Desenvolvimentismo: o conceito, as bases teóricas e as políticas
Padrões de eficiência no comércio: definições e implicações normativas
Padrões de eficiência no
comércio: definições e
implicações normativas
Marcilene Martins
1. Introdução
Quando fazemos referência ao padrão de especialização
comercial de um país, pensamos na composição setorial do seu
comércio exterior vis-a-vis a estrutura setorial do comércio mundial.
E quando indagamos se um padrão de especialização é de boa ou
má qualidade, tendemos a compará-lo a determinado padrão de
comércio internacional, avaliado como sendo desejável segundo
algum critério previamente definido. Importa também frisar que a
adjetivação de um padrão de comércio com sendo bom ou ruim, dinâmico ou inerte, traz embutida uma opção teórico-metodológica
por um dado critério definido de “eficiência econômica”. Ocorre que
nem sempre essa opção conceitual adotada é devidamente
explicitada, o que acaba por induzir à falsa ideia de que existiria algo
como um critério universal de eficiência, contribuindo também para
obscurecer a possibilidade de uma análise efetiva das prescrições e
implicações normativas que submergem a cada dado padrão de
especialização.
As considerações acima sintetizam o eixo de interpretação deste
capítulo, cujo argumento central é o de que a perspectiva de se
qualificar o padrão de especialização comercial remete à
necessidade de alguma noção prévia de eficiência econômica,
sendo tal especificação imprescindível ao objetivo de se avaliar as
implicações alocativas e técnico-produtivas dinâmicas associadas a
um dado qualquer padrão de especialização comercial.
Além desta introdução, o capítulo compõe-se de mais quatro
seções. A seção 1 discute três noções alternativas de eficiência no
comércio, demarcando suas diferenças conceituais e de caráter
normativo. A seção 2 complementa esta discussão, atentando para algumas dificuldades relacionadas à operacionalização de tais
conceitos de eficiência. A seção 3 caracteriza os padrões de
especialização comercial definidos em correspondência aos
distintos conceitos de eficiência, enfocando a questão da
possibilidade de trade-offs entre eles e as implicações daí
decorrentes. A seção 4 apresenta as considerações finais do
capítulo.
2. Critérios alternativos à definição de
Eficiência no Comércio
Ao buscarmos por um embasamento teórico que permita uma
discussão conceitual e, a partir daí, uma análise das implicações
normativas associadas a um dado padrão de especialização
comercial, deparamo-nos com a necessidade de alguma noção
prévia de progressiveness, no sentido de eficiência no comércio. A
literatura econômica oferece três possibilidades para apoiar tal
definição: “eficiência ricardiana” (ricardian efficiency), “eficiência em
crescimento” (growth efficiency) e “eficiência schumpeteriana” (schumpeterian efficiency) (Dosi; Tyson; Zysman, 1989; Dosi; Pavitt;
Soete, 1990).
A “eficiência ricardiana” inscreve-se no campo da teoria ortodoxa
e remete, pois, às abordagens Clássica (Modelo Ricardiano) e
Neoclássica (modelo de Heckscher-Ohlin) do comércio
internacional, que têm como ponto de partida o conceito de
vantagem comparativa de custos. Tal conceito nos diz que um país
possui vantagem comparativa na produção de um bem se o custo de oportunidade da produção do mesmo em termos de outros bens
é mais baixo do que o obtido em outros países.
Partindo desse conceito, a “eficiência ricardiana” baseia-se na
ideia-chave de que os recursos produtivos estarão sendo empregados com a máxima eficiência (alocativa), se distribuídos em
consonância à estrutura intersetorial de vantagens/desvantagens
comparativas de custos do país. A teoria prescreve que cada país
deve se especializar em produzir bens nos quais apresente vantagem comparativa de custos. Tal condição ocorre quando o
custo de oportunidade de produzir um bem em termos de outros
bens é mais baixo do que em outros países, donde se pode concluir
que são as diferenças internacionais na produtividade do trabalho
que definem a condição de vantagem/desvantagem comparativa de
custos e, por conseguinte, os padrões de especialização produtiva e
comercial do país.
Lembramos, no parágrafo anterior, que as teorias Ricardiana e
Neoclássica do comércio internacional têm como ponto de partida
comum o conceito de vantagem comparativa de custos. Ressalte-se
agora que as hipóteses formuladas por uma e outra teoria,
sobretudo no que diz respeito à tecnologia, são bastante distintas 1.
Daí observar-se que estas teorias tomam rumos diferentes quando
se trata de descrever o mecanismo básico de operação do conceito
de vantagens comparativas enquanto determinante da
especialização no comércio.
A teoria Ricardiana explica o comércio entre países em termos
estritamente das diferenças internacionais na produtividade do
trabalho, do que resulta a condição de vantagem ou desvantagem comparativa de custos de um dado país na produção de um bem
qualquer. As diferenças na produtividade do trabalho entre países se
explicam pela hipótese de que as tecnologias são não uniformes,
inclusive no interior de um mesmo país.
Já a teoria Neoclássica enfoca as diferenças de recursos entre
países, relacionando-as à abundância relativa dos fatores
domésticos de produção e à intensidade relativa com a qual
diferentes fatores de produção são usados na produção de bens diferentes. A proposição central é de que os países tendem ase
especializar na produção de benscuja produção requeira maior
quantidade do fator relativamente abundante em termos domésticos.
Ambas as teorias concluem pela existência de diferentes custos
de oportunidade em cada país, mas enquanto a teoria Ricardiana
explica essas diferenças como decorrência da existência de diferentes tecnologias, para a teoria Neoclássica o que as explicam
são as diferentes dotações de fatores de produção.
Demarcadas as diferenças de fundo entre as teorias Ricardiana e
Neoclássica, cumpre agora esclarecer que quando falamos da “eficiência ricardiana” é dos modelos de comércio desenvolvidos na
tradição do pensamento neoclássico que estamos falando. Tais
modelos se baseiam na hipótese de que os mercados operam sob
concorrência perfeita. Supõem, portanto, retornos constantes de
escala, pleno emprego e livre mobilidade dos fatores de produção e
funções de produção e de demanda “bem comportadas” (tecnologia
uniforme e preferências dos consumidores estáveis) e idênticas
entre países. Satisfeitas estas condições, supõe-se a ocorrência de ajustamentos (via preços relativos) suficientes para garantir ex
hypothesi o equilíbrio dos mercados de bens e fatores (Dosi; Soete,
1988, p. 403). Tais hipóteses desembocam na assertiva de que a
especialização comercial guiada pela “eficiência ricardiana” constitui
uma condição necessária e suficiente para o país obter ganhos no
comércio, independente da magnitude absoluta dos seus custos de
produção. Dito de outro modo,
De acordo com a teoria da vantagem comparativa, mesmo um país com uma
desvantagem absoluta de produção, no sentido de custos de produção
domésticos mais elevados para todas as mercadorias comercializadas, se
beneficia do comércio pela exportação daquelas mercadorias em relação as
quais suas desvantagens de produção são menores. (Dosi; Tyson; Zysman,
1989, p. 6).
Como resultado, em qualquer dado momento, a estrutura
intersetorial de vantagens/desvantagens comparativas de custos,
que é definida pela disponibilidade relativa dos fatores de produção,
determina a composição e a participação do país no comércio
internacional. Os agentes econômicos responderão invariável e
imediatamente a essa estrutura, desde que disponham de um
sistema de incentivos (preços) que funcione a contento. Guerrieri
(1994) descreve esse processo nos seguintes termos:
O pensamento ortodoxo vê a mudança estrutural como um suave e contínuo
processo decorrente de uma correta estrutura de incentivos (preços)
desfrutada por economias abertas. Nesta perspectiva, mudanças ao longo do
tempo na estrutura industrial são meramente vistas como um subproduto
automático de mudanças em termos de vantagem comparativa. No curso do
desenvolvimento, a vantagem comparativa é assegurada buscando-se por
“fundamentos corretos” [‘getting fundamentals right’] através de fortes
vínculos com o mercado internacional. (Guerrieri, 1994, p. 171).
O relaxamento de algumas hipóteses do modelo neoclássico
padrão, nos termos acima descritos, é suficiente para romper com a
simplicidade do mecanismo de ajustamento e o automatismo dos
resultados nele previstos. Assim, admitindo-se, por exemplo, a
possibilidade de funções de produção variáveis (diferentes) entre
países, a equalização de preços deixa de ser automática; admitindo-
se a possibilidade de economias de escala e, por conseguinte,
retornos crescentes de escala, há que se relativizar a hipótese de que as vantagens do comércio se distribuem de forma igualitária
entre os países; admitindo-se a existência de “imperfeições” de
mercado, a hipótese de modelos de equilíbrio “geral” para o
comércio não mais se sustenta. Com efeito, tais condições apontam
para resultados que contrastam com os previstos pelo modelo
neoclássico padrão. Nesse sentido, poder-se-ia concluir, por
exemplo, que
[...] em geral, os preços dos fatores não estão equilibrados, existem rendas
oligopólicas, os padrões de comércio não dependem apenas das dotações de
fatores dos países, os graus e formas de ‘imperfeições’ de mercado tornam-
se um determinante por si mesmos da localização da produção e do comércio
(Dosi; Soete, 1988, p. 403-406)2.
O conceito de “eficiência em crescimento”, ainda que nomeado e
operacionalizado por autores da vertente neoschumpeteriana (Dosi;
Pavitt; Soete, 1990; Dosi, Tyson; Zysman, 1989), remete à teoria
Kaldoriana3. Recuperando alguns principais argumentos de Kaldor
acerca da relação entre padrão de comércio exportador e
crescimento econômico, sintetizamo-los nos seguintes pontos: I) o crescimento econômico é induzido pela demanda (demand-
induced), ao invés de restringido pelos recursos (resource
constrained), com a demanda externa vindo a cumprir o papel de
principal fator propulsor do crescimento da taxa de produto; II)
variações das importações se explicam em função mais de
variações da renda real do que dos preços; III) a elasticidade-preço da demanda é um fator que importa no que tange à exportação de
“bens tradicionais”, isto é, no caso daqueles produtos para os quais
as inovações tecnológicas se mostrem de menor importância; IV) o
crescimento das exportações de um país é resultado dos esforços feitos no sentido da busca de novos mercados potenciais e da
capacidade em adaptar sua estrutura produtiva ao perfil da
demanda internacional. Depende, assim, da elasticidade-renda da
demanda internacional por seus produtos, a qual será tanto mais
alta quanto maiores forem as capacidades inovativa e adaptativa
dos exportadores; V) os países desenvolvidos apresentam elevadas
elasticidades-renda das exportações e baixas elasticidades-renda
das importações, o que reflete sua liderança no desenvolvimento de novos produtos (Kaldor, 1981, p. 339-340).
A noção de “eficiência em crescimento” apoia-se inteiramente
nesta visão Kaldoriana do comércio, da qual incorpora a hipótese de
uma relação positiva entre a magnitude da elasticidade-renda da
demanda internacional, a capacidade de expansão das exportações
e a taxa prospectiva de crescimento econômico. A variável-chave
que define tal noção de “eficiência no comércio” é a elasticidade-
renda das mercadorias correspondentes a um dado padrão de especialização no comércio.
A “eficiência em crescimento” no comércio prescreve que as
exportações de um país tenderão a crescer tanto mais rápida e
firmemente quanto mais elevados os seus coeficientes de
elasticidade-renda, e que o padrão de especialização no comércio
será tão mais eficiente quanto maior a participação relativa de
exportações de elevada elasticidade-renda da demanda
internacional. É então afirmada a hipótese de uma interação positiva entre expansão das exportações e crescimento econômico,
assumindo-se que uma estrutura exportadora de caráter market-
dynamic pode favorecer maiores taxas de crescimento econômico,
permitindo com isto, inclusive, um deslocamento “para frente” da
restrição ao crescimento imposta pelo desequilíbrio do balanço de
pagamentos; mesmo na hipótese de uma elevação do coeficiente de
importações induzida pelo crescimento da renda real. (Dosi; Pavitt;
Soete, 1990, p. 208).
De um ponto de vista normativo, o conceito de “eficiência em
crescimento” converge para a preocupação em avaliar como o
potencial de crescimento de longo prazo pode ser afetado pela
composição do produto e do comércio nacionais. A resposta a essa questão remete aos elementos considerados nos dois parágrafos
precedentes, podendo ser sistematizada nos seguintes termos:
considerando-se tudo o mais constante, quanto maior e mais veloz a
taxa de crescimento da demanda internacional pelos produtos de
um país em resposta ao crescimento da renda mundial, maior a
perspectiva de se obterem elevadas taxas de crescimento
econômico. Considerando que os produtos/setores diferem entre si
no tocante à elasticidade-renda, um padrão de especialização eficiente será aquele que se faça basear na exportação de produtos
market-dynamics ou de alta elasticidade-renda (de longo prazo) no
comércio mundial. Em perspectiva dinâmica, uma trajetória de
especialização comercial convergente para o padrão de demanda
internacional caracterizar-se-á por uma elevação do grau de
similaridade entre as estruturas de exportação nacional e mundial.
Voltando ao esquema teórico de Kaldor, vale ressaltar a
importância nele conferida ao desenvolvimento tecnológico e à habilidade inovativa dos agentes econômicos, como fatores
explicativos dos diferenciais de elasticidade-renda das exportações.
Nesse sentido, ao identificar na contraposição entre alta
elasticidade-renda das exportações versus baixa elasticidade-renda
das importações, uma situação característica aos países
desenvolvidos e um reflexo de sua liderança no que concerne ao
desenvolvimento de novos produtos, Kaldor explica que
O progresso tecnológico é um processo contínuo e em grande parte adquire
a forma do desenvolvimento do marketing de novos produtos, os quais
proporcionam uma nova forma preferida de satisfazer alguma demanda
existente. Tais novos produtos, se bem sucedidos, gradualmente substituem
o produto preexistente que serve às mesmas necessidades, e no curso desse
processo de substituição, a demanda pelo novo produto cresce acima do
crescimento geral da demanda resultante do crescimento econômico. Como
resultado, os exportadores mais bem sucedidos estarão aptos a alcançarem
maior penetração tanto nos mercados internacionais quanto nos domésticos,
porque seus produtos substituirão os produtos existentes. (Kaldor, 1981, p.
340).
A transcrição acima evidencia a percepção acurada de Kaldor
acerca do papel central cumprido pelo progresso técnico na
redefinição dos padrões de demanda e de produção nacionais.
Ocorre que nem o próprio Kaldor nem os autores que sua teoria inspirara deram sequência à análise das propriedades e
características do progresso tecnológico e seus impactos dinâmicos
sobre o padrão de especialização. A superação desta lacuna
pressupõe incorporar-se ao conceito de “eficiência em crescimento”
o caráter endógeno e dinâmico do progresso técnico. É
precisamente este o ponto de partida ao conceito de “eficiência
schumpeteriana”, o qual pode ser considerado
[...] um desdobramento e uma sofisticação da contribuição de Kaldor, através
da agregação do aporte teórico encontrado em Schumpeter – destacando-se,
a este respeito, a introdução de uma distinção crucial entre os conceitos de
‘eficiência em Crescimento’ e ‘eficiência schumpeteriana’ [...] que tem como
raiz a endogeneização do progresso técnico feita por estes últimos. (Baptista,
2000, p. 24-25).
A distinção entre as noções de “eficiência em crescimento” e
“eficiência schumpeteriana” pode ser demarcada nos seguintes
termos: a “eficiência em crescimento” se preocupa em avaliar a
alocação de recursos com ênfase em seus efeitos sobre a taxa de
crescimento econômico de longo prazo; a explicação para as
diferenças intersetoriais de crescimento constitui o ponto de partida
da “eficiência schumpeteriana”, que considera o desenvolvimento
tecnológico como sendo o principal fator explicativo daquelas
diferenças e o motor do crescimento econômico, enfatizando-se ainda a relação entre padrões correntes de especialização e
mudança tecnológica, através dos efeitos dos primeiros sobre o
ritmo e a direção desta última (Dosi; Tyson; Zysman, 1989, p. 13)4.
A definição de “eficiência schumpeteriana” prescreve um padrão
de especialização baseado na exportação de produtos para os quais
se identifique um elevado grau de oportunidade, apropriabilidade e
cumulatividade tecnológica 5. A ideia de oportunidade tecnológica diz
respeito às possíveis rotas de desenvolvimento tecnológico – em
termos da possibilidade de aperfeiçoamentos e/ou ampliação do
leque de “artefatos” tecnológicos e do seu escopo de aplicação –
associadas a um dado paradigma tecnológico. Um grau elevado de oportunidade tecnológica significa um campo mais amplo de
possibilidades de introdução de inovações. Mas tal condição não é
suficiente para justificar a decisão de inovar. A disposição dos
agentes econômicos privados de investirem recursos na exploração de oportunidades tecnológicas depende ainda de como avaliam o
retorno econômico esperado com a inovação e a sua capacidade de
apropriar-se deles. Quanto mais favoráveis forem as expectativas de
“lucros monopólicos” associados à inovação, menores serão as
chances de que estas sejam facilmente imitadas por terceiros, mais
elevado será o grau de apropriabilidade privada dos retornos
econômicos a elas associadas e maior será o estímulo à inovação.
Além da ênfase nos aspectos de oportunidade e apropriabilidade
tecnológica, a noção de “eficiência schumpeteriana” baseia-se na
hipótese de que o padrão de mudança tecnológica não é exógeno
aos padrões correntes de especialização produtiva e comercial.
Estes últimos condicionarão aquele primeiro, positiva ou
negativamente, a depender do que ofereçam em termos de
externalidades positivas, oportunidades e grau de aprendizado
tecnológico. Isto significa dizer que a evolução dos padrões de
especialização encerra um elemento de cumulatividade (cumulativeness), no sentido de que o padrão corrente de alocação
de recursos – ao qual corresponderá um determinado padrão de
desenvolvimento tecnológico – condiciona as possibilidades futuras
de especialização.
A “eficiência ricardiana” é conceitualmente incompatível com as
noções de “eficiência kaldoriana” e “eficiência schumpeteriana”.
Funções de produção e demanda homogêneas e “bem-
comportadas” intrassetores e entre países são contrárias à ideia de que as atividades econômicas diferem entre si quanto às
características da tecnologia, os atributos estéticos e funcionais
(reais ou imaginários) dos produtos e o correspondente retorno
econômico, corrente e prospectivo, associado a cada produto/setor
de atividade.
Já a possibilidade de complementaridade entre as noções de
eficiência kaldoriana e schumpeteriana parece evidente, desde que
se aceite a hipótese de uma vinculação direta entre comércio exterior e progresso técnico. Assumindo que os produtos são não homogêneos, ao que se associa a existência de preferências não
uniformes no consumo, não é forçosa a hipótese de uma correlação
positiva entre maior grau de diferenciação dos produtos e maior
propensão a consumir quanto mais elevado o nível de renda. Admitindo-se que a possibilidade de tornar a demanda
positivamente mais elástica em relação à renda depende muito
fortemente da capacidade dos produtores de diferenciarem seus
produtos e associando-se tal capacidade à introdução de mudanças
técnicas na produção, decorre logicamente a proposição de uma
interação positiva entre dinamismo da demanda (interna e externa)
e capacidade de inovação 6.
A hipótese de uma vinculação positiva e direta entre comércio
exterior e progresso técnico acha-se explícita no clássico artigo de
Burenstam-Linder (1961), podendo ser também notada em Kaldor
(1981). Ela estabelece uma vinculação direta entre o potencial de expansão das exportações e o grau de diferenciação de produtos,
com a implicação, para a teoria do comércio, de que a contribuição
das exportações para o crescimento econômico será então
considerada como forte dependente da capacidade dos produtores
de inovar continuamente seus produtos a fim de alcançar os
mercados dos países de renda mais elevada. Essa ideia de uma
complementaridade entre as noções de eficiência kaldoriana e
schumpeteriana será retomada e aprofundada por Reinert (1994). Partindo da observação de que todas as experiências bem
sucedidas de catching up tiveram em comum uma estratégia de
desenvolvimento nacional que combinava estímulo às atividades
econômicas consideradas “superiores” com a manutenção de
mercados competitivos, e assumindo a hipótese – que é também
Kaldoriana – de que algumas atividades são melhores que outras
em termos da sua capacidade de induzir o crescimento e o
desenvolvimento econômico, Reinert defende a tese de que o desenvolvimento econômico é um fenômeno activity-specific.
Partindo desta ideia, propõe-se então avaliar a eficiência do
comércio, enquanto fator indutor do crescimento econômico, por
meio de um índice de qualidade das atividades econômicas que as
classifica de acordo com seu potencial de geração de riqueza e sua
contribuição para o desenvolvimento econômico. Por esse índice, aquelas atividades para as quais se identifique a possibilidade de
elevado ou baixo grau de oportunidade tecnológica são definidas
como superiores ou inferiores, respectivamente (Reinert, 1994,
p.169).
Assim, ao invés do critério de eficiência relativa, definida em
termos de vantagem comparativa de custos, Reinert propõe
distinguir entre atividades de boa ou má qualidade segundo o grau
de oportunidade tecnológica que elas encerram, portanto, segundo
um critério de eficiência absoluta de custos. Trata-se, pois, de uma
concepção de eficiência diametralmente oposta à da teoria
neoclássica, que considera as atividades econômicas como sendo
qualitativamente homogêneas, em termos dos seus efeitos sobre o crescimento econômico, de modo que seria indiferente ao
desenvolvimento de um país ele se especializar em produzir
computadores ou bananas.
3. Ainda sobre os conceitos de
eficiência no comércio: dificuldades
operacionais
Deseja-se aqui chamar a atenção para algumas dificuldades
relacionadas à operacionalização dos conceitos de eficiência acima
discutidos. O ponto em questão é que, rigorosamente falando,
nenhum daqueles conceitos se mostra diretamente aplicável aos dados de comércio.
O conceito de “eficiência ricardiana” baseia-se na definição de
vantagem comparativa de custos. Sua aplicação implicaria
necessidade de ter em conta a composição relativa dos preços e
salários em cada país considerado na transação comercial. Em
termos práticos, porém, o procedimento adotado consiste em
simplesmente traduzir a noção teórica de vantagem comparativa no
conceito empírico de vantagem revelada pelo comércio. E embora existam indicadores indiretos de “eficiência ricardiana” (por exemplo,
custo unitário do trabalho, produtividade total dos fatores), permanece a questão de que o custo de oportunidade da produção
local versus demanda externa não pode ser diretamente estimado,
como sugere a teoria, posto que o pleno emprego dos fatores de
produção nos países envolvidos na transação comercial é uma hipótese que não se verifica.
A “eficiência em crescimento” parte da hipótese de que os
coeficientes de elasticidade-renda da demanda internacional são
diferentes de produto para produto, devendo a eficiência
exportadora ser analisada à luz desse critério. Portanto, a rigor,
dever-se-ia partir de uma classificação das exportações definida em
termos de elasticidade-renda dos produtos, o que via de regra não
ocorre. O que se faz, concretamente, é substituir o que deveria ser um ordenamento explícito dos produtos segundo os coeficientes de
elasticidade-renda, pela hipótese intuitiva de que os produtos que
apresentarem maiores taxas de crescimento no mercado mundial
corresponderão aos de mais alta elasticidade-renda7.
Uma segunda qualificação importante é que além da elasticidade-
renda da demanda internacional, condicionam a expansão das
exportações a elasticidade-preço da demanda, os preços relativos
(termos de troca) e a taxa de câmbio8. É possível, assim, que
mesmo um país cujo padrão de comércio seja de baixa qualidade,
porquanto baseado na exportação de bens com baixo potencial de
crescimento da demanda em termos de elasticidade-renda, consiga,
a despeito disto, elevadas taxas de crescimento das exportações,
em decorrência, por exemplo, de uma tendência de queda dos
preços de seus produtos no mercado internacional. Logo, sem a especificação dos efeitos preço e renda na explicação da evolução
das exportações, corre-se o risco de tomar por “eficiência
crescimento” o que é tão somente “eficiência ricardiana”, ou seja,
uma expansão das exportações explicada por uma conjuntura de
preços favorável ao mercado comprador.
A aplicação do conceito de “eficiência schumpeteriana” ao
comércio parece ser ainda mais complexa. A dificuldade básica está
em conseguir operacionalizar (mensurar) os atributos de oportunidade, cumulatividade e apropriabilidade das inovações que
caracterizam o progresso técnico nos produtos/ setores
exportadores e importadores. Tal dificuldade decorre da complexidade inerente aos processos de geração e difusão
tecnológica. Esses processos, por sua natureza intrinsecamente
dinâmica, envolvem sempre algum grau de incerteza “substantiva”
(não passível de ser eliminável por meio de cálculo probabilístico), encerram determinações que são de natureza path dependent (a
direção imprimida ao progresso técnico não é aleatória, mas
condicionada por padrões previamente selecionados) e mecanismos
que são parcialmente tácitos ou específicos aos setores/produtos
(as capacitações e os ativos – tangíveis e intangíveis – são
específicos à firma; as estratégias competitivas e os condicionantes
técnico-produtivos respondem às especificidades do padrão de
concorrência vigente no setor de atuação das firmas; as trajetórias tecnológicas respondem, também, às especificidades técnico-
científicas colocadas por cada particular paradigma).
Na expectativa de algo que sirva como medida do grau de
oportunidade, apropriabilidade e cumulatividade tecnológica, a
alternativa tem sido a construção de indicadores de intensidade
tecnológica, utilizando-se geralmente como proxy para a tecnologia,
uma ou mais das seguintes variáveis: taxa de desenvolvimento de
novos produtos; aquisição/depósito de patentes; gasto com P&D como proporção da produção/vendas. A hipótese, implicitamente
assumida, é a de que uma maior intensidade em tecnologia pode
ser tomada como sinônimo de elevada oportunidade, cumulatividade
e apropriabilidade tecnológica.
Ocorre que as condicionantes da dinâmica tecnológica apenas se
revelam, em sentido pleno, enquanto expressão das características
essenciais das trajetórias tecnológicas. De modo que a
complexidade inerente ao caráter cumulativo do conhecimento tecnológico e à natureza sector-firm-specific da apropriabilidade e
oportunidade tecnológica não parece ser absolutamente resolvida
por meio da utilização de indicadores de intensidade tecnológica, e
isto pela razão primeira de que estes não conseguem ter em conta
as diferenças relativas aos mecanismos de introdução e difusão
tecnológica no interior e entre setores de atividades 9.
Uma segunda dificuldade que se apresenta à aplicação do
conceito de “eficiência schumpeteriana” decorre da constatação de
que o fato de um país exportar produtos intensivos em tecnologia não é por si só garantia de que ele disponha de uma elevada base
tecnológica, no sentido schumpeteriano, ou seja, que signifique a
construção de capacidade inovativa endógena. A vinculação –
quantitativa e qualitativa – entre expansão das exportações e das
importações deve ser aqui considerada10. Ocorrendo de a expansão
das exportações ter como contrapartida elevados coeficientes de
importação de insumos (equipamentos, componentes, etc), e a depender das características dos ativos tecnológicos adquiridos –
em termos da importância relativa do conteúdo “público” e
“protegido” da tecnologia –, bem como da forma de sua
incorporação na economia – no sentido da medida do esforço
imitativo/adaptativo/inovativo feito para tal incorporação –, o
resultado pode ser uma elevação da restrição externa ao
crescimento, no sentido Kaldoriano, ao invés de uma ampliação da
base tecnológica endógena, no sentido Schumpeteriano.
4. Padrões de eficiência no comércio
e a possibilidade de trade-offs:
significado e implicações normativas
A questão essencial implicada na discussão sobre a possibilidade
de trade-offs entre os diversos critérios de eficiência no comércio diz
respeito a se os efeitos cumulativos associados a um dado padrão
de especialização caracterizam interações “virtuosas” de
aprendizado tecnológico, ou se, ao contrário, traduzem círculos
“viciosos” de eficiência, no sentido de encerrarem um baixo grau de
aprendizado tecnológico e, por conseguinte, baixa capacidade de aumento da qualidade da especialização no longo prazo.
Parte-se do pressuposto de que a cumulatividade, como uma
característica intrínseca à evolução tecnológica, implica em também
supor que qualquer dado padrão corrente de alocação de recursos
produtivos encerra um maior ou menor grau de rigidez
(stubbornness), no sentido de que
[…] a configuração do perfil de especialização de determinado país – ou seja,
o tipo e composição das atividades econômicas do país em causa e seu
padrão de inserção no comércio internacional – apresenta uma inércia
significativa, dados os custos de entrada, de saída e irreversibilidades...
(Baptista, 2000, p. 56) 11.
Deve ser notado que a propriedade de cumulatividade da
tecnologia, que imprime à direção do desenvolvimento tecnológico
um sentido de dependência à sua trajetória passada (path-
dependencie), depõe contra a hipótese da teoria tradicional do
comércio segundo a qual o mercado por si só, necessária e
automaticamente, conduziria a economia a uma situação de máxima
eficiência alocativa, com o significado de que os ganhos no
comércio seriam extensivos a todos os países que, sintonizados
com suas vantagens comparativas naturais, comercializem entre si.
Em realidade, nada garante que a alocação de recursos induzida
pela estrutura de vantagens comparativas ricardianas será
igualmente benéfica para todos os parceiros comerciais. Como
observa Dosi (1987 p. 2), muito provavelmente ela não o será no
caso de países que não dispõem de um eficaz regime de
apropriabilidade tecnológica e cujo padrão de especialização se
caracterize pela ausência de significativas externalidades positivas e
por um baixo grau de oportunidade e aprendizado tecnológico. Noutras palavras, o “ponto de partida” de cada país, no que tange
aos aspectos de geração e de difusão de artefatos e conhecimentos
tecnológicos, é um fator que importa em termos da capacidade de
apropriação de ganhos no comércio associada a um dado padrão
prevalecente de especialização.
A consideração deste último aspecto remete a uma discussão
importante, em termos normativos, por suas implicações
relacionadas à definição de estratégias de especialização, ou seja, a possibilidade de trade-offs entre os critérios de “eficiência
ricardiana”, “em crescimento” e “schumpeteriana”. A ocorrência de
um trade-off pode ser definida como descrevendo uma situação em
que a condição de máxima eficiência alocativa de curto prazo
(ricardiana) ou não signifique o máximo crescimento econômico de
longo prazo ou não corresponda a um padrão de especialização que
mostre um elevado grau de oportunidade e aprendizado tecnológicos que o habilite a potencializar o crescimento da
economia para além do seu nível corrente. Ou seja, a existência de
trade-offs caracteriza uma situação em que os critérios de eficiência
no comércio não convergem entre si.
Tal discussão pode ser problematizada a partir da seguinte
indagação: sob que condição poder-se-ia esperar que uma alocação
de recursos guiada pelos sinais de mercado e dirigida pelo objetivo
do máximo retorno de curto prazo para o capital investido
(“eficiência ricardiana”) pudesse coincidir com a maximização do
potencial de crescimento de longo prazo da economia (“eficiência
em crescimento”) e da taxa de mudança tecnológica (“eficiência
schumpeteriana”)? Seriam duas as condições requeridas a tal convergência quanto aos critérios de eficiência no comércio: que a
economia funcionasse em condição de concorrência perfeita e,
nesse sentido, que qualquer dado padrão corrente de
especialização correspondesse à máxima eficiência alocativa de
curto prazo; que a lucratividade esperada nos setores de alta-
elasticidade renda da demanda internacional e elevada
oportunidade tecnológica fossem as mesmas auferidas dos setores
correntemente explorados pela especialização no comércio. Satisfeitas estas condições, poder-se-ia supor que a especialização
ótima no curto prazo mostraria igualmente ótima no longo prazo.
Sob tais hipóteses, variações nos preços de mercado
desencadeariam um processo de “ajustamento ricardiano” (Dosi;
Pavitt; Soete, 1990, p. 226), à base do qual as empresas
responderiam prontamente aos novos sinais do mercado, movendo-
se na direção das atividades que atendessem à condição de
máximo lucro/mínimo custo. Contudo, uma vez que se supõe a tecnologia constante, pode-se também supor que eventuais ganhos
de eficiência surgidos desse processo seriam do tipo once-and-for-
all12.
Suponhamos agora uma situação em que tais condições não se
verifiquem, digamos, uma economia cujos mercados de capitais e
de produtos funcionem de modo “imperfeito”. Na hipótese de
imperfeições no mercado de capitais,
[…] empresas ou futuros empreendedores podem ser capazes de levantar
fundos para investimento em indústrias que ofereçam altas taxas de retorno
sobre um relativo curto período de tempo, mas incapazes de levantar fundos
para investimento em indústrias que ofereçam retornos que são incertos,
dadas as condições existentes do mercado mundial, e recuperáveis somente
no longo prazo. De modo análogo, a existência de imperfeições nos
mercados de produtos “ torna impossível reconciliar plenamente os riscos e
os retornos futuros sobre o investimento corrente em indústrias e tecnologias
emergentes e incertas […] Devido a retornos crescentes, os sinais correntes
de mercado podem ser indicadores enganosos de lucratividade futura. (Dosi;
Tyson; Zysman, 1989, p. 17).
Conclui-se disso, que, na ausência de “imperfeições” de
mercado13, a especialização ótima no curto e no longo prazo
poderia convergir entre si, não havendo, porém, nenhuma garantia
de que tal ocorra, sendo outra a situação.
A teoria evolucionista, por seu turno, concebe a tecnologia, o
mercado e a relação entre ambos, numa visão diametralmente
oposta à da ortodoxia econômica. Os evolucionistas interpretam os fenômenos relacionados à mudança técnica e seus efeitos sobre o
comércio e o crescimento econômico, com base na concepção de
que a tecnologia e sua dinâmica evolutiva são endógenas ao
sistema econômico; exercem importante influência na evolução das
vantagens comparativas e constituem a principal fonte de criação de
vantagens absolutas, portanto, da competitividade estrutural da
economia; têm implicações dinâmicas sobre o ritmo e a direção do
progresso técnico e o potencial de longo prazo de crescimento econômico, condicionando, portanto, as possibilidades futuras de
especialização produtiva e de inserção comercial do país.
Afirma-se, assim, o caráter endógeno e dinâmico da tecnologia e
o seu papel determinante na obtenção de vantagens absolutas de
custos e a visão de que o mercado, para além de sua função
alocativa, constitui-se no principal mecanismo por meio do qual se
processa a “seleção” das estruturas organizacionais, produtivas e
tecnológicas. Admitindo-se que a economia opere em condições de mudança tecnológica, isto é, em condições não estacionárias, o que
se entende por “seleção” envolve fundamentalmente a descoberta e
o aproveitamento de oportunidades geradas ou impulsionadas pela
dinâmica do processo inovativo. Tal processo assume, assim, a
característica de um “ajustamento dinâmico”, por meio do qual operam as forças transformadoras da mudança tecnológica (Dosi;
Pavitt; Soete, 1990, p. 226).
Ressalte-se, ainda, que esse processo é não linear, ou seja, em
cada dado momento, e em ritmos diferenciados, setores/países estarão se aproximando ou se afastando da fronteira tecnológica
internacional, tornando-se relativamente mais ou menos
competitivos. A pressão exercida por esse “ajustamento dinâmico”
sobre as vantagens absolutas de custos dos setores/países,
sobrepõe-se aos efeitos estáticos do “ajustamento ricardiano” para
definir a composição do comércio e o nível de competitividade
internacional de qualquer dada economia (Dosi; Soete, 1983, p.
219).
A distinção entre os processos de ajustamento “estático”
(ricardiano) e “dinâmico” (kaldoriano e schumpeteriano, ajuda a
melhor perceber as implicações dinâmicas associadas ao
surgimento de trade-offs entre as diferentes noções de eficiência no
comércio. Comecemos por observar que
[…] enquanto o mecanismo das vantagens comparativas, baseado nos
preços relativos e na lucratividade relativa, indubitavelmente ainda opera e
pode explicar a especialização relativa, […] qualquer medida absoluta da
competitividade internacional de um país ou atividade é primariamente
baseada em suas vantagens/desvantagens absolutas (em termos da
tecnologia dos produtos e da produtividade do trabalho). (Dosi; Soete, 1983,
p. 211).
Por conseguinte, a composição do comércio e o nível de
competitividade internacional de uma economia qualquer,
determinar-se-ão em termos de eficiência schumpeteriana, sendo,
portanto,
[…] menos uma função de sua dotação nacional de fatores e vantagens
comparativas naturais, e mais uma função do complexo de estratégias
comerciais, industriais e tecnológicas seguidas por empresas e nações.
(Guerrieri, 1994, p. 199).
Assim, adicionalmente ao que já vimos discutindo, deve ser
notado que, no caso de não haver uma aderência entre os critérios
de eficiência alocativa estática (ricardiana) e dinâmica (kaldoriana e
schumpeteriana), a distância entre estes se expressará fundamentalmente sob a forma de hiatos tecnológicos. Por outro
lado, ressalta-se que o padrão futuro de vantagens/desvantagens
absolutas é condicionado, também, pelo padrão alocativo corrente.
De um ponto de vista normativo, a consideração desse
condicionamento mostra-se particularmente importante na situação
em que o padrão corrente de alocação de recursos tome a forma de
uma especialização do tipo ricardiana, quando se supõe que os
padrões de especialização e de lucratividade setoriais respondam a
decisões alocativas invariavelmente guiadas pela base de
vantagens comparativas naturais do país. Supõe-se ainda que
qualquer que seja o perfil de especialização resultante desta
orientação, ele terá o significado de um aproveitamento máximo dos recursos econômicos à disposição de cada agente econômico e, por
extensão, significará o melhor emprego possível dos recursos da
economia (máxima eficiência alocativa). E não há porque esperar
que havendo algum trade-off entre tal critério de eficiência, estática,
e os critérios de eficiência dinâmica, os mecanismos endógenos de
mercado por si só conduzam à sua eliminação, já que estes
(mecanismos de mercado), por hipótese, terão desde sempre
operado com a máxima eficiência possível.
Ademais, analisando esta questão sob o prisma dos agentes
econômicos individuais, deve ser observado que mesmo que os
empresários pudessem perceber com clareza as implicações
definitivas de suas decisões presentes – por exemplo, que a decisão
de não investir ou investir pouco em tecnologia fragiliza suas
possibilidades de retorno futuro –, o caráter cumulativo e irrevogável
das decisões anteriores pode tornar muito difícil alterar o padrão
corrente de especialização em direção a um mais eficiente, do tipo schumpeteriano.
5. Conclusões
As concepções de eficiência no comércio acima discutidas
diferem entre si quanto à definição, explícita ou não, do que seja
“qualidade” da especialização. A “eficiência ricardiana”, a bem dizer,
nem mesmo contempla qualquer preocupação diretamente relacionada à qualidade do comércio. Questões elementares, sob a
perspectiva de se avaliar o padrão de comércio, tais como o que,
quanto e como se exporta, não são consideradas pela “eficiência
ricardiana”. A hipótese implicitamente assumida é de que a satisfação da condição de “eficiência ricardiana” seria também
garantia de serem exportados os produtos “certos” e nas
quantidades “certas”. Já a definição de “eficiência em crescimento”
baseia-se explicitamente na concepção de que um padrão de
comércio de boa qualidade é o que se caracteriza pela exportação
de produtos com elevada elasticidade-renda no mercado
internacional. As questões de o que e quanto se exporta são então
avaliadas com base no critério de sua aderência ou não a essa noção de eficiência no comércio. Sob a definição de “eficiência
schumpeteriana”, a ideia de um perfil de especialização de boa
qualidade se expressa num padrão de exportação caracterizado por
produtos que signifiquem elevadas oportunidades futuras de
desenvolvimento tecnológico e de expansão das exportações no
longo prazo.
As definições de “eficiência no comércio” aqui discutidas
envolvem concepções distintas sobre o que seja “qualidade” da especialização e diferenciam-se entre si pelo modo como se
relacionam com o fator tempo. Há uma nítida contraposição entre,
de um lado, o conceito de “eficiência ricardiana”, cuja perspectiva de
análise é estática e de curto prazo, e de outro, os conceitos de
“eficiência em crescimento” e “schumpeteriana”, que compartilham
da preocupação com as implicações dinâmicas e de longo prazo
associadas a um dado padrão corrente de especialização.
Nos termos da “eficiência em crescimento”, trata-se de considerar
a interação entre mudanças de longo prazo na composição da
demanda e da renda internacionais e capacidade de resposta ou de
adaptação dos padrões nacionais de especialização comercial. A
“eficiência schumpeteriana” também se ocupa dessas questões,
mas o faz trazendo para o centro da discussão o papel da
tecnologia na configuração e evolução dos padrões de
especialização e as implicações dinâmicas colocadas pela interação
entre tecnologia, comércio e crescimento econômico.
De um ponto de vista normativo, a discussão em torno da
possibilidade de trade-offs entre um padrão de especialização que
atenda ao critério de “eficiência ricardiana”, um que seja aderente ao
critério de “eficiência em crescimento” e um que corresponda ao critério de “eficiência schumpeteriana” deixou clara a importância de
se conferir à análise do padrão de especialização uma perspectiva
de longo prazo. Ressalta-se, nesse sentido, que os efeitos
“virtuosos” ou “perversos” que decorrem a um dado padrão corrente
de especialização não se restringem ao período de curto prazo, vale
dizer, à esfera da distribuição intersetorial dos recursos produtivos
disponíveis na economia. Tampouco tem sentido supor que o ganho
ou perda de eficiência inerente ao processo de redefinição do padrão corrente de especialização seja mais bem caracterizado nos
termos de um efeito once-and-for-all, posto que os efeitos alocativos
e técnico-produtivos associados a qualquer dado padrão de
especialização são de caráter cumulativo e afetam o ritmo e a
direção da mudança tecnológica e do potencial de crescimento
econômico no longo prazo.
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