Dinâmicas e suportes para conhecer, reconhecer e integrar saberes em Comunicação e Educação

Eliana Nagamini, Ana Luisa Zaniboni Gomes (orgs.) · Capítulo 10 de 23

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Dinâmicas e suportes para conhecer, reconhecer e integrar saberes em Comunicação e Educação

Ser professor na era digital: atitudes docentes em relação ao uso de mídia dos alunos durante as aulas

Ser professor na era digital:

 

atitudes docentes em relação ao

 

uso de mídia dos alunos durante

 

as aulas

 

Priscila Berger1

Technische Universität Ilmenau, Ilmenau, Alemanha

 

Introdução

 

Muito se fala sobre o potencial das mídias digitais em contribuir para a

educação e, em consequência, sobre a necessidade de professores desenvolverem habilidades e inovarem seus métodos pedagógicos de acordo com as tecnologias. Ao mesmo tempo, afirma-se que a adoção de tecnologia no âmbito educacional depende fundamentalmente do professor (PERROTA, 2015), o que realça a importância de analisar as atitudes dos professores quanto às mídias digitais, a fim de que as esperadas inovações em educação de fato aconteçam.

As atitudes de professores quanto às tecnologias digitais em educação

podem ser verificadas em uma variedade de contextos. Por exemplo, diversos estudos investigaram as atitudes de professores em relação à adoção de mídias digitais em práticas pedagógicas em diferentes níveis de ensino (ex. JOHNSON, 2012; PETKO, 2012; AVIDOV-UNGAR; MAGEN-NAGAR, 2014). Considerando que as mídias móveis têm se desenvolvido rapidamente e vêm ganhando crescente popularidade em meio aos usuários, os comportamentos de intenso uso de mídias e multitarefa com mídias tornaram-se prevalentes, especialmente entre jovens (FOHER, 2006), inclusive em aulas universitárias (LAURICELLA; KAY, 2010; HASTALL et al., 2012; BURAK, 2012). Assim, este estudo tem por foco o ambiente universitário, em que os estudantes frequentemente fazem uso dos seus próprios dispositivos de mídia durante as aulas.

Em relação aos efeitos do uso de dispositivos de mídia e

comportamento mídia multitarefa em salas de aula universitárias, estudos têm focado primordialmente no impacto causado no aprendizado, explorando a perspectiva do estudante (LAURICELLA; KAY, 2010; JUNCO, 2012; SANA; WESTON; CEPEDA, 2013). Sem dúvida, é altamente relevante compreender como os alunos aprendem para que ambientes educativos mais eficazes sejam desenvolvidos. No entanto, o lado do professor também é crucial neste processo, visto que o papel do professor é fundamental na organização do ambiente de aprendizagem. Por isso, é válido verificar a perspectiva do professor quanto aos impactos que o uso de mídia em aula produz.

 

Uso de mídia e seus efeitos nos

 

ambientes de aprendizagem

 

Os estudos que investigam o uso de mídia em ambientes educacionais

sob a perspectiva dos alunos revelam que comportamentos multitarefa com mídia produzem déficit de atenção (LEE; LIN; ROBERTSON, 2012; FRIED, 2008; SANA, WESTON, & CEPEDA, 2013), não apenas nos que estão usando mídia, mas também nos alunos que apenas veem as telas dos dispositivos de mídia de seus colegas (SANA, WESTON, & CEPEDA, 2013), além de déficit de memória (HEMBROOKE; GAY, 2003; LAURICELLA; KAY, 2010) e impacto negativo nas notas (JUNCO, 2012a; JUNCO, 2012b; JUNCO; COTTEN, 2012; BURAK, 2012).

A perspectiva dos docentes em relação ao uso de mídia em aula é

normalmente investigada em termos de adoção das tecnologias midiáticas para propósitos pedagógicos (ex.JOHNSON, 2012; PETKO, 2012; AVIDOV-UNGAR; MAGEN-NAGAR, 2014), no entanto, poucos estudos exploram a visão dos professores quanto ao livre uso de mídia dos estudantes em aula. Um destes poucos casos é Yamamoto (2007), que aponta aspectos negativos do uso de notebooks pelos estudantes em aula, conforme ele observou em sua própria experiência como docente. Ele afirma que a presença de notebooks nas aulas enfraquece as habilidades dos estudantes em fazer anotações, criando uma barreira física e mental entre professores e alunos na sala de aula, também prejudicando a possibilidade de o professor controlar o ritmo das aulas. Em consequência destas percepções negativas, Yamamoto adotou uma política de proibição de notebooks em suas aulas, afirmando que isto produziu um melhor engajamento dos estudantes nas atividades. Além disto, ele sugere maneiras de lidar com o uso de mídia durante as aulas, no caso de uma completa proibição não se aplicar, como, por exemplo, desabilitar o sinal Wi-Fi da sala, andar pela classe durante a aula e estabelecer regras para o uso de notebooks (somente para anotações, por exemplo).

Visões mais positivas do uso de mídia dos estudantes em aula

frequentemente sugerem que o professor deve incorporar o uso de mídia no planejamento de suas aulas. Ao comparar uma variedade de projetos que inserem dispositivos de mídias nas aulas para propósitos curriculares, Norris, Hossain e Soloway (2011) argumentam que há uma diferença entre inserir computadores em aula como uma ferramenta suplementar e usá-los como um recurso essencial. No primeiro caso, computadores estão nada mais do que presentes em uma aula que segue basicamente um currículo conservador, enquanto no segundo caso os computadores são usados ativamente, estimulando o aprendizado ativo e personalizado, sugerindo que a possibilidade de fazer os dispositivos de mídia operar contra ou a favor do ambiente de aprendizagem depende, em grande parte, de como os professores os incorporam em suas aulas. Em uma posição similar, Grinols e Rajesh (2014), com base em uma revisão de literatura sobre o uso de dispositivos de mídia em salas de aula, argumentam que proibir completamente o uso de mídias em aula nos dias de hoje é irrealista e, portanto, é mais adequado que se encontre maneiras de inserir o uso de mídia nas classes, afirmando que o uso de dispositivos de mídia tem o potencial de ser um link entre a classe e o “mundo real”.

Nota-se que há um déficit na pesquisa quanto à perspectiva dos

professores sobre o uso de mídia dos alunos em aula. Poucos materiais apresentam depoimentos de professores, como Yamamoto, (2007) que se baseia em sua própria observação e percepção, em vez de em resultados de procedimentos empíricos, e Avidov-Ungar e Magen-Nagar (2014), que estudam a resistência dos professores quanto à adoção de tecnologia em escolas primárias e secundárias para propósitos curriculares, sem considerar o uso livre de mídia por parte dos estudantes.

 

Avaliação de atitudes de professores

 

Conforme o modelo dos três componentes de atitudes proposto por

Rosenberg e Hovland (1960), atitudes são fundamentalmente respostas a um estímulo e são classificadas em três classes: cognitivas, afetivas e comportamentais. Considerando que o cenário em que os professores universitários desenvolvem suas atividades atualmente consiste em um ambiente onde os dispositivos de mídia são onipresentes e o comportamento multitarefa com mídias torna-se tendência entre os estudantes, neste estudo, o uso de mídia dos alunos durante as aulas é o estímulo mediante o qual as atitudes dos professores universitários são investigadas.

O fato de atitudes terem, por definição, caráter ou favorável ou

desfavorável conduz à questão da consistência. Fishbein e Ajzen (1975) afirmam que as respostas a um estímulo são consistentes quando as avaliações de um indivíduo se colocam ou no lado positivo ou no lado negativo da dimensão. Eiser (1994) explica que, normalmente, se alguém tem sentimentos e opiniões positivas em relação a um objeto, a tendência será que esta pessoa exiba também ações de aprovação em relação a este. Em outras palavras, as ações expressas tendem a ser produto das percepções implícitas. Nesta linha de argumentação, espera-se que os professores que têm percepção e sentimentos positivos em relação ao uso de mídia pelos alunos em aula também ajam favoravelmente quanto a isto.

Assim, este estudo busca explorar o que professores universitários

pensam e como eles agem em relação ao uso de mídia dos alunos durante as aulas. Baseado no modelo dos três componentes de atitudes (ROSENBERG; HOVLAND, 1960), este estudo considera os aspectos implícitos (cognitivos + afetivos) e comportamentais das atitudes de professores universitários, tendo as seguintes perguntas de pesquisa:

Pergunta 1: de acordo com as atitudes implícitas dos professores

universitários, quais implicações o uso de mídia dos estudantes em aula traz para o ambiente educacional?

Pergunta 2: quais são as atitudes comportamentais que os professores

universitários adotam frente ao uso de mídia dos estudantes durante as aulas?

Pergunta 3: como as atitudes implícitas e comportamentais dos

professores universitários podem ser explicadas?

A percepção de quão bem os alunos estão aprendendo é certamente um

fator que influencia a atitude dos professores a ser mais favorável ou desfavorável em relação ao uso de mídia dos alunos em aula, porém possivelmente há uma variedade de fatores que também exercem influência. Por isso, aspectos potenciais relacionados às características pessoais e profissionais dos professores são examinados. Primeiramente, a questão geracional pode ser um influenciador em potencial. A computadorização de sistemas em larga escala na sociedade vem se desenvolvendo rapidamente nas últimas três décadas. Portanto, os que já eram adultos quando este fenômeno começou têm provavelmente uma experiência midiática diferente dos que nasceram ou eram crianças neste período e cresceram na era computadorizada. Desta forma, espera-se que:

Hipótese 1: professores que pertencem a gerações mais jovens têm

atitudes implícitas mais favoráveis em relação ao uso de mídia dos alunos em aula.

Além disto, a familiarização com dispositivos de mídia é testada como

fator influenciador. Embora se presuma que pessoas mais jovens sejam mais familiarizadas com tecnologias midiáticas, é fundamental reconhecer que indivíduos de todas as idades podem ser habilidosos ao lidar com dispositivos de mídia. Assim, independentemente de gerações, espera-se que:

Hipótese 2: professores mais familiarizados com dispositivos de mídia,

neste estudo mensurado através da quantidade de computadores e dispositivos móveis que o professor possui, têm atitudes implícitas mais favoráveis quanto ao uso de mídia dos alunos em aula.

Considerando estudos sobre o perfil dos nativos digitais — que inclui

pouca paciência para aulas expositivas, lógica passo a passo e instrução baseada em memorização (PRENSKY, 2001) — e recomendações que pesquisadores vêm dando a professores para conduzir classes compostas por nativos digitais — por exemplo, tirar o foco do professor e colocá-lo no aluno, interagir com os alunos em vez de apenas expor conteúdos e estimular a participação dos estudantes (TAPSCOTT, 2009) —, a abordagem pedagógica adotada pelos professores é considerada como fator influenciador, supondo que:

Hipótese 3: professores que usam aula expositiva como principal

método de ensino exibem atitudes implícitas mais negativas quanto ao uso de mídia dos alunos em aula.

Por fim, espera-se que as atitudes implícitas determinem em grande

parte as atitudes comportamentais. De acordo com o princípio de consistência do modelo dos três componentes de atitude (ROSENBERG; HOVLAN, 1960), supõe-se que:

Hipótese 4: professores que que têm atitudes implícitas favoráveis têm

também atitudes comportamentais favoráveis quanto ao uso de mídia dos alunos em aula.

 

Métodos

 

Este estudo de natureza exploratória empregou métodos mistos para

investigar a perspectiva dos professores universitários quanto ao impacto que o uso de mídia pelos alunos durante as aulas causa no ambiente educacional. A fase qualitativa foi conduzida primeiro coletando fatores que os docentes consideram ser os mais impactados no ambiente de aprendizagem pelo uso de mídia dos estudantes. Os dados coletados nas entrevistas da fase qualitativa responderam às perguntas de pesquisa 1 e 2 e informaram o desenvolvimento do instrumento de coleta de dados empregado na fase quantitativa. A pesquisa da fase quantitativa permitiu mensurar o caráter das atitudes dos professores e que as correlações fossem analisadas para identificar fatores influenciadores das atitudes, respondendo à pergunta de pesquisa 3.

 

Fase qualitativa

 

Nesta primeira fase, três entrevistas semiestruturadas foram conduzidas

com uma amostra proposital composta por três docentes universitárias, todas do sexo feminino, duas do Brasil e uma da Alemanha. Duas atuavam na área de Ciências Sociais e uma no campo das Ciências Naturais. Duas possuíam, na época, cinco anos de experiência em docência e uma, mais de 30 anos de experiência.

Com vistas a verificar a primeira pergunta de pesquisa proposta — “De

acordo com as atitudes implícitas dos professores universitários, quais implicações o uso de mídia dos estudantes em aula traz para o ambiente educacional?” — e a segunda questão — “Quais são as atitudes comportamentais que os professores universitários adotam frente ao uso de mídia dos estudantes durante as aulas?” —, foram extraídas das entrevistas uma série de implicações positivas e negativas que, de acordo com a perspectiva dos docentes, são produzidas pelo uso de mídia dos alunos em aula. Também foram extraídas uma variedade de ações que os professores consideram passíveis de adoção para administrar o uso de

mídia dos estudantes em classe. A Tabela 1 dispõe as implicações positivas e negativas que correspondem às atitudes implícitas e as ações que representam as atitudes comportamentais, junto ao respectivo item do questionário usado para medir cada variável na fase quantitativa.

TABELA 1. Implicações positivas e negativas causadas pelo uso de

mídia dos alunos em aula de acordo com as atitudes implícitas dos

professores e atitudes comportamentais extraídas das entrevistas,

juntamente com o respectivo item do questionário.

Implicações Item do questionário

positivas O uso de mídia dos alunos em aula…

 

Relevância para …é relevante para preparar os estudantes a futura carreira para a carreira no campo em que eu dos alunos leciono.

 

Melhora da … contribui para que os alunos participem participação dos mais ativamente em aula ao trazer novas alunos em informações. classe

 

Ferramenta para …colabora com meu trabalho como a docência professor oferecendo recursos e

ferramentas para a atividade docente.

 

Facilitação da …ajuda-me a mostrar como os conteúdos contextualização trabalhados em aula são aplicados na dos conteúdos realidade.

 

Maior … é um bom recurso para os alunos independência buscarem mais informações em aula, sem aos alunos ter que depender de mim para responder

todas as dúvidas.

 

Contribuição …proporciona mais oportunidades para para a interação professores e estudantes interagirem, entre professor estabelecerem diálogo e trocarem ideias. e alunos

 

Otimização da …torna minhas aulas mais eficientes em eficiência das geral.

aulas

 

Recurso para o …contribui para que os alunos aprendam aprendizado dos em aula. alunos

 

Implicações Item do questionário

negativas O uso de mídia dos alunos em aula…

Motivo de

…afeta negativamente a capacidade dos

 

alunos alunos de concentrar-se e seguir as distração para

atividades desenvolvidas em aula.

 

Falta de sintonia …faz eu sentir que os alunos e eu não entre estamos em sintonia em termos dos professores e objetivos e propósitos da aula. alunos

 

Motivo de …atrapalha minha habilidade de focar nas

distração para atividades planejadas e objetivos da aula.

professores

 

Motivo de …irrita-me. irritação para

professores

 

Professores …faz com que eu me sinta mal. sentem-se mal

 

Prejuízo da …prejudica a capacidade dos alunos de

capacidade dos processar a informação trabalhada em alunos de classe.

processar

informação

 

Professores …faz eu sentir que meu papel e funções

sentem-se como professor não são tão relevantes

irrelevantes para o aprendizado e desenvolvimento

dos alunos.

 

Professores …faz eu sentir-me ameaçado(a) pelo sentem-se empoderamento que os alunos ganham

ameaçados para verificar, confirmar e confrontar as

informações que eu passo em aula.

 

Ações Item do questionário

Com que frequência você adota as

seguintes ações?

 

Adaptar método Eu adapto meu método de ensinar para de ensino fazer minhas aulas mais interessantes e

assim ganhar a atenção dos alunos.

 

Pedir que Eu peço para os alunos usarem os seus

alunos usem dispositivos em algumas atividades da seus aula.

dispositivos

 

Chamar a Eu chamo a atenção dos alunos atenção dos verbalmente quando percebo que estão alunos usando mídia para propósitos não

relacionados à aula.

 

Incorporar Eu incorporo o uso de mídia dos alunos dispositivos na nas atividades das minhas aulas. aula

 

Monitorar o uso Eu caminho pela classe e verifico o que de mídia dos os alunos estão fazendo nos seus alunos dispositivos.

 

Pedir que Eu peço para os alunos desligarem seus alunos dispositivos em alguns momentos da aula. desliguem

dispositivos

 

Impor regras Eu estabeleço regras para o uso de mídia para uso de nas minhas aulas. mídia

 

Proibir uso de Eu proíbo o uso de dispositivos de mídia mídia nas minhas aulas.

Os itens do questionário para implicações positivas e negativas

possuem escala de Concordo plenamente, Concordo, Não concordo nem discordo, Discordo, Discordo plenamente e Não sei. Para ações, a escala

é Sempre, Frequentemente, Às vezes, Raramente e Nunca.

 

Fase quantitativa

 

A fase quantitativa deste estudo coletou dados através de um

questionário distribuído via internet, em língua inglesa, no período entre 29 de agosto e 13 de setembro de 2014. Os respondentes foram recrutados através de uma amostragem por conveniência, além disto, lhes foi pedido que repassassem o link do questionário para seus contatos, caracterizando também uma amostra bola de neve.

No total, 146 professores universitários responderam o questionário;

destes, 70% homens e 30% mulheres, com idade média de 46 anos (DP:11.12), a maioria alocada em instituições na Alemanha (53%) e no Brasil (28%), pertencendo principalmente às Ciências Sociais (27%) e às Tecnológicas (23%).

 

Resultados

 

Para responder à terceira pergunta de pesquisa — “Como as atitudes

implícitas e comportamentais dos professores universitários podem ser explicadas?” —, primeiramente uma análise fatorial foi realizada.

A Tabela 2 mostra os quatro componentes extraídos das 16 variáveis

que mensuraram as atitudes implícitas dos professores, os quais originaram novas variáveis: “percepção de impactos positivos tanto para alunos quanto para professores” (M = 3.14, DP = .97), “percepção de impactos negativos para o professor” (M = 2.70, DP = .89), “percepção de impactos negativos para o aluno” (M = 3.37, DP =.96) e “insegurança docente” (M = 2.25, DP = .87). E dois componentes extraídos das oito variáveis que mensuraram atitudes comportamentais: “ações favoráveis” (M = 2.92, DP = .94) e “ações desfavoráveis” (M = 2.23, DP = .88). A escala das quatro variáveis de atitudes implícitas é de 1 a 5, em que 1 corresponde ao menor nível de acordo e 5 ao maior nível. Para atitudes comportamentais, 1 corresponde à menor frequência e 5 à maior frequência.

TABELA 2: Resultados da análise fatorial para atitudes.

 

Itens de atitudes Carregamento dos fatores implícitas

Fator 1 Fator 2 Fator 3 Fator 4

Positivo p/alunos

e professores

Interação .86

professor-aluno

Contexto dos .84

conteúdos

Ajuda o professor .82

a ensinar

Ajuda o aluno a .81

aprender

Participação dos .81

alunos

Relevância para .74

carreira

Independência .70

dos alunos

Eficiência das .63

aulas

Negativo para

professores

Distração para o .86

professor

Irritação .78

Sentimento de .77

desconforto

Falta de sintonia .66

com alunos

Negativo para

alunos

Processamento de .75 informações

ç

Distração para os .65 alunos

Insegurança

docente

Sentimento de .79 irrelevância

Sentimento de .76 ameaça

Itens das dos Carregamento atitudes fatores

comportamentais

Fator 1 Fator 2

Ações favoráveis

Incorporar .92 dispositivos

Pedir aos alunos .89 que usem

Adaptar método .67

Ações

desfavoráveis

Proibir .81

Pedir para .80 desligar

Chamar a atenção .77

Estabelecer .70 regras

Monitorar .60

Autovalor 7.49 2.15 1.18 .89 3.32 1.76 (Eingenvalue)

Cronbach’s Alpha .92 .85 .79 .55 .80 .80

M(DP) 3.14(.97) 2.70(.89) 3.37(.96) 2.25(.87) 2.92(.94) 2.23(.88)

Atitudes implícitas: Análise de componentes principais com rotação

Varimax, número de fatores limitado a 4, apenas valores > .40, KMO = .86. Atitudes comportamentais: Análise de componentes principais com rotação

Varimax, apenas valores > .40, KMO = .76.

 

Para testar as hipóteses de que certas características docentes

influenciam suas atitudes implícitas em relação ao uso de mídia dos alunos em aula, análises de coeficiente de correlação de Pearson e de regressão

foram conduzidas (Tabela 3). A primeira hipótese sugere que professores que pertencem a gerações mais jovens têm atitudes implícitas mais favoráveis em relação ao uso de mídia dos alunos em aula. As correlações entre as variáveis que representam atitudes implícitas e a variável idade resultaram em não significativas. Assim, idade não é um fator influenciador das atitudes implícitas dos docentes desta amostra quanto ao uso de mídia dos alunos, não confirmando a hipótese.

 

TABELA 3: Testes de fatores influenciadores de atitudes implícitas.

Positivo Negativo Negativo Insegurança professor para para docente e alunos alunos professores

r r r r

Idade do -.13 n.s. -.02 n.s. .11 n.s. -.14 n.s. professor

Quantidade .20* -.14 n.s. -.16 n.s. .00 n.s. de

dispositivos

de mídia

que o

professor

possui

Uso de aula-.26** .21* .12 n.s. .14 n.s. expositiva

como

principal

método de

ensino

** = p < .01, * = p < .05.

 

Em segundo lugar, foi suposto que professores que possuem mais

dispositivos de mídia têm atitudes implícitas mais favoráveis quanto ao uso de mídia dos alunos em aula. Uma pequena correlação positiva foi encontrada entre quantidade de dispositivos que o professor possui e a percepção que o uso de mídia em aula pelos alunos traz impactos positivos tanto para professores quanto alunos (r = .20, p < .05). Desta forma, o resultado da correlação, ainda que fraco, indica uma tendência na direção da hipótese de que os docentes da amostra que possuem mais dispositivos de mídia e, portanto, que são mais familiarizados com tecnologias midiáticas têm opiniões e sentimentos mais favoráveis quanto ao uso de mídia dos alunos em aula.

A terceira hipótese declara que professores que usam aula expositiva

como principal método de ensino exibem atitudes implícitas mais negativas quanto ao uso de mídia dos alunos em aula. Uma correlação positiva foi encontrada entre uso de aula expositiva como principal método de ensino com a percepção de que o uso de mídia dos alunos em aula traz impactos negativos aos estudantes (r = .21, p < .05), enquanto uma correlação negativa foi encontrada com a variável de percepção de que o uso de mídia dos alunos traz impactos positivos para docentes e discentes (r =-.26, p < .01). Assim, os resultados vão ao encontro da terceira hipótese.

Uma equação de regressão significativa foi encontrada na quantidade de

dispositivos de mídia que o professor possui como influenciador de percepção de implicações positivas tanto para alunos quanto para professores (beta = .19, t(122) = 2.21, p < .05.), e no uso de aulas expositivas como influenciador negativo (beta = -.24, t(122) = -2.88, p < .01), explicando uma significativa proporção da variação nas ações favoráveis ( 2 R = .10, F(2, 122) = 7.03, p < .001).

A última hipótese assume que professores que têm atitudes implícitas

favoráveis têm também atitudes comportamentais favoráveis quanto ao uso de mídia dos alunos em aula. Análises de coeficiente de correlação de Pearson e de regressão foram conduzidas para prever as atitudes comportamentais dos professores baseado em suas percepções quanto às implicações positivas e negativas que o uso de mídia dos estudantes em

aula provoca, conforme demonstrado na Tabela 4. Uma equação de regressão significativa foi encontrada na percepção de implicações positivas tanto para alunos quanto para professores como influenciador de atitudes comportamentais positivas (beta = .68, t(122) = 7.31 p < .001.), explicando uma significativa proporção da variação nas ações favoráveis

( 2 R = .40, F(3, 122) = 26.97, p < .001). Em relação às ações negativas, a percepção de que o uso de mídia dos alunos em aula impacta negativamente a atividade docente resultou em um fator influenciador significativo (r = .22, p < .01), enquanto que a percepção de implicações negativas para os alunos resultou em não significativa (r = .07, n.s.).

TABELA 4: Testes de fatores influenciadores de atitudes

comportamentais.

Ações Ações

favoráveis desfavoráveis

R2 2 = R = .05

.40

n = 125 n = 126

r beta r beta

Positivo professor e .63*** .69*** .13 n.s. alunos

 

Negativo para alunos -.35*** .07 n.s. .07 n.s.

 

Negativo para -.30*** .01 n.s. .22** .22** professores

 

Ameaça à relevância -.08 .12n.s docente n.s.

***= p < .001, **= p < .01.

 

Discussão

 

Os resultados deste estudo demonstram que a orientação dos

professores universitários em relação ao uso de mídia dos estudantes em aula é diversificada. Suas percepções e sentimentos em relação a este fenômeno possuem elementos positivos e negativos, já que geralmente são reconhecidas implicações tanto positivas quanto negativas provocadas pelo uso de mídia dos alunos. A forma como os professores lidam com o uso de mídia dos alunos também é variada, diversas ações são utilizadas, desde o estímulo do uso de dispositivos em linha com as atividades da classe até a proibição do uso de mídia durante a aula.

Na tentativa de testar fatores que podem contribuir para que as atitudes

dos professores sejam favoráveis ou desfavoráveis quanto ao uso de mídia dos alunos, familiarização com dispositivos de mídia e uso de aula expositiva como principal método de ensino estão associados às atitudes implícitas, enquanto que idade do professor não tem efeito. A relação entre aulas expositivas e a percepção de impactos negativos nos alunos nesta amostragem, embora fraca, revela um ponto importante a ser pensado em termos pedagógicos em relação tanto ao uso de mídias digitais em aula quanto ao perfil dos discentes nativos digitais. Em aulas expositivas, a distração dos alunos causada pelos dispositivos de mídia torna-se mais evidente, como Prensky (2001) coloca que nativos digitais têm maior resistência a aulas expositivas, este método pode ter menos sucesso em engajar os alunos, que por sua vez recorrem aos dispositivos de mídia. Futuros estudos devem investigar mais profundamente as relações entre diferentes métodos de ensino, uso de mídias digitais e engajamento dos alunos.

A relação entre quantidade de dispositivos de mídia que o professor

possui e a percepção de impactos positivos tanto para professores quanto para alunos, novamente, embora fraca, sugere que a familiarização do docente com as tecnologias digitais facilita a sua aceitação e atitude favorável em relação ao uso de mídia dos alunos. É possível que quanto maior seja o envolvimento do docente com dispositivos de mídia, ainda que em nível pessoal, mais tolerante seja sua atitude com o uso de mídia dos alunos. Neste estudo, a familiarização do docente com dispositivos de mídia foi mensurada apenas pela quantidade de dispositivos que o professor possui. Em estudos futuros, a familiarização do docente com mídias digitais deve ser mensurada de forma mais completa, incluindo frequência de uso, plataformas de atuação e motivações, por exemplo.

No entanto, o modelo que toma como influenciadores a quantidade de

dispositivos de mídia que o professor possui e o uso de aulas expositivas como principal método de ensino explica apenas uma pequena parte (10%) da variação de atitudes implícitas positivas quanto ao uso de mídia dos estudantes em aula, o que confirma que entender as atitudes dos docentes em relação ao uso de mídia em aula é uma tarefa complexa e certamente envolve diversos fatores que não foram examinados neste estudo. As próprias diferenças e valores culturais podem ser influenciadores. Como, por exemplo, a maior parte dos respondentes deste estudo atuam em instituições na Alemanha e no Brasil: na Alemanha as normas sociais e as relações acadêmicas entre docentes e discentes são mais conservadoras e formais em comparação ao Brasil, onde as interações sociais tendem a ser menos hierárquicas e mais informais. Professores inseridos em culturas com interações sociais mais informais podem ser mais receptivos ao uso de mídia dos alunos em aula.

Por fim, em termos da relação entre atitudes implícitas e

comportamentais, destaca-se que, embora professores percebam o impacto negativo do uso de mídia dos alunos em aula nos próprios estudantes, apenas o impacto negativo que os docentes percebem para si mesmos é que os move a adotar ações com vistas a suprimir o uso de mídia dos alunos em aula.

Como o professor é uma figura essencial no processo de digitalização

do ambiente educacional e de atualizações pedagógicas, os resultados deste estudo chamam a atenção para pontos que devem ser discutidos, como os métodos de ensino e a aproximação dos docentes com mídias digitais. Além disto, esforços devem sem investidos em destacar as implicações positivas que o uso de mídia em sala de aula traz para o ambiente de aprendizagem e em discutir soluções e tratamentos para possíveis implicações negativas para a posição do professor.

 

Referências

 

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