Desenvolvimentismo: o conceito, as bases teóricas e as políticas
Lista de autores
Adriano José Pereira. Professor do Departamento de Ciências
Econômicas e do Programa de Pós-Graduação em Economia e Desenvolvimento da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
André Moreira Cunha. Professor do Departamento de Economia
e Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em
Economia da UFRGS e Pesquisador do CNPq.
César S. Conceição. Doutor em Economia pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisador da Fundação
de Economia e Estatística (FEE).
Fábio Terra. Professor do Instituto de Economia da Universidade
Federal de Uberlância (UFU).
Fernando Ferrari Filho. Professor Titular do Departamento de
Economia e Relações Internacionais e do Programa de Pós-
Graduação em Economia da UFRGS e Pesquisador do CNPq.
Henrique de Abreu Grazziotin. Mestrando em Economia do
Desenvolvimento do Programa de Pós-Graduação em Economia da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGE-UFRGS) e
Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Luiz A. E. Faria. Professor do Departamento de Economia e
Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em
Economia da UFRGS e pesquisador da Fundação de Economia e
Estatística (FEE).
Marcelo Milan. Professor do Departamento de Economia e
Relações Internacionais e Programas de Pós-Graduação em
Economia e Estudos Estratégicos Internacionais, UFRGS.
Marcilene Martins. Professora do Departamento de Economia e
Relações Internacionais da UFRGS.
Octavio A. C. Conceição. Professor do Departamento de
Economia e Relações Internacionais e do Programa de Pós-
Graduação em Economia da UFRGS.
Pedro Cezar Dutra Fonseca. Professor Titular do Departamento
de Economia e Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFRGS e Pesquisador do CNPq.
Ricardo Dathein. Professor do Departamento de Economia e
Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em
Economia da UFRGS.
Róber Iturriet Avila. Doutor em Economia do Desenvolvimento
(UFRGS), pesquisador da Fundação de Economia e Estatística
(FEE) e professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos
(Unisinos).
Ronaldo Herrlein Jr.. Professor do Departamento de Economia e
Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em
Economia da UFRGS.
Notas
Desenvolvimentismo a construção do
conceito
1. Agradeço a Rosa Freire d’Aguiar pelo acesso ao Arquivo das
correspondências de Celso Furtado e por seu depoimento
sobre o tema. Mesmo com a total responsabilidade pela versão
final, devo agradecer a leitura cuidadosa e as sugestões de
Jose Gabriel Porcile (CEPAL), Leda Paulani (USP), Luiz Carlos
Bresser-Pereira (FGV-SP), Marcelo Arend (UFSC), Maria de
Lourdes Mollo (UnB), Ricardo Bielschowsky (UFRJ) e Pedro
Paulo Zahluth Bastos (UNICAMP), além dos colegas da área de
Desenvolvimento Econômico do Programa de Pós-Graduação
em Economia da UFRGS André Moreira Cunha, Marcelo Milan,
Octavio Augusto Camargo Conceição, Ricardo Dathein,
Ronaldo Herrlein Jr. e Sérgio Monteiro. Também colaboraram
com sugestões de fontes de pesquisa Andrés Ferrari Haines
(UFRJ), Claudia Wasserman (UFRGS), Gerardo Fujii (UNAM,
México), Juan Odisio (AESIAL e UBA, Argentina), Manuel
García Ramos (UNAM, México), Marcelo Rougier (CNICT e
UBA, Argentina), Reto Bertoni (UR, Uruguai) e Vicente Neira
Barría (CEPAL). Devo agradecer, ainda, a colaboração dos
orientados de mestrado e doutorado no Programa de Pós-
Graduação em Economia da UFRGS Fabian Domingues,
Leonardo Segura, Óliver Marcel Mora Toscano e Stella
Venegas, assim como os bolsistas de Iniciação Científica da
UFRGS e do CNPq Daniel de Sales Casula, Francisco do
Nascimento Pitthan, Leonardo Staevie Ayres e Lucas de
Oliveira Paes.
↩
2. Alguns autores, como Collier e Mahon (1993, p. 853), utilizam
“conceito” e “categoria” como similares, conquanto Sartori
(1970, 1984), como se mostrará adiante, tenha preferido falar
em conceitos. Para evitar equívocos, aqui se entende categoria
como termo teórico, ou seja, um conceito circunscrito ao
trabalho científico. Por isso, é usual que as categorias
assumam significados e nuances de acordo com os approaches
e paradigmas teóricos concorrentes em determinada
comunidade de pesquisadores ou profissionais. Destarte,
termos como “cadeira” ou “biblioteca”, por exemplo, por certo
têm seu conceito, mas não são termos teóricos ou categorias,
ao contrário de “produto interno líquido a custo de fatores”,
“renda da terra”, “desenvolvimento” ou “lucro”. Este último bem
ilustra os múltiplos usos em uma mesma comunidade: ora é
utilizado para designar a remuneração de um fator de produção,
ora como contrapartida pela espera (tempo), ora como ganho
extraordinário (e daí o adjetivo em “lucro puro”) e ora como
trabalho não pago, ou parte da mais-valia.
↩
3. “Um termo é “ambíguo” num determinado contexto quando tem
dois significados distintos e o contexto não esclarece em qual
dos dois se usa. Por outro lado, um termo é “vago” quando
existem ‘casos limítrofes’ de tal natureza que é impossível
determinar se o termo se aplica ou não a eles” (Copi, 1978, p.
108).
↩
4. Veja-se: Bresser-Pereira (2003, 2006, 2010), Sicsú et al (2005),
Paula (2005), Paulani, (apud SICSÚ, 2005), Paulani e Pato
(apud Paula 2005), Paulani (apud Arestis, P.; Saad-Filho, 2007),
Belluzzo (2009); Novy (2009a, 2009b), Fonseca e Cunha
(2010), Morais e Saad-Filho (2011), Erber (2011), Herrlein Jr.
(2011), Carneiro (2012), Bastos (2012), Gonçalves (2012),
Bielschowsky (2012), Araújo e Gala (2012), Oreiro (2012), Mollo
e Fonseca (2013) e Paulani (2013).
↩
5. A expressão “política econômica”, talvez por influência dos
manuais de macroeconomia, vem sendo utilizada em um
sentido mais restrito para designar as políticas de estabilização,
estas compreendidas como as políticas monetárias, cambiais e
fiscais. Aqui, todavia, será utilizada latu sensu para abarcar
toda ação do Estado que interfira ou se proponha a interferir
nas variáveis econômicas. Assim, a política econômica abrange
(a) as “políticas-meio”, já referidas, as quais constituem
instrumentos manipulados pelo policymakers com vistas à
estabilidade macroeconômica; (b) as “políticas-fins”, formuladas
ou implantadas para atingir objetivos conscientemente visados
em áreas específicas, como as políticas industrial, agrária,
tecnológica e educacional (quando vinculadas a objetivos
econômicos); e (c) as “políticas institucionais”, as quais
compreendem mudanças legais, nos códigos e nas
regulamentações, nas “regras do jogo”, na delimitação dos
direitos de propriedade, nos hábitos, preferências e
convenções, bem como na criação de órgãos, agências e
empresas públicas, ou mesmo privadas ou não
governamentais, desde que dependam de decisões estatais.
Normalmente se espera que as primeiras impactem a curto
prazo, enquanto as políticas-fins e institucionais, e
principalmente as últimas, por sua natureza, geralmente
apresentem resultados a médio e longo prazos, muitas vezes
alterando rotas históricas (associando-se a fenômenos como
enforcement e path dependence).
↩
6. Essa forma proposta por Sartori de partir do próprio emprego da
comunidade não se afasta, antes parece próxima, da
concepção hegeliana/materialista de que o discurso e as
percepções sobre o real podem ser ponto de partida para a
reconstrução do próprio real. Neste referencial metateórico,
como ficará mais claro adiante, supõe-se que a existência do
conceito é parte da determinação do conceito, ou seja, ele é tão
real como o que se propõe a conceituar ou a representar.
↩
7. Embora se possa também usar o termo “intensidade” em vez do
termo “intensão” (intension), este último é o mais utilizado como
tradução nos livros de Lógica (Copi, 1978).
↩
8. Para fins de ilustração, pode-se exemplificar no ponto Y o termo
“institucionalismo”, cujo conceito possui ampla extensão, capaz
de abarcar inúmeras correntes que em seu interior alimentam
fortes controvérsias entre si, a ponto de não lograrem consenso
na conceituação do termo teórico que é sua mais preciosa
ferramenta de análise: instituição. No caso, pode-se falar de
“vários institucionalismos”, o que caracteriza a baixa intensão
do conceito. Já “Nova Economia Institucional” poderia ser
representada no ponto X: possui menor extensão, pois
compreende apenas um subtipo de institucionalismo, com
atributos bem determinados e capazes de identificá-lo
plenamente, ou seja, com maior intensão.
↩
9. Collier e Levitsky (1996) arrolam, por exemplo, dezenas de
extensões para democracia como estratégia para utilização do
conceito: “controlada”, “participativa”, “populista”, “formal”,
“tutelada”, etc. Para desenvolvimentismo não há tantas, mas
podem-se mencionar duas subdivisões clássicas: “nacional-
desenvolvimentismo” e “desenvolvimentismo dependente-
associado”, conquanto esses não possam ser considerados
propriamente conceitos radiais, como se mostrará adiante. Vale
lembrar também a noção de estilos de desenvolvimento
introduzida por Varsavsky (1971), que identifica três estilos de
desenvolvimento: o consumista, o autoritário e o criativo,
posteriormente retomados por Aníbal Pinto (1976). Para uma
síntese abalizada do debate, ver Rodríguez (2009).
↩
10. Na mesma carta, Furtado explica sua concepção sobre o que
seja o estruturalismo latino-americano: “A classificação que o
senhor faz do pensamento político latino-americano
contemporâneo me parece europeia demais, quer dizer, é um
esforço para identificar afinidades com as escolas de
pensamento deste continente. Parece-me importante que se
considere à parte o “estruturalismo” latino-americano, que é
uma escola de pensamento que tem grande afinidade com o
marxismo, do ponto de vista da análise, mas não aceita a teoria
cataclísmica da história de Marx. O estruturalismo tanto pode
ser reformista quanto revolucionário, em função do contexto
histórico. No capítulo final de meu ‘Dialética do
desenvolvimento’, tentei demonstrar como no Nordeste
brasileiro a solução revolucionária parecia um imperativo do
próprio processo histórico”. Na mesma direção, segundo
depoimento de Rosa Freire d’Aguiar, viúva de Celso Furtado,
em 04/07/2013: “Na verdade Celso sempre preferia o termo
‘desenvolvimento’ a ‘desenvolvimentismo’. Não me lembro de
vê-lo falar ou escrever (e eu lia tudo o que ele escrevia) sobre
‘desenvolvimentismo’, senão com uma leve distância, e ficou-
me a impressão de que para ele ‘desenvolvimentismo’ era um
termo que nos anos 50 acabou como sinônimo da corrente
isebiana, que ele estava longe de apreciar in totum”.
↩
11. Jaguaribe (1972) elabora outra tipologia, na qual inclui países
como Rússia e China como “socialismo desenvolvimentista”. A
elaboração de Bielschowsky (1988), todavia, parece mais
apropriada, pois não requer ampliar tanto a extensão do
conceito no afã de incluir os países socialistas. Cabe, ainda,
ressaltar que Bielschowsky referia-se a correntes de
pensamento econômico, e sem dúvida havia intelectuais latino-
americanos na época simpatizantes ao mesmo tempo do
desenvolvimentismo e do socialismo (embora não fosse
consenso entre os marxistas essa aproximação). Já para
abarcar experiências históricas, como é o enfoque de
Jaguaribe, a extensão do conceito é mais problemática, pois na
América Latina não se encontra experiência que possa ser
tipificada como tal. O possível caso seria o de Cuba, mas que
difere tanto do que a literatura normalmente entende por
desenvolvimentismo que resulta inapropriado enquadrá-lo como
tal: além de perder sua particularidade, cabe lembrar não só a
literatura, pois nem mesmo o governo cubano se autointitula
“desenvolvimentista”; a preferência nítida é pelo adjetivo
“socialista”.
↩
12. O núcleo comum vai ao encontro da proposição de trabalho
anterior (Fonseca, 2004) segundo a qual para a formação
histórica do desenvolvimentismo no Brasil contribuíram, em sua
gênese, quatro correntes que vinham se desenvolvendo
separadamente, mas que se amalgamaram para a formação do
pensamento e na formulação da política econômica do
desenvolvimentismo: o positivismo, o nacionalismo, o
intervencionismo econômico e a defesa da industrialização. O
artigo mostra que os positivistas, por exemplo, não
necessariamente defendiam a industrialização ou poderiam ser
considerados “nacionalistas”, da mesma forma que havia
pensadores com forte cunho nacionalista defensores da
vocação agrária do país e contrários à industrialização. Em
vários países latino-americanos, houve já no século XIX críticos
ao liberalismo econômico e defensores do intervencionismo
estatal, não para fomentar a industrialização, mas para proteger
o setor agrário. As três últimas correntes virão a integrar o
núcleo comum do conceito de desenvolvimentismo, como
atributos mínimos sugeridos pela estratégia de construção de
conceitos clássicos. Já o positivismo foi superado
historicamente como ideologia política (embora não como
metodologia), mas sua contribuição à gênese deve-se a um
atributo que necessariamente também integra o núcleo comum:
a consciência da necessidade da mudança para um estágio
superior ou desejável, a qual exigiria e justificaria ações e
medidas voltadas para alcançar determinado fim – a práxis. Os
autores aqui analisados unanimemente convergem neste
aspecto, como se mostrará adiante.
↩
13. Na academia norte-americana, com a influência do
Massachusetts Institute of Technology – MIT, a partir de
meados da década de 1950, os termos passaram a ser usados
em outro sentido. Os modelos de crescimento econômico
referem-se aos trabalhos com maior formalização do
Departamento de Economia, seguindo à tradição aberta por
Solow (1956), enquanto o termo “desenvolvimento” passou a
ser usado em trabalhos voltados a buscar as razões das
desigualdades entre países e sobre convergência/divergência
de trajetórias de longo prazo. Estes seguiam metodologia 16. Uma das mais marcantes contribuições de Furtado (1961) ao
diferente, pois mais histórico-sociológicos e sem preocupação
com formalização, como os trabalhos de Rostow e Rosenstein-
Rodan realizados no Center for International Studies – CENIS
(Boianovsky; Hoover, 2013).
↩
14. Há, todavia, análises com approach marxista, como Paulani
(apud Paula, 2005, 2013) que elaboram uma leitura menos
resistente ao desenvolvimentismo, principalmente em
comparação com o “capitalismo financeirizado” e ao “rentismo”
da fase que o sucedeu. Neste aspecto, o contexto internacional
ajuda a explicar a ampla difusão de governos
desenvolvimentistas na América Latina após 1930, assim como
sua crise nas últimas décadas do século XX. Não só o impacto
da Grande Depressão favoreceu a oportunidade de as
economias voltarem-se “para dentro”, inclusive pela escassez
de financiamento internacional, como pela possibilidade de
crescimento industrial em uma onda tecnológica aos moldes
fordistas. A crise deste estilo de crescimento, associada à
hegemonia financeira e à forte internacionalização das
economias a partir dos anos 70 do século XX, são decisivas
para explicar arrefecimento do desenvolvimentismo latino-
americano a partir de então, num mesmo quadro de crise do
fordismo, do keynesianismo e do Welfare State. Para o
desenvolvimentismo, sempre a acumulação se faz
primordialmente na esfera produtiva e não na financeira.
↩
15. Além dos países citados a seguir no texto, apenas a título de
exemplo para ilustrar a difusão do positivismo, podem-se ainda
citar: no Uruguai, José Pedro Varela, com papel relevante na
formação da instrução pública e universitária; no Peru, Manuel
Vicente Villarán e Mariano H. Cornejo; na Venezuela, onde
encontrou campo fértil depois da Revolução de Abril de 1870,
com Rafael Villavicencio, Adolfo Ernest e José Gil Fortoul; no
Chile, José Victorino Lastarria e Juan Serapio Lois, que em
1882 fundou a Sociedad Escuela Augusto Comte; e na
Colômbia, Rafael Nuñes, coautor da Constituição de 1886.
↩
debate foi sua concepção de que o subdesenvolvimento não
pode ser considerado como etapa, o que inovava diante de
outras teses da época, como as de Rostow (1956, 1960). Dois
são seus argumentos básicos, dentre outros: (a) os atuais
países desenvolvidos nunca passaram por uma fase de
subdesenvolvimento, ou seja, esta categoria deve ser pensada
historicamente num quadro de divisão internacional do trabalho;
e (b) a tendência é o subdesenvolvimento se reproduzir, pois
não há forças endógenas que levem a sua superação: num
apelo à práxis, admite-se que, se algo não for feito, a
consequência é sua perpetuação. Para uma abordagem da
inserção internacional de Furtado no debate da época, ver Borja
(apud Malta , 2012).
↩
17. O caso mais polêmico foi Perón (1946-1955), pois a literatura é
extremamente dividida quando se refere à existência ou não em
seu governo de um projeto de industrialização. Ver, p.e., Diaz-
Alejandro (1981), Dorfman (1983),Haines (2007),Rapaport
(2000), Fausto e Devoto (2004), Loureiro (2009), Rougier
(2012), Fonseca e Haines (2012). Resolveu-se, todavia, mantê-
lo na amostra da pesquisa, pois se entendeu que a simples
exclusão do mesmo equivaleria a uma tomada de partido
prematura no debate, além excluí-lo da pesquisa quanto a
outros atributos. No cômputo do Quadro I do Anexo, optou-se
por considerá-lo como “sim”, com respaldo de parte da
literatura. Já para os governos de Vargas e de López Pumarejo,
resolveu-se manter a divisão entre primeiro e segundo governo,
em consonância ao tratamento mais usual na literatura.
↩
18. Pode-se, a título de ilustração, mencionar, para o caso
brasileiro, como experiências embrionárias de
desenvolvimentismo, os governos de João Pinheiro, em Minas
Gerais, 1906-1908 (Paula, 2000, 2004; Dulci, 2005; Barbosa,
2012) e de Getúlio Vargas, no Rio Grande do Sul, 1928-1930
(Fonseca, 1989, 2004).
↩
19. Ver, p. e., Cardoso (1971, p. 110). Este autor, ao analisar Brasil
e Argentina, aponta os atributos de ambos e tipifica Vargas e
Perón como exemplos do nacional-desenvolvimentismo e
Kubitscheck e Frondizi como de “desenvolvimentismo
dependente-associado”. Essa visão tornou-se usual na
literatura sociológica e econômica latino-americana das
décadas de 1970 e 1980 e será aqui utilizada para ilustrar o
corte teórico da tipologia.
↩
20. A relação entre indisciplina fiscal e desenvolvimentismo é muito
forte em parte da literatura crítica a este último, principalmente
de corte ortodoxo, sendo um passo para identificá-lo com
populismo econômico. Todavia, a pesquisa empírica sobre a
política econômica de governos tidos tradicionalmente como
“populistas” mostra que parte deles não se furtou de propor
políticas de estabilização restritivas para combater a inflação
como também de buscar equilíbrio no balanço de pagamentos.
A tentativa de associar num mesmo core desenvolvimentismo,
nacionalismo e populismo não é apenas ponto ideológico pétreo
da ortodoxia econômica, mas aparece às vezes também em
literatura sociológica de matiz marxista (Fernando Henrique
Cardoso, Octavio Ianni, Francisco Weffort e José Luís Fiori).
Todavia, a mesma parece não resistir à evidência empírica
quando se analisam com acuidade as políticas econômicas de
governos tidos como “populistas”, como Perón, Vargas e
Goulart, constituindo-se no mais primário erro de metodologia: a
generalização apressada. Ver Haines (2007), Loureiro (2009),
Rougier (2012), Monteiro e Fonseca (2012), Fonseca (2010,
2011, 2012), Mollo e Fonseca (2013).
↩
21. Embora a bibliografia sobre o tema seja extensa, podem-se
citar Rowthorn e Wells (1987), Rowthorn e Ramaswany (1999),
além dos mais recentes: Tregenna (2009), Palma (2007, 2011),
Bresser-Pereira (2010), Medeiros (2011), Gonçalves (2012) e
Bacha e Bolle (2013).
↩
O paradigma do Estado
Desenvolvimentista e o“retorno”da
Política Industrial
1. Este trabalho foi realizado com apoio do IPEA no âmbito do
projeto “A dimensão produtivo-tecnológica nas teorias do
desenvolvimento econômico e suas decorrências normativas:
em busca de fundamentos teóricos para as políticas industriais
e de CT&I”. Uma versão anterior foi publicada na revista
Pesquisa & Debate, v. 23, p. 291-316, 2012.
↩
2. Sobre o conceito e escopo das políticas de apoio ao
desenvolvimento, especialmente a política industrial, ver Chang
(1994), Suzigan e Furtado (2006), Pack e Saggi (2006), Cepal
(2007), Cimoli, Dosi e Stiglitz (2009a e 2009b) e Peres e Primi
(2009).
↩
3. Krugman (1993) denominou tal período de high development
theory, cujos pioneiros tiveram insights posteriormente
incorporados na “nova geografia econômica”, nos modelos de
crescimento endógeno e na nova teoria do comércio. Autores
como Prebisch, Furtado, Nurkse, Rosentein-Rodan, Hirschman,
dentre outros, são os destaques do período.
↩
4. É interessante notar a observação recente de Chang (2009)
para quem a noção de que o desenvolvimento está associado a
uma mutação radical da base produtiva da sociedade rumo à
estruturação de atividades mais complexas teria desaparecido
do discurso oficial. Vale dizer, não haveria mais a essência do
que os pioneiros do pós-guerra entendiam como sendo
desenvolvimento. Observação semelhante pode ser encontrada
em Rodrik (2006).
↩
5. No plano teórico, ver a coletânea organizada por Bhagwati
(1969). Para uma survey da literatura teórica e empírica, ver
Balassa (1989).
↩
6. Ver Chang (2006), Peres e Primi (2009).
↩
7. Na perspectiva estruturalista, tanto os problemas de inflação
quanto de balanço de pagamentos seriam uma decorrência dos
desequilíbrios estruturais das economias periféricas, agravados
pelo crescimento acelerado: o menor dinamismo do setor
agrícola em um contexto de forte urbanização, a escassez de
dólares – agravada pela reação do Banco Mundial e FMI,
contrários ao intervencionismo “inflacionário” que, na sua
opinião, geraria os desequilíbrios interno e externo – as
descontinuidades setoriais decorrentes dos big pushes etc. Por
outro lado, como argumentado anteriormente, o pessimismo
exportador não era gratuito; bem como o otimismo
intervencionista. Ainda assim, é importante lembrar que os
economistas neoclássicos não detêm o monopólio da crítica às
ineficiências geradas pelo processo de substituição de
importações. Já nos anos 1960 os relatórios anuais da CEPAL
apontavam para a necessidade de reverter o viés
antiexportação.
↩
8. Balassa (1970) compara o desempenho de um conjunto de
economias “semi-industrializadas”, encontrando um
desempenho superior nas que seguiam uma estratégia de
extroversão (Dinamarca e Noruega), em relação às de
estratégia introvertida (Argentina e Chile) e às economias
socialistas (Hungria e Checoslováquia). Desempenho manifesto
em termos de crescimento do produto, eficiência dos
investimentos e acesso à poupança externa, devido a um maior
dinamismo exportador. Dinamarca e Noruega teriam eliminado
as restrições quantitativas às importações, reduzido suas tarifas
alfandegárias a níveis inferiores à média dos países
desenvolvidos, bem como adotado políticas cambiais realistas e
de juros reais positivos. No trabalho clássico de Little et al
(1970) estuda-se o desempenho comparativo de Argentina,
Brasil, México, Índia, Paquistão, Filipinas e Taiwan. Da mesma
forma que Balassa (1970), faz-se a crítica às distorções
geradas pela industrialização substitutiva de importações. Além
disso, procura-se associar as reformas realizadas nos anos
1960 em alguns dos países, no sentido de reduzir o viés
antiexportação, aos níveis mais elevados de crescimento e bem
estar (melhor distribuição de renda).
↩
9. Não é trivial delimitar este grupo de países, normalmente
agrupados em um conjunto denominado de “Leste Asiático”
(Wang, 2008). A primeira geração de debates se centrou na
análise do Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Cingapura e Hong
Kong, localizados geograficamente no nordeste da Ásia. Os
quatro últimos passaram a ser denominados de “Tigres
Asiáticos” ou NICs Asiáticos (Newly Industrialized Countries). A
partir de meados dos anos 1980, o “Leste” foi ampliado,
incorporando países do sudeste daquela região, tais como
Malásia, Tailândia, Indonésia e Filipinas, também chamados de
“Tigrinhos” ou NICs Asiáticos de segunda geração.
Eventualmente, a China passou a configurar neste universo. Há
amplas diferenças culturais, de regimes políticos, de etnias e
ocupação de espaços geográficos ao longo da história por parte
destas nações, de modo que os estudos sobre o
desenvolvimento da Ásia sempre iniciam delimitando o
subconjunto de países que serão tratados. Aqui, a ênfase
também recairá sobre Japão e os NICs de primeira e segunda
gerações, aí incluindo a China. Todavia, as bases estatísticas
do Banco Mundial, FMI, Unctad, etc. fazem agregações mais
amplas ou mesmo mais restritas, de modo que cada gráfico ou
tabela do Anexo estará referido a uma daquelas fontes e,
portanto, o leitor deverá, eventualmente, consultar aquelas
bases para ter uma noção mais precisa dos países envolvidos.
↩
10. Depois da crise financeira de 1997 e 1998, houve um declínio
nos investimentos, especialmente nos países da ASEAN.
↩
11. Optou-se por evitar aqui uma exposição exaustiva dos dados.
Os Relatórios Anuais do Banco Mundial (World Development
Indicators, World Development Reports) e da ONU (UNDP
Human Development Reports) mostram que os países asiáticos
vêm apresentando, ao longo das últimas décadas, melhorias
significativas em virtualmente todos os indicadores de
desenvolvimento humano, em um ritmo superior ao conjunto
dos países em desenvolvimento. Detalhes em World Bank
(1993, 2008) e Chang (2006).
↩
12. Association of South-East Asian Nations (Associação das
Nações do Sudeste Asiático): Indonésia, Malásia, Tailândia,
Filipinas, Cingapura, Laos, Brunei, Camboja, Vietnã e Miamar.
↩
13. Essa ressalva do autor também está presente no estudo do
Banco Mundial (World Bank, 1993) e na maioria dos intérpretes
heterodoxos da experiência asiática.
↩
14. É importante registrar que a literatura crítica, particularmente
nas vertentes da teoria da dependência, já havia alertado para
as dificuldades (senão da impossibilidade) dos Estados
Nacionais da América Latina liderarem projetos
desenvolvimentistas com maiores graus de autonomia frente
aos interesses das elites tradicionais e dos poderes forâneos.
Santos (2000) resgata as origens e desdobramentos da teoria
da dependência. Tavares (1986) analisa o caso brasileiro.
↩
15. “But still, why (apparently) similar industrial policies produced so
different results in the East Asian Tigers and Latin America? It is
by now a shared view that the recipe of the success of the East
Asian Tigers has been the effective combination of incentives
with discipline … The former were provided through subsides
and protection, while the latter was obtained through direct
government control and the use of export performance as a
selection and monitoring device for both the entrepreneurs and
the bureaucrats. The failure of the Latin American experience
lies precisely in the lack of the joint presence of these two
elements. Indeed, during the ISI period Latin American firms
received considerable incentives, but faced very little discipline.
The mistake has been to ignore efficiency considerations and to
assume away capability problems. The idea was actually that
the necessary capabilities were already available within the
country, or, in case of necessity, they would be created
automatically and without extra cost …” (Di Maio, 2009 p. 21)
↩
16. O Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights (Acordo
Relativo aos Aspectos do Direito da Propriedade Intelectual
Relacionados com o Comércio). Disponível em:
<http://www.wto.org/english/docs_e/legal_e/ursum_e.htm#nAgr
eement>. Acesso em: set. 2010.
↩
17. Conforme os artigos XII e XVIII do Acordo GATT-OMC
Disponível em: <http://www. wto.org/english/docs_e/legal_e/09-
bops_e.htm#fntext3>. Acesso em: set. 2010.
↩
18. Conforme o artigo XIX do Acordo Geral GATT-OMC Disponível
em: <http://www.
wto.org/english/docs_e/legal_e/ursum_e.htm#lAgreement>.
Acesso em: set. 2010.
↩
19. Estes autores citam estimativas que tais empresas controlam
cerca de 2/3 das exportações mundiais.
↩
20. Canuto, Dutz e Reis (2010) informam que 39% do total
comercializado por países de renda baixa e média se
direcionam para seus pares.
↩
21. “The recent growth of developing economies is associated with
a long-term trend rather than with cyclical fluctuations,
suggesting a sustainable process … An implication of this trend
is that selected enterprises have started new and disruptive
forms of innovation in low-income economies … This new
approach to innovation, also called “frugal,” “constraintbased,”
or “reverse” innovation (The Economist 2010), is premised on 25. “The goal is not pick winners but to create a dynamic and
the reality of growing technological capabilities in a number of
developing economies, in the significant incentives provided by
large and rapidly growing (albeit low-income) local consumer
markets, and in low labor costs. The continued growth in
emerging economies has opened the opportunity for developing
countries to “piggyfrog”, a combination of piggybacking on
foreign technologies by imitating them combined with
leapfrogging by adapting these technologies through lower-cost
solutions. Examples include Tata Motors’ US$2,200 Nano car
aimed at India’s lower-middle class, with low-cost engineering
adaptations such as one windshield wiper, tubeless tires, and a
two-cyliner engine with top speed of 65 miles per hour (105
kilometers per hour), and Tata Consulting Services’ US$24
Swach (Hindi for “clean”) water filter targeted at rural
households with no electricity or running water, with adaptations
such as use of one of the country’s most common waste
products, ash from rice milling, to filter out bacteria”. (Canuto;
Dutz; Reis 2010 p.57).
↩
22. “The main message is that developing countries should prioritize
diffusion, technological learning, and the adaptation of more
efficient existing technologies for productivity upgrading and for
the sustainable generation of more and better jobs.” (Canuto;
Dutz; Reis 2010 p. 53).
↩
23. “The rationale for innovation policies is that they aim to boost
technological change, which is considered the basic factor of
economic growth, social development and environmental
adaptation.” (World Bank, 2010 p.18)
↩
24. “Governments have traditionally played an important role
promoting technology, sometimes by directly supporting the
development of technologies (in space, defense, and the like) or
more indirectly by creating a climate favorable to innovation
through various incentives or laws.” (World Bank, 2010 p. 7)
↩
receptive climate in which innovative initiatives in specific
industries can be articulated and implemented.” (World Bank,
2010 p. 18)
↩
26. “A knowledge economy embeds traditional goods and services
with a premium derived from greater levels of research and
innovation intelligence. Korea is turning its focus to accentuate
the production of these globally-competitive, value-added goods
and services. Different from other economic models which rely
primarily on natural resources or manpower, knowledge will be
the primary engine of productivity and growth for the Korean
economy. At its core, the Ministry strives to assemble traditional
industrial know-how, cutting edge R&D, and strong pro-business
policies. MKE is a seamlessly integrated composition of former
Ministries of Commerce, Industry and Energy; Information and
Communication; and Science and Technology. This combination
provides a vast array of experts to create synergies, spur
innovation, and upgrade the nation’s economy.” Disponível em:
<http://www.mke.go.kr/language/eng/about/responsibilities.jsp>.
Acesso em: set. 2010.
↩
27. “At the turn of the century, Singapore increased its focus on
knowledge and innovationintensive activities. R&D is now a
cornerstone of the country’s economic development…”
Disponível em:
<http://www.edb.gov.sg/edb/sg/en_uk/index/about_edb/our_hist
ory/the_2000s.html>. Acesso em: out. 2010. Mais detalhes no
site do Economic Development Board de Cingapura. Disponível
em: <http://www.edb.gov.sg>.
↩
28. Desde 1953, o Council for Economic Planning and Development
(CEPD) vem implentando planos nacionais de desenvolvimento,
sendo o de 2009-2012 o mais recente. Suas prioridades são
inovação tecnológica, desenvolvimento sustentável e inclusão
social. “Third-Term Plan for National Development in the new
century”. Disponível em:
<http://www.cepd.gov.tw/encontent/m1.aspx?sNo=0011562>.
Acesso em: set. 2010. Ver, também, o “2009 Industrial
Development in Taiwan”. Disponível em:
<http://www.moeaidb.gov.tw/external/view/en/about/index.html>.
Acesso em: set. 2010.
↩
29. Ver o recente documento do METI (Ministry of Economy, Trade
and Industry): 2011 Key Economic and Industrial Policies.
Disponível em:
<http://www.meti.go.jp/english/aboutmeti/policy/2011policies.pdf
> Acesso em: out. 2010.
↩
30. Tradução livre das expressões utilizadas por Wade (2010 p.
156).
↩
31. Contraexemplos seriam o de economias asiáticas menos
desenvolvidas, como Filipinas, em que as elites tradicionais se
apropriavam do Estado impedindo a transformação produtiva e
canalizando para si os benefícios das políticas públicas (Wade,
2010 p.158). Di Maio (2009) compara os exemplos de Ásia e
América Latina, destacando que, neste último caso foi mais
comum a captura do Estado pelas elites tradicionais.
↩
A Economia Política Institucionalista
e o desenvolvimento
1. Os trabalhos nos quais nos baseamos para construir um marco
teórico fundamentado nessa visão são Chang (2002, 2004a,
2007a, 2007b, 2011) e Chang e Evans (2000).
↩
2. Hodgson (2007, p. 96) assevera que as regras são “understood
as socially transmitted and customary normative injunctions or
immanently normative dispositions that in circumstances X do
Y.” (As regras são socialmente transmitidas e são usualmente
ações inibitórias normativas ou disposições imanentemente
normativas que, em circunstâncias X provocam Y – Tradução
nossa).
↩
3. De acordo com Hodgson (2012, p. 96, grifos no original),
“Conventions are particular instances of institutional rules.”
(Convenções são instâncias particulares de regras institucionais
– Tradução nossa).
↩
4. “that is what is meant by calling them institutions; they are
settled habits of thought common to the generality of men”
(Tradução nossa).
↩
5. “systems of established and embedded social rules that
structure social interactions” (Tradução nossa).
↩
6. Por path-dependence, o presente é resultado da trajetória
anterior. Assim, é preciso entender a história para explicar o
presente. Para o institucionalismo, a história interfere na
maneira como as sociedades vivem e as instituições de hoje
dependem do passado. De acordo com o conceito de path-
dependence, o ambiente institucional é peculiar a cada região.
Portanto, a mudança econômica é uma consequência das
ideias, ideologias e crenças que determinam a situação de
longo prazo. Essa definição pode ser importada da física
(Herscovici, 2004) e é também aplicada no institucionalismo
(Conceição, 2002).
↩
7. Sobre a base teórica do “Velho Institucionalismo”, ver
Conceição (2000, 2002).
↩
8. As relações que envolvem a mudança institucional serão
examinadas adiante. Por ora, em relação a esse tema, basta
entender que as instituições formais são feitas para serem
estáveis, porém passíveis de mudanças. Ver Chang (2007b,
2011).
↩
9. Esse ponto também vai ao encontro de Veblen, que pontua a
influência da construção histórica no presente e da defasagem
temporal sobre a constante evolução institucional: “a situação
de hoje modela as instituições de amanhã mediante um
processo seletivo e coercitivo, ou envigorando um ponto de
vista ou uma atitude mental herdada do passado [...] as
instituições – o que vale dizer, os hábitos mentais – sob
orientação das quais os homens vivem são, por assim dizer,
herdadas de uma época anterior [...] as instituições são o
produto de processos passados, adaptados a circunstâncias
passadas e, por conseguinte, nunca estão de pleno acordo com
as exigências do presente”. (Veblen, 1983, p. 88).
↩
10. Para Chang (2007b, p. 20, tradução nossa), a negligência da
forma leva a uma grande dificuldade de se fazerem propostas
concretas de política. Para ele, “se fizéssemos isso, seríamos
como um nutricionista que fala em comer uma refeição
saudável e balanceada sem dizer para as pessoas o quanto de
cada coisa elas devem comer”.
↩
11. Mesmo que houvesse consenso quanto às funções mais
importantes, seria ainda mais difícil consenso em relação ao
formato que tais instituições deveriam ter. Ver Chang (2007b).
↩
12. No entanto, apesar da inexistência de consenso acerca de
quais seriam as funções mais importantes que uma instituição
deve cumprir para o desenvolvimento econômico, a discussão
da importância de certas funções permanece relevante. O
próprio Chang (1999, p. 193-8), ao discutir o Estado
desenvolvimentista, estabelece algumas funções necessárias
que justificam esta instituição, como a coordenação de
mudanças estruturais, a provisão de uma “visão de futuro”, a
construção institucional e a gestão de conflitos.
↩
13. Para mais detalhes, ver Epstein (2007).
↩
14. Ver Lazonick (2007).
↩
15. Essas três características das instituições estão de acordo com
o exposto por Chang e Evans (2000). Dequech Filho (2012)
explora o porquê dos agentes se adequarem (ou não) às
instituições e como se dá este processo.
↩
16. Instituições informais também podem apresentar a
característica de restringir o comportamento humano, como, por
exemplo, através do desprezo pela sociedade de
comportamentos considerados imorais. Essa restrição não
apresenta caráter coercitivo formal, porém atua também na
limitação dos agentes.
↩
17. Chang e Evans (2000) apresentam como exemplo as ações
afirmativas que favorecem certos grupos em desvantagem na
obtenção de empregos a partir da limitação dos empregadores
na escolha de seus empregados. Outro exemplo claro, que não
é colocado pelos autores, é o sistema de cotas das
universidades federais brasileiras, que favorecem grupos de
menor renda e de elevada discriminação social na obtenção de
vagas no ensino público superior, a partir da limitação do total
de vagas reservado ao acesso universal.
↩
18. De acordo com Chang e Evans (2000), essa visão é mais
explicitamente adotada por ciências sociais distintas da
economia como, por exemplo, na sociologia institucionalista
apresentada por Finnemore (1996). Apesar disso, há
economistas, como Herbert Simon e Geoffrey Hodgson, que
adotam a mesma perspectiva, principalmente no
neoinstitucionalismo caracterizado por Conceição (2002).
↩
19. Os agentes não necessariamente internalizam os valores
morais inseridos nas instituições de forma a legitimá-los, ou
seja, de forma a concordar e reforçar esses mesmos valores na
sociedade. Eles podem também contestá-los, ou seja, discordar
parcialmente ou integralmente da validade dos mesmos. No
entanto, a principal consideração é de que os indivíduos estão 23. Embora a “manipulação cultural” seja sempre uma
necessariamente enraizados no ambiente institucional, em
relação direta com os valores nele inseridos.
↩
20. Chang e Evans (2000) apontam para o risco de, ao entender a
relação entre instituições e indivíduos como um processo de
dupla causalidade, imaginar que se trata de um sistema
homeostático autorreforçado, gerando como resultado um
equilíbrio. Não é dessa forma que o sistema evolui, pois há o
papel das ideias na visão de mundo dos agentes, o que leva ao
conceito de agência humana, em que decisões deliberadas
alteram as instituições, e, consequentemente, a cadeia de
causalidade entre estas e os indivíduos.
↩
21. A ideia de dupla causação tem origem em Veblen (1952, p.
242243): “not only is the individual’s conduct hedged about and
directed by his habitual relations to his fellows in the group, but
these relations, being of an institutional character, vary as the
institutional scheme varies”. (“Não só é a conduta do indivíduo
formada e dirigida por suas relações habituais de seus
companheiros de grupo, mas essas relações, sendo de um
quadro institucional, variam conforme o esquema institucional
varia” – tradução nossa). Hodgson (1998, 2002) sistematiza e
aprofunda tais determinações no conceito de reconstitutive
downward effects, no qual os indivíduos alteram instituições e
as instituições moldam o comportamento dos agentes, mudam
seus hábitos e restringem suas condutas.
↩
22. Essa concepção de uma “trajetória incerta” se aproxima da
visão de Veblen acerca da história como um processo
“absurdista” caracterizado por uma trajetória cega (blind-drift),
conforme explicado em Conceição (2002), ao contrário de uma
concepção teleológica, como seria supostamente a de Marx.
Para uma crítica do reducionismo vebleniano na apreciação de
Marx, ver Avila (2013). A concepção marxiana combina
determinações histórico-estruturais e práxis transformadora dos
indivíduos sociais.
↩
possibilidade.
↩
24. Essa noção encontra raízes em Veblen e proximidades com
aspectos presentes em Marx. Para Veblen: “como outros
animais, o homem é um agente que atua em resposta a
estímulos produzidos pelo ambiente em que vive. Como outras
espécies, ele é uma criatura de hábitos e propensões.
Entretanto, em grau mais elevado que as outras espécies, o
homem medita sobre o conteúdo dos hábitos que o guiam, e
avalia a tendência desses hábitos e propensões. Ele é
notavelmente um agente inteligente. Por necessidade seletiva,
ele é dotado com uma inclinação para as ações intencionais.
(Veblen, 1964, p. 80, apud Monastério, 2005, p. 5-6)”. Ideia
análoga é expressa pelo conceito de práxis e está presente em
Marx: “os indivíduos sempre partiram de si mesmos,
naturalmente não do indivíduo ‘puro’, no sentido dos ideólogos,
mas sim deles mesmos, dentro de suas condições e de suas
relações históricas. Mas fica evidente no curso do
desenvolvimento histórico [...] que há uma diferença entre a
vida de cada indivíduo, na medida em que ela é pessoal [...].
(Marx; Engels, 2001, p.94-95). Além da intencionalidade
pessoal, o homem, para Marx, faz a história: [...] A história não
faz nada, ela ‘não possui uma enorme riqueza’, ela ‘não trava
combates’! Ao contrário, é o homem, o homem real e vivo que
faz tudo isso [...]” (Marx, 1987, p. 93, grifos no original).
↩
25. Um dos principais exemplos apontados por Chang e Evans
(2000) é o caso do Economic Planning Board, o conselho de
planejamento econômico do Estado coreano. Com a ascensão
de ideias neoliberais acerca da ineficiência da intervenção
direta do Estado na economia e da burocracia pública, os
conselheiros tomaram a decisão de fechar o conselho,
suprimindo os seus próprios poderes em favor de uma
concepção ideológica.
↩
26. A ideia de “modelo mental” formado pelo indivíduo para
entender a realidade é uma contribuição da psicologia cognitiva,
ligada às ideias de racionalidade limitada de Simon (1959,
1986).
↩
27. Na concepção de Simon (1959, p. 272) sobre a racionalidade
limitada, quando a cognição e a percepção são elementos
considerados, é necessário reconhecer que as alternativas para
o processo de escolha dos agentes não estão dadas, devendo
ser descobertas, e que há um trabalho árduo em considerar
quais serão as consequências atribuídas a cada alternativa.
Além disso, o mundo percebido pelo agente é distinto do mundo
real, e essas diferenças envolvem omissões e distorções. Elas
aparecem tanto na percepção do significado das informações
disponíveis para o agente, quanto na inferência em relação aos
resultados de cada escolha.
↩
28. O exemplo da classe capitalista dado por Marx é uma forma de
“manipulação cultural” no sentido de legitimar uma ordem
social, mas esse processo pode acontecer igualmente com o
objetivo de contestar determinadas instituições, por diferentes
estratos da sociedade. Assim, não se trata de um fenômeno
exclusivo da classe capitalista dominante, mas possível para
qualquer grupo social.
↩
29. “[...] institutional change is a highly complex process, involving
multi-directional and often sublte interactions between
“objective” economic forces, ideas, interests, and existing
institutions themselves.” (Chang; Evans, 2000, p. 34, tradução
nossa).
↩
30. Nas concepções marxistas apontadas, um materialismo raso
indica que as relações de produção determinam os interesses
das diferentes classes. Na economia política neoclássica, os
indivíduos perseguem unicamente os seus interesses, que são
os interesses econômicos objetivos e que são considerados
exógenos. Em nenhuma das duas concepções, há espaço para
as ideias e para o comportamento deliberado e intencional
expresso pela noção de agência humana.
↩
31. […] we would argue for what we call a more “culturalist” (or
perhaps Gramscian) perspective in which institutional change
depends on a combination of interest-based and
cultural/ideological projects (in which worldview may shape
interests as well as vice-versa). Simply put, changing institutions
requires changing the worldviews that inevitably underlie
institutional frames. (Chang; Evans, 2000, p. 5).
↩
32. Um exemplo típico é a maior dificuldade de aprovação de
emendas constitucionais em relação à aprovação de projetos
de Lei mais simples (Chang, 2011).
↩
33. Exemplos são as ideias de que o clima temperado nos Estados
Unidos levou à formação de pequenas propriedades,
aumentando a demanda por instituições democráticas e por
educação, enquanto o clima tropical de outros países,
principalmente da América Latina, levou à formação de
latifúndios, tendo efeito oposto (Chang, 2007b).
↩
34. Um exemplo usado por Chang (2007b) é do Confucionismo. Se
olharmos para a ênfase dada à educação, ao “mandato
celestial” e à frugalidade, nossa avaliação será de que é uma
boa cultura para o desenvolvimento econômico. Se olharmos
para a natureza hierárquica, a inclinação para a burocracia e o
desprezo por artesãos e mercadores, essa é uma cultura ruim
para o desenvolvimento. Portanto, não há forma correta de
classificar a cultura de uma sociedade.
↩
35. Os dois principais exemplos são a França, que apresenta uma
tradição dirigista da economia, mas que foi altamente liberal
entre a queda de Napoleão e a Segunda Guerra, e as
descrições como preguiçosos e irracionais dadas por habitantes
de países avançados aos alemães e japoneses antes destes
atingirem alto grau de industrialização (Chang, 2011). O
primeiro exemplo mostra que pode existir mais de uma tradição
na mesma sociedade, enquanto o segundo mostra que o
desenvolvimento pode ser responsável pela mudança na
cultura e, por consequência, nos estereótipos.
↩
36. Outros exemplos são o sufrágio universal, as leis de falência, a
burocracia profissional, as regulações e as leis trabalhistas
(Chang, 2007b).
↩
37. Ver O’Brien (2007).
↩
38. Ver John (2007).
↩
39. Portanto, a esfera política é essencial para entender as
mudanças institucionais, e sua análise a partir da EPI é
coerente com uma abordagem de caráter neogramsciano
(Chang; Evans, 2000).
↩
40. Isso implica que problemas como de falha de mercado, que são
apontados por outras correntes teóricas, não tem tanta
importância na EPI, devido aos demais instrumentos de
alocação existentes na economia capitalista. Para uma reflexão
acerca da impossibilidade de se definir absolutamente as falhas
de mercado, ver Chang (2002, 2004a).
↩
41. A EPI nega a noção de “primazia do mercado” (Chang, 2002,
2004a) presente nas abordagens neoclássicas, da Nova
Economia Institucional (NEI), e da Teoria da Escolha Pública
(TEP), em que o mercado é entendido como uma instituição
natural e todas as demais instituições são instituições criadas
pelos homens, que criam rigidez no mercado ou atuam para
compensar as suas falhas. Ao contrário, o mercado também é
produto da ação humana através da política. De acordo com
Chang (2002, p. 115), “tal pressuposto afeta profundamente o
próprio modo como entendemos a natureza e o
desenvolvimento do mercado, assim como sua inter-relação
com o Estado e com outras instituições. Enquanto não
abandonarmos essa suposição e não desenvolvermos uma
teoria que trate o mercado, o Estado e as demais instituições
em pé de igualdade, nossa compreensão do papel do Estado
permanecerá gravemente incompleta e tendenciosa”.
↩
42. Chang (2002, p. 121) apresenta como exemplo o fato de que
“leis podem estipular que certos tipos de indivíduos (por
exemplo, os escravos ou os estrangeiros) estão proibidos de ter
propriedade. As leis bancárias ou de pensão podem limitar a
quantidade de ativos possuídos pelos bancos ou fundos de
pensão e, assim, restringir a quantidade de mercados de ativos
em que eles estão autorizados a ingressar.” Além disso,
destacam-se as normas dos sindicatos e das associações
profissionais e também convenções sociais quanto à casta, ao
gênero e à etnia.
↩
43. Chang (2002, p. 122) mostra que, em certos países, há
proibição do comércio de drogas que causem dependência,
publicações “indecentes”, órgãos humanos ou armas de fogo.
Além disso, a legislação muitas vezes estipula que o trabalho
escravo, o trabalho infantil e o trabalho de imigrantes ilegais
não são objeto legítimo de transação.
↩
44. Chang (2002, p. 122) exemplifica estas instituições com leis de
zoneamento e regulações ambientais, relativas à poluição e
barulho, e de incêndio para que se exerçam os direitos de
propriedade do solo. Além disso, há regras quanto à qualidade
do produto ou quanto a procedimentos corretos na produção
para que o mesmo seja transacionado em determinados
mercados.
↩
45. Exemplos são “normas relativas à fraude, à violação dos
contratos, à negligência, à falência e a outras perturbações do
processo de troca e que contam com o apoio da polícia, do
sistema judiciário e de outras instituições jurídicas. As leis do
consumidor e da responsabilidade são outros exemplos de
regras que estipulam quando e como os compradores de
produtos insatisfatórios ou defeituosos podem anular o ato de
aquisição e/ou exigir uma compensação dos vendedores”
(Chang, 2002, p. 122).
↩
46. Chang (2002) aponta para o curioso e contraditório fato de que
muitas vezes os que contestam altos padrões de instituições
trabalhistas como sendo ineficiências de mercado não o fazem
em relação a controles de imigração, que teriam o mesmo
efeito. Essa atitude contraditória só é possível porque esses
economistas aceitam que os cidadãos de determinado país
tenham o direito de ditar os termos da participação de
estrangeiros no mercado de trabalho nacional, enquanto
rejeitam o direito desses mesmos cidadãos de contestarem o
direito dos empregadores de oferecer o salário e as condições
de trabalho que estes últimos acham justas. Isso aponta
novamente para a visão de mundo como aspecto crucial do
posicionamento político dos agentes perante as instituições.
↩
47. Apesar da importância da política e a sua relação direta com o
mercado, Chang (1999, 2002) ressalta que a politização
excessiva das atividades econômicas pode ser indesejável
devido aos elevados custos de transação associados à tomada
de decisão e à possibilidade de abuso do poder estatal por
parte de grupos poderosos. Portanto, enquanto se reconhece
que os limites entre economia e política não são “naturais”, mas
socialmente construídos, é necessário atentar para o risco de
uma excessiva politização.
↩
48. Marx já preconizava a relevância da estruturação material na
determinação da totalidade social e da superestrutura “[...] na
produção social da própria vida, os homens contraem relações
determinadas, necessárias e independentes da sua vontade,
relações de produção estas que correspondem a uma etapa
determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas
materiais. A totalidade destas relações de produção forma a
estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se
levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual 51. Um exemplo dado por Chang (2011, p. 13) está no sistema de
correspondem formas sociais determinadas de consciência. O
modo de produção da vida material condiciona o processo em
geral da vida social, política e espiritual. [...] (Marx, 1982, p.
25)”. Em inúmeras passagens, Marx considera também a
relação inversa, não de maneira linear, mas dialética. Nas
relações entre base e superestrutura, há reciprocidade causal:
“[...] a cada estágio são dados um resultado material, uma soma
de forças produtivas, uma relação com a natureza e entre os
indivíduos, criados historicamente e transmitidos a cada
geração por aquela que a precede, uma massa de forças
produtivas, de capitais e de circunstâncias, que, por um lado,
são bastante modificados pela nova geração, mas que, por
outro lado, ditam a ela suas próprias condições de existência e
lhe imprimem um determinado desenvolvimento [...] as
circunstâncias fazem os homens tanto quanto os homens fazem
circunstâncias.” (Marx; Engels, 2001, p. 35). Logo, as
transformações nas relações materiais geram mudanças em
outra esfera (cultural, jurídica, ideológica), assim como
mudanças nas ideias afetam as relações materiais.
↩
49. Em “Chutando a Escada” (Chang, 2004b), o capítulo 3 mostra
justamente que as instituições existentes nos países atualmente
desenvolvidos, quando estes iniciaram o processo de
desenvolvimento, em nada eram parecidas com as suas
instituições atuais. Isto leva a crer que, a partir da evidência
histórica, a causalidade mais forte entre instituições e
desenvolvimento é a que se inicia com o segundo.
↩
50. As formas de direitos de propriedade vão além dos formatos
usualmente considerados (privados, estatais ou acesso aberto),
existindo também direitos de propriedade comunal, em que há
regras de utilização da propriedade, além de formas híbridas,
como as cooperativas agrícolas. Além disso, há teoria e
evidência para sustentar a superioridade de posses estatais ou
comunais (Chang, 2011).
↩
direito de propriedade, que é composto por leis da terra, leis de
planejamento urbano, leis de contratos, leis de falência e leis de
direitos de propriedade intelectual.
↩
A relação entre instituições e
crescimento econômico: uma análise
heterodoxa e evolucionária
1. Dentro das teorias do desenvolvimento econômico, o autor
destaca três correntes institucionalistas que se salientaram a
partir do velho institucionalismo. A primeira delas é a oriunda da
já mencionada revista Journal of Economic Issues, que
congrega uma série de trabalhos e estudos nesse campo
analítico. A segunda é a contribuição de Ha-Joon Chang. E a
terceira é a contribuição de Geoffrey Hodgson.
↩
2. Referindo-se ao institucionalismo, Lawson (2006, p. 485)
salienta que “Briefly consider, for example, the project of old
institutionalism, or anyway the manner in which it is commonly
perceived. To speed up matters, let me rely on the commentary
of the institutionalist historian Malcolm Rutherford. In his view,
‘[a]ll attempts to define American institutionalism, whether in
terms of a set of key methodological or theoretical principles or
in terms of the contributions of [major contributors] . . . have run
into problems with apparent disparities within the movement’
(Rutherford, 2000, p. 277). Rutherford notes the ‘dramatic
differences’ in the methodological principles, theoretical
positions and definitions of major contributors, and recognises
the impression this has given: ‘[i]nstitutionalism easily appears
as incoherent, as little more than a set of individual research
programs with nothing in common other than a questioning of
orthodox theory and method’ (Rutherford, 2000, p. 277–8). Thus
Mark Blaug has stated that institutionalism ‘was never more
than a tenuous inclination to dissent from orthodox economics’
(Blaug, 1978, p. 712), and George Stigler has claimed that
institutionalism had ‘no positive agenda of research’, ‘no set of
problems or new methods’, nothing, but ‘a stance of hostility to
the standard theoretical tradition’. This view still finds wide
currency — for example Oliver Williamson has recently argued
that [in the light of its failures elsewhere] ‘the older institutional
economics was given over to methodological objections of the
orthodoxy’.” (Williamson 1998, p. 24).
↩
3. Segundo Lawson (2006, p. 485): “Often systematised under the
heading of ‘mainstream economics as ideology’. To state the
moral: the entire enterprise of neo-classical economics is rigged
to show that laissez-faire produces optimal outcomes.(…) How
is this rigging said to be achieved? One component of the most
common strategy is everywhere to stipulate that human beings
are rational (meaning optimising) atomistic individuals.”
↩
4. Para Lawson (2006, p. 493), “All methods of analysis are
appropriate to some sorts of material but not others. This is as
true of mathematical methods as others. My claim here is that
the explanation of the poor showing of much of modern
economics is that mathematical methods are being imposed in
situations for which they are largely inappropriate. In due
course, I shall argue further that it is an appraisal that
mathematical methods are mostly inappropriate to social
analysis that ultimately underpins the heterodox opposition. In
short, I am contending that the essence of the heterodox
opposition is ontological in nature.”
↩
5. Assim, por exemplo, os pós-keynesianos, dadas suas prévias
ênfases, podem ser diferenciados de acordo com suas relações
com a “incerteza fundamental”, oriunda da abertura da
realidade social. Tal enfoque pode levar a implicações da
“incerteza” sobre o desenvolvimento de certas espécies de
instituições, incluindo a moeda, processos de tomada de
decisões, etc. No nível político, tal questão pode incluir as
análises de contingências que reconhecem o fato da incerteza
disseminar-se, dada a abertura da realidade social no presente
e no futuro. Para os influenciados por Keynes tal foco é o que
importa levando a resultados coletivos ou macro, que exercem
seu impacto de volta sobre os atos individuais, pressionando for
transformação estrutural, etc. Por razões similares, o
institucionalismo se distingue não pelo fato de que as
instituições ou processos evolucionários se constituem em
unidades de análise, mas pela relação do projeto tradicional
com as questões evolucionárias, e seu interesse em examinar
como os itens sociais mudam ou persistem ao longo do tempo.
↩
6. Surpreendentemente e apesar de Schumpeter, em seus
trabalhos, criticar o Antigo Institucionalismo por falta de uma
teoria que lhe permitisse avançar teoricamente (Hodgson,
1998), Nelson enfatiza que “Schumpeter (1942), whose work
arguably has provided the starting point for modern evolutionary
economics, is seldom footnoted by self-professed
institutionalists, despite the fact that Schumpeter was very much
concerned with economic institutions. And Schumpeter´s
institutional orientation was ignored, as well, in the early writings
of the evolutionary economists who cited Schumpeter as their
inspiration.” (Nelson, 2002, p . 19).
↩
7. No original, Nelson (2002, p. 20) afirma: “For evolutionary
theorists, a country’s level of technological competence is seen
as the basic factor constraining it’s, with technological advance
the central driving force behind economic growth. As noted,
increasingly evolutionary economists are coming to see
“institutions” as molding the technologies used by a society, and
technological change itself. However, institutions have not as yet
been incorporated into their formal analysis.”
↩
8. No original, Nelson (2002, p. 20) afirma: “Many would be happy
to admit that the influence of a countries institutions on it’s ability
to master and advance technology is a central way that 12. Segundo Hodgson (2004, p. 331-332): “Institution are enduring
institutions affect economic performance. However,
institutionalists have yet to include technology and technological
change explicitly into their formulation.”
↩
9. Sem procurar esgotar o tema, há uma série de abordagens
institucionalistas que se degladiam, embora, atualmente, tenha
ocorrido uma clara linha de convergência. Para efeitos de
simplificação dividiríamos os institucionalistas em três
correntes: o Antigo Institucionalismo, o Neoinstitucionalismo
(que se refere a presente nota) e a Nova Economia
Institucional.
↩
10. Em seu site, desde 2012, Hodgson propõe substituir o referido
conceito por Reconstitutive Downward Effects por considerar
que do ponto de vista evolucionário o termo “efeito” é mais
adequado do que o de causação.
↩
11. Hodgson avança no sentido de propor as proposições
fundamentais do institucionalismo de Veblen. Para esse fim,
Hodgson (2004, p. 246-247) identifica seis proposições básicas
negativas, no sentido crítico, do institucionalismo de Veblen
(incluindo rejeições ao positivismo, individualismo metodológico
e coletivismo metodológico, adequadamente definidos). Para
Hodgson, Veblen endossa treze proposições básicas positivas
adicionais (incluindo o princípio da causação universal, o
princípio da explicação evolucionária, e a ideia de reconstitutive
downward causation). Em conjunto, essas dezenove
proposições não são suficientes. Isto porque os elementos-
chave adicionais: “were unclear, underdeveloped or absent in
Veblen’s works’ I add a further eight propositions (including a
layered ontology and an explicit focus on emergent properties)
that are ‘vital for a Veblenian theoretical system rebuilt on
emergentist foundations’ (Hodgson, 2004, p. 247).” Nessas
vinte e sete proposições, ele esquematiza parte dos
fundamentos filosóficos do institucionalismo vebleniano.
↩
systems of socially ingrained rules. They channel and constrain
behavior so that individuals form new habits as a result. People
do not develop new preferences, wants or purposes simply
because “values” or “social forces” control them. Instead, the
framing, shifting and constraining capacities of social institutions
give rise to new perception and dispositions within individuals.
Upon new habits of thought and behavior, new preferences and
intentions emerge. As a result, shared habits are the constitutive
material of institutions, providing them with enhanced durability,
power and normative authority. (…) Habits are formed through
repeated thoughts or behaviors in a specific type of social
setting. Habits are individual neural connections and
mechanisms, but they bear a social imprint. Reconstitutive
downward causation, from specific social structure to individual,
operates by creating and molding habits.”
↩
Teoria neoschumpeteriana e
desenvolvimento econômico
1. Este capítulo é uma versão de pesquisa realizada com apoio do
IPEA no âmbito do projeto “A dimensão produtivo-tecnológica
nas teorias do desenvolvimento econômico e suas decorrências
normativas: em busca de fundamentos teóricos para as
políticas industriais e de CT&I”.
↩
2. Adotam-se aqui os termos teoria neoschumpeteriana e teoria
evolucionária como sinônimos, distinguindo-os do termo
evolucionista, que representa uma abordagem mais ampla em
termos teóricos (Nelson e Winter, 1982; Conceição, 2008).
↩
3. A tecnologia pode dar “grandes saltos” e não é aleatória
(Nelson, 1996, p. 92).
↩
4. Nelson e Winter (1982, p. 466) ressaltam a proximidade dessa
análise com a literatura de organização industrial.
↩
5. Schumpeter critica o “individualismo metodológico passivo”
neoclássico e cria a visão de um “individualismo metodológico
ativo” (Dopfer, 2007, p. 69). Ou seja, os indivíduos não apenas
reagem a oportunidades dadas, mas promovem mudanças nas
condições econômicas. Esse é o papel ativo do indivíduo
inovador. De outra parte, na visão de Schumpeter, o
desenvolvimento é um processo de mudança qualitativa das
estruturas econômicas, no qual a história tem um papel
relevante para a teoria econômica, via processos de path
dependence e de lock in, em um arcabouço teórico
evolucionário (Freeman; Soete, 1997, p. 31).
↩
6. São tipos de aprendizado, relacionados por diferentes autores,
por exemplo: learningby-doing, leaning-by-operating, learning-
by-changing, learning-by-training, learning-byhiring, learning-by-
searching, learning-by-using, learning-by-interact, learning from
advances in science and technology, learning from inter-industry
spillover; individual, organizational and institutional learning
(Bell, 1984; Malerba, 1992; Edquist, 2001).
↩
7. As rotinas podem ser entendidas, também, como possuidoras
de um duplo caráter, enquanto obstáculos, e como guias para
inovações. Nesse último sentido, as trajetórias tecnológicas são
também rotinas para os processos inovativos incrementais. Em
contrapartida, rotinas inadequadas, por sua inércia, são
obstáculos para mudanças, mas também criam condições para
mudanças radicais (Perez, 2007).
↩
8. A correlação entre aprendizado e desenvolvimento econômico,
assim como entre aprendizado e Sistemas de Inovação (seção
3), é aprofundada no capítulo “Processo de aprendizado,
acumulação de conhecimento e Sistemas de Inovação: a
“coevolução das tecnologias físicas e sociais” como fonte de
desenvolvimento econômico”, deste livro.
↩
9. Há nestes aspectos uma clara correlação com a discussão
entre os trade-offs entre flexibilidade de curto prazo e de longo
prazo e entre flexibilidade individual e nacional (Chang, 2006,
cap. 3).
↩
10. Esse mesmo raciocínio vale na comparação entre empresas na
fronteira ou distantes da fronteira técnica (Dosi; Pavitt; Soete,
1990, cap. 8).
↩
11. Este tema também é desenvolvido no sexto capítulo desta
publicação, “Padrões históricos da mudança tecnológica e
ondas longas do desenvolvimento capitalista”.
↩
12. Gerschenkron (1973) já destacava, a partir do exemplo dos
processos de catch-up dos países europeus, que o gap
tecnológico é uma oportunidade para os países atrasados, mas
requer esforços sustentados para sua realização. Abramovitz
(1986), em contrapartida, destaca a possibilidade de falling
behind de países que não conseguirem gerar certas
capacitações que evitem retrocessos (Fagerberg, 2007).
Fagerberg observa que algumas interpretações, mesmo não
sendo de autores schumpeterianos, têm um “sabor” dessa
escola.
↩
13. Dosi e Labini (2007) destacam as relações desse conceito com
as análises sobre SIs e com a literatura da Escola da
Regulação.
↩
14. Ernest Mandel (1995), assim como outros autores marxistas,
elaboram interpretações cujo fator determinante é a dinâmica
da taxa “agregada” de lucro, em função do processo de
inovações (Louçã, 2007).
↩
15. O desemprego estrutural, com desajustes entre oferta e
demanda de mão de obra, é manifestação da passagem de
uma para outra onda longa.
↩
16. A vertente teórica neoclássica sobre comércio internacional,
que centra sua análise na dotação dos fatores, tem tido seus
pressupostos pouco realistas relaxados por vários modelos,
inclusive para dar melhor tratamento à questão tecnológica. Por
exemplo, nos modelos de Heckscher-Ohlin expandidos, que
incorporam um fator de produção adicional (como trabalho
qualificado versus não qualificado). Dosi, Pavitt e Soete (1990)
consideram a “nova teoria do comércio internacional” como uma
extensão nesse sentido, enquanto Freeman e Soete (1997) a
consideram uma segunda vertente interpretativa, tendo em vista
suas diferenças com os modelos anteriores. Essa última
incorporou economias de escala e diferenciação de produtos
como elementos geradores de retornos crescentes (vantagens
de concorrência imperfeita), abrindo margem para a defesa da
adoção de políticas estratégicas de comércio internacional.
Krugman também incorpora mudança tecnológica endógena
(como no seu modelo Norte-Sul), porém enfatizando o caráter
de bens públicos dessas inovações.
↩
17. Esse tema é desenvolvido no capítulo “Padrões de eficiência no
comércio: definições e implicações normativas”, deste volume.
↩
Padrões históricos da mudança
tecnológica e ondas longas do
desenvolvimento capitalista
1. Neste sentido, o paradigma é uma lógica coletiva convergente
do potencial tecnológico, dos custos relativos, da aceitação de
mercado, da coerência funcional e outros fatores. Os
microprocessadores e produtos derivados são esperados para
se tornarem mais rápidos, menores, mais potentes, mais
versáteis, e relativamente mais baratos. Em contraste,
automóveis, e aviões nos anos 1950 e 1960 eram supostos
para se tornarem maiores, enquanto a velocidade, versatilidade
não estavam entre os objetivos (Perez, 2010, p. 188).
↩
2. O estudo de ciclos econômicos de longa duração teve início no
final do século XIX, com trabalhos de Jevons (1884), Wicksell
(1898), Parvus, e posteriormente, Van Gelderen (1913), Wolff
(1924), entre outros. Porém, foi o trabalho de Kondratiev (1925)
que constituiu a primeira tentativa sistemática para confirmar
tais movimentos com dados que incluíram não somente séries
de preços, juros e salários, mas também de comércio exterior,
produção industrial e consumo para França, Grã-Bretanha e
Estados Unidos (Freeman, 1984, p. 5). Kondratiev mostrou a
existência de ciclos longos com duração média de 50 anos,
observáveis a partir do século XVIII. A hipótese de Kondratiev
deu origem a duas linhas de pesquisa histórica distinta, uma
centrada na noção de ciclo de preços (ou de juros) e outra que
se caracteriza como um fenômeno expresso em termos reais.
Pelo lado real, a interpretação das flutuações e evolução de
quantidades reais são consideradas efeito do processo de
acumulação de capital, como destacado por Kondratiev, ou das
inovações tecnológicas, como na tradição schumpeteriana.
↩
3. Para Perez (2010), um dos motivos para essa tendência
decorre do contexto de exaustão do espaço de oportunidades
de um sistema particular. As inovações que surgem no final do
ciclo tendem a ter impactos menores no sistema. Como
exemplo, a autora cita as longas séries de eletrodomésticos
introduzidas no início do século XX, iniciadas com o
refrigerador, máquinas de lavar-roupa, etc., as quais foram se
esgotando até chegar aos “abridores de lata e facas elétricas”.
Isso ilustra o esgotamento das possibilidades de criação de
novos produtos de um dado paradigma. Outro motivo se deve
ao intenso aprendizado que ocorre dentro do sistema e pelas
externalidades decorrentes, que tendem a acelerar a aceitação
do usuário por um lado e, por outro, a reduzir o ciclo de vida do
produto e seu tempo de rentabilidade. Como exemplo, Perez
(2010, p. 188) afirma que demorou 24 anos, de 1954, para
incorporar o ar-condicionado como uma forma de melhoria em
90% dos automóveis produzidos nos EUA, enquanto os pneus
radiais, introduzidos em 1970, levaram menos de 8 anos para
atingir o mesmo nível de penetração no mercado.
↩
4. A forte interconexão e interdependência das tecnologias
ocorrem em vários níveis. Destacam-se os avanços do
conhecimento científico e tecnológico pela utilização de
princípios similares de engenharia, pela exigência de
habilidades comuns no desenvolvimento e utilização das
tecnologias – muitas vezes novas, pelo desenvolvimento de
uma rede de fornecedores de insumos e serviços, assim como,
de pontos de distribuição interdependentes e pelo dinamismo
mutuamente determinado pelas várias interligações entre
mercados; difusão de padrões coerentes de consumo e de
utilização das novas tecnologias (Perez, 2010, p. 191).
↩
5. Entre os exemplos, se destacam os “semicondutores na quinta
revolução tecnológica, petróleo e plástico na quarta, aço na
terceira, carvão na segunda e energia hidráulica na primeira
(para os moinhos hidráulicos e transporte em canais)” (Perez,
2010, p. 191);
↩
6. Como a internet na quinta, estradas e eletricidade na quarta, a
rede de transporte mundial (ferrovias transcontinentais, rotas de
navios a vapor e portos) na terceira, ferrovias nacionais na
segunda e canais na primeira.
↩
7. Os períodos prolongados de gestação e difusão são óbvios,
como o exemplo da tecnologia da informação e da internet.
Para Freeman e Soete (1997) e Freeman e Louçã (2001),
essas tecnologias tiveram origem nos os avanços da ciência e
invenção. Em termos de efeitos macroeconômicos, porém, a
difusão foi sentida no último quarto do século XX, como
afirmam: Elas podem ser ainda maiores nesse início do século
XXI, quando a ampla difusão das tecnologias da informação e 10. Perez e Soete (1988, p. 476) afirmam que grande parte do
comunicações afetar todos os países e todos os setores da
economia. A taxa de difusão pode diminuir em relação ao
período inicial de turbulência, mas o peso dos novos sistemas
tecnológicos na economia agregada é agora muito maior, tanto
que os efeitos macroeconômicos são enormes. “[...] cada
sucessiva revolução industrial mostrou um padrão, embora
cada um com suas próprias características” (Freeman; Louçã,
2001, p. 147).
↩
8. Conforme Boyer (1988), as instituições permitem que o
processo de acumulação avance de maneira relativamente
ordenada durante períodos relativamente longos. Nesse
sentido, “[...] cada regime de regulação é designado para
controlar e estabilizar uma fase particular de crescimento
capitalista”, diferindo em relação às características do período
anterior (Freeman, 1988, p. 11, tradução nossa). Tal concepção
resgata preocupações de Marx com a noção de tensão entre as
forças produtivas e as relações de produção. Conforme
Freeman e Louçã (2001), enquanto Marx aplica sua teoria para
as relações sociais capitalistas em geral, a teoria
neoschumpeteriana de Perez (1983) e de Freeman e Perez
(1988) sobre paradigmas e ciclos longos é desenvolvida em
relação às sucessivas mudanças dentro de uma estrutura de
economia predominantemente capitalista (Freeman; Louçã,
2001, p. 151).
↩
9. Portanto, o ingresso nas fases de maturidade de uma revolução
tecnológica não leva à trajetória de desenvolvimento com
catching up. Nesse período, as tecnologias maduras
apresentam o “[...] mínimo potencial para geração de lucros,
enfrentam mercados estagnados e quase não tem espaço para
aumentos de produtividade” (Perez, 2001, p. 111). As
oportunidades oferecidas na fase de maturidade como ponto de
partida para o desenvolvimento é um processo custoso e não é,
“nem muito rentável, nem promissor”.
↩
conhecimento exigido para ingressar em um sistema
tecnológico na sua fase inicial é público e disponível nas
universidades. Nessa fase, muitas competências e habilidades
requeridas ainda estão para ser inventadas na prática.
Conforme visto anteriormente, à medida que o sistema evolui o
novo conhecimento gerado e as habilidades, que são
cumulativas, vão se tornando cada vez mais apropriadas pelas
firmas, assumindo uma natureza cada vez mais privada e
indisponível para venda entre os competidores. Apenas com o
tempo, quando o sistema se aproxima da fase de maturidade
que o conhecimento e as habilidades se tornam novamente
públicos ou disponíveis para venda no mercado.
↩
Processo de aprendizado,
acumulação de conhecimento e
Sistemas de Inovação: a “coevolução
das tecnologias físicas e sociais”
como fonte de desenvolvimento
econômico
1. Esse capítulo foi publicado originalmente na Revista Brasileira
de Inovação, v.11, n. 1, jan./jun. 2012.
↩
2. A perspectiva “institucionalista-evolucionária” engloba
neoinstitucionalistas (herdeiros do “velho” institucionalismo)
(Conceição, 2008) e neosschumpeterianos (evolucionários),
dado o alto grau de afinidade e complementaridade que existe
entre essas duas abordagens, inclusive no que se refere à
“economia do aprendizado” (Lundvall, 1996).
↩
3. No nível micro-organizacional estão as empresas; por sua vez,
no nível meso se dão as relações entre as empresas e outras
organizações, cujo comportamento é condicionado pelo nível
macro, que compreende as regras, políticas etc. (Cimoli; Della
Giusta, 1998).
↩
4. Economia em que o desenvolvimento da capacidade de
aprender novos processos (e esquecer, abandonar os antigos)
é fundamental (Hodgson, 1999). “A principal razão pela qual o
aprendizado tornou-se mais importante é a dialética entre
aprendizado e conhecimento. [...] Aprendizado refere-se ao
desenvolvimento de novas competências e ao estabelecimento
de novas capacitações, e não apenas ao ‘acesso a novas
informações’. A economia do aprendizado não é
necessariamente uma economia de alta tecnologia. O
aprendizado é uma atividade que ocorre em todas as áreas da
economia [...]” (Johnson; Lundvall, 2005, p. 86).
↩
5. Como ressaltam Cohen e Levinthal (1990), a “capacidade de
absorção” de conhecimento das empresas passa pela
“capacidade de absorção” dos indivíduos em seu interior.
↩
6. Conforme Nelson e Winter (1982, p. 151), numa compreensão
bastante ampla, “rotina” “pode referir-se a um padrão repetitivo
de atividade numa organização inteira, a uma habilidade
individual, ou – como adjetivo – à eficácia regular e sem
incidentes de um desempenho organizacional ou individual.”
Conforme Nelson (1996, p. 182), “As rotinas praticadas,
construídas dentro de uma organização, definem um conjunto
de ações que ela é capaz de fazer com segurança.” Becker
(2006) apresenta uma resenha a respeito das formas de
interpretação do significado de rotina, chegando a um conceito
bastante sintético, que servirá de base para este capítulo:
“routines as ‘recurrent interaction patterns’” (Becker, 2006, p.
25). Portanto, são fundamentais para o aprendizado individual e
organizacional.
↩
7. A cumulatividade do conhecimento é aqui adotada no sentido
de que um conhecimento prévio de um determinado objeto
potencializa um novo conhecimento acerca do mesmo objeto ou
de um objeto semelhante, ou seja, é path-dependent (Cohen;
Levinthal, 1990).
↩
8. Toma-se como válida a proposição de Clark (1923 apud
Penrose, 1959, p. 350, nota 6), para quem conhecimento é um
“[...] instrumento produtivo de capacidade ilimitada, que revela
sua crescente economicidade através de uma utilização cada
vez maior, e que nunca atinge o estágio de ‘rendimentos
decrescentes’.”
↩
9. Numa perspectiva neoschumpeteriana, Nelson e Winter (1982,
p. 383) ressaltam que “O escopo das inovações possíveis e das
características das organizações que procuram introduzi-las é
enorme.” Portanto, vão muito além das formas originalmente
apontadas por Schumpeter (1997b), utilizando-as, no entanto,
como ponto de partida de possíveis combinações inovativas.
↩
10. Para Nelson (2002, p. 20), o crescimento econômico está
associado diretamente à maneira como as rotinas afetam o
funcionamento das organizações. “Under evolutionary economic
theory, economic growth is caused by changes in the
distribution of operative routines, associated both with the
creation of superior new routines, and the increasingly
widespread use of superior routines and the abandonment of
inferior ones.”
↩
11. Os SIs são abordados de forma conjunta, como sinônimo de
Sistema Nacional de Inovações (SNI), abrangendo as
perspectivas regionais, setoriais e locais, já que se considera
que estas contribuem para o desenvolvimento nacional. O
delineamento das “fronteiras” de um SI depende da forma como
se dá a relação entre os atores e as instituições. Como
ressaltam Johnson e Lundvall (2005, p. 101), “Ainda que a
abordagem de sistemas de inovação cubra tanto sistemas
territoriais como setoriais, [...] o foco das pesquisas até hoje tem
sido principalmente nos sistemas regionais (dentro de países) e
nacionais.” Adota-se, dessa forma, o entendimento de Edquist
(2001), para quem as abordagens acerca de sistemas setoriais,
regionais e nacionais de inovação são complementares.
Segundo esse autor, “[…] the importance of national systems of
innovation has to do with the fact that they capture the
importance of the political and policy aspects of processes of
innovation. […] it is useful to consider sectoral and regional
systems of innovation as parts of national ones”. (Edquist, 2001,
p. 13).
↩
12. De acordo com Figueiredo (2004), a ação integrada desses
diferentes atores compreende a “infraestrutura tecnológica” de
um país, a partir da qual se projeta seu potencial de
desenvolvimento.
↩
13. Baseado na interpretação de Douglass North (1993), Edquist
(2001) entende que as organizações são atores e as
instituições são as regras do jogo, ambas representando os
componentes fundamentais de um SI, tendo diferentes e
interligadas funções relativas à inovação. Na perspectiva
institucionalista-evolucionária, as empresas são organizações e
também instituições, exercendo, portanto, influência crucial
sobre as “tecnologias físicas e sociais” (Nelson, 2002, 2008),
afetando diretamente as inovações em seus diferentes âmbitos.
↩
14. Para Nelson e Winter (1982), tanto a teorização formal quanto a
apreciativa são importantes para o avanço da ciência
econômica. A formalização e a apreciação têm conexões
próximas, segundo os autores. Além disso, ressaltam que a
impossibilidade da formalização não deve bloquear o avanço
teórico nem os estudos aplicados, em razão da possibilidade de
apreciação dos fenômenos. “Numa disciplina científica que
funciona bem, o fluxo de influência não ocorre apenas da
teorização formal para a apreciativa, mas também no sentido
inverso” (Nelson; Winter, 1982, p. 78). Como sintetiza Nelson
(2006, p. 2), a apreciação “[...] is theory that aims to capture the
basics of what actually is going on.”
↩
15. Edquist (2001) ressalta que políticas voltadas para o incentivo à
imitação têm sido historicamente uma das formas de atuação
dos Estados para desenvolver SIs.
↩
16. EUA, Japão, Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Dinamarca,
Suécia, Canadá, Austrália, Coreia do Sul, Taiwan, Argentina,
Brasil e Israel.
↩
17. As “tecnologias sociais” (Nelson, 2002, 2008) são concebidas
como parte fundamental dos arranjos institucionais que dão
suporte aos SIs. Conforme Nelson (2008, p. 3), “[…] the social
technologies that are widely employed in an economy are
enabled and constrained by things like laws, norms,
expectations, governing structures and mechanisms, customary
modes of organizing and transacting. All of these tend to
support and standardize certain social technologies, and make
others difficult or infeasible in a society. Sampat and I have
suggested that the term “institutions” is used by most of the
writers on the subject to denote structures and forces that mold
and hold in place prevalent social technologies.” Assim sendo,
“[…] social technologies also can be self-institutionalized.”
(Nelson, 2008, p. 2). Como exemplo de “tecnologia social”,
Nelson (2002) cita a forma multidivisional (M), a exemplo de
outras formas organizacionais, já que são incorporadas tanto
pelo ambiente interno quanto externo à empresa; trata-se de
um processo que transcende a esfera das empresas, em
virtude de que afeta todo um sistema econômico. Como
“tecnologias sociais institucionalizadas”, as formas
organizacionais integram-se aos arranjos institucionais,
afetando diretamente o desenvolvimento dos sistemas de
inovação.
↩
18. Nelson (1996, p. 454) ressalva que “Para uma empresa ou um
ramo serem competitivos num país de altos salários certamente
será necessário que façam uso efetivo de habilidades e de uma
tecnologia e gestão sofisticadas que não estão prontamente
disponíveis nos países com baixos salários.”
↩
19. Johnson e Lundvall (2005, p. 94) destacam a existência de “[...]
uma causalidade circular entre inovação e competição.”
↩
20. “A maior parte dos estudos empíricos de sistemas de inovação
mostra que os sistemas nacionais se diferenciam tanto em
termos de padrões de especialização quanto em termos de
estrutura institucional. A literatura também revela que essas
características têm raízes históricas profundas” (Johnson;
Lundvall, 2005, p. 99).
↩
Padrões de eficiência no comércio:
definições e implicações normativas
1. As hipóteses básicas dos modelos ricardianos podem ser
resumidas nos seguintes termos: o fator de produção e trabalho
é perfeitamente móvel no interior de um país e imóvel
externamente; existem distintas tecnologias no interior de um
mesmo país, de modo que a possibilidade de diferenças
intersetoriais na produtividade do trabalho fica definida em
função da existência de diferentes tecnologias; a produção está
sujeita à ocorrência de rendimentos constantes de escala. Já os
modelos neoclássicos (Heckscher-Ohlin) distinguem-se dos
ricardianos ao suporem a existência de dois fatores de
produção, capital e trabalho, cuja dotação relativa difere de país
para país que os países empregam uma mesma dada
tecnologia; e que os padrões de preferência dos consumidores
situados em diferentes países sejam idênticos (Gonçalves et al,
1998, p. 14 -24).
↩
2. Paul Krugman chega a conclusões semelhantes, ainda no início
da década de 80, ao introduzir a concorrência imperfeita e as
economias de escala na teoria neoclássica do comércio, dando
origem à denominada “Nova Teoria do Comércio Internacional”.
(Krugman,1979, 1980). Ver também Krugman e Obstfeld (2001,
cap.6).
↩
3. Com destaque para a contribuição de A. P. Thirlwall. Ver, por
exemplo, Thirlwall (1979, 1980, 1986), e também McCombie e
Thirlwall (1994).
↩
4. É interessante observar que a reintrodução do tema da
tecnologia como fator explicativo dos padrões de especialização
no comércio significa a retomada de uma preocupação que já
fora de Ricardo. A diferença está em que este autor tinha uma
visão estática da tecnologia, ao passo que os evolucionistas
partem de uma concepção dinâmica.
↩
5. Os conceitos de oportunidade, apropriabilidade e
cumulatividade tecnológica perpassam grande parte da
literatura neoschumpeteriana. Dentre as referências básicas
destacam-se Dosi (1982, 1984, 1987, 1988), Nelson e Soete
(1988) e Nelson e Winter (1982).
↩
6. Ainda que tal interação não ocorra sempre e nem de maneira
automática, há razoável evidência empírica em respaldo à
hipótese de uma convergência entre os produtos/setores
intensivos em tecnologia e aqueles cuja demanda internacional
tende a crescer a taxas mais elevadas e a produzir maior efeito
positivo sobre o crescimento econômico. A esse respeito, ver
Fagerberg (1995), Amable (1996), Dalum, Laursen e Verspagen
(1996), Ross (2001).
↩
7. A hipótese básica por trás deste raciocínio é a de que o
consumo de bens de “primeira necessidade” tende a cair com o
aumento da renda, e torna-se menor quanto mais alto o nível de
renda, ao passo que o consumo de bens de “luxo” tende a fazer
o movimento inverso.
↩
8. Permanecendo constantes estas três últimas variáveis e
somente nesta hipótese -, a elasticidade-renda será o fator
determinante. Ver McCombie e Thirwall (1994).
↩
9. Diversas análises sugerem esta interpretação. Ver, por
exemplo, Pavitt (1984), Pavitt (1989), Patel e Pavitt (1994),
Guerrieri (1994).
↩
10. Note que tal necessidade se coloca também para os modelos
Kaldorianos, daí o porquê destes considerarem não apenas a
elasticidade-renda das exportações como também a das
importações.
↩
11. Ao analisarem a evolução do padrão de exportação de 20
países da Organization for Economic Co-operation and
Development (OECD), no período 1965-1992, Dalum, Laursen
e Villumsen (1996) chegaram a resultados que sustentam esta
hipótese. Constataram que os padrões de exportação
analisados mostraram-se estáveis no longo prazo, embora
tendo combinado um elemento de rigidez – caracterizado pela
ausência de modificações estatisticamente significativas na
composição setorial do market-share dos países – com
mudanças incrementais. Concluíram, então, que “... estes
resultados não deixam, portanto, dúvidas de que os padrões
nacionais de especialização das exportações são muito
resistentes ou rígidos. Os padrões nacionais deixam suas
impressões digitais nas prováveis trajetórias do
desenvolvimento futuro...” (Dalum; Laursen; Villumsen, 1996,
p. 21 grifo nosso).
↩
12. Neste sentido, observa-se que uma deficiência crítica da teoria
ortodoxa “[...] é seu tratamento da informação tecnológica como
exógena ao sistema econômico, e, consequentemente, sua
falha em oferecer qualquer entendimento de que mudanças na
tecnologia (ou gostos) são mais adequadamente descritas
como um processo econômico – uma falha que está
estreitamente ligada à dependência do método de análise de
equilíbrio de longo prazo” (Metcalfe, 1999, p. 5).
↩
13. Compartilhando da interpretação evolucionista, entendemos
não se tratar aqui de “imperfeições de mercado” – uma
terminologia cujo significado conceitual inscreve-se no
referencial neoclássico –, mas de assimetrias (nos mercados de
capitais e de produtos) que decorrem de características
inerentes ao processo de inovação e de mudança tecnológica,
vale dizer, da incerteza intrínseca a esse processo. Não fosse
essa incerteza, os capitalistas incluiriam nas suas projeções de
rentabilidade os diferentes impactos do potencial de inovações
futuras em cada projeto de investimento, decidindo então, à
base desse cálculo prospectivo, o padrão de especialização
corrente.
↩
Riscos macrofinanceiros, preferência
pela liquidez e acumulação real no
capitalismo financeirizado
1. Com a exceção da economia chilena, pioneira na aplicação dos
experimentos neoliberais propostos originalmente pela
sociedade Mont Pelerin.
↩
2. Existem diferentes classificações para os contratos que
envolvem de forma agregada os diferentes tipos de contratos
futuros, forwards, opções e swaps, dependendo do ativo ou
transação que origina sua criação (Hull, 1995). As
classificações incluem derivativos de mercadorias do Setor
Primário, derivativos financeiros e derivativos de crédito. Além
disso, derivativos mais complexos são normalmente criados por
uma combinação dos instrumentos mencionados anteriormente.
Este capítulo aborda apenas os tipos simples de derivativos
financeiros relacionados à proteção privada contra os riscos
macrofinanceiros, isto é, riscos associados a variações na taxa
de juro e na de taxa de câmbio, e não com instrumentos
complexos ou mesmo derivativos financeiros utilizados para
supostamente alinhar a remuneração dos executivos com o
desempenho corporativo no caso das sociedades anônimas.
Também não se considera o emprego de swaps de moedas
pelos bancos centrais como mecanismo potencialmente
estabilizador do câmbio. Finalmente, não se consideram outras
funções dos derivativos discutidas na literatura, como, por
exemplo, a descoberta de preços nos mercados dos ativos
originários ou melhor acesso a financiamento.
↩
3. Os preços macrofinanceiros mais importantes para o
financiamento da acumulação de capital por meio de
obrigações são as taxas de juros e taxas de câmbio, e não as
ações. Apesar de as quebras bursáteis terem impactos
macroeconômicos, o preço das ações e sua volatilidade no
mercado secundário estão vinculados à esfera da gestão da
riqueza privada, já que são títulos transferíveis de propriedade
restritos a uma pequena parcela da sociedade, e não
diretamente às estratégias corporativas de financiamento de
ativos (Froot et al., 1994). Além disso, a volatilidade que ocorre
no mercado primário é absorvida pelos bancos responsáveis
pela subscrição e lançamento das ações. Por sua vez, as
operações de crédito e emissão de títulos são mais difundidas
para financiar investimentos, e a mundialização tornou a taxa
de câmbio uma variável-chave nas operações das empresas.
Justifica-se assim a ausência de regulamentação rigorosa e
explícita da volatilidade do preço das ações. Da mesma forma,
o fato de a maior parte das transações envolvendo derivativos
financeiros, com a possível exceção das opções, serem
baseadas em taxas de juros ou câmbio, corrobora a ênfase
nesses preços macrofinanceiros.
↩
4. Isso implicitamente requer que posições especulativas não
sejam financiadas endogenamente pelo sistema financeiro, por
meio de inovações que contornariam as limitações impostas
pela existência da separação, o que aparentemente não
ocorreu no período considerado.
↩
5. Edward Kane denomina de “dialética regulatória” a contínua
introdução de inovações nos mercados financeiros para
contornar os regulamentos existentes. Com o enfraquecimento
da regulamentação existente, uma nova regulamentação é
introduzida, apertando os controles e induzindo novas
inovações financeiras e assim por diante (Russell, 2008).
↩
6. Miller (1997) argumenta que algumas destas respostas,
principalmente os derivativos que tratam da volatilidade nos
mercados de ações, já estavam sendo desenvolvidas antes do
fim de Bretton Woods, mas não foram implementados – como
não poderia deixar de ser – por problemas de regulamentação.
↩
7. A existência de empresas empregando derivativos
primariamente para se proteger da volalilidade não invalidaria
este argumento, desde que o risco fosse transferido para outra
parte, ampliado por meio de operações alavancadas e
redistribuído para um número maior de carteiras. O valor em
risco nesta cadeia secundária de operações pode superar o
valor inicialmente protegido. Ou seja, se a tendência envolve
mais especulação do que proteção, os derivativos não devem
ser entendidos como respondendo ao fim do regime de
regulamentação e controles, mas como uma forma de reforçar a
volatilidade e criar oportunidades de lucro.
↩
8. Crotty (2007) mostra que os derivativos são um dos mais
importantes determinantes do aumento substancial da
rentabilidade dos bancos no período mais recente, mas que
esta rentabilidade está dissociada de quaisquer melhorias da
eficiência na intermediação financeira.
↩
9. Existem vários outros riscos associados às diferentes atividades
econômicas que contribuem para aumentar a incerteza,
incluindo riscos operacionais derivados de mudanças
inesperadas em vendas e estoques, mudanças nos custos do
trabalho, riscos de crédito, mudança nos custos das matérias-
primas etc., muitos dos quais não podem ser cobertos senão
por meio de ativos líquidos. Crotty (2005) discute o impacto
negativo do neoliberalismo sobre as empresas não financeiras,
sugerindo que a competição acirrada poderia ser considerada
uma outra fonte de riscos potenciais para as empresas. Com
relação ao risco de crédito, Kalecki (1937) desenvolveu o
princípio do risco crescente, quando fundos externos são
necessários para financiar projetos de investimento, e Keynes
(1964) discutiu a existência de risco de crédito entre devedores
e credores. Derivativos de risco de crédito podem ser
empregados para proteger contra estes riscos. Da mesma
forma, os derivativos de commodities podem ser utilizados para
proteger contra a volatilidade do preço das matérias-primas.
Esses instrumentos podem igualmente ser empregados para
especulação.
↩
10. Smith et al. (1989) discutem a necessidade de cobertura de
riscos com o uso de derivativos em termos do que Leijonhufvud
chama de penalidade: a possibilidade de crise financeira e
insolvência.
↩
11. E pode ainda existir uma relação entre os riscos calculados e a
incerteza percebida subjetivamente, à medida que se torna
mais difícil projetar o futuro em circunstâncias de maior
volatilidade nos preços macrofinanceiros. Nesse sentido, é
possível argumentar que a incerteza sobre as taxas de câmbio
sob Bretton Woods, com volatilidade reduzida, foi menor do que
a incerteza sobre estas taxas sob um regime de câmbio
flutuante com o aumento da volatilidade. Mais importante para
os nossos propósitos, se se pode mostrar que a preferência
pela liquidez está associada a alguma medida operacional de
riscos financeiros, à medida que o aumento da volatilidade
torna menos confiáveis as projeções financeiras e estimativas
de fluxo de caixa, pode-se argumentar que essa relação reforça
a hipótese pós-keynesiana. Isso porque a convenção de atribuir
distribuições de probabilidade «conhecidas de forma assumida»
a eventos futuros «conhecidos de forma assumida» pode não
eliminar a necessidade de retenção de ativos líquidos por
completo, nem mesmo com derivativos, como se mostra a
seguir.
↩
12. Uma matéria no The Wall Street Journal destaca este ponto
(Timiraos, 2008, grifo e tradução do autor). De acordo com a
reportagem, “... a regulamentação tem suas limitações, diz Alex
J. Pollock, membro residente no conservador American
Enterprise Institute. “Não importa o que qualquer regulador ou
legislador faça, os mercados financeiros criarão tanto risco
quanto eles quiserem.” No entanto, parece que os reguladores
de Bretton Woods, e os legisladores do Regulamento Q e
Glass-Steagall nos EUA de fato conseguiram conter a
capacidade dos mercados financeiros na criação de mais
riscos.
↩
13. Poder-se-ia igualmente argumentar, seguindo Minsky, que, se
as empresas estão excessivamente confiantes e mantêm ativos
relativamente menos líquidos, isso pode levar a um aumento da
fragilidade financeira e do potencial de instabilidade financeira.
Se a instabilidade aumenta os riscos macrofinanceiros, então a
linha de regulação financeira para a economia como um todo
teria que ser inclinada para baixo, apresentando uma
causalidade inversa em que a liquidez insuficiente leva à
fragilidade financeira, a fragilidade financeira leva à
instabilidade financeira e instabilidade financeira leva a uma
maior volatilidade financeira.
↩
14. A suposição de ceteris paribus é importante, dado que
alterações em outras variáveis, tais como as expectativas e os
riscos não financeiros, incluindo mudanças nas variáveis reais,
poderiam igualmente modificar a forma da função de
preferência de liquidez.
↩
15. As propostas mais destacadas na literatura incluem uma nova
arquitetura financeira internacional nos moldes de Bretton
Woods, regulamentação prudencial, o acordo de Basileia III, a
taxa Tobin, exigências de reservas lastreadas em ativos para os
bancos e a imposição de controles quantitativos sobre os fluxos
de capitais de curto prazo.
↩
As disfunções do capitalismo na
visão de Keynes e suas proposições
reformistas
1. Conforme o princípio da demanda efetiva (PDE), os níveis de
renda e emprego aumentam se, e somente se, a renda
esperada pelo emprego adicional for maior que a renda
necessária. Em outras palavras, a demanda efetiva representa
o valor do produto que as empresas acreditam que produzirá
lucro máximo face suas expectativas sobre a posição da
demanda agregada. Para maiores detalhes, veja Keynes (1964,
cap. 3).
↩
2. De agora em diante, as referências oriundas dos volumes do
“The Collected Writings of John Maynard Keynes” serão
sinalizadas pelo acrônimo CWJMK seguido do volume e do
ano. As demais referências de Keynes serão denotadas apenas
pelo ano da edição da obra.
↩
3. Embora sucinto, o artigo My Early Beliefs deu corpo a toda uma
literatura especializada nos debates sobre a influência da
filosofia em Keynes e sobre o chamado “keynesianismo
filosófico”. Para mais, veja Rotheim (1989,1990), Davis
(1989,1990), Bateman e Davis (1991), Skidelsky (1999) e
Andrade (2000).
↩
4. Não é por demais salientar que, segundo Keynes “o empresário
não está interessado no montante de produto, mas no montante
de moeda que lhe será partilhado. Ele expandirá sua produção,
pois espera, ao fazê-lo, aumentar seu lucro monetário”
(CWJMK, XXIX, 1979, p. 82). Isso define, para Keynes, uma
economia empresarial ou monetária da produção.
↩
5. A refutação da Lei de Say por Keynes foi de tal ordem que,
segundo Kates (1992: 191) “a frase que ficou conhecida como a
Lei de Say são as palavras introduzidas por Keynes, quais
sejam, ‘a oferta cria sua demanda’”. Para uma reinterpretação
da validade da referida Lei e, inclusive, para uma
reapresentação das críticas de Keynes à Lei de Say – e dos
efeitos delas sobre a teoria econômica –, veja: Kates (1992).
↩
6. É importante esclarecer que “além” significa, conforme utilizado
na passagem acima, um resultado diverso – podendo ser
quantitativa ou qualitativamente maior ou menor – do que o
esperado pelo agente.
↩
7. Não é por menos que, “estávamos [Keynes e seus
contemporâneos em Cambridge] entre os primeiros de nossa
geração, às vezes sozinhos em nossa geração, a escapar da
tradição Benthamita [utilitarista]” (CWJMK, X, 1972b, p. 445).
↩
8. Para referências, veja: Robinson (1972), Eichner e Kregel
(1975) e Davidson (1978; 1991a), dentre várias outras.
↩
9. Keynes, em My Early Beliefs, destaca como a unidade orgânica
de Moore foi importante para que ele desenvolvesse sua teoria
da probabilidade. Para mais, veja Keynes (CWJMK, X, 1972b).
↩
10. Nesta época, início dos anos 1920, a “agenda de pesquisa”
sobre probabilidade se centrava na apuração estatística das 15. Cabe salientar que as alterações da taxa de juros de mercado
distribuições de frequência. Para mais, veja Carvalho (1988) e
Skidelsky (1999).
↩
11. Ciente de que sua perspectiva sobre probabilidade enfrentaria
severas resistências e que era preciso, em vista disto, um
trabalho de persuasão sobre a comunidade científica, Keynes
(CWJMK, X, 1972b, p. 438) argumenta: “consideramos tudo isto
[a sua teoria da probabilidade] como inteira e
caracteristicamente racional e científica. Como qualquer outro
ramo da ciência, não é nada mais do que a aplicação da lógica
e da análise racional ao material apresentado como dados à
nossa sensibilidade”.
↩
12. É importante ressaltar que, conforme Keynes (CWJMK, X,
1972b), dentre seus convivas em Cambridge estavam Bertrand
Russel e Ludwig Wittgenstein, dois expoentes, no século XX, da
lógica filosófica, ramo da filosofia que se dedica à compreensão
dos fundamentos da lógica constituinte do pensamento e, por
consequência, do conhecimento. Keynes, que frequentava
Lectures destes filósofos, tinha a consideração necessária com
a pertinência lógica de suas teorizações. Para mais sobre as
relações entre Keynes e os filósofos de Cambridge, veja
Bateman e Davis (1991) e Coates (1996).
↩
13. Um exemplo de convenção tacitamente assumida, conforme
Rotheim (1989-1990, p. 324), pode ser observado “no
estabelecimento da oferta de trabalho em termos monetários
[...] [que] [...] tem o efeito de manter os preços monetários
estáveis, o que, por sua vez, adiciona um elemento de
confiança às expectativas de longo prazo dos empresários”.
↩
14. É importante ressaltar que no Capítulo 24 da GT, Keynes
ressalta, além das políticas tradicionais, a política de renda.
Para maiores informações sobre políticas macroeconômicas,
não necessariamente monetária e fiscal, em uma perspectiva
keynesiana, veja Carvalho (1999) e King (2003).
↩
podem depender apenas das expectativas dos agentes no
mercado, os quais Keynes estilizou como bulls e bears. Bulls e
Bears, a rigor, são os agentes que operam no mercado
financeiro, especulando entre as bank rate e bond rate. Assim,
a especulação altera a taxa de juros de mercado, influenciando
as alocações de moeda entre poupança e investimento.
↩
16. Para informações sobre a armadilha da liquidez, veja: Krugman
(2000).
↩
17. As discussões se travaram principalmente, entre Keynes e
William Beveridge. Para mais, veja Keynes (CWJMK, XXVII,
1980, p. 204-205).
↩
18. Para Keynes, o órgão semipúblico “busca o bem público [...] [e]
aproxima-se mais do status de uma corporação pública do que
de uma empresa privada”. [Como exemplo, tem-se] “as
universidades, o Banco da Inglaterra e a Autoridade Portuária
Londrina e [...] instituições joint-stock.” (Keynes apud Kregel,
1985, p. 37).
↩
19. Para uma série de aplicações inadequadas das políticas
econômicas de Keynes – ou pretensamente keynesianas –,
veja Skidelsky (1999, p. 133-140), além de Bresser-Pereira e
Dalla’acqua (1991) e Gobetti (2008).
↩
Você terminou Desenvolvimentismo: o conceito, as bases teóricas e as políticas
Ricardo Dathein
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