas percepções de regularidade, pois,
[...] na prática, concordamos, geralmente, a recorrer a um método que é, na
verdade, uma convenção. A essência desta convenção – embora ela nem
sempre funcione de forma tão simples – reside em se supor que a situação
existente dos negócios continuará por tempo indefinido (Keynes, 1964, p.
152, itálico original).
A trajetória social se altera com constância e de forma
imprevisível, mas os indivíduos são capazes de jogar com a
transformação e sobreviver a ela, pois absorvem e respeitam
determinadas regras convencionais que se espraiam pela sociedade. A título de ilustração, Keynes argumenta que
[...] a iniciativa individual somente será adequada quando a previsão razoável
for secundada e sustentada pelo dinamismo, de tal maneira que a ideia de
prejuízos finais [...] é repelida do mesmo modo que o homem saudável repele
a probabilidade de sua morte (Keynes, 1964, p. 162).
Para salientar a importância das convenções, cabe ressaltar o
extremo pessimismo com que Keynes enxergava o modus operandi
da Bolsa de Valores de Nova York nos anos 1920, visto que suas
operações se tornaram voltadas à tentativa dos seus participantes
em apossarem-se da maior remuneração mantendo-se nas
posições mais líquidas possíveis. Dessa forma, surgiu uma forma de
convenção de curtíssimo prazo, em que os corretores da Bolsa não mais baseavam suas expectativas acerca do futuro das empresas
listadas na Bolsa, mas naquilo que eles apostavam que seria a
expectativa média dos operadores sobre o futuro de alguma
empresa. Assim, o objeto de antecipação e aposta deixou de ser o
futuro de um investimento e passou a ser a expectativa
convencionada pelos operadores da Bolsa, isto é, a psicologia de
curto prazo do mercado de ações (Keynes, 1964). Não obstante,
desta referida deturpação imputada sobre o objetivo da Bolsa de Valores surge ainda a possibilidade de uma convenção peremptória
soerguer e eliminar intempestivamente uma determinada
convenção. A este fenômeno a literatura econômica, especialmente
a de inspiração keynesiana, denominou comportamento de manada.
À ação destes atores do mercado financeiro, pouco preocupados
com investimentos efetivamente produtivos como forma melhor de
ampliação da riqueza social, Keynes (1964, p. 158) denominou
“especulação”.
Ao decidir realizar um investimento pioneiro, que se concretizará
no longo prazo, o empresário é motivado pela sua expectativa de o
futuro repetir a conjuntura que ele presentemente raciocina como
favorável ao investimento e à recompensa do lucro monetário. Nos
tempos histórico e expectacional que o separam da realização de seu investimento, o empresário usa de seu dinamismo e de suas
novas apostas baseadas em suas crenças racionais atualizadas
para promover, no curto prazo, ações que ele acredita levarem ao
resultado que ele espera no longo prazo. Isto, por sua vez, é diferente das expectativas e decisões relacionadas à produção
tomadas sobre investimentos devidamente concluídos. Sobre estas
incidem expectativas de curto prazo que comovem o empresário a
produzir uma maior ou menor quantidade (Keynes, 1964).
Ambas as expectativas e decisões, de produção e de
investimento, são fundamentais para a ampliação do emprego, da
renda e da riqueza social. Porém, são as expectativas e decisões de
longo prazo, construtoras de novos investimentos, as mais importantes para a ampliação da riqueza social, ainda que sejam as
de base expectacional mais precária. São elas as principais
mobilizadoras de recursos para a expansão do estoque de capital
social, ampliando, dessa forma, o potencial de produção de riqueza
e amainando a discrepância entre os níveis de consumo e de
produto da sociedade.
Para os empresários, assim como para qualquer indivíduo
decidindo como agir, no curto e no longo prazos, a presença de convenções faz com que as premissas em que eles se inspiram
para proporem seus investimentos tenham maior grau de crença
racional. Não apenas as convenções, mas também conhecimento
direto – como o volume existente dos vários tipos de capital, a
intensidade da procura atual, os contratos com operários e com
fornecedores – fomentam ao investidor um conjunto ampliado de
premissas sobre as quais ele baseará sua decisão. À medida que o
conjunto de premissas em que se respalda o indivíduo se expandir, ampliar-se-á o peso do seu argumento, ou seja, a confiança em sua
proposição, em sua decisão. Então, o peso do argumento é o
crescimento da quantidade de conhecimento direto que se possui e
que viabiliza a expansão do grau da crença racional do indivíduo em
determinado argumento, muito embora não implique que o futuro
será mais provável ou certo. É sobre a confiança em um argumento
que pesa o volume maior de premissas, não sobre a probabilidade
de um dado futuro (Cardoso; Lima, 2008).
Os empresários, em suas iniciativas de ampliar sua riqueza,
arriscam recursos monetários no presente, crendo na consecução
de suas proposições no futuro. Tal aposta, embora racional,
“depende mais do otimismo espontâneo [...] do nosso entusiasmo – como um intuito espontâneo de agir, em vez de não fazer nada”.
Ademais, conforme argumenta Keynes, o investimento ocorre, pois,
em seu animal spirits: “o empreendedor procura convencer a si
próprio de que a principal força motriz de sua atividade reside nas
afirmações de seu propósito, por mais ingênuas e sinceras que
possam ser” (Keynes, 1964, p. 161-162).
A riqueza social somente será aumentada se o ânimo dos
empresários validarem suas decisões de mobilização de recursos monetários em novos empreendimentos. O empresário, contudo, é
participante de uma unidade orgânica transeunte, o que afeta seu
ânimo e suas decisões. Dessa forma, o produto e o volume de
emprego são dependentes das percepções que o empresário detém
no bojo da trajetória histórica da sociedade. Baseado nesta
construção filosófica sobre a relação homem-sociedade e sobre as
bases motivacionais da ação humana, Keynes provoca uma
revolução teórica na ciência econômica. Para ele, a verdadeira liberdade individual não advém da livre ação do indivíduo no
mercado e da autorregulação econômica que pretensamente emana
disso. Essa concepção, inclusive, pode conduzir a processos de
eliminação das liberdades individuais.
Em um contexto de unidade orgânica, a trajetória social pode
ocorrer de uma forma tal que provoque uma ampla redução dos
elementos concretos que servem de premissas às proposições e
decisões dos agentes no mercado. Sistemas econômicos de pleno laissez-faire estão fortemente inclinados a mudanças inopinadas
nas convenções e, também, no peso dos argumentos dos
empresários. Para Keynes, não se pode saber quais são as
percepções e proposições de todos os indivíduos, ao ponto de o
bem comum ser atingido pelo mercado livre. A plena liberdade
individual só será promovida, mantida e ampliada se existir a
coordenação da ação individual, uma vez que se tenha ciência das
bases precárias das quais emerge a ação humana. Em outros termos,
[...] porém, acima de tudo, o individualismo, se puder ser purgado de seus
defeitos e abusos, é a melhor salvaguarda da liberdade pessoal, no sentido
de que amplia mais do que qualquer outro sistema o campo para o exercício
das escolhas pessoais (Keynes, 1964, p. 380).
A coordenação do sistema econômico não se trata de uma
planificação da economia, pois isso transferiria a própria ação
empresarial aos entes no comando da planificação. Com efeito, a
coordenação se trata de uma ação de política econômica em
sintonia fina com aquilo que for necessário para cooperar com a
iniciativa privada (Keynes, 1964). O Estado é o ente social capaz de
reunir o maior número de informações disponíveis e, sem embargo,
é o mais influente ator social. Cabe-lhe, portanto, coordenar a atividade econômica.
Sobretudo, as proposições de política econômica coordenadoras
da atividade econômica em Keynes não decorrem apenas de sua
visão sobre o homem e da forma pela qual ele se relaciona com a
economia e a sociedade. Decorre da responsabilidade prática que
há de se ter, uma vez que se tenha em mente tal visão de mundo e
que se esteja consciente, portanto, dos principais problemas do
sistema capitalista e dos riscos da instabilidade perene que lhe acometem. Compreender as bases sobre as quais opera o sistema
capitalista é um convite a nele atuar a fim de superar suas mazelas.
Essa é a filosofia da prática em Keynes, ressaltada pelas palavras
de Andrade (2000, p. 86), “[...] por ser uma teoria da ação, e não da
contemplação, a teoria do conhecimento de Keynes é voltada para
as possibilidades de transformar a realidade por meio de mudanças
das crenças e opiniões acerca da realidade”.
3. As políticas monetária e fiscal em
Keynes
Ao produzir ciência econômica, uma das preocupações
fundamentais de Keynes foi compreender e propor medidas para
mitigar crises de insuficiência de demanda efetiva e suas
repercussões em termos de instabilidade cíclica nos níveis de produto e emprego (Ferrari Filho, 2006). Como proposição sumária,
Keynes afirmava que as flutuações no sistema capitalista decorrem
do fato de que “[...] uma economia monetária [...] é essencialmente
uma economia em que mudanças de pontos de vista sobre o futuro são capazes de influenciar o volume de emprego” (Keynes, 1964, p.
4, itálicos adicionados).
A característica essencial de uma economia monetária é que a
moeda não é apenas um meio de troca, mas é um ativo capaz de
resguardar as alterações nas mudanças de pontos de vista sobre o
futuro, pois reserva poder de comando sobre a riqueza social ao
longo do tempo, possuindo liquidez máxima para saldar tanto
transações à vista quanto contratos diferidos no tempo. Nesse sentido, a depender da forma pela qual a preferência pela liquidez
dos empresários for condicionada pelas proposições esperadas
deles sobre o futuro, induzir-se-ão “movimentos de substituição das
formas de riqueza, aumentando ou diminuindo a demanda por ativos
reprodutíveis e, assim, aumentando ou diminuindo a renda gerada
na produção de novos itens” (Carvalho, 1994, p. 47).
Para suavizar o ritmo das mudanças de pontos de vista por parte
dos empresários, e em consonância com a filosofia da prática de que partilhava, Keynes propôs, em sua GT, uma nova filosofia social
para resolver “os principais problemas da sociedade econômica em
que nós vivemos [que] são o desemprego e a arbitrária e desigual
distribuição da renda e da riqueza” (Keynes, 1964, p. 372). Neste
sentido Keynes pretendeu que
[...] o Estado deverá exercer uma influência orientadora sobre a propensão a
consumir, seja através de seu sistema de tributação, seja, em parte, por meio
da fixação da taxa de juros e, em parte, talvez, recorrendo a outras medidas
[...] Eu entendo, portanto, que uma socialização algo ampla dos investimentos
será o único meio de assegurar uma situação aproximada de pleno emprego
(Keynes, 1964, p. 378, itálicos adicionados).
A partir das proposições da filosofia social a que poderia levar à
GT, a requerida orientação estatal propugnada por Keynes
expressava-se por meio daquilo que define, em última instância, o norte econômico de qualquer sistema social: a política. Assim,
Keynes define o problema político, notadamente o econômico, como
carecendo da combinação de
[...] três elementos: eficiência econômica, justiça social e liberdade individual.
O primeiro precisa de crítica, precaução e conhecimento técnico; o segundo,
um espírito não egoísta e entusiasta que ame o homem médio; o terceiro,
tolerância, amplitude, apreciação da variedade e da independência, que
prefere, sobretudo, oferecer oportunidade progressista ao excepcional e ao
aspirante (Keynes apud Minsky, 1986, p. 8).
Nesse sentido, quais políticas econômicas devem ser instituídas
para se mobilizarem os recursos desviados da produção? Para
Keynes, nada mais do que as políticas macroeconômicas
convencionais – monetária e fiscal14 –, uma vez que políticas em
nível microeconômico poderiam gerar distorções, privilégios e
ineficiências. Atuando-se em âmbito mais generalizado, como o
macroeconômico, poderia permitir-se a atuação mais abrangente
possível da iniciativa privada, evitando-se concentrações de
oportunidade e de renda. Quais seriam os papéis das referidas
políticas?
3.1 A política monetária
À política monetária caberia realizar, por meio da administração
da taxa de juros básica da economia, o alinhamento dos preços
relativos dos ativos passíveis de investimento. Para Keynes (1964),
todos os ativos possuem intrinsecamente uma taxa de juros (de retorno). Pela comparação entre as remunerações factíveis de
escolha, os agentes podem destinar seus recursos – caso lhes seja
mais vantajoso em termos de liquidez, custo de carregamento e
quase-renda – a ativos não suscetíveis de reprodução fabril. Isso
ocorrerá principalmente quando os investimentos produtivos
realizados no passado tornarem-se estoques involuntários e
expectativas frustradas.
A taxa de juros básica da Autoridade Monetária (AM) deveria ser
de pleno conhecimento por parte dos agentes econômicos e estar
em um patamar considerado pelos referidos agentes como normal,
dentro de suas convenções, pois como aponta Carvalho (1999, p.
275, itálicos adicionados) “as pessoas formam uma expectativa da
taxa de juros normal e esperam que as taxas atuais gravitem ao seu
redor”. Todavia, como existe um desconhecimento acerca do futuro, a taxa de juros é sempre alvo de tentativas de antecipação por parte
dos agentes econômicos, que a ela se atentam para não incorrerem
em elevados custos de oportunidade de investimento.
Em seu Treatise on Money (CWJMK, V, 1971) Keynes, seguindo a
tradição de Wicksell, segundo a qual há uma taxa de juros natural e
uma taxa de juros de empréstimos (mercado), também define a
existência de duas taxas de juros, a natural e a de mercado. A
primeira é a taxa de juros que mantém a igualdade entre poupança
e investimento e se aproxima da taxa de juros normal, esperada
pelos agentes econômicos. A segunda é formada pelas taxas dos
empréstimos de curto prazo, bank rate, e de longo prazo, bond rate.
Além disso, Keynes pressupõe ainda duas esferas de circulação econômica, a industrial e a financeira. Na primeira esfera de
circulação, transacionam-se ativos de capital, enquanto, na segunda
esfera de circulação, ativos monetários e financeiros são
transacionados. Assim, quando a taxa de juros de mercado for
superior à taxa de juros natural, será mais vantajoso ao investidor
migrar da circulação industrial para a financeira, provocando um
aumento da poupança em relação ao investimento 15. Nessa
situação, a ação do banco central propícia à circulação industrial, ou
seja, ao investimento produtivo, deve ser a busca pela coincidência
entre as taxas natural e de mercado. Portanto, a taxa de juros da
AM torna-se uma premissa, um conhecimento direto, em que os empresários a tomam como referência para decidir em que investir.
Dessa maneira, a qualquer desconfiança de oscilação na taxa de
juros em torno daquilo que se considera normal, haverá
modificações na destinação dos gastos dos investidores
(empresários).
Carvalho (1994) chama a atenção para uma ilustração válida para
a representação de como a política monetária atua na determinação
da composição de portfólio de ativos dos agentes. Segundo o autor,
[...] é neste sentido que se constrói a pirâmide invertida que caracteriza a
visão keynesiana da relação entre a moeda e os demais ativos financeiros
[...] No vértice está a moeda legal, e sobre esse vértice se apóiam os outros
ativos, em camadas sucessivas, definidas cada uma pelos arranjos
institucionais que estabelecem as regras de conversibilidade entre os grupos
[...] e pela relação entre as taxas de retorno obtidas em cada coleção de
ativos.” (Carvalho, 1994, p. 43-44).
É justamente por essa relação estabelecida entre os diversos
ativos e a própria moeda que se concede à política monetária, por
meio da gestão da taxa de juros, alguma capacidade de gerenciar a
demanda efetiva e influenciar variáveis reais da economia. Contudo,
em momentos de desconfiança generalizada, a política monetária
pode pouco contribuir, haja vista a ilustração representada pela
conhecida 16 armadilha da liquidez. Por conta disto, Keynes, apesar
de conceder significativa importância à condução da política
monetária, argumenta que
[...] não é muito correto que eu confira importância primaz à taxa de juros.
Confiro importância primaz à escala de investimento e me interesso na taxa
de juros como um dos elementos para se alcançar isto. Mas, devo considerar
a intervenção estatal como encorajadora de investimento um fator mais
importante. (CWJMK, XXVII, 1980, p. 350).
Pode-se acrescentar, ainda, a seguinte passagem da GT:
Encontrando-se o Estado em situação de exercer influência sobre a eficiência
marginal dos bens de capital a longo prazo e com base nos interesses gerais
da comunidade, espero vê-lo assumir a responsabilidade cada vez maior na
organização direta dos investimentos (Keynes, 1964, p. 164, itálicos
adicionados).
3.2 A política fiscal
A passagem acima leva à análise da política fiscal que, para
Keynes, é a principal forma de intervenção estatal. Ela se ancora
tanto na administração de gastos públicos – algo completamente
diverso de déficit público – quanto na política de tributação e age
diretamente sobre a demanda efetiva da sociedade.
A política de tributação, por um lado, deve viabilizar que a renda
desigualmente distribuída da sociedade possa ser realocada, seja
por tributação da renda, via sobretaxas, seja por impostos sobre a herança. Consoante Keynes (1964, p. 377), “é naturalmente
inegável que uma política fiscal de altos impostos sobre heranças
faz aumentar a propensão da comunidade a consumir”. Por outro, ela fomenta, pela ampliação da capacidade de gasto do Estado, a
expansão da demanda agregada da sociedade.
A administração dos gastos públicos para Keynes centra-se na
constituição de dois orçamentos: o corrente e o de capital. O orçamento corrente diz respeito ao fundo de recursos necessários à
manutenção dos serviços básicos fornecidos pelo Estado à
população sob sua guarda, tais como saúde pública, educação,
infraestrutura urbana e previdência social. Embora Keynes
acreditasse na importância destes gastos correntes, mormente as
transferências da previdência social, como estabilizadores
automáticos dos ciclos econômicos, o orçamento corrente deveria
ser sempre superavitário, no limite equilibrado.
Como ilustração dessa preocupação com o equilíbrio
orçamentário, Keynes (CWJMK, XXVII, 1980, p. 204-205)
argumenta que, no bojo dos debates que se travaram na Inglaterra
sobre o sistema de Seguridade Social que deveria ser construído
após a Segunda Guerra Mundial 17, as pensões a serem pagas
“constituir-se-iam em um severo fardo, ao ser necessário pagar
pensões para as quais não havia fundos acumulados e,
simultaneamente, acumular fundos para pensões futuras”.
A necessidade de inibição de saldos deficitários no orçamento
corrente decorre dos reflexos dos déficits públicos sobre uma
economia monetária de produção, dentre os quais:
i. a criação de dívidas de “peso morto” para as quais nada
lucrativo foi constituído em contrapartida, para equilibrar seu
pagamento futuro;
ii. a pressão sobre a taxa de juros da economia, em função da
demanda por recursos privados pelo setor público para financiar
seus saldos deficitários;
iii. o risco de, a depender do ritmo de crescimento do
endividamento e do perfil deste, em comparação com o
crescimento econômico e com o aumento das receitas públicas,
o Estado ficar refém de criar dívida nova para pagar dívida
velha.
Diante disto, Keynes (CWJMK, XXVII, 1980, p. 278) infere que
“[eu] não devo objetivar alcançar a compensação das flutuações
cíclicas do sistema econômico por meio do orçamento corrente. Eu
devo deixar esta tarefa ao orçamento de capital”.
Para Keynes (CWJMK, XXVII, 1980), a outra parte do orçamento
público, o orçamento de capital, é aquele em que se discriminam as
despesas públicas referentes a investimentos produtivos levados a
cabo pelo Estado para a manutenção da estabilidade no sistema
econômico. Esses investimentos devem ser realizados por órgãos
públicos ou semipúblicos 18, desde que com objetivos claros de
regulação do ciclo econômico por meio da ampliação do grau de
crença racional dos empresários na demanda efetiva futura daquilo
que eles, no presente, decidam empreender.
O orçamento de capital, por ser um indutor de instituições
produtivas, é construtor de seu próprio superávit ao longo do tempo. Para o equilíbrio das finanças públicas, basta que, no curto prazo,
não se incorra em déficit corrente, uma vez que os superávits
demandados no orçamento corrente financiam eventuais déficits no
orçamento de capital. Por outro lado, os retornos dos investimentos
públicos realizados tendem a equilibrar, no longo prazo, o próprio
orçamento de capital. Nas palavras de Keynes (CWJMK, XXVII,
1980, p. 320), que se configuram em outra regra para os
policymakers, os “dispêndios de capital devem, no mínimo parcialmente, se não completamente, pagar a si mesmo”.
Nesse particular, de forma bastante diversa do que o analista
desavisado tem em mente19, a política de gasto público keynesiana tem como cerne o equilíbrio do orçamento em geral, ainda que no
curto prazo isto possa ser alcançado via superávit no orçamento
corrente e déficit no orçamento de capital. Mankiw (1991, p. 5), em
seu artigo “The Reincarnation of Keynesian Economics”, incorre em
erro de interpretação da ideia de Keynes, ao afirmar, sem sequer
dissertar sobre o orçamento bipartite keynesiano, que “o gasto
deficitário é, portanto, bom para a economia”. No mesmo texto,
aponta Mankiw (1991, p. 8) que os policymakers devem ser livres para exercer suas discrições para alterarem as condições
econômicas, e devem evitar a aderência a uma regra política rígida”.
Como visto, nas palavras do próprio Keynes, as políticas
monetária e fiscal devem ser regradas, não somente para que seus
efeitos não sejam adversos em relação aos objetivos da intervenção
estatal, mas principalmente porque a política econômica é uma regra, uma convenção, sobre a qual se apoia o empresário. A regra
de condução da política econômica é o que a viabiliza enquanto
coordenadora da atividade econômica, dando peso ao argumento
dos investidores. Se a atuação da política econômica fosse
casuísta, ela simplesmente não funcionaria como fornecedora de
premissas às proposições dos agentes, mas, pelo contrário, deixá-
los-ia com bases ainda mais precárias sobre as quais decidiriam
como agir, afinal, seria uma política fiscal que mudaria constantemente.
Outra importante regra sobre a operacionalização do orçamento
de capital refere-se ao fato de que os investimentos públicos nele
arrolados não podem ser rivais, mas devem ser complementares
aos investimentos da iniciativa privada (Carvalho, 1999). Ademais,
estes investimentos, normalmente, estão relacionados às inversões
tecnicamente sociais, que são aquelas “decisões que não são feitas
por ninguém se o Estado não as fizer” (Kregel, 1985, p. 37).
Consoante Davidson (1991a, p. 32) “as decisões econômicas são
feitas por homens que enfrentam um incerto e imprevisível futuro
econômico e que se movem de um fixo e irreversível passado”.
Logo, o tempo importa, tanto em seu caráter expectacional quanto
no histórico, como visto. Nesse sentido, sendo o tempo uma variável
central para os indivíduos e para aquilo que eles relevam para
decidir se agir ou não, a verdadeira política fiscal estabilizadora
automática keynesiana não pode ter caráter de instrumento de última instância, ou seja, ela não deve ser posta em prática de forma
casuísta, como último recurso disponível. Segundo Keynes, a tarefa
do “estabilizador automático” é prevenir largas flutuações por
intermédio de um programa estável e perene de investimentos de
longo prazo. Nas palavras de Keynes (CWJMK, XXVII, 1980, p.
322), ser o Estado um “estabilizador automático” implica ele manter
“um programa de longo prazo [de investimentos] que seja capaz de
reduzir a amplitude potencial de flutuação para limites muito mais estreitos.”
Não seria a função de o Estado socorrer um pico ou um vale de
uma trajetória do sistema econômico, mas evitar que picos ou vales
existam. Uma vez estabelecido este programa de longo prazo de
investimentos produtivos, as flutuações que se apresentem no curto prazo são mais facilmente contornáveis por meio da antecipação de
algumas medidas futuras, haja vista o surgimento dos primeiros
sintomas de insuficiência de demanda efetiva, ou pelo postergar de
algum projeto de investimento do orçamento de capital quando se
percebam quaisquer sinais de excesso de demanda agregada.
Neste particular, portanto, as ações de contenção de flutuações
no curto prazo não devem ser restritas a promover fases de
expansão, mas devem ser requisitadas, inclusive, para evitarem-se episódios de excesso de demanda agregada. Como aponta Keynes,
[...] decorre, então, que a maior quantidade de dinheiro, disponível para
gasto, nos bolsos dos consumidores vai se deparar com uma quantidade de
bens que não é aumentada [Assim] [...] o consumidor voltaria para casa com
dinheiro a lhe queimar os bolsos [...] [de forma que] é preciso arranjar alguns
meios de retirar do mercado o poder aquisitivo; senão [...] prevalecerá o
método de inflação (Keynes apud Szmrecsányi, 1978, p. 194).
A forma pela qual Keynes concebe equilíbrio do saldo do
orçamento de capital no longo prazo torna muito mais racional e
viável o orçamento público em sua totalidade, fomentando ao longo
do tempo a construção de superávits e, por conseguinte, de
poupança pública, em ambas as partes do orçamento, o que sinaliza
aos indivíduos maior capacidade de intervenção para o Estado atuar
de forma cíclica. Torna-se, assim, ainda mais distante a incursão em déficits orçamentários que, conforme ratifica Keynes (CWJMK,
XXVII, 1980, p. 352), advirá se “o volume de investimentos
planejados falhar na produção do equilíbrio”. Nessas condições, e
somente nelas,
[...] o equilíbrio [orçamentário] poderá ser encontrado por meio do
desequilíbrio [...] do orçamento corrente. Admitidamente isto deverá ser um
último recurso, que deverá entrar em jogo apenas se a maquinaria do
orçamento de capital se quebrar. (CWJMK, XXVII, 1980, p. 352).
Não obstante, Keynes ainda argumenta que, para não restarem
dúvidas quanto a sua verdadeira intenção ao prescrever regras de funcionamento à política fiscal, “então, decididamente [...] [não se
deve permitir] que se confunda a ideia fundamental do orçamento de
capital com o particular – e um tanto quanto desesperado –
expediente do déficit” (CWJMK, XXVII, 1980, p. 353-354).
O papel fundamental dado ao gasto com o investimento vis-a-vis
o gasto em consumo, em termos da dinâmica da demanda
agregada em uma perspectiva keynesiana, concentra-se, em
especial, sobre três aspectos.
Primeiramente, o estoque acumulado de riqueza na sociedade
depende essencialmente das decisões de investimento dos
empresários. Em segundo lugar, como destaca Carvalho (2008), o
aumento inicial da riqueza, em decorrência da passagem de recursos de um indivíduo para outros no ato de investir, é capaz de
gerar um circuito de gastos e, então, novos aumentos de renda por
meio do efeito multiplicador dos investimentos. A multiplicação dos
investimentos é uma âncora aos empresários uma vez que
conforma peso em seus argumentos, ampliando seus estados de
confiança em suas apostas em receitas futuras que remunerarão
seus gastos efetivados. Por fim,
[...] a questão que surge diz respeito ao porque eu preferiria uma forte escala
de investimento em relação a um crescimento no consumo. Minha principal
razão sobre esse ponto é que eu não acredito que tenhamos alcançado o
ponto de saturação do capital. Será do interesse do padrão de vida no longo
prazo se crescermos largamente nosso capital (CWJMK, XXVII, 1980, p.
350).
Ademais, o investimento deve ser conduzido pela
complementaridade entres as iniciativas privada e pública sendo
que esta última, par excellence, deve funcionar como indutoras da
primeira e, assim, como estabilizadora das flutuações cíclicas do
sistema econômico. Não é demais salientar que as expectativas dos
agentes são o fator desestabilizador do sistema e que, portanto, é
sobre elas que atuará a política econômica keynesiana. Tão claro
deve ser isso, principalmente aos empresários, que Keynes elabora
a noção de orçamento de capital para que o investidor produtivo tenha compromissado consigo a atuação estatal como fornecedora
de um maior grau de crença racional na demanda efetiva do sistema
econômico.
Em um mundo incerto, no qual agentes arriscam sua possibilidade
de comando sobre a riqueza a fim de conseguirem mais deste poder
no futuro, a política econômica deve ser aquilo de mais sólido que a
iniciativa privada tem contato, fomentando suas prospecções sobre o futuro e garantindo uma dinâmica de crescimento da riqueza.
Sobre isto, Minsky (1986, p. 6) denota que
[...] se o mecanismo de mercado tiver que funcionar bem, nós devemos nos
arranjar para constranger a incerteza devida aos ciclos de negócios, para que
as expectativas que guiam os investimentos possam refletir a visão de um
progresso tranquilo.
Como aponta Marcuzzo (2005, p. 2, itálicos adicionados), a teoria
de Keynes é um anúncio, a todo tempo, daquilo que precisa ser
realizado para que “sustente-se o nível de investimento, mas isso
deve ser interpretado mais no sentido de estabilizar a confiança dos
negócios do que um plano para obras públicas financiadas por
lançamento de dívida”. Isso porque
[...] a confiança de [Keynes] na socialização dos investimentos ao invés de
em uma política fiscal objetivando a suavização dos níveis de consumo ao
longo do ciclo de negócios mostra seu interesse sobre o tamanho do déficit;
e, a importância atribuída aos incentivos dados ao mercado para alcançar-se
o nível desejado de emprego (Marcuzzo, 2005, p. 2, itálicos adicionados).
Evidencia-se, enfim, que a política econômica keynesiana, tanto
em sua concepção quanto em sua operacionalização, pretende a
manutenção dos níveis de demanda efetiva, tendo como fim
abrandar o desemprego involuntário, por meio da estabilização do
estado de confiança dos homens de negócio. O resultado que se anseia chegar via políticas econômicas keynesianas é a construção
de uma sociedade com uma trajetória que conte perenemente com
eficiência econômica, justiça social e liberdade individual.
4. Considerações finais
Na GT, Keynes escreveu que “os principais problemas da
sociedade econômica em que nós vivemos são o desemprego e a
arbitrária e desigual distribuição da renda e da riqueza” (1964, p. 372). Tal citação expressa, de certa forma, a ideia central do
capítulo, qual seja, mostrar que a visão de Keynes sobre a dinâmica
operacional de economias monetárias, em uma realidade de
organicismo social e de intervenção do Estado na economia, especificamente por meio de suas proposições de política monetária
e fiscal, visavam, em grande parte, solucionar as crises de demanda
efetiva e, por conseguinte, de desemprego, e distribuir a renda
social entre as diversas classes sociais. Enfim, esse é o conteúdo
filosófico e social da política econômica de Keynes.
Keynes não queria que o capitalismo sucumbisse; muito pelo
contrário, queria reformá-lo e salvá-lo. Para tanto, rejeitando o
capitalismo à la laissez-faire, ele propõe um capitalismo regulado em que as disfunções do mercado fossem suprimidas pela
intervenção do Estado para, por um lado, garantir e sustentar o
pleno emprego e, por outro, atacar o excessivo grau de
concentração de renda e de riqueza.
É a partir da intervenção do Estado na economia, seja por
políticas públicas, seja através de ações de natureza normativa
imprescindíveis para a construção de um ambiente institucional
favorável às tomadas de decisão dos empresários, que Keynes sinaliza a reforma do sistema capitalista. Nesse particular, segundo
O’Donnell (1989, p. 293), Keynes tinha em mente uma reforma do
capitalismo em que “o objetivo final era a construção de uma utopia
não-capitalista, muito mais próxima às sociedades comunistas ou
utópicas de ‘esquerda’ do que às sociedades construídas sob a
égide do capitalismo [liberal]”.
Indo nessa direção, a partir de sua análise sobre a lógica
operacional de economias monetárias, Keynes, ao longo de sua vida, apresentou inúmeras propostas de reformas do capitalismo,
inclusive aquelas relacionadas à reestruturação do sistema
monetário internacional (CWJMK, XXVII, 1980). Em comum a todas
as proposições, a ideia de que o crescimento econômico sustentável
e o desenvolvimento social devem consistir no esforço daqueles que
não cometem os erros dos pessimistas, conforme escreveu Keynes
em “Economic Possibilities for Our Grandchildren” (CWJMK, IX,
1972a, p. 322):
[...]existem os pessimistas revolucionários que pensam que a situação é
muitíssimo ruim e que nada pode solucioná-la a não ser os atos de violência,
e há os pessimistas reacionários que consideram que a nossa situação
econômica e social é tão precária que não vale a pena arriscarmos
mudanças.
Nesse particular, não é demais salientar que nem os erros dos
pessimistas e tampouco o conformismo reacionário se constituíram
em uma alternativa válida para Keynes. Assim, era válido para
Keynes, e por isto sua filosofia da prática posta em ação por suas proposições reformistas e intervencionistas enquanto teórico e
agente público do governo britânico, buscar transformar o
capitalismo de mercado em capitalismo regulado para que se
pudesse construir o tempo em que “o problema econômico não é –
se olharmos para o futuro – o problema permanente da raça
humana” (CWJMK, IX, 1972a, p. 326).
Dessa maneira, para finalizar, conforme Keynes esperava para
“nossos netos”, o objeto de desejo humano não mais seria a riqueza material concentrada nas mãos de poucos, mas desfrutada por toda
a sociedade. Não por menos, Keynes ousou apontar que no longo
prazo
[...] [n]os vejo livres, então, para retornar para alguns dos mais certos
princípios da religião e da virtude tradicional – para os quais a avareza é um
vício, a extorsão pela usura é uma transgressão, e o amor ao dinheiro é
detestável [...] Eu enxergo à frente, para dias não tão remotos, como
resultado, a maior mudança que já ocorreu no ambiente material em que
vivem o conjunto da humanidade [...] [Nestes dias] permanecerá razoável ser
economicamente proativo para os outros uma vez que já cessou ser razoável
[ser proativo] para si (CWJMK, IX, 1972a, p. 330-331).
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