Desenvolvimentismo: o conceito, as bases teóricas e as políticas

Processo de aprendizado, acumulação de conhecimento e Sistemas de Inovação: a “coevolução das tecnologias físicas e sociais” como fonte de desenvolvimento econômico

Processo de aprendizado,

 

acumulação de conhecimento e

 

Sistemas de Inovação: a

 

“coevolução das tecnologias

 

físicas e sociais” como fonte de

 

desenvolvimento econômico1

 

Adriano José Pereira, Ricardo Dathein

 

1. Introdução

 

Na perspectiva “institucionalista-evolucionária”,2 a empresa se

caracteriza como o agente central da inovação, desempenhando um

papel fundamental na dinâmica econômica das diferentes

economias capitalistas. Por esse motivo, tem sido considerada a unidade de análise para a compreensão do processo de

transformação, permanentemente em curso.

A empresa é uma instituição dotada de capacidade de

acumulação de conhecimento (Penrose, 2006), o qual vem sendo

tratado há algum tempo como o principal insumo produtivo,

responsável pelas constantes inovações. Por sua vez, em grande

medida as inovações têm sido resultado da trajetória evolutiva

empresarial, que é condicionada pelo processo de aprendizado que se dá nos ambientes interno e interativo em que a empresa atua.

O aprendizado tecnológico e organizacional é fruto das relações

internas (indivíduos entre si e com a empresa) e externas das

empresas (com outras organizações e instituições), demonstrando a

importância da produção e assimilação de conhecimento para a sua sobrevivência em um ambiente inovativo-competitivo. As empresas,

portanto, são instituições de aprendizado (Edquist, 2001), em que o

processo de aprendizado é condição inerente e indispensável à sua

existência, em função da permanente transformação dos cenários econômicos.

Ainda que as tecnologias da informação e comunicação (TICs)

tenham contribuído para uma crescente codificação do

conhecimento, abrindo uma “janela de oportunidade para a sua

difusão internacional” (Tigre, 2005), o seu uso eficiente depende da

capacidade de aprendizado, dos indivíduos e das organizações,

que, por sua vez, está associada ao conhecimento tácito. Dessa

forma, avançar em relação ao atual paradigma tecnoeconômico (“redes flexíveis”) (Pérez, 2001) tem implicado romper com o

aprendizado padronizado que predominou no paradigma anterior

(produção “em massa”). A priorização do conhecimento tácito

permite inclusive um melhor usufruto do conhecimento codificado, a

partir de sua crescente disponibilidade em função das TICs, dado

que a evolução dessas representou uma mudança estrutural

fundamental na transição para a economia do

conhecimento/aprendizado, que tem se destacado cada vez mais no atual paradigma tecnoeconômico.

Na esteira dessas mudanças e a partir das relações estabelecidas

intra e entre as diferentes organizações, o processo de aprendizado,

em seu sentido individual e, sobretudo, coletivo, tem se configurado

como um elo entre a geração, o uso e a disseminação de inovações

e o desenvolvimento econômico. Nesse sentido, ao

desempenharem simultaneamente o papel de agentes da inovação

e instituições de aprendizado, as empresas também se destacam como unidade de análise na abordagem “institucionalista-

evolucionária”, à medida que seu comportamento representa os

microfundamentos da macroeconomia (Dosi, 2006), sobretudo

quando se encontram articuladas em um sistema nacional de

inovações (SNI) (Freeman, 1995; Nelson, 2006a; Lundvall, 2007).

A partir dessas concepções teóricas, este capítulo faz uma

revisão da discussão sobre o papel do processo de aprendizado

para a consolidação de um SNI, cuja função principal é potencializar as condições que favorecem o desenvolvimento econômico, a partir da construção de um conhecimento coletivo, que tem como

finalidade a transformação via inovações tecnológicas,

organizacionais e institucionais, de forma concatenada; ou seja,

pretende-se avaliar, à luz da teoria “institucionalista-evolucionária”, de que forma os diferentes âmbitos econômicos (micro, meso e

macro)3 são articulados na busca do desenvolvimento como um

objetivo de longo prazo.

Como pressuposto central, entende-se que a abordagem

“institucionalista-evolucionária”, à medida que considera a

coevolução de tecnologias, estruturas econômicas e instituições

(Cimoli; Katz, 2002; Nelson, 2002, 2006b), reforça a importância do

papel do processo de aprendizado na consolidação dos sistemas de

inovação, portanto, na promoção do desenvolvimento econômico,

sendo a empresa o principal agente da mudança.

Na sequência deste capítulo, apresenta-se, na segunda seção,

uma síntese acerca do significado econômico de aprendizado,

sobretudo como resultado de ações coordenadas pelas empresas e

outros agentes da inovação. Na terceira seção, relacionam-se

inovação e desenvolvimento econômico, cujo processo de

aprendizado desempenha papel fundamental, destacando mais uma

vez a ação das empresas como agentes da transformação. Na

quarta seção, examina-se o papel do aprendizado para as

instituições empresariais (Robertson; Langlois, 1995) e dessas para a consolidação dos SNIs, numa perspectiva mesoeconômica, que

visa elucidar importantes relações existentes entre os aspectos

micro e macroeconômicos do desenvolvimento. Nas considerações

finais, elaboram-se inter-relações das principais concepções

anteriores.

 

2. Taxonomia e significado econômico

 

de aprendizado

 

Partindo de um entendimento mais amplo do significado de

aprendizado, esta seção tem a finalidade de apresentar diferentes enfoques sobre o seu sentido e importância, visando destacar o seu significado econômico, como um processo permanentemente em

curso que estabelece um elo entre os aspectos micro-

organizacionais e macroinstitucionais.

O processo de aprendizado, entendido em seu sentido amplo,

abrange os vários tipos de learning, dado que as instituições

empresariais são produtoras e disseminadoras de diferentes

tecnologias e de formas de organização da produção em escala

nacional e internacional. Entretanto, cada empresa possui trajetória

específica, que estabelece quanto de seu comportamento é

padronizado (global) e quanto é definido a partir de suas condições

próprias de funcionamento (sectorial, local, contextual e firm-

specific).

Esse processo de aprendizado é derivado de um contexto que

abrange os mecanismos de produção e transmissão do

conhecimento na economia do aprendizado, tratando do

desenvolvimento de competências e capacitações, por parte dos

indivíduos e das organizações, como um processo fundamental na

busca da solução de problemas (Johnson; Lundvall, 2005). É por

esses motivos que, conforme Rutten, Boekema e Kuijpers (2003),

aprendizado é o mesmo que “criação de conhecimento”.4

Existe uma grande quantidade de tipos de aprendizado

relacionada por diferentes autores: learning-by-doing, leaning-by-

operating, learning-by-changing, learning-by-training, learning-by-hiring, learning-bysearching (Bell, 1984); learning-by-using, learning-

by-interact, learning from advances in science and technology,

learning from inter-industry spillover (Malerba, 1992); individual,

organizational and institutional learning (Edquist, 2001); e assim por

diante. A menor ou maior importância de cada um dos tipos de

aprendizado vai depender da forma como são combinados pela

organização, referindo-se tanto à dimensão interna quanto à externa

ou interativa de atuação da empresa.

Nesse sentido, há uma variedade de interpretações, apresentadas

na sequência, para compreender e analisar a importância do

aprendizado em uma economia capitalista. Nelas, é dada relevância

às diferentes combinações que compreendem uma gama de fatores

relacionados entre si, algumas vezes complementares, outras,

divergentes.

Bell (1984) ressalta que o termo learning tem sido usado para

identificar dois processos diferentes, ainda que diretamente

relacionados. O mais comum é o learning-by-doing, que significa o

processo de aquisição de conhecimento e habilidade baseado na experiência, caracterizando-se como um processo passivo,

automático e relativamente barato (o conhecimento é tratado como

um bem comercializável). Por sua vez, em um sentido mais amplo, o

termo learning se refere a um processo em que a empresa (e os

indivíduos em seu interior)5 aprimoram suas capacitações a ponto

de promover mudanças tecnológicas incrementais e também

radicais; trata-se, portanto, de um processo ativo, não automático e

relativamente caro (sobretudo porque envolve investimentos em

Pesquisa e Desenvolvimento-P&D). Nesse caso, há uma clara

distinção entre aquisição/utilização de tecnologia e desenvolvimento

de capacitação tecnológica.

Para Bell (1984), ganhos de produtividade (redução dos custos de

produção) costumam ser associados ao processo de aprendizado,

apontando a tendência da “curva de aprendizado”. Enquanto ganhos

de produtividade costumam ser associados ao uso de uma técnica

produtiva mais avançada, o processo de aprendizado implica o

desenvolvimento do conhecimento e das habilidades relacionadas

ao processo produtivo (capacitações tecnológicas).

Como destacam Lastres e Ferraz (1999), existem três

componentes principais do processo de aprendizado: o primeiro

está relacionado às competências centrais, que diferenciam as

empresas em relação à sua competitividade; o segundo é a

dimensão temporal, dado que o aprendizado costuma ser um

processo demorado, que tende a apresentar resultados no longo

prazo; por fim, o terceiro é o seu caráter idiossincrático (de difícil

reprodução, dado que é intrínseco às particularidades de cada

empresa).

Na visão de Coriat e Dosi (2002), existem dois “tipos ideais”, em

regra complementares, de processos de aprendizado

organizacional: um processo relacionado aos aspectos internos da

organização, tais como atividades de P&D e inovação tecnológica,

desenvolvido a partir das competências/capacitações e da rotina 6 da

organização; e outro relacionado à “aquisição externa de competências e modelos organizacionais”, que depende da forma

codificada do conhecimento, bem como da capacidade da

organização de introduzir um modelo que não foi elaborado a partir

da sua própria trajetória. Em síntese, o aprendizado organizacional é firm-specific, mas é também local, sectorial e contextual-specific.

Segundo Ernst (2003), existem três “movimentos circulares” (loop)

relacionados ao processo de aprendizado: o primeiro (single-loop

learning) caracteriza-se por ser uma “reação adaptativa” ao

conhecimento já produzido (codificado); o segundo (double-loop

learning) relaciona-se à capacidade de reflexão/solução de

problemas; e o terceiro (triple-loop learning) define-se pela forma

como se atingem os objetivos, abrangendo o segundo movimento e formando o que o autor conceitua como “reflective learning”. Em

suma: “If single-loop learning is described as improvement and

double-loop learning as renewal, then triple-loop learning may be

characterized as development” (Ernst, 2003, p. 115, grifo nosso).

De acordo com Viotti (2003), existem três modelos de inovação e

aprendizado: o “modelo linear” pressupõe que a pesquisa básica

seja o ponto de partida e as empresas apenas demandem a

tecnologia que, por sua vez, é uma mercadoria cuja aquisição/uso é semelhante ao de outras mercadorias; o modelo “elo de cadeia”

afirma que “[...] inovação é resultado de um processo de interação

entre oportunidades de mercado e a base de conhecimentos e

capacitações da firma” (p. 59); e o modelo “sistêmico”, que, apesar

de mais abrangente e aperfeiçoado, se comparado relativamente

aos outros dois, tem sua abordagem centrada na inovação, o que,

segundo o autor, limita o seu uso na compreensão do processo de

mudança tecnológica em países de industrialização retardatária, que pouco realizam inovações (radicais). A partir dessa condição, Viotti

(2003) propõe a utilização do “modelo de aprendizado tecnológico”

(Viotti, 2001), que divide o aprendizado entre ativo e passivo,

caracterizando a forma como se dá a absorção/ difusão e a

inovação incremental nesses países.

Johnson e Lundvall (2005) enfatizam que as décadas de 1980 e

1990 foram marcadas por um processo de aceleração do

desenvolvimento e da destruição do conhecimento, o que criou a necessidade de os indivíduos e instituições renovarem suas competências com mais frequência. Nesse cenário, a economia do

aprendizado passou a desempenhar um papel fundamental para o

desenvolvimento dos países, regiões, organizações, instituições etc.

Com base nisso, é importante diferenciar a exploração de uma

oportunidade de inovação, da utilização de um conhecimento

existente (Dosi; Malerba, 1996). Ressaltam os autores que existe

uma “armadilha” (competency trap) associada ao aprendizado, já

que esse tende a se relacionar às atividades operacionais mais do

que à inovação. Assim, o aprendizado envolveria problemas

relacionados à inércia e ao lock-in (Arthur, 1989) organizacional e

tecnológico (Audretsch, 2000), à medida que se limitaria ao

processo passivo de aquisição do conhecimento.

Um aspecto essencial é destacado por Cohen e Levinthal (1989 e

1990), sobre a existência de uma dupla face do processo de P&D, a

inovação e o aprendizado. O estoque de conhecimento de uma

firma é função de seu investimento em P&D e, também, da sua

capacidade de absorção do conhecimento existente (e que pode ser

absorvido, de acordo com a taxa de transbordamento) no seu

mercado e de outros mercados, e de instituições extramercado. A

capacidade inovativa de uma firma é, portanto, também função de sua habilidade em reconhecer, assimilar e aplicar essas novas

informações externas à firma. Nesse sentido, segundo os autores,

as firmas não investem em P&D apenas para a produção direta de

inovações, mas também para manter e desenvolver uma maior

capacidade de identificar, apreender e explorar o conhecimento

externo disponível. Essa capacidade de absorção depende de seu

conhecimento prévio acumulado, sendo, portanto, path-dependent.

Além disso, também é entendida como dependente de um esforço específico das firmas quando o conhecimento a ser adquirido não

está diretamente relacionado a sua atividade corrente, não sendo,

nesse caso, meramente um subproduto de suas atividades de P&D.

Desse modo, as firmas ampliam seu estoque de conhecimento com

uma maior capacidade de absorção (que é um tipo de aprendizado),

expandindo sua competência para gerar inovações.

A despeito das controvérsias e buscando-se as

complementaridades das diferentes interpretações dos autores supracitados, considera-se o aprendizado como um processo evolutivo e, portanto, não passivo, em que há uma assimilação do

conhecimento gerado externamente com a mesma facilidade e

eficiência em seu uso que o conhecimento gerado internamente à

empresa, a partir das suas interações.

Compreender o processo de aprendizado como passivo implica

aceitar a visão liberal de que o conhecimento é facilmente

transmitido, a exemplo do que pressupõe a teoria econômica

neoclássica (como um bem comercializável). Esse seria, portanto,

absorvido passivamente, como se o acesso à informação e à

tecnologia fosse condição necessária e suficiente para o

aprendizado individual e organizacional.

Como ressalta Lall (2003), aprender é um processo real e

significativo, não sendo automático nem passivo. Não há uma curva

de aprendizado uniforme, o que significa que diferentes empresas,

ainda que em um mesmo ramo produtivo, desenvolvem diferentes

processos de aprendizado, com custos diferenciados e incertezas

em relação aos resultados. Mesmo que todos os países tivessem

acesso às mais variadas tecnologias, ainda assim haveria a

necessidade de desenvolver um processo de aprendizado

adequado ao seu uso.

Assim sendo, adota-se o termo “processo de aprendizado” para

abranger as mais variadas relações entre os diferentes tipos de

learning, ressaltando-se que se trata de um processo enraizado

(embedded), dependente da trajetória (path-dependent), interativo,

cumulativo7 e, portanto, evolutivo, tanto no que se refere à trajetória

das organizações, quanto no que se refere à trajetória dos

indivíduos em seu interior. Daí a competitividade da empresa estar

relacionada à necessidade de criação, acumulação e utilização do

conhecimento, com maior eficiência e rapidez do que os seus

competidores.

Em suma, a taxonomia apresentada pelos autores, em sua

grande maioria, demonstra que não basta acesso ao conhecimento

(codificado) para haver aprendizado. Mais importante, o processo de

aprendizado pode ser limitado pela forma como se utiliza o

conhecimento disponível (via interação), tendo efeitos restritivos

sobre a inovação e o desenvolvimento econômico. Não há uma

uniformidade em relação aos seus resultados, tendo em vista a gama de combinações possíveis dos diferentes tipos de

aprendizado. Ou seja, o processo de aprendizado é evolutivo,

inclusive no que se refere à incerteza sobre os seus resultados.

No entanto, apesar de se caracterizar pela incerteza em relação

aos resultados futuros, considerando-se que é a base das

inovações, o processo de aprendizado desempenha um papel

fundamental na criação de condições que permitem uma atuação

mais eficiente da empresa em um ambiente inovativo-competitivo,

extrapolando o contexto da criação de inovações, já que atua na sua

interação da empresa com os demais agentes econômicos e

instituições. A incerteza diminui quando se passa da atividade

essencialmente criativa (desenvolvimento de pesquisa básica para novos produtos etc.) para o aprendizado relativo ao uso, à

adaptação etc., de inovações já existentes. Os riscos envolvendo o

conhecimento codificado são menores do que os que envolvem o

conhecimento tácito, no que se refere ao caráter evolutivo do

processo de aprendizado.

Além das competências, fundamentais para o funcionamento da

empresa, no que se refere às suas rotinas produtiva e

organizacional, o processo de aprendizado cria condições para que se desenvolvam capacitações, a fim de permitir que a empresa atue

num ambiente em constante transformação. A imperfeição das

rotinas exige que se estabeleça um mecanismo de seleção externo

à empresa, via competição no mercado, para que as rotinas

inadequadas sejam substituídas por aquelas que respondam, de

maneira mais eficiente, às mudanças no ambiente (interno e

externo) de atuação da empresa (Nelson, 2002). Dessa forma, a

empresa se caracteriza como uma “instituição de aprendizado”, em que o processo de aprendizado é essencial para a sua trajetória

evolutiva.

Assim sendo, o processo de aprendizado tem como resultados

fundamentais, que sustentam as inovações, o desenvolvimento de

competências e capacitações a partir das quais as empresas

definem suas trajetórias específicas, bem como sua capacidade de

atuação em um contexto em que a informação é crescentemente

difundida com maior facilidade e rapidez. Por ser fundamental para a solução de problemas, o processo de aprendizado é ainda mais valorizado pelas instituições empresariais, pois o conhecimento

tácito passou a ser cada vez mais um diferencial competitivo das

empresas que inovam.

De acordo com Edquist (2001), as empresas inovam em grande

parte a partir das suas relações com outras empresas, em um

processo que está condicionado pelo ambiente institucional, ao

mesmo tempo que o influencia. É nesse contexto de interação de

instituições, organizações e indivíduos que o processo de

aprendizado promove as inovações, no qual o conhecimento tácito é

fundamental. Ou seja, a inovação não é resultado de um processo

aleatório, mas sim do aprendizado individual e, sobretudo,

organizacional, no qual a interação desempenha papel fundamental.

Como ressalta Teece (2005), o conhecimento8 é a base do

desenvolvimento econômico, ao passo que as empresas são

agentes fundamentais; por sua vez, os “ativos humanos idiossincráticos” são uma condição necessária para o

crescimento/expansão das atividades das empresas.

Por sua vez, Hodgson (1999) observa que o conhecimento (tácito

e codificado) não depende tão somente da capacidade intelectual do

indivíduo, mas da sua interação com outros indivíduos em um

determinado ambiente, pois o processo de aprendizado é um

fenômeno coletivo. Faz-se necessário dotar os indivíduos de um

ambiente favorável ao aprendizado e, por conseguinte, à inovação. É por esse motivo que, conforme Dosi e Malerba (1996, p. 3), “The

theory considers firms as learning organizations which are

repositories of knowledge.”

Apesar do reconhecimento da importância do processo de

aprendizado e de sua relação com os conhecimentos tácito e

codificado, Lastres e Ferraz (1999, p. 40) observam que a definição

do “[...] papel do conhecimento na economia ainda é problemático

devido as suas características intrínsecas e particularmente à necessidade de apropriá-lo e transformá-lo (ou parte do mesmo) em

bem privado.” Isso se confirma a partir do fato de que, enquanto o

paradigma tecnoeconômico baseado no “modelo de produção em

série” tinha na mão de obra um custo e no treinamento uma

externalidade esperada, no “modelo de redes flexíveis” a mão de

obra se transformou em um ativo e o treinamento em um investimento (Pérez, 2001). No entanto, Johnson e Lundvall (2005,

p. 92) observam que existem dificuldades para a transformação do

conhecimento em bem privado, tendo em vista a sua natureza

interativa, ou seja, que o conhecimento é “socialmente produzido”. Por sua vez, a difusão do conhecimento ocorre quando existem

mecanismos de apropriação do novo conhecimento. Apesar do

avanço dos sistemas de comunicação e, por conseguinte, do acesso

à informação a baixos custos, é grande a importância do fator local

nesse processo (Audretsch, 2000), uma vez que o conhecimento,

sobretudo o tácito, possui alto custo e dificuldades de transmissão, à

medida que é apenas parcialmente transmitido na interação de

indivíduos e de organizações, o que reforça a importância das aglomerações (fator local). Por isso, a propensão para a ocorrência

de atividades inovativas, numa aglomeração industrial, tende a ser

maior quanto mais importante for o papel do conhecimento tácito, ou

seja, quanto mais aprofundado for o processo de aprendizado

interno e principalmente interativo.

O aprendizado organizacional se dá ao longo do tempo, a partir

da aquisição e adaptação de competências/capacitações

desenvolvidas pela empresa (é path-dependent). Por sua vez, a sobrevivência das empresas, no longo prazo, depende da sua

capacidade de inovação, de apropriação dos resultados e da

construção de um processo de aprendizado cumulativo, que permita

a sua constante evolução. Como argumenta Nelson (2006a, p.183):

“[...] as aptidões de uma empresa devem incluir o controle sobre ou

o acesso aos ativos e atividades complementares necessárias para

capacitá-la a obter lucros a partir da inovação.” Para Possas (2005),

isso é possível em função das idiossincrasias dos processos de aprendizado locais e específicos.

Mesmo preservando divergências pontuais a respeito da

importância e do significado econômico de processo de

aprendizado, as posições são basicamente complementares ao

considerarem que este é o resultado da interação entre os

diferentes agentes da inovação, na qual a empresa desempenha um

papel de destaque. Nesse sentido, em uma perspectiva

“institucionalista-evolucionária”, o processo de aprendizado tem se caracterizado como path-dependent, enraizado e cumulativo, ainda que seus resultados não sejam previsíveis. Trata-se, portanto, de

um processo dinâmico, de caráter essencialmente evolutivo.

 

3. Inovação, processo de aprendizado

 

e desenvolvimento econômico

 

A teoria econômica evolucionária (Nelson; Winter, 2005; Nelson,

2006b) adota como um dos pontos de partida o conceito de

desenvolvimento de Schumpeter (1997b), para quem esse é

caracterizado por um processo de mudança/transformação, em que

a inovação (novos bens, novos mercados, novos métodos de

produção, novas fontes de ofertas e novas formas organizacionais) 9

desempenha um papel central. Essa visão se encaixa na

perspectiva de que desenvolvimento econômico é um processo

dinâmico; portanto, contrapõe-se frontalmente à teoria econômica

neoclássica e suas derivações.

Para Schumpeter (1997a), a “ordem capitalista” é representada

pela “sobrevivência institucional do capitalismo”, que tem caráter relativamente estável, ao passo que o “sistema capitalista” tende a

ser instável, sobretudo porque envolve aspectos relacionados às

dinâmicas produtiva e comercial. É por isso que “[...] a simples

instabilidade do ‘sistema’, se suficientemente grave, pode ameaçar

a estabilidade da ‘ordem’ [...]”. (ibid., p. 71). Nesse sentido, o

crescimento econômico não é, em si mesmo, “[...] uma fonte de

instabilidade, seja para o sistema, seja para a ordem do capitalismo”

(ibid., p. 78), à medida que se trata de um processo de adaptação/ajuste das condições produtivas, comerciais, etc., mais

especificamente, do “ciclo de negócios”.

O crescimento econômico pode ocorrer sem que haja

transformações estruturais e institucionais, ou seja, sem que a

“ordem e o sistema capitalistas” sejam abalados; ainda assim

implica um processo de mudança, mas não “evolucionária”. Nesse

sentido, as mudanças necessárias ao desenvolvimento são oriundas

de “respostas criativas”, não se limitando a “respostas adaptativas” (Schumpeter, 1947).

Deve-se observar, no entanto, que, apesar do fato de

Schumpeter, em sua obra de 1911, “Teoria do desenvolvimento

econômico: uma investigação sobre lucros, capital, crédito, juro e o

ciclo econômico” (1997b), não dar ênfase às instituições e à mudança institucional como elementos fundamentais para o

desenvolvimento econômico, centrando o seu conceito em fatores

estruturais (tecnológicos e organizacionais), sabese que estes estão

interligados aos fatores institucionais, sobretudo no que se refere ao

funcionamento da empresa. À medida que se leva em consideração

o ambiente específico a partir do/para o qual a inovação foi

gerada/direcionada, esta acaba revelando o seu caráter

institucional, aspecto que Schumpeter viria a ressaltar em seu texto de 1928, “A instabilidade do capitalismo” (1997a).

Em obra posterior, Schumpeter (1984) enfatiza o sentido de

incerteza em relação à mudança, bem como o caráter institucional

do processo de “destruição criativa”. A inovação não estaria limitada

a um processo técnico; envolveria, também, uma dimensão

institucional, tanto no que se refere à empresa quanto ao seu

contexto de interação. A consideração da importância das estruturas

de oligopólio para a “destruição criativa” no capitalismo é uma evidência de que Schumpeter (1984) tinha a percepção de que os

fatores institucionais afetam a forma como ocorrem as inovações.

Schumpeter (1984, p. 112) ressalta que o capitalismo é um

processo evolutivo (“conforme enfatizado há tanto tempo por Karl

Marx”), em que as inovações constituem-se no fator central da

evolução, tendo nas empresas (oligopólios, predominantemente) os

agentes principais dessas transformações. Nessa visão sistêmica,

inserem-se vários fatores, inclusive os de natureza institucional. Como observa o autor, em passagem emblemática de sua obra: “[...]

normalmente se vê o problema de como o capitalismo administra as

estruturas existentes, enquanto o relevante é saber como ele as cria

e destrói” (Schumpeter, 1984, p. 114). Este é o aspecto central que

tem norteado a análise “evolucionária” desde Nelson e Winter

(2005): os elementos que explicam a dinâmica da mudança são de

natureza tecnológica, organizacional e também institucional.

Nesse sentido, algumas condições devem ser levadas em

consideração para a compreensão do processo de desenvolvimento econômico a partir da abordagem “institucionalista-evolucionária”:

primeiro, deve-se considerar o fato de que as economias capitalistas

são diferenciadas em relação às suas trajetórias de crescimento a

partir dos arranjos institucionais e da sua estrutura produtiva vigente; segundo, que os processos de mudança têm raízes

históricas (são embedded ou enraizados); e terceiro, que o

comportamento das empresas é determinante para a ocorrência de

mudanças tecnológicas, à medida que são consideradas instituições

de produção, de negócios e de aprendizado. Deve-se ressaltar, no

entanto, que, apesar de o processo de inovação (Pavitt, 2003),

fundamental para o crescimento econômico capitalista, ser de

natureza essencialmente microeconômica (ou micro-organizacional), o processo de desenvolvimento econômico envolve aspectos

macroeconômicos em uma perspectiva de longo prazo.

As irregularidades inerentes aos processos inovativos provocam

descontinuidades no desenvolvimento econômico ao longo do

tempo (Schumpeter, 1997b); por isso, é fundamental compreender

os efeitos das mudanças históricas (macrodinâmicas) sobre os

processos econômicos (Schumpeter, 1947). Nesse sentido, a

perspectiva “institucionalista-evolucionária”, ao abordar conjuntamente as estratégias tecnológicas, as estruturas

organizacionais e os fatores institucionais (Nelson, 2006b, 2002,

1998; Cimoli; Katz, 2002), trata das organizações em suas

diferentes dimensões (ambientes) de análise (firm, sectorial, local,

contextual e country-specific). É através da interação entre esses

três diferentes aspectos, relacionados às políticas e aos programas

governamentais, que, segundo Nelson (2002), é possível

compreender a dinâmica e as particularidades do processo de desenvolvimento econômico. Faz-se necessário que se

desenvolvam condições, tanto organizacionais quanto institucionais,

de forma simultânea e inter-relacionada, para que as inovações

tecnológicas tenham suas potencialidades convertidas em

instrumentos do desenvolvimento econômico. Nesse contexto, o

processo de aprendizado tem papel fundamental.

Em síntese, é isso que torna a distinção entre crescimento e

desenvolvimento econômico um tema sempre relevante e atual: trata-se de processos de mudança estreitamente relacionados, mas diferenciados, justamente em virtude do sentido que têm as

mudanças, ou seja, da forma como se dá a combinação entre os

fatores estruturais e institucionais, e os resultados daí decorrentes.

Crescimento não implica, necessariamente, mudanças estruturais e institucionais; por sua vez, desenvolvimento implica crescimento

com mudanças estruturais e institucionais, de forma concatenada.

Nessa perspectiva, é possível haver crescimento sem inovações;

mas, para haver desenvolvimento, faz-se necessário crescimento

com inovações. As “respostas criativas” são fundamentais para que

o desenvolvimento econômico se consolide como um projeto de

longo prazo.

Nesse sentido, o processo de aprendizado passa a ser entendido

como o elo entre inovações (estruturais e institucionais) e

desenvolvimento econômico, representando um acúmulo de

competências e capacitações, no qual o fator humano e a

organização produtiva são agentes centrais da mudança. Ou seja, o

conhecimento gerado a partir do processo de aprendizado é a

essência do desenvolvimento econômico (Lundvall, 2007).

De acordo com Nelson (2006b, p. 10), o processo de catch-up

tecnológico requer inovação. Portanto, “For countries aiming to catch up, the basic challenge is to learn to master new ways of doing

thing.” Além disso, o autor observa que as condições de

aprendizado e de acesso ao conhecimento (codificado) existentes

hoje contribuem para que o catch-up tecnológico seja mais

facilmente atingido na atualidade do que no passado (meio século

atrás, conforme Nelson). Em contrapartida, o conhecimento tácito

segue sendo um diferencial nos processos inovativos, mesmo que

venha se transformando, cada vez mais rapidamente, em conhecimento codificado, devido à redução do “ciclo tecnológico”

(Pérez, 2001) e do crescente avanço das tecnologias da informação.

A tecnologia, vista como um bem público (teoria neoclássica),

está associada ao conhecimento genérico e ao seu processo de

codificação. À medida que também está associado à capacidade de

utilização em uma organização específica, pela forma como esta

relaciona os seus processos produtivos e organizacionais aos

produtos gerados, o conhecimento tácito torna-se fundamental. Como observa Nelson (2006a, p. 100), em relação à importância do conhecimento tácito: “[...] a ‘transferência tecnológica’ pode ser tão

cara e consumir tanto tempo quanto uma P&D independente. [...]

mesmo se o operador original estiver aberto e for prestativo”.

Nessa perspectiva, Dunning (1997) observa que a velocidade das

transformações tem acelerado o processo de aprendizado (dos

indivíduos e das organizações) que, por sua vez, tende a reduzir os

custos e o tempo da mudança. Os avanços tecnológicos têm

demandado maior interação entre os processos de produção e

inovação, reforçando o papel do processo de aprendizado no nível

micro-organizacional.

A inovação passa a ser resultado do processo de aprendizado

(organizational and individual learning) (Edquist, 2001); somam-se a

isso o caráter 10 path-dependent e as rotinas, que geram

competências e capacitações, que, por sua vez, estão

condicionadas pela interação entre os agentes econômicos e desses com as instituições. É nesse sentido que a difusão do

conhecimento, proporcionada pelo processo de aprendizado, exerce

um papel fundamental no desenvolvimento econômico. Em síntese,

o desenvolvimento econômico é um processo complexo, que

envolve a criação e o desenvolvimento de instituições e sua

interface com a estrutura produtiva, em que a inovação e a

acumulação do conhecimento são fundamentais para a mudança

(Reinert, 2007).

Conforme Chang (2007), as instituições possuem três funções

fundamentais para a promoção do desenvolvimento econômico: 1)

coordenação e administração; 2) aprendizado e inovação; e 3)

redistribuição de renda e coesão social. A complexidade das

relações entre instituições e desenvolvimento econômico estaria

associada ao fato de que, em primeiro lugar, uma instituição pode

ter mais de uma função; em segundo lugar, diferentes instituições

podem ter a mesma função; e, terceiro, uma mesma função pode ser exercida por diferentes instituições, em diferentes sociedades ou

em uma mesma sociedade em tempos distintos. Ressalta-se que as

instituições têm caráter idiossincrático e são dinâmicas, estando

sujeitas, portanto, à inovação.

A função de uma instituição é mais importante do que a sua

forma; é por isso que “transplantar” instituições não implica que estas produzirão no país de destino os mesmos efeitos que

produziram no de origem, como propõem os defensores das

“instituições de padrão global” (global standard institutions) (Chang,

2007), reproduzidas a partir das instituições anglo-americanas.

Desse modo, entende-se que as inovações institucionais são

fundamentais para o desenvolvimento econômico, a exemplo do que

ocorre com as demais inovações ressaltadas originalmente por

Schumpeter (1997b). A forma como as diferentes inovações são

combinadas condiciona o desempenho e a trajetória das economias,

revelando, através dos arranjos institucionais, a importância dos

aspectos microeconômicos para a dinâmica macroeconômica.

 

4. Sistemas de inovação, arranjos

 

institucionais e “tecnologias sociais”

 

À medida que a importância do processo de aprendizado para a

competitividade da empresa extrapola os limites dessa instituição,

criam-se condições para o aumento das vantagens competitivas de

uma determinada economia em seu conjunto, a partir de um ou mais

ramos de atividade econômica específicos, estejam estes limitados

territorialmente (regional e local) ou não. Nesse sentido, um SNI

compreende um conjunto de relações entre as diferentes formas de

inovação e a promoção do aprendizado (Lundvall, 2007).

Os Sistemas de Inovação (SIs)11 são caracterizados pela busca

por inovação num processo individual (empresa) e coletivo (outras

empresas e organizações), abrangendo, de maneira simultânea, aspectos micro, meso e macroeconômicos, principalmente quando é

tratado pelo Estado como um “sistema nacional”.

Tigre (2005, p. 212) ressalta, em relação aos SIs, que “O principal

foco de análise é a interação entre os atores econômicos, sociais e

políticos que fortalece capacitações e favorece a difusão de

inovações em um determinado país.” Assim sendo, o desempenho

de um SI está relacionado a um “processo evolucionário”, cuja

trajetória compreende aspectos relativos ao conhecimento, à tecnologia, aos atores (governos, empresas, laboratórios,

universidades etc.) e aos arranjos institucionais (Malerba, 2003).

O tratamento dispensado aos SIs centrava-se originalmente no

nível macroeconômico, à medida que abordava os aspectos institucionais relativos às políticas públicas e sua integração com as

estratégias empresariais de inovação. A ênfase se dava sobre a

ação de conjunto, em que as empresas eram tratadas de forma

agregada, juntamente com os demais agentes inovadores 12

(Possas, 2005).

Esse enfoque original mais abrangente logo se desdobrou para

enfatizar a importância dos níveis setoriais e regionais. Isso

contribuiu para que a análise “institucionalista-evolucionária”, a partir

de seus pressupostos fundamentais, ganhasse importância ainda

maior, tendo em vista que a empresa, a partir da sua ação inovadora

e da sua relação de complementaridade com outros agentes (públicos e privados) desempenhasse um papel central nesse

processo. As relações entre os âmbitos micro e macro, permeados

pelos arranjos institucionais, ao ressaltarem a importância das

empresas como “instituições que aprendem”, passaram a ser o foco

de análise do tratamento dedicado à “abordagem institucionalista-

evolucionária” dos SIs.

Por esse motivo, Edquist (2001) entende que há a necessidade

de um tratamento conceitual, o mais simples e esclarecedor possível, acerca do significado de SIs: sistema seria uma reunião de

diferentes componentes, 13 relacionados entre si, dado um

determinado contexto (espacial, setorial e funcional), enquanto inovações seriam criações com significado econômico. Nesse

sentido, conforme o autor, não há uma teoria (apreciativa)14 sobre

SIs, mas sim um “referencial teórico” que permite avaliar um conjunto de fatores e a forma como suas relações estão associadas

às inovações, sobretudo no que se refere às ações e interações das

empresas.

Um SNI se estabelece a partir de um processo interativo das

diversas organizações e instituições, dos setores público e privado,

cujas atividades/funções estão voltadas à produção, à difusão e ao

uso de inovações (Freeman, 1995; Edquist, 2001). Observa-se que

existem diferentes determinantes e formas de combinação entre os fatores relacionados, que sustentam os processos inovativos ao

longo do tempo.

Com base nisso, o SNI é considerado uma “criação social e não

governamental” (Pérez, 2001). No entanto, a autora ressalta que o Estado desempenha papel fundamental no processo de aglutinação

de interesses e incentivos à promoção de inovações (aspecto

macroinstitucional), bem como tem capacidade própria de promover

inovações através de empresas e órgãos públicos (universidades e

laboratórios de pesquisa).

Nesse sentido, Nelson (2006a, p. 430) observa que “Não há

qualquer presunção de que esse sistema tenha sido

conscientemente projetado ou mesmo que o conjunto de instituições envolvidas trabalhe conjuntamente de maneira harmônica e

coerente.” Sistema, conforme o autor, trata de atores institucionais

que, atuando conjuntamente, afetam o desempenho inovador das

economias e, por conseguinte, o seu processo de desenvolvimento.

Isso posto, não existe um modelo de SNI a ser adotado, nem a

necessidade de que ele se estabeleça a partir de inovações

radicais, na fronteira do conhecimento (Lundvall, 2007).

Um SNI reflete, em grande medida, a forma como o Estado

estabelece políticas, definindo prioridades ao longo do tempo, e se

utiliza das condições favoráveis dos mercados (em âmbitos nacional

e internacional) como um recurso indispensável à promoção do

desempenho econômico. As inovações tecnológicas,

organizacionais e institucionais são moldadas a partir dessa

complexa e intrincada relação e acabarão por refletir a posição das

diferentes economias nacionais em função de sua dotação de

recursos (naturais e moldados pelo SNI) (Nelson, 2006a).

Edquist (2001) ressalta que o Estado tem papel fundamental no

processo de inovação, mesmo quando se limita a sua influência

sobre as regras do jogo. No entanto, à medida que as políticas

governamentais afetam a economia como um todo, o Estado passa

a ser considerado um agente da inovação, no sentido de que atua

no incentivo ao desenvolvimento de capacidades de busca de

solução de problemas. Em relação à ação efetiva sobre políticas de

inovação, segundo esse autor, por um lado, o Estado complementa (estimula, subsidia etc.) as ações das empresas e dos mercados; por outro, o próprio Estado desenvolve funções inovativas

(laboratórios, universidades etc.), as quais desempenham um

importante papel no desenvolvimento dos SIs.15

Após a análise de um estudo sobre um conjunto de países

desenvolvidos e em desenvolvimento16 que coordenou, Nelson

(2006a, p. 450) formulou uma questão fundamental acerca de SNIs:

“Em que medida existem realmente ‘sistemas de inovação’, e, se

existirem, até onde e de que maneira eles são definidos por Estados

nacionais?”.

A resposta para tal pergunta passaria pelo entendimento da forma

como as “tecnologias sociais” 17 (Nelson, 2008, 2002) são

incorporadas aos “arranjos institucionais”. Cada país, em sua

trajetória específica, constrói cenários que permitem o desenvolvimento competitivo de setores e/ou ramos de atividade em

que a interação entre os diferentes agentes da inovação contribui

para as mudanças tecnológicas, organizacionais e institucionais.

Isso ocorre mesmo que esses setores/ ramos de atividade não

abranjam toda a esfera nacional, mas tenham sido fundamentais

para proporcionar o desenvolvimento econômico e a inserção

internacional em uma economia crescentemente globalizada

(Johnson; Lundvall, 2005). Além disso, a crescente globalização tem acentuado, em vez de diminuído (como propunham as políticas

liberalizantes das décadas de 1980 e 1990), a importância do papel

do Estado nacional e, por conseguinte, reforçado a importância dos

SNIs como forma alternativa de política de desenvolvimento

(Freeman, 1995).

Em contrapartida, como destacam Nelson (2006a) e Lundvall

(2007), para que um país seja competitivo no cenário internacional,

não há a necessidade de que seus produtos sejam de alta tecnologia, baseados em elevada densidade de P&D. A história tem

demonstrado que as diferentes economias capitalistas têm sido

caracterizadas por atividades similares que criam oportunidades de

aprendizado díspares, em que a existência de um SNI não implica

que o foco devam ser as indústrias tecnologicamente avançadas. A

concepção dos dois autores a respeito de inovação demonstra que

a competitividade de um país (“vantagens competitivas nacionais”,

assim definidas por Michael Porter) está relacionada às possibilidades de as empresas fazerem uso dos recursos

disponíveis e do ambiente institucional, que favorecem o

desenvolvimento de sua capacidade inovativo-competitiva.18

Para Reinert (1994), essa situação é ainda mais latente quando

se contrasta uma economia de um país desenvolvido com a de um

retardatário; e, mesmo entre os países de industrialização

retardatária, as disparidades de aprendizado condicionam o processo de catching up de formas diferenciadas. Segundo esse

autor, a partir de uma perspectiva histórica, os países atualmente

desenvolvidos realizaram o catching up basicamente adotando uma

estratégia de dois estágios. O primeiro, chamado List-cum-Smith,

teria se caracterizado pela forte intervenção do Estado, identificando

o potencial de desenvolvimento nacional baseado na indústria. No

segundo, “smithiano puro”, teria havido uma ênfase no livre

comércio, tendo em vista que o país já teria atingido uma condição produtiva industrial suficientemente eficiente para fazer a

concorrência potencial frente a outros países. Conforme o autor,

essa estratégia ainda é válida, em razão da necessidade de se

identificar “boas” atividades econômicas, a partir das quais o Estado

deve direcionar as suas políticas (seletivas) de desenvolvimento.

Por ser um processo activity-specific, o desenvolvimento

econômico tem uma forte relação com a criação e o

aprofundamento de um SNI, que contemple atividades econômicas de “qualidade” (Reinert, 1994). O autor ressalta que, no contexto

atual, é mais difícil identificar tais atividades, comparando-se ao que

fora feito no passado (séculos XIX e início do XX) por parte dos

países atualmente desenvolvidos, dada a diversidade de atividades

produtivas, em função da profusão de inovações e do avanço

tecnológico e informacional acelerado. Portanto, as estratégias de

desenvolvimento dos países retardatários passariam, em grande

medida, pela retomada da forma como os países atualmente desenvolvidos promoveram os seus processos de catching up, no

que se refere à identificação das “atividades econômicas de

qualidade” e a sua capacidade de gerar um SNI (semelhante ao que

fizeram alguns países, inclusive no período pré-capitalista).

Os díspares estágios tecnológicos e de conhecimento em que se

encontram os países estão relacionados às suas trajetórias de desenvolvimento, que têm nos aspectos institucionais relativos ao

aprendizado e à inovação fatores socialmente integradores dos seus

SIs. Diferentes países têm distintas formas de desenvolver e

incorporar inovações, bem como de promover o aprendizado necessário para que tais processos se concretizem. As “tecnologias

sociais”, institucionalizadas ou não, são fruto de trajetórias

idiossincráticas, que condicionam a evolução dos SIs.

Conforme Johnson e Lundvall (2005, p. 83), à medida que o atual

contexto tem se caracterizado pelo aumento da competitividade

através das inovações, “[...] o aprendizado institucional e o capital

social tendem a tornar-se elementos-chave nas estratégias de

desenvolvimento.” É a partir dos SIs que as diferentes economias tendem a criar condições para fazer frente a essas mudanças, que

se dão em contexto globalizado e instável.

O SNI “[...] coloca no centro da análise a coevolução de estruturas

econômicas e instituições e a forma como essa coevolução afeta a

produção e o uso do ‘capital intelectual’” (Johnson; Lundvall, 2005,

p. 98). Portanto, sua análise relaciona fatores estruturais e

institucionais, e a forma como esses afetam e são afetados pela

dinâmica do processo de aprendizado, tendo em vista que esse tem natureza interativa e é socialmente condicionado. Dessa forma,

tanto o conhecimento tácito quanto as rotinas produtivas e

organizacionais, sobretudo quando relacionadas ao contexto

inovativo-competitivo 19 das empresas, são fundamentais quando se

trata de SIs.

O aumento da velocidade das transformações no atual paradigma

tecnoeconômico reforça a importância do componente tácito do

conhecimento e a necessidade de um processo de aprendizado

interativo, que se dá, por exemplo, através de “redes de

cooperação” (“tecnologia social”). Quanto mais acelerado o

processo de mudança em economia, maior tende a ser a importância da interatividade e do conhecimento tácito, justamente

em função de que as TICs permitem um acesso cada vez mais

rápido ao crescente acúmulo de conhecimento codificado.

Desse processo, depreende-se que a importância das

“tecnologias sociais institucionalizadas” é fundamental para tratar

dos SIs, pois essas desempenham importante papel no processo de aprendizado interativo das organizações (e dos indivíduos em seu

interior), sobretudo porque a inovação é decorrência da forma como

as organizações combinam suas características idiossincráticas com

as do meio em que atuam.

Compreender o significado de SNI implica analisar a forma como

se desenvolve o sistema de aprendizado de um determinado país,

seja no que se refere aos processos inovativos (solução de

problemas), seja na sua relação com o sistema educacional. O

aprendizado individual é fundamental para o aprendizado

organizacional. Em outros termos, o conhecimento e o aprendizado

(individual e coletivo) são a base do processo de inovação; portanto,

são aspectos-chave de um SNI (Edquist, 2001).

Apesar da influência da P&D, existe uma série de outros fatores

(sistema educacional, treinamento, acumulação de conhecimento,

interação entre produtores e usuários de tecnologia etc.) que

também exerce influência sobre a inovação (sobretudo a

incremental). Esses fatores estão relacionados às formas como

estão organizados os processos de trabalho, bem como à maneira

como se dá o processo de interação entre as organizações (redes

de cooperação, fornecedores etc.), ou seja, são reflexos das “tecnologias sociais” adotadas em determinado contexto

institucional.

Além disso, em uma perspectiva histórica, a imitação serviu como

ponto de partida para a promoção do catching up tecnológico de

alguns países (os mais citados são o Japão e a Coreia do Sul),

ainda que tenha exigido desses uma série de mudanças, sobretudo

em seu sistema de aprendizado (educação, treinamento etc.).

Revelou-se nesse processo a importância de fatores qualitativos, com mudanças nas “tecnologias sociais”, que promoveram as bases

para a evolução de um SNI (Freeman, 1995).

A diversidade, e não a convergência das taxas de crescimento

econômico e do avanço tecnológico, é que caracteriza o processo

evolucionário ao qual estão submetidas as diferentes economias

capitalistas ao longo da história. Isso é válido também para os

processos inovativos, levando-se em consideração as diferentes

formas como cada país estabeleceu, ainda que precariamente, o

seu SNI, a partir das suas tecnologias sociais enraizadas 20.

As “tecnologias sociais” institucionalizadas são também

nacionalmente enraizadas, contribuindo e impondo restrições ao

desenvolvimento nacional e dos SNIs. Assim, a composição e o

desenvolvimento de um SNI, como potencial científico-tecnológico e produtivo de um país, têm estado condicionados à necessidade da

promoção, de forma concatenada, de inovações tecnológicas,

organizacionais e institucionais e, portanto, à evolução do processo

de aprendizado a partir das relações internas e, principalmente,

interativas das empresas.

Tendo em vista que um SNI compreende relações entre diferentes

formas de inovação (tecnológicas, organizacionais e institucionais) e

a promoção do aprendizado, a maneira como as empresas, a partir do âmbito micro-organizacional, articulam-se com outros agentes da

inovação (públicos e privados), promovendo a criação/difusão de

“tecnologias sociais”, exerce importante influência sobre o

desenvolvimento. Por sua vez, as políticas macroeconômicas

constituem-se em aspectos condicionantes da promoção de SIs,

podendo até mesmo determinar a sua existência, mas não a sua

evolução. Ou seja, não basta a aplicação de políticas

macroeconômicas que visem ao desenvolvimento de SIs, sobretudo em âmbito nacional, a partir da adesão dos agentes empresariais.

Além disso, faz-se necessário o desenvolvimento de um elo

mesoeconômico entre os âmbitos micro e macro, que tem se dado

através do processo de aprendizado, a partir do qual se

desenvolvem os potenciais de criação e difusão do conhecimento,

condicionado pela incorporação das “tecnologias sociais” aos

arranjos institucionais vigentes.

Como destacam Cimoli e Della Giusta (1998), as “estratégias

institucionais” são fundamentais para que haja um feedback entre

competências/capacitações das organizações e performance

econômica, constituindo-se em um elo fundamental dos níveis micro

e macroeconômico, afetando diretamente o desenvolvimento

econômico nacional, a partir do funcionamento de seus SIs.

 

5. Considerações finais

Crescimento e desenvolvimento são termos importantes para a

Biologia, que foram incorporados à Economia. Por vezes são

tratados como sinônimos, pressupondo que todo crescimento é

acompanhado de mudanças cumulativas, levando a um processo de desenvolvimento. De fato, por mais que tais analogias tenham sido

consagradas pelo uso, em Economia, esses dois processos não são

intercambiáveis. Crescimento é uma condição necessária, mas não

suficiente para o desenvolvimento, a menos que este último

processo já tenha sido, em grande medida, consolidado, ou seja,

que a combinação das diferentes formas de inovação (tecnológicas,

organizacionais e institucionais) tenha promovido condições

favoráveis ao desenvolvimento econômico numa perspectiva de longo prazo. Em suma, na perspectiva “institucionalista-

evolucionária”, desenvolvimento é sinônimo de crescimento

sustentado e duradouro, a partir da ocorrência de inovações de

forma concatenada.

Assim, o SNI passou a ser entendido como suporte fundamental

para a promoção do desenvolvimento econômico, pois compreende

um conjunto de atores e instituições cuja trajetória interativa tem

sido fundamental para o desempenho das economias industrializadas, em uma perspectiva histórica.

A existência de SNIs tem refletido a importância das políticas que

articulam os diferentes âmbitos econômicos (micro, meso e macro)

na busca do desenvolvimento. Ressalte-se que o papel dos SIs no

desenvolvimento econômico nacional é fortemente condicionado por

fatores country-specific, o que costuma requerer, sobretudo no caso

das economias em desenvolvimento, uma promoção de políticas

favoráveis à criação/ampliação de ambientes inovativos, ou seja, de incentivo ao aprendizado interno e sobretudo interativo como

mecanismo de transformação. O Estado tem papel importante na

institucionalização das “tecnologias sociais”.

As trajetórias econômicas idiossincráticas evidenciam em que

medida os SNIs têm sido destacados na alavancagem do

desenvolvimento. Por sua vez, o processo de aprendizado das

instituições empresariais, em seus âmbitos interno e, sobretudo,

interativo (alianças e redes de cooperação etc.), tem se caracterizado como um fator fundamental para a geração/uso/difusão de inovações, e, é nesse sentido que tem sido

concebido como instrumento do desenvolvimento econômico,

amparado nas “tecnologias sociais” e potencializado a partir do

desenvolvimento dos SIs (locais, setoriais e sobretudo nacional).

O consenso que tem se estabelecido, na perspectiva

“institucionalista-evolucionária”, de que as inovações tecnológicas

são a força principal das mudanças econômicas, reforça a

necessidade de compreensão acerca dos fatores que estimulam e

condicionam o processo de transformação. Nesse contexto, as

“tecnologias sociais”, à medida que são institucionalizadas, criam

um suporte necessário para que as “tecnologias físicas” evoluam.

Essa coevolução é fundamental para a consolidação dos SIs e tem, no processo de aprendizado, um elo entre inovações e

desenvolvimento econômico, com papel central das empresas.

É a partir da geração/difusão das inovações, proporcionada pelo

processo de aprendizado, que são estabelecidas as bases da

relação micro-macroeconômica, em que as empresas se destacam

na acumulação de conhecimentos. A “coevolução das tecnologias

físicas e sociais”, como parte central do processo de transformação

econômica, tem demonstrado a importância dos sistemas de inovação para potencializar o papel das empresas como

dinamizadoras do processo de aprendizado como um instrumento

de acumulação de conhecimentos, que afeta positivamente o

desenvolvimento econômico.

Em suma, o processo de aprendizado é parte inerente e

indissociável da “coevolução das tecnologias físicas e sociais” e,

portanto, da consolidação dos SIs. Ao propiciar um desempenho

evolutivo positivo em termos micro e mesoeconômicos, condicionado por aspectos macroinstitucionais, o processo de

aprendizado se constitui em um fator fundamental para o

desenvolvimento, tendo a empresa como seu principal portador.

 

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