Desenvolvimentismo: o conceito, as bases teóricas e as políticas
Riscos macrofinanceiros, preferência pela liquidez e acumulação real no capitalismo financeirizado
Riscos macrofinanceiros,
preferência pela liquidez e
acumulação real no capitalismo
financeirizado
Marcelo Milan
1. Introdução
O aumento da volatilidade e da instabilidade nos mercados
financeiros se tornou uma característica importante da economia
mundial desde os anos 1970, com preços e fluxos financeiros, em
geral, e taxas de juros e taxas de câmbio, em particular,
experimentando variações substanciais em qualquer lapso de tempo
que se considere. Essas flutuações, assim como as crises que
caracterizam as últimas décadas, refletem uma modificação
significativa na orientação da política financeira nos países capitalistas avançados, com o abandono dos controles
macrofinanceiros e a crescente adoção da liberalização e
desregulamentação financeira, que foi logo em seguida exportada
aos demais países (Cargill, 1997). 1 Ou seja, o neoliberalismo altera
a maneira como a instabilidade econômica em geral e a volatilidade
financeira em particular são tratadas no plano político-institucional.
Subjacente a esta mudança se encontra a rápida transformação dos
mercados financeiros na década de 1960 e início de 1970, com a
introdução de uma série de inovações financeiras que conduziram a
uma explosão de ativos e passivos financeiros. O desdobramento e
a convergência dessas duas tendências desencadearam a mudança estrutural conhecida como “financeirização”. Esse fenômeno pode
ser definido de várias maneiras. Uma definição a concebe como a crescente aquisição, por parte das empresas não financeiras, de
ativos financeiros e subsidiárias financeiras para aumentar receitas
e lucros, implicando uma redução relativa nos negócios tradicionais
de produção e comércio. A financeirização pode alternativamente ser entendida como a crescente importância assumida por
instituições e mercados financeiros na determinação dos ritmos de
acumulação de capital, da produção e distribuição da renda e
riqueza, e na ampliação da instabilidade e geração contínua de
crises (Stockhammer, 2004; Epstein, 2005; Krippner, 2005;
Orhangazi, 2008).
Dentro dessa segunda definição, que será o objeto deste capítulo,
ênfase deve ser dada ao rápido crescimento dos derivativos
financeiros, introduzidos nas décadas de 1970 e 1980. 2 Segundo o
Banco de Compensações Internacionais (BIS), considerando
apenas as transações de balcão, as mesmas atingiram um montante global nocional de cerca de US$ 615 trilhões em
dezembro de 2009, após um pico de US$ 684 trilhões durante o
primeiro semestre de 2008, contra US$ 72 trilhões ao final de 1998.
O valor bruto de mercado – o custo de substituição de todos os
contratos em aberto, e certamente uma medida mais precisa dos
valores transacionados – passou de US$ 2,6 trilhões para US$ 21,6
trilhões no mesmo período, após o pico de US$ 32,4 trilhões em
dezembro de 2008 (BIS, 2010). Essa rápida expansão dos derivativos financeiros sintetiza as transformações acima
mencionadas, que convergem para a formação de um capitalismo
financeirizado. Por um lado, as inovações financeiras e a
reorientação da política financeira, no sentido de maior liberalização
e desregulamentação dos mercados financeiros contribuiu para
modificar os mecanismos de criação de riscos macrofinanceiros,
ampliando a volatilidade. Por outro, essas mudanças levaram à
adoção de uma abordagem privatizante para a gestão desses riscos financeiros amplificados no processo, em que os derivativos
potencialmente ofertam instrumentos para mitigar esses riscos
elevados. Assim, a expansão dos derivativos tem contribuído
enormemente para a crescente importância das instituições e dos
mercados financeiros na atual fase do capitalismo financeirizado,
tanto como fonte de lucros como fonte de perdas que amplificam a instabilidade financeira, como exemplificado pela crise global de
2007.
O objetivo deste capítulo é duplo. Em primeiro lugar, procura-se
entender a financeirização por meio da transformação da formação e do tratamento dos riscos macrofinanceiros. Tenta-se
adicionalmente entender as consequências dessas mudanças para
a acumulação de ativos e para o crescimento econômico. Para
atingir esses objetivos, o estudo compara, em termos históricos, o
regime de regulamentação e controles com a abordagem da gestão
privada dos riscos macrofinanceiros por meio de derivativos
financeiros, e deriva teoricamente possíveis consequências em
termos da composição de ativos das empresas. A acumulação de ativos reais está intrinsecamente relacionada ao crescimento e, à
medida que afeta a distribuição de renda e o meio-ambiente, ao
desenvolvimento. A variável privilegiada para efetuar a comparação
institucional e derivar consequências para a acumulação de capital é
a preferência pela liquidez, o mecanismo padrão de proteção em
uma economia capitalista atormentada pela incerteza fundamental.
A fuga dos ativos ilíquidos reduz a acumulação de capital e o
crescimento. E mesmo uma maior acumulação financeira não conduz necessariamente à acumulação de capital, já que pode
simplesmente ampliar a circulação de fundos na esfera financeira,
reforçando a financeirização.
Ou seja, o trabalho procura entender como as instituições e as
inovações, a regulamentação e os derivativos podem afetar a
liquidez dos diferentes ativos, principalmente por meio de mudanças
nos mecanismos pelos quais as fontes de incerteza, como os riscos
macrofinanceiros, são criados e controlados. Isto é, o desenvolvimento de formas alternativas de contenção da
volatilidade financeira e seus efeitos pode modificar a participação
dos ativos líquidos utilizados como cobertura contra riscos. E a
preferência pela liquidez pode ter sido afetada pelo fim do sistema
de regulamentação e controles e pelo desenvolvimento dos
derivativos para tratar da volatilidade financeira. Um dos argumentos
centrais deste trabalho postula que a rápida expansão dos
derivativos não pode ser assumida a priori como o resultado direto de sua eficácia superior em comparação com outras ferramentas administrativas de controle de riscos, como querem os economistas
ortodoxos. Outras explicações devem ser consideradas na
compreensão do crescimento e das funções desempenhadas pelos
derivativos financeiros no comportamento dos preços e fluxos macrofinanceiros em comparação com a abordagem dos controles
administrativos, sendo a financeirização uma forte candidata.
O capítulo está organizado da seguinte maneira: após esta
introdução, a seção 2 discute a evolução institucional do tratamento
dos riscos macrofinanceiros e o movimento no sentido da
financeirização. Em seguida, a literatura sobre a preferência pela
liquidez em condições de risco ou incerteza é tratada, enfatizando
em particular como diferentes formas de tratar os riscos macrofinanceiros podem afetar a preferência pela liquidez das
empresas.
2. A evolução histórica do tratamento
dos riscos macrofinanceiros
Peter Bernstein (1998) observa que a atividade de assumir riscos
envolve distintos graus de conhecimento sobre os resultados futuros
e sugere que a gestão de riscos se caracteriza pela maximização
das áreas em que existe um maior controle sobre os resultados e
pela minimização daquelas em que não há qualquer controle, por falta de conhecimento das relações de causa e de efeito.
Obviamente, essa ignorância é intrínseca às decisões de
investimento e produção sob o capitalismo, como enfatizado por
Keynes. Poderia ser argumentado adicionalmente que aquelas
áreas de segurança reduzida, ou talvez de ignorância completa, não
são fixas, e as mudanças econômicas e os diferentes arranjos
institucionais podem aumentá-las ou diminuí-las, ou mesmo
transformar as relações econômicas e financeiras de tal forma que torne o conhecimento existente sobre relações específicas entre
causa e efeito irrelevante.
Nesse sentido, Minsky (1979) mostra como posições financeiras
individuais sólidas, isto é, com áreas de controle supostamente maiores, possivelmente consideradas sob controle, podem ser
indicadores enganosos quando os incentivos de lucro e a dinâmica
de todo o sistema financeiro são consideradas. A possibilidade de
mudanças rápidas, que faz com que as posições consideradas menos arriscadas se tornem mais frágeis e desestabilizadoras,
sugere que os comportamentos inicialmente compatíveis com a
maximização do conhecimento e minimização da incerteza são
igualmente propícios a resultados inesperados e comportamentos
desestabilizadores e que estes reduzem o nível de controle sobre os
resultados quando a crise eclode. Ou seja, balanços patrimoniais
interligados podem levar a uma cadeia de eventos em que posições
financeiras individuais levam à fragilidade financeira sistêmica, aumentando as áreas opacas anteriormente assumidas como
estando sob algum controle ao nível da empresa. Isto é, não há
coerência micro e macroeconômica no capitalismo realmente
existente. Da mesma forma, poder-se-ia assumir que uma maior
volatilidade financeira tende a intensificar a incerteza e aumentar as
áreas incontroláveis, uma vez que o grau de imprevisibilidade sobre
futuros parâmetros financeiros e projeções de fluxo de caixa é
ampliado nessa situação.
Dado que a incerteza fundamental causada por flutuações
imprevisíveis nos preços e quantidades e pela variação
correspondente nas rendas, é inerente ao capitalismo, o objetivo de
qualquer mecanismo econômico ou político de gestão de riscos
financeiros é justamente evitar a volatilidade ou atenuar os seus
efeitos, aumentando o grau de controle sobre os resultados. A
experiência financeira recente do capitalismo global aponta para a
existência de distintos mecanismos, instituições e arranjos político-econômicos de gestão de riscos macrofinanceiros. Esses
mecanismos podem transformar parte da incerteza global, intrínseca
em processos descentralizados sem coordenação a priori, típicos de
uma economia capitalista desregulada, em alguma forma de risco
controlável. Podem também, é claro, exacerbá-la. Assim, a eficácia
de cada mecanismo institucional pode ser avaliada em termos de
sua capacidade de mitigar os riscos macrofinanceiros ou, pelo
menos, os efeitos negativos desses riscos sobre as decisões econômicas e financeiras. Mas essa avaliação exige um entendimento prévio de como esses diferentes mecanismos
conseguiram ou não controlar os riscos macrofinanceiros.
A introdução dos derivativos financeiros nos EUA, em 1972,
representou um divisor de águas na história dos mercados financeiros. Esses instrumentos representam um elemento
fundamental na transição de um regime de regulação e controle
financeiros para um regime em que o gerenciamento dos riscos,
criados livremente, é privatizado. Nesse caso, os riscos financeiros
são assumidos como dados, e então precificados e negociados no
mercado de derivativos. Por outro lado, até o momento em que
Richard Nixon decidiu cancelar a convertibilidade do dólar em ouro,
em 1971, e posteriormente quando as inovações financeiras que reduziam a eficácia dos controles foram consolidadas pelas
reformas bancárias e financeiras de Reagan, Bush e Clinton. nos
anos 1980 e 1990, dois dos mais importantes riscos
macrofinanceiros, as taxas de juros e de câmbio,3 eram geridas
através de uma variedade de mecanismos administrativos por meio
de coordenação internacional e de controles e regulamentações
nacionais, discutidos a seguir.
2.1 Os controles internacionais e domésticos da
volatilidade financeira
Apesar de ser um arranjo multifacetado que compreende diversas
características institucionais, o acordo de Bretton Woods teve duas
características particularmente importantes para o controle dos
riscos macrofinanceiros. O sistema foi ancorado em um sistema de
taxas fixas mas ajustáveis de câmbio e em controles dos fluxos de
capitais. Tais medidas impuseram limites ao papel dos mercados financeiros na determinação exclusiva do preço das divisas
internacionais e, por conseguinte, na criação de volatilidade. Apesar
de os EUA não adotarem tais controles até 1963, com a introdução
do imposto para a equalização das taxas de juros (Neely, 1999), o
governo estadunidense apoiou a adoção de tais controles por outros
países, reforçando a sua eficácia no combate aos ajustes,
potencialmente desestabilizadores, de carteira entre os países (Helleiner, 1994). É importante notar que essas duas características
se complementavam com as taxas nominais fixas de câmbio
impedindo uma volatilidade excessiva nos preços, e com os
controles evitando o papel potencialmente desestabilizador dos fluxos livres de capitais internacionais.
Assim, em vez de completa liberdade de compra e venda de
moeda estrangeira, as taxas de câmbio foram determinadas por
arranjos políticos e de negociação cooperativa, com as instituições
de governança estatal se sobrepondo às instituições e aos
mercados financeiros. Apesar de possíveis divergências políticas
sobre o fato de as paridades terem sido determinadas de forma ad
hoc, a fixação do câmbio não se deu de forma mais errática do que preços determinados por mercados financeiros caracterizados por
excessos especulativos desestabilizadores. E o sistema de taxas
fixas mas ajustáveis reduziu de forma quase absoluta a volatilidade
cambial nominal, possivelmente contribuindo para taxas elevadas de
crescimento econômico, já que os preços domésticos mais estáveis
contribuíram para não exacerbar a volatilidade real.
Essas duas características de Bretton Woods constituem o
primeiro componente de um regime de controles administrativos. Ao nível doméstico, isolada dos fluxos potencialmente
desestabilizadores de capitais internacionais de curto prazo, a
política monetária poderia se voltar a promover o pleno emprego
através de taxas de juros reduzidas, e algumas políticas nacionais
também tinham como meta manter as taxas de juros estáveis, além
de controles quantitativos sobre a intermediação financeira. Dessa
forma, duas características do quadro regulatório estadunidense
podem ser pensadas como estando em conformidade com um segundo componente do conjunto de medidas de regulamentação e
controles financeiros. Nos EUA aregulamentação Q impôs controles
sobre as taxas que os bancos poderiam pagar aos depósitos à vista
e a prazo (Russell, 2008; Hubbard, 1999). Tais medidas impuseram
limites superiores à flutuação das taxas nominais de juros, que
acabaram por inibir grandes flutuações nas demais taxas de juros e
no preço dos títulos emitidos por empresas e governos.
Ao mesmo tempo, a regulamentação Glass-Steagall, ao separar
os bancos comerciais dos bancos de investimento, criou as condições necessárias para reduzir flutuações excessivas das taxas
de juros. Isso foi feito por meio da influência da política monetária
sobre o fluxo dos recursos intermediados pelos bancos comerciais,
com o objetivo explícito de impedir a utilização especulativa de parte
considerável da oferta de moeda doméstica (Russell, 2008). 4 Como
uma parcela considerável dos fundos de curto prazo é intermediada
através do sistema bancário comercial, o controle das reservas dos bancos por meio de operações de mercado aberto criou um
importante mecanismo de administração da direção dos fluxos de
fundos, além de estabilizar as taxas de juros de curto prazo.
Portanto, assim como os controles de capitais desempenharam um
papel importante na manutenção das paridades cambiais, a
segregação dos bancos forneceu ferramentas complementares para
o Estado controlar os riscos macrofinanceiros. Além disso, os
mercados de crédito e de câmbio estão conectados por diversos canais, e as medidas reforçaram a estabilidade financeira sistêmica.
Assim, tanto a coordenação internacional dos controles de capital
e das paridades cambiais quanto à regulamentação financeira
doméstica e os controles das taxas de juros e fluxos de fundos
podem ser pensados como componentes de um mecanismo
administrativo de gestão dos riscos macrofinanceiros. Cargill (1997)
resume de forma precisa o papel dos controles administrativos e a
rejeição de uma abordagem liberal aos riscos financeiros nos Estados Unidos. Segundo o autor, os mercados financeiros eram
considerados intrinsecamente instáveis, e para controlá-los foram
adotados o câmbio fixo, restrições ao ajuste das carteiras de ativos
financeiros e limites às taxas domésticas de juros.
Uma rápida avaliação desse regime sugere que, por cerca de um
quarto de século, os controles foram bem sucedidos em reduzir a
volatilidade causada por grandes fluxos financeiros
desestabilizadores e em amortecer a volatilidade excessiva nos preços financeiros. Se a interpretação é correta, pode-se afirmar
que esse regime regulatório se constituiu em um ingrediente integral
na formação de uma Idade de Ouro do capitalismo, permitindo
mesmo a industrialização de alguns países periféricos. As sinergias
existentes entre a regulação financeira e as políticas econômicas
internas voltadas ao pleno emprego e ao controle cíclico do produto não podem ser subestimadas. Minsky (1975) observa que a teoria
keynesiana das flutuações no investimento associadas à
instabilidade da demanda é, em primeiro lugar, uma teoria
financeira, sugerindo que os controles financeiros, à medida que são efetivos, podem ter importantes consequências
macroeconômicas. E a dimensão central dos riscos
macrofinanceiros no controle das diversas fontes de incerteza deste
programa de estabilização se torna mais clara quando se percebe
que um dos principais componentes, senão o principal, da
contrarrevolução neoliberal foram justamente os controles
financeiros.
Crotty (2005) argumenta que, sob o neoliberalismo, a
desregulamentação e liberalização dos mercados financeiros, e
poder-se-ia acrescentar a deliberada falta de coordenação e
articulação entre as políticas embutidas na doutrina do livre
cambismo, contribuíram enormemente para agravar todas as formas
diferentes de incerteza e riscos característicos da competição
destrutiva. O ex-presidente da Reserva Federal Allan Greenspan
reconhece, seguindo Keynes, que o futuro é imprevisível, e que os
banqueiros centrais precisam decidir entre regulamentar os mercados e assim sufocar a inovação e o crescimento, ou liberalizá-
los e desregulamentá-los e suportar as crises que se seguem, mas
que não reduzem o crescimento de longo prazo (IP, 2008). Minsky
(1979, p. 36. Tradução do autor) afirma que “todos os capitalismos
são instáveis, mas alguns capitalismos são mais instáveis do que os
outros”. A história financeira recente sugere que o capitalismo
desregulado é mais instável do que o capitalismo regulado,
principalmente o capitalismo regulado que controla de forma estrita os mercados financeiros, apesar dos desafios apresentados pela
“dialética regulatória”. 5 As diferenças entre os dois tipos de
capitalismo sugeridas por Greenspan e Minsky não podem ser subestimadas, e a crise financeira de 2007 deixou claro que a
concepção de Greenspan estava equivocada, levando-o a rejeitar
sua fé no livre-mercado (Andrews, 2008).
2.2 O aumento da volatilidade e os derivativos
financeiros
O fim do regime de regulação financeira provocou um aumento
substancial na volatilidade. Com elevados riscos financeiros, um
novo mecanismo foi necessário para isolar as decisões financeiras
das novas condições de mercado, e os derivativos financeiros podem ter sido criados como uma resposta a essa necessidade. Se
essa hipótese é aceita, então fica evidente a importância de se
criarem condições para evitar a volatilidade excessiva, quer no nível
da política, quer no nível privado. Isto é, o rápido crescimento dos
derivativos poderia sugerir que a volatilidade é indesejável e deve
ser tratada, de alguma forma, na ausência de regras e controles.
O surgimento dos derivativos financeiros é relativamente
incontroverso. De acordo com Swan (2000), os derivativos são tão antigos quanto o dinheiro. Há registros de transações envolvendo
contratos futuros de commodities que ocorreram cerca de 4.000
anos na Mesopotâmia. Desde então, as operações evoluíram de
transações dispersas para negociações em mercados cada vez
mais organizados, com instrumentos sofisticados. No entanto, na
maior parte do tempo, as operações primárias envolviam apenas
commodities. Nos Estados Unidos, o Conselho de Comércio de
Chicago (CBOT) foi criado em 1848, e a Bolsa Mercantil de Chicago (CME), em 1874, voltados para o comércio de contratos futuros de
alguns produtos agrícolas específicos (Hull, 1995). Os derivativos
financeiros assumiram um papel fundamental apenas durante a
década de 1970, superando, desde então, os derivativos de
commodities tradicionais. O Mercado Monetário Internacional (IMM)
foi formado em 1972, como uma divisão da CME, para negociar
contratos futuros em moeda estrangeira. O Conselho da Bolsa de
Opções de Chicago (CBOE) foi criado em 1973, como uma divisão do CBOT. Títulos lastreados em hipotecas emitidos pela Ginnie
Mae, que oferece seguro contra inadimplência para empréstimos
imobiliários, foram introduzidos pelo CBOT, em 1975. O primeiro
contrato de swap negociado em bolsa foi emitido em 1981. O
primeiro contrato futuro do índice de ações Standard & Poor 500 foi negociado em 1982 (Hull, 1995; Bryan; Rafferty, 2006; Steinherr,
2000).
No mecanismo privatizado de gestão de riscos financeiros tendo
por base os derivativos, empresas expostas a riscos financeiros, ou dispostas a especular, podem comprar proteção entrando em um
contrato com uma outra parte disposta a assumir esses riscos. As
transações financeiras privadas determinam os preços e os fluxos
financeiros relevantes, e os derivativos financeiros surgem como
forma de tratar a volatilidade resultante. Os derivativos financeiros
protegem potencialmente contra os riscos ao fixar os parâmetros
financeiros futuros ou substituir variáveis flutuantes por fixas em
acordos de swaps, compensando os riscos correspondentes de flutuação no preço da variável subjacente ou nos pagamentos de
juros. Esses instrumentos podem ser negociados através de
acordos bilaterais, em mercados desregulamentados de balcão,
com produtos personalizados, ou em bolsas organizadas, com
contratos padronizados e de liquidação fornecidos através de
câmaras de compensação, sendo os mercados de balcão os mais
importantes em termos de volume e número de contratos
negociados.
Em um contexto de volatilidade financeira criada pelo próprio
funcionamento dos mercados desregulados, o preço do instrumento
primário varia imprevisivelmente ao longo do tempo, e os ganhos ou
perdas são conhecidos apenas no vencimento ou quando as
posições são fechadas, criando riscos. Esses riscos no nível da
empresa podem ser eliminados pelos derivativos, cujos preços
flutuam sempre na direção contrária quando empregados para
proteção, compensando uma perda em termos de ampliação dos compromissos financeiros existentes com um ganho de igual
magnitude. Ou seja, com derivativos, os riscos são separados da
variável primária e colocados à venda para agentes dispostos a
absorver esses riscos ou ainda passá-los a terceiros através do
sistema financeiro. Assim, os riscos são cobertos pela sua
transferência para um portador diferente, mas não são eliminados.
Nessas transações, não há transferência de propriedade ou mesmo
a entrega do subjacente, com exceção de alguns mercados de forwards envolvendo câmbio, e os contratos são liquidados em
dinheiro.
Uma possível interpretação para o surgimento dos derivativos
está no aumento da volatilidade. Erik Banks (1994) destaca as perdas potenciais associadas às flutuações nos preços
macrofinanceiros para justificar a existência de mecanismos de
gerenciamento de riscos como os derivativos financeiros. Assim, os
movimentos nos preços financeiros que regem muitas transações
produzem riscos de perdas e sem essa volatilidade, não haveria
necessidade de produtos derivativos. Merton Miller (1997), que trata
risco e incerteza de forma indistinta, enfatiza da mesma forma que
uma maior incerteza causada pela volatilidade cambial levou as instituições financeiras a inovar, introduzindo instrumentos
financeiros derivativos para negociar moedas estrangeiras na Bolsa
Mercantil de Chicago após o fim do sistema de Bretton Woods, bem
como outros instrumentos, à medida que a volatilidade contagiou as
taxas de juros. Banks (1993) igualmente destaca as conexões entre
as taxas de câmbio à vista e futuras, e os diferenciais internacionais
das taxas de juros, mostrando como a volatilidade ampliada em um
mercado, após Bretton Woods, contagia o outro. Cargill (1997) argumenta no mesmo sentido, mostrando que o início das reformas
financeiras com base na desregulamentação e liberalização
coincidiu com o fim do sistema de Bretton Woods. Como os
governos já não eram capazes de isolar os preços macrofinanceiros
das ações das instituições financeiras, os mercados de câmbio e de
crédito tornaram-se cada vez mais interligados, e as restrições de
preços não poderiam ser sustentadas em apenas um conjunto de
mercados, com o consequente abandono da regulação representando uma grande mudança na orientação política. Mas,
como será discutida adiante, essa interpretação pode não ser
totalmente correta.
2.3 Uma avaliação: do regime de regulamentação
e controles à gestão privatizada dos riscos
macrofinanceiros
O rápido crescimento dos derivativos que se seguiu ao fim do
regime de regulamentação e controles, assim como o grande
número de tentativas governamentais de implementar mecanismos
de estabilização cambial desde então, atestam a necessidade de gerenciar riscos financeiros e para os perigos de se aumentar a
volatilidade financeira sem proteção. A mudança de orientação
política na forma de tratar a volatilidade nas taxas de juros foi
resumida por Albert Wojnilower (1980), que enfatiza o papel da
Regulamentação Q na estabilização das taxas de juros até os anos
1960 e o abandono de qualquer tentativa de conter a volatilidade na
taxa de juros por meio de intervenções no mercado de títulos a partir
dos anos 1970. Ou seja, o governo abriu mão da responsabilidade pelo fornecimento de preços e fluxos financeiros estáveis no
mercado de crédito e de títulos. Richard Marston (1993) aponta as
diferenças fundamentais entre as duas abordagens em termos das
taxas de câmbio. Segundo ele, a experiência com o câmbio flexível
trouxe um sentimento de nostalgia do período de taxas fixas com
níveis reduzidos de risco. A volatilidade que se seguiu produziu uma
situação em que posições a descoberto poderiam gerar ganhos ou
perdas substanciais quando comparadas ao regime de Bretton Woods. Alfred Steinherr (2000) enfatiza a conexão entre o
surgimento de derivativos financeiros e o fim da arquitetura
financeira internacional erguida em torno de Bretton Woods, mas em
um contexto mais amplo de inovações, como, por exemplo, o
desenvolvimento do mercado de eurodólares.6
Parece equivocado assumir, como o fazem John Eatwell e Lance
Taylor (2000) e Edward LiPuma e Lee Benjamin (2004), que os
riscos foram privatizados durante essa transição. A ascensão
histórica da gestão de riscos financeiros com base em contratos
derivativos privados está associada ao fim do regime de regulação e
controle de riscos, e não particularmente a um regime de socialização das perdas associadas a estes riscos, que é um traço
característico do capitalismo. Os riscos de perdas são e sempre
foram um encargo privado sob um sistema descentralizado de
busca ao lucro, em que os preços voláteis constituem um importante
parâmetro nos processos privados de tomada de decisão. No
âmbito do quadro institucional neoliberal, apenas os mecanismos para lidar com elevados riscos financeiros foram privatizados. No
período anterior, o Estado não assumia o risco de flutuações da taxa
de juro ou de câmbio, como se houvesse alguma forma de
monopólio estatal sobre o crédito interno e as divisas internacionais, ou uma socialização de perdas financeiras que a exposição ao risco
do gerou para o governo. O Estado simplesmente regulava e
controlava fluxos financeiros de forma de prevenir os mercados
financeiros de criarem uma volatilidade excessiva aos participantes,
considerando-se os potenciais benefícios macroeconômicos desses
controles administrativos.
De qualquer forma, as diferenças de abordagem são profundas. A
regulamentação reduz ou elimina a fonte primária dos riscos, isto é, a liberdade irrestrita de contratação nos mercados financeiros. A
política é efetivada ao não permitir ajustes instantâneos nas
carteiras de investimentos e ao controlar os fluxos potencialmente
desestabilizadores de fundos, usando tanto controles de preço
quanto de quantidade. Com a privatização da gestão dos riscos, os
mesmos não são reduzidos ou eliminados, o que terminaria por
extinguir o mercado em que os derivativos são negociados, mas
apenas compensados por meio de redistribuição para um número potencialmente maior de carteiras e entidades, diluindo, em tese, o
processo de exposição aos riscos. Pode-se argumentar que o
objetivo da regulação financeira é criar um ambiente mais estável no
agregado que se reflete ao nível da empresa, enquanto os
derivativos financeiros potencialmente executam esta função
exclusivamente em nível individual, mas sem qualquer coerência ex
ante com os impactos decorrentes sobre os agregados econômicos,
na forma de crises financeiras, por exemplo.
Isto sugere que a regulação financeira eficaz, à medida que
impede, ex ante, movimentos de substância nos preços
macrofinanceiros, pode tornar os riscos de mercado insignificantes,
evitando assim a necessidade de acordos privados para tratá-los ex
post. Com a reversão das medidas regulatórias, os derivativos
financeiros se impuseram como a forma de tratamento dos riscos
financeiros. Mas é importante ressaltar que, na medida em que os
derivativos podem fornecer técnicas potencialmente eficazes de cobertura de riscos financeiros, eles o fazem para riscos que não são tão difundidos antes, no caso do regime de regulação de risco
financeiro, ou que podem ser fortemente diminuídos por um
conjunto diferente de instituições que visam minimizar a volatilidade
em primeiro lugar. Ou seja, os derivativos são redundantes como mecanismo de gestão de riscos. Ainda, no caso dos derivativos, os
riscos podem ser agravados pela própria especulação propiciada
pelos derivativos. E essa especulação parece ser um dos mais
importantes determinantes da financeirização que se seguiu à
desregumentação e à liberalização.
2.4 Volatilidade macrofinanceira e financeirização
A identificação do regime de regulamentação do período pós-
Segunda Guerra com a Idade Dourada do capitalismo, possibilitada
pela estabilidade macrofinanceira, levanta dúvidas sobre as razões
para a superação daquele regime pelo neoliberalismo, caracterizado
por maior instabilidade, menor crescimento e piora na distribuição
de renda e riqueza. Ellen Russell (2008) explica o fim do que ela chama de “capitalismo de Estado do Bem-Estar keynesiano” como o
resultado de uma reação por parte das instituições financeiras
contra as normas impostas pelos governos para baratear o crédito e
facilitar a expansão industrial e comercial, impondo barreiras para
uma rápida expansão de lucros financeiros como proporção da
renda nacional. A reação ocorreu por meio de inovações financeiras
para evitar a regulamentação e os controles. Segundo a autora,
essas mudanças seriam captadas pela dialética regulatória já discutida. Portanto, de acordo com Russell, um conflito distributivo
significativo entre diferentes frações do capital poderia estar no
centro dessa transição, com instituições financeiras
progressivamente introduzindo inovações como uma forma de evitar
as regulamentações existentes e auferir lucros maiores. O resultado
foi o progressivo desmonte das regulamentações e controles e uma
forte expansão dos lucros financeiros, incluindo atividades
especulativas que necessitam de volatilidade para se efetivar.
Resta a questão de saber se essa redistribuição crescente de
renda e riqueza em favor do setor financeiro provocada pelas inovações financeiras, pela volatilidade elevada e pela
desregulamentação e liberalização poderia ser associada a um
aumento da eficiência financeira e à consequente melhora no
desempenho econômico. A teoria econômica convencional prevê que a privatização em geral, e a da gestão de risco em particular,
produz ganhos de bem-estar como resultado da utilização de
mecanismos descentralizados de mercado. Frank Knight, por
exemplo, postula que:
Mais especificamente, a maioria dos projetos de melhoria social envolvem a
substituição de alguma forma, social ou política, mais consciente de controle
para a propriedade privada e a liberdade individual de contrato. (Knight,
([1921] 1971, p. IX. Tradução do autor)
Nesse sentido, a explosão no volume e o valor das operações
com derivativos envolvendo variáveis financeiras, que excede em
muito o crescimento do setor real, poderia sugerir que a exposição
ao riscos financeiros ampliados de fato aumentou a um ritmo elevado desde o colapso de Bretton Woods (Steinherr, 2000). Nesta
perspectiva, esses instrumentos proporcionariam mecanismos de
gestão de risco importantes em um contexto de aumento nas
flutuações nos preços financeiros após o fim das restrições artificiais
impostas pelos governos, agregando valor para os usuários finais
(Scholes, 1998; Miller, 1997). Outros autores argumentam que em
um contexto de mercados imperfeitos, os riscos financeiros afetam
as finanças corporativas e as decisões de investimento, invalidando a proposição de Modigliani-Miller de que a composição das
obrigações não é importante, e reforçando o papel dos derivativos
na gestão privada dos riscos (Smith et al., 1989; Froot et al., 1994).
Ou seja, as abordagens convencionais enfatizam o
desenvolvimento dos derivativos financeiros como a resolução de
um problema real, em que a necessidade de proteção seria
satisfeita pelos derivativos criados pelas instituições financeiras. No
entanto, é necessário perguntar se essa transformação da gestão de risco tem sido eficaz na redução da volatilidade ou em minimizar
as suas consequências, contribuindo, por exemplo, para uma
expansão das atividades produtivas, como argumentado por
Scholes (1998), que poderia estar associada a ganhos
inquestionáveis ou “melhoria social”, e assim justificar a crescente apropriação de renda e riqueza pelo setor financeiro. Miller (1997)
inadvertidamente sugere que os derivativos financeiros,
principalmente opções de ações negociadas nas bolsas de Chicago,
estariam associados ao declínio dos derivativos nos mercados agrícolas tradicionais e à necessidade de diversificação da carteira
no setor financeiro. Assim, o desenvolvimento dos derivativos
também pode ser interpretado como um processo refletindo as
exigências de maior lucratividade financeiras que caracterizam o
processo de financeirização.
Especificamente, os mercados de derivativos de commodities
agrícolas estagnados, somados à ampliação da volatilidade
macrofinanceira, poderiam ter levado ao processo de diversificação e inovação financeira que culminou com a criação dos derivativos
financeiros. Este é essencialmente um processo dirigido pelo lucro
financeiro, independentemente da proteção que pudesse existir para
alguns usuários finais e no qual a volatilidade é essencial para
aumentar os lucros por meio de atividades especulativas,
principalmente pela alavancagem proporcionada pelos derivativos.
O progressivo desmonte do regime regulatório e a expansão dos
instrumentos derivativos para variáveis financeiras não refletiria, assim, um aumento na eficiência no gerenciamento dos riscos, mas
uma forma nova de se lucrar com estes mesmos riscos.7 Não
obstante o fato de que inovações são sempre motivadas pela busca de lucro pelas instituições financeiras, como sugerido por Minsky
(1982), e que há sempre alguma necessidade a ser atendida, os
derivativos financeiros podem ser um produto que reforça este
movimento de financeirização. Existiria assim uma tendência à
preponderância da especulação, ou o que Keynes (1930) e
Davidson (1972) chamam de circulação financeira, sobre as
atividades produtivas ou de circulação industrial, ou, em termos
marxistas, a predominância do circuito do capital-dinheiro, predominantemente fictício, dada por M M’, sobre a circulação de
mercadorias e capital presente no circuito do capital industrial M C
M’ (Marx, 1976).8
Mais importante, a evidência empírica apresentada por Orhangazi
(2008) e Stockhammer (2004, sugere uma relação negativa entre
financeirização, acumulação de capital e crescimento econômico. Portanto, é questionável se a maior liberdade de movimento de
fundos financeiros, de livre flutuação dos preços e de expansão dos
derivativos representa efetivamente uma melhora na eficiência
econômica e na gestão dos riscos macrofinanceiros. Nesse caso, o crescimento dos derivativos poderia refletir apenas a existência de
inovações que visam a aumentar a parcela dos lucros financeiros na
renda nacional, ou seja, da financeirização. Por outro lado, ao
mesmo tempo em que a financeirização reduz a acumulação real,
ela amplia a circulação de fundos especulativos na esfera financeira.
Por sua vez, a natureza da especulação exige um aumento da
flexibilidade na mobilidade de fundos, o que amplia a velocidade de
compra e venda. Ou seja, financeirização e especulação exigem ampliação da liquidez. Da mesma forma, risco e incerteza
aumentam a preferência pela liquidez como mecanismo de proteção
e reduzem a acumulação. Ambas as mudanças atuam em conjunto
no sentido de elevar a preferência pela liquidez. A próxima seção
discute especificamente os mecanismos pelos quais esse
movimento risco-liquidez-especulação opera.
3. Preferência pela liquidez como um
comportamento relacionado ao risco,
inclusive macrofinanceiro, e à
incerteza
À medida que o rápido crescimento dos instrumentos derivativos
reflete uma mudança na natureza da criação e gestão dos riscos
macrofinanceiros em mercados desregulamentados, ele aponta para
uma possível modificação nos efeitos que a exposição ao risco tem
sobre a composição dos ativos das empresas. Essa expansão
também reformula as condições financeiras em que essas decisões
de composição são tomadas, estabelecendo novas ligações entre o
presente e o futuro. Isso sugere que o crescimento dos derivativos
pode ter afetado a decisão das empresas não financeiras em acumular ativos líquidos como um mecanismo de proteção contra os riscos, reduzindo a quantidade de ativos líquidos e permitindo que
empresas assumam projetos mais arriscados de investimento. Isso
porque, em tese, as empresas com maiores oportunidades de
cobertura contra riscos financeiros devem ser capazes, ceteris paribus, de financiar ativos com valor presente líquido positivo (Froot
et al., 1993; Smith et al., 1989). Esses investimentos não seriam
possíveis sem esse conjunto ampliado de oportunidades, o que
reduz a preferência pela liquidez, aumenta a acumulação de capital,
o crescimento econômico e, potencialmente, o desenvolvimento no
caso das economias em desenvolvimento.9
Embora os riscos macrofinanceiros não sejam necessariamente
os únicos determinantes da preferência pela liquidez, ao isolá-los
das condições macrofinanceiras mais gerais e enfatizar seus efeitos
sobre a composição de ativos das empresas, pode-se avaliar a
eficácia dos derivativos financeiros no tratamento da exposição ao risco no processo de financiamento da acumulação de ativos. Dessa
forma, os derivativos financeiros podem afetar a composição de
ativos de empresas, contribuindo para a acumulação de capital e
mitigando a necessidade de retenção de ativos líquidos como um
comportamento em relação ao risco. Mas à medida que os
derivativos são componentes do processo de financeirização, eles
não reduzem a acumulação adicional de ativos líquidos em um
mundo de volatilidade ampliada, e permitem maior especulação ao mesmo tempo em que cai o ritmo de acumulação de capital. A
relação entre preferência pela liquidez e riscos financeiros pode
igualmente ser estendida à regulação dos mercados financeiros.
Assim, uma regulamentação eficaz deve ser consistente com níveis
reduzidos ou em declínio de preferência pela liquidez, posto que
mecanismos adequados de proteção minimizam a necessidade de
manter um montante excessivo de ativos líquidos como forma de
seguro. Ou seja, os controles administrativos poderiam reduzir os riscos macrofinanceiros e permitir um ambiente mais estável para o
planejamento dos compromissos financeiros, aliviando os montantes
precaucionários de dinheiro e induzindo mais investimentos.
Isso sugere que a criação e o tratamento dos riscos financeiros
podem ter importantes implicações macroeconômicas, o que
justifica uma tentativa de fornecer uma melhor compreensão sobre a relação entre os mecanismos para tratar a volatilidade financeira e
os padrões de preferência pela liquidez refletidos na composição de
ativos. A preferência pela liquidez é especialmente relevante para o
problema da canalização de fundos potencialmente disponíveis para a expansão e plena utilização da capacidade produtiva da
sociedade, contribuindo para o crescimento (Davidson, 1972). Como
a preferência pela liquidez representa uma decisão voluntária de
não expandir o capital físico ou a produção e a renda, pode ser uma
medida relevante da eficácia dos diferentes mecanismos de gestão
de riscos macrofinanceiros.
3.1 Volatilidade, incerteza e preferência pela
liquidez
Keynes argumenta, na Teoria Geral, que a preferência pela
liquidez é um importante indicador do comportamento econômico
em relação à incerteza. Com relação especificamente à decisão de
manter ativos líquidos, há controvérsias sobre o significado da preferência pela liquidez ou sobre o que constitui um ativo líquido.
Alguns autores veem a preferência pela liquidez como um conceito
equivalente à procura por moeda, enquanto outros enfatizam a
demanda por segurança que encontra em ativos líquidos em geral, e
no dinheiro em particular, uma forma de seguro ou proteção. Chang
(1983), por exemplo, definem a preferência pela liquidez como uma
demanda por títulos de curto prazo sobre outros valores mobiliários
em uma carteira. Lippman e McCall (1986) utilizam um modelo neoclássico de procura por emprego para definir a liquidez como
uma característica de qualquer ativo vendido sob uma política de
venda ótima, que minimiza o tempo necessário para transformar o
ativo em dinheiro. Keynes (1964) considera a preferência pela
liquidez em termos da composição de carteira ou riqueza entre
ativos líquidos e ilíquidos, empregando uma definição elástica de
dinheiro, que engloba títulos de diferentes maturações. Da mesma
forma, Tobin (1958), com o objetivo de fornecer microfundamentos neoclássicos para a preferência pela liquidez como um
comportamento em relação ao risco, mede-a como a proporção de moeda sobre a proporção de obrigações perpétuas em uma carteira
constituída exclusivamente de ativos financeiros.
Mais importante no que diz respeito à relação entre preferência
pela liquidez e volatilidade financeira, Keynes enfatiza a correlação entre a incerteza sobre as taxas futuras de juros e a preferência pela
liquidez “[...] a incerteza quanto à evolução futura da taxa de juros é
a única explicação inteligível do tipo de preferência pela liquidez L2,
que leva à retenção de dinheiro M2” (1964, p. 201, itálico no original,
tradução do autor). Minsky (1979) especifica, com base em sua
análise das diferentes estruturas de endividamento e compromissos
financeiros, como as posições especulativas e do tipo Ponzi são
mais suscetíveis de serem afetadas pela possibilidade de reversão do valor presente, tornando-o negativo quando as taxas de juros
sobem. Para as unidades mantendo essas posições, moeda e
títulos do mercado monetário são empregados como um seguro
contra falhas de refinanciamento quando as taxas de juros são
voláteis. Em outro trabalho, Minsky (1975) chama a atenção para o
uso do dinheiro como uma apólice de seguro contra a incerteza,
como uma proteção contra quaisquer contingências adversas, não
apenas volatilidade financeira. Stephen Rousseas (1986) adota uma visão semelhante, enfatizando o uso do dinheiro como um
mecanismo de proteção contra a incerteza e, portanto, não neutro
em uma economia monetária da produção.
Axel Leijonhufvud (1968) discute como o risco de taxa de juros, e
não a incerteza, afeta a composição das carteiras. Ele afirma que,
para Keynes, a distinção entre bens de capital e ativos financeiros é
menos importante do que as mudanças na taxa de juros para
compreender as decisões sobre a aquisição de diferentes tipos de ativos. Destaca, também, as penalidades ou custos associados a
níveis insuficientes de liquidez para tratar a incerteza sobre o fluxo
de caixa, bem como os custos de oportunidade de proteção
utilizando saldos de caixa em excesso.10 Paul Davidson (1992)
argumenta que a manutenção de uma quantidade adequada de
ativos líquidos é a única forma conhecida de proteção contra a
incerteza que possa levar à insolvência.
Algumas ressalvas são necessárias neste estágio. Em primeiro
lugar, flutuações nas taxas de câmbio, e não apenas volatilidade da taxa de juros, podem igualmente ser uma importante fonte de
instabilidade, principalmente no contexto dos mercados mundiais
integrados de bens, moeda e capital. Contudo, o impacto das
flutuações nas taxas de câmbio sobre a preferência pela liquidez é possivelmente menor, uma vez que esse tipo de volatilidade tem
menor capacidade de produzir as reversões de “valor presente”
enfatizadas por Minsky, em seu tratamento das alterações da taxa
de juro para o investimento em ativos reais. Isso também pode
explicar o menor volume relativo de contratos negociados em
moeda estrangeira nos mercados de derivativos, principalmente os
instrumentos negociados em bolsas de valores, e a predominância
relativa dos contratos de taxa de juros. No entanto, como taxas de câmbio e taxas de juros estão relacionadas, e os fluxos financeiros
entre países são importantes na composição de ativos, a
volatilidade cambial é um fator importante.
Em segundo lugar, vale ressaltar que risco e incerteza não são a
mesma coisa. A distinção não é trivial, e Marshall Auerback (2007)
atribui a crise financeira de 2007 à incapacidade das instituições
financeiras em entender a diferença. Em contraste com Tobin e
Leijonhufvud, que raciocinam em termos de risco, os autores pós-keynesianos ressaltam o papel da incerteza fundamental na tomada
de decisão (Chick, 1983; Davidson, 1972). Incerteza fundamental
implica uma situação em que se reconhece que o futuro é
inerentemente incognoscível e não mensurável, ao contrário do
risco, situação em que as distribuições de probabilidade com base
em frequências conhecidas são atribuídas a eventos futuros. Nesta
segunda perspectiva, o futuro pode ser estimado ou, pelo menos, de
forma imperfeita, mensurável por meio de distribuições de probabilidade. Essas distribuições são baseadas em frequências
históricas e no pressuposto de que a economia pode ser
caracterizada por processos ergódicos em que as médias futuras
não podem desviar por uma margem grande das médias passadas,
justificando o uso de dados históricos para projetar tendências
futuras. Por outro lado, em condições caracterizadas pela incerteza
fundamental, o passado não é um instrumento útil para prever o
futuro. A história é um processo de mudança contínua, e o cálculo de probabilidades com base na frequência pode ser irrelevante, resultando em um estado de completa ignorância sobre o futuro,
quando as decisões cruciais e singulares sobre a acumulação de
capital estão envolvidas. Essa situação, contudo, não implica
instabilidade contínua. Crotty (1994), por exemplo, argumenta como as instituições e os contratos podem conferir estabilidade
condicional para a economia, não obstante a existência de incerteza
fundamental.
Ou seja, é possível argumentar que a preferência pela liquidez
também pode ser considerada um comportamento em relação aos
riscos, incluindo riscos financeiros, e não apenas em relação à
incerteza fundamental. A atribuição de distribuições de
probabilidades baseadas em dados históricos a eventos futuros poderia ser considerada uma convenção amplamente adotada pelos
agentes, no sentido discutido por Keynes em seu artigo no QJE, em
1937. Essa convenção poderia reduzir à incerteza como percebida
subjetivamente pelos participantes, mesmo que essa prática não
possa eliminá-la objetivamente e esteja sujeita a mudanças
repentinas. Isto é, as tentativas de domesticar a incerteza por meio
de atribuição de distribuições de probabilidade, à medida que se
trata de uma convenção social seguida por muitos agentes, pode também reforçar o grau de confiança sobre a distribuição de
probabilidade estimada, independentemente de quão inexatos estes
cálculos podem vir a ser 11 a posteriori.
Feitas as ressalvas, os impactos dos distintos mecanismos de
tratamento dos riscos macrofinanceiros sobre a preferência pela
liquidez podem ser resumidas e ilustradas por meio de um exemplo
gráfico.
3.2 Uma exposição gráfica
À medida que os riscos macrofinanceiros elevados aumentam a
incerteza sobre os resultados futuros, diferentes mecanismos
desenvolvidos para tratar desta volatilidade excessiva podem afetar
a preferência pela liquidez como um comportamento diretamente em
relação ao risco e indiretamente em relação à incerteza, desde que
sejam eficazes. Ou seja, é possível argumentar que existe uma relação entre a incerteza fundamental, os riscos macrofinanceiros,
os mecanismos que regulam a criação e a gestão desses riscos,
bem como a composição de ativos das empresas. Jan Toporowski
(1998 e 2001) discute como os derivativos podem afetar a liquidez na composição de ativos, considerada uma forma natural de
proteção em uma economia existente no tempo histórico.
Toporowski (2001) sugere explicitamente uma conexão entre a
preferência pela liquidez, incerteza e riscos para as empresas não
financeiras
A razão pela qual apenas um pequeno número de grandes empresas utilizam
os mercados financeiros futuros para evitar riscos é porque tais instrumentos
são inferiores à preferência pela liquidez, muito mais comumente utilizada
como forma de evitar riscos (Toporowski, 2001, p. 108. Tradução do autor).
A visão neoclássica dos mercados financeiros futuros é que eles são um
recurso que projeta determinados valores para um futuro incerto, ou pelo
menos substitui valores incertos por um “valor de certeza-equivalente”, que
refletem “riscos” futuros. Se este fosse o caso, então, em igualdade de
condições, seria de se esperar uma redução na preferência pela liquidez
devido à incerteza na medida em que a utilização de mercados financeiros
futuros tem proliferado desde os anos 1970 (Toporowski, 2001, p. 103.
Tradução do autor).
Toporowski sugere, assim, que os derivativos financeiros e a
preferência pela liquidez poderiam ser substitutos e que, como os
derivativos não compensam os riscos de uma forma eficaz, as empresas recorrem aos ativos líquidos para se proteger. A fim de
ilustrar como diferentes arranjos podem afetar os riscos financeiros
e a preferência pela liquidez, um exemplo gráfico é proposto a
seguir. Assume-se que, da perspectiva das empresas não
financeiras, um dado nível de risco macrofinanceiro é determinado
exogenamente pelo nível de regulação presente no sistema
financeiro.12 Isso significa que os riscos são criados de acordo com
uma medida dos graus de liberdade dos mercados financeiros na
determinação dos preços e fluxos financeiros, isto é, tanto pela
existência e aplicação de regulamentações e controles como pela
existência de atividades especulativas potencialmente
desestabilizadoras nos mercados financeiros (Figura 1 a seguir).
Supõe-se que a regulação financeira eficaz tende a reduzir os riscos macrofinanceiros, criando restrições sobre a capacidade das
instituições financeiras em aumentar ou diminuir a frequência das
transações com ativos e passivos financeiros. Além disso, a
desregulamentação financeira e a liberalização tendem a criar mais espaço para a atividade no mercado financeiro, incluindo o potencial
para posições especulativas desestabilizadoras, e do consequente
aumento na volatilidade. Supõe-se também que a preferência pela
liquidez é medida pela proporção de ativos líquidos sobre o ativo
total e é uma função linear de riscos macrofinanceiros. Essa medida
de preferência pela liquidez assume que a demanda transacional
por moeda e os ativos aumentam proporcionalmente com a renda.
Finalmente, admite-se inicialmente que a preferência pela liquidez das empresas não financeiras não afeta os riscos
macrofinanceiros.13
Figura 1. Regulamentação financeira, riscos macrofinanceiros e
preferência pela liquidez de uma empresa não financeira
Assim, um determinado nível de regulação financeira determina
os riscos macrofinanceiros, medida por um índice σ contendo M0 uma dada medida da volatidade das taxas de câmbio e de juros, e o
nível correspondente de preferência pela liquidez L . Com reduzidos 0 níveis de volatilidade macrofinanceira, as empresas podem manter,
ceteris paribus, uma fração menor de ativos líquidos como um
mecanismo de proteção, com a ocorrência inversa para níveis
elevados de riscos macrofinanceiros. 14 Nesse caso, é preciso supor
adicionalmente a existência de um nível mínimo absoluto de
preferência pela liquidez, Lm, já que as empresas sempre precisam
de uma certa quantidade mínima de liquidez em seus balanços para
realizar transações regulares, como sugerem o motivo transações e o motivo financeiro propostos por Keynes. Este mínimo deve ser
variável para as diferentes fases do ciclo econômico e das
diferentes fases de desenvolvimento capitalista, refletindo os
impactos das inovações financeiras e da existência de diferentes
percepções de risco. O “excesso” de preferência pela liquidez acima
do mínimo fornece uma indicação do valor potencial dos recursos
“desviados” da acumulação real.
Como os riscos e a incerteza são características intrínsecas do
capitalismo e mercados descentralizados, σ é sempre positivo, e M0
não parece incorreto presumir que a preferência pela liquidez
refletida na demanda precaucional de moeda L também é sempre 0 positiva. Da mesma forma, há que se ressaltar que há um limite
teórico para a fração máxima de ativos líquidos que uma
determinada empresa pode manter, igual à unidade, mas este limite dificilmente seria alcançado no mundo real, mesmo para as
instituições financeiras. Alguns ativos são ilíquidos por necessidade,
e esta falta de liquidez tende a ser uma fonte de incerteza para os
capitalistas engajados em atividades de investimentos físicos no
mundo real, como sugerido por Keynes e Davidson.
A Figura 2 a seguir mostra como os dois mecanismos para tratar
do risco macrofinanceiro podem afetar a preferência pela liquidez
das empresas. A regulação financeira eficaz desloca a linha de regulação financeira para a esquerda e reduz a volatilidade
macroeconômica para σ , com o nível inicial (anterior à regulação G
eficaz) σ > σ . Isso implica, ceteris paribus, uma diminuição na M0 G
preferência pela liquidez dos níveis iniciais L para um novo nível, 0 menor, L , liberando fundos para a acumulação de ativos reais. Por 1
outro lado, a desregulamentação e a liberalização financeira dariam
mais liberdade para os mercados e para as instituições financeiras,
deslocando a linha de regulamentação para a direita e levando a
uma maior volatilidade σ , maior do que o nível inicial antes da M1
desregulamentação, isto é, σ < σ . Isso pode causar uma M0 M1
elevação na proporção de ativos líquidos, dos níveis iniciais L para 0
níveis superiores L , ceteris paribus. Por outro lado, os derivativos 2
poderiam oferecer mecanismos para compensar os níveis elevados
de riscos financeiros ao nível da empresa, mas sem alterá-los no
agregado, já que os derivativos simplesmente redistribuem riscos. Caso sejam eficazes no fornecimento de mecanismos de proteção,
esses instrumentos reduzem os níveis individuais de risco financeiro
e são consistentes com níveis mais baixos de preferência pela
liquidez, que diminui dos níveis iniciais L0 para L3 (ou qualquer
outro nível entre L e L ). Istrumentos financeiros derivativos 2 m
eficazes, portanto, poderiam mudar a inclinação da função de
preferência pela liquidez, tornando as empresas menos sensíveis
aos níveis agregados de riscos existentes. No caso extremo em que
os derivativos financeiros são perfeitamente eficazes, eles podem
fazer com que a função de preferência pela liquidez se torne
horizontal, tornando a preferência pela liquidez insensível a riscos
macrofinanceiros e reduzindo-a de L para o nível mínimo L . 2 m
Figura 2. Efeitos de mudanças na regulação financeira e dos
derivativos financeiros sobre riscos financeiros e preferência pela
liquidez
Por outro lado, à medida que os derivativos financeiros aumentam
a volatilidade por meio de intensificação da atividade especulativa, e assumindo que a especulação é em média desestabilizadora, a
linha de regulação financeira poderia ser deslocada ainda mais para
a direita. Isso aumentaria a retenção de ativos líquidos e, talvez,
pudesse mesmo compensar parcial ou totalmente a redução inicial
da preferência pela liquidez provocada pela proteção, como refletido
na redução da sensibilidade aos riscos. Da mesma forma, a
existência de mecanismos alternativos ao ativo de «proteção»
padrão, tais como contratos de longo prazo, subsidiárias estrangeiras, dívidas com taxas fixas de juros, poderiam mudar a
inclinação da função de preferência pela liquidez, ou até mesmo os
níveis mínimos de liquidez Lm.
Como anteriormente discutido, a liquidez pode também estar
correlacionada com a tomada de riscos financeiros, ou especulação,
em vez de compensá-los. A acumulação de ativos líquidos motivada pela segurança muitas vezes não pode ser adequadamente
distinguida da preferência pela liquidez motivada por retornos
financeiros. Por exemplo, Robert Pollin e Marc Schaberg (1998)
sugerem a existência de uma relação entre transações no mercado financeiro e retenção de ativos líquidos. John Marthinsen (2005)
também aponta a recente transformação dos departamentos de
tesouraria em centros de lucro e a tendência crescente de utilização
da liquidez para especular com ativos financeiros ao invés da
cobertura de fluxos de caixa e proteção das margens operacionais
médias. Marthinsen, fazendo eco a Minsky, argumenta que a
motivação pelo lucro está sempre presente na decisão de assumir
mais riscos e de se afastar da segurança. Da mesma forma, Dale Gray (2007) argumentam que a volatilidade nos valores dos ativos
podem ser correlacionados com posições financeiras frágeis e
propícias a riscos de crédito, dando apoio, obviamente não
reconhecido, à hipótese da instabilidade financeira de Minsky. Eles
argumentam ainda que os ativos líquidos podem servir como um
amortecedor para estas flutuações no preço de ativos menos
líquidos. De qualquer forma, quer para compensar a insuficiência
dos derivativos na proteção contra os riscos, quer para aumentar a flexibilidade e facilitar a especulação financeira, o aumento da
acumulação de ativos líquidos contribui para reduzir a acumulação
de ativos reais, o crescimento e desenvolvimento econômico
potencial.
4. Conclusão
A discussão precedente sobre os diferentes mecanismos
desenvolvidos para gerir os riscos macrofinanceiros do capitalismo e
os correspondentes impactos sobre a acumulação de ativos sugere que a desregulamentação, a liberalização e os derivativos
financeiros que são criados no processo não são necessariamente
os mecanismos mais eficazes para estabilizar preços e fluxos
financeiros. Sugere ainda que, à medida que a volatilidade tem
impactos consideráveis sobre as condições macroeconômicas de
financiamento da acumulação de capital, já que as taxas de juros e de câmbio representam uma importante fonte de exposição para as
empresas e, portanto, sobre as condições de crescimento e
desenvolvimento sob condições capitalistas, o seu tratamento não
pode ser deixado exclusivamente aos impulsos especulativos das instituições financeiras.
Enquanto durou, o regime de controle dos riscos macrofinanceiros
foi relativamente eficaz e coerente em impedir que os mercados e
instituições financeiras pudessem determinar de modo exclusivo os
preços e os fluxos financeiros mais relevantes e, assim, exacerbar a
volatilidade financeira. Esse regime preveniu a criação dos riscos
macrofinanceiros, em vez de redistribuí-los depois de criados, e o
nível de risco que se seguiu foi efetivamente menor, afetando de forma positiva todas as atividades com alguma exposição, ao
mesmo tempo em que diminuiu o escopo da atividade especulativa
que se alimenta da volatilidade. Assim, o regime era potencialmente
consistente, ou pelo menos não potencialmente conflitante, como
supõe a ortodoxia, com a rápida expansão da produção do emprego
e da renda, como o registro histórico do capitalismo regulado
sugere. Sem dúvida, a regulamentação financeira cria
endogenamente uma reação na forma de inovações introduzidas para evitar os controles, minando dialeticamente os próprios
fundamentos da regulamentação. Isso apenas sugere, no entanto,
que nenhuma estrutura institucional pode ser considerada
evolucionariamente estável sob o capitalismo.
Já a expansão dos derivativos não parece ter conseguido evitar
os efeitos da volatilidade financeira sobre a acumulação de capital
ou mesmo sobre a estabilidade macrofinanceira. Os derivativos
financeiros ainda poderiam ser considerados complementos, e não substitutos como sugerido por Toporowski, à preferência pela
liquidez. Aqui seria preciso mostrar que os mercados financeiros
desregulamentados tendem a resolver completamente as
consequências adversas associadas à falta de coerência global dos
derivativos financeiros, uma vez que os riscos financeiros não são
reduzidos, apenas redistribuídos sob tal abordagem. Neste caso,
haveria uma redistribuição da liquidez global para complementar o
uso de derivativos. A recente crise financeira, porém, sugere que os derivativos financeiros não forneceram amortecedores, isto é, os necessários instrumentos eficazes e coerentes de gestão de risco
contra a volatilidade e a instabilidade financeira. O rápido
crescimento dos derivativos financeiros pode, então, ser entendido
não como um valor adicionado pelos mercados financeiros, mas em grande medida como reflexo da necessidade de diversificação das
carteiras das instituições financeiras no contexto da
desregulamentação dos mercados financeiros, que surgiu como
uma consequência das inovações introduzidas por essas
instituições. Em outras palavras, os derivativos financeiros,
refletindo as mudanças macrofinanceiras e a mudança de
orientação da política financeira, culminaram na financeirização do
capitalismo, acrescentando relativamente mais fundos para a circulação financeira.
Se os mercados financeiros desregulados e liberalizados não
conseguem gerar mecanismos mais eficazes para tratar do aumento
da volatilidade financeira e das suas consequências, nem propiciar
um ambiente macrofinanceiro propício à estabilidade e à expansão
produtiva de forma consistentemente superior àqueles alcançados
no âmbito da regulamentação, isto sugere um erro fundamental na
filosofia econômica que informa a privatização dos controles dos riscos macrofinanceiros, como duramente aprendida por Alan
Greenspan, durante a recente crise financeira.
Finalmente, considerada em termos da promoção da estabilidade
financeira e da mitigação das conseqüências macroeconômicas, fica
claro que, em uma economia capitalista intrinsecamente instável, a
regulamentação e outras medidas administrativas do Estado que
reduzem os graus de liberdade da atividade especulativa, podem
desempenhar um papel importante, ainda que recomendações políticas sobre formas específicas de regulação não estejam dentro
do escopo deste capítulo. 15 E essa importância adquire um
significado ainda maior quando se considera que os elevados riscos macrofinanceiros podem se tornar um entrave à acumulação de
capital, ao alavancar a acumulação excessiva de ativos líquidos e
que a alternativa privada ofertada pelos mercados financeiros é
ineficaz e inadequada justamente por não permitir a transformação
da liquidez em excesso em ativos reais, mas em acumulação
financeira de caráter especulativo. Este capítulo sugere, e a crise financeira iniciada em 200, e ainda não resolvida demonstra, que a
regulamentação financeira é necessária e desejável nos marcos do
capitalismo. É necessária também porque permite modificar a
distribuição de renda e riqueza no sentido da produção e do emprego, própria de qualquer reforma financeira eficaz, ainda que
conduza inevitavelmente à “dialética regulatória”. Um capitalismo
mais estável, ainda que temporariamente, e menos financeirizado,
que aumente a produção e a renda em relação à especulação e à
volatilidade, e democratize, ainda que parcialmente, os ganhos
correspondentes, parece exigir fundamentalmente controles
políticos mais rigorosos sobre os preços e fluxos macrofinanceiros e
uma redução do papel desempenhado pelas instituições financeiras.
Referências
ANDREWS, E. Greenspan Concedes Errors on Regulation. The
New York Times, B1, 23 de out. 2008.
AUERBACK, M. Risk vs. Uncertainty: The Cause of the Current Financial Crisis. Japan Policy Research Institute, Occasional Paper
n. 37, 2007.
BANK FOR INTERNATIONAL SETTLEMENTS (BIS). OTC Market
Activity in the Second Half of 2009. Monetary and Economic Department, may 2010.
BANKS, E. Volatility and Credit Risk in the Capital Markets:
assessing and managing financial instrument risk and off-balance
sheet operations. Probus Publishing Company, 1993.
_______. Complex Derivatives: understanding and managing the
risks of exotic options, complex swaps, warrants and other synthetic
derivatives. Probus Publishing Company, 1994.
BERNSTEIN, P. Against the Gods: the remarkable story of risk. New
York: John Wiley and Sons, 1998.
BORDO, M. The Bretton Woods International Monetary System: A
Historical Overview. In: BORDO, M.; EICHENGREEN, B. (Editors) A
Retrospective on the Bretton Woods System: lessons for
International Monetary Reform. Chicago: The University of Chicago Press, 1993.
CARGILL, T. F. US Financial Policy in the Post-Bretton Woods
Period. In: DOWD, Kevin; TIMBERLAKE, Richard (Editors) Money
and the National State. The Financial Revolution, Government and the World Monetary System. Transaction Publishers, 1997.
CHANG, W.; HAMBERG, D.; HIRATA, J. Liquidity Preference as
Behavior Toward Risk is a Demand for Short-Term Securities – Not
Money. American Economic Review, v. 73, n.3, p. 420-427, jun. 1983.
CHICK, V. Macroeconomics after Keynes. Cambridge: MIT Press,
1983.
CROTTY, J. Are Keynesian Uncertainty and Macrotheory
Compatible? Conventional Decision Making, Institutional Structures,
and Conditional Stability in Keynesian Macromodels. In: DYMSKI,
G.; POLLIN, R. (Editors) New Perspectives in Monetary
Macroeconomics: Explorations in the Tradition of Hyman P. Minsky. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1994.
CROTTY, J. The Neoliberal Paradox: The Impact of Destructive
Product Market Competition and ‘Modern’ Financial Markets on
Nonfinancial Corporate Performance in the Neoliberal Era. In: EPSTEIN, G. (Editor). Financialization and the World Economy.
Cheltenham: Edward Elgar Publishing, 2005.
_______. If Financial Market Competition is so Intense, Why are
Financial Firm Profits so High? Reflections on the Current ‘Golden Age’ of Finance. Political Economy Research Institute, Working
Paper n.174, 2007.
DAVIDSON, P. Money and the Real World. New York: Halsted Press,
1972.
_______. International Money and the Real World. 2. ed. revised.
London: Macmillan Press, 1992.
EATWELL, J.; TAYLOR, L. Global Finance at Risk: the case for
international regulation. New York: The New Press, 2000.
EPSTEIN, Gerald (Ed.) Financialization and the World Economy.
Cheltenham: Edward Elgar Publishing, 2005.
FROOT, K.; SCHARFSTEIN, D.; STEIN, J. Risk Management:
Coordinating Corporate Investment and Financing Policies. Journal
of Finance, 48, p. 1629-1658, dec. 1993.
FROOT, K.; SCHARFSTEIN, D.; STEIN, J. A Framework for Risk
Management. Harvard Business Review, nov.-dec. 1994.
GRAY, D.; MERTON, R.; BODIE, Z. New Framework for Measuring
and Managing Macrofinancial Risk and Financial Stablity. NBER
Working Paper n. 13607, 2007.
HELLEINER, E. States and the Reemergence of Global Finance –
From Bretton Woods to the 1990s. Cornell University Press, 1994.
HUBBARD, R. G. Money, the Financial System, and the Economy. 3
ed. Addison-Wesley Longman, 1999.
HULL, J. Introduction to Futures and Options Markets. Englewood
Cliffs, Prentice Hall, 1995.
IP, G. His Legacy Tarnished, Greenspan Goes on the Defensive. The
Wall Street Journal, apr, 8, 2008.
KALECKI, M. The Principle of Increasing Risk. Economica, v. 3,
1937.
KEYNES, J. M. A Treatise on Money. Harcourt, Brace and Company,
1930.
_______. The General Theory of Employment, Interest, and Money.
New York: Harvest/ Harcourt Brace Jovanovich, 1964.
KNIGHT, F. H. (1921) Risk, Uncertainty and Profit. Chicago:
[reprinted by] University of Chicago Press, 1971.
KRIPPNER, G. The Financialization of the American Economy.
Socio-Economic Review, v. 3, 2005.
LEIJONHUFVUD, A. On Keynesian Economics and the Economics
of Keynes. New York: Oxford University Press, 1968.
LIPPMAN, S.; McCALL, J. “An Operational Measure of Liquidity”.
American Economic Review, v. 76, n. 1, p. 43-55, mar.1986.
LiPUMA, E.; LEE, B. Derivatives and the Globalization of Risk.
Durham: Duke University Press, 2004.
MARSTON, R. Interest Differentials under Bretton Woods and the
Post-Bretton Woods Float: The Effects of Capital Controls and Exchange Risk. In: BORDO, M.; EICHENGREEN, B. (Editors). A
Retrospective on the Bretton Woods System – Lessons For
International Monetary Reform. Chicago: The University of Chicago
Press, 1993.
MARTHINSEN, Jo. Risk Takers: Uses and Abuses of Financial
Derivatives. Boston: Addison Wesley, 2004.
MARX, K. (1867). Capital. A critique of Political Economy, Volume
One. UK: Penguin Books Ltd/New Left Review, 1976.
MILLER, M. Merton Miller on Derivatives. New York: John Wiley and
Sons, 1997. MINSKY, H.P John Maynard Keynes. New York:
Columbia University Press, 1975.
_______. The Financial Instability Hypothesis: Capitalist Processes
and the Behavior of the Economy. In: KINDLEBERGER, Charles P.;
LAFFARGUE, Jean-Pierre (Editors). Financial Crises – Theory,
History & Policy. Cambridge: Cambridge University Press, 1979.
_______. Can “It” Happen Again? Essays on Instability and Finance.
Armonk, NY: ME Sharpe, 1982.
MINSKY, H.P. Stabilizing an Unstable Economy. New Haven: Yale
University Press, 1986.
MOLLENKAMP, C.; NG, S. Wall Street Wizardry Amplified Credit
Crisis. The Wall Street Journal, dec. 27, 2007.
NEELY, C. An Introduction to Capital Controls. Review, Federal
Reserve Bank of Saint-Louis, nov,-dec., 1999.
NG, S.; LUCCHETTI, A. Street Seeks Credit-Default Safety Net. The
Wall Street Journal, april 24, 2008.
ORHANGAZI, Ozgur Financialization and the US Economy.
Cheltenham: Edward Elgar Publishing, 2008.
POLLIN, R; SCHABERG, M. Asset Exchanges, Financial Market
Trading, and the M1 Income Velocity Puzzle. Journal of Post
Keynesian Economics, v. 21 n. 1, Autumn: 135-162, 1998.
RAFFERTY, M.; BRYAN, D. Capitalism With Derivatives: A Political Economy of Financial Derivatives, Capital and Class. London:
Palgrave Macmillan, 2006.
ROUSSEAS, S Post Keynesian Monetary Economics. 1st ed.,
Armonk, NY: ME Sharpe, 1986.
RUSSELL, E.D. New Deal Banking Reforms and Keynesian Welfare
State Capitalism. Routledge, 2008.
SCHOLES, M. Derivatives in a Dynamic Environment. American
Economic Review, v. 88, n. 03, jun. 1998.
SMITH Jr., C. W.; SMITHSON, C. W.; WILFORD, D. S. Managing
Financial Risk. New York: Harper and Row, 1989.
STOCKHAMMER, E. Financialization and the Slowdown of
Accumulation. Cambridge Journal of Economics, n.28, 2004.
STEINHERR, A. Derivatives – The Wild Beast of Finance. A Path to
Effective Globalization?, John Wiley and Sons, 2000.
SWAN, E. Building the Global Market: A 4000 Year History of
Derivatives. London: Kluwer Law International, 2000.
TIMIRAOS, N.. Why Banks’ Pain Could Continue. The Wall Street
Journal, p. 19-20: A11, jan. 2008
TOBIN, J.Liquidity Preference as a Behavior Toward Risk. Review of
Economic Studies, v. 25, n. 2, p.65-86, feb. 1958.
TOPOROWSKI, J. The End of Finance: The Theory of Capital
Market Inflation, Financial Derivatives and Pension Fund Capitalism.
London: Routledge, 1998.
_______. Financial Derivatives, Liquidity Preference, Competition and Financial Inflation. In: ARESTIS, Philip; SAWYER, Malcolm
(Editors) Money, Finance, and Capitalist Development. Cheltenham:
Edward Elgar Publishing, 2001.
WOJNILOWER, A. The Central Role of Credit Crunches in Recent Financial History. Brookings Papers on Economic Activity, n.2, 1980.