Desenvolvimentismo: o conceito, as bases teóricas e as políticas
A relação entre instituições e crescimento econômico: uma análise heterodoxa e evolucionária
A relação entre instituições e
crescimento econômico: uma
análise heterodoxa e
evolucionária
Octavio A. C. Conceição
Instead of the macro economy being treated as a magnified representative
individual, social structure has to be introduced in a population of
heterogeneous individuals. This is another open door for institutional analysis.
(Hodgson, 2007).
My basic proposal is that the concept of “social technologies”, which
complement “physical” technologies, and of “institutions” as the structures and
forces which support and hold in place social technologies, together point the
way to a bridge design. (Nelson, 2008)
1. Introdução
A agenda de pesquisa centrada no institucionalismo e mais
especificamente na relação entre instituições e o processo de
crescimento econômico tem evoluído muito ao longo das últimas
décadas. Vários autores e correntes debruçam-se sobre este tema,
estabelecendo, às vezes, um nexo teórico incompatível, contraditório e, outras vezes, sucitam um padrão de clara
convergência. Explicando melhor, as abordagens sobre crescimento
econômico do mainstream, centradas nos modelos de crescimento
endógeno, advogam as vantagens da convergência a uma situação
de equilíbrio ótimo, normalmente, mas nem sempre, obtido através
do recurso a “instituições adequadas”, que garantiriam ex ante tal
padrão de estabilidade de longo prazo. Nesse desenho teórico, as
instituições constituem uma espécie de selo de garantia de que uma trajetória de crescimento estável possa ser alcançada, desde que as
mesmas não perturbem a ordem sistêmica, para que as equações
de crescimento possam chegar à estabilidade e ao longo prazo.
Nesse sentido, a noção de instituição assume um caráter normativo e sancionador de eficiência econômica, noção esta que contrasta
com a natureza do próprio institucionalismo, como se verá na
sequência deste texto. De outro lado, as abordagens propriamente
institucionalistas veem as instituições como regras do jogo ou
padrão de regras formais e informais, segundo versão próxima da
NEI, ou como hábitos de conduta dos indivíduos, segundo padrão
conceitual do Original Insitutional Economics. Neste âmbito, a
relação entre instituições e o processo de crescimento econômico assumem um caráter ambíguo e, algumas vezes, podem até mesmo
atrapalhar o bom desempenho econômico dos países. Aspectos
culturais e idiossincráticos das nações podem desenhar trajetórias
de crescimento distintas e sequer comparáveis. Não há qualquer
roteiro que assegure condições “ideais” para o crescimento
econômico. Esta é a razão pela qual entendemos que o nexo entre
instituições e crescimento econômico tem um caráter muito mais
heterodoxo do que ortodoxo. É dessa discussão que nos ocuparemos no presente texto.
Artigos recentes publicados na “Journal of Economic Issues”,
“Cambridge Journal of Economics”, “Industrial and Corporate
Change” e “Journal of Institutions Economics”, dentre outras
revistas, têm destacado a estreita relação entre o processo de
crescimento econômico e o papel das instituições. Tais estudos não
tratam de estabelecer a relação de causalidade entre ambos, que
muitas vezes é ambígua, mas em explicitar novos nexos conceituais que permitam esboçar uma teorização preliminar e apreciativa sobre
a natureza dessa relação.
Esse tema é um dos mais complexos e desafiadores da teoria
econômica contemporânea. Sua formalização como uma trajetória
preestabelecida rumo ao steady state (Solow, Novos Clássicos ou
Novos Keynesianos) ou sua compreensão como um processo
instável, sinuoso e incerto (institucionalistas, neoschumpeterianos,
pós-keynesianos) não esgotam a riqueza analítica creditada a tão complexo tema.
Muito tem sido enfatizado no debate econômico contemporâneo
sobre a estreita vinculação entre crescimento econômico e sua
dependência do marco institucional vigente no país ou na região.
Alusão a essa relação é feita pela contribuição neoschumpeteriana (Freeman, Perez, Freeman e Louçã, Nelson, Dosi, Metcalfe) e pelas
correntes institucionalistas (Hodgson, Rutherford, North,
Williamson). Não se duvida, nem se questiona a validade da
causalidade entre ambas. Um conceito interage e se alimenta do
outro de maneira relativamente imprevisível.
Consideramos que houve muitos avanços nesses pontos. E os
mesmos vêm consolidando a importância da contribuição do Antigo
Institucionalismo Norte-Americano, que tem nos estudos de Veblen, mas também em Commons e Mitchell, suas principais fontes de
referências. Isso contrasta com o debate contemporâneo, que tem
seu núcleo teórico na designada Nova Economia Institucionalista
(NEI).
O que se buscará demonstrar nesse texto é que muito do sucesso
da construção de um quadro institucional compatível com uma
trajetória de crescimento econômico é oriundo do processo histórico,
social, cultural que o gerou. Essa hipótese harmoniza-se com o referencial analítico do Antigo Institucionalismo.
Portanto, nem sempre é verdadeira a assertiva segundo a qual
uma “eficiente” e “consistente” política macroeconômica, sintonizada
com os cânones neoclássicos, é garantia segura para a obtenção de
uma trajetória “ótima” de pleno emprego e equilíbrio de longo prazo.
Este texto tentará demonstrar que a) crescimento econômico é
um processo complexo demais para ser expresso através de
formalizações centradas em um restrito elenco de variáveis passíveis de mensuração; b) é um processo onde importam as
relações de mútua causalidade, que Myrdal designou de causação
circular, onde o papel das firmas, das decisões individuais e das
instituições é decisivo; c) onde a história e as mediações culturais
também têm importância; e d) noções de otimalidade e steady state
dificilmente serão alcançáveis em um horizonte de longo prazo,
dada a incerteza e as instabilidades inerentes ao processo de
decisão capitalista de produzir.
Esses fatores sugerem que a compreensão do processo de
crescimento econômico tem maior proximidade teórica com o campo
heterodoxo do que com o ortodoxo. Se tal assertiva for verdadeira
caberia, então, explicitar em que consiste a heterodoxia, qual sua natureza ontológica em oposição à ortodoxia, e por que se faz
necessário o abandono do individualismo metodológico como
pressuposto central. Ao assim proceder, entende-se que o processo
de crescimento econômico deve ser compreendido sob uma
perspectiva evolucionária.
Mais ainda, sob essa perspectiva, o papel do indivíduo não pode
ser visto como inerte, imutável e passivo, já que são suas decisões,
tomadas sob incerteza, e em um ambiente permeado de instabilidades, que criam condições para o avanço tecnológico e a
consequente transição para o paradigma tecnológico que abrigará
possíveis trajetórias de crescimento econômico.
Daí a importância do pensamento de Veblen e dos seguidores do
Antigo Institucionalismo, pois, para eles, são esses indivíduos e as
instituições que o rodeiam que exercem o poder de criar o ambiente
evolucionário adequado ao avanço do processo econômico em toda
sua magnitude. Reiterando mais uma vez, tal proposição somente tem sentido lógico e teórico se houver uma ruptura canônica com os
princípios do individualismo metodológico, o que esbarra,
necessariamente, na proposição de uma ontologia evolucionária
compatível com esses preceitos. Essa é a proposição desse texto.
2. Instituições e crescimento
econômico: um nexo evolucionário...
Vários artigos, como o de Nelson (2008), Hodgson (2008, 2009),
North (2005) apontam, de forma cada vez mais enfática, que
institucionalismo e crescimento econômico ou a performance dos países estão indissoluvelmente associados. O problema seria
amarrar ambas as noções de forma a estabelecer uma conexão ou
ponte entre ambas. A partir daí, uma revolução no campo das
teorias de crescimento seria realizado. Em tal processo, duas abordagens estariam em linha de absoluta convergência:
institucionalismo e evolucionismo.
Isso nos permite afirmar, não sem alguma ousadia, que o
institucionalismo venceu o debate sobre desenvolvimento econômico. A novidade em tal afirmação é que ela é reinterpretada
“fora” dos cânones do mainstream, que a vê como resultante de
uma eficiente e única estratégia liberalizante, omitindo a
contribuição dos institucionalistas e evolucionárias sobre o tema.
Pegando, a título de exemplo, um artigo nesta linha, como o de
Jameson (2006), tem–se que, apesar da forte influência da NEI
sobre os estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI) – como a
Conference on Second Generation Reforms e sua ressonância no World Development Reform de 2002 e a repercussão desde os anos
70 do institucionalismo sobre o conteúdo do Handbook of
Development Economics –, é a compreensão da economia, como
definida por Philip Klein, enraizada nas correntes institucionalistas
herdeiras do “velho” institucionalismo de Veblen, Commons e
Mitchell, que vem ganhando importantes adeptos no debate
contemporâneo. Segundo essa tradição, a economia seria um
sistema que “embraces a body of knowledge and skills and a stock of physical equipment; it also embraces a complex network of
personal relations reinforced by custom, ritual, sentiment, and
dogma.” (Klein, 1977, P. 789 Apud Jameson, 2006, p. 369).
Saliente-se, novamente, que tal institucionalismo não é o mesmo
do Banco Mundial, que privilegia apenas as denominadas
“instituições de mercado”, no qual as organizações, as instituições e
as restrições de política econômica atuam em consonância com o
modelo neoclássico. Para Jameson (2006, p. 369): “[o]ne institution, the market, remains the focus of the international financial
institutions such as the World Bank.” Entretanto, apesar desse
enfoque, o institucionalismo permanece central no pensamento
sobre desenvolvimento, o qual contempla a evolução institucional
com grande variedade e complexidade. Para Jameson, aspectos
relevantes do velho institucionalismo de Veblen, adicionados ao
“novo institucionalismo” de North, vêm constituindo uma pragmática
combinação de construções e approaches dos primeiros com avanços epistemológicos e metodológicos dos últimos, que permitiram avançar em novas questões, as quais ele designa de
“moderno institucionalismo do desenvolvimento” 1:
The challenges of the development process, and its resistance to
reductionism, are the roots of modern institutionalist’s contribution to
understanding both development and the policies and processes that can
guide development initiatives. (Jameson, 2006, p. 370).
Tal perspectiva analítica revela que a noção de crescimento
econômico (teoricamente vinculada à noção de desenvolvimento)
passa pela ideia de mudança e transformação estrutural. E, nesse
sentido, a direção da mudança tem estruturalmente uma dimensão
sistêmica. É impensável uma mudança no plano microeconômico, sem que se conceba sua difusão também no plano meso e
macroeconômico.
Há, portanto, uma vinculação entre a ideia de mudança e de
movimento com a noção de tempo e de dinâmica, que
imediatamente explicitam o nexo entre processo de crescimento e
evolução. É impossível conceber-se o processo de crescimento
econômico sem inseri-lo em uma perspectiva evolutiva ou
evolucionária. Daí a importância das abordagens que contemplam tais perspectivas, como o fazem os neo-schumpeterianos e as
vertentes institucionalistas, principalmente no campo do Antigo
Institucionalismo.
Esses elementos evolucionários realçam um novo enfoque
interpretativo sobre a natureza do processo de crescimento
econômico (visto de forma evolutiva). Isso remete à próxima
questão: é possível tratá-la no âmbito do mainstream ou é
necessário romper com o mesmo? Tal objeto analítico tem raízes heterodoxas? A resposta é sim, mas antes é preciso definir-se o que
se entende por heterodoxia.
Na seqüência, procurar-se-á explicitar em que consiste a natureza
do pensamento heterodoxo, para então se tentar responder em que
medida se deu o avanço do institucionalismo: se por pertencer ao
campo heterodoxo ou por constituir um novo approach teórico
evolucionário, no qual o papel dos indivíduos e seus hábitos são
decisivos.
3. ... ou uma ontologia heterodoxa?
A definição de o que é e o que não é objeto de análise teórica
heterodoxa é alvo de discussões que sempre se fizeram presentes
na teoria econômica e no campo da economia política. Marx, já em
“O Capital”, distinguia os fundamentos de uma economia política
“burguesa” de uma economia política “científica”. Lá, sugeria que o
que distinguia uma da outra era a vinculação e consequente crença
e fé nos mecanismos automáticos de regulação pelo mercado.
Advogava que tais fundamentos eram – ao contrário de objeto de uma fé cega na sapiência dos dotes metafísicos da mão invisível –
inventados e manipulados pelos homens, o que conferia um caráter
antagônico, conflituoso e competitivo de busca pela apropriação do
excedente, oriunda da própria atividade econômica humana. Tal
argumento estabelecia, assim, a base sobre a qual se erigiram as
formas de ação coletiva, as regras de comportamento e de convívio
social com o ambiente de conflito, passíveis de serem “reguladas”
no âmbito do processo de gestão do trabalho humano. Extraíram-se daí os fundamentos do arcabouço institucional, que daria
sustentação ao processo de acumulação de capital e ao notável
avanço industrial e tecnológico do século XX.
Tal perspectiva converge com o campo de pesquisa
institucionalista, que tem uma natureza heterodoxa, face à crítica
explícita de Veblen à ortodoxia, que tratava o homo economicus
como inerte, imutável e passivo (Hodgson, 1998; Veblen, 1898).
A questão é explicitar em que consiste a referida natureza
heterodoxa. Inúmeros autores têm se ocupado dessa questão nos
últimos anos e não caberia listá-los. Ocupar-nos-emos aqui da
interpretação de Lawson (2006), que afirma que houve
recentemente uma numerosa expansão de atividades de pesquisa
em economia nas áreas designadas de heterodoxas. Como
exemplo, tem-se a formação da Association for Heterodox
Economics (AFHE) e a conferência realizada em 2002, na
Universidade de Missouri (Kansas City), sobre The History of Heterodox Economics in the 20th Century. A heterodoxia vem se
constituindo em uma espécie de guarda-chuva que encobre uma série de diferentes projetos ou tradições. Todos, entretanto, se
distinguem da ortodoxia pela importância central da ontologia. As
várias tradições heterodoxas modernas distinguem-se pelos
diferentes compromissos, que especificam as substantivas teorias, as políticas de mensuração ou as técnicas ou unidades básicas de
análise. A economia heterodoxa inclui vários projetos ou tradições,
que vão desde os pós-keynesianos, aos (velhos) institucionalistas,
feministas, marxianos, austríacos e economistas sociais, entre
outros. Em linhas gerais, a natureza da pesquisa heterodoxa é
caracterizada pelos seguintes pontos:
1. um conjunto abstrato ou teórico nitidamente recorrente de
temas e ênfases em uma específica tradição;
2. uma multiplicidade de tentativas, dentro de cada tradição, em
teorizar sobre seus temas tradicionais específicos e formar
posições políticas, ou ainda para determinar as principais
unidades de análise de uma específica tradição ou outros
princípios metodológicos baseados nas mesmas. Os resultados
são frequentemente apresentados com uma postura
política/teórica, unidades básicas de análise ou princípios
metodológicos alternativos ao mainstream;
3. um reconhecimento de que é impossível serem geradas
concordâncias, dentro de uma tradição heterodoxa, sobre
teorias e políticas alternativas específicas, posturas
metodológicas específicas e o reconhecimento de que o único
campo comum, dentro de qualquer tradição, é uma oposição ao
mainstream ou à ortodoxia “neoclássica”.
Lawson (2006, p. 484) enfatiza que todos os referidos elementos
estariam presentes nas análises pós-keynesianas, bem como em
todas as demais tradições heterodoxas 2. Por outro lado, o moderno
projeto do mainstream consiste na proeminência de quatro teses
centrais passíveis de crítica. A primeira é que os respectivos projetos de pesquisa defendem o sistema econômico corrente,
assumindo, por isso, um caráter ideológico3.
A segunda é a construção de um modelo teórico especificado de
forma a assegurar que resultados alcançáveis sejam ótimos. Isso se assenta na hipótese de que os comportamentos individuais são
otimizadores, o que implica incorporar a tradição ortodoxa de tratar
os indivíduos como agentes, que atuam de forma independente um
do outro. Esse ponto contrasta fortemente com os argumentos levantados por Veblen em toda sua obra. Além desses dois
aspectos, persiste no referido projeto uma forte inclinação à
matematização, o que sugere sua aplicação em qualquer situação e
lugar. Em outras palavras, a economia heterodoxa rejeita o
“reducionismo metodológico”, a medida que os modelos
formalísticos nem sempre são apropriados.
Essa é a razão que leva Lawson a propor que a diferença entre
heterodoxia e mainstream seja de natureza “ontológica”. Ao definir ontologia como o estudo ou uma teoria sobre a natureza básica e a
estrutura de campo (um domínio) da realidade, Lawson parafraseia
Marx, salientando que os reagentes microscópicos e químicos não
são apropriados para a análise das formas econômicas. Há métodos
de análise apropriados para um tipo de matéria e outros não. O
mesmo se diz para os métodos matemáticos, que seriam
inapropriados para determinadas situações sociais4.
A terceira tese central é que o pressuposto ontológico implícito no
moderno projeto de pesquisa do mainstream aponta para uma visão
de mundo oposta à contribuição heterodoxa. O método formalístico
do referido projeto requer, para sua aplicação, a existência de “sistemas fechados”, através dos quais ocorram regularidades
eventuais (determinísticas ou estocásticas). O mainstream adota
uma versão do dedutivismo, que propõe relações funcionais restritas
aos limites da sequência causal (Lawson, 2006, p. 493).
Se a realidade social depende da atividade transformadora
humana, seu estado de ser deve ser intrinsecamente dinâmico ou
processual. Como exemplo, tem-se o sistema de linguagem, cuja
existência é condição de comunicação humana, via atos de fala, etc. E é através da soma total desses atos de fala que o sistema de
linguagem está continuamente sendo reproduzido e transformado.
Portanto, tal sistema é intrinsecamente dinâmico, porque seu modo
de ser é um processo de transformação, um contínuo vir a ser. Isso
é verdadeiro também para todos os aspectos da realidade social. O
mundo social se transforma em prática humana.
A ontologia alternativa acima descrita sistematiza as
preconcepções das várias tradições heterodoxas e explica sua
persistente oposição ao mainstream. A ênfase pós-keynesiana na
incerteza fundamental está inserida nessa suposição, assim como a ênfase institucionalista, no método evolucionário e na tecnologia
como uma força da dinâmica. Ambas dão ênfase a um sistema
social visto como um “processo”. O que direciona a oposição
heterodoxa ao formalismo matemático é uma visão de mundo
singular em relação ao que os modelos formalísticos pressupõem.
Assim, as várias tradições heterodoxas podem ser identificadas por
orientações ou práticas vinculadas à ontologia social descrita. O
conjunto de projetos sistematizados como heterodoxos são, em primeira instância, orientados de maneira ontológica e
sistematizados através do “realismo crítico” em economia.
Portanto, o que distingue o projeto heterodoxo, além da ênfase
em sua orientação básica, é fruto de um debate interno e de
discordâncias muito mais sobre teorias substantivas e instâncias
políticas do que sobre as unidades básicas de análise apropriadas e
outros princípios metodológicos. Projetos como o pós-keynesiano ou
o velho institucionalismo podem ser vistos como coerentes entre si. E tal coerência se dá através da forma como a interpretação das
referidas tradições heterodoxas está efetivamente comprometida
com o tipo de concepção ontológica descrita.
A quarta tese básica do autor é que, se a ontologia pode dar
conta das diferenças entre as tradições heterodoxas e o moderno
mainstream – ou seja, se os compromissos ontológicos identificam
os pós-keynesianos, institucionalistas, economistas feministas e
outros como heterodoxos –, então são suas orientações substantivas particulares, suas relações e ênfases que as
distinguem, e não suas respostas ou princípios.
A ontologia social descrita fornece uma concepção das
propriedades de todos os fenômenos sociais (abertos, estruturados,
intrinsecamente dinâmicos, no sentido de dependentes da
transformação social e altamente relacionados internamente através
das relações sociais), não havendo nenhuma razão para se supor
que exista uma esfera econômica (ou qualquer outro subdomínio), no campo social, destituída dessas propriedades. Os materiais e princípios da realidade social são os mesmos entre economia,
sociologia, política, antropologia, geografia humana e todas as
outras disciplinas relacionadas ao estudo da vida social 5.
Portanto, Lawson (2006, p. 502) advoga que, para se distinguir a
economia heterodoxa do moderno projeto do mainstream devem-se
considerar os seguintes aspectos:
1. A oposição se dá não em termos de resultados substantivos ou
unidades básicas de análise, mas de acordo com a orientação
metodológica. O projeto do mainstream insiste em que o
fenômeno econômico seja investigado utilizando apenas certas
razões de forma matemático-dedutiva.
2. As falhas intelectuais e limitações mais frequentes desse
projeto residem na ênfase nas razões matemático-dedutivas
tidas como inapropriadas, face à natureza do material social.
Em outras palavras, as pressuposições ontológicas do referido
método não combinam com a natureza da realidade social.
3. A oposição heterodoxa está baseada (frequentemente de
maneira implícita) na forma de captar a situação expressa na
segunda controvérsia. Ou seja, a moderna heterodoxia tem
uma orientação ontológica. Distingue-se do mainstream pela
sua disposição em aproximar teoria e método de maneira
compatível com a natureza da realidade social.
4. As tradições heterodoxas do indivíduo distinguem-se por suas
orientações substantivas particulares, interesses e ênfases, e
não por suas alegações ou resultados teóricos, descobertas
empíricas, princípios metodológicos ou posturas políticas.
A conclusão que se tira da argumentação de Lawson é que a sua
ontologia heterodoxa aceita múltiplos desdobramentos, não
fornecendo (e nem tendo intenção de fornecer) elementos mais
específicos capazes de constituir uma teorização sobre crescimento
econômico, instituições e sua evolução. Tal empreitada ficaria a cargo de cada abordagem heterodoxa específica.
4. Agenda de pesquisa evolucionista
sobre crescimento, tecnologia e
instituições
Nelson (2002) argumenta que os economistas que vêm mais
contribuindo para o desenvolvimento da teoria de crescimento
evolucionária, ao longo dos últimos vinte anos, têm se motivado
nessa tarefa pela percepção de que a teoria neoclássica de
crescimento econômico, embora assinalando que a mudança
tecnológica exerce papel central no crescimento econômico, é
totalmente inadequada ao caracterizar abstratamente tal processo.
Mais especificamente, é incapaz de caracterizar o processo de crescimento econômico desencadeado pela mudança tecnológica,
como ele próprio o faz em conjunto com Winter (Nelson e Winter,
1982). Em particular, o modelo neoclássico desconsidera o fato de
que os esforços para o avanço tecnológico são, em grande medida,
“cegos” (Nelson, 2002, p. 17).
Tal proposição não implica negar o propósito, a inteligência e o
corpo de entendimento das tentativas em se avançar na forma de
incorporar o avanço tecnológico. É o caso de diferentes inventores e equipes de P&D que permitiram avanços em diferentes áreas, cujas
conquistas são virtualmente impossíveis de serem previstas, no
sentido de captar o avanço inerente a elas. A noção de que o
avanço tecnológico se dá através de um processo evolucionário tem
se desenvolvido de forma independente por estudiosos que atuam
em uma variedade de disciplinas, como na sociologia, por
historiadores da tecnologia, bem como por economistas
interessados em modelagem (Nelson; Winter, 1982; Metcalfe, 1998; Saviotti, 1996 apud Nelson, 2002, p. 17).
Entretanto, deve se reconhecer que a contribuição dos modernos
economistas evolucionários sobre mudança tecnológica,
preocupados com o papel das instituições no desenvolvimento
econômico, tem tido poucos interlocutores. Por essa razão, o artigo
de Nelson (2002, p. 18) serve como uma ponte entre as duas
referidas tradições intelectuais e sugere um caminho em que ambas possam seguir conjuntamente. Tal conjunção não constitui novidade,
porque, mesmo antes que a moderna teoria neoclássica ganhasse a
atual preponderância, a maior parte da análise econômica era tanto
evolucionária, quanto institucionalista. Por mais estranho que essa afirmação possa parecer aos céticos em relação a essa abordagem,
Nelson (2002) salienta que:
Thus, Adam Smith’s analysis concerned with how “the division of labor is
limited by the extent of the market” and, in particular, his famous pinmaking
example, certainly fits the mold of what I would call evolutionary theorizing
about economic change. Indeed, his analysis is very much one about the co-
evolution of physical technologies and the organization of work, with the latter,
I would argue, very much a notion about “institutions”. In many other places in
“The Wealth of Nations”, Smith is expressly concerned with the broader
institutional structure of nations, in a way that certainly is consonant with the
perspectives of modern institutional economics. Karl Marx of course was both
an evolutionary theorist and an institutional theorist. If you consider the broad
scan of his writing, so too was Alfred Marshall. Thus, evolutionary growth
theorizing that encompasses institutions in an essential way has a long and
honorable tradition in economics. (Nelson, 2002, p. 18 e 19).
Sob esse aspecto, a ascensão hegemônica da teoria econômica
neoclássica reduziu notavelmente o escopo intelectual implícito nas referidas abordagens, tornando a análise econômica evolucionária e
institucionalista um corpo de estranho à teoria econômica. A
tendência de dissonância em relação a essa hegemonia, no sentido
de consolidação de uma trajetória própria, começou a ganhar
espaço nos Estados Unidos principalmente com a contribuição de
Commons, que ajudou a definir a escola institucional Americana.
Sua análise, entretanto, segundo Nelson, não era muito
evolucionária. Nem Coase, que mais tarde deu substância à Nova Economia Institucional, assumiu tal caráter.
Há fortes afinidades entre a forma comum do core de
pressupostos e percepções entre economia institucional – pelo
menos aqueles pertencentes à escola de North – e a moderna
economia evolucionária 6. Por isso, há razões para que ambas
correntes juntem suas forças: elas têm uma premissa central de que
a ação humana e as interações são resultantes e resultam de
hábitos de ação e de pensamento. Isto implica a rejeição do
princípio de “maximização” enquanto “processo” de caracterização da forma como os homens agem. Há também a rejeição da noção
friedmaniana, segundo a qual, se os homens não se orientam
através do cálculo maximizador, comportam-se “como se” – o
princípio do as if – o fizessem. Para os campos de pesquisa institucionalistas, quanto evolucionários:
[…] patterns of action need to be understood in behavioral terms, with
improvements over time being explained as occurring through process of
individual and collective learning. For economic evolutionary theorists, this
exactly defines the nature of an evolutionary process. (op. cit., p. 20).
Por essas razões, os estudiosos desses dois campos têm
aumentado seus interesses na compreensão dos determinantes da
performance econômica, e como essa diferencia as nações ao longo
do tempo. Os modernos teóricos evolucionários enfocam
centralmente o que chamam de “tecnologias” 7. E os economistas
institucionalistas enfocam predominantemente as instituições 8. Para
Nelson, o casamento entre ambos é bastante viável. Para tanto, faz-
se necessária a incorporação de alguns conceitos, como o das
“rotinas” e o conceito de “tecnologia social”, como inerentemente
vinculado às instituições. E, finalmente, incorpora as instituições em
uma teoria evolucionária de crescimento econômico.
5. Uma agenda de pesquisa revisitada
por Nelson
Nelson (2008) argumenta que as instituições têm tomado, na
literatura atual, papel central entre economistas e estudiosos dos processos de crescimento econômico. Tais análises têm enfatizado
as razões que levam à diferenciação e heterogeneidade entre o
crescimento econômico das nações. O que lhe chama a atenção,
com o que concordamos integralmente, é que pouquíssimas
análises buscam entender a forma pela qual o referido “papel das
instituições” tem sido explorado analiticamente. Há quase absoluta
omissão no tratamento dessa questão. Assim, conectar esses
pontos de ligação entre instituições e crescimento implica estabelecer uma coerente análise das relações entre instituições,
mudança institucional e avanço tecnológico. É nesse ponto que
propõe incorporar o conceito de “tecnologia social” como suporte
analítico e diferenciado à noção já estabelecida de “tecnologias físicas”, o que constituiria um novo tipo de análise.
Partindo dos estudos de Douglass North, da NEI, que, desde o
início dos anos 90, tem enfatizado a importância das right
institutions como explicação central para o progresso econômico,
tem-se constatado uma mudança de rumo em seu enfoque. A forma
como as instituições afetam a eficiência, em termos de alocação
econômica – aliás, bem ao gosto da visão neoclássica de
convergência com bem-estar ótimo – vem sendo substituída por um nexo teórico mais evolucionista, em que, ao invés da ideia de
alocação eficiente, a noção de mudança institucional passa a ser
mais importante.
Entretanto, para a NEI, a noção de avanço tecnológico, tão
importante para os neo-schumpeterianos, raramente é mencionada
em North, pelo menos em seus primeiros trabalhos dos anos 90. Tal
fato constitui, na ótica neoschumpeteriana, uma séria limitação
analítica no que tange à compreensão da fonte do progresso econômico, já que, há pelo menos dois séculos, o avanço
tecnológico tem sido considerado como a força motora do referido
processo.
O desafio atual é avançar nesse ponto tentando compreender o
papel das instituições e da mudança institucional no processo de
crescimento econômico através da análise de como essas variáveis
(ou conceitos) articulam-se com a mudança tecnológica. Essa
proposição articula institucionalistas com evolucionários e abrem um enorme campo de análise já com expressiva contribuição de ambas
as correntes.
Saliente-se que um número crescente de estudos vem trazendo
as instituições para suas respectivas análises como ressalta Nelson
(2002), particularmente no tratamento de questões ligadas ao
conceito de sistemas de inovação (Dosi et al, 1988; Freeman, 1988;
Lundvall, 1988; Nelson, 1988 apud Nelson, 2008).
Entretanto, para a construção de uma ponte entre a explicação de
como as instituições e as mudanças institucionais relacionam-se com as mudanças tecnológicas dois obstáculos se impõem. Em
primeiro lugar, não há unidade conceitual, entre os diversos autores,
sobre o que entendem que deva ser o conceito de instituição. A
diversidade de significados é problemática por impedir a cumulatividade no respectivo campo de pesquisa e por obstaculizar
uma maior vinculação entre eles. Em segundo lugar, a forma através
da qual as instituições são tratadas na literatura sobre crescimento
econômico dificultam a apreensão de como elas se ajustam ou se
ligam à teoria de crescimento orientada pelo avanço tecnológico.
Um terceiro ponto que consideramos relevante é que a
“desagregação” do termo instituição é de grande importância para a
teoria econômica, notadamente na construção do nexo ou do caminho teórico para uma integração micro-macro. Até que ponto as
decisões individuais, baseadas em crença, expectativas e intuições
podem se materializar no agregado e, ex post, em um ambiente
favorável ao crescimento autossustentado (?) e duradouro? E qual o
papel das instituições nesse processo? Elas atuam no plano macro
ou no plano micro? Suspeita-se que, conforme a definição ou
corrente adotada, atuarão em uma ou outra forma.
Assim, por exemplo, na ontologia evolucionária derivada de
Veblen, Hodgson (2007) propõe que se explore esse nexo através
do conceito de reconstitutive downward causation. Nesse sentido, o
crescimento econômico seria uma propriedade emergente do
ambiente micro, centrado nos hábitos, crenças e expectativas de
retorno, que se materializaria no plano macro, do agregado que
conformaria o paradigma tecnoeconômico vigente.
O texto de Nelson (2008) considera viável a ponte entre
instituições e mudança tecnológica, que se iniciaria com o “desempacotamento” do conceito de instituição. Consideramos,
porém, que não se trata apenas de desempacotá-lo, mas
estabelecer os limites conceituais nos planos micro e macro.
Para desempacotar tal conceito, Nelson propõe que
pesquisadores e economistas estudiosos dos sistemas de inovação
concentrem-se nas explicações dos métodos prevalecentes na
forma de fazer as coisas em contextos diferenciados, cujas ações e
interações entre as partes determinam o que é alcançado. Daí, portanto, a relevância da coordenação efetiva como elemento crucial para a boa performance. A esse conjunto de ações Nelson
designa “tecnologia social”, termo concebido e explicitado no artigo
Nelson e Sampat (2001). Entretanto, para dotar de funcionalidade o
referido conceito, é fundamental realizar uma discussão sobre a proposição analítica do que constitui o termo “instituição”.
6. Redefinindo o conceito de
Instituição
Em uma primeira aproximação conceitual, Nelson propõe que o
termo instituição, no sentido empregado no parágrafo anterior, seja
definido basicamente como “the factors and forces that mold and
hold in place social technologies” (Nelson, 2008, p. 2). Tal definição
seria totalmente compatível com o tipo de enfoque dado pelos
autores de sua tradição teórica e tornaria clara a discussão sobre essa questão. Ou seja, sob essa ótica, a dinâmica do crescimento
econômico orientada pelo avanço tecnológico constitui um processo
evolucionário, como, aliás, já havia sido salientado em seu trabalho
com Winter (Nelson; Winter, 1982). Portanto, a principal tarefa da
teoria do crescimento econômico seria construir instituições de
maneira coerente com a teoria neoschumpeteriana ou evolucionária.
Mais ainda, e de forma tal, que as vinculassem analiticamente com
o avanço tecnológico.
A pergunta que poderíamos fazer é se tal tarefa não reduziria
demais o espectro institucionalista herdado da tradição de Veblen,
em que hábitos, normas e padrões de comportamento são
fundamentais. Nelson não estaria reduzindo essa ampla e complexa
dimensão unicamente ao aspecto tecnológico? Julgamos que sim,
daí a necessidade em buscar um outro tratamento analítico, sem
desconsiderar o seu aporte. E, a nosso ver, a incorporação da
ontologia vebleniana conteria os elementos sugeridos por Nelson, sem deixar de avançar analítica e conceitualmente. Essa discussão
será retomada na parte final desse capítulo.
Como crescimento econômico, para Nelson, envolve a
coevolução de tecnologias físicas e sociais, então as instituições são decisivas para sua efetiva operação e avanço. Algumas
instituições geram condições sobre as quais os avanços
tecnológicos possam ocorrer e outras sustentam o desenvolvimento
de novas tecnologias fundamentais para a direção do crescimento. Caberia também argumentar já que crescimento e avanço
tecnológico ocorrem sob radical incerteza, que, às vezes, as
instituições podem atrapalhar o avanço, se não houver coordenação
e estratégias adequadas em relação à orientação do paradigma
tecnológico.
No que tange ao processo de mudança institucional, o principal
argumento de Nelson é que o mesmo influi decisivamente na
atividade econômica, porém se desenvolve de maneira muito mais difícil de dirigir e de controlar do que a mudança tecnológica.
Saliente-se que esse argumento é também compartilhado pelas
várias escolas institucionalistas, desde a NEI até os adeptos do
antigo institucionalismo norte-americano de Veblen, Commons e
Mitchell. Isso é também o que explica porque as instituições
prevalecentes são arrastadas mais lentamente em relação aos
aumentos da produtividade econômica e aos avanços do progresso
técnico. Mais ainda, as reformas podem se dar em direções inesperadas, tortas e sinuosas, e, até mesmo, como dizia Veblen,
em sentidos opostos à almejada “eficiência” econômica.
Como exemplo concreto de evolução das instituições, Nelson cita
a sustentação das biotecnologias nos Estados Unidos para
demonstrar quão difícil é avaliar se as instituições vigentes são
adequadas, se funcionam bem, se precisam de reformas e de que
tipo.
7. Como desempacotar o conceito de
instituições?
A questão sobre qual o significado do termo “instituição” deve ser
respondida de maneira consistente com o caminho pelo qual o
termo será utilizado. Tal noção não pode ser empregada fora do seu
respectivo contexto.
É comum, entre os economistas, defini-la como “as regras básicas
do jogo”, no sentido de um amplo regime legal e nas formas de fazer
cumprir as regras (enforcement, segundo North, 1990) e de
assegurar normas que restrinjam o comportamento. Esse padrão conceitual está vinculado à NEI, que também associa instituições
com “estruturas de governança”, as quais moldam os vários matizes
da atividade econômica, tais como as “instituições financeiras das
nações” ou as formas como as firmas se organizam. Essa vertente,
que Nelson considera uma variante conceitual em relação à primeira
definição, tem em Williamson (1985) seu principal expoente.
Reitere-se que tais noções aparentemente díspares são oriundas da
NEI, que tem em ambos os autores importantes referências. Não os consideramos antagônicos, nem desvinculados. Embora North
reitere sua crítica ao neoclassicismo, não os consideramos anti
mainstream, como o fazem as abordagens que se seguem. Além
disso, o distanciamento de qualquer referência à Veblen aproxima
ambos os autores.
Em uma linha de pensamento mais próxima de Veblen (e,
portanto, mais distante da NEI), há um outro grupo de economistas
que associa instituições aos costumes, padrões de comportamento standard ou esperados, que atuam em diferentes contextos. Como
exemplo, poderia se empregar a aceitação do dinheiro na troca por
bens e serviços, ou outros aspectos comportamentais. Veblen, em
tais casos, é a referência central desses autores, que vinculam
também as instituições ao contexto evolucionário. Para Nelson, com
o que concordamos, a principal referência analítica dessa corrente,
na atualidade, é Hodgson (1988, 2006). É importante salientar que,
para essa linha analítica – que poderíamos designar de “institucionalismo evolucionário” ou “neoinstitucionalistas” ou, como
vários deles preferem, “herdeiros do original institutional
economics 9 ” – o que importa é a forma como as coisas são feitas, e não o conjunto de regras ou a estrutura de governança que as
orientam, ou que restringem o comportamento humano. Embora
conectadas, tais abordagens institucionalistas (leia-se a NEI X
Hodgson) são bastante diferentes. Mais ainda, esta última linha vem
se notabilizando por vincular Veblen a Darwin. Esse ponto será
melhor explorado na sequência desse texto, inspirado, principalmente, na contribuição oriunda da obra recente de Hodgson
(2006), intitulada “Economics in the Shadow of Darwin and Marx”.
Nelson salienta que, enquanto alguns autores usam o termo
“instituição” para se referir a variáveis abstratas (como a consistência e a percepção jurídica das regras legais em uma
sociedade, a moderna pesquisa nas universidades ou o uso
generalizado da moeda nas trocas), outros o associam a entidades
concretas particulares (como a Suprema Corte dos USA, o sistema
de pesquisa na agricultura da Universidade da Califórnia ou o Bank
of England). Às vezes, a ênfase do termo está associada a questões
comportamentais e legais, outras vezes a “entidades” ou
organizações físicas. Consideramos que tal orientação deve pender para o primeiro enfoque, que retoma a tradição de Veblen, que
associa instituições ao conjunto de normas, regras, hábitos e sua
evolução. O formato “físico” decorre do caráter “abstrato” das regras
de comportamento.
Retomando Nelson, ele afirma ainda que em textos sobre
sistemas de inovação, em nível nacional, regional e setorial, o termo
“instituição” é usado para se referir a entidades concretas, tais como
o que as firmas fazem, quais são os seus padrões cooperação e competição, qual o papel das sociedades técnicas, dos centros de
pesquisa e das universidades, qual a relação indústria-universidade,
leis de patentes, programas públicos, etc.
8. O conceito de Instituição e de
Tecnologia Social
Nesse sentido, Nelson e Sampat (2001) propõem definir
“instituição” como a ampla gama de estudos que enfocam o caráter
e os fatores que sustentam forma de fazer as coisas em contextos
em que as ações e interações entre diferentes agentes determinam o que é obtido. É por isso que o conceito de “tecnologia social”
parece mais adequado, porque envolve tanto uma ampla
conceituação de atividade econômica, desde sua forma mais
padrão, entendida como a forma de se produzir algo, ou, mais genericamente, na produção de algo útil, quanto uma ampla visão
que o termo incorpora e sugere. Para Nelson e Sampat, uma
atividade ou um conjunto delas – como produzir um rádio, plantar
arroz, realizar uma cirurgia, fazer um bolo, começar um novo negócio – envolve um conjunto de ações ou procedimentos que
precisam ser feitos, tais como os procedimentos envolvidos na
preparação de um bolo. Esses passos exigem insumos particulares
e, em alguns casos, equipamentos, infraestrutura, etc.
Normalmente, os economistas usam o termo “tecnologia” para
designar procedimentos que precisam ser feitos para se obter certos
resultados. Nesse sentido, a tecnologia pode ser entendida com
“física”; já a forma como o trabalho é dividido e coordenado constitui a tecnologia “social”. Assim, todas as atividades econômicas
envolvem tanto tecnologias físicas quanto sociais, e a produtividade
e a efetividade de uma atividade são determinadas por ambos os
aspectos. As tecnologias sociais amplamente empregadas na
economia são capacitadas ou restringidas por leis, normas,
expectativas, estruturas de governança e por mecanismos,
costumes e modos de organização e de transação. Ou seja, tais
fatores sustentam e padronizam determinadas e (específicas) tecnologias sociais e, em contrapartida, podem tornar difíceis,
inviáveis e não factíveis outras tecnologias, que são excluídas
socialmente. Daí a sugestão em se definir instituições de maneira
diferenciada, denotando estruturas e forças que moldam e
sustentam, em locais específicos, as tecnologias sociais.
Tal padrão conceitual – qual seja a concepção de tecnologia
social e instituições que a sustentam – é absolutamente compatível
com a literatura de sistemas de inovação, o que estabelece um vínculo com o pensamento neoschumpeteriano. O sistema de P&D
industrial pode ser visto como um conjunto de atividades
relacionadas tanto às tecnologias físicas, quanto às tecnologias
sociais. No primeiro caso, incluir-se-iam os procedimentos,
laboratórios, centros de pesquisa, etc. E, no segundo, a divisão do
trabalho entre cientistas e as várias estruturas de coordenação e de
direção. A partir daí, emergem a organização e as estruturas de
governança da pesquisa em laboratórios industriais, que constitui a instituição-chave para a capacitação e sustentação da tecnologia
social.
Como conclusão, Nelson propõe que as tecnologias sociais
possam ser “autoinstitucionalizadas” de várias maneiras. Em primeiro lugar, comportamentos de costumes, modos de interação e
de organização tendem a ser “autorreforçados” (self reinforcing)
porque são esperados, são familiares, de modo que qualquer ação
diferente desse padrão pode vir a exigir uma reação inibidora. Em
segundo lugar, as tecnologias sociais tendem a existir dentro de
sistemas, uma vinculada a outra, autossustentando-se mutuamente.
Em terceiro lugar, as tecnologias sociais, como as tecnologias
físicas, tendem a progredir e avançar ao longo do tempo, como experiências acumuladas, que são divididas de maneira deliberada
ou inadvertidamente.
Tal quadro estabelece um padrão de sinergias e de estabilidade
que permite à sociedade avançar, ora criando novas tecnologias
sociais, ora substituindo as velhas. Por essas razões, reitera-se que
a agenda de pesquisa atual deve assentar-se no aprofundamento
do papel das instituições e da mudança institucional sobre os rumos
do processo de crescimento econômico.
A questão que se coloca aqui é se a sugestão levada a efeito por
Nelson, de inserir as instituições dentro do conceito de “tecnologias
sociais” seria, do ponto de vista conceitual, suficiente para
contemplar a desagregação do conceito de instituição. A nosso ver,
julga-se que, apesar de concordarmos com sua incursão dentro das
abordagens institucionalistas, pouco esclarece a respeito do papel
das instituições. Em realidade, seu conceito de instituição gravita em
torno do sistema de P&D e serviria como suporte ao avanço tecnológico. E, mesmo sob uma perspectiva de análise
evolucionista, o papel das instituições abrange aspectos bem mais
complexos e amplos, do que servir de suporte ao ambiente de
inovação e mudança tecnológica. Elas, seguindo a tradição de
Veblen que o próprio Nelson destaca, moldam opiniões, crenças e
hábitos, mudando o comportamento dos indivíduos, os quais, por
sua vez, tomam decisões e criam seus hábitos em consonância com
os avanços tecnológicos. E como se viu, Nelson, sob esse aspecto, pouco argumenta. Não há, em sua avaliação, a ênfase no sentido de incorporar o papel dos indivíduos no processo de mudança
institucional e tecnológica. A despeito da relevância do conceito de
tecnologia social sobre o ambiente econômico regional e suas
características específicas, ele pouco discorre sobre a importância dos indivíduos na definição dos respectivos hábitos, normas e
padrões de conduta que lhes são específicos. Daí a importância da
contribuição de Hodgson, que é discutida na sequência.
9. Hodgson e a ontologia
evolucionária derivada de Veblen
Geoffrey Hodgson, de forma complementar a Nelson, propõe um
novo enfoque para a análise institucionalista evolucionária, que
reforça a vinculação entre instituições e evolucionismo, não apenas
a partir da forma de “desagregação” ou desempacotamento reivindicada por Nelson, mas pela proposição de uma nova
ontologia evolucionária centrada em Veblen.
Em outros termos, o caráter evolucionário do processo de
crescimento econômico decorre da natureza da relação indivíduos e
instituições, que, no plano das propriedades de emergência,
estabelece, através do conceito de reconstitutive downward
causation, hábitos (padrões de conduta, estratégias e decisões) que
estimulam o animal spirit no sentido da constituição de instituições compatíveis com a direção em que se reforça o processo de
crescimento.10
Crescimento se dá no plano mais elevado das instituições, que
estabelece, mas que também é estabelecido, pelo padrão de hábito
e conduta dos indivíduos. Esses elementos revelam parte da
ontologia a que se refere Hodgson, através do conceito de
reconstitutive downward causation. Entretanto, para se chegar ao
referido conceito, faz-se necessária uma discussão a respeito das
noções darwinianas de causalidade e intencionalidade, para se
chegar ao conceito, proposto por Veblen, de causação cumulativa,
tão referido no campo da economia institucional. O que Hodgson traz de novo é que essa discussão de natureza vebleniana tem raízes darwinianas profundas e integram o que ele designa de
ontologia evolucionária de Veblen. O conceito de reconstitutive
downward causation integra instituições e indivíduos dentro dessa
proposição.
Quadro 1. Reconstitutive downward causation
10. Intencionalidade e causalidade
darwiniana
Muito se discute no campo da Economia Institucional sobre a
importância da “montagem” de um adequado ambiente institucional
para o estabelecimento de um sólido, estável, duradouro e
relativamente permanente estágio de crescimento econômico e
consequente estabilidade macroeconômica. É comum estabelecer-
se uma relação de causalidade entre uma e outra. Normalmente
sugere-se que a última se constitui, por definição, na condição
necessária e suficiente para que o primeiro processo triunfe. Vários autores contemplam, sem questionamentos, essa assertiva,
principalmente no campo da teoria convencional dos modelos
standard (Nelson, 2002). O mesmo preceito pode ser aplicado para
alguns autores mais próximos da NEI, que aceitam e sugerem que há alguma causalidade ou relação de determinação entre
crescimento e estabilidade macroeconômica. Infere-se daí que, para
os mesmos, o processo de crescimento econômico é de alguma
forma fruto da “intencionalidade” humana, no sentido de trilhar ou
perseguir “bons” fundamentos macroeconômicos. Em outros termos,
e correndo-se o risco de simplificar demasiadamente a análise, não
seria surpreendente se deduzir que bastaria seguir, normativamente,
o “ideal” estabelecido no plano teórico de uma “adequada” teoria econômica para garantir-se o crescimento autossustentado e
duradouro. Tal perspectiva é bastante previsível e roteirista. Não se
discorda que tal prognóstico possa vir a se concretizar, mas sua
determinação está longe de ser previsível e materializável.
Essa, a propósito, é também uma questão central suscitada por
Keynes em sua Teoria Geral, visto que a incerteza em um campo
complexo como a economia é intraduzível em termos
probabilísticos, face ao caráter ergódico da realidade econômica e social. A mesma questão da indeterminação, face à vigência da
incerteza, é enfatizada pelos seguidores da antiga tradição
institucionalista. Assim, poder-se-ia formular a questão a respeito da
intencionalidade ou não do processo de crescimento econômico; a
intencionalidade dos indivíduos (ou governantes) em direção a tal
desígnio não garante sua manifestação ou ocorrência, visto que
inúmeros outros fatores concorreriam para sua emergência. Assim,
a nosso ver, a questão de intencionalidade deveria estar inserida dentro da ontologia vebleniana, derivada da causalidade e dos
princípios darwinianos de seleção, variação e herança.
É nesse sentido que as agendas de pesquisa em economia
institucional e economia evolucionária vêm se aproximando, tanto
metodológica, quanto ontologicamente, se é que foram tão distantes
assim no passado. O que as unifica são os princípios darwinianos
de seleção, herança e variação, que estão presentes na tradição do
antigo institucionalismo de Thorstein Veblen. Assim, o darwinismo vem sendo incorporado às ciências sociais, em geral, e à economia, em particular, a partir de uma releitura da contribuição
institucionalista vebleniana, que só agora passa a ser
compreendida. A linha de argumentação darwiniana aplicada à
“evolução socioeconômica”, ao não aceitar reducionismo biológico (princípio segundo o qual o todo é compreendido a partir da
descrição das partes que o integram), vem buscando incorporar
pressupostos relativos à causalidade e às explicações causais. E
isso, ao contrário do senso comum, não implica subestimar, nem
ignorar a noção de “intencionalidade humana”: causalidade não
implica ausência de intenção. Mas significa que tais pressupostos
exigem que a mesma também esteja sujeita à explicação causal.
O termo “economia evolucionária” descreve uma variedade de
visões e abordagens que incorporam, em algumas delas, ideias ou
analogias oriundas da biologia. Ocorre que, mesmo entre os que
incorporam aspectos da biologia, como é o caso de Nelson e Winter
(1982), há relutância em utilizar ou fazer referência a Darwin. A
resistência a Darwin nas ciências sociais se dá principalmente
porque alguns críticos o opõem à noção de intencionalidade
humana, o que caracterizaria uma visão “determinista” e
“mecanicista”. Porém, o que caracteriza o darwinismo é o emprego dos mecanismos de variação, seleção e herança, que estão
bastante disseminados entre os economistas evolucionários, e que
constituem um amplo potencial de aplicação no campo social e
econômico, bem como nos fenômenos biológicos. Portanto, sob
certas condições, uma ampla e geral versão do darwinismo pode ser
aplicada a sistemas complexos, abertos e em evolução, como tem
enfatizado autores como Veblen (1919), Campbell (1965), Dawkins
(1983) e Hodgson (2002; 2004), conforme é citado por Hodgson (2004a).
O referido autor tem se preocupado em explorar algumas das
implicações do darwinismo sobre as ciências sociais. Essas se
concentram estritamente em questões de natureza ontológica,
particularmente relacionadas à causalidade. Causalidade, desde
Aristóteles, é identificada segundo quatro tipos: a formal, a material,
a eficiente e a final. Antigamente, tal noção assumia uma noção
mais ampla do que a dada atualmente, pois incluia aspectos relacionados à natureza, forma e constituição material de um fenômeno, em termos de causas “formais” e “materiais”. Atualmente
é adotado um sentido mais restrito da palavra, significando que
fatores específicos levam a um efeito. Conforme Jochen Runde
(1998, p. 154, apud Hodgson, 2004, p. 177): “a cause of an event [includes] anything that contributes, or makes a difference, to the
realisation of that event in one or more of its aspects.” Nesse
sentido, do ponto de vista mais restrito, Aristóteles distingue
causalidade “eficiente” de causalidade “final”, sendo que a primeira
não necessariamente significa “ótima” ou qualquer outro tipo de
resultado, mas simplesmente capacidade de ter um efeito; e a
última, também conhecida como sufficient reason, tem um caráter
teleológico, no sentido de que é dirigida por uma intenção, propósito ou objetivo.
Portanto, para o darwinismo é central que a intencionalidade deva
ser capaz de dar explicações em termos de movimentos e
transferências. Ou seja, segundo Hodgson:
Intentions are real and intentions are causes but intentions do not require an
entirely different notion of causality. The causes of intentions and their causal
effects have to be explained, in terms that include the important role of mental
prefiguration and judgement. But these mental aspects also involve
movements of matter and transfers of energy or momentum, within the brain.
They are special causal mechanisms but not an entirely different (teleological)
category of cause. (Hodgson, 2004a, p. 178).
Assim, Darwin não somente proclamou que as espécies evoluíam,
mas também apontou para os mecanismos causais da evolução: a
ciência envolvia um compromisso com explicações causais. O
trabalho de Darwin, ao longo de toda sua vida, foi marcado pela
ambição de estender o campo de “explicação causal” para todas as
áreas que eram dominadas por tabus de doutrinas religiosas.
Mesmo antes de formular sua teoria de seleção natural, considerava
que a origem das espécies humanas e sua capacidade única de reflexão e deliberação racional poderiam, a princípio, ser explicadas
pela ciência. Ele rejeitou explicações de fenômenos naturais em
termos de projetos, para centrar-se no detalhamento de causas
físicas ou “eficientes”, que haviam se acumulado na emergência de
fenômenos elaborados durante longos períodos de tempo. Também
não acreditava que as variações emergissem espontaneamente, no sentido de surgirem ou aparecerem sem uma causa. Darwin
acreditava que tais “variações acidentais” deveriam ser “produzidas
por causas desconhecidas” ao invés de incorporar a noção de
eventos espontâneos ou sem causa. Ou seja, não acreditava que as variações surgissem sem qualquer causa apriori. Para ele, só
devido a nossa ignorância é que elas apareceriam como
“espontâneas”. Assim, mesmo quando mecanismos causais fossem
ilusórios ou desconhecidos, seria tarefa do cientista tentar
desvendá-los.
Darwin sustentou que resultados complexos poderiam ser
explicados em termos de uma detalhada sucessão e acumulação,
passo a passo, de mecanismos causais, daí a suprema importância da “ação cumulativa da seleção” (Darwin, 1859 p.43 apud Hodgson,
2004a, p. 180). Essa sequência de causalidade, aliás, esteve
sempre presente na análise vebleniana.
Darwin não apenas argumentou que a seleção natural operava
lentamente, mas também sustentou, principalmente, que cada
passo era suscetível a explicações causais. Com isso, sua doutrina
sustentava, em particular, os mais sofisticados e complexos
resultados da evolução, tais como a visão e a consciência humana. Tais fenômenos para Darwin eram suscetíveis de explicações
causais, tal que não haveria nem um súbito, nem um milagroso salto
na evolução da intencionalidade humana. Nesse sentido, o
darwinismo não excluiu a noção de intencionalidade. Segundo
Hodgson (2004a),
Darwinism brought not only human evolution, but also the human mind and
consciousness within the realms of science. Science proceeds by extending
the domain of causal explanation. Much of human physiology could be
explained by natural selection; Darwinism thus brought the frontier of scientific
enquiry to the inner workings of the human mind. (Hodgson, 2004a, p. 182).
Outra objeção a ser removida a respeito das ideias darwinianas
em relação às ciências sociais é que evolução é cega, ignorando a
intenção consciente e os planos dos indivíduos. As intenções
humanas são parte da realidade social e as interações sociais
envolvem expectativas das pessoas ou indivíduos em relação às
intenções dos outros indivíduos.
Sob a perspectiva darwiniana, todos os resultados têm de ser
explicados de forma vinculada a um processo causal: não há nada
teleológico ou orientado por natureza. Tudo deve se submeter às
explicações causais em termos científicos. Isso constitui parte da visão teórica e ontológica de Darwin. Portanto, segundo Hodgson:
Darwinism invokes both a theory of natural selection and a universal
commitment to causal explanations. This brings us right back to the
aforementioned central lacuna in social theory – the widespread failure to
provide an adequate causal explanation of human intentionality and human
motives. (Hodgson, 2004a, p. 183).
11. A ênfase darwiniana de Veblen na
causação
Veblen compreendeu e endossou os princípios de causalidade
que foram fundamentais ao darwinismo. Para Veblen, a rejeição
darwiniana da teleologia se tornou a base necessária de um
científico e “pós-darwiniano” approach para a economia e para a
ciência social. Há uma abundante evidência de que Veblen
compreendeu o darwinismo, em sua maior parte, como sendo, fundamentalmente, um compromisso no detalhamento e análise
sequencial causal. Em Hodgson (2004) há uma série de citações
extraídas dos escritos de Veblen que confirmam isto. Embora
Darwin não utilizasse o termo “causação cumulativa”, ele é
importante para sublinhar a forma pela qual Veblen o via como
vinculado ao darwinismo. Por exemplo, em 1907, Veblen escreveu
que:
[...] in the Darwinian scheme of thought, the continuity sought in and imputed
to the facts is a continuity of cause and effect. It is a scheme of blindly
cumulative causation, in which there is no trend, no final term, no
consummation. The sequence is controlled by nothing but the vis a tergo of
brute causation, and is essentially mechanical. (Veblen, 1907, p. 304 apud
Hodgson, 2004, p. 346).
Enquanto Veblen cunhava o termo causação “cumulativa”,
utilizava-o primeiramente para se referir às sequências cumulativas de causa e efeito. Assim como ocorre para outros autores, o termo
“causação circular” leva a diferentes significados, que, em
linguagem moderna, poderia associar-se a processos não lineares
de retornos positivos. Por exemplo, em seu clássico artigo sobre “retornos crescentes”, Allyn Young (1928, p. 533 apud op. cit)
escreveu que changes becomes progressive and propagates itself in
a cumulative way. Nicholas Kaldor, um de seus estudiosos, tornou
extensivo o uso da noção de feedback positivo da “causação
cumulativa” de Young (Kaldor, 1985 apud op. cit). Gunnar Myrdal de
maneira independente também levou a ideia de causação
cumulativa para os mecanismos de feedback positivos para a
economia monetária do colega sueco economista Knut Wicksell.
Veblen empregou a ideia de uma cadeia histórica sem quebra de
causa e efeito para minar os pressupostos do mainstream
econômico. O uso feito por ele sobre as injunções metodológicas
darwinianas levaram-no a uma poderosa crítica. Isso porque para
Veblen, definitivamente, o agente humano era um assunto de um
processo evolucionário, e jamais poderia ser tido como fixo ou dado.
Portanto, uma avaliação causal da interação entre indivíduo e
estrutura social tinha que ser providenciada. E esse “acerto de contas” causal não deveria parar no indivíduo, mas deveria também
tentar explicar a origem dos objetivos e preferências psicológicas.
Para Veblen, o problema com o mainstream econômico era que o
mesmo não forneceu uma explicação causal e evolucionária nem do
“homem econômico racional”, nem de sua dada função de
preferência. Como a racionalidade e as preferências apareceram na
evolução humana? Que causas e processos eles trouxeram? Como
e quando elas se formaram no desenvolvimento de cada indivíduo humano? Para Veblen, a fuga desses princípios evolucionários seria
algo impossível de ser aceita analiticamente. Assim, o darwinismo
significou não somente a crítica da intervenção Divina, mas também
a rejeição das funções de preferência concebidas imanentemente.
Como resultado, a hipótese universal da economia neoclássica de
uma passiva e substancialmente inerte e imutavelmente dada
natureza humana (Veblen, 1898b, p. 389, apud Hodgson, 2004, p.
247) tinha que ser criticada.
A posição de Veblen, de forma retrospectiva, é, para Hodgson
(2006, p. 6) estritamente moderna no contexto dos
desenvolvimentos recentes na filosofia, psicologia, sociologia,
antropologia e economia. A posição de Veblen é muito mais viável hoje, enquanto melhoramentos e avanços adequados são
realizados, incluindo a substituição da filosofia kantiana de Veblen
por uma forma mais adequada de realismo. 11
A maior parte das proposições que compõem os “fundamentos
filosóficos do institucionalismo vebleniano” são ontológicas e
referentes à natureza do ser social, envolvendo causalidade,
evolução, pensamento populacional darwiniano e muito mais.
Assim, o institucionalismo vebleniano, tanto na sua forma original,
quanto na ressuscitada, pode reivindicar uma ontologia particular.
Ela contrasta com muitos outros approaches encontrados nos
heterodoxos e no mainstream. Por exemplo, a visão de Veblen em relação à fundação instintiva da inteligência contrasta com as visões
predominantes dos cientistas sociais heterodoxos e ortodoxos, que
veem o instinto e a inteligência como sendo opostos. Além disso, a
insistência de Veblen no sentido de que as hipóteses relativas às
capacidades humanas radicais tenham que ser consistentes com as
explicações evolucionárias, em termos darwinianos, também está
ausente na maior parte do pensamento mainstream e heterodoxo.
Embora Veblen não tenha desenvolvido e solucionado uma adequada ontologia social propriamente dita, sua instância geral
darwiniana e evolucionária aponta para uma ontologia
potencialmente fértil assentada em futuros trabalhos teóricos. Em
parte, a abordagem vebleniana ressuscitada enfoca-se na natureza
algorítmica e incremental da tomada de decisão. Sua orientação se
dá em direção aos processos antes do que ao equilíbrio. Tanto a
realidade social, quanto as capacidades individuais são concebidas
em termos dos vários sistemas de regras processuais. Seguindo Veblen, tais sistemas de regras são substituídos dentro de
estruturas darwinianas generalizadas, em que os princípios de
variação, retenção e seleção são usados para ajudar a explicar sua
evolução.
É nesse sentido que Hodgson (2006) propõe a noção de
reconstitutive downward causation como elemento fundamental à
definição dos hábitos, que constituirão o arcabouço institucional12. A
proximidade teórica com North (Hodgson, 2007, p. 330) – que
também reconhece a importância dos modelos mentais que levam à
estrutura econômica e, finalmente, às instituições – sugere uma
convergência entre o novo e o antigo institucionalismo, que reabilita
o conceito de preferências endógenas e a importância da
racionalidade individual, formada cultural e institucionalmente. Esses pontos reforçam a existência de uma ontologia evolucionária
vebleniana.
Daí a proposição de Hodgson de que esses e outros elementos
coincidem com uma mudança de gestalt nas ciências sociais, fora
das concepções de mudança incremental e de equilíbrio (onde
qualquer coisa potencialmente colide com outra), para uma noção
de interconectividade dentro dos sistemas sociais, composta
essencialmente de estruturas e processos algorítmicos de regras (Hodgson, 2006, p. 8). Por conta dessa nova gestalt, e, mais
particularmente, devido aos recentes desenvolvimentos do novo
institucionalismo, bem como do velho, o que emergirá como
“economia institucional”, nas próximas décadas, pode tornar-se
muito diferente do que predominou nos anos 80 e 90, delineando
uma genealogia com o velho, bem como com o novo
institucionalismo.
12. Conclusão
As ponderações acima enfatizam questões que, a nosso ver,
nunca deveriam ter sido formalmente omitidas dentro do moderno
pensamento econômico. Dentre essas se destacam as que
contemplam: (a) crescimento econômico como um processo, que,
enquanto tal, pressupõe rupturas e reconstruções; (b) as
características da transição de um velho para um novo processo de
crescimento como elementos decisivos para a análise; (c) a
importância das mudanças estruturais de natureza tanto tecnológica, quanto institucional; e (d) a visão do referido processo
como revestido, de país para país, e de região para região, de
características bastante distintas e, às vezes, sequer comparáveis.
E é exatamente desses aspectos que se ocupa a tradição
institucionalista: a história importa, as formas de crescimento
capitalistas são diferenciadas e múltiplas, o processo de
crescimento é contínuo e tem raízes históricas profundas (North, 2005; Hodgson, 2002).
O que a discussão levada a efeito nesse texto permite concluir é
que tanto a agenda de pesquisa de Nelson, quanto a de Hodgson,
têm permitido avançar no campo da economia institucional e
evolucionária rumo a uma depuração do termo instituição de modo a
reinterpretar o processo de crescimento econômico. Por conta disso,
vem emergindo um novo corpo analítico que revitaliza, em moldes
contemporâneos, o ideário institucionalista esboçado por Veblen há pouco mais de um século.
A contribuição de Nelson reconhece a importância das várias
abordagens institucionalistas, mas reitera que seu
“desempacotamento” é decisivo para estabelecer avanços
analíticos. E esses se dariam, no sentido de tentar contemplar mais
adequadamente o espectro de mudanças tecnológicas e
institucionais que se sobrepõem, à medida que o processo de
crescimento avança. Assim propõe uma aproximação das instituições aos setores ligados à mudança tecnológica e seu
desenvolvimento, que, em última instância, definiriam o perfil dos
novos paradigmas tecnológicos.
Hodgson vem se detendo, teoricamente, em estabelecer uma
aproximação maior do conceito de instituição ao legado de Veblen,
onde o mesmo deve necessariamente estar inserido em um
ambiente analítico que contemple os indivíduos, seus hábitos,
normas e padrões de conduta. Tal tarefa não é simples, pois exige a inclusão na análise de um ambiente de complexidade que
contemple, e de forma interativa, todos esses conceitos. Por isso
propõe que se avance no sentido da compreensão da noção de
evolução, que tem em Veblen importante fonte teórica da aplicação
dos princípios darwinianos às ciências sociais. Por essa razão,
sugere que a relação entre o conceito de instituição e o processo de
mudança (e, consequentemente, de crescimento) opere em um
ambiente evolutivo. Mas, para tanto, deve-se avançar na proposição de uma ontologia vebleniana, que contemple as relações de causalidade cumulativa que expliquem tais movimentos. E o
preenchimento dessa lacuna só será possível mediante o avanço
das novas linhas de pesquisa no campo de economia evolucionária
e institucional centradas na mencionada ontologia.
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