Dinâmicas e suportes para conhecer, reconhecer e integrar saberes em Comunicação e Educação

Eliana Nagamini, Ana Luisa Zaniboni Gomes (orgs.) · Capítulo 21 de 23

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Dinâmicas e suportes para conhecer, reconhecer e integrar saberes em Comunicação e Educação

Diferentes formas: registro, sociabilidades e reflexão

Diferentes formas: registro,

 

sociabilidades e reflexão 1

 

Sérgio Luiz Alves da Rocha 2Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, RJ

 

Introdução

 

A escola é uma instituição na qual a escrita desempenha um papel fundamental, embora não exclusivo. Durante um longo tempo, as atividades relacionadas a uma prática mais intensiva da escrita estavam limitadas ao pertencimento do indivíduo às etapas de sua escolarização. Dificilmente, após a conclusão de seu período escolar, os indivíduos continuariam a praticar de modo intensivo a “escrita manuscrita”.

Desde o aparecimento das redes telemáticas, ocorreu um longo e intenso debate, dentro e fora da escola, para avaliar os efeitos do acesso a essas tecnologias sobre a escrita, em particular dos jovens. Embora possamos discutir hoje diversos aspectos envolvidos na produção da escrita manuscrita, nos parece inegável que o sucesso das redes sociais nos últimos anos fez com que uma enorme parcela de nossa população continuasse imersa no universo

da escrita, ainda que digitalizada ou “teclada” (FREITAS, 2000)3.

Neste texto, apresento algumas das falas de alunos e professores sobre a questão da escrita no universo das redes telemáticas, que fazem parte de um projeto sobre as relações entre a leitura e as

novas formas de interação digital 4. Durante a realização da pesquisa, seus participantes refletiram, entre outras temas, sobre a natureza da escrita digitalizada e, a partir destas avaliações, sobre o papel da escola neste novo contexto.

A escrita teclada

 

Ao analisar as falas dos participantes da pesquisa, percebemos que a quase totalidade delas acentua a necessidade de reconhecimento da propriedade do uso da linguagem abreviada em contextos onde elas são apropriadas. Isto levou os sujeitos da pesquisa a demarcarem tanto o aspecto positivo, quanto o negativo desse tipo de escrita. Assim, por exemplo, a aluna Bruna, quando questionada sobre o argumento de que haveria uma relação entre a escrita no computador e as dificuldades dos alunos se expressarem de acordo com as normas cultas da língua, afirma:

 

(Bruna) Mas, realmente, isso existe um pouco, não é? Eu já vi, ainda mais

que minha mãe é professora, na minha família tem milhares de professores.

Já vi várias redações com você, é vc. Eles usam a linguagem da internet na

vida, na escola, pra escrever mesmo. Às vezes, eles não conseguem

separar ou querem ser mais rápidos. De algum modo, isso atrapalha. Eu até

tenho medo de fazer isso de vez em quando. Porque isso eu, até na internet,

me policio para escrever certo, pra não ter essa confusão.

 

Bruna afirma que a escrita atrapalha tanto que ela, mesmo no espaço das redes sociais, faz o possível para não utilizar qualquer tipo de abreviatura para evitar que, ao escrever em outro espaço, que não o das redes sociais, escreva da mesma forma, abreviada. De qualquer forma, ela reconhece a especificidade desse tipo de escrita quando afirma que “eles usam a linguagem da internet na vida”, ou seja, se utilizam de uma linguagem apropriada para um meio em outro espaço.

O professor Alipson e a aluna Raflayne também travaram um diálogo em que criticam “as abreviações absurdas” e a tendência das pessoas de “reduzir as frases”. Isto tornaria o entendimento cada vez mais difícil, criando um problema avaliado por Alipson como “muito grave”.

 

(Alipson) E hoje eu estou começando a entrar, ficar nesse hábito também de

abreviar. Mas eu estou começando a me policiar em relação a isso. Porque

senão você acostuma. Você se acostuma a escrever daquele jeito.

(Raflayne) Mas se você souber separar acho que não tem problema.

(Alipson) Mas o problema é que você já faz automaticamente, entendeu?

Você já faz mecanicamente, cara, entendeu? […] Você vai escrever uma

coisa para alguém aí […] já sai daquele jeito, abreviado. É ruim. Até um certo

ponto, tudo bem. Mas já estão começando abreviar tanto a frase, está

começando a ficar […] sem sentido. Tem coisas que eu não entendo. […] até

uns amigos meus mandam para mim. Eu pergunto: O que você quer dizer

aqui? […] Se o pessoal não começar a se policiar, porque estão começando

a reduzir tanto a frase que daqui a pouco […] uma palavra só vai significar a

frase toda. Tipo japonês. Japonês é assim. Às vezes um negocinho

representa uma frase inteira, então eu acho complicado.

 

Como usuário das redes sociais, Alipson também acaba fazendo uso das abreviações. Sua preocupação é com o excesso de abreviações que, no seu entender, prejudicam o entendimento.

Outras falas chamam a atenção menos para a questão da abreviação em si e mais para a necessidade de que os alunos percebam que há diferentes escritas para diferentes espaços. Assim, fala o professor Hélcio:

 

(Hélcio) Essa coisa de abreviar tudo. Uma coisa que o jovem hoje tem que

se tocar é o seguinte: Você tá na internet, aquilo é ferramenta, então você

tem a linguagem da ferramenta. Quando você chegar na escola, é uma outra

realidade. Não se pode abreviar uma redação. Ah, abraços, “ab” não sei o

que, valeu, “vlw”, assim, não pode usar isso. Você tem que ter um linguajar

decente para usar na escola. É o acadêmico mesmo, você está na escola. E

o aluno não percebe isso.

 

Durante a entrevista da professora Teresa e do aluno Michel, eles travam um diálogo sobre essa questão. Michel critica a escrita “errada” das redes sociais, e a professora Teresa tenta relativizar a posição que ele expressa.

 

(Michel) é tudo abreviado, tudo errado […] aí pega a mania, aí vai escrever

um trabalho, aí vai escrever errado também, em vez de escrever você,

escreve vc. Vai escrever tudo abreviado.

(Teresa) Mas aí o que interessa é que tem de perceber que lá pode escrever

assim. A escrita tem vários lugares, vários locais. Cada local tem a sua

escrita. Então lá você pode escrever. Agora, na escola, você não pode.

Então, é um outro local. Você tem de escrever de acordo com as regras

ortográficas. Cada espaço tem […] as suas regras. [Nas redes sociais,]

geralmente, se você escrever muito certinho, os outros vão até vão achar

que você é um chato. […]. Se você escrever tudo certinho você vai

atrapalhar. Aí a pessoa cansa. O tempo que você está perdendo para

escrever tudo certo. A abreviação é muito melhor, abreviar é muito melhor.

 

A fala de Michel é a mais crítica, neste caso, em relação ao uso das abreviações nas redes sociais. Ele não as entende como uma escrita voltada especificamente para aquele espaço, mas como uma forma errada de escrita. Coube à professora Teresa estabelecer esse diálogo com Michel apresentando outra possibilidade de entendimento da questão, que aponta para os espaços onde é apropriado o uso daquela linguagem.

Outra fala que tangencia essa questão do espaço específico de utilização desse tipo de linguagem é a da aluna Marcela. Mas, em seu caso, ela acentua a necessidade de expressividade que altera a forma da escrita.

 

(Marcela) Eu acho que essa questão de abreviar assim […] é para dar mais

emoção, porque é uma coisa que é muito fria, entendeu. Aí você fala assim

com um jeitinho diferente. Se você falar “Ah, estou bem”, isso é frio. Fala

“vou bem” [fala com entonação]. Igual você fala, assim. Você não fala igual

você escreve. Poxa, você está se comunicando. Você não está se

comunicando igual você fala, entendeu? É, eu acho que uso assim como eu

falo. Eu falo “eu tô bem”, mas eu não escrevo “eu tô bem”. “Estou bem”,

entendeu? […] É estranho. Ninguém fala assim. Acho que é a comunicação

mesmo que induz assim, a você abreviar […]. A rapidez também, porque

você fala muito rápido, muito mais rápido do que você escreve. Então você

digita também muito rápido, abreviando você vai ser mais rápido ainda. […]

Porque […] sendo uma forma de leitura, acho que, assim, quando você lê,

você imagina, então se você está lendo uma pessoa falando com você, você

imagina a pessoa falando. Acho que é assim, é uma forma de leitura, você

interpreta aquilo, então se você interpretar uma letra muito fria, fica estranho

a palavra. Igual você falar tudo certo. Estranho você falar: “Eu estou bem”.

 

De acordo com Marcela, a necessidade de manifestação de algum tipo de expressividade faz com que as pessoas escrevam de forma diferente, buscando recursos para romper com uma comunicação “fria”. Embora Marcela não faça referência aos

emoticons5 6 , sabemos que esses símbolos (bem como os emojis) e

os diversos tipos de abreviação, estão ligados à necessidade de recuperar algo dos encontros presenciais em uma comunicação

feita à distância 7. Ao mesmo tempo, eles chamam a atenção para a necessidade de rapidez na comunicação nestes ambientes, o que acaba por imprimir à digitação uma necessidade de produção ágil.

Esse conjunto de falas indica que há o reconhecimento por parte de muitos alunos e dos professores de que as abreviações utilizadas em sites de relacionamentos variados não devem ser utilizadas fora daquele espaço, onde o seu uso é mais apropriado.

Mas as falas mais interessantes sobre essa questão da escrita teclada foram aquelas que acentuaram sua faceta relativa à sociabilidade, que muito interessa à escola. A aluna Tainá, por exemplo, afirma que as abreviações têm tanto um aspecto positivo como negativo, havendo “uma abreviação que ajuda e a que atrapalha”. Explicando mais sua posição, Tainá diz que “ajuda, porque quer falar com uma pessoa da mesma idade, você fala tipo ‘tb’. Mas na hora da prova atrapalha, você confunde as abreviações”.

A professora Leila, em sua fala, qualifica ainda mais a importância desse tipo de comunicação para os jovens.

 

(Leila) Uma coisa que eu observei é que os alunos que têm essa dificuldade

na escrita, eles se acham aceitos. Porque o outro aceita ele. Eu já observei

vários alunos que têm mesmo dificuldade. […] E isso […] é o mundo deles,

quer dizer, eles não são rejeitados. Que se eles forem escrever para você ou

para turma vai ter rejeição. Poxa, um aluno deveria escrever muito bem. E no

mundo deles, da internet, ali é o mundo deles e não tem essa rejeição.

(Deise) É porque você não consegue detectar o que é o erro e o que é

acerto.

(Márcia) É tudo a mesma coisa.

(Leila) Então, a coisa de valores para eles é realmente diferente, acho que

não tem a cobrança, não tem a cobrança, eles não são rejeitados e essa

rejeição é uma coisa para eles quando tem, é um bloqueio […]. “Ah, não sei

escrever. Não sei, não sei como escrever”. Nisso, quando você falar, para

eles é uma rejeição muito grande, não saber.

(Márcia) Nossa, a dificuldade está muito grande.

(Leila) É. Isso todo dia você vê que cresce mais. […] se você lê, você

escreve bem. Se você não tem o hábito da leitura você certamente vai ter

dificuldade na escrita. E para eles, como não leem, eu acho que eles leem

muito pouco, esse mundo deles aí […] da internet é um mundo que é

maravilhoso pra eles.

 

Este é um aspecto muito importante para a escola. Os alunos, muitas vezes, deixam de fazer as atividades propostas pelos professores porque, de antemão, esperam um tratamento que, de alguma forma, vai acentuar aquilo que eles não sabem, suas dificuldades e carências, não se considerando o não sabido, as dúvidas e os erros, como parte do processo de aprendizado.

Embora o discurso da professora Leila aponte para as dificuldades de escrita dos alunos em geral, acentuando seu pouco contato com a leitura, ela revela aspectos da sociabilidade presente na escrita dos jovens que são fundamentais. A partir dela, podemos ter elementos para entender, por exemplo, por que alguns jovens que não tentam realizar as atividades escolares (escrever as redações propostas ou responder em seu caderno as perguntas que lhes são feitas, etc.) têm em suas redes sociais várias postagens ou passam, como já firmou Michel, a noite inteira no computador digitando.

Por esta razão, também achei muito interessante o que disse a professora Cláudia, de Língua Portuguesa, quando questionada sobre o papel dessa escrita abreviada. Ela afirma que tais práticas são positivas.

 

(Cláudia) Eu acho que é bom. Eu acho que é bom. Porque ele mesmo vai…

sabe… Pelo menos ele está praticando a escrita. Entendeu, Sérgio? Ele

mesmo tem consciência das coisas que ele escreve errado. Ele começa a se

ver mais. Quando ele começa a escrever, acho que ele começa a perceber

mais como que está a escrita dele, não é? Eu acho isso. Eu acho

interessante.

 

Flusser (2010, p. 20) ajuda a pensar o que os professores e os alunos falam sobre a escrita teclada na internet quando diz que o gesto da escrita “orienta e alinha o pensamento”. O fluxo da escrita, ou da digitação, orienta o pensamento, que busca uma coerência cada vez maior. Mas Flusser (2010) também diz que a escrita não serve apenas para orientar os pensamentos em sequências lógicas. Escrever é também ir em direção ao outro. As linhas que escrevemos “ultrapassam o seu ponto final ao encontro do leitor” (FLUSSER, 2010, p. 21). Não escrevemos apenas para “orientar” nossos pensamentos, mas também escrevemos para nos dirigir a um outro. O ato de escrita

 

não é apenas um gesto reflexivo, que se volta para o interior, é também um

gesto (político) expressivo, que se volta para o exterior. Quem escreve não

só imprime algo em seu próprio interior, como também o exprime ao

encontro de outro (FLUSSER, 2010, p. 21).

 

Nesse sentido, falas como as da professora Teresa, de Língua Portuguesa, e da aluna Marcela deveriam servir para uma reflexão mais aprofundada sobre algumas práticas enraizadas no cotidiano escolar. Teresa questiona-se em determinado ponto da entrevista, ao dizer que “a gente faz eles escreverem muito e para quê? às vezes não tem muito sentido para eles”.

Em relação a este aspecto, é significativa a fala do aluno Lucas, ao falar do ato de escrita na escola, acentuando o seu caráter de cópia.

 

(Lucas) Eu acho que copiar é quando você está sendo alfabetizado. Você

tem que copiar para aprender a escrever. No entanto, depois que você já

está alfabetizado, eu acredito que ninguém chega no ensino médio, chega

aqui, entendeu, analfabeto. Tem que saber ler e escrever. Então acho que é

muito rápido e prático o aluno ler desse modo a informação [refere-se ao uso

do texto impresso] do que parar para ele copiar como se estivesse no jardim

de infância sendo alfabetizado.

 

Não se trata aqui de eliminar a escrita do contexto escolar. O próprio Lucas reconhece que alguns professores ressignificam os textos na medida em que fazem os alunos copiarem, mas explicam depois o conteúdo que esses textos disponibilizam. O que ele questiona é a prática da cópia excessiva e sem nenhum significado aparente. Sua fala vem a propósito de um fato que ocorreu na escola, quando sua turma teve de mudar de sala para copiar o conteúdo de uma das disciplinas que havia sido disponibilizado na lousa por um dos professores em três salas diferentes. Lucas

desabafa: “Eram várias salas, virava imigrante” 8.

A professora Sonia ainda trouxe em seu depoimento outra questão importante que se refere à relação entre a escrita e os aspectos cognitivos que interferem na sua produção. Segundo ela:

 

(Sônia) A comunicação está muito veloz. Está tudo muito rápido. Então, para

alcançar aqueles negócios todos […], as sinapses da mente, aquilo pá, pá,

pá [faz gestos com as mãos], você tem que se servir de um código. Então

você se utiliza desse internetês para poder associar aquilo que você pensa

tão rápido àquilo que você quer passar. Então eu acho que, nesse ponto de

vista, é válido. Porque quando você põe a norma, você vê um texto muito

bem estruturadinho, ele leva tempo. Às vezes você está lendo e já está

pensando em outras [coisas]. Quer dizer, não há uma associação entre você

ler um texto normal, a não ser que você tenha muito, muito, muito, muito

interesse naquilo, entendeu, e a velocidade mental de entendimento daquilo.

Aí então você lê um texto, aí lê um período, aí você vai chegar lá no período,

aí você vai refletir, e aquilo já envolveu “n” coisas na mente. Você, poxa, já

pensou isso, já pensou aquilo, já pensou aquilo, e a internet tem essa

possibilidade de aproximação com essa rapidez. […] E depois você tenta

como é, eu não sei explicar. Por exemplo, você vai escrever, aí você vai

refletindo aquilo, aí você tem que segurar o pensamento para poder aquilo

estar refletido exatamente naquilo que você está escrevendo. À medida que

você segura o pensamento, quer dizer, você segura a velocidade mental em

relação àquilo, muitas outras coisas escapam. Entendeu? Aí, se você

abreviar você, aí você… entendeu? Vai, vai, vai, vai, vai, vai. Vai tentando

chegar a essa velocidade.

 

Neste caso, Sônia chama a atenção para os diferentes processos cognitivos envolvidos em cada modalidade de transcrição do discurso. Na escrita manuscrita o processo de reflexão é mais lento e, como você deve estar atento ao que está escrevendo, você perde de vista outras possíveis associações mentais que vão surgindo em sua mente. Se vivemos em um tempo em que as comunicações estão aceleradas, nossa mente acostuma-se a outro ritmo. A escrita teclada, o “internetês”, seria um tipo de escrita mais propício a acompanhar essa aceleração do pensamento.

De todo modo, as indicações de Sônia remetem a uma reflexão sobre as distintas formas de transcrição do pensamento, considerando-as de modo mais amplo do que aquele que se refere ao seu valor de face. A escrita manuscrita e a escrita teclada, e mesmo a escrita impressa, são modos de estruturação de nosso pensamento, tecnologias do pensamento, nos moldes propostos por autores como Ong (1998[1982]), Havelok (1996) e Lévy (1993[1990]).

A escrita, considerada para além de seu aspecto puramente material, deve incorporar a sua dimensão de produção do saber, sendo cada vez mais necessária no contexto das novas tecnologias que mobilizam novos gêneros de discurso. Tal incorporação deve tornar nossos jovens capazes de relacionar-se com as novas formas de escrita e de leitura de maneira crítica (GOULART, 2007).

 

A escola deve “corrigir o que a

 

sociedade está perturbando”: mediar

 

x direcionar

 

Como já afirmei antes, não houve, com exceção das reflexões de Michel, nenhuma fala que avaliasse as práticas juvenis de ler e de escrever no computador/internet como um problema mais sério. O que os professores manifestaram foi a opinião de que caberia à escola operar um trabalho de mediação no sentido de tornar o aluno capaz de fazer um uso qualificado dessas tecnologias de seus modos de expressão próprios.

 

(Fábio) Eu acho que a internet ou a televisão não podem ser consideradas

nem vilãs, nem bandido nem mocinho. Acho que tudo é educação que você

tem para usar. Por exemplo, agora mesmo fiquei sabendo de uma exposição

que está acontecendo sobre Einstein através da televisão. Aí fui ver onde é

na internet. Então assim, ela tem utilidades muito boas. Só que não adianta

eu ter uma televisão, ter uma internet se eu só […] entro em sites que não

vão me enriquecer em nada. Só vejo programas que também não têm nada

de bom. Então quer dizer, a internet e a televisão têm de tudo. Então a

questão é a educação, você se educar, você também ver as coisas boas que

você pode tirar dali. Mas a questão do hábito, da educação até para você

utilizar. Porque também não ter internet, não ter televisão, acho uma coisa

horrível. Você fica muito limitado. Então acho que vale até uma parte mais de

educação mesmo.

A questão da formação para um bom uso é considerada fundamental pelo professor Fábio. Televisão e internet, em sua opinião, apresentam possibilidades positivas de utilização para aqueles que possuem uma “boa educação formal”. Não é pouco significativa a opinião de Fábio de que ficar sem televisão e internet é “ficar muito limitado”. Ele ainda afirma, durante a entrevista, que a escola não deve proibir o aluno de acessar, por exemplo, as redes sociais. Mas, em contrapartida, o aluno deve ter “tempo para praticar a escrita correta”. Assim, o aluno deve “ser orientado” para saber escrever corretamente quando precise. Se o uso da escrita abreviada não está errada e ele “pode escrever assim”, ele deve aprender que, quando for “fazer um currículo, algum documento”, ele deve expressar-se de uma forma correta. Mas isso não ocorrerá se ele “nunca vê essa forma correta”. Por isso, cabe à escola “corrigir o que a sociedade está perturbando”.

A professora Cláudia também acentua a necessidade de que o aluno seja orientado para um bom uso das tecnologias.

 

(Cláudia) Acho que não é bom nem ruim. Depende do interesse, sabe? Não

sei, não sei. Vamos dizer que favorece, sim. […] Se eu deixar por eles, não.

Mas eu estimulo. Mando entrar em sites de literatura, questão literária. Eu

mando os alunos entrarem em várias páginas. […] E aí você aprende muita

coisa também. Enriquecimento cultural, sociológico. É. Poetas marginais.

Mandei entrar numa revista lá, Confraria do Vento

[http://www.confrariadovento.com], é o site. Tem a Germina Literatura

[http://www.germinaliteratura.com.br]. […] Então eu estimulo assim, a entrar

nesses sites e a ler. Eu estimulo. Mandei até um trabalho. Tá vendo. Tá aqui,

ó [mostra os trabalhos entregues pelos alunos]. Isso aqui é a página de uma

das edições dessa revista da Confraria do Vento. Tá vendo? Aqui o

Confraria. Ela é lançada bimestralmente. Entendeu. Aí eles clicam aqui em

outros números. Aí vão aparecer os outros números todinhos. Agora eles

pararam. Aí, eu mando eles clicarem em cima da revista, ir folheando e

lendo. Escolher uma coisa que eles tenham achado interessante e fazer um

comentário sobre. […] Na internet. A internet está cheia de coisa de

literatura, Sérgio. Muita coisa nova, muita coisa boa.

 

Para Cláudia, se o aluno fosse deixado sem acompanhamento, ele não iria acessar sites como os que ela indica. Ao acessar esses sites, os alunos não estão apenas entrando em contato com a literatura, mas obtendo também “enriquecimento cultural, sociológico”. Cláudia afirma que os alunos têm muito poucas referências culturais, desconhecendo aspectos básicos de nossa história e de nossa cultura. As indicações destes sites possibilitariam aos alunos a aquisição de elementos básicos para o exercício da atividade crítica.

O professor Alipson já reflete sobre a forma concreta através da qual a escola poderia exercer esse papel de mediação, principalmente em relação ao acesso à internet.

 

(Alipson) Eu acho que a escola poderia orientar muito o aluno, e assim,

justamente pela internet, estar tendo essa, vamos dizer assim, essa

epidemia, que a escola poderia tentar mudar um pouco, se atualizar. Poderia

até usar a internet porque a internet não usa só coisas ruins. Então, a escola

teria que, de certa forma, buscar. Olha, vocês vão pra este site. Começar a

orientar. Pesquisa vai ser aqui, direcionar o aluno para determinados artigos,

determinados sites, que vão realmente fazer o aluno participar desse

vocabulário, dessa escrita correta. Porque se deixar ele livre, ele não vai

acabar nem lendo essas coisas assim. Fora que, isso aí, o professor acaba

tendo um controle maior até em saber se o aluno realmente leu ou copiou.

Quando ele sabe mais ou menos onde o aluno vai procurar, ele tem acesso

aos textos. Então o aluno já vai saber: “poxa, se eu copiar e colar, o

professor vai saber”. Então ele vai acabar tendo que ler e escrever […]. É por

isso que, às vezes, eu acho que, embora o computador seja uma coisa que

já faça parte, que a escola tem que orientar o aluno também no computador,

tem que ter um pouco do trabalho à mão, para o aluno escrever mesmo.

Porque o computador tem esse problema, um faz e outro copia, vai assim.

Então a solução, infelizmente, é o trabalho à mão. É a forma que o professor

tem de ter esse controle. E outras coisas procurar digitar. Digitar de

preferência no computador da escola, professor vendo. Que eu acho que é

uma coisa importante. O aluno tem que saber também usar o computador,

tem que saber digitar um texto. Então, eu acho que o grande desafio da

escola hoje em dia é saber justamente trabalhar com essas duas realidades.

Trabalhar com a realidade do aluno, vamos colocar assim entre aspas […] o

informal, e conseguir manter o aluno também com um vocabulário com uma

escrita formal pra quando ele precisar ele ter esse acesso.

 

Alipson aponta a necessidade de que a escola se atualize, aproveitando esse momento em que o acesso à internet é muito frequente entre os jovens. A escola poderia usar os aspectos positivos da internet para direcionar os alunos para determinados conteúdos que disponibilizam um vocabulário e uma escrita corretos. Isso acabaria com a questão da cópia porque, professores e alunos acessando os mesmos conteúdos, não seria possível aos alunos copiar um conteúdo qualquer sem que o professor percebesse. Na continuidade da fala de Alipson, emerge não mais a mediação, mas o direcionamento. Até mesmo na obrigatoriedade do

uso da escrita manuscrita como forma de coibir a mera cópia 9.

Mas a internet, como o próprio Alipson reconhece, “é uma fonte muito enriquecedora de você procurar trabalhos”, disponibilizando “sites oficiais, […] sites de pesquisas, de estudos” e a escola “não tem como proibir o acesso dos alunos a esses sites”, “sendo uma coisa para ser usada”, havendo hoje “o acesso muito fácil à informação”.

As falas anteriores acentuam a necessidade de não deixar por conta apenas dos alunos a utilização de tais recursos. Esse é um aspecto importante porque não encontramos nenhuma referência entre os professores sobre a superioridade dos mais jovens sobre os mais velhos no que diz respeito ao uso desses artefatos, o que normalmente impossibilita qualquer comprometimento dos mais velhos, ou dos professores, que mesmo mais jovens assumem a responsabilidade pela transmissão do legado cultural do grupo, com o que ocorre em relação às práticas dos mais jovens. Entretanto, cabe questionar qual será o melhor caminho para capacitar o aluno para se relacionar com esse conteúdo ilimitado? Direcionando os sites que os alunos podem acessar sob o argumento de que só os conteúdos corretos devem ser acessados? Será esse o papel que a escola deve buscar para si, o de direcionar o aluno, prescrevendo como deve ser seu acesso à internet?

Ao mesmo tempo, é importante observar que, se de um lado as falas valorizaram de algum modo suportes como a televisão e o computador/internet, ficou indicado que, na prática, esse ideal está longe de ser algo comum no cotidiano da escola em questão. A professora Deise mesmo fala sobre isso quando pergunto a ela se valorizamos esses outros tipos de leitura.

 

(Deise) Não, basta ver o que acontece com o uso da sala de informática,

onde os alunos só têm acesso quando são trazidos por um professor e de

forma direcionada. Não há liberdade do uso. Em casa, o uso do computador

pode ser variado, você pode abrir sites de diferentes jornais.

 

Os alunos, e mesmo os professores, foram quase unânimes em apontar as dificuldades de uso do laboratório de informática, ou porque fica sempre fechado, ou porque desconhecem como ele funciona. Outra dificuldade é o bloqueio do acesso a determinados sites, o que impossibilita este papel de mediar que a escola poderia desenvolver junto aos alunos, já que são os espaços virtuais mais frequentados pelos alunos que, de maneira geral, são objeto dos bloqueios.

No caso dos alunos, eles ainda afirmam que os professores, de maneira geral, não fazem indicações de conteúdos disponíveis na internet ou televisão. Os alunos sequer veem os professores

utilizando os computadores que receberam em suas aulas10. Ainda que muitas razões possam ser utilizadas para explicar essa ausência, ela ainda persistirá. Mesmo agora, os computadores que equipam as salas de aula são avaliados como uma simples ferramenta de controle do professor e sistematização de seu trabalho burocrático.

Por fim, quero acrescentar que o maior desafio da escola não é a simples incorporação das denominadas novas tecnologia ao ambiente escolar. A lógica que orienta o ensino nessa escola é a da cultura impressa. Como analisa Martín-Barbero e Rey (2004, p. 55), desde o surgimento da imprensa constituiu-se uma cultura do texto, que estruturou uma forma específica de “comunicação exclusiva entre os adultos, instaurando uma marcada segregação entre adultos e crianças”. Na verdade, continuam os autores, foi todo um mundo de separações que foi criado pela cultura do texto: das identidades, das etapas da aprendizagem, dos dispositivos de controle social da informação.

É esse modelo, estruturado a partir das características da cultura impressa, que parece hoje cada vez menos sustentável em função das modificações nos processos e nas técnicas de comunicação que ocorrem já há algum tempo, tornando ainda mais necessária uma reavaliação do papel da escola e dos processos educativos.

Hoje estão disponíveis inúmeros meios para armazenar e acessar aquilo que antes somente o livro disponibilizava. Os indivíduos convivem com uma multiplicidade de “textos, relatos e escrituras (orais, textuais, visuais, musicais, audiovisuais, telemáticos)” (MARTÍN-BARBERO e REY, 2004, p. 58). Esta heterogeneidade atua de modo a transformar os modos de ler, representando uma reorganização das leituras e das escritas.

Confrontada com um ecossistema comunicativo que desloca o livro como eixo tecnopedagógico e constitui um processo educativo difuso e descentrado, a escola precisa reconhecer esta nova dinâmica na qual o saber, antes restrito espacialmente e limitado a determinados suportes e figuras sociais, escapa de ambos. Escola, livro, professores; todos são deslocados e desafiados por este novo contexto (MARTÍN-BARBERO e REY, 2004, p. 59).

Tal dispersão e fragmentação possibilitam que o saber escape ao controle e à reprodução, que constituem os seus tradicionais lugares de legitimidade e de circulação. A escola não poderia desconhecer essas modificações. Tampouco pode reconhecê-las simplesmente como mero avanço tecnológico, limitando-se a introduzir na prática pedagógica o uso das mídias. Agindo desta forma, todo o complexo conjunto de transformações que está em curso seria reduzido a uma utilização meramente instrumental de recursos tecnológicos “novos”, “modernos”, “avançados”. Assim, as análises de Martín-Barbero (INFORMAR ANO) dimensionam o enorme desafio que é hoje proposto à escola e aos educadores.

Desafio que só pode ser enfrentado se reconhecermos, como afirma o mesmo autor, que “se já não se escreve e nem se lê como antes é porque tão pouco se pode ver nem representar como antes” (MARTÍN-BARBERO, 2010, p. 45).

Trata-se, como afirma o autor, de substituir o discurso moralista, que valoriza a cultura do texto e os aspectos a ela relacionados, que em nosso caso estruturam a prática escolar mesmo na ausência física e simbólica do livro impresso, por um compromisso ético que, reconhecendo “a tecnicidade midiática como dimensão estratégica da cultura” (MARTÍN-BARBERO, REY, 2004, p. 63), reconheça também a necessidade de a escola estar inserida neste processo de mudança que vivemos e na possibilidade do conhecimento transbordar hoje os seus limites (da escola) físicos.

As novas mídias em seu processo de desterritorialização e de nova relação com o tempo instituem uma nova forma de relação dos jovens com os conteúdos escolares. Esta relação se dá de modo contínuo, ou seja, mesmo fora do espaço e do tempo escolar os alunos continuam a se relacionar também com estes conteúdos. Os diferentes aspectos da vida passam a ser amalgamados, lazer, sociabilidade, aprendizado, etc.. A escola precisa conhecer de que forma os jovens se relacionam com estes aspectos fundamentais da cultura sob pena de tornar os processos educativos meramente formais, pouco significativos.

 

Referências

 

FLUSSER, V. A escrita: há futuro para a escrita? São Paulo: Annablume, 2010.

 

FREITAS, M. T. A. Escrita teclada: uma nova forma de escrever. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPED, 23., 2000, Caxambu. Anais… Caxambu: informar editora, 2000. p. 1-19. Disponível em:

<http://23reuniao.anped.org.br/textos/1011t.PDF>. Acessado em: 20 de jul. 2016.

 

GOULART, C. Letramento e novas tecnologias: questões para a prática pedagógica. In: COSCARELLI, C. V. ; RIBEIRO, A. E. (Org.). Letramento digital: aspectos sociais e possibilidades pedagógicas. 2. ed. Belo Horizonte: Ceale; Autêntica, 2007. p. 41-58.

 

HAVELOCK, E. A. A revolução da escrita na Grécia e suas consequências culturais. São Paulo: UNESP; Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

 

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