Dinâmicas e suportes para conhecer, reconhecer e integrar saberes em Comunicação e Educação
Prefácio
Série Comunicação e Educação
Em boa hora a Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz (EDITUS) lança o IV volume da série Comunicação e Educação, sob o título de Dinâmicas e suportes para conhecer, reconhecer e integrar saberes em Comunicação e Educação. A obra foi organizada por Ana Luisa Zaniboni Gomes e Eliana Nagamini, coordenadora do Grupo de Pesquisa Comunicação e Educação, da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – INTERCOM.
Trata-se de acontecimento a ser saudado por ao menos dois motivos fundamentais. O primeiro: a casa editorial é ligada a uma Instituição pública de ensino superior e que cumpre o decisivo papel de colocar à disposição dos interessados materiais de relevância produzidos por especialistas – coisa cada vez menos observada nas editoras de corte diretamente comercial. O segund0: tendo em vista o total de setenta e oito artigos, considerando os quatro livros trazidos à luz pela série, talvez tenhamos o inédito fato de estarmos diante do maior conjunto centralizado de pesquisas, análises, reflexões em torno do campo da educomunicação, da comunicação-educação, da mídia-educação, postos a serviço dos leitores em curto período de aproximadamente dois anos.
O exame dos textos incluídos neste volume, todos apresentados durante o Congresso da INTERCOM, ocorrido em 2016 na ECA-USP, revela um significativo painel nacional e mesmo internacional acerca do que vem sendo produzido em nosso âmbito de trabalho. São artigos, com diferenças entre si, seja nos vínculos conceituais, seja nos objetos de pesquisa, seja nos andamentos expressivos, mas que convergem em três eixos fundamentais. A saber: exibem preocupação em retomar ou aprofundar algumas dimensões teóricas e metodológicas afeitas aos nexos comunicação-educação; examinam como vêm ocorrendo determinadas práticas educativas mediadas pelos dispositivos comunicacionais; refletem acerca do envolvimento de docentes e discentes nas instâncias de produção e recepção, consideradas as possibilidades oferecidas pela TICs. É relevante destacar que o termo educomunicação recorta boa parte dos artigos, explicitado, muitas vezes, no próprio título, o que revela estar o conceito em crescente assimilação no Brasil.
Por razões editoriais, um grupo de textos apresentados na acima referida INTERCOM, elaborados a partir de questões ligadas à aceleração social do tempo e seus vínculos comunicativo-educativos, será publicado pela Editora Paulinas, no segundo semestre de 2017, em organização feita por Adilson Citelli. Promovemos esta informação para indicar como o nosso campo de trabalho apresenta vitalidade e prossegue ganhando densidade científica.
Da leitura de todo este material, no que se incluem os citados no parágrafo anterior, é possível intentar breve reflexão acerca das linhas gerais conclusivas nele expostas. Parece existir a compreensão de que os desdobramentos da comunicação, considerado o problema em seu ângulo maior, incluindo as variáveis sociotécnicas, alcançaram a educação escolar, interferindo, sob vários aspectos, nas práticas por ela promovidas. É suficiente lembrar, como vetor ilustrativo, as novas formas de sociabilidade exercidas pelos jovens que têm nas mídias locativas importantes instâncias facilitadoras das variadas trocas discursivas e de linguagens. Equivale dizer, se o debate acerca do que representa introduzir a comunicação nos ambientes educativos formais prossegue incomodando e exigindo ponderação, há, também, as circunstâncias decorrentes da disseminação dos meios e dispositivos tecnológicos, em sua gama de suportes e possibilidades de usos. E não é raro que o plano gnosiológico da comunicação seja tomado como sinônimo da apropriação maquínica dela.
De toda sorte, se o processo de esclarecimento é parte inescapável da atividade educativa, reside nele momento decisivo para indagar sobre os alcances da comunicação, pensada, nesse passo, como circuitos de linguagens derivados de lugares enunciativos, portanto, a trazerem as marcas do poder, das formas de mando, dos domínios mercantis, cuja circulação pública acontece, largamente, associada aos mediadores técnicos. Tal continuum aporta no mundo da escola, promovendo, inclusive, a retroalimentação entre momentos particulares da aula e ambiências externas nas quais se prolonga o cotidiano dos professores e alunos.
Claro está que pensar os cenários e linguagens da comunicação nos contextos escolares implica reorientar as metodologias e mesmo as inflexões teóricas que ensejam os estudos e as pesquisas no terreno da educação. Elaborar as perguntas sobre contextos socioculturais, traçar o perfil de interesses dos alunos e as características do seu desenvolvimento cognitivo, atentar para a evasão e a violência nas salas de aula, para considerarmos alguns itens exemplificativos, continua sendo de grande importância quando está em jogo entender o funcionamento das unidades escolares, o desempenho dos discentes, o lugar acadêmico dos docentes. Entretanto, dedicar pouca ou nenhuma atenção às enormes instigações suscitadas pelos sistemas e processos comunicativos junto à sociedade contemporânea, logo às instituições educativas, nos sucedâneos de televisores, rádios, celulares, computadores, internet, redes sociais, enfim, de um mundo não apenas frequentado, mas também vivido por docentes e discentes, que dele participam sofrendo e exercitando experiências e influências, significa limitar as próprias circunstâncias da pesquisa e das práticas postas ao campo da educação. E, neste particular, compreender os circuitos que alimentam as interfaces educomunicativas revela-se aporte contributivo importante, tendo em vista o adensamento teórico e metodológico voltado tanto à melhor apreensão do funcionamento das escolas (em seus alcances humanos, didáticos, pedagógicos, de inserção e diálogos sociais, etc.) como ao mister de prover alternativas voltadas a projetos e propostas que mais bem facultem a formação dos jovens e adolescentes que acorrem às salas de aula, ou se dirigem a instâncias educativas não formais.
A leitura do material ensejado neste volume convidará os interessados a descortinarem outras variáveis e linhas de força concernentes ao que se vem produzindo nas interfaces comunicativo-educativas.
Adilson Citelli
Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo – ECA/USP
Dezembro de 2016