Desenvolvimentismo: o conceito, as bases teóricas e as políticas
A Economia Política Institucionalista e o desenvolvimento
A Economia Política
Institucionalista e o
desenvolvimento
Henrique de Abreu Grazziotin, Róber Iturriet Avila, Ronaldo
Herrlein Jr.
Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem sob circunstâncias
de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente,
legadas e transmitidas pelo passado.
Karl Marx
1. Introdução
Desde o final do século XX, a questão do desenvolvimento
institucional e do papel das instituições na esfera econômica tornou-
se cada vez mais preponderante na teoria econômica, deixando de
ser um simples aspecto de “rigidez de mercado”. O ambiente institucional ganhou elevado poder explicativo desde então,
principalmente quando as políticas prescritas pelas instituições
internacionais falharam, sendo a causa apontada para tal falha a
inexistência de arranjos institucionais que dessem suporte a tais
políticas. As reformas propostas pelo Fundo Monetário Internacional
(FMI) e pelo Banco Mundial desde os anos 80 foram infrutíferas,
pois ignoraram as diferenças institucionais entre os países,
advogando políticas idênticas para estruturas distintas (Chang, 2007a). Hoje, há ampla aceitação de que políticas derivadas
diretamente de experiências dos países desenvolvidos ou dos livros-
texto de economia dificilmente serão eficazes quando aplicadas a
países em desenvolvimento que não apresentam o ambiente
institucional pressuposto para o seu funcionamento.
Dessa forma, a experiência recente nos mostra que os arranjos
institucionais são essenciais para que se possa entender o que
diferencia as trajetórias econômicas das diversas nações. Há a
necessidade, portanto, de maior compreensão sobre os determinantes das instituições de cada país, como elas mudam ao
longo do tempo e quais as relações entre as mesmas e o
desenvolvimento econômico nacional. A Economia Política
Institucionalista é uma abordagem teórica que busca responder a
essas questões, prezando pela importância dos aspectos políticos e
institucionais na atividade econômica. Trata-se de uma teorização
apoiada em um corpo teórico aberto e que é proposta, com seus
pressupostos gerais, nos diferentes trabalhos de Ha-Joon Chang 1.
Neles, Chang busca apontar as características essenciais acerca
dessa abordagem, baseando-se no desdobramento teórico do
chamado “Velho Institucionalismo” (Original Institutional Economics) e aceitando contribuições de autores de diversas vertentes. Nas
palavras do próprio Chang (2002),
Como o leitor já deve ter notado, e isso se esclarecerá mais adiante, quando
falo em abordagem “institucionalista”, não me refiro ao tipo Nova Economia
Institucionalista (NEI), e sim a um desenvolvimento da tradição encontrada
em autores clássicos como Karl Marx, Thorstein Veblen, Joseph Schumpeter,
Karl Polanyi, Andrew Shonfield e Herbert Simon. [...] Essa tradição, às vezes
chamada de Antiga Economia Institucional, difere da NEI em vários aspectos
relevantes, porém a mais importante é que encara as instituições não
simplesmente como coerções ao comportamento de indivíduos pré-moldados
e inalteráveis, como na NEI, mas considera que elas próprias também
moldam os indivíduos. (Chang, 2002, p. 120).
A Economia Política Institucionalista (daqui para frente abreviada
em EPI) é considerada um corpo teórico aberto porque apresenta
apenas noções gerais acerca das relações entre os ambientes
institucional, econômico e político. Não há proposições de política
que possam ser diretamente derivadas dessa abordagem,
justamente pelo entendimento que a mesma apresenta da natureza das relações entre economia, política e instituições. Elas são de alta
complexidade, diferindo ao longo do tempo e entre países. Além
disso, a EPI é uma abordagem aberta porque não refuta
diretamente as diferentes visões teóricas que tratam das instituições, mas as engloba. Portanto, à medida que essa visão
apresenta maior capacidade explicativa para entender como, de
fato, as relações que envolvem as instituições funcionam, ela perde
poder propositivo, sendo necessária a análise específica de cada caso. Isso significa que o marco teórico aqui apresentado não gera
regras simples e imediatas, o que é um custo prático associado a
uma visão ampla sobre um tema que é de alta complexidade.
O que este ensaio pretende fazer é esboçar esse marco teórico.
São necessários elementos teóricos abstratos para que se possa
entender como se dá a interação das instituições com o ambiente
econômico e qual o papel das mesmas no processo de
desenvolvimento. De forma didática, o ensaio introduz a EPI como uma alternativa de abordagem na análise da relação entre
instituições e desenvolvimento econômico, com enfoque no
processo de mudança institucional. Nosso texto está subdividido em
seis seções além desta introdução. A primeira apresenta as
definições básicas da EPI, com enfoque nas ideias de forma e
função, e o papel primordial da cultura nesta abordagem. A segunda
enfoca o processo de mudança institucional a partir das relações
complexas entre instituições e agentes. A terceira busca caracterizar, em economias capitalistas, o mercado, o Estado e a
política dentro do marco teórico da EPI, com enfoque na diversidade
institucional e na indissociabilidade desses elementos a partir das
“estruturas de direitos e obrigações”. A quarta seção tem como
objetivo explicitar as relações de causalidade entre instituições e
desenvolvimento econômico (entendido aqui como mudanças da
estrutura produtiva capitalista), colocando em questão a importância
das inter-relações existentes entre o ambiente institucional e a estrutura. A quinta seção apresenta considerações acerca da
metodologia da análise institucional e, por fim, a conclusão fecha o
trabalho, com um resumo da EPI como marco teórico consistente
para a interpretação das instituições e do desenvolvimento.
2. Definições básicas e o papel da
cultura
Inicialmente, é importante ressaltar que as controvérsias que
permeiam o debate institucional começam logo nas definições mais
básicas. O conceito de “instituição” não é consensual, diferindo
entre os autores (Chang, 2007B; Conceição, 2000). Em Veblen, as instituições são hábitos de pensamento dominantes, conjunto de
normas, valores, regras 2 3 , convenções que são estabelecidas pelo
pensamento comum (coletivo) e que se tornam rotinas, padrões em uma sociedade, sendo ainda sujeitas à mudança, evolução: “isto é o
que se entende por instituições; são hábitos comuns de pensamento
estabelecidos para a uma generalidade de homens” 4 (Veblen, 1952, p. 238). Eles são solidificados a partir de características genéricas
do ser humano – os “instintos humanos” de Veblen – e de suas
vivências históricas. Estes hábitos estabelecidos superam ou
fortalecem processos e rotinas e modelam as sociedades. Nos
termos de Hodgson (2007, p. 96), instituições são “sistemas de
regras sociais estabelecidas e enraizadas que estruturam interações
sociais” 5. Na interação do indivíduo com a sociedade, são
estabelecidas normas de comportamento, convenções, códigos de
conduta, costumes, tabus que formam a ordem social. As
instituições podem ser tidas, ainda, como crenças que configuram o
arranjo de poder, ações coletivas que controlam o indivíduo, restrições advindas da inter-relação humana, poder que condiciona
a transação e a reprodução material, conjunto de hábitos e
pensamentos presentes no tecido social (Conceição; Barcellos,
2010; Stanfield, 1999).
Para diferentes abordagens institucionalistas, o processo de
desenvolvimento econômico apresenta 6 path-dependence , sendo
um fenômeno peculiar e particular em cada sociedade, em que o
ambiente econômico envolve disputas, conflitos e incertezas
(Conceição, 2002). Há também uma concordância genérica entre os
“institucionalismos” quanto à noção de que as restrições formadas
pelas instituições mudam e são modeladas pela interação humana e que elas estruturam a sociedade.
A inexistência de um consenso para a definição de instituições
leva, por consequência lógica, à inexistência de consenso quanto às
relações que as instituições mantêm com os resultados econômicos, dificultando o debate. Para resolver essa questão, a EPI apresenta
uma definição ampla, enfatizando instituições formais e informais:
Instituições são padrões sistemáticos de expectativas compartilhadas,
pressupostos dados como certos, normas aceitas e rotinas de interação que
têm efeito robusto em moldar as motivações e o comportamento de grupos
de atores sociais interconectados. Em sociedades modernas, elas estão
usualmente incorporadas em organizações coordenadas hierarquicamente
com regras formais e capacidade de impor sanções coercitivas, como o
governo ou as empresas. (Chang; Evans, 2000, p. 2, tradução nossa).
Na definição apresentada, destaca-se, em primeiro lugar, a
diversidade de elementos que estão contemplados pelo termo
“instituições”. Há a existência de instituições formais (leis, normas,
organizações, direitos de propriedade) e instituições informais
(cultura, valores, costumes), remontando a visão de Veblen sobre o
tema7. Pela definição, quando as normas aceitas, as rotinas de
interação, os pressupostos dados como certos e as expectativas
compartilhadas se expressam com caráter normativo-regulador da
conduta, tendendo a ser incorporadas em organizações formais com poder coercitivo, trata-se de instituições formais. Quando esses
elementos existem, porém não são incorporados formalmente, trata-
se de instituições informais. A interação entre esses dois tipos é, na
EPI, essencial para a compreensão dos resultados das políticas em
ambientes institucionais distintos. As instituições formais, por
exemplo, apesar de serem criadas para que sejam estáveis ao
longo do tempo, apresentam maior capacidade de mudança do que
as instituições informais, que envolvem as tradições e a cultura de
determinado país. 8 Essas últimas, portanto, demoram mais para
serem alteradas, o que não implica que elas permaneçam sempre
as mesmas no longo prazo. 9 As relações sociais que ocorrem no
ambiente institucional, caracterizado pela interação entre instituições
formais e informais, acabam por determinar os resultados
econômicos e sociais de cada nação. As instituições formais apresentam duas características importantes: forma e função. É
necessário que haja uma distinção clara, pois a simples aplicação
de determinado formato institucional não garante os resultados
esperados por uma instituição, do mesmo modo como não há uma
maneira correta de estipular quais funções certa instituição deve cumprir em uma sociedade. O que parece ocorrer, de acordo com
Chang (2007b), é uma confusão no debate entre formas e funções,
sem a distinção correta entre estes elementos.
As formas que uma instituição formal pode apresentar são
diversas. Exemplos são a democracia para as instituições políticas,
o enfoque na propriedade privada para os direitos de propriedade e
a independência para o Banco Central. De acordo com a EPI,
formas específicas não garantem resultados específicos, como se
observa nas falhas de “transplante institucional” (Chang, 2007b). No
entanto, apesar da forma não garantir o cumprimento de
determinadas funções, é impossível descartar este elemento da
discussão das instituições, pois a negligência da forma da instituição
leva a um discurso vazio e indefinido, sem propriedade prática. 10
Portanto, toda instituição formal apresenta um formato, uma forma.
Relacionar diretamente um formato a uma função leva ao
chamado “fetiche da forma”, em que se nega o fato de que uma
série de diferentes formas pode levar ao cumprimento de certa
função importante para o desenvolvimento econômico. A falta de
correspondência direta acontece devido à interação entre
instituições formais e informais. Isso ocorre porque as instituições
não funcionam no “vácuo”, mas se relacionam de forma sistêmica
em um ambiente institucional amplo (Chang, 2007b). Portanto, uma
forma, para determinada instituição, que é importada de um ambiente institucional em que os resultados da sua aplicação foram
positivos, não necessariamente obterá os mesmos resultados em
outro país em virtude da interação com as instituições locais. Essa
interação acontece tanto com as demais instituições formais do país
local, que são distintas, quanto com as instituições informais, que
são mais difíceis de serem modificadas em um curto período. Nesse
último caso, o problema de compatibilidade pode ser mais severo,
pois, mesmo que fosse possível alterar todas as instituições formais que se relacionam com a nova instituição, não seria possível
adaptar as informais (Chang, 2007b). Nas palavras do próprio
Chang,
Se um país tenta mudar as instituições importando novas formas das
mesmas (ou mesmo importando os tipos de instituições que estão atualmente
ausentes), elas podem não funcionar bem se forem incompatíveis com as
instituições locais; talvez porque elas sejam fundadas sobre valores morais
que são incompatíveis com valores morais locais, talvez porque elas
assumam a existência de certas instituições que não existem no contexto
local. (Chang, 2007a, p. 6, tradução nossa).
As funções, o segundo aspecto referente às instituições formais,
também podem ser das mais diversas. Alguns exemplos de funções
que podem ser exercidas pelas instituições são de coordenação, de
administração, de inovação, de redistribuição de renda e de coesão
social (Chang, 2007b). Uma abordagem funcionalista buscaria
identificar as funções essenciais que as instituições devem cumprir
para o desenvolvimento econômico e encontrar o formato
institucional que mais se adapta a tal função (Chang, 2007b). No entanto, há inúmeras funções que as instituições devem cumprir
para o desenvolvimento, sendo improvável um consenso acerca de
uma lista das principais. 11 Portanto, não há uma maneira correta de definir as funções mais ,importantes a serem exercidas pelo arranjo
institucional.
Em primeiro lugar, uma mesma instituição serve a mais de uma
função (Chang, 2007b). Exemplos são as instituições orçamentárias
governamentais, que exercem as funções de investimentos em
infraestrutura, proteção social e estabilidade macroeconômica, ou as
instituições políticas, que servem para resolução de conflitos,
provisão de coesão social e processos decisórios (Chang, 2007a, 2007b). Assim, nenhuma instituição acaba por cumprir uma única
função.
Em segundo lugar, há várias instituições que exercem (ou podem
exercer) a mesma função (Chang, 2007b). Por exemplo, a função de
estabilidade macroeconômica pode ser obtida através de
instituições distintas, que podem ser tanto um banco central
independente focado na redução da inflação, quanto instituições
orçamentárias do governo, instituições de regulação financeira, dentre outras.
Em terceiro lugar, uma mesma função pode ser exercida por
diferentes instituições em diferentes sociedades (ou na mesma
sociedade em diferentes períodos) (Chang, 2007b). Isso significa
que enquanto uma sociedade cumpre a função de garantia do bem-
estar dos seus cidadãos através de uma instituição específica, como, por exemplo, o Estado de bem-estar social, outra sociedade,
sem essa instituição, pode ter a mesma função cumprida por
instituições distintas. Isso significa que, para que haja comparação
entre o quanto de bem-estar é provido à sociedade, como nesse exemplo, é necessário considerar não só a instituição “Estado de
bem-estar social”, mas as demais que cumprem a mesma função.
Por essas razões expostas por Chang (2007b), é muito difícil que
haja uma lista consensual de quais seriam as mais importantes
funções que devem ser exercidas pelas instituições de uma nação
para levá-la ao desenvolvimento12.
O risco associado ao não entendimento de que existe uma
multiplicidade funcional das instituições pode levar ao problema
chamado por Chang (2007a) de institutional monotasking. Esse
problema consiste em delegar a determinada instituição o
cumprimento de uma única função, renegando o caráter multifuncional das instituições apontado pela EPI, o que é um erro
por três motivos.
Em primeiro lugar, o institutional monotasking falha em explorar
inteiramente o potencial das instituições. Um exemplo seria o banco
central, que apresenta uma série de funções que exerceu
historicamente no desenvolvimento dos países além da estabilidade
do nível de preços13. Assim, de acordo com a EPI, é necessário que
haja o entendimento multidimensional das funções para o
aproveitamento pleno das capacidades institucionais.
Em segundo lugar, o institutional monotasking também torna mais
fácil que grupos de interesse capturem certas instituições, fazendo com que estas sirvam aos seus interesses enquanto deveriam servir
a outros também. Um exemplo está na governança corporativa
orientada para os acionistas, que permite que estes imponham seus
interesses sobre os demais interessados da sociedade. 14 As
relações que se estabelecem quando uma única função é enfatizada
para a instituição podem ser de dominação por parte de algum
estrato da sociedade, por alguma relação de dependência ou de
coerção.
Em terceiro lugar, o institutional monotasking pode levar à
avaliação positiva de uma instituição quando considerada uma única
função, negligenciando como ela se comporta em relação às demais funções que irá exercer. Basicamente, esquece-se das demais
funções que ela inevitavelmente cumprirá. Assim, uma instituição
que parece servir bem a uma função específica pode ser péssima
quando outra é levada em consideração.
De uma forma geral, a não consideração da multiplicidade
funcional atrelada ao nosso objeto de estudo e a negligência das
diferenças entre as formas e as funções são causadoras de
problemas. Elas passam a ocorrer principalmente quanto existe
ênfase apenas em um dos elementos que caracterizam as
instituições formais e não o reconhecimento da sua complexidade.
Outro aspecto importante e conceitualmente definidor acerca das
instituições, para além dos conceitos de forma e função, é sua capacidade de moldar as motivações e o comportamento de grupos
e atores socialmente interconectados. Atribuir às instituições a
capacidade de moldar as motivações e o comportamento dos
agentes é um dos elementos cruciais da EPI e uma característica
fundamental das instituições. Para explicar como elas atuam nesse
sentido, Chang apresenta três características que nelas coexistem.
A primeira é restringir o comportamento humano, limitando a ação.
A segunda é possibilitar que agentes atinjam certos objetivos. A terceira, e mais importante, é constituir as motivações do
comportamento humano e a visão de mundo dos agentes através
das ideias e dos valores incorporados nas instituições. 15 A menos que esses três aspectos sejam considerados, a análise das
instituições não estará completa.
A primeira característica está relacionada ao caráter limitador e
restritivo do comportamento. As instituições formais, assim,
estipulam limites para a ação e sanções no caso de
descumprimento desses limites estabelecidos. Dessa forma,
garante-se, ou, pelo menos, se busca garantir que comportamentos
que apresentam altos custos sociais, ou que não apresentam legitimidade perante a sociedade, sejam coibidos. Exemplos são as
regras de trânsito, normas de conduta e o direito penal. Portanto, o
papel de muitas instituições é o de estabelecer o campo de ação
aceitável da atuação humana, sendo a ação coercitiva o instrumento
que garante tais limites. Esta visão é contemplada pela própria definição de instituições apresentada pela EPI, quando considera a
capacidade de imposição de sanções pelas instituições formais. 16
A segunda característica das instituições põe em relevo sua
capacidade de possibilitar o alcance, por parte dos agentes, de
objetivos que, sem elas, seriam inalcançáveis. Um exemplo é o
engajamento em pesquisa e inovação a partir de direitos de
propriedade intelectual, que garantem os ganhos do investimento e reduzem o risco de que outros agentes copiem as ideias. Isso
significa que as instituições podem, de acordo com os resultados
por elas produzidos, possibilitar o desenvolvimento econômico em
si. No entanto, há casos em que, para possibilitar certo grupo ou
estrato da sociedade, outros deverão ser limitados e constrangidos.
Assim, as instituições, ao lidarem com problemas de ação coletiva,
geram soluções a partir da limitação de um grupo (ou de toda a
sociedade) para possibilitar algo a outro (ou a todos).17
A terceira característica das instituições corresponde a um dos
elementos teóricos mais importantes da EPI, firmando sua
identidade específica ao estabelecer a influência do ambiente institucional sobre a constituição dos indivíduos e dos diferentes
grupos sociais. Trata-se da característica “constitutiva” das
instituições, em que elas se apresentam como elementos
constituintes da visão de mundo dos agentes (Chang, 2002, 2007B.
Chang; Evans, 2000).18 Isso acontece porque toda instituição formal
apresenta uma dimensão simbólica que incorpora certos valores,
afetando indivíduos ou grupos sociais que interagem com as
mesmas. Esses valores influenciam a visão de mundo dos agentes,
pois passam a ser internalizados. Portanto, o resultado é de
influência do ambiente institucional na forma como cada indivíduo
entende o mundo, o que acaba por moldar o seu comportamento e, além disso, as suas motivações. Os indivíduos são, em grau
significativo, moldados pelas instituições nas quais estão inseridos,
tomando para si os códigos morais e as normas que estão
materializadas na estrutura social que os cerca. 19
Essa concepção é um aspecto central de uma abordagem
verdadeiramente institucionalista (Chang, 2002). Isso significa dizer
que os agentes não têm as suas preferências dadas, como se
fossem elementos exógenos, mas que estas se formam de acordo com a sua interação dinâmica com o ambiente institucional, que
apresenta instituições de diferentes tipos, como as de produção, as
de trocas e as políticas (Hodgson, 2002). O indivíduo e a sociedade
não estão dados como fundamentos originais e anteriores às instituições. São construções históricas. A ação individual é
largamente explicada pela vida em grupo, pelo que é imposto pelos
arranjos sociais, pelas instituições. Sendo as relações humanas
conexas e enraizadas nas formas institucionais, elas mudam de
acordo com as alterações nessas próprias formas.
Também as instituições informais cumprem um papel na
conformação do indivíduo. Sendo os hábitos comuns a um grupo
social, estão eles imersos numa determinada cultura que influencia a conduta individual. Estes hábitos, cristalizados em instituições
formais e informais, condicionam e restringem a conduta individual.
Neste mesmo sentido, as crenças são formadas a partir das
racionalizações de sentimentos e emoções, advindas dos hábitos,
os quais foram estabelecidos por comportamentos repetidos. Há,
portanto, uma interação entre comportamento, hábito, emoção e
crenças, os quais explicam o poder normativo das instituições e
parte da formação do indivíduo e da sociedade. Assim, o hábito forma regras e instituições, restringindo e/ou fortificando o
comportamento do indivíduo.
Apesar da importância apontada para o ambiente institucional, é
importante ressaltar que a EPI entende que não existe um
determinismo estrutural das instituições para o indivíduo. Isso
significa assumir que as instituições apresentam influência sobre as
motivações dos agentes, mas não de forma determinística, em que,
inevitavelmente, a visão de mundo dos agentes pode ser inteiramente explicada pelo arranjo institucional em que ele se
insere. Existe também uma relação de causalidade no sentido
contrário, ou seja, dos indivíduos para as instituições, que faz com
que instituições e indivíduos sejam mutuamente constitutivos. 20
Os costumes de um grupo de pessoas acabam refletindo na ação
coletiva e em suas convenções sociais. Algumas vezes, novas
condutas são disposições inatas de indivíduos e em outros
momentos advêm das condições sociais que orientam o
comportamento. Um novo hábito pode se tornar uma regra normativa estabelecida por um grupo social. A estruturação de uma
regra tem a capacidade de restringir a conduta de outros indivíduos,
reforçando este hábito nas pessoas, formando-se uma instituição,
um hábito reproduzido e durável, um acordo normativo na sociedade. Logo, as instituições são construídas pelos homens e
por eles transformadas. Essa dupla causalidade 21 é o que
movimenta as mudanças institucionais e as motivações humanas,
levando a trajetórias incertas.22
A coexistência dessas três características faz com que a EPI
tenha uma perspectiva culturalista das instituições, que, de acordo com Chang e Evans (2000) é uma visão
[..] em que mudanças institucionais dependem de uma combinação de
projetos baseados em interesse e projetos ideológico-culturais (em que a
visão de mundo pode moldar também os interesses e vice versa). De forma
mais simples, mudar as instituições requer mudar as visões de mundo que
inevitavelmente estão na base dos arranjos institucionais. (Chang e Evans,
2000, p. 5, tradução nossa)
Portanto, a EPI abre espaço para o papel da cultura, das ideias e
da ideologia, não entendidas aqui como uma forma de manipulação
da verdade utilizada pelas classes dominantes para doutrinar as
classes oprimidas, como em algumas concepções de origem
marxista23, mas sim como a própria visão de mundo de cada agente
social, individual ou coletivo. Essa perspectiva enfatiza também o
que Chang chama de agência humana24 (Chang, 2002, 2007a,
2007b, 2011; Chang; Evans, 2000), que é o comportamento humano
deliberado com alguma finalidade, de acordo com uma visão de
mundo composta por ideias. Esse comportamento pode estar de
acordo, ou não, com os interesses econômicos “objetivos” dos
agentes, ou seja, aquilo que necessariamente colocá-los-ia em uma
melhor posição material. Assim, eles podem até mesmo agir de modo contrário aos seus interesses materiais, em prol de alguma
ideia ou concepção que esteja de acordo com as suas visões de
mundo. 25 Nesse sentido, são comuns comportamentos que envolvam uma noção de grupos, como classes e nacionalidades,
que tenham algum fim embasado ideologicamente ou que levem em consideração juízos morais sobre quais atitudes são aceitáveis ou
não socialmente.
De uma forma mais simples, pode-se dizer que a EPI entende que
tanto o ambiente no qual o indivíduo se insere quanto as diferentes experiências pelas quais ele passa formam um “modelo mental”
permeado por diferentes valores e ideias que irão determinar a sua
conduta 26 (Chang; Evans, 2000). Nesse sentido, a partir do papel constitutivo das instituições, o ambiente institucional é relevante
para a composição da visão de mundo dos agentes. Ao mesmo
tempo, as diferentes ideias dos indivíduos dão margem à agência
humana, em que as escolhas por eles feitas, deliberadas e
baseadas em ideias, alteram as instituições ao longo do tempo.
Portanto, a visão culturalista da EPI ressalta o papel da estrutura na
formação do indivíduo, mas também dá margem para que ele tome
diferentes trajetórias em suas escolhas, que podem levar a alterações nas instituições. Basicamente, a ideia exposta aqui,
parafraseando Marx, é de que são os homens que fazem as
instituições, mas não no contexto institucional de sua própria
escolha.
3. O processo de mudança
institucional
Estabelecidas as principais definições nas quais a EPI se baseia,
o próximo passo é, aplicando as relações anteriormente explicadas,
entender o que leva à formação e às mudanças das instituições. De acordo com Chang e Evans (2000), existem duas formas principais
de explicar esses fenômenos: a partir da ênfase na eficiência ou da
ênfase nos interesses. A EPI apresenta, utilizando sua visão
culturalista, essas duas formas de interpretação da formação e das
mudanças institucionais.
A primeira explicação é a baseada na eficiência com o
reconhecimento do importante papel que a cultura apresenta. Nessa
forma de interpretar mudanças institucionais, as visões de mundo dos agentes importam, pois a noção de eficiência que os agentes apresentam é subjetiva e proveniente de uma racionalidade limitada.
As instituições, nesse caso, tornam o mundo mais inteligível para os
agentes ao restringirem as opções de comportamento e manterem a
sua escassa atenção em uma menor gama de possibilidades. Isso é essencial, pois o mundo é dotado de alta complexidade, e a
racionalidade humana é limitada. 27 A racionalidade limitada,
incapacitando o agente de obter e utilizar todas as informações disponíveis no ambiente, faz com que ele atue através de um
“modelo mental” que reflete, adequadamente ou não, o mundo real.
Dependendo da visão de mundo adotada, portanto, uma instituição
pode parecer boa ou ruim, no sentido da eficiência. Assim, certas
instituições podem ser preferidas sobre outras simplesmente por se
encaixarem na visão de mundo de determinados agentes. A visão
de mundo do indivíduo leva-o a legitimar certas instituições e a
contestar outras. Dessa forma, a noção de eficiência, conforme a EPI, tem uma dimensão subjetiva, pois os critérios de escolha das
instituições são feitos baseando-se no modelo mental percebido
pelo agente, e não em termos objetivos (Chang; Evans, 2000).
Assim, eficiência depende essencialmente do critério de avaliação
do agente, ou seja, daquilo que ele considera eficiente, e se trata
sempre de um processo dotado de um alto grau de subjetividade.
Ainda em relação à visão da criação e mudança institucional a
partir da eficiência, é necessário ressaltar que existe path-dependence na trajetória do ambiente institucional. Assim, as
escolhas realizadas no passado, de forma subjetiva, determinam as
possibilidades no futuro. Mudanças tecnológicas e institucionais do
passado podem restringir a possibilidade de que as instituições
atualmente existentes tenham total flexibilidade de mudança, pois
evoluem em uma trajetória restrita pelas escolhas do passado. Além
disso, a partir do papel constitutivo das instituições, há um processo
de formação endógena das preferências dos agentes, em que as instituições incorporam determinados valores e as pessoas que se
relacionam com essas instituições, com o tempo, passam a
internalizá-los. Esses elementos da abordagem baseada na
eficiência com o reconhecimento do papel da cultura rejeitam,
portanto, a possibilidade de que as instituições existentes sejam as
instituições mais eficientes possíveis (ótimas) por algum critério “objetivo”, devido tanto à noção de uma trajetória dependente na
evolução das instituições (path-dependence), quanto ao fato de que
as escolhas acerca de quais são as instituições mais eficientes
serem de caráter subjetivo, baseadas em um modelo mental que não necessariamente representa bem a realidade (Chang; Evans,
2000).
A segunda explicação das mudanças institucionais é baseada no
interesse. Nessa visão, assume-se que os interesses de certos
grupos moldam as instituições. No entanto, eles não são dados
exogenamente, mas estruturados pelas instituições políticas e
sociais e legitimados pela cultura. A EPI, nesse caso, aponta
novamente para a importância das instituições com seu papel constitutivo da visão dos agentes, através das ideias, e também
constitutivo das relações de poder através dos arranjos políticos e
sociais. Nesse sentido, mudanças institucionais são
simultaneamente transformações simbólicas e materiais do mundo
que envolvem não só mudanças na estrutura de poder e interesses,
como na própria definição de poder e interesse (Chang; Evans,
2000).
Este pensamento é confluente com a visão de Marx e Engels,
claros ao afirmar que a classe dominante é capaz de produzir e
difundir pensamentos.
Os indivíduos que constituem a classe dominante possuem, entre outras
coisas, também uma consciência, e consequentemente pensam; na medida
em que dominam como classe e determinam uma época histórica em toda a
sua extensão, é evidente que esses indivíduos dominam em todos os
sentidos e que têm uma posição dominante, entre outras coisas também
como seres pensantes, como produtores de ideias, que regulamentam a
produção e a distribuição dos pensamentos de sua época; suas ideias são,
portanto, as ideias dominantes de sua época. (Marx; Engels, 2001, p. 48-49).
Marx vê a dominação estrutural do capital sobre os indivíduos
assentada sobre bases materiais, que se desdobra
sociologicamente no poder da classe dominante, a qual elabora uma
visão de mundo plenamente legitimadora da ordem econômica e
social estabelecida. Essa ideia está plenamente de acordo com a
noção de que os interesses podem moldar as instituições. A figura do capitalista move o sistema, dá forma às relações materiais e aos ideais que as sustentam através de instituições que, a partir do seu
papel constitutivo, podem formar nos demais agentes uma visão de
mundo que entende como legítima a dominação do capital e como
naturais as formas sociais existentes.
Como as pessoas internalizam valores a partir do papel
constitutivo das instituições, há a possibilidade de “manipulação
cultural” por parte de indivíduos, grupos ou organizações tanto para
legitimar como para contestar as estruturas de poder sustentadas
por instituições políticas e sociais.28 Isso significa que, para alterar
as instituições, pode ser necessário alterar a visão de mundo dos
agentes envolvidos a partir de ideias. Nesses termos, a importância
da agência humana, que é a ação deliberada com um propósito
definido, é maior nessa explicação, pois os agentes acabam por
desenvolver discursos para justificar a sua visão de mundo
particular. (Chang; Evans, 2000).
Basicamente, a visão de mudanças institucionais a partir dos
interesses mostra que, apesar da existência de interesses
econômicos “objetivos”, há interesses que surgem (e se estruturam)
a partir das instituições políticas e sociais, que não estão
necessariamente relacionados a uma melhoria na situação material
“objetiva” do agente. A cultura, ao influenciar as visões de mundo,
pode ser manipulada de forma a favorecer ou contrariar tal
estrutura. Assim, o posicionamento dos indivíduos em relação às instituições, no sentido de legitimar ou contestar, torna-se um
elemento importante para a mudança das mesmas, o que confirma
a maior importância da agência humana nessa explicação.
Essas duas explicações, baseadas na eficiência e nos interesses,
coexistem na EPI, sendo as duas causas possíveis da mudança
institucional. De uma forma geral, pode-se dizer que “mudanças
institucionais são um processo altamente complexo, envolvendo
interações multidirecionais e por vezes sutis entre forças econômicas ‘objetivas’, ideias, interesses e as próprias instituições
existentes.” 29 Ao analisarem a queda do Estado Desenvolvimentista
coreano, Chang e Evans (2000) fazem os seguintes apontamentos gerais sobre esses elementos que estão envolvidos no processo de
mudanças institucionais.
Em primeiro lugar, os fatores econômicos “objetivos” são
importantes, mas não são capazes de explicar inteiramente os
processos de mudanças institucionais, como já apontado pela EPI.
Para se entender as mudanças institucionais, é necessário também olhar para as batalhas ideológicas e para as mudanças no
posicionamento político dos grupos de interesse. Em segundo lugar,
é importante ressaltar o papel das ideias, que não são nem o
resultado direto da infraestrutura material da sociedade, como em
certas concepções marxistas, nem puramente veículos utilizados
por grupos de interesse para avançar em suas posições, como na
economia política neoclássica, mas características intrínsecas dos
agentes 30. As ideias que elaboram e adotam acabam por legitimar
ou contestar as instituições existentes quando incorporadas na sua
visão de mundo. Em terceiro lugar, ideias não são um fator único e
independente, pois estão relacionadas aos interesses, através de grupos que se identificam com a ideia, e às instituições, através do
papel constitutivo das mesmas. Por último, também importa a
agência humana nas escolhas determinantes das mudanças
institucionais, pois o elemento da escolha ativa e deliberada de
atores-chave, muitas vezes contrariando a ordem econômica
“objetiva”, é essencial para entender o processo (Chang; Evans,
2000).
Por esses motivos, a abordagem da mudança institucional na EPI
pode ser considerada de caráter neogramsciano. 31 Por ser um tema
complexo, envolvendo os diferentes e variados elementos já citados,
as mudanças institucionais envolvem muitas controvérsias. A EPI mostra que existem duas concepções em relação a essa questão
que apontam para casos extremos e que não estão de acordo com
seu marco teórico, até aqui apresentado. Assim, a EPI critica a
primeira concepção de que as instituições são perfeitamente
maleáveis, sendo apenas preciso vontade política para realizar
mudanças. Critica também a segunda concepção de que as
instituições têm raízes nas tradições de determinado povo, que
estas tradições são instituições informais imutáveis, não havendo, portanto, possibilidade de realizar qualquer alteração no ambiente
institucional por causa da raiz cultural do mesmo. A primeira concepção é conhecida como voluntarismo, e a segunda, como
fatalismo. Ambas são refutadas pela EPI (Chang, 2011).
Quando se trata do voluntarismo, existem muitas razões para se
acreditar que as instituições não podem ser alteradas simplesmente pela vontade dos agentes, de acordo com Chang (2011). Em
primeiro lugar, partindo da existência do papel constitutivo das
instituições, a trajetória criada pelas mudanças é de path-
dependence, em que as instituições atuais são uma mistura das
escolhas deliberadas feitas pelos agentes do passado e das
instituições que existiam anteriormente a estes agentes e que os
formaram pelo menos parcialmente. Essa trajetória delimita as
escolhas no futuro, seja pelo legado por ela deixado, seja pela necessidade de legitimidade das novas instituições a serem criadas,
que precisam de aceitação pela visão de mundo dos agentes e
precisam estar em relativa consonância com o ambiente institucional
existente, incluindo instituições formais e informais. As restrições
criadas pela trajetória passada acabam por limitar a mudança
institucional.
Em segundo lugar, as instituições formais são criadas para serem
estáveis. Instituições instáveis, que se desfazem quando minimamente contestadas pela visão de mundo de algum agente,
apresentam pouca ou nenhuma utilidade. O grau de dificuldade que
uma instituição apresenta para ser alterada depende, normalmente,
da sua importância. 32 Isso significa que as instituições apresentam
mecanismos contra a mudança.
Em terceiro lugar, como toda instituição está inserida em um
ambiente institucional e se relaciona com outras instituições, há, por
vezes, a necessidade de mudanças simultâneas. Muitas vezes, elas
são necessárias para que a mudança institucional traga benefícios
suficientes. A menos que as instituições de suporte estejam
corretamente estabelecidas, operando em consonância com a mudança institucional que se pretende empreender, a mudança
pode não ter os efeitos esperados.
Em relação ao fatalismo, Chang (2007b, 2011) destaca que as
instituições informais, que são os costumes e valores de uma
sociedade, não explicam diretamente as instituições formais. A
cultura (no sentido de tradições culturais), na visão fatalista, é considerada um elemento imutável que, juntamente com o clima,
são responsáveis por formatos institucionais que levam a certos
resultados econômicos. 33 O problema desta visão está, em primeiro
lugar, na ideia de que há culturas boas para o desenvolvimento e
culturas ruins. Na verdade, há elementos em cada tradição cultural,
seja ela qual for, que podem ser utilizados para apontar tanto
características negativas para o desenvolvimento econômico como
características positivas. 34 Portanto, não se pode atribuir à tradição
de uma sociedade o resultado econômico por ela obtido.
Explicações desse tipo só podem ser aplicadas ex post, no caso em que a sociedade já tenha obtido sucesso ou fracasso, sendo a
cultura utilizada como justificativa (Chang, 2007b).
Em segundo lugar, há mais de uma tradição nas instituições de
determinado país, pois os costumes, ou seja, as instituições
informais, não são imutáveis no longo prazo. 35 Com o
desenvolvimento econômico, as instituições tendem a se alterar,
inclusive as instituições informais, e, se a cultura e as tradições se
alteram, o determinismo cultural/institucional do fatalismo deixa de
ser válido. Portanto, apesar de bastante estáveis no curto prazo, as
tradições não o são ao longo do tempo.
Por fim, a existência de espaço para diferentes culturas e
costumes em uma sociedade abre espaço para a agência humana,
a partir do papel constitutivo das instituições e da internalização de
ideias na visão de mundo dos agentes. Portanto, o que se mostra é
que as instituições não são nem perfeitamente maleáveis, como
afirma o voluntarismo, nem completamente rígidas de acordo com
tradições e costumes enraizados nas instituições, como no
fatalismo. Na verdade, elas mudam ao longo do tempo, em um
processo complexo, como já explicado, envolvendo as ideias, os interesses e as próprias instituições existentes, e devem apresentar
legitimação pela sociedade, ou seja, devem expressar de algum
modo a visão de mundo dos agentes e estar em consonância com
as instituições formais e informais presentes no ambiente
institucional.
Para entender ainda mais como o processo de mudanças
institucionais pode ocorrer, Chang (2007b) faz a distinção entre
imitação, adaptação e inovação institucional. Partindo da noção de que as instituições podem ser consideradas “tecnologias de arranjos
sociais”, a analogia com o processo de catching up tecnológico para
os países em desenvolvimento é válida e pode esclarecer
elementos importantes das mudanças institucionais. Basicamente, o que se aponta aqui é que países em desenvolvimento têm a
vantagem de poder aproveitar instituições e formatos institucionais
já produzidos pelos países desenvolvidos sem arcar com o custo de
produzi-los. No entanto, apesar dessa vantagem, a EPI destaca a
importância dos elementos tácitos de um ambiente institucional para
que a mudança alcance bons resultados: a inter-relação entre a
instituição criada, com seu formato específico, e as instituições ditas
de suporte, sendo estas formais ou informais.
Quando se trata da imitação institucional, o que se percebe é que
países em menor grau de desenvolvimento podem imitar instituições
que foram criadas nos países mais desenvolvidos pagando um
“preço” mais baixo (Chang, 2007b). Um exemplo é o do Banco
Central, que foi criado após uma série de crises financeiras nos
países desenvolvidos e hoje é utilizado de forma disseminada por
países em desenvolvimento. Hoje as condições materiais que os
países em desenvolvimento desfrutam estão relacionadas à criação
dessas instituições36. No entanto, é importante destacar que a
imitação institucional raramente é suficiente para garantir o
desenvolvimento econômico de uma nação. Isso se dá porque os resultados da operação de uma instituição existente em um país não
são os mesmos que os resultados da operação de uma instituição
idêntica existente em outro, pois a relação com o ambiente
institucional é um elemento-chave. Como já foi discutido, não há
relação direta entre a forma da instituição e o seu impacto
econômico e social.
Portanto, ao invés de se buscar a imitação, a adaptação
institucional é uma alternativa. Algum grau de adaptação às condições locais torna-se necessário para superar os problemas de
interação com o ambiente, incluindo as instituições informais de
suporte. Um exemplo é o Japão, que, na segunda metade do século
XIX, buscou, no mundo ocidental, instituições que pudessem levar à
industrialização do país, implementando as que mais se
encaixassem nas condições locais e alterando as que não estivessem de acordo com essas mesmas condições (Chang,
2007b).
No entanto, ainda analisando o caso japonês, percebe-se,
também, que há uma gama de instituições que são únicas deste país, o que pode ser caracterizado como inovações institucionais.
As inovações são responsáveis pelo sucesso econômico de muitos
países, com exemplos como Estados Unidos, Alemanha e os países
nórdicos (Chang, 2007b). Cabe ressaltar que a inovação
institucional, por ser criada no próprio ambiente institucional com o
qual ela se relaciona, ou seja, com a cultura e com as demais
instituições já existentes, provavelmente não sofrerá de problemas
de incompatibilidade e, por isso, pode levar a bons resultados. Isso não significa, é claro, que qualquer instituição criada localmente
apresente vantagens sobre instituições importadas ou adaptadas. O
resultado gerado pela instituição é sempre produto de uma interação
complexa.
Portanto, é necessário entender como se dá o processo de
imitação, adaptação e inovação institucional, que tem grande
importância para países em desenvolvimento, e qual a relação que
se forma com o ambiente institucional já existente. Cabe lembrar ainda dois aspectos. Em primeiro lugar, dado o papel constitutivo
das instituições, uma instituição imitada ou adaptada pode, com o
tempo, levar a mudanças na cultura dos agentes que com ela
interagem, alterando as suas visões de mundo. Em segundo lugar,
deve-se lembrar que, como visto anteriormente, essas imitações,
adaptações ou inovações devem ser legitimadas pela visão de
mundo dos agentes. A mudança institucional, portanto, não é um
processo simples em que as instituições são perfeitamente maleáveis, e nem um processo impossível em que as instituições
são imutáveis, mas um processo que depende da legitimidade da
mudança perante os agentes.
Como último ponto a ser tratado sobre as causas e as formas das
mudanças institucionais, há o que se pode chamar de
consequências não intencionais e “perversões” institucionais.
Estudando o caso da OMC, Chang e Evans (2000) identificam as
consequências da criação desta instituição, apontando principalmente para as consequências inesperadas, para a forma como a instituição alterou a estratégia dos grupos de interesse e
como surgiram interesses posteriormente à criação da instituição.
Além disso, Chang (2011) mostra como as instituições podem sofrer
de “perversão” institucional, que é quando atores escolhem usá-las para propósitos distintos dos originalmente intencionados. Essas
consequências não intencionais ou “perversões” institucionais
podem ser boas ou ruins, dependendo dos resultados a que levem
(e também da visão de mundo de quem avalia tais resultados).
Quando ocorre uma mudança institucional, aqueles que a
planejaram e promoveram não necessariamente têm certeza de
quais as consequências que dela podem decorrer. Assumindo a
racionalidade limitada (Simon, 1959, 1986; Chang; Evans, 2000), há uma série de informações que os responsáveis pela mudança não
obtêm, além de ser difícil associar as escolhas a seus respectivos
resultados. Portanto, é comum que haja consequências que não
tenham sido previstas, passando despercebidas.
No entanto, quando há a mudança institucional, a forma dessa
instituição ou o seu impacto na atividade econômica pode levar a
mudanças nas estratégias e nos interesses dos agentes. A nova
instituição pode mudar o ambiente e as relações institucionais, de modo que grupos, por consequência, alterem as suas estratégias na
obtenção de seus objetivos. No caso da OMC, por exemplo, a
simples criação da instituição foi responsável por torná-la alvo de
grupos de interesse, que passaram a focar nela a sua energia
política, redefinindo agendas e mudando suas visões de mundo
(Chang; Evans, 2000). Além disso, a nova instituição, através de
seu papel constitutivo, pode alterar os interesses dos agentes e
inclusive criar novos interesses, inexistentes anteriormente. Com a OMC, muitos grupos redefinem o foco de suas ações para o nível
global, devido à existência de uma instituição de governança nesse
nível. Há a busca de apoio em outros países nas pautas desses
grupos. Além disso, surgem interesses justamente pela criação da
instituição, como os de grupos que contestam as medidas por ela
adotadas (Chang; Evans, 2000).
A “perversão” institucional, por sua vez, caracteriza a utilização de
uma instituição de forma diferente do propósito inicial com que ela foi criada (Chang, 2011, p. 11). Essa perversão não é necessariamente um aspecto ruim e apresenta, na verdade, um
modelo distinto de mudança institucional, pois representa uma
mudança da atuação da instituição sem que ela tenha que mudar a
sua forma. Esse tipo de mudança só se explica através do conceito de agência humana, em que as escolhas dos agentes respondem à
visão de mundo que os mesmos criam. A partir de determinadas
ideias, esses agentes podem, de forma deliberada e intencional,
alterar a atuação de uma instituição sem alterar a sua forma. Assim,
pode-se dizer que, a partir da agência humana, uma instituição pode
alterar as funções que cumpre sem mudar o seu formato, o que
caracteriza um processo de “perversão institucional” se a nova
função exercida não corresponde àquelas que motivaram sua criação.
A existência desse processo também implica que as instituições
não necessariamente necessitam de uma origem considerada
“correta” para atuarem de forma a favorecer o desenvolvimento
econômico. Exemplos são os sistemas eficientes de taxação criados
na Grã-Bretanha e na África do Sul, sendo o primeiro motivado pela
expansão imperialista e pela repressão das classes mais baixas em
nome da proteção à propriedade privada37 e o segundo criado a
partir do regime de 38 apartheid. A “perversão institucional” mostra
que, apesar disso, essas instituições podem ser utilizadas de
maneira a favorecer o desenvolvimento econômico, cumprindo
funções distintas daquelas para cujo cumprimento foram feitas
inicialmente.
Estão colocados aqui os principais elementos apontados pela EPI
como causadores das mudanças institucionais e as principais
relações que se estabelecem nessas mudanças. Foram
apresentadas duas abordagens para a explicação das mudanças
institucionais: uma a partir da eficiência e outra a partir dos
interesses. Ambas, ao final das contas, acabam por depender,
devido à abordagem culturalista que empregamos, da agência
humana e da visão de mundo dos agentes. Dependendo das ideias
incorporadas nessas visões de mundo, os agentes legitimam ou
contestam as instituições existentes. 39 Assim, buscou-se mostrar
que as instituições não são nem perfeitamente maleáveis, como no
voluntarismo, e nem imutáveis, como no fatalismo. A seguir, foram explicados os conceitos de imitação, adaptação e inovação
institucional no contexto de países em desenvolvimento, enfatizando
a importância da inter-relação entre novas instituições e o ambiente
institucional, que deve conter as instituições de suporte, formais e informais, para a recém-criada. Por fim, foram abordadas as
consequências não intencionais da mudança institucional e a
“perversão” institucional. É excessivamente pretensioso assumir que
esses tópicos esgotam o complexo tema da mudança institucional,
mas já são capazes de prover uma base teórica para a
compreensão de muitos fatos que envolvem os arranjos
institucionais observados na realidade.
4. O mercado, o Estado e a política
A economia capitalista, para a EPI, é um sistema econômico
composto de inúmeras instituições que apresentam diversas formas
e funções. Como exemplos, existem as firmas como instituições de
produção, os mercados como instituições de trocas, os Estados
como instituições políticas dos interesses coletivos, os bancos como
instituições financeiras, além de instituições que representam os
interesses de produtores, como associações, que representam o
interesse de trabalhadores, como os sindicatos, e que representam o interesse dos consumidores. Portanto, há inúmeras e diferentes
instituições que se inter-relacionam e influenciam a dinâmica do
processo de acumulação capitalista. Além disso, muitas das
instituições aqui citadas, como as firmas, o mercado e o Estado,
apesar de poderem ser consideradas uma única instituição cada
uma, dotadas de uma unidade, são, na verdade, compostas por
inúmeras outras instituições, como enfatizado pela EPI (Chang,
2004a).
Essa diversidade institucional, portanto, implica que diferentes
formas de capitalismo podem existir entre as sociedades nacionais,
favorecendo diferentes grupos e resolvendo os problemas de
produção e de alocação de diferentes formas. No final das contas, a
EPI ressalta que o sistema econômico capitalista não é apenas um
sistema de mercado, pois essa não é a única instituição que regula as questões econômicas na sociedade. Na verdade, ele é dotado de
uma variedade institucional que deve ser analisada no seu conjunto,
para determinar se a sociedade está se desenvolvendo
economicamente ou não. O mercado aparece, na EPI, como apenas mais uma das diversas instituições que são responsáveis pela
alocação dos recursos, sendo também composto por diversas
outras instituições. 40
No entanto, a instituição mercado apresenta um papel crucial nas
trocas nas sociedades capitalistas atuais, sendo a sua descrição um
elemento importante. Pode-se observar que, de acordo com as
instituições que estão na base de determinado mercado, o que
Chang (2002, 2004a) chama de “estruturas de direitos e
obrigações”, um mercado pode se apresentar de forma totalmente
distinta de outro, fazendo com que os resultados gerados também
sejam distintos.
Em relação à ascensão do mercado como forma de organização
social, Chang (2002) coloca:
A grande verdade é que, no início não havia mercados. Os historiadores
econômicos já nos mostraram reiteradamente que, a não ser no nível local
(na satisfação de necessidades básicas) ou no nível internacional (no
comércio de artigos de luxo), o mercado não era uma parte importante – e
muito menos dominante – da vida econômica humana antes da ascensão do
capitalismo. (Chang, 2002, p.112).
A partir da obra de Polanyi (1957), aponta-se para o fato de que o
surgimento dos mercados, historicamente, sempre esteve ligado à
atuação deliberada do Estado na formação dessa instituição em
níveis nacionais, tese também sustentada por Marx, em sua análise
da “acumulação primitiva” (Marx, 1984, cap. 24). Isso mostra que a
intervenção estatal sempre foi decisiva para a formação de sistemas de mercado. Portanto, não há distinção alguma entre esta instituição
e as demais, pois todas são produto da ação humana, muitas vezes
criadas de forma deliberada. O mercado, na EPI, não é concebido
como uma instituição natural, mas como produto das interações
humanas, sendo alterada de acordo com a agência humana e com a
visão de mundo dos agentes.41 Portanto, é evidente que os
mercados são todos politicamente construídos, seja na sua gênese,
quando ações deliberadas dos atores são tomadas para a formação do mercado e definição de quem são os participantes, quais as
formas de transação e quais mercadorias são transacionáveis, seja
na manutenção e alteração desses aspectos ao longo do tempo.
Dessa forma, a EPI assume que o mercado e a política estão inevitavelmente atrelados, o que implica que nenhum mercado pode
ser livre da política (Chang, 2002).
Todo mercado apresenta instituições que lhe dão suporte, e elas
são chamadas, na EPI de “estrutura de direitos e obrigações”. Elas
são a regulação do mercado e conferem o regramento de seu
funcionamento, sendo compostas por instituições formais e também
informais. Há quatro tipos de instituição de suporte que a teoria
aponta: em primeiro lugar, existem as instituições que regulam quem
participa do mercado. 42 Em segundo lugar, há instituições que
regulam o que se pode transacionar, ou seja, o que é objeto legítimo
de transação. 43 Em terceiro lugar, há instituições que definem os
direitos e obrigações de cada agente em cada área do mercado. 44
Por último, há as instituições que regulam o processo de troca em
si.45
Todas as instituições que fazem parte da “estrutura de direitos e
obrigações” de um mercado estão sujeitas à legitimação ou
contestação dos agentes, de acordo com a visão de mundo de cada
um, que se forma através das ideias e do papel constitutivo das
instituições. Por exemplo, o salário mínimo e as leis trabalhistas
podem ser considerados direitos essenciais dos trabalhadores e, portanto, instituições legítimas e importantes para a sociedade, ou
podem ser consideradas “barreiras no mercado de trabalho”,
gerando ineficiência, sendo essas instituições contestadas. 46 Outro exemplo é a proibição do trabalho infantil, que, mesmo sendo
considerada uma restrição de mercado, não é um tema legítimo de
debate devido às noções de direitos humanos que fazem parte da
visão de mundo dos agentes. A regulação ambiental é outro
exemplo apontado por Chang (2002), em que é considerada por
alguns uma intromissão nos negócios e nos interesses pessoais,
enquanto para outros é essencial para a manutenção de um
ambiente limpo e sustentável. Basicamente, os agentes legitimam ou contestam as instituições a partir das suas visões de mundo, e isso leva a embates políticos. Portanto, a política apresenta caráter
central na EPI, e o mercado está inevitavelmente a ela atrelado.
A relação direta entre política ou mercado leva ao fato de que não
há nenhum preço que seja livre da política (Chang, 2002, p. 117). Dois preços cruciais são os salários e as taxas de juros, que afetam
todos os setores de uma forma ou outra. No caso dos salários, não
é só a instituição do salário mínimo que os afeta, mas também as
regulamentações das atividades sindicais, dos padrões de trabalho
e dos direitos previdenciários. No caso das taxas de juros, mesmo
quando há um banco central “politicamente independente”, há
outras forças políticas que o influenciam, como, por exemplo, a
estrutura da dívida pública ou a relação entre soberania política e autonomia de política monetária, como se tem colocado na União
Europeia (Chang, 2002).
O que se deriva dessas colocações é o fato de que qualquer
mercado está permeado pelas relações políticas e a consideração
das “estruturas de direitos e obrigações” aproxima a teoria que
busca explicar o mercado a partir da EPI com a realidade, pois
considera todos os elementos institucionais que dele fazem parte e
as relações desses elementos com os agentes. O mercado, portanto, é produto político. Consequentemente, todos os preços e
resultados econômicos gerados por ele são influenciados por
questões políticas. Por estar permeado por essas relações, não há
uma forma correta de determinar qual é o nível de atuação que o
Estado pode ter sobre determinado mercado. Não se pode delimitar
o espaço entre uma instituição e outra, pois tudo depende da
legitimidade atribuída às “estruturas de direitos e obrigação”, que
devem ser asseguradas pelo Estado.
O Estado, por sua vez, é outra instituição que é composta por
diferentes instituições, com diferentes funções e formas dentro da
esfera estatal e que estão inter-relacionadas. Na EPI, a ênfase
quando o tema é o Estado está na complexidade das motivações
humanas dentro da esfera pública. Essas motivações são
multifacetadas, indo desde comportamentos baseados no
autointeresse até comportamentos não egoístas, como baseados
em grupos, em ideologias e em juízos de valor. A esfera pública é um ambiente de análise interessante, pois os indivíduos que nela se inserem muitas vezes apresentam comprometimento com valores
não egoístas, como a reforma social, a lealdade partidária e o
nacionalismo (Chang, 2002). Pelo papel constitutivo das instituições,
os agentes da esfera pública também têm suas motivações moldadas pelo ambiente institucional no qual se inserem, enquanto
as alteram através de suas ideias e visões de mundo. Muitos dos
valores internalizados pelas instituições do Estado são valores de
compromisso com questões públicas, que podem influenciar e
moldar a motivação dos agentes (Chang, 2002).
Entre distintas sociedades, as diversas instituições informais
podem levar os mesmos arranjos institucionais a diferentes
resultados, e o mesmo vale para a esfera pública. De acordo com Chang (2002), as instituições envolvendo sanções e recompensas
na esfera pública, concebidas para estabelecer incentivos ao
indivíduo, levam à “atrofia da motivação intrínseca”, em que o
comportamento dos agentes públicos é “moralmente correto” por ser
monitorado, mas a motivação para que se comportem dessa
maneira é menor. Portanto, o padrão comportamental pode ser
melhorado de forma mais eficiente através do enfoque nas
motivações. Motivações distintas devido às instituições informais de uma sociedade explicam o porquê de sociedades com o mesmo
arranjo institucional apresentarem resultados distintos quanto ao
comportamento dos agentes públicos. Essas motivações podem ser
alteradas de forma direta, através das ideias e da ideologia, ou de
forma indireta a partir da mudança das instituições e do seu papel
constitutivo na motivação dos agentes.
A grande questão é entender o fato de que as motivações dos
agentes não são fatores exógenos, mas se formam de acordo com o ambiente institucional no qual atuam, principalmente em relação à
cultura e as ideias que acabam por formar as suas visões de
mundo. Com visões de mundo distintas, os agentes apresentam
diferentes opiniões acerca das instituições sob as quais se
encontram, legitimando a existência de algumas e contestando a de
outras. Essas diferentes visões caracterizam os embates políticos
que são essenciais na mudança institucional. Portanto, a política é
central para a EPI, pois é a partir dessas diferentes visões de mundo, que legitimam ou contestam a atuação de cada instituição, que surge a agência humana, o comportamento deliberado e
intencional que pode alterar a trajetória institucional de uma
sociedade.
Portanto, a política, pela sua importância, merece ser analisada.
Como já colocado, nenhum mercado está livre da política, pois é em
bases políticas que se encontram as “estruturas de direitos e
obrigações” que o sustentam. Da mesma forma, os limites da
atuação do Estado no mercado dependem da legitimidade das
ações por este tomadas, não havendo uma forma correta de
delimitar até onde ele atua (Chang, 2002). Assim, as ideias de
“despolitização do mercado” e de “excesso de intervenção estatal”
têm pouco sentido na abordagem das instituições aqui construída.47
O papel constitutivo das instituições também atua sobre a política,
ao influenciar as motivações dos agentes e os seus interesses,
alterando as suas visões de mundo. Isso significa que as instituições formais e informais, com todas as suas características, influenciam a
atuação política. Exemplos de instituições que apresentam essa
influência são as regras eleitorais, regras regulando o
comportamento de figuras públicas e regras na formação de
agendas de votação em comitês parlamentares (Chang, 2002). Há
três mecanismos envolvidos nesse processo constitutivo das
instituições sobre a motivação dos agentes, de acordo com Chang
(2002, p. 128). O primeiro é o fato das instituições influenciarem a própria percepção dos indivíduos quanto aos seus interesses.
Sociedades onde os partidos apresentam maior ligação com
determinados grupos, por exemplo, podem levar ao fato de que, na
votação, agentes escolham votar conforme as “linhas de classe”. O
segundo é a influência das instituições sobre aquilo que é alvo
legítimo de ação política. Em sociedades em que o trabalho infantil
não é considerado questão legítima de defesa política, os agentes,
mesmo que se favorecessem materialmente do trabalho infantil, não cogitariam defender a sua utilização. Isso ocorreria não só pelo
medo das sanções, mas principalmente pelo fato de que não se
cogita que esse seja um elemento legítimo de disputa política. O
terceiro mecanismo é a percepção de quais tipos de atuação política
são legítimos. Se um tipo de atuação política é considerado
“desagradável” ou “desnecessário” pela cultura de uma sociedade, os agentes tenderão a preteri-lo em relação a outras formas de
atuação.
O papel constitutivo das instituições também é, portanto,
fundamental para a própria estratégia de atuação política dos grupos. Na EPI, a centralidade da política se explica porque os
agentes legitimam ou contestam as “estruturas de direitos e
obrigações” que configuram os mercados. Dessa forma, influenciam
os preços e os resultados econômicos obtidos. O Estado é
responsável por lidar com essas mudanças nas “estruturas de
direitos e obrigações”. Além disso, as instituições do Estado acabam
por moldar as motivações da atuação dos agentes públicos.
Como último aspecto, a EPI aponta para a importância dos
detalhes técnicos no processo de criação institucional. Embora
nenhuma instituição esteja livre da política, já que as instituições são
definidas de acordo com as “estruturas de direitos e obrigações”,
isso não deve significar negligência dos elementos técnicos na
criação da instituição (Chang, 2007a). Em relação a esse ponto, a
analogia feita por Chang (2007a) é a de uma família que chega ao
consenso em relação a que tipo de casa quer construir em um
terreno (política), mas não dispõe de bons arquitetos ou construtores (técnicos), podendo não conseguir construir uma boa
casa que dure por bastante tempo.
5. A relação entre as instituições e o
desenvolvimento econômico
A seguir, busca-se esclarecer a relação entre as instituições e o
desenvolvimento econômico, no sentido de mudanças estruturais do
processo produtivo, segundo os pressupostos da EPI. Esta relação,
assim como a maioria das demais já expostas, em nada tem de
simples, linear ou estática. Conforme Chang (2011), a relação é justamente o oposto disso. Além do mais, como fator complicador,
existe uma dupla causalidade, ou seja, tanto o desenvolvimento
econômico altera as instituições como as instituições alteram o
desenvolvimento econômico. Isso significa dizer que, na verdade, esses dois elementos estão fortemente conectados, evoluindo
conjuntamente e, portanto, apresentando trajetórias fortemente
correlacionadas48.
A primeira causalidade, e, segundo Chang (2011), a mais forte, é
a que vai do desenvolvimento econômico, ou seja, da mudança
estrutural, para as instituições. A acumulação de capital e o
aumento da renda da população geram as condições para que ocorram mudanças institucionais. A evidência histórica aponta que,
em primeiro lugar, os países se desenvolveram economicamente
para depois adquirirem as instituições que possuem hoje. 49 Isso ocorre por três motivos (Chang, 2011). O primeiro é o aumento da
demanda por instituições de maior qualidade, que apresentem maior
transparência e accountability, por exemplo. O segundo é o fato de
que a maior riqueza torna as instituições de melhor qualidade mais
acessíveis, pois há custos de gestão e de recursos associados a
melhores instituições. O terceiro motivo é a demanda por novas
instituições dos novos agentes que surgem na sociedade a partir do
desenvolvimento econômico. Exemplos são o desenvolvimento das instituições bancárias com a ascensão da classe capitalista no
século XVIII e a criação do Estado de bem-estar social e as leis
trabalhistas a partir do aumento do contingente populacional
pertencente à classe trabalhadora. Com o desenvolvimento
econômico, a diferenciação de classes leva a novas demandas,
pressionando o processo de mudança institucional (Chang, 2011).
Cabe ressaltar que os processos de imitação e adaptação
institucional dificultam a análise da relação entre o desenvolvimento econômico e as instituições. Como explicado anteriormente, estes
instrumentos de mudança institucional são utilizados pelos países
com menor grau de desenvolvimento para aproveitar a criação de
instituições nos países mais desenvolvidos a um menor custo. Por
isso, quando uma instituição é criada em um país desenvolvido,
torna-se difícil diferenciar a origem das mudanças institucionais que
ocorrem em países em desenvolvimento, pois podem ser causadas
tanto pelo desenvolvimento econômico quanto pela imitação e adaptação (Chang, 2011).
A segunda relação causal é a que vai da mudança institucional
para o desenvolvimento econômico. Ela apresenta três características específicas que dificultam muito a proposição de
relações gerais: complexidade, dinamismo e não linearidade
(Chang, 2011). Essas três características são explicadas a seguir.
A relação entre instituições e desenvolvimento econômico pode
ser considerada complexa, em primeiro lugar, porque não há uma
forma de instituição que garanta qualquer resultado (Chang, 2011).
Ele depende das suas inter-relações com o ambiente institucional,
composto tanto pelas demais instituições formais de suporte, quanto
pelas instituições informais. Assim, há razões para se acreditar que
há mais de um formato eficiente de instituição que se encaixe no
ambiente institucional. Um exemplo são os direitos de propriedade,
que podem apresentar as mais variadas formas, sendo a sua
eficiência dependente das instituições com que se relaciona. 50 Há
casos, também, em que as instituições informais, a cultura da
sociedade, impedem que o resultado de determinada instituição seja satisfatório.
Em segundo lugar, pode-se afirmar que a relação entre
instituições e desenvolvimento econômico é complexa porque existe
dificuldade em definir se uma instituição apresenta bons ou maus
resultados. Um exemplo claro é o do próprio mercado. Um mercado
oligopolizado, por exemplo, pode ser considerado como uma falha
de mercado que gera ineficiências, ou como um mercado
concorrencial em que empresas apresentam concorrência por inovação, gerando ganhos econômicos. Outro exemplo está na ideia
da indústria infante, em que mercados protegidos apresentam
maiores ganhos no longo prazo devido à capacidade de desenvolver
uma indústria competitiva em âmbito internacional (Chang, 2002a,
2011). Portanto, a própria definição da melhor estrutura de mercado
depende de uma concepção prévia sobre qual é o mercado ideal.
As relações entre as instituições e o desenvolvimento econômico
podem ser consideradas dinâmicas, pois uma mesma instituição pode apresentar resultados divergentes ao longo do tempo (Chang,
2011). Uma instituição que favorece o desenvolvimento no curto
prazo pode tornar-se um fardo no longo prazo, sendo incapaz de
lidar com as dificuldades de sistemas econômicos mais complexos.
Um exemplo está na utilização de trabalho infantil. No curto prazo,
firmas individuais poderiam se beneficiar da utilização de trabalho infantil, mas, no longo prazo, isso reduziria a qualidade da força de
trabalho. Portanto, a regulação do trabalho infantil não é só um
elemento contestado politicamente pelos agentes, mas também
benéfico para as firmas no longo prazo.
As relações entre as instituições e o desenvolvimento econômico
podem ser consideradas não lineares porque uma mesma
instituição que apresenta bons resultados, quando aprofundada, ou
seja, utilizada de forma mais intensa, não necessariamente
apresentará melhores resultados (Chang, 2011). O efeito pode ser
exatamente o oposto. Esse fenômeno é chamado por Chang
(2007a) de “overdose institucional”. Um exemplo claro são as
instituições de propriedade intelectual. Enquanto algum grau de proteção à propriedade intelectual pode fomentar a inovação,
garantindo os rendimentos dos investimentos em pesquisa, uma
proteção excessiva pode impossibilitar a difusão tecnológica e levar
à estagnação, com a manutenção por um longo período do lucro
extraordinário obtido no setor que realizou a inovação (Chang,
2011). Em último caso, a tecnologia criada pode se tornar obsoleta,
porém ainda lucrativa.
Portanto, o que se observa a partir da análise dessa segunda
linha de causalidade é que as relações das instituições com o
desenvolvimento são complexas, dinâmicas e não lineares. Isso
implica que uma mesma instituição, utilizada na mesma “dose”,
porém em países diferentes, pode ser boa para uma sociedade e
ruim para outra devido às inter-relações no ambiente institucional.
Significa também que, em um mesmo país e na mesma “dose”, uma
mesma instituição pode trazer resultados distintos ao longo do
tempo, pois as instituições apresentam resultados dinâmicos. Além disso, em um mesmo país, uma instituição aplicada em maior ou
menor dose pode ter resultados piores ou melhores,
respectivamente, pois as instituições apresentam resultados de
forma não linear (Chang, 2011). Basicamente, estas são as
colocações teóricas da EPI que explicam o grau de complexidade
existente na relação causal direta entre instituições e
desenvolvimento econômico, levando a crer que a explicação do
movimento conjunto desses elementos é mais forte pelo lado do desenvolvimento econômico do que pelo outro lado.
6. Metodologia de análise das
instituições
Dadas as relações apresentadas entre o desenvolvimento
econômico e as instituições, Chang (2011, 2004b) afirma que o
melhor método para analisá-las é através da narrativa histórica, pois
é necessário contextualizar o ambiente institucional qualitativamente
e, ao mesmo tempo, certificar-se de que a experiência histórica não
contradiga a teoria formulada. A especificação de mudanças
qualitativas da estrutura institucional, que acontecem no decorrer da
história, e das relações que se estabelecem entre as diferentes instituições só pode ser contemplada a partir dessa abordagem.
Sobre a análise histórica, Chang afirma o seguinte:
Essa análise, quando feita adequadamente, não se restringe a compilar e
catalogar os fatos históricos na esperança de que isso venha a gerar
naturalmente um modelo. Pelo contrário, exige uma busca persistente de
modelos históricos, a construção de teorias que os expliquem e a aplicação
dessas teorias a problemas contemporâneos, ainda que sem deixar de levar
em conta as circunstanciais alterações tecnológicas, institucionais e políticas.
Tal abordagem, que é concreta e indutiva, contrasta muito com o atualmente
prevalecente enfoque neoclássico fundamentado em métodos abstratos e
dedutivos. (Chang, 2004b, p. 18).
Por se tratar de um conjunto de instituições formais e informais,
os arranjos institucionais apresentam alguns problemas quando se pretende utilizar métodos distintos do histórico, como, por exemplo,
análises puramente quantitativas. Os três principais problemas
levantados por Chang são o problema da mensuração, o problema
da agregação e o problema da comparação.
O problema da mensuração consiste na dificuldade de se
mensurar as instituições. Elas são qualitativamente diferentes umas
das outras, inexistindo um denominador comum que possa ser
usado para quantificá-las. Isso leva, inevitavelmente, a julgamentos subjetivos em relação à instituição, de acordo com a visão de
mundo dos que a estão avaliando. Chang (2011, p. 12), tratando
desse problema, afirma que
Pela sua própria natureza, a qualidade de uma instituição é muito difícil, se
não impossível, de quantificar, ao contrário das muitas variáveis de ‘políticas’,
como a taxa tarifária e a taxa de inflação. Então, qualidades institucionais são
recorrentemente medidas por índices baseados em julgamentos qualitativos.
(Chang, 2011, p. 12, tradução nossa)
Um exemplo são os índices formados a partir de questionários
aplicados a empreendedores ou a acadêmicos especializados. Se a
situação econômica é positiva e há otimismo, os empreendedores
podem avaliar positivamente a estrutura institucional em que se encontram. No entanto, se a situação se torna ruim e a causa é
atribuída às instituições, elas passam a ser avaliadas de forma
negativa devido apenas à mudança de expectativa dos empresários
(Chang, 2011, p. 12). Além disso, organizações responsáveis pela
construção desses índices apresentam critérios sobre quais
instituições são boas e quais são ruins a priori e que nem sempre
(ou quase nunca) são consensuais, devido às diferentes visões de
mundo dos agentes. Isso as leva a mensurarem de forma positiva aquelas que estão de acordo com seus critérios e de forma negativa
as que não estão. Isso significa que os dados desse tipo são,
normalmente, viesados na sua fonte, havendo sempre subjetividade
envolvida no processo de avaliação qualitativa das instituições.
Ainda em relação ao problema de mensuração, as mesmas
instituições são avaliadas por critérios que misturam formas e
funções (Chang, 2011, p. 13). Como já visto, não se pode atribuir
qualquer resultado a uma instituição garantindo uma forma institucional específica. Da mesma maneira, há várias funções
importantes para o desenvolvimento econômico que uma mesma
instituição pode cumprir. A mistura desses dois aspectos torna os
índices menos confiáveis, pois não faz sentido misturar essas
características distintas. Atribuir um julgamento qualitativo superior a
uma determinada forma de uma instituição tem pouco sentido
quando se toma como referência a discussão teórica da EPI, pois o
resultado de uma instituição, seja qual for o seu formato institucional, depende sempre das inter-relações que se criam no
ambiente institucional em que ela se insere. Analogamente, é
necessário reconhecer que, em diferentes ambientes institucionais,
uma função relevante pode ser exercida por distintas instituições, assim como uma mesma instituição pode exercer diferentes
funções. Desse modo, sem compreender a lógica do ambiente
institucional, avaliar qualitativamente uma instituição tem pouco
sentido. Outro argumento que sustenta o problema é o fato de muitas instituições serem, na verdade, composições conceituais,
feitas de várias outras instituições concretas.51 Assim, mensurar a
qualidade institucional quantitativamente é um exercício infrutífero.
O problema da agregação está no fato de que, feita a mensuração
(o que já é algo extremamente complexo), deve-se “somar” as
diferentes instituições, que são qualitativamente diferentes e
inseridas em ambientes distintos (Chang, 2011, p. 13). O índice
resultante, ao juntar essas diferenças, torna-se um valor incapaz de
exemplificar corretamente a situação institucional que se quer
expressar. Além disso, somam-se valores atribuídos à forma de uma
instituição com valores atribuídos a funções de outras. O resultado é um índice que agrega os problemas de mensuração observados
anteriormente, cuja interpretação objetiva acerca da qualidade
institucional é muito duvidosa.
O último problema, da comparação, é o de que, mesmo que seja
feita uma mensuração razoável das instituições e que seja feita uma
agregação dessas medidas em um único valor, esses índices não
são comparáveis entre diferentes sociedades (Chang, 2011, p. 14),
pois as relações que acontecem no ambiente institucional de um país são qualitativamente diferentes das que ocorrem em outro. Elas
envolvem instituições informais, relacionadas à cultura, que tornam
diferentes as dinâmicas institucionais entre as sociedades. Esse
problema é colocado por Chang como o problema da amostra
heterogênea, que é comum em estudos com dados em painel,
comparando diferentes países. Para ele, caso se quisesse utilizar
métodos quantitativos para analisar as instituições (apesar dos
problemas apontados), seria mais correta a utilização de séries temporais para cada país (Chang, 2011). No entanto, os dados
deveriam estar acompanhados de descrições históricas sobre as
mudanças institucionais que ocorrem na sociedade em questão e os
aspectos políticos essenciais para o entendimento dessas
mudanças, contemplando os conceitos de agência humana e o papel constitutivo das instituições, juntamente com as ideias, na
formação da visão de mundo dos agentes.
7. Conclusão: a EPI como base
teórica para a análise do papel das
instituições no desenvolvimento
econômico
Os elementos descritos pela EPI para explicar as relações entre
instituições, política e desenvolvimento econômico, explicados
didaticamente neste ensaio, servem como uma boa base para a
análise empírica. Esse marco teórico foi construído a partir das
análises de Ha-Joon Chang acerca das instituições e tem como
base um pensamento contemporâneo baseado na compatibilização
da visão do “Velho Institucionalismo” de Thorstein Veblen e John
Commons com a de outros autores de Economia Política, como Karl
Marx e Joseph Schumpeter. Esse pensamento entende a evolução institucional como um processo histórico, contínuo e sujeito a
mudanças, explicadas pela interação entre os agentes, as
instituições e a estrutura econômica. Há a consideração das
diferentes visões de mundo dos agentes, colocando a cultura e as
ideias como variáveis cruciais para entender a dinâmica
institucional. A sua capacidade de explicar as relações sistêmicas e
complexas existentes entre o ambiente institucional e o
desenvolvimento econômico a partir de uma perspectiva histórica torna-a uma teoria que se apresenta como alternativa consistente
para a análise de sistemas socioeconômicos concretos.
Dessa forma, o que apresentamos neste ensaio foram as
principais categorias teóricas a serem observadas na análise
empírica de caráter indutivo com base na EPI, assim como as
principais relações lógicas postuladas por essa abordagem.
Destacam-se as diferenças entre instituições formais e informais,
entre forma e função das instituições, e entre as características essenciais das instituições, que são o papel restritivo, o papel possibilitador e o papel constitutivo que exercem. Este último define
uma abordagem verdadeiramente institucionalista, em que as
instituições são responsáveis por moldar a visão de mundo dos
agentes, internalizando valores e crenças em suas visões de mundo (“modelos mentais”). O papel da agência humana, ou seja, a ação
deliberada de um agente com um propósito definido, também é
considerado um elemento-chave, como forma de explicitar que é a
sociedade que constrói as instituições, podendo essa construção
tomar trajetórias não óbvias, distintas de interesses materiais
“objetivos”, ou daquelas derivadas diretamente das contradições da
estrutura econômica. Nesse contexto, o papel da cultura e das
ideias é essencial.
A discussão acerca das mudanças institucionais leva em
consideração, na EPI, as motivações de eficiência e dos interesses,
além da dicotomia entre legitimidade e contestabilidade das
instituições a partir de diferentes visões de mundo, colocando a
ideologia como uma variável crucial para entender o processo
político e, consequentemente, econômico. Essas considerações
levam ao fato de que o mercado, o Estado e a política são
elementos indissociáveis, ligados através das “estruturas de direitos e obrigações” que sustentam a atividade mercantil. A contestação
dessas estruturas por parte dos agentes pode levar a mudanças
institucionais. A consideração da cultura e das ideias pela EPI leva,
portanto, a um papel crucial da agência humana neste marco
teórico, influenciando a evolução daquilo que é legítimo na esfera do
mercado.
A relação entre as instituições e o desenvolvimento econômico,
no sentido de mudança na estrutura produtiva e social, ou, nos termos de Marx, do processo de acumulação de capital, é uma
relação de dupla causalidade, em que os dois elementos evoluem
conjuntamente. A relação mais forte é a em que o desenvolvimento
econômico altera o ambiente institucional, a partir de mudanças
sociais que criam novas classes, demandando novas instituições, ou
pela maior riqueza material que permite acesso menos custoso às
instituições de maior qualidade. A relação em que as mudanças
institucionais geram desenvolvimento econômico também existe, mas de forma complexa, dinâmica e não linear.
Por fim, as considerações feitas levam à conclusão de que o
método mais adequado para análise de sistemas concretos é o
histórico, pois é o único capaz de relacionar as complexidades das
inter-relações institucionais com o caráter qualitativo dessas mesmas instituições. Além disso, os problemas de mensuração,
agregação e comparação dificultam a utilização de métodos
quantitativos, que, quando utilizados, devem ser através de séries
temporais aliadas a interpretações históricas.
Referências
AVILA, R. I. As relações de causalidade estrutura-sujeito em Veblen
e em Marx: perspectivas inconciliáveis? Tese de doutorado –
Programa de Pós-Graduação em Economia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013.
CHANG, H. The economic theory of the developmental state. In:
WOO-CUMINGS, Meredith. The developmental state. Itaca, New
York: Cornell University Press, 1999.
CHANG, H. An institutionalist perspective on the role of the state:
towards an institutionalist political economy. In: CHANG, Ha-Joon.
Globalisation, Economic Development and the Role of the State.
London: Zed Books, 2004a.
_______. Chutando a escada: a estratégia do desenvolvimento em
perspectiva histórica. São Paulo: Unesp, 2004b.
_______. Institutional Change and Economic Development: an
introduction. In: CHANG, H. (Org.). Intitutional Change and
Economic Development. United Nations University Press, 2007a.
_______. Institutions and economic development: theory, policy and
history. Journal of Institutional Economics, v.7, n. 4, p. 473-498,
2011.
_______. Rompendo o modelo: Uma economia política
institucionalista alternativa à teoria neoliberal do mercado e do
Estado. In: ARBIX, Glauco et alii (orgs.) Brasil, México, África do
Sul, Índia e China: diálogo entre os que chegaram depois. São Paulo: UNESP, EDUSP, 2002.
_______. Understanding the relationship between institutions and
economic development: some key theoretical issues. In: CHANG,
Ha-Joon (Org.). Intitutional Change and Economic Development. United Nations University Press, 2007b.
CHANG, H.; EVANS, P. The role of institutions in economic change.
Paper for the meeting of the “Other Canon” group. Oslo, ago. 2000.
CONCEIÇÃO, O.A.C.; BARCELLOS, O. O comportamento humano
no pensamento institucionalista – uma breve discussão.
ENCONTRO REGIONAL DE ECONOMIA Anpec Sul, 13, 2010,
Porto Alegre. Anais do XIII Encontro Regional de Economia Anpec
Sul 2010. Porto Alegre: UFRGS, 2010, p. 1-23. Disponível em:
<http:// www.ppge.ufrgs.br/anpecsul2010/programacao.asp>.
Acesso em: 1 de ago. 2010.
_______. Os antigos, os novos e os neo-institucionalistas: há
convergência teórica no pensamento institucionalista? Análise Econômica. Porto Alegre, Ano 18, n. 33, mar. 2000.
_______. A relação entre processo de crescimento econômico,
mudança e instituições na abordagem institucionalista. Porto Alegre:
Ensaios FEE. v.23, Número Especial, p. 603-620, 2002.
DEQUECH FILHO, D.. Economic institutions: explanations for
conformity and room for deviation. In: XL ENCONTRO NACIONAL
DE ECONOMIA, 2012, Porto de Galinhas. Anais do XL Encontro
Nacional de Economia, 2012. p. 1-20.
EPSTEIN, G.. Central Banks as agents of economic development.
In: CHANG, HaJoon (Org.). Intitutional Change and Economic
Development.United Nations University Press, 2007. FINNEMORE, M.. Norms, culture, and world politics: insight from
sociology’s institutionalism. International Organization, v. 50, n. 2, p.
325-347, 1996.
HODGSON, G. M. The Evolution of Institutions: An Agenda for
Future Theoretical Research. Constitutional Political Economy, n. 13,
2002.
HODGSON, G. M.The Approach of Institutional Economics. Journal
of Economic Literature. v.36, p.166-192, mar.,1998.
_______. Institutions and Individuals: Interaction and Evolution.
Organization Studies, Thousand Oaks, v. 28, n. 1, jan., p. 95-116,
2007. Disponível em: <http://www.geoffrey-
hodgson.info/user/image/instindiv.pdf.>. Acesso em: 19 de jan. 2012.
HERSCOVICI, A. Irreversibilidades, incerteza e teoria econômica –
reflexões a respeito do indeterminismo metodológico e suas
aplicações na ciência econômica. Estudos Econômicos. São Paulo,
v. 34, n.4, p. 805-825, out-dez, 2004.
JOHN, J. The political economy of taxation and tax reform in
developing countries. In: CHANG, Ha-Joon (Org.). Intitutional
Change and Economic Development. United Nations University
Press, 2007.
LAZONICK, W. Corporate governance, innovative enterprise, and
economic development. In: CHANG, Ha-Joon (Org.). Intitutional
Change and Economic Development.United Nations University
Press, 2007.
MARX, K. A sagrada família ou crítica da crítica critica contra Bruno
Bauer e seus seguidores. São Paulo: Moraes, 1987
_______. O Capital: crítica da economia política. Livro primeiro (I): O
processo da produção do capital. v. 1 Tomo 2. São Paulo: Abril Cultural, 1984. (Coleção Os economistas).
_______. Para a crítica da economia política: salário, preço e lucro –
o rendimento e suas fontes – a economia vulgar. São Paulo: Abril
Cultural, 1982.
MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã. 3. ed. São Paulo: Martins
Fontes, 2001.
MONASTÉRIO, L. M.. Veblen e o comportamento humano: uma
avaliação após um século de “A teoria da classe ociosa”. Cadernos
IHU ideias, São Leopoldo, n.42, p.1-14, 2005.
O’BRIEN. P. K. State formation and the construction of institutions
for the first industrial nation. In: CHANG, Ha-Joon (Org.). Intitutional
Change and Economic Development. United Nations University
Press, 2007.
POLANYI, K. The Great Transformation. Boston: Beacon Press,
1957.
SIMON, H. A. Rationality in Psychology and Economics. The Journal
of Business, v. 59, n. 4, 1986.
_______. Theories of decision-making in economics and behavioral
science. The American Economic Review, v. 49, n. 3, , jun. 1959.
STANFIELD, J. The Scope, Method and Significance of Original
Institutional Economics. Journal of Economics Issues, Armonk,
XXXIII, n. 2, p.231-255, 1999.
VEBLEN, T. A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das
instituições. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
_______. Essays in our changing order. New York: Augustus M. Kelley, 1964.
_______. The place of science in modern civilisation and other
essays. New York: Viking, 1952.