Dinâmicas e suportes para conhecer, reconhecer e integrar saberes em Comunicação e Educação

Eliana Nagamini, Ana Luisa Zaniboni Gomes (orgs.) · Capítulo 4 de 23

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Dinâmicas e suportes para conhecer, reconhecer e integrar saberes em Comunicação e Educação

Comunicação e Educação: bases epistemológicas fundamentadas na perspectiva dialógica de Paulo Freire

Comunicação e Educação:

 

bases epistemológicas

 

fundamentadas na perspectiva

 

dialógica de Paulo Freire

 

Affonso Henriques da Silva Real Nunes1Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ

 

Denise Cortez da Silva Accioly2 Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN

 

Sandra Mara de Oliveira Souza3 Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN

 

O presente artigo tem como objetivo principal refletir sobre a atuação do Grupo de Estudos e Pesquisa em Comunicação e Educação (Combase) do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, composto por pesquisadores dos campos da Comunicação e da Educação. Discorre ainda sobre sua base científica e epistemológica, que tem como fundamentos as ideias de Paulo Freire sobre Comunicação e Educação (1979, 1983, 1995, 1996, 1999, 2002, 2003) e autores com os quais esses conceitos dialogam. Dentre eles, podemos destacar Habermas (1989, 2002, 2003), que enfatiza a importância da comunicação livre e emancipada como estratégia para a humanização do mundo atual, permeado pelas velhas e novas tecnologias da informação e comunicação. Habermas aponta, como a principal causa dos problemas que desumanizam as sociedades contemporâneas, o grande déficit de comunicação, em plena era das comunicações. Desta forma, assim como Freire, Habermas reconhece o diálogo como uma exigência ontológica.

O Professor Arnon Alberto Mascarenhas de Andrade (2015, p. 12), que tem sido o coordenador da Combase desde seu surgimento enquanto base de pesquisa, ainda na década de 1990, destaca que:

 

o Grupo de Pesquisa em Comunicação e Educação (COMBASE) foi um dos

primeiros grupos de pesquisa da área de educação da Universidade Federal

do Rio Grande do Norte (UFRN) e seu interesse tem sido focado nos

aspectos teóricos da Comunicação e da Educação bem como nos aspectos

relacionados com o uso da tecnologia da informação e da comunicação

(TIC’s) na vida social e na educação. Temos também estudado o que tem

sido nossa principal referência teórica — os conceitos freireanos de

Educação e Comunicação e os autores com os quais esses conceitos se

articulam .

 

Na concepção de Andrade (2015), o nosso papel enquanto educadores e pesquisadores é conhecer o sujeito e suas necessidades para, a partir daí, buscar as melhores formas de utilização da tecnologia que possa servir de apoio didáticopedagógico aos professores e de ferramenta de apoio à aprendizagem do aluno. Estes dois polos, ensino e aprendizagem, precisam estar em sintonia para que as mudanças se efetivem nas práticas educacionais. No entanto, é imprescindível o papel do professor como estrategista deste processo. Mas, isso não é o que estamos vendo acontecer; muito pelo contrário, o que a realidade nos mostra é que muitos educadores estão deslumbrados com as possibilidades que a tecnologia oferece, alheios à experiência comunicacional, à interação e à colaboração com os sujeitos e adotam uma visão puramente instrumental.

Pinheiro (2013) destaca que algumas pesquisas vêm sendo desenvolvidas no intuito de mapear as produções e identificar a relação Comunicação/ Educação que também tem sido objeto de estudo de várias pesquisas a partir de alguns parâmetros distintos, como a dissertação de mestrado de Patrícia Horta Alves (ALVES, 2002), que faz um levantamento sobre a produção discente em comunicação e educação no Brasil, entre os anos de 1994 e 1998; o artigo de Solange Puntel Mostafa (MOSTAFA, 2011), que por meio da pesquisa bibliométrica faz um levantamento de autores nacionais e internacionais mais citados na revista Comunicação e Educação, de 1994 a 2001; e a tese de doutorado de Ligia Beatriz Carvalho de Almeida (ALMEIDA; LOBATO; GHAZIRI, 2015), que levanta a produção literária sobre o tema da Educomunicação.

De acordo com o levantamento de Pinheiro (2013), vários pesquisadores analisam os artigos publicados nos maiores congressos das duas áreas: INTERCOM (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação), COMPÓS (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação) e ANPED (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação). Claudio Messias (MESSIAS, 2011), por exemplo, em sua dissertação de mestrado defendida na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), faz uma comparação entre os papers apresentados na INTERCOM e na ANPED e as teses e dissertações defendidas na própria ECA/USP, investigando como a Educomunicação é apropriada pelos pesquisadores. No mesmo ano, Alexandra Fante Nishiyama busca, em sua dissertação de mestrado na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), as teses e dissertações disponíveis no site da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) sobre a relação Comunicação Comunitária e Mídia-educação, entre os anos 2000 e 2009.

Sendo assim, tendo como fundamento algumas pesquisas já realizadas nesse sentido, procuramos apresentar parte da trajetória da Combase no intuito de que possa servir de aporte para futuros pesquisadores, contribuindo assim com o estado da arte na área da Comunicação/Educação. Tal investigação tem como caminhos metodológicos o levantamento e posterior análise de um recorte da produção científica do Grupo para identificar suas principais bases científicas e epistemológicas.

 

A Educação na perspectiva de Paulo

 

Freire

Freire (1983), na Pedagogia do Oprimido, discute dois tipos de educação: uma que ele chama de educação bancária e outra de educação libertadora. A primeira está ligada à pedagogia dos opressores, enquanto a segunda prende-se aos anseios de libertação dos oprimidos e se identifica com a pedagogia libertadora.

A pedagogia do oprimido, humanista e libertadora que é, compõese de dois momentos: num primeiro, os oprimidos tomam consciência de sua opressão e vão desvelando o mundo da opressão, comprometendo-se na práxis com a sua transformação; num segundo momento, quando é transformada a realidade opressora, a pedagogia dos oprimidos passa a ser a pedagogia dos homens em processo de contínua libertação.

Na concepção da educação dita bancária, o educador faz comunicados e depósitos que os educandos recebem de forma passiva, memorizam e repetem. Nesse tipo de educação, não há criatividade, nem transformação, nem saber. “Na visão‘bancária’ da educação, o ‘saber’ é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber” (FREIRE, 1983, p. 67). Nessa concepção, o educador é o que educa; os educandos, os que são educados; o educador é o que sabe e os educandos os que não sabem; o educador é o que pensa, enquanto os educandos são pensados; o educador é o que diz a palavra e os educandos os que a escutam docilmente. Segundo Freire (1983, p. 70),

 

o que não percebem os que executam a educação “bancária”,

deliberadamente ou não (porque há um sem-número de educadores de boa

vontade, que apenas não se sabem a serviço da desumanização ao

praticarem o “bancarismo”) é que nos próprios “depósitos”, se encontram as

contradições, apenas revestidas por uma exterioridade que as oculta. E que

cedo ou tarde, os próprios “depósitos” podem provocar um confronto com a

realidade em devenir e despertar os educandos, até então passivos, contra a

sua “domesticação”.

 

A educação libertadora, problematizadora e criativa implica a superação da dicotomia educador/educando, de tal forma que sejam ambos simultaneamente educadores e educandos, educando-se em diálogo com o mundo, tornando-se sujeitos do processo educativo e crescendo juntos. A educação passa a ser uma prática para a liberdade, que envolve reflexão e crítica, e se faz sempre por meio do diálogo entre educando e educador. O diálogo entre eles constitui a essência da educação para a liberdade. Para Freire, não há educação sem diálogo. Reflexão, crítica e diálogo formam a trilogia responsável pela educação libertadora, que é também problematizadora e oposta à educação bancária.

Para o educador/educando, o conteúdo programático da educação libertadora não é uma doação ou uma imposição — um conjunto de informes a ser depositado nos educandos —, mas a devolução organizada, sistematizada daqueles elementos que o educando lhe entregou de forma desorganizada. Na concepção de educação defendida por Paulo Freire, três ideias perpassam toda sua obra: democracia, liberdade e diálogo. Essas ideias têm como pano de fundo a questão ética.

Segundo Morin, Ciurana e Motta (2003), a prática educativa deve ser exercida como uma missão. O ensino tem que se tornar uma tarefa política por excelência, uma missão de transmissão de estratégias para a vida, que exige naturalmente competência e, além disso, requer uma técnica e uma arte. Morin (MORIN; CIURANA, MOTTA, 2004) evoca o pensamento de Platão, segundo o qual o Eros é condição indispensável de todo ensino: “O eros, que é, a um só tempo, desejo, prazer e amor, desejo e prazer de transmitir, amor pelo conhecimento e amor pelos alunos” (MORIN; CIURANA, MOTTA, 2004, p. 101-102).

 

A comunicação freireana

 

Paulo Freire foi um dos primeiros educadores a traçar um conceito de Comunicação e sua ligação com a Educação. Em seu livro “Extensão ou Comunicação?” (1979), estabelece uma noção de Comunicação que se insere no agir pedagógico libertador. Para esse autor, a Comunicação é co-participação dos sujeitos no ato de pensar. “O que caracteriza a comunicação enquanto este comunicar comunicando-se, é que ela é diálogo, assim como o diálogo é comunicativo” (FREIRE, 1979, p. 67). Para Freire (idem, p. 69) “a educação é comunicação, é diálogo, na medida em que não é a transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados”.

O conceito de Comunicação como diálogo, pensado por Paulo Freire na década de 1960, quando ele ainda se encontrava no Brasil, posteriormente expandiu- se por vários países, chegando até Guiné Bissau, com repercussão nos Estados Unidos, onde sua principal obra, Pedagogia do Oprimido, foi traduzida e depois divulgada por mais de 15 países.

Desde os anos de 1970, Paulo Freire já era estudado fora do Brasil, todavia o assunto comunicação como diálogo ainda não havia chamado a atenção dos estudiosos do seu pensamento, o que só ocorreu a partir do trabalho que desenvolveu como consultor internacional das Nações Unidas, em projetos de reforma agrária e extensão rural no Chile na década de 1960. Na obra “Extensão ou Comunicação?” (1979) discute com mais pormenores a noção de Comunicação, embora de forma embrionária já estivesse presente na sua primeira obra, “Educação e atualidade brasileira”, publicada somente em 2001, após sua morte.

 

O conceito de Cultura e a questão do Diálogo estão intimamente ligados ao

de Comunicação como troca de experiência. Tais conceitos estão presentes

no método de alfabetização desenvolvido em Angicos, município do Rio

Grande do Norte, por volta de 1960. Cultura é um conceito fundamental, pois

é em torno dele que gira todo o processo de aprendizagem como

conscientização. Ao relatar suas experiências educacionais com operários

na cidade do Recife, afirma: “nessa intimidade com grupos de operários e

líderes operários também é que fomos compreendendo coisas tão claras e

simples como esta: a necessidade entre os políticos e o povo, de uma

comunicação existencial” (FREIRE, 2002, p. 22).

A integração ao seu contexto, resultante de estar não apenas nele, mas com

ele, e não a simples adaptação, acomodação ou ajustamento,

comportamento próprio da esfera dos contatos, ou sintoma de sua

desumanização, implica que, tanto a visão de si mesmo, como a do mundo,

não podem absolutizar-se, fazendo-o sentir-se um ser desgarrado e

suspenso ou levando-o a julgar o seu mundo algo que apenas se acha. A

sua integração o enraíza (FREIRE, 2003, p. 50).

 

A ideia de comunicação dialógica de Paulo Freire baseia-se no respeito pelo outro, não visa à acomodação ou ajustamento, mas enfatiza a integração que torna o homem sujeito de suas ações e o afasta da condição de objeto, de dominado, sem vez e sem voz. Enquanto a adaptação é um conceito passivo, a integração implica engajamento no sentido de mudar, de transformar a realidade, criticando-a para ser capaz de mudá-la.

 

Trajetórias de pesquisas na

 

perspectiva de Paulo Freire

 

Para contextualizar e servir de exemplificação, propomos inicialmente apresentar duas dissertações e uma tese defendidas na Combase, bem como um projeto de pesquisa decorrente de uma dissertação de mestrado também defendida na Combase. Todos esses trabalhos foram desenvolvidos pelos autores deste artigo.

Na dissertação de Accioly (2006), o objetivo foi analisar as representações sociais da Televisão, por parte de mães/educadoras, enquanto telespectadoras, para compreender o significado dessa mídia no seu cotidiano e as mediações que ocorrem entre educador/educando dentro da sala de aula. O objeto de estudo foi o papel da Televisão na Educação, que se apoia na abordagem da representação social. Procurou revelar, através da fala de cinco educadoras que exercem suas atividades pedagógicas no Ensino Fundamental da Rede Pública de Ensino da cidade de Natal (RN), experiências significativas para um avanço da educação para as mídias. Entender qual a representação que as educadoras têm sobre a Televisão contribuiu também para reflexão e análise crítica sobre a mídia na formação dos professores. Sendo a técnica verbal uma das formas mais comuns de acessar as representações, utiliza-se como estratégia metodológica a entrevista aberta, orientada por um roteiro amplo e flexível, dando espaço suficiente às entrevistadas para expor suas ideias, evitando impor pré-concepções e categorias, o que possibilitou acesso a um rico material.

O estudo teve como principais pressupostos teóricos a contribuição do mexicano Orozco Gómez (1996, 2001) pesquisador latino-americano, que, influenciado pelas ideias de Paulo Freire (1979, 1983, 1996, 2002, 2003) e Martín-Barbero (1994, 2003), estabelece um diálogo entre Educação Popular e as Teorias da Comunicação, sobretudo no que se refere aos estudos de recepção da Televisão, em que desenvolve o enfoque integral da audiência ou modelo das múltiplas mediações.

Nessa pesquisa concluímos que a Escola, assim como a Família, é importante mediadora das informações veiculadas pela mídia. A relação que os docentes estabelecem com a Televisão e a representação que têm dela em suas vidas refletem de forma marcante na sua prática profissional e no diálogo da mídia dentro do espaço escolar, podendo contribuir para a reflexão crítica que os educandos estabelecem com o meio através da mediação das educadoras.

Nessa mesma direção foi o trabalho de dissertação de Souza (2002), intitulado “Giz, câmera, ação: uma experiência de leitura e produção da imagem como resgate profissional do educador”, que proporcionou a elaboração coletiva de um produto audiovisual abordando a Pluralidade Cultural, tema transversal dos Parâmetros Curriculares Nacionais.

Através do discurso dos envolvidos, constatou-se o caráter transformador e dialógico que a experiência de ser produtores obteve à medida que os participantes discutiam, sugeriam, mobilizavam, elaboravam. O grupo produtor incorporou as propostas que o vídeo pretendia despertar. O grupo, no papel de produtor, teve a percepção de diagnosticar os locais de ocorrência da pluralidade e de reivindicar o seu lugar enquanto educadores na concretização de projetos envolvendo questões culturais no município de Parnamirim, região metropolitana de Natal, estado do Rio Grande do Norte, local de realização da pesquisa.

Ao analisar os depoimentos dos participantes do vídeo, a autora verificou alterações no “estilo cognitivo” do grupo, ou seja: o significado atribuído ao cotidiano, ao vivenciado, foi mudando conforme o decorrer da pesquisa. O cotidiano, no entanto, constitui-se numa dimensão estruturante da realidade e, se é nele que se localizam focos de resistência, criatividade e mudança, é também o de alienação e reprodução. Isso ficou claramente explícito quando da escolha de um documentário no formato “clássico” popularizado pela televisão e quando, em algumas circunstâncias, procuravam, por assim dizer, “esconder” o que não julgavam conveniente “aparecer” no vídeo, já que se tratava de um documento que perpetuaria o grupo enquanto autores e atores.

O vídeo foi um elemento mediador. A exibição do vídeo mobilizou artistas, uma vez que na trilha constava a música de um compositor local; antigos moradores, que se dispuseram a ser entrevistados; movimentos sociais, o grupo esteve presente numa reunião da Associação de Apoio ao Adolescente; a Igreja Católica, que cedeu o Centro Pastoral para a exibição; e a universidade, representada pela equipe responsável e convidados. O grupo mobilizou também autoridades locais, as quais se fizeram presentes durante o evento, que, além da exibição do vídeo, oferecia mais dois eventos paralelos: uma exposição fotográfica e o lançamento de um catálogo sobre uma das mais tradicionais escolas de Parnamirim: o Colégio Cenecista Augusto Severo.

Seguindo as pistas de Paulo Freire, o trabalho foi ao encontro da transformação social, trabalhando na perspectiva educomunicativa, levando em conta, principalmente, conteúdos críticos. Não apenas em termos instrumentais (questões técnicas), mas, sobretudo, através da análise ideológica presente no discurso dos meios de comunicação e no contraponto oferecido pelo diálogo quando também puderam ser os produtores de conhecimento.

Nesse sentido, a tese de Souza (2009) partiu do pressuposto freireano de que o diálogo é condição essencial para a plena efetivação da Comunicação e teve como objetivo verificar se a mídia, no contexto de uma sociedade midiática e midiatizada, possibilita esse diálogo. Considerou que não é possível chegar a uma resposta se continuarmos a aceitar a abordagem teórica que polariza o processo da comunicação entre emissor e receptor. Utilizando-se de elementos da etnometodologia como a análise da conversação e a reflexividade, a tese mergulhou no cotidiano de educadores e educandos de uma escola pública de Ensino Fundamental na cidade do Natal, capital do Rio Grande do Norte, para, através de algumas experiências com a mídia, corroborar as ideias de Paulo Freire, reafirmando a mediação feita pelo mundo e, no contexto escolar, pelo professor.

O estudo fundamentou-se em autores como Freire (1979, 1983, 1996, 2003), Bohm (2005), Maturana (MATURANA; VARELA, 1997) e Sodré (1984) e concluiu que a mídia, por si só, não contém os componentes necessários ao diálogo. Ela se reveste de um caráter distanciador do humano, à medida que apresenta toda uma gama de representações “perfeitas”, prontas. Assim sendo, como pensar que é possível que a comunicação efetivada pelo diálogo ocorra nos moldes com que tem sido perpetrada por ela? A mediação, que intrinsecamente deve ser feita pelo mundo, acaba sendo feita pela mídia, que assume a representação da realidade.

Nessa direção também desponta a pesquisa de Nunes (2014), membro da Combase entre os anos de 2003 e 2011 e atual professor adjunto do Departamento de Jornalismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). A pesquisa atual é fruto de reflexões desenvolvidas, principalmente, no trabalho de mestrado de Nunes (2006) desenvolvido junto à Combase, que teceu considerações a respeito do ensino da língua portuguesa na televisão e promoveu uma crítica ao meio. Partiu-se de conceitos de Paulo Freire para uma educação voltada ao mundo, à vida em movimento, que tira a escola da condição de micro-célula social para integrá-la à sociedade como um todo. A esses conceitos, se reuniram vozes como a de Sodré (1984), que discute questões como a comunicação em sociedade, o diálogo e a fala institucionalizada da televisão. Indispensável também foi, nesse contato dentro da Combase, conhecer as ideias da Escola de Frankfurt, como a reprodutibilidade técnica de Benjamin (1990), e como elas se relacionam com a difusão em massa. Foi com a tomada de consciência fundamental a respeito do funcionamento dos mecanismos internos da televisão, com a orientação do Professor Arnon, que o autor reuniu as condições para se lançar em uma nova pesquisa a respeito do meio televisivo.

O projeto TV UERJ Online foi criado em 2001 como TV UERJ Online e passou por várias fases de desenvolvimento e coordenadores. Sua proposta inicial, mantida até Nunes assumir sua coordenação em 2014, era replicar uma redação de telejornalismo na universidade. Assim, foi criada uma “grade de programação” com diversos programas semanais e um telejornal. Pode-se dizer que constituía um simulacro, uma vez que copiava a estrutura da TV sem os seus recursos humanos e técnicos. Hoje, a nova orientação é buscar uma expressão audiovisual para a informação veiculada na internet, compreendendo que isso não pode significar, reduzidamente, produzir reportagens em vídeo nos moldes da televisão e exibi-las na rede.

 

Como a distribuição de todas as formas de cultura se tornou baseada em

computadores, estamos cada vez mais mediados por dados

predominantemente culturais — textos, fotografias, filmes, música,

ambientes virtuais. Em resumo, não somos mais mediados pelo computador,

mas pela cultura em forma digital (MANOVICH, 2001, p. 69-70, tradução

nossa).

 

Deve-se, portanto, buscar uma cultura digital que possa ser aplicada às reportagens em vídeo. Sabe-se que a internet requer uma linguagem específica porque os internautas experimentam distintos hábitos de navegação. O senso comum discorre sobre a duração dos vídeos — que devem ser curtos —, mas esse conceito por si só não dá conta daquilo que se persegue em meio à diversidade da rede: conquistar a atenção de um público que tem opção de escolha e muito o que escolher. Os telejornais já apresentam reportagens curtas, em sua média, mesmo assim, a audiência não se sustenta.

A saída, entende-se, estaria na busca de uma comunicação visual e sonora. A publicidade desenvolveu uma técnica de vender produtos (ou informações sobre produtos) de maneira sucinta e eficaz. Especialistas em comunicação visual trabalham com um conhecimento amplo de todo o processo. Fornecem, segundo Bergström (2009, p. 11),

 

uma visão panorâmica de toda a corrente, desde a análise, a estratégia e a

narrativa até a mensagem, a imagem, a forma e a cor. A visão panorâmica

cria mais pontos de contato – “interfaces de contato”, se preferir – gerando

mais participação em mais mundos.

Entende-se que um dos exemplos desta prática pode significar trabalhar a qualidade da imagem em si (em movimento ou em fotografias still) e outras possibilidades visuais, como a utilização de elementos gráficos: tipografia e tarjas animadas, com atenção para a seleção intencional de cores. Defende-se que todos os elementos visuais comunicam algo, por isso, devem ser explorados nesse sentido.

Já o cinema documental contemporâneo trabalha com técnicas narrativas que levam em consideração não apenas entrevistas ou a narração, mas trabalham com a intenção do diretor no processo comunicativo. Dancyger (2007) chama isso de “voz”. Segundo o autor, “a voz pode ser estabelecida diretamente pela narração ou gerada de forma distinta do estilo visual ou, ainda, pela utilização da ironia gerada por um contraponto da narração ou da música em relação à imagem ou da combinação de qualquer um desses recursos” Dancyger (2007, p. 365). E complementa, “uma ampla gama de ideias desenvolve-se a partir das decisões musicais do realizador” (DANCYGER, 2007, p. 387).

Assim, a proposta para uma outra abordagem de reportagens audiovisuais noticiosas postadas na internet seria explorar elementos narrativos, visuais e sonoros que desempenhassem funções marcantes dentro de um bloco comunicativo em que cada um destes elementos tivesse uma função relevante. Esse trabalho requer um tempo bem mais elevado de produção e pós-produção do que as matérias convencionais, uma vez que grande parte do processo de acabamento requer mais criatividade e detalhamento do que o de costume.

Em termos educacionais, o desafio está em mudar a concepção entre os alunos daquilo que entendem como reportagem audiovisual, porque suas referências estão na televisão e no telejornalismo. Daí a necessidade de encontrar o conceito de “educação libertadora” de Paulo Freire, que propõe uma construção conjunta do saber. Não há como impor uma nova metodologia, radicalmente diferente daquela já consagrada, sem que os alunos compreendam os seus objetivos. Por isso, é necessário que se crie um consenso entre aquele que apresenta (o pesquisador) e aqueles que farão parte do processo (alunos com o pesquisador). A troca é necessária porque esta construção conjunta só pode caminhar com a contribuição de todos e com a percepção de que buscamos uma forma de comunicação que efetivamente atinja o público da internet. Uma busca que tenta compreender (e atender) as ânsias da sociedade em relação à mídia dos dias de hoje.

As pesquisas mencionadas refletem a preocupação recorrente com a compreensão do conceito de comunicação e de diálogo. Além disso, demonstram preocupação com correntes de pensamento que tendem a considerar os símbolos e significados como entidades autônomas em relação aos homens, seus criadores. Os que defendem a autonomia do espectador fundam sua crença no fato de que cada ser humano, por unicidade, é capaz de interpretar as mensagens da mídia a partir de seus próprios referenciais pessoais. Entretanto, há que se considerar que, para cada grupo humano, corresponde uma situação fundada no locus social do qual o sujeito faz parte. Os sujeitos são diferentes, mas nem tanto. Há um diverso número de fatores comuns a determinados grupos sociais que compõem a sua cultura e, consequentemente, seu modo de pensar e agir.

 

Considerações

 

Refletir sobre a atuação do Grupo de Estudos e Pesquisas em Meios de Comunicação e Educação (Combase), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), implica em recuperar as escolhas epistemológicas e metodológicas que têm norteado as pesquisas dos seus participantes. No que diz respeito às primeiras, importa destacar que as relações de poder têm se mostrado determinantes para a compreensão do papel que os meios de comunicação têm assumido na sociedade, com especial relevo no campo da educação. Ao se verificar, nas pesquisas supracitadas, a mudança do lugar de espectadores ingênuos para o de leitores críticos e, em alguns casos, ao se propor que alunos e professores sejam, eles mesmos, produtores e difusores de conteúdos, há uma permuta de lugares e de lógicas que contribui sobremaneira para a tomada de consciência, a autonomia e a emancipação dos sujeitos. ANDRADE. A. A. M. de. Os conceitos freireanos da educação e da comunicação e o uso de TICs nos sistemas educacionais. Natal: [S.n.], 2015. 4 p. (Manuscrito não publicado).

As escolhas metodológicas também estão refletidas na concepção do Grupo, que tem optado por trabalhar com pesquisas de cunho qualitativo, buscando levar em consideração as características do objeto estudado bem como as variáveis depreendidas do problema.

 

Referências

 

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