Dinâmicas e suportes para conhecer, reconhecer e integrar saberes em Comunicação e Educação

Eliana Nagamini, Ana Luisa Zaniboni Gomes (orgs.) · Capítulo 13 de 23

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Dinâmicas e suportes para conhecer, reconhecer e integrar saberes em Comunicação e Educação

Interfaces da Comunicação e da Educação na escola: a experiência do CAP-UFRJ

Interfaces da Comunicação e

 

da Educação na escola: a

 

experiência do CAP-UFRJ 1

 

Beatriz Becker 2

Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ

 

Contextualizações

 

Os principais tipos de plataformas, as de interações entre indivíduos e grupos — sites de redes sociais (SNS); as de produção de conteúdos colaborativos, que promovem intercâmbios entre a produção amadora e profissional —; sites de user-generated-content (UGS); as de venda e comércio de produtos — trading and marketing sites (TMSs); bem como as que disponibilizam jogos — play and game sites (PGS) — constroem diferentes nichos de socialização e criatividade, bem como de comércio e entretenimento (VAN DIJCK, 2013). Os usos de todas essas modalidades de plataformas de mídia são negociados pelos usuários, uma vez que eles decidem como se apropriar delas no seu cotidiano. Porém, essas plataformas têm domínio sobre os protocolos dos processos de comunicação imersos em seus ambientes por se constituírem como sistemas autômatos que engendram e manipulam essas conexões. Ao mesmo tempo em que elas tornam possível a manifestação de interesses e aspirações de indivíduos e grupos diversos, coletam e monetarizam dados que monitoram o comportamento das pessoas e direcionam suas necessidades. As tecnologias digitais e seus usos não só promovem a criatividade e a inovação, uma vez que os consumidores também ficam vulneráveis à vigilância de suas escolhas em distintas plataformas, uma espécie de controle de seus comportamentos e ações na produção e consumo de mensagens e conteúdos no ambiente digital (GILLAN, 2015; SIBILA, 2012; SODRÉ, 2012; HOWELLS; NEGREIROS, 2012; ANDREJEVIC, 2009). De fato, os meios digitais servem tanto para reforço do sistema e do poder da economia neoliberal, quanto para a revitalização da democracia e dos debates virtuais. A internet e as redes sociais oferecem condições para o ativismo social em escala global; abrem espaço para o engajamento em causas sensíveis aos cidadãos; contribuem para a transformação social e interações diversas, mas também para a construção de valores que instigam conflitos em territórios físicos e simbólicos, bem como para ampliar o poder de grandes empresas de mídia (COULDRY; MANDIANOU; PINCHEVSKY, 2013; CURRAN, 2011).

Nesse cenário midiático, as indústrias culturais e de economia criativa distribuem cada vez mais conteúdos, serviços e produtos como filmes, programas de rádio e televisão, livros, músicas gravadas, revistas, videogames e aplicativos. A produção audiovisual no Brasil e no mundo exerce centralidade nesses mercados, reúne alguns dos modelos de negócios mais rentáveis e influencia nossas percepções sobre a vida social (TREMBLEY, 2011; ALBORNOZ, 2015). A visualidade eletrônica converte-se em imagem privada e pública, redimensiona as formas de visibilidade da cultura e produz modos distintos de socialização e de significação da experiência (SODRÉ, 2006; SILVERSTONE, 2005; MARTÍN-BARBERO; REY, 2001). O surgimento da internet e do computador, bem como o desenvolvimento e os usos de tecnologias de informação e comunicação, incrementam o consumo de vídeos on demand pautado pela lógica da livre circulação de conteúdos e formatos audiovisuais em conexões de alta velocidade, sob sofisticados processos de regulação de transmissão de dados. As maneiras que as pessoas se apropriam das tecnologias digitais também provocam mudanças na produção da televisão. Os modelos tradicionais de transmissão televisiva desenvolvem modos simbióticos de relação com as mídias emergentes. Pós-Industrial, Pós-Massiva; Pós-Broadcast, Pós-Nacional, Pós-Digital, Post-Broadcast TV ou Pós-TV, TV Expandida, TV Ubíqua e outras tantas formas de nomeação da televisão na contemporaneidade revelam um empenho em entender a fase seguinte às etapas da Páleo e da Neotelevisão, elaboradas e identificadas por Umberto Eco, e sugerem que o meio transborda as fronteiras nacionais imerso na convergência global entre as mídias (GRAINGE, 2011; TURNER; TAY, 2009; CARLÓN, 2014; SERRA; SÁ; SOUZA FILHO, 2015; BECKER, 2015). Hoje, as transmissões de broadcast marcadas pela regularidade e pela simultaneidade, ou seja, com programas organizados na grade de programação em horários e dias regulares que atingem grandes audiências dispersas em um mesmo momento, são apenas algumas das opções de distribuição do conteúdo da TV acessível por cabo, DVDs e downloads de vídeos on-line.

Além disso, muitas pessoas acessam conteúdos e formatos audiovisuais através de múltiplas plataformas, como Google, YouTube, Facebook, Twitter, Snapchat e Instagram. As emissoras de televisão aberta perdem espaço para serviços de vídeo por streaming, e suas audiências estão diminuindo ao longo dos anos, mas ainda são muito altas se comparadas com as demais mídias. A TV e os telejornais ainda exercem papel central no ambiente midiático na construção de nossa realidade social cotidiana e são as principais fontes de informação sobre os acontecimentos sociais e de grande repercussão no Brasil e em outros países (BECKER, 2015, 2014; MORLEY, 2015; BARNETT, 2011; CURRAN, 2011). A internet não fez com que as pessoas deixassem de interagir com a TV no atual ambiente midiático caracterizado pela convergência entre as mídias e as possibilidades de comunicação proporcionadas por usos de dispositivos móveis e pelas redes sociais. Porém, novas formas de narrativas em áudio e vídeo emergem no ambiente digital. As referências estéticas desses produtos audiovisuais disponibilizados na web ainda são baseadas nas experiências do cinema e da televisão, mas manifestam hibridismo de linguagens e formatos inovadores em narrativas nas quais o vídeo exerce um protagonismo. Para Philippe Dubois (2004), o vídeo de múltiplas formas e assistido em diferentes telas foi compreendido durante muito tempo como um parêntese ou intervalo, uma imagem intermediária entre o cinema e o computador ou como o outro da televisão, sua vanguarda ou revolução. Porém, segundo o pesquisador, o vídeo não é uma antitelevisão, é uma metalinguagem analítica. Mais do que uma maneira de registrar e narrar ou um objeto-imagem em si, é um estado-imagem, ou seja, uma forma que pensa e que pensa não tanto o mundo quanto as imagens do mundo e os dispositivos que as acompanham. Como todo dispositivo tecnológico, o vídeo pode jogar com a dialética entre semelhança e dessemelhança, entre analogia e desfiguração (DUBOIS, 2004). Ele é um dos elementos mais recorrentes na produção noticiosa e na escrita contemporânea e tensiona os modos de representação dos acontecimentos. As imagens noticiosas em movimento são um complexo componente da cultura visual contemporânea, ou seja, não são simplesmente reflexões transparentes da realidade, mas também simbólicas. Ao mesmo tempo em que oferecem informações e conhecimentos sobre fatos relevantes da vida social, hierarquizam os fatos sociais, influenciam a nossa percepção da vida social e se constituem como mercadorias (IGARTUA et al., 2013).

 

Construindo o objeto de estudo

 

A visualidade se manifesta como recurso relevante de construção de sentido, e a escrita com as palavras é apenas uma das maneiras possíveis de atribuir significações à vida social e aos acontecimentos. O desenvolvimento e os usos das tecnologias digitais provocam transformações nas maneiras de ler, escrever e compreender o mundo. A atual diversidade e difusão do saber em distintos suportes e linguagens é um dos desafios mais complexos que os processos de comunicação apresentam ao sistema educacional. Revelase a necessidade de uma alfabetização digital aberta às múltiplas escrituras para uma participação crítica e criativa na vida social e na mídia, dedicada ao aprendizado de leitura e escrita dos textos audiovisuais (BECKER, 2016; MARTÍN-BARBERO, 2014). Os processos de aprendizagem podem estimular um olhar seletivo de uma determinada imagem, para além dos elementos que se sobressaem em um determinado enquadramento escolhido pelo realizador, transformando o ver em agir e contribuindo para valorizar a relevante atuação do espectador na atribuição de sentidos aos textos (BURCH, 2015; RANCIÈRE, 2008). Assim, a educação deve avançar estimulando a interpretação dos textos midiáticos e a compreensão de que estes não são reflexos da realidade, mas construções que atribuem valores e sentidos à experiência na contemporaneidade e direcionam a criação de vínculos e identidades. Em um momento em que as formas de pensar, estar e perceber o mundo vêm sendo alteradas, é fundamental atualizar a formação de estudantes e professores de diferentes disciplinas para linguagens, conteúdos e formatos audiovisuais que as mídias digitais exigem ou permitem, favorecendo o entendimento dos conteúdos e formatos audiovisuais noticiosos contemporâneos como mediações tecnológicas e culturais.

A origem da produção e dos conteúdos audiovisuais já não está restrita a grandes grupos de comunicação no Brasil e pode ser feita não apenas por profissionais da Comunicação, mas de diferentes áreas, e ainda por cidadãos com acesso às tecnologias digitais. No entanto, esta possibilidade implica uma abordagem inter e transdisciplinar, ou seja, a articulação de diferentes pontos de vista sobre a experiência em uma rede discursiva que se aproxima e dialoga na contramão da histórica compartimentalização de saberes, a qual busca garantir a legitimidade de cada ciência na produção acadêmica e na vida social, gerando crescente fragmentação da realidade e das disciplinas e, consequentemente, redução do sentido da vida humana. Nesse contexto, a Comunicação pode colaborar para incentivar a integração e o diálogo com outras ciências na construção de saberes (GOBBI; KERBAUY, 2010). Mas, refletir sobre o próprio lugar da Comunicação e sobre o Jornalismo

audiovisual3 como forma de conhecimento na contemporaneidade também demanda privilegiar mais o entendimento das interações decorrentes da ação de participar de algo, partilhar e pôr-se em comum dos processos comunicacionais, do que a exclusiva compreensão da Comunicação como transmissões de mensagens e/ou da mídia apenas como um conjunto de dispositivos de informação (SODRÉ, 2014). O papel desempenhado pela mídia e pelo jornalismo é complexo, marcado por desafios e ambivalências na atualidade. O rompimento e a descentralização do poder coincidem com uma intensa concentração do poder aparentemente sem limites. Se, por um lado, a internet indubitavelmente facilitou a possibilidade de circulação mais ampla de vozes alternativas e a reconstituição da instância do que é público, o poder empresarial, por outro lado, longe de desaparecer nos anos recentes, está florescendo e adaptou-se para enfrentar os desafios da economia digital. O poder da mídia é tanto consequência quanto um componente cada vez mais significativo de processos continuados de reprodução social que existem na sociedade capitalista liberal. Assim, “devemos compreender tanto os mecanismos de dominação que justificam e reproduzem o status quo quanto os mecanismos de resistência que podem forçar um caminho através de uma visão alternativa” (FREEDMAN, 2014, p. 121).

Assume-se que a dimensão criativa da educação é capaz de superar determinados costumes e funcionar como uma espécie de resistência à midiatização (SODRÉ, 2012). Investigar e fortalecer interações críticas e criativas das audiências com os textos midiáticos nas práticas pedagógicas implicam entender o audiovisual como linguagem e forma de pensamento na atualidade e mapear e desconstruir os modos como combinações de áudios e vídeos contam todos os dias histórias da vida social na convergência entre as mídias. Este trabalho busca identificar como alunos e professores do Ensino Médio compreendem a relevância da leitura crítica da mídia e de usos de tecnologias digitais em processos de aprendizagem e a pertinência da inserção de uma disciplina sobre Comunicação e Jornalismo na formação escolar, a partir de pesquisa empírica desenvolvida durante quase nove meses com alunos e professores do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CAP-UFRJ), uma escola pública de referência no estado do Rio de Janeiro. Este trabalho é uma contribuição para fomentar o exercício da cidadania em processos de aprendizagem, por meio de interações críticas e criativas com a mídia e com conteúdos e formatos audiovisuais noticiosos no ambiente digital, a partir da contribuição de alunos e professores do

CAP-UFRJ 4. Este estudo reflete ainda sobre a pertinência ou não da inserção de uma disciplina sobre Comunicação e Jornalismo na escola.

Percurso metodológico

 

Na sociedade contemporânea, a competência comunicativa e a construção do conhecimento passam por um domínio dos códigos audiovisuais capaz de oferecer possibilidades de interpretações diferentes do que aparece nas telas da TV e do computador e da realidade do mundo fora delas (BECKER, 2012). As dimensões teórico-metodológicas do campo da Mídia e Educação e da Análise Televisual permitem reconhecer que mensagens, narrativas e notícias que utilizam a linguagem audiovisual são constituídas por modos de dizer e de intervir na vida social, e seus efeitos de sentidos também dependem da maneira como se interage com a TV e se faz uso do computador, da internet e das mídias sociais

(BECKER, 2016) 5. Entender a maneira como os jovens estudantes interagem com a cultura audiovisual, estabelecendo formas singulares de interação com o interrupto fluxo de imagens na multiplicidade de telas, é uma forma de elaborar ferramentas para se aproximar dos universos da infância e da juventude em processos de aprendizagem e trazer para dentro da escola formas inovadoras de construção de conhecimentos sobre a realidade social em diferentes linguagens e sob diferentes ângulos (VILELA, 2016; MARTÍN-BARBERO; 2014).

A partir dessas perspectivas, o percurso metodológico desta investigação foi constituído por quatro etapas: contato e conversações com os professores do Colégio de Aplicação da UFRJ; elaboração de um questionário como instrumento de pesquisa a ser aplicado com alunos do Ensino Médio (EM), submetido previamente à apreciação da coordenação do setor de língua portuguesa da escola e aberto às suas contribuições; construção de um segundo questionário direcionado aos professores deste setor; e análise e sistematização dos resultados. Participaram da pesquisa mais de 50% dos alunos do Ensino Médio da escola, um total de 164 alunos do EM de sete turmas: três turmas do primeiro ano, duas turmas do segundo ano e duas turmas do terceiro ano (21A, 21B, 21C, 22A, 22C, 23B e 23C). Os questionários impressos foram aplicados presencialmente, e as respostas foram escritas pelos alunos nas salas de aulas. O principal objetivo desse questionário era compreender como os alunos do EM percebem a relevância ou não da utilização das mídias em sala de aula para a construção de conhecimentos. Outro questionário foi respondido pelos professores sobre a mesma temática para que fosse possível refletir sobre a pertinência ou não de uma disciplina sobre Comunicação e Jornalismo na grade curricular, a partir de suas inquietações, experiências e reflexões. Questiona-se se as apropriações das tecnologias digitais, a Comunicação e o Jornalismo podem colaborar para práticas pedagógicas e relações de ensino e aprendizagem inovadoras, amparadas pelas contribuições dos campos da Mídia e Educação e da Análise televisual.

Os dados dos questionários foram sistematizados por meio de análise quantitativa e qualitativa. Em uma primeira fase, o questionário elaborado pela autora, incorporando sugestões de professores de língua portuguesa do CAP-UFRJ, foi aplicado para um total de 164 alunos. Foram contabilizadas todas as respostas positivas e negativas de cada turma referentes a 13 perguntas para formulação dos primeiros resultados e sistematizados gráficos que auxiliaram a avaliação do conjunto das respostas das primeiras seis perguntas do questionário. Essas respostas demonstraram que a maioria dos alunos utiliza a internet para se informar, principalmente através do celular e do computador. As redes sociais preferidas entre os alunos são o Facebook, seguida do Twitter e do WhatsApp. Mas elas também indicam que a televisão ainda é um meio muito presente na vida dos estudantes do EM: 100% dos alunos responderam que é necessário saber o que acontece no Brasil e no mundo para o desenvolvimento da capacidade crítica. A compreensão dos fatos sociais ajuda a ampliar a visão de mundo deles e possibilita a conexão entre culturas diversas. Os alunos argumentaram que o jornalismo é importante porque mantém a sociedade informada e esse conhecimento interfere na formação da população. Os temas de reportagens que mais despertam seus interesses são sobre acontecimentos nacionais, internacionais e sobre cultura. Entretanto, ressaltaram que a mídia estabelece relações de poder, controla o que é transmitido para o público sem revelar os diferentes lados das histórias contadas e influencia as pessoas. Mas ainda afirmaram que, como as histórias sempre são contadas sob um ponto de vista, cada um pode construir as suas percepções.

O estudo das maneiras que os alunos atribuem sentidos aos noticiários televisivos e das respostas seguintes do questionário aplicado foi realizado na segunda fase desta pesquisa, correspondente à análise qualitativa. A interpretação dos dados foi viabilizada por meio da construção de tabelas que indicavam o nível de envolvimento e de interesse dos estudantes em relação a cada uma das questões propostas, com a transcrição das opiniões dos alunos. A análise foi realizada a partir da leitura das respostas dos estudantes das sete turmas e da geração de uma síntese de suas respostas por turma. Em seguida, as respostas mais expressivas foram destacadas; as sínteses das respostas de cada uma das turmas foram, posteriormente, cruzadas e comparadas; e uma nova síntese das respostas de todas as turmas referentes às sete perguntas seguintes do questionário foi construída. Assim, foi possível apreender e refletir sobre o conjunto das respostas de todos os alunos entrevistados. Os resultados alcançados por meio da aplicação dos questionários são sistematizados abaixo.

 

Vozes dos estudantes

 

Os alunos tendem a realizar uma leitura crítica dos conteúdos e formatos audiovisuais da mídia e manifestaram aspectos positivos e negativos sobre a linguagem do telejornal. Eles afirmam que a informação é transmitida de uma forma simples de compreender os acontecimentos importantes, é dinâmica e “o estímulo visual é o melhor jeito de passar a informação e tocar o telespectador”. Mas o noticiário televisivo não os atrai muito porque não o consideram interessante. Além disso, os alunos afirmam que o telejornal quase sempre mostra assuntos de um jeito que favorece as emissoras e deixa de fazer certas críticas importantes sobre, por exemplo, questões políticas. “Sempre há uma ideologia representada pela linguagem em que se transmite a notícia”, disse um aluno do 3º ano da turma 23C. “Sempre existirá um ponto de vista de quem está contando; então, cabe a cada um avaliar o que ouviu e construir seu conhecimento com diversas fontes e pontos de vista”, afirmou outro estudante da turma 22A do 2º ano. Afinal, “quem conta um conto, aumenta um ponto. Deve-se sempre pesquisar a veracidade dos ‘fatos’ documentados”, ressaltou um estudante da turma 21B do 1º ano. Os alunos percebem que há diferentes tipos de noticiários, mas que todos deveriam ser imparciais para as pessoas poderem construir a sua própria opinião a partir de diferentes pontos de vista.

Contudo, a possibilidade de produzir um telejornal dos próprios estudantes na escola mobilizou o interesse de pouco mais de 1/3 dos alunos. Eles destacaram que esta atividade ajudaria a compartilhar informações que são necessárias para a formação de um indivíduo sem preconceitos e atualizado, ampliar conhecimentos, construir consciência crítica, auxiliar a construção de debates, aprender como as informações são coletadas e divulgadas e as notícias são veiculadas, integrar alunos e turmas e “ficar mais antenado no mundo e no que acontece na escola também”, como declarou um aluno do 2º ano da turma 22A. Um outro aluno do 3º ano, da turma 23B, disse: “atualmente existe um minijornal no CAP, mas acho importante o contato com novas mídias, já que vivemos em um mundo cada vez mais digital. […] As pessoas mais novas aprenderiam a usar a tecnologia de uma forma mais responsável”. A possibilidade de experimentar uma nova linguagem também despertou o interesse de outros alunos como um incentivo maior à pesquisa e à busca por fontes capazes de provar a veracidade dos fatos. Porém, se a maioria dos alunos demonstrou interesse pela possibilidade de produção de um telejornal na escola, não considerou esta atividade relevante.

Os estudantes reconhecem que os modos como interagem com os textos da mídia se tornam mais autônomos e interpretativos a partir de conhecimentos que constroem nas aulas de redação. Os alunos demonstraram interesse pelo aprendizado da escrita. Uma das estudantes da turma 21A do 1º ano afirmou: “nessas aulas eu consigo aprender como o mundo está organizado e a entendê-lo melhor”. Outra aluna do 3º ano, da turma 23B, explicou porque essas aulas despertam o interesse dos jovens do EM que pretendem ingressar nas universidades: “ajuda a organizar a minha linha de pensamento, conhecer e debater novos assuntos e a tirar 1000 no ENEM”. Os alunos apontam a relevância das aulas para a compreensão de acontecimentos importantes, a construção de argumentos e de pensamento crítico, o entendimento de posicionamentos diferentes, a expressão da própria opinião e ainda para questionar as histórias que estão sendo contadas. Aprendem a escrever textos coerentes e expressar suas opiniões sobre assuntos atuais nacionais e internacionais e sobre temas relevantes para a sociedade brasileira. Exercitam uma “conexão com o leitor” para convencê-lo sobre determinado ponto de vista e para tornar seus textos mais persuasivos. Refletem ainda sobre como podem contribuir para melhorar uma situação ou realidade, incomodados pelo fato de que as pessoas estão se acostumando com os problemas e não lutam mais por uma sociedade melhor. Os assuntos mais discutidos nas aulas de redação são: a maioridade penal, questões de gênero, o feminismo, a banalização do machismo, movimentos sociais, etnias e culturas. Porém, os alunos sinalizam que os debates nem sempre são aprofundados porque a maior importância das aulas é ensinar a escrever uma redação da melhor forma para passar no concurso, conforme o padrão da língua portuguesa.

Quando questionados sobre a importância da utilização da mídia nas aulas e em outras atividades na escola, as principais justificativas da relevância destacada pelos estudantes foram: 1. É uma maneira de ajudar os alunos a entenderem o mundo à sua volta e de se integrarem à sociedade; 2. Torna o aprendizado mais interessante e interativo; 3. É uma forma mais prazerosa de estudar e de troca de conhecimentos; 4. Desperta curiosidade, ajuda o professor a complementar a aula e oferece informações que não estão nos livros e que servem como fontes de pesquisa para projetos; 5. Colabora para a formação de uma visão crítica e para tornar os estudantes mais atualizados; 6. É uma forma de integrar o conhecimento da escola com o cotidiano e relacionar o conteúdo das matérias com a atualidade; 7. É importante para questionar se o que a mídia mostra é o real e ajuda a perceber se há manipulação ou criação de estereótipos; 8. Colabora para tornar os adolescentes politicamente ativos; 9. Transporta o mundo exterior para dentro da sala de aula; 10. A integração entre mídia e escola é importante para mostrar a realidade; 11. É uma forma de dar sentido ao que é apreendido; 12. É importante tomar contato com outros meios de expressão além das palavras. Uma aluna da turma 22C do 2º ano inferiu: “se a mídia está presente em nossas vidas todos os dias, por que não falar sobre isso na escola?” De fato, a utilização das mídias nas aulas e em outras atividades da escola é uma ação importante para os alunos expressa na maioria das respostas, como as seguintes declarações de seis alunos do 2º ano, que sintetizam essa percepção: 1. “O mundo está se atualizando, o ensino deveria seguir o mesmo caminho”; 2. “Acho interessante poder falar não só o que ocorreu no Egito décadas atrás, mas também o que está acontecendo agora e como isso afeta nossas vidas”; 3. “A escola precisa pensar no cidadão, não apenas no conteúdo”; 4. “Para trabalhar as relações entre o que aprendemos nas aulas e o ‘mundo real’, encontrar a matéria na vida”; 5. “Pois é através das novas mídias que o mundo se conecta”; e 6. “É necessário que a escola se insira na realidade, não se mantendo estagnada”.

Os estudantes apreciam os professores que mostram documentários e trazem materiais didáticos multimídia para as aulas, o que contribui para a compreensão da matéria. Contudo, eles consideram que nem sempre a infraestrutura da escola permite a utilização das mídias nas aulas e em atividades extracurriculares, o que não favorece o uso de códigos diferentes do que a palavra para a escrita e a expressão. Os alunos identificam que o maior problema de escassez de meio de comunicação nas escolas é a falta de verbas. Afirmam que, embora a escola possua aparelhos de televisão e computadores, eles são precários e a escola não possui funcionários para orientar o acesso dos alunos a esses instrumentos. Além disso, a internet só está disponível na sala de Informática e nem sempre funciona. Assim, são orientados a utilizarem os meios de comunicação apenas para a realização de trabalhos específicos, e os professores tendem a optar por aulas mais tradicionais. Os estudantes também afirmam que o curto tempo disponível na grade curricular para acessar a TV e a internet não colabora para os usos das mídias na escola, uma vez que a carga horária escolar é muito condensada. E, ainda, entendem que a escola, como instituição, não está preparada para interagir com inovações do mundo contemporâneo, como afirma um aluno da turma 22A do 2º ano.

 

Vozes dos professores

 

O questionário direcionado aos professores foi constituído por 8 perguntas e respondido por um terço dos professores efetivos do setor de língua portuguesa do CAP-UFRJ, responsável pelos conteúdos de linguagem e expressão. Eles foram entrevistados em função de suas experiências na formação dos estudantes nesses saberes. Assim, foi possível aferir, em caráter exploratório, como os professores entendem as relações entre Comunicação e Educação e suas possíveis contribuições para a renovação de processos de aprendizagem na formação escolar capazes de interagir com a cultura das mídias para a promoção do exercício da cidadania.

A transição de produção e uso de linguagens na construção de conhecimentos no mundo não é reconhecida como uma novidade exclusiva da contemporaneidade pelos professores do CAP-UFRJ que participaram desta pesquisa. Um deles afirma que as mudanças nas formas de escrita resultam das novas maneiras de mediação do conhecimento pelas tecnologias digitais, mas ressalta que o uso de novas linguagens não deve significar o abandono ou a depreciação das antigas. Os professores respondentes afirmam que recorrem à utilização de outros códigos além das palavras e tipos de textos para propor reflexões críticas aos alunos, como uma estratégia produtiva para se aproximarem da realidade do aluno, mostrarem que os conhecimentos que constroem em sala estão diretamente ligados às suas demandas cotidianas e que diferentes tipos de textos podem ajudá-los a ampliar o entendimento do mundo. Eles percebem que o interesse dos alunos do Ensino Médio por usos das mídias nos processos de aprendizagem é cada vez maior, uma vez que “as mídias despertam curiosidade e […] o interesse dos alunos por determinados assuntos e/ou conteúdos”, como afirma uma das professoras. Outro professor declara que essa prática pode colaborar “para a elaboração de propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural”. Os docentes revelam que muitas vezes os próprios alunos lhes trazem a demanda pela utilização de mídias na escola. Entretanto, um dos docentes afirma que falta formação aos professores para que eles possam se apropriar de tais mídias de forma mais eficaz em sala de aula. Além disso, ressalta: “há falta de incentivo material, em termos de equipamentos e tecnologias, para o melhor proveito do uso das mídias no ensino básico público”.

Os professores consideraram que a mídia deve ser percebida como um ambiente a ser explorado para a construção de conhecimentos, e as informações jornalísticas sobre o Brasil e o mundo são pertinentes para a formação dos alunos por fazerem parte do cotidiano dos jovens, por serem importantes elementos na construção de discursos individuais e coletivos e por formarem os alunos dentro de uma visão crítica e reflexiva da realidade. Um dos professores respondentes afirmou ainda que essa prática auxilia os alunos a compreender, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista. Contudo, os docentes sugerem que os usos das mídias devem ser associados às demais disciplinas curriculares, de modo inter ou transdisciplinar e não devem ser integrados à grade curricular como mais uma disciplina autônoma. Outro professor destacou que “o aluno deve trabalhar as diferentes funções da linguagem; e isso já é abordado e desenvolvido na disciplina de língua portuguesa”. Assim, as disciplinas já existentes poderiam dar conta dos assuntos e conteúdos que pudessem vir a compor a ementa dessa nova disciplina.

No entanto, os professores que participaram desta pesquisa acreditam que o incremento do diálogo entre a Comunicação e a Educação pode contribuir para a qualificação das práticas pedagógicas na atualidade e para a atualização dos docentes. Uma das professoras afirma que “o diálogo entre as diferentes áreas do conhecimento sempre é proveitoso e precisa ser estimulado”. Para outro professor, “a educação é uma instituição social, ela trabalha com a realidade circundante. Obviamente que o universo midiático entra no universo educacional (e vice-versa), e dessa imbricada relação se podem extrair ótimos frutos”. As interfaces entre a Comunicação e a Educação poderiam resultar em ações que “deveriam ajudar os alunos a relacionar informações, representadas em diferentes formas e conhecimentos disponíveis em situações concretas, cuja finalidade seja sua formação como um cidadão crítico”, declara o terceiro docente. No contexto da reforma curricular, o currículo e a avaliação são questões centrais. Um dos professores destaca que há necessidade de uma valorização de conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, dos processos históricogeográficos, da produção tecnológica, das manifestações artísticas e também reflexões sobre os modos de incorporação das mídias em ações em sala de aula, especialmente aquelas que já fazem parte do cotidiano dos alunos.

 

Considerações Finais

 

Este trabalho buscou refletir sobre interfaces da Comunicação e da Educação na escola, a partir da experiência do CAP-UFRJ em diálogo com alunos e professores, sem qualquer pretensão de esgotar este debate. A discussão aqui proposta para os estudos de Comunicação e Educação em práticas pedagógicas, considerando contribuições das dimensões teórico-metodológicas do campo da Mídia e da Educação e da Análise Televisual, pode estimular e favorecer: 1. O domínio relativo de formas emergentes de leitura e escrita na escola; 2. A atualização da formação de novos professores; 3. A construção de uma consciência autônoma para a interpretação do mundo nos processos de aprendizagem; 4. Uma intervenção crítica e criativa pelos cidadãos na vida social e na mídia; e 5. A ampliação e complementação de conteúdos escolares sobre Atualidades, não apenas respondendo às demandas dos exames de ingresso em universidades públicas e privadas, mas contribuindo para a qualidade da formação dos estudantes com atenção aos seus próprios usos das tecnologias digitais.

Compreende-se, em acordo com a resposta dos professores respondentes, que os estudos de mídia e educação podem propor novas estratégias e metodologias de ensino e avaliação aos docentes e colaborarem para uma integração interdisciplinar que enriquecerá o processo de construção do conhecimento do aluno, o que não requer, necessariamente, a inclusão de uma disciplina específica sobre Comunicação e Jornalismo na grade curricular. Observa-se que tanto os professores quanto os alunos do CAP-UFRJ identificam qualidades e limitações na formação escolar. Revela-se que os estudos de Mídia e Educação não devem deixar de considerar as restrições e potencialidades inerentes ao contexto socioeconômico e cultural em que as diversas práticas pedagógicas estão inseridas, ao propor renovações e percursos metodológicos capazes de auxiliar a atualização dos docentes e a formação de novos professores, sob perspectivas inter e transdisciplinares. Nesse sentido, a Comunicação também enfrenta desafios e oportunidades de contribuir para leituras críticas da mídia e das narrativas jornalísticas audiovisuais nos diálogos possíveis a serem estabelecidos com a área da Educação.

 

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