Desenvolvimentismo: o conceito, as bases teóricas e as políticas
Desenvolvimentismo a construção do conceito
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Desenvolvimentismo a
construção do conceito1
Pedro Cezar Dutra Fonseca
1. Introdução
O que é desenvolvimentismo? A resposta remete à conceituação
de um termo de largo uso entre os economistas e já incorporado
pela mídia, mas que carece de definição mais precisa. Como outros
termos teóricos ou categorias utilizados pelos economistas (como
“desenvolvimento”, “bem-estar”, “equilíbrio” e “valor”), o sentido
pode alterar-se total ou parcialmente de acordo com o approach
teórico em que está inserido ou mesmo com os objetivos do
usuário2. Com exceção dos termos da Contabilidade Social –
geralmente identidades ou tautologias e, portanto, definições a priori
as quais, uma vez estabelecidas, levam a controvérsia a centrar-se
mais na mensuração do que na conceituação – os conceitos
econômicos, a exemplo das demais ciências sociais, muitas vezes não conseguem escapar de nuances que lhes impingem certa
vagueza e ambiguidade3. Por um lado, tais plasticidade e
flexibilidade podem trazer facilidades ao usuário, pois “acomodam” fatos novos que os conceitos tentam abarcar, mas, por outro lado, a
dubiedade também dificulta a comunicação dentro da própria
comunidade científica. Esse alongamento (ou adaptabilidade dos
conceitos) vai ao encontro do que Sartori (1970, 1984), em seus
trabalhos clássicos, denominou de “viagem” dos conceitos, ou a vida
própria que os mesmos adquirem ao serem usados. Para a
conceituação de desenvolvimentismo, essa questão está na ordem
do dia com a polêmica sobre se é possível um “retorno” do mesmo em contexto histórico diferente do qual se associou historicamente
na América Latina – a industrialização por substituição de importações. A volta a um “novo desenvolvimentismo”, ou se
governos atuais do subcontinente podem ser assim denominados,
vem sendo objeto de discussão entre profissionais e pesquisadores
da área de economia, fato que corrobora a necessidade da precisão
conceitual, como bem ilustra o debate brasileiro.4
“Desenvolvimentismo” pertence à mesma família de termos como
“ortodoxia”, “neoliberalismo” e “keynesianismo”, os quais servem para designar alternativamente duas coisas por certo indissociáveis,
mas que não são exatamente o mesmo nem do ponto de vista
epistemológico nem, tampouco, na prática cotidiana: (a) um
fenômeno do “mundo material”, ou seja, um conjunto de práticas de
“política econômica” 5 propostas e/ou executadas pelos
policymakers, ou seja, fatos concretos ou medidas “reais” que
compartilham um núcleo comum de atributos que os caracteriza
como tal; e (b) um fenômeno do “mundo do pensamento”, ou seja,
um conjunto de ideias que se propõe a expressar teorias,
concepções ou visões de mundo. Essas podem ser expressas (I)
seja como “discurso político”, por aqueles que as defendem ou as criticam (e que mais usualmente se denomina ideologia – outro
termo polissêmico); ou (II) seja para designar uma “escola” ou
“corrente de pensamento”, ao abranger teorias e estudos segundo
cânones reconhecidos como saber científico. Embora a ideologia e
as experiências históricas desenvolvimentistas tenham uma longa
história, cuja gênese remonta a meados do século XIX, foi a partir
da Grande Depressão da década de 1930 que tomaram vulto em
boa parte dos países latino-americanos, destacadamente Argentina, Brasil, Chile e México, mas também Colômbia, Peru, Uruguai e
Venezuela, para mencionar os casos mais típicos. Já o pensamento
econômico teórico só se consolidou nas décadas de 1950 e 1960.
Para tanto, foi fundamental a criação da Comissão Econômica para
a América Latina e o Caribe (CEPAL) e sua capacidade para
catalisar e difundir trabalhos clássicos de nomes como R. Prebisch,
C. Furtado, A. Pinto, O. Sunkel, M. C. Tavares e E. J. Medina, dentre
outros.
O propósito deste capítulo – formular um conceito para
desenvolvimentismo – enfrenta o desafio de conciliar a precisão
exigida pela empreitada sem ignorar, como lembra Koselleck (2006, p. 109), que a polissemia em si não é um defeito, antes o modo de
ser dos conceitos, os quais reúnem “em si a diversidade da
experiência histórica assim como a soma das características
objetivas teóricas e práticas em uma única circunstância, a qual só pode ser dada como tal e realmente experimentada por meio desse
mesmo conceito”. Ou, como prefere expressar Weyland (2001, p. 1),
por certo sob a influência do pragmatismo metodológico, se a falta
de acordo conceitual pode levar a um “diálogo de surdos”, por outro
lado se os termos são usados é porque são úteis, já que tanto os
economistas quanto o público, como é o caso de
“desenvolvimentismo”, continuam a utilizá-los, depreendendo-se que
não conseguem prescindir deles. Pode-se acrescentar: mais do que úteis, são necessários, porquanto são instrumentos indispensáveis
para nomear fatos ou fenômenos considerados relevantes por seus
usuários – e principalmente na comunidade acadêmica, a qual
cultiva a precisão e o rigor como virtudes inerentes ao imaginário
que faz de si mesma, as quais colaboram para legitimá-la
socialmente.
2. Uma nota metodológica
Como passo inicial da tentativa de conceituar
“desenvolvimentismo”, registra-se que o termo é geralmente
utilizado para designar um fenômeno relativamente delimitado no
tempo – século XX –, embora espacialmente mais diversificado,
posto que governos desenvolvimentistas são apontados pela
literatura em praticamente todos os continentes, conquanto com
predominância em países latino-americanos e asiáticos. Este
capítulo, a despeito de alicerçar-se em bibliografia mais ampla, terá
como referência a experiência latino-americana.
A forma bastante usual de construir conceitos nas ciências
humanas é através da elaboração de tipos ideais, seguindo a
tradição weberiana. Nesta, como é sabido, cada categoria é definida
através de um conjunto de atributos ao qual se chega a partir de um
exercício da razão, sem se esperar, na realidade fática, que se
encontrem todos os atributos nas diferentes situações concretas ou casos. Os conceitos, então, são construtos mentais e a aproximação
entre eles e o real é sempre probabilística.
Esse procedimento de construir tipo ideal, como se mostrará
adiante, foi utilizado por vários autores para conceituar não propriamente desenvolvimentismo, mas “Estado
desenvolvimentista”, ou o que Medina (apud Rodríguez, 2009, p.
236) denominou “mecanismo essencial” voltado à superação do
subdesenvolvimento. Logo, o conceito foi utilizado indiretamente
para designar um conjunto de atributos caracterizadores, em termos
ideais, da política econômica de determinados governos
empenhados na superação do subdesenvolvimento. Retornando à
dupla acepção do uso do termo, antes mencionada, tais autores enfatizam o “mundo material” ou “dos fatos” como ponto de partida
para a conceituação, opção metodológica que será também aqui
seguida. No entanto, com a diferença de não se pretender a
construção de um tipo ideal, mas recorrer em parte à estratégia
definida por Sartori como conceito “clássico” ou “por redefinição”, a
qual é apropriada para análise comparativa de cases históricos que
apresentam certos atributos ou características comuns (Sartori,
1970, 1984). Por conseguinte, não se pretende por ora nem formular um conceito para o desenvolvimentismo “desejável” ou “ideal” nem
tampouco criticá-lo: embora esses usos possam ser feitos em um
segundo momento, inclusive utilizando o conceito como ferramenta
para tal, a metodologia aqui seguida tem como ponto de partida
construir o conceito partindo da observação de seu(s) emprego(s)
pela própria comunidade que o utiliza6.
Os cientistas deparam-se no dia a dia com casos novos ou com
particularidades que exigem a incorporação de novos atributos. Se
julgarem seus termos teóricos como incapazes de apreendê-los,
podem ser levados a abandonar o conceito ou, se quiserem mantê-
lo, sentir-se tentados a alongá-lo. Na terminologia de Sartori, “viagem do conceito” (traveling) refere-se a esse movimento para
abranger casos novos e “alongamento” (stretching) refere-se à
distorção ocorrida quando se quer adaptar um conceito para nele
encaixar os casos novos. Daí decorre um trade-off entre extensão e
intensão dos conceitos7. A extensão refere-se ao conjunto de
entidades, elementos ou casos abrangidos pelo conceito; é seu significado denotativo, pois diz respeito a quais objetos ou
fenômenos o conceito é usado para nomear. Já a intensão refere-se
ao conjunto de propriedades ou atributos abarcados pelo conceito;
diz respeito ao seu significado conotativo, a certas características comuns que permitem objetos serem nomeados como tal.
Todos os casos abarcados na extensão de um conceito devem ter
alguns atributos comuns que permitem enquadrá-los como tal,
enquanto outros ficam de fora. Existem, ainda, casos limítrofes, às
vezes de difícil decisão, para os quais a conceituação mais precisa
auxilia. O pesquisador defronta-se com uma “escada de
generalidade”, pois o aumento da extensão do conceito implica que
o mesmo perca em intensão e vice-versa. Para os economistas,
lembra uma curva de indiferença, como mostra a Figura 1.
Categorias mais específicas, como no ponto X, possuem forte
intensão, mas sua extensão é limitada. Para ampliar seu escopo,
caminha-se para cima ao longo da curva, ganhando em extensão,
mas com perda de intensão, como no ponto Y.
Figura 1. Extensão versus intensão
Um conceito muito extenso pode facilitar o pesquisador por
permitir-lhe a inclusão de inúmeros casos, fatos ou coisas;
entretanto, pode ajudar pouco numa análise comparativa, pois ao
abarcar inúmeros casos com poucos atributos sua força explicativa
diminui 8.
Para melhor clarear a metodologia escolhida e suas razões, pode-
se inicialmente, de forma sintética, esclarecer as três estratégias alternativas apontadas por Sartori (1970, 1984), as quais são
ilustradas na Figura 2, semelhante à elaborada por Weyland (2001).
A primeira, “conceito por acumulação”, parte de diferentes domínios,
através da pesquisa sobre os diversos atributos caracterizadores do
termo e busca identificar um núcleo comum ou core segundo a
lógica aditiva da intersecção, através do conetivo lógico (Λ). Esse
procedimento possui a vantagem de minimizar falsos positivos, pois
apenas casos em que todas as características ou atributos estão presentes são considerados. O fato de ter pouca extensão, embora
rico em intensão, pode levar a uma intersecção muito estreita,
deixando pouco espaço para a pesquisa. A tendência, então, é o
pesquisador começar a relaxar o conceito, geralmente criando
categorias que associam um adjetivo ao conceito principal – os
“conceitos radiais”9.
Figura 2. Estratégias de conceituação
A segunda, denominada “conceito por adição”, conecta atributos
de diferentes domínios utilizando a lógica da inclusão através do
conetivo lógico “ou” (v). Assim, qualquer caso que apresente uma
das características pode, em tese, ser subsumido ou incluído no conceito. Indo ao paroxismo, qualquer caso similar pode ser
enquadrado, pois permite incorporar “conceitos radiais” no conceito
principal, relaxando o domínio para abranger novos casos. Os casos
que compartilham todos os atributos de diferentes domínios são considerados “casos completos” e os que compreendem apenas
algumas características são “subtipos reduzidos” (diminished
subtypes). O conceito ganha em extensão, mas pode perder muito
em intensão. Esse procedimento diminui os falsos negativos, mas
corre o risco de gerar um pseudoconsenso sobre o conceito, pois o
mesmo pode adquirir vasto número de significados.
Já a estratégia do “conceito clássico” ou “por redefinição”, que
será aqui utilizada, também busca encontrar um núcleo comum ou core, mas, ao contrário do conceito por acumulação, não se propõe
chegar a um núcleo que abranja todos os atributos, mas os
principais. Estes devem valer para todos os casos, mas sem a
pretensão de abarcar casos singulares ou específicos, os quais são
incorporados ao adicionarem-se novos atributos, como ilustra a
Figura 2, mas mantendo-se o “núcleo comum principal” ou core (de
ora em diante apenas “núcleo comum”). Assim, apresenta a
vantagem de reconhecer a ocorrência de casos empíricos com características próprias, ou experiências históricas peculiares;
todavia, ao trilhar outra opção metodológica, busca encontrar
definições mínimas através dos atributos mais frequentes e
característicos, de modo que o conceito alcance certo equilíbrio
entre extensão e intensão. Isso pode ser feito através de pesquisa
na literatura sobre os usos do conceito e nas experiências históricas
que também a literatura consagra como exemplos ou cases seus.
Destarte, evita-se abandonar o conceito ou ampliá-lo demasiadamente em extensão com conceitos radiais, mas admitem-
se subtipos que compartilham um núcleo comum, o qual abarca
todos os atributos tidos como definidores, todavia sem deixar de
reconhecer que possam existir outros atributos importantes para
casos particulares. Nas palavras de Weyland:
By contrast, classical concepts minimize border conflicts by relying on minimal
definitions that focus on one domain and stipulate as few definitional
characteristics as possible. Classical concepts are also likely to have an
extension of reasonable size (a number of empirical referents) because they
do not demand the simultaneous presence of attributes from different
domains, which way have little overlap. [...] They thus prompt scholars to
investigate empirically the connections between definitional characteristics
and other hypothesized attributes, rather than decree them by definitional fiat,
as cumulative concepts do, or leave them open, as radial concepts do.
(Weyland, 2001, p. 3).
O desafio da construção do conceito clássico ou por redefinição é
identificar esse núcleo comum. Como passo metodológico
necessário, cabe começar pela investigação sobre as acepções com
que é usado, em quais sentidos é empregado, ou seja, o que dá
razão a sua existência e o torna útil e necessário. Não se trata de
buscar os atributos “desejáveis” para desenvolvimentismo, ou definir
qual seria hoje uma política econômica desenvolvimentista “ideal” –
tarefa já realizada por inúmeros autores e que, por certo, exige reatualização permanente. O procedimento aqui adotado será o de
se valer tanto do uso feito do termo por autores reconhecidos como
das experiências históricas normalmente apontadas como exemplos
de desenvolvimentismo.
Assim, a metodologia empregada será de inicialmente pesquisar
os atributos utilizados por diversos autores que expressaram seu
entendimento sobre o que seja desenvolvimentismo, em busca de
um núcleo comum, e com isso identificar se há um domínio que concentre atributos mínimos principais. Como passo seguinte,
entendeu-se que daria mais rigor à formulação conceitual caso se
procedesse um teste de tais atributos em algumas experiências
históricas normalmente arroladas pela bibliografia como exemplos
de desenvolvimentismo (como se fosse um “grupo de controle”). A
inquietude vem da dúvida expressa na questão: será que os
governos latino-americanos comumente citados pela literatura como
exemplos de desenvolvimentismo apresentam, total ou parcialmente, os atributos arrolados pelos autores anteriormente
pesquisados em suas conceituações? Esse exercício adicional
facilita e dá mais segurança para, em passo posterior, chegar-se à
abstração inerente a qualquer exercício de conceituação. Possui,
ademais, a vantagem de superar a multiplicidade caótica da empiria
sem, todavia, cair em uma definição axiomática exclusiva, unívoca e
fechada a ela. Destarte, abre espaço à viagem de ida e volta do conceito à multiplicidade do real, sem reduzir a complexidade do
objeto a ser conceituado. Por isso, como se verá adiante, permitirá a
agregação de subtipos que não negam o núcleo do conceito, mas o
afirmam concretamente em um contexto histórico por certo complexo e diversificado, síntese de múltiplas determinações. Antes
de tipo ideal, por conseguinte, o conceito de desenvolvimentismo a
ser formulado tem como ponto de partida o uso feito dele, portanto
o(s) significado(s) que a comunidade que o utiliza e lhe dá vida quer
através dele designar e, de outro lado, a sua dimensão histórica –
posto que seja um fenômeno histórico o que ele pretende expressar
por seus atributos, além de ele mesmo ser uma construção
histórica.
3. Desenvolvimentismo e Estado
desenvolvimentista
Já foi mencionado que o termo “desenvolvimentismo” aparece na
literatura tanto para referir-se a um fenômeno da esfera do
pensamento (ideologia ou teorias) quanto para nomear práticas
históricas de política econômica, estas geralmente associadas a
“Estado desenvolvimentista”. Essa duplicidade será importante para
construção do conceito e nesta seção vem à liça no relato sobre o
uso do termo por autores que se preocuparam com sua conceituação ou definição de atributos.
Schneider (Woo-Cumings, 1999, p. 38-39) relata ter encontrado a
primeira referência de “Estado desenvolvimentista” em Cardoso e
Faletto (1970), a qual, portanto, teria ocorrido ao final da década de
1960/ início da década de 1970. Todavia, a caracterização de
Estado desenvolvimentista já aparecera antes no Brasil – e
possivelmente em outros países da América Latina –, como no livro
“Desenvolvimento Econômico e Desenvolvimento Político”, de Hélio Jaguaribe, em 1962. Bresser-Pereira (1964, p. 16), por sua vez, já
falava no “choque do desenvolvimentismo intervencionista contra o
liberalismo econômico” e, em livro posterior, afirmava: “por
desenvolvimentismo entendemos uma ideologia que coloque como principal objetivo o desenvolvimento econômico” (Bresser-Pereira,
1968, p. 206). O próprio Cardoso (1971) já usara a expressão
“ideologia nacional-desenvolvimentista” na obra “Política e
Desenvolvimento em Sociedades Dependentes”, redigida em Paris “entre outubro de 1967 e março de 1968”. E, pelo que se depreende
da ironia a seguir de Paulo Sá, em artigo crítico à “Formação
Econômica do Brasil”, de Furtado, logo após o lançamento do livro,
na Revista “Síntese Política, Econômica e Social” (n. 3,
jul./set.1959), o termo já desfrutava de largo uso na década de 1950
no Brasil, e não só na academia:
Quem não for economista, quem não falar em ‘conjunturas’, em ‘renda per
capita’, em ‘investimentos’, em ‘demanda e oferta’, em ‘metas’ e ‘operações’,
em ‘desenvolvimentismo’ e ‘produtividade’, quem não for capaz de dizer, em
gíria economista, barbaridades austeras, é tão insignificante como o eram, no
século passado, os que não tinham ‘assassinado’ pelo menos um soneto. (Sá
apud Furtado, 2009, p. 361, grifos meus).
Embora a referência à “ideologia desenvolvimentista” já conste
em Furtado (1961, p. 216) no início da década de 1960, o termo “desenvolvimentismo” praticamente não aparece em sua obra,
assim como na de Prebisch. Em carta a Riccardo Campa, datada de
22 de junho de 1970, Furtado esclarece suas razões:
O ‘desenvolvimentismo’ é uma forma de conservadorismo, pois parte da
premissa de que as estruturas econômicas e sociais que se formaram na
Europa a partir da Revolução Industrial e que estão indissoluvelmente ligadas
ao capitalismo podem ser transplantadas para a América Latina. Se não se
considera o estruturalismo10, a classificação que me parece corresponder ao
meu pensamento é a de “nacionalismo reformista”, embora meu reformismo
esteja ligado à ideia de sociedade aberta e que meu ponto de vista seja de
que a sociedade brasileira jamais foi aberta em seu setor rural. Esse ponto de
vista o expus em minha ‘Pré-revolução brasileira’. (Furtado, 1961).
Assim, embora pouco utilizado pelos teóricos precursores do
desenvolvimentismo cepalino, o termo teve seu uso difundido na
década de 1970, principalmente por aqueles que se dedicaram ao
seu estudo, para os quais passou a designar o objeto de pesquisa.
Indo a esses analistas, menciona-se inicialmente Bielschowsky
(1988), a quem se deve a formulação mais precisa do conceito de
desenvolvimentismo como ideologia:
Entendemos por desenvolvimentismo, neste trabalho, a ideologia de
transformação da sociedade brasileira definida pelo projeto econômico que se
compõe dos seguintes pontos fundamentais: (a) a industrialização integral é a
via de superação da pobreza e do subdesenvolvimento brasileiro; (b) não há
meios de alcançar uma industrialização eficiente e racional através da
espontaneidade das forças de mercado, e por isso, é necessário que o
Estado a planeje; (c) o planejamento deve definir a expansão desejada dos
setores econômicos e os instrumentos de promoção dessa expansão: e (d) o
estado deve ordenar também a execução da expansão, captando e
orientando recursos financeiros e promovendo investimentos diretos naqueles
setores em que a iniciativa privada for insuficiente. (Bielschowsky, 1988, p. 7).
A opção por conceituar partindo da ideologia por certo decorre de
seu objeto de pesquisa, qual seja, o pensamento econômico
brasileiro do período; o próprio título do trabalho refere-se a “ciclo
ideológico do desenvolvimentismo”, delimitado entre 1930 e 1964. Sem embargo, ao prosseguir arrola os atributos que devem ser
associados ao projeto que se materializará em políticas de
intervenção capitaneadas pelo Estado. O autor, todavia, reconhece
a inexistência de um pensamento desenvolvimentista único e, por
isso, estabeleceu uma tipologia criando conceitos radiais para
captar a diversidade dentro do mesmo conceito: (a)
desenvolvimentismo do setor privado; (b) desenvolvimentismo do
setor público não nacionalista; (c) desenvolvimentismo do setor público nacionalista. Lembra, ainda, os socialistas, “que eram em
certo sentido ‘desenvolvimentistas’, porque defendiam a
industrialização e a intervenção estatal” (Bielschowsky, 1988, p.
40)11. Todavia, é sintomático o autor ter excluído essa corrente das
três abrangidas pelo conceito, deixando subentendido que este se
referia a uma ideologia em defesa de um projeto dentro dos marcos
de uma sociedade capitalista.
Schneider (Woo-Cumings, 1999, p. 282), partindo da experiência
histórica do Brasil e do México, também conceitua o
desenvolvimentismo como ideologia, ou como visão de mundo para
a qual a industrialização é o objetivo maior e cabe ao Estado a tarefa de promovê-la. Para tanto, o Estado desenvolvimentista se
caracteriza por: (a) capitalismo político, já que investimentos e
lucros dependem de decisões estatais; (b) discurso na defesa do
desenvolvimento e da necessidade do Estado para promovê-lo; (c) exclusão política da maioria da população adulta; e (d) burocracia
fluida e fracamente institucionalizada.
Vejam-se a seguir, em ordem cronológica, outros trabalhos cujos
autores centram-se menos na conceituação do desenvolvimentismo como ideologia e mais na definição do que denominam “Estado
desenvolvimentista” e a política econômica a ele associada, sem,
todavia, deixarem de admitir que uma ideologia também se fez
presente para nortear e justificar as medidas tomadas pelos
governantes.
Medina (Gurrieri, 1980; Rodríguez, 2009, p. 237), em trabalho
pioneiro, considera que três aspectos se sobressaem para
desencadear e dar continuidade a políticas desenvolvimentistas: (a) atores, grupos sociais e organizações que os representam, como
empresários, intelectuais, burocracia estatal, elite política, operários
e classes médias, dentre outros; (b) adoção por parte deles de
comportamento ou conduta voltados à racionalidade e à visão de
mundo (“ideário do desenvolvimento”) requeridas pelo processo de
mudança; e (c) a articulação para se expressarem por meio do
Estado, ou seja, com força política para canalizarem seus anseios e
os verem materializados como política econômica, expressando-os como se fossem do conjunto da Nação.
Johnson (1982 apud Woo-Cumings, 1999) por sua vez, a partir da
experiência histórica japonesa no Pós-guerra – a qual percebeu
como diferente tanto dos modelos dos Estados Unidos e do Reino
Unido, mais liberais, e da União Soviética, de planejamento
centralizado – adotou o termo “estado desenvolvimentista” para
caracterizá-la, abrindo espaço para consagrar o uso da expressão.
Segundo ele, o Estado desenvolvimentista se caracteriza por (a) intervenção estatal através de políticas conscientes e consistentes
que consagram o desenvolvimento econômico como primeira
prioridade; (b) existência de uma burocracia estatal voltada a
escolher os setores a serem priorizados e a execução dos
programas de estímulo, com margem de atuação assegurada pelo
sistema político; (c) criação de instituições financeiras e outras
voltadas a viabilizar incentivos, como fiscais e orçamentários; (d)
criação de agência (como o MITI – Ministery of International Trade and Industry do Japão) para planejar e implantar as políticas voltadas a incrementar a industrialização acelerada (apud Woo-
Cumings, 1999, p. 38-39).
Já Wade (1990) elabora uma tipologia com vistas às tarefas ideais
atinentes ao Estado desenvolvimentista. Essas preenchem três níveis de profundidade, em ordem crescente: (a) o nível da
observação, com a combinação de investimentos produtivos,
responsáveis pela transferência de tecnologia para a produção,
investimentos em indústrias-chave e regulação da competição
internacional; (b) o nível causal, onde se encontram a acumulação
de capital em setores estratégicos e os mecanismos que serão
utilizados para fomentá-la; e (c) o nível da explicação, onde
aparecem as características mais típicas do estado desenvolvimentista, como seu caráter corporativo e capacidade de
orientar o mercado. Herrlein Jr. (2012), em tentativa de síntese da
visão de Wade, assinala que, para o autor, os atributos
caracterizadores do Estado desenvolvimentista são os seguintes: (a)
formulação e legitimação da estratégia de desenvolvimento
produtivo e do projeto nacional; (b) promoção da acumulação de
capital no território nacional, com seletividade setorial e tecnologias
de ponta, visando a maior agregação de valor no país; (c) fomento à formação de empresas competitivas no mercado mundial; (d)
promoção do progresso científico e tecnológico vinculado à
produção do país e sob controle nacional; (e) regulação do comércio
exterior e das relações financeiras externas; e (f) promoção da
estabilidade macroeconômica em sentido amplo (moeda e preços,
juros, câmbio, contas públicas e contas externas).
Evans (1992), por sua vez, inicialmente estabelece uma tipologia
na qual contrasta como extremos os estados predatórios (cujo exemplo é Zaire) e os desenvolvimentistas (Japão, Coreia e
Taiwan), admitindo que entre os dois tipos ideais aparecem casos
intermediários (Brasil e Índia), historicamente bem-sucedidos em
implantar o projeto de industrialização, mas não em promover
estruturas mais eficientes de gestão pública. O Estado
desenvolvimentista caracteriza-se por (a) impulso à industrialização
através de política intervencionista deliberada; (b) burocracia forte e
meritocrática, com força para implantar a estratégia de mudanças; e (c) canais institucionalizados para negociar metas e políticas com atores privados e segmentos sociais (dos quais as políticas
dependem para ser implantadas), canais estes que conferem ao
Estado ao mesmo tempo autonomia e inserção na sociedade,
fenômeno denominado pelo autor de “autonomia inserida” (embedded autonomy).
Já Chang (apud Woo-Cumings, 1999) defende que o Estado
desenvolvimentista deve cumprir quatro funções especiais: (a)
coordenação, principalmente das ações dos agentes privados, como
para viabilizar financiamento e realizar investimentos; (b) visão de
futuro, ou estratégia de desenvolvimento nacional, a qual envolve
atores, segmentos e classes que se fazem representar no Estado
para direcioná-lo nesse sentido; (c) construção de instituições voltadas a fomentar um ambiente propício ao desenvolvimento e a
sua continuidade (“veículos institucionais”); e administração de
conflitos, já que o processo de desenvolvimento é inerentemente
conflituoso, pois envolve ganhadores e perdedores, mesmo que
seus fins sejam sempre considerados desejáveis.
Amsden (2001, cap. 6), por sua vez, assinala que dois princípios
norteiam o desenvolvimentismo: tornar as indústrias lucrativas para
atrair capitais privados e induzir as empresas a compartilharem seus lucros com parte da população (é o único autor a mencionar algo
como redistribuição de renda ao referir-se a Estado
desenvolvimentista; Bielschowsky também o faz, mas no campo da
ideologia). Enumera, ainda, quatro funções inerentes ao Estado
desenvolvimentista: (a) criação de bancos de desenvolvimento; (b)
administração de conteúdo local; (c) “exclusão seletiva”, ou seja,
abertura de mercados para alguns setores mantendo outros
fechados; e (d) formação de empresas nacionais, função frisada ao longo de sua obra. Nota-se que todas essas funções dizem respeito
ao intervencionismo estatal como fator fundamental para a
industrialização, pois o desenvolvimentismo é a estratégia seguida
pelos países “do resto” (como a autora denomina os “não
desenvolvidos”) que despontaram com crescimento acelerado na
segunda metade do século XX.
Finalmente, Bresser-Pereira (2006, 2010), com olhos mais
voltados às experiências latino-americanas do século XX, menciona explicitamente o termo “desenvolvimentismo” (às vezes, alternativamente, nacional-desenvolvimentismo ou “antigo
desenvolvimentismo”), o qual define como uma estratégia
deliberada de política econômica para promover o desenvolvimento
econômico através do impulso à indústria nacional. Como características dessa política econômica são arroladas: (a) o
nacionalismo como ideologia, uma vez que a estratégia significa a
afirmação do Estado nacional e de suas instituições; (b) aglutinação
em sua defesa de segmentos sociais, como empresários,
trabalhadores, classes médias e burocracia estatal, esta última
recrutada por critérios meritocráticos; (c) industrialização orientada
pelo Estado através da substituição de importações, que lançava
mão de instrumentos como poupança forçada para realizar investimentos e de política industrial, muitas vezes com caráter
protecionista; e (d) ambiguidade em relação aos déficits públicos e
em conta corrente, bem como complacência em relação à inflação.
Da literatura consultada, constata-se que, apesar de os autores
terem partido de diferentes approaches teóricos e fundamentarem
suas análises em base empírica de variadas experiências históricas,
há variáveis comuns ou com alta frequência em seus trabalhos,
sugerindo a convergência para um possível “núcleo comum
principal” ou core do conceito, como mostra a Figura 3. Estas são:
a. a existência de um projeto deliberado ou estratégia tendo
como objeto a Nação e seu futuro. Essa pode ser associada,
com certa licenciosidade, a projeto nacional, desde que não
se entenda, por isso, repulsa ao capital estrangeiro nem
rompimento com a ordem internacional, mas simplesmente a
Nação como epicentro e destinatária do projeto;
b. a intervenção consciente e determinada do Estado com o
propósito de viabilizar o projeto, o que supõe atores aptos e
capazes para executá-lo no aparelho do Estado, com respaldo
social e político de segmentos e classes no conjunto da
sociedade;
c. a industrialização, como caminho para acelerar o
crescimento econômico, a produtividade e a difusão do
progresso técnico, inclusive para o setor primário.
Figura 3. Desenvolvimentismo: núcleo comum principal
Deve-se assinalar que todos os autores concebem o
desenvolvimentismo como fenômeno circunscrito a economias
capitalistas e vários deles salientam que os governos precisaram
constituir base social e política para executar o projeto, embora tais
segmentos variem de um autor para outro. O ponto comum é que o
projeto sempre passa por aumento da produção e da produtividade (o qual, às vezes, é tratado eufemisticamente como modernização),
trazendo-o à centralidade da formulação da política econômica, no
que se afasta da ortodoxia, cuja prioridade, via de regra, é a
estabilização. Percebe-se, ainda, que uma variável contextual
perpassa ou está subentendida em todas elas, e por isso será
explorada com mais acuidade na seção a seguir: a consciência ou
ato deliberado de alterar o 12 status quo.
Finalmente, faz-se mister arrolar outros atributos também
mencionados, embora com menor frequência, mas que às vezes receberam ênfase por parte de seus formuladores: (a) burocracia ou
grupo técnico recrutado por mérito para formular e/ou executar o
projeto; (b) planejamento econômico; (c) redistribuição de renda; (d)
reforma agrária; e (e) banco de desenvolvimento ou instituição de fomento. Alguns deles remetem aos segmentos ou classes sociais
de sustentação do projeto, como os empresários industriais, a
burocracia e os trabalhadores. Com relação a outros atributos, como
redistribuição de renda, a maior parte dos autores nem menciona,
enquanto outros o fazem em posição oposta: Bielschowsky e
Amsden, como já se mencionou, associam desenvolvimentismo à
proposta de renda mais igualmente distribuída, enquanto Schneider
e Evans sinalizam em sentido oposto. Da mesma forma, Wade e Chang mencionam a estabilidade como um dos atributos do estado
desenvolvimentista, enquanto Bresser-Pereira, ao contrário, frisa a
indisciplina fiscal e monetária das experiências históricas latino-
americanas. Em decorrência, esses atributos não integram o núcleo
comum do conceito, embora possam ser importantes para
caracterizar casos específicos ou subtipos.
4. Desenvolvimentismo e consciência
do subdesenvolvimento
Como termo cognato, desenvolvimentismo remete a
desenvolvimento. Este último, todavia, apareceu muito antes do
primeiro. Já na primeira escola econômica, a Fisiocracia francesa, a
pretensão do “Tableau Economique”, de Quesnay, não se restringia
a mostrar como a riqueza circulava, mas como crescia a partir do
excedente criado pela produção primária. O processo de produção
como criação de riqueza firmou-se a partir de A. Smith, e a ele se
associou, em meados do século XIX, o termo desenvolvimento ou
progresso econômico. Por este se denotava o caráter progressivo do sistema econômico e buscava-se entender as leis e tendências
explicativas dos impulsos e barreiras a sua expansão. Em certo
apelo à lógica hegeliana, pode-se dizer que desenvolvimento, para
se afirmar como categoria teórica, pressupunha seu termo antitético: o não desenvolvimento, ou seja, a interrupção do crescimento e as
crises. A possível existência de leis inerentes ao autoequilíbrio do
sistema e seu oposto e as teorias de ciclo e crise permearam o
debate econômico do século XIX. Nesse período não se falava propriamente em desenvolvimentismo, na acepção tomada mais
tarde na América Latina. Nesta, seja como retórica governamental
ou na construção teórica do estruturalismo cepalino, a preocupação
era, em certo sentido, inversa: por que, em uma situação histórica
específica, as leis ou variáveis que impulsionavam o
desenvolvimento dos “países centrais” não se faziam presentes na
América Latina, ou só ocorriam de forma parcial, fragmentária ou
problemática – o que resultava, por exemplo, em baixas taxas de crescimento do produto e de formação bruta de capital? A pergunta
já subentendia uma visão crítica à universalidade da Ciência
Econômica. O “não desenvolvimento”, então, não mais se opunha
antiteticamente apenas a crises cíclicas que conviviam com uma
lógica de expansão e de progressividade, mas à ausência, nos
países latino-americanos, deste caráter de progressividade, a
sugerir uma diferença marcante ou estrutural na ordem econômica
internacional. O “não desenvolvimento” passou inicialmente a ser visto como um problema associado a “atraso”; mais tarde, na
década de 1950, no pensamento cepalino, como um fenômeno
histórico e estrutural, o subdesenvolvimento. Coube a Furtado
(1961), nesse processo de construção conceitual, formular de forma
mais acabada o subdesenvolvimento como uma forma específica de
desenvolvimento capitalista. Desenvolvimentismo, numa primeira
aproximação conceitual, é uma resposta para superar o
subdesenvolvimento.
Tal percepção do desenvolvimentismo como programa ou guia
de ação aparece em todos os autores analisados na seção anterior,
embora com diferentes terminologias (projeto, estratégia,
racionalidade, funções a desempenhar). Trata-se, portanto, de
política econômica implantada deliberadamente, pois supõe ato
volitivo, portador de consciência e vontade para alterar certa
situação existente e dar-lhe outro rumo. Em vários países latino-
americanos, tal consciência começou a se formar já no século XIX, mormente em sua segunda metade. Sem pretensão de generalizar ou subestimar particularidades locais, observa-se que as elites
dirigentes ou econômicas, civis e militares, que emergiram como
protagonistas à frente dos estados nacionais nascentes após suas
independências políticas, com o fim do antigo sistema colonial, gradualmente começaram a perceber o vulto dos problemas com os
quais se defrontavam e as dificuldades para superá-los. A noção
corriqueira de “país jovem” – cujo imaginário acenava a um futuro
promissor, mais ou menos “natural” com o passar do tempo – servia
para justificar o status quo e ao mesmo tempo já subentendia a
necessidade de mudança. De forma embrionária, admitia-se estar
em uma “idade”, “fase”, ou “etapa” anterior aos “países centrais”
utilizados como modelo (basicamente França e Inglaterra, posteriormente Estados Unidos). Embora aparecessem propostas
revolucionárias, às vezes materializadas, como no México em 1910,
o imaginário geralmente acenava para uma mudança “natural” ou
gradual, compatível com a manutenção da ordem.
Não por acaso, o positivismo de Comte, cujo aparecimento se
dera na França pós-revolucionária visando a consolidar as
conquistas burguesas, mas dando por encerrado o ciclo
insurrecional e ao apregoar a ordem como pré-requisito ao progresso, em oposição aos socialistas e anarquistas, caiu como
uma luva para as elites latino-americanas como ideologia alternativa
ao liberalismo – mesmo que, ao contrário deste, quase nunca tenha
sido hegemônico como ideologia das elites de um estado nacional
latino-americano. Todavia, sua influência é fato não desprezível, o
qual só razões históricas muito peculiares podem explicar – posto
ser o liberalismo a ideologia oficial dos países mais ricos e
influentes, bem como a referência cultural do mundo ocidental em matéria de economia. Sob a influência do cientificismo e do
evolucionismo, Comte, que teve como mestre o “socialista utópico”
St. Simon, entendia o laissez-faire como ultrapassado: a sociedade
deveria ser governada por regras científicas, em uma república
laica, que substituiria o jogo partidário da política pela administração
meritocrática e profissional – a “ditadura científica”.
As recomendações de Comte (somadas a contribuições de outros
pensadores, como St. Simon, Stuart Mill e Spencer) foram adaptadas por seus seguidores ao contexto latino-americano, com variantes de país para país, às vezes com relativo afastamento das
propostas originais. Todavia, dentre as suas teses mais difundidas e
inspiradoras para a formação do desenvolvimentismo latino-
americano em sua gênese, podem-se ressaltar:
a. a história como um processo evolutivo, com etapas
progressivas a serem percorridas. Daí decorria a concepção de
passado e de futuro entrelaçados, ou seja, os problemas
coevos passaram a ser percebidos como “atraso”, não eram
fatalidade ou tampouco inalteráveis. O futuro deveria ser
construído e a evolução, embora gradual, poderia ser
acelerada. A aceleração do crescimento econômico e da
produtividade será uma bandeira das mais caras dos governos
desenvolvimentistas (Lautert, 2010);
b. o intervencionismo, porquanto caberia aos governantes a tarefa
de enfrentar as barreiras que se antepunham ao progresso. Daí
a ampliação da agenda do estado, ao qual se delegava papel
ativo, muito além de políticas anticíclicas em conjunturas de
crise, mas de forma mais abrangente e duradoura; na retórica
comtiana, “quando houvesse necessidade social”;
c. a noção, decorrente das duas anteriores, de que a política
deveria preceder a economia, posto que a ação humana
poderia (e deveria) alterar o curso da história, além de acelerá-
lo. Ao contrário do paradigma hegemônico, de cunho liberal,
cujo programa de pesquisa procurava descobrir leis inerentes
ao mercado ou ao sistema econômico na ausência de
intervenção, aqui o mercado era entendido como instituição e,
como tal, regulado ou subordinado a decisões prévias. Indo ao
limite, o futuro desenvolvimentismo em suas experiências mais
maduras defenderá o planejamento, isto é, um conjunto
consciente e racional de ações a ser implantado de forma
concatenada e acompanhada, com a explicitação de objetivos,
metas, meios e instrumentos para alcançá-los.
Observa-se, portanto, que, embora toda política econômica seja a
rigor interventora, o intervencionismo do Estado desenvolvimentista
não é para reforçar os mecanismos de mercado, mas para propiciar mudanças em direção a uma rota considerada desejável por seus
formuladores e executores. Não obstante, cabe aqui deixar claro
que “projeto” ou “estratégia” para o país não significa planejamento,
e nas experiências históricas latino-americanas os primeiros antecedem o último. Já na década de 1930, vários governos latino-
americanos começaram de forma deliberada a incentivar a
industrialização e a executar políticas econômicas que evidenciam
um projeto desenvolvimentista sem, todavia, existir ainda
planejamento, ou seja, um conjunto de ações resultante de um
plano ou documento a anteriori, que expressasse objetivos,
estabelecesse cronograma, quantificasse metas e os meios e
recursos para alcançá-las. Planejamento no sentido pleno da palavra só se verifica após a Segunda Guerra, e principalmente na
década de 1950, com a importante contribuição da CEPAL na
formação de quadros para sua elaboração e execução.
Certa confusão nesse sentido levou muitos autores a
denominarem a industrialização nas duas primeiras décadas após