Dinâmicas e suportes para conhecer, reconhecer e integrar saberes em Comunicação e Educação
Educomunicação nas graduações de Pedagogia e Jornalismo: a experiência do DCH III da Universidade do Estado da Bahia (UNEB)
Educomunicação nas
graduações de Pedagogia e
Jornalismo: a experiência do
DCH III da Universidade do
Estado da Bahia (UNEB)
Céres Santo 1 s
Edilane Carvalho Teles2
Francisco de Assis Silva3
Universidade do Estado da Bahia – UNEB
1 Introdução
Esta pesquisa propõe um diálogo interdisciplinar entre a Comunicação e a Educação, a qual analisa a criação de um campo emergente comum, como possibilidade de potencialização dos processos formativos com as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) e mídias em Pedagogia e Comunicação Social em Multimeios. Tem sua gênese nos currículos dos cursos do Departamento de Ciências Humanas — Campus III (DCH III), da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), que têm propostas diferenciadas e apontam para a formação e estudos organizados com a perspectiva de um núcleo de aprofundamento nas discussões sobre a práxis e a relação das áreas, aqui em destaque: a importância e emergência da Educomunicação nos cursos.
As reflexões aqui apresentadas, problematizam, apresentam e analisam o Núcleo do Educom (Educação e Comunicação) na interface dos dois cursos.
2 A Educom no curso de Pedagogia
Segundo informa o Projeto de Reconhecimento do Curso (2011), em 2003, em decorrência da implantação das Diretrizes Curriculares, proposta pelo Conselho Nacional de Educação (CNE, 2005), a UNEB iniciou a reformulação curricular das licenciaturas, resultando, daí, novas matrizes curriculares e mudanças. A proposta aprovada substituiu o currículo anterior com a especificidade em
Educação de Adultos4, ampliando o campo de atuação e formação
do pedagogo. Em seu novo formato5, o currículo passou a oferecer Núcleos de Formações Específicas e diversificadas (Núcleos de Aprofundamentos de Estudos).
A proposição tem organização nuclear na perspectiva interdisciplinar, a qual se apresenta da seguinte forma: 1º) Educação Infantil e Séries iniciais do Ensino Fundamental; 2º) Educação e Comunicação; e 3º) Educação de Jovens e Adultos. Estas três abordagens se dividem na matriz a partir do 5º semestre e no final do curso, exigindo do graduando a escolha por um deles.
O curso tem duração mínima de oito semestres, com carga horária de 3.200 horas, como propõem as Diretrizes (2005). A inovação da proposta está na compreensão de que engessar a formação do pedagogo não promove as mudanças necessárias. Com relação aos estudos e pesquisas para o núcleo de Educom, estes iniciam no terceiro semestre, quando o campo tem a primeira proposta com o componente curricular de Educação e Comunicação e, em seguida, os componentes curriculares Educação e Tecnologias da Informação e Comunicação e Estágio Curricular Supervisionado I (o primeiro de quatro), no qual o/a graduando/a tem a oportunidade formativa de compreender o campo de estágio como práxis das investigações do núcleo.
Na proposição curricular do Educom, existem componentes específicos (formação diversificada) e os demais que envolvem os graduandos dos outros núcleos (formação básica). A seguir, a última parte da formação do curso com a diferenciação do núcleo:
Formação diversificada: Educação a Distância, Linguagens e Comunicação; Didática e Tecnologias, Seminários Temáticos; Laboratório de Comunicação, Tecnologias na Educação; Formação Básica: Arte e Educação, Projetos Educacionais, Educação e Cultura Afro-Brasileira e Estágio Curricular Supervisionado I; Educação Especial, Organização do Trabalho Pedagógico, Trabalho de Conclusão de Curso I (TCC I) e Estágio Supervisionado II; Trabalho de Conclusão de Curso II (TCC II) e Estágio Curricular Supervisionado IV.
A formação diversificada tem oito componentes curriculares, aparentemente permanece a mesma estrutura para todos os núcleos, tendo sua diferenciação nas áreas e temáticas de aprofundamento. Um aspecto importante da perspectiva de formação nuclear interdisciplinar é que a pesquisa está presente continuamente, do primeiro até o quarto semestre com a Pesquisa e Prática Pedagógica (PPP), que deve ter continuidade com o Estágio Curricular, sendo que o primeiro, envolvendo a amplitude de formação e os demais direcionados para as especificidades dos núcleos.
As investigações e conteúdos do componente curricular Estágio Supervisionado levam em consideração as seguintes etapas: 1º) estudos teórico-metodológicos da interface Educação e Comunicação; 2º) elaboração do projeto de estágio no espaço formal e não formal; e 3º) planejamento e elaboração do projeto específico de intervenção e execução.
A proposta do núcleo é que os docentes possam desenvolver outro olhar para além do uso das TICs e mídias como suporte pedagógico e, assim, construir, desconstruir e reconstruir conhecimentos de forma expressiva ao intervir no campo de estágio supervisionado num contexto de práticas educomunicativas.
Após este breve percurso na formação em Pedagogia no contexto da Educomunicação, dialogaremos a seguir com a formação e os desafios do jornalismo e comunicação social no departamento com os processos da Educomunicação.
3 Educom no curso de Jornalismo
Conforme dispõe o documento do curso de Comunicação Social, Jornalismo em Multimeios, o curso foi criado em 2003 e autorizado pelo Conselho Universitário (CONSU), através da Resolução nº
171/20026. O curso compreende nove semestres, e seu projeto pedagógico foi estruturado nos seguintes eixos temáticos: Processo Comunicação Social e Processos Midiáticos; Jornalismo e Linguagens; Jornalismo Comunicação, Sociedade, Educação e Cidadania.
Inicialmente, a matriz curricular estabelecia a oferta das disciplinas Comunicação e Educação I e II nos 4º e 5º semestres, respectivamente. Mas, em 2013, a disciplina passou a ser oferecida apenas no 3º semestre. A ementa era breve, porém com amplo espectro: “Discute os Meios de Comunicação — audiovisuais, sonoros e impressos — na sociedade contemporânea — suas implicações políticas, sociais e econômicas. As potencialidades educativas dos meios”. Hoje, após um percurso, constata-se que a súmula não contempla o conceito de Educom, vastamente divulgado por Soares (2011).
Entretanto, é no seu conteúdo programático que a proposta de Educom é ressaltada. Ele prevê, por exemplo, conteúdos sobre a conceituação de Educomunicação, a Educação comunicacional; a pedagogia comunicacional; o perfil do profissional de Comunicação na Educomunicação; as tecnologias de Comunicação e Educação na escola; o uso das novas linguagens que sensibilizam e motivam aos educandos; a linguagem dos meios e suas possibilidades educativas, os meios como educadores coletivos; Comunicação e Educação: campos e relações interdisciplinares ou transdisciplinares; o uso da imagem, da informação e do discurso na Comunicação de massa e na Educação.
4 Fundamentos da Educom
Os conteúdos desenvolvidos nas disciplinas Comunicação e Educação I e II do Curso de Jornalismo em Multimeios, assim como os que fundamentam o Núcleo do Educom em Pedagogia foram embasados, principalmente, na proposta desenvolvida pelo Núcleo de Comunicação e Educação (NCE) da Universidade de São Paulo (USP) a partir de pesquisas de Soares (2009, 2011, 2012, 2016). Entretanto, outras experiências com algumas semelhanças e distanciamentos teóricos e metodológicos da Educom também são apresentados na formação. Desde os anos 1930 são citadas, em outros países, experiências, como a dos Estados Unidos e Europa, recebendo denominações como media education e media literacy.
Ao fazer uma contextualização da Educom e ações semelhantes voltadas seja para uma leitura crítica da mídia, seja para associar à Educação às TICs, Soares (2012-2013) lista vários países como Canadá, Alemanha, Inglaterra e Austrália. O autor insere a trajetória na América Latina, principalmente das experiências associadas à área de Comunicação Comunitária, e de estudiosos como Jesús Martín-Barbero, Paulo Freire e Mário Kaplún, que impulsionaram uma intervenção resultante da inter-relação da Comunicação e Educação numa perspectiva cidadã e de democratização da Comunicação.
Segundo Soares (2011b), o termo Educom foi usado pela primeira vez em 1999, com o propósito de nomear um novo campo de mediação social e esclarecer sobre os diferentes elementos que formam o conceito. Em síntese, Educom
designa um campo de ação emergente na interface entre os tradicionais
campos da educação e comunicação, apresenta-se, hoje, como um
excelente caminho de renovação das práticas sociais que objetivam ampliar
as condições de expressão de todos os seguimentos humanos,
especialmente da infância e da juventude (SOARES, 2011a, p. 15).
O Educom levou para o ambiente acadêmico as experiências desenvolvidas na sociedade civil e que, segundo Soares (2002), foram cruciais para a proposição desse novo campo de conhecimento. O trabalho, continua Soares (2002, p.24), nomeou a Educomunicação como o “[…] conjunto das ações inerentes ao planejamento, implementação e avaliação de processos, programas e produtos destinados a criar e a fortalecer ecossistemas comunicativos em espaços educativo […]”. Na verdade, essa nomeação seguia uma tradição latino-americana de associar os meios de informação aos interesses da população e
não exatamente do mercado ou dos sistemas econômicos e políticos. Hoje,
inúmeras organizações do movimento social entendem, como a Rede CEP,
que a melhor forma de educar as gerações de crianças e jovens é possibilitar
que entendam como funcionam os sistemas de informação. É garantir a
todos o indispensável acesso às tecnologias, a partir, contudo, de alguns
pressupostos básicos, que passamos a considerar (IDEM, s/d, p.8).
Os dados colhidos pela pesquisa vislumbraram, ainda de acordo com Soares (2011a, p. 28), mais do que
um crescente interesse pelo assunto em questão, mas, sobretudo, a
existência de um “processo de sistematização teórica que aponta a
interdiscursividade e a interdisciplinaridade como elementos essenciais da
epistemologia do campo, evidenciados no desenho do perfil do novo
profissional a ele dedicado”.
Nesse sentido, a Educomunicação torna-se um paradigma a partir do casamento entre as áreas de Comunicação e Educação que vai dar consistência a um novo conjunto de iniciativas, algumas próprias do planejamento, implantação e avaliação de processos, além de provocar outras ações como, segundo Soares (2012-2013), o debate das condições da relação dos sujeitos sociais com o sistema midiáticos, com a presença ou mediação das TICs e estimular os ecossistemas educacionais.
Aliás, Soares (2011) explica que, para a compreensão e entendimento da importância dos ecossistemas educacionais, é preciso que se entenda também o percurso da sua criação, designado como “áreas de intervenção” do novo campo. E que eles, os ecossistemas educacionais, receberam influências diretas de outras noções, principalmente, às ligadas a questões de preservação do meio ambiente e, mais especificamente na área de Comunicação, da expressão usada por Pierre Lévy “ecologia cognitiva”, para mencionar o estudo das avaliações da cognição, em termos técnicos e coletivos.
Ainda sobre o significado de ecossistemas comunicativos, Soares (2011b) também cita Martín-Barbero quando trata de questões ligadas à aprendizagem e à vida social. O qual entende como ecossistema comunicativo todo o entorno que envolve o sujeito social, sendo ele difuso, porque amalgama saberes e linguagens diversas, e descentrado, em decorrência do fato de que os dispositivos midiáticos superam aos que tradicionalmente servem a educação, como escola e livros. Nesse sentido, destaca que o desafio que o ecossistema comunicativo traz para a Educação não se limita à apropriação das TICs, mas à emergência de uma nova ambiência cultural.
Nesse ponto, Soares (2011b, p. 44) destaca a inserção de um novo papel aos ecossistemas comunicativos: o de se constituir “em um sistema complexo, dinâmico e aberto, conformado como um espaço de convivência e de ação comunicativa integrada”. Nesse sentido, o conceito fica assim definido: “um conjunto de ações inerentes ao planejamento, implementação e avaliação de processos, programas e produtos destinados a criar e a fortalecer ecossistemas comunicativos”. (SOARES, Ib., p. 44)
Essas ações de Educom vão se deparar com situações mais ou menos áridas, mas decorrentes de intervenções relacionais abertas e criativas. Em um ambiente educacional, o ecossistema comunicativo não se limita apenas à convivência entre as pessoas que formam aquela atmosfera, mas também às relações decorrentes das práticas educativas, como as inter, trans e multidisciplinaridades. Ou seja, interfere nas regras que norteiam essas relações e, consequentemente, é estruturante da Pedagogia da comunicação.
Ainda segundo Martín-Barbero (2011), uma das materializações dos ecossistemas educativos é a relação, por exemplo, dos jovens com as tecnologias. Ele constata que esse grupo tem uma maior empatia cognitiva e expressiva que rompe com as práticas “dos adultos” promovendo outra dinâmica para a comunicação, a circulação do saber.
Nota-se que as TICs têm promovido desafios ao modelo pedagógico tradicional — ou bancário, como denominou Paulo Freire — e também na aceitação de produtos midiáticos. Inclusive, Fígaro (2011) destaca que os estudos de recepção têm sugerido uma nova abordagem dos Meios de Comunicação, na qual possam ser vistos como parte da interação social. Mas, para isso, é preciso desconstruir uma concepção limitada, retrógrada e anterior aos estudos da mídia. E nesse caso, para Fígaro (2011), a Educom torna-se um dos desafios para uma possível mudança de compreensão do papel dos Meios de Comunicação pela sociedade.
Para a autora (Ibidem), esse cenário social exige do/a professor/a uma intervenção mediadora diferenciada, principalmente, da leitura da diversidade presente nas mídias. “Ver os Meios de Comunicação também como produtos do trabalho social” (FÍGARO, 2011, p. 97). Para isso, prossegue Fígaro (Ibidem), o/a professor/a deve questionar sua prática a partir de uma visão ampliada, observando a realidade e os discursos presentes dentro e fora do ambiente educacional.
Quando o/a educador/a, assim como a escola, assume o papel de mediador/a social, precisa questionar suas práticas. Hooks (2013) traz contribuições significativas, que associamos ao Educom, ao comentar que a sala de aula não pode se transformar em um espaço de tédio e sim de prazer, de entusiasmo. E que, para isso, são necessárias estratégias pedagógicas que até perturbem a ordem estabelecida. É nesse interstício em que ficam frente a frente um modelo escolar tradicional e as novas exigências ou expectativas dos/as estudantes, associadas às TICs, no qual a Educom encontra terreno fértil para se desenvolver. Inclusive Costa (2010), ao tratar como um novo paradigma, na qual a linguagem opera como mediadora, cita Citelli:
Os sujeitos não aprendem mais unicamente em sala de aula, ela não é o
espaço exclusivo da aprendizagem, e ela ainda possui muitos concorrentes,
os Meios de Comunicação, as novas tecnologias, os ambientes virtuais que
participam diretamente na formação das crianças, jovens e adultos. O papel
antes hegemônico que a escola possuía diante do tema educador passou a
sofrer interferências de outras instituições formadoras, como os Meios de
Comunicação (CITELLI, 2000, p. 244, apud COSTA, 2010, p.49).
A Educom contribui, de forma singular, na ressignificação da Comunicação na Educação, na leitura crítica dos Meios de Comunicação, por exemplo, ao mesmo tempo em que recorre para a sua implantação a mecanismos que, em síntese, transitam nas áreas dos Direitos Humanos e na democratização da Comunicação. Nessa perspectiva e por conta dessas identidades viscerais, a Educom se associa à Pedagogia da Comunicação, tendo como um dos seus principais fomentadores John Dewey.
Nela, os processos educativos partem de um lugar que prevê um percurso de estreitamento das relações, no qual propõe a ruptura com relações hierárquicas de acesso ao conhecimento, distantes da promoção da autonomia do/a sujeito/a. Segundo Costa (2009), esse desenvolvimento do cidadão/ã pela Pedagogia de Projetos é avaliado de forma processual fazendo, muitas vezes, com que o/a docente altere seu cronograma de atividades para atender tempos de aprendizagens distintos. Esse, aliás, é mais um ponto de confluência da Educom e a Pedagogia de Projetos: a preocupação com o/a “outro/a” e o respeito às diferenças.
5 Práxis da Educom no DCH III
Em 13 anos de reconhecimento do curso de Jornalismo em Multimeios do DCH III da UNEB, em Juazeiro, Bahia, Sertão do São Francisco, já foram formados/as 223 jornalistas, de 14 turmas (162 do sexo feminino e 61 do sexo masculino). Durante este percurso histórico de formação das 207 pesquisas de Conclusão de curso apresentadas, apenas 10 foram na área de Educomunicação.
Diferente do curso de Pedagogia, o de Comunicação Social não está organizado em nucleação. Entretanto, os conceitos, projetos e ações têm sido realizados nos componentes curriculares de Comunicação e Educação I e II.
A coleta e os cruzamentos dos dados da Relação dos TCCs do Curso de Jornalismo em Multimeios, que tem como escopo interpretar e compreender a gênese dos estudos e pesquisas do Educom, fornece, inicialmente, dados desanimadores. Afinal, os números demonstram a desmotivação e a falta de interesse dos/as estudantes com essa área. Isso é inegável, pois apenas 10 projetos entre 207 TCCs – ou seja, cerca de 5% dos trabalhos - aborda o campo da Educomunicação (detalhamento na tabela abaixo).
PROJETO 2007 2008 2008 2009 2009 2010 2010 2011 2011
DE TCC
EM 2 1 2 1 2 1 2 1 2
EDUCOM
Jornalismo 3 0 2 0 1 0 1 0 0
em
Multimeios
2012 2012 2013 2013 2014 2014 2015 2015
1 2 1 2 1 2 1 2
Total 10
Tabela criada a partir de dados da Relação dos TCCs fornecidos
pelo Colegiado do curso
Por outro lado, a metodologia utilizada em sala de aula nas disciplinas Comunicação e Educação tem levado esse campo para várias escolas das redes Municipal e Estadual de ensino de Juazeiro, aspecto que podemos destacar como relevante. Pois, mesmo com apenas dois componentes curriculares existem, em situações pontuais, alguns resultados positivos da experiência e manifestações de interesse de alguns discentes pela pesquisa de conclusão de curso. Nesses outros espaços externos à UNEB, o cenário também é desanimador.
Pedroza (2015) realizou uma pesquisa de TCC que mapeou a presença da Educom na rede escolar de Juazeiro/BA e constatou que apenas seis de 59 escolas, localizadas na área urbana da cidade — 35 municipais e 19 estaduais — desenvolviam ações neste âmbito em 2014, por meio dos programas Ensino Médio Inovador (ProEMI) — quatro escolas — e do Mais Educação (PME), programa do Governo Federal — duas escolas. Das 59 escolas, 16 haviam vivenciado alguma experiência educomunicativa. Segundo apurou, vários fatores contribuem para esse cenário, desde a falta de pessoal qualificado até a motivação dos ecossistemas comunicacionais e falta de recursos financeiros quando os convênios são encerrados.
Os dados levantados na pesquisa (PEDROZA, 2015) também sinalizam para a falta ou pouca formação e apropriação dos/as professores/as, em especial das TICs. Essa carência limita a proposição e execução de iniciativas educomunicativas, assim como as deficiências presentes nas escolas públicas em relação à manutenção dos laboratórios de informática. Essa realidade nos remete a outra pesquisa desenvolvida por Citelli (2010), de 2006 a 2008, junto a professores/as dos ensinos Médio e Fundamental, das redes Municipal e Estadual de São Paulo, com idade até 30 anos, para identificar a vivência com as novas tecnologias.
Na época, uma das preocupações da pesquisa foi conhecer como o segmento, com recorte etário, se relacionava com os Meios de Comunicação. Um dos questionamentos — “você possui computador pessoal?” — foi assim respondido: 69 sim e 10 não. Já a pergunta “você é usuário de computador?” teve resposta afirmativa em 100% dos entrevistados, sinalizando para um crescimento positivo, já que em 1996, apenas 39,29% usavam computadores.
Outra questão da pesquisa foi saber se os/as docentes haviam feito, em seus cursos de formação, alguma disciplina voltada para o estudo da Comunicação e da Educação: 22% responderam sim; 55%, não; e 2% se abstiveram. Ao analisar os dados levantados, Citelli (2010, p. 25) afirma que
a maioria dos respondentes declara não haver frequentado, em seu percurso
curricular de graduação, disciplinas que os possibilitassem entender os
processos comunicacionai, e, do mesmo modo, reclama não ter acesso a
cursos de formação continuada que supram tal deficiência. Daí as inevitáveis
indagações: como levar para o exercício profissional conceitos, estratégias e
práticas de reconhecida importância (às quais os entrevistados não estão
discursivamente alheios) e que sejam capazes de aproximar comunicação e
educação, sem que para tanto tenha ocorrido a devida formação profissional;
como traduzir os contornos de novos configuradores culturais em contextos
de pouca mobilidade e afeitos a parâmetros tradicionais; como envidar
esforços para implementar mudanças à falta de estímulo e projetos
consistentes que refaçam determinados caminhos hoje percorridos pelas
escolas.
As duas pesquisas, a de Pedroza (2015) e a de Citelli (2010), apontam para fatores que têm certa semelhança e tratam da relação dos/as professores/as com as TICs. Mas, apesar da fragilidade explícita do cenário da Educom em Juazeiro/BA, não podemos deixar de constatar que a sua presença na rede oficial de Educação é, na maioria dos casos, resultante das ações desenvolvidas pelos/as estudantes de Jornalismo em Multimeios. É que as disciplinas de Comunicação e Educação I e II são ministradas dentro de uma metodologia que se aproxima da ideia de intervenção extensionista, compreendida como articuladora do ensino e da pesquisa, que procura estabelecer um vínculo entre a comunidade acadêmica e a sociedade.
Essa ação, estimulada na disciplina, tem promovido a ida de estudantes de jornalismos às escolas das redes públicas de Ensino Municipal e Estadual para desenvolverem projetos de Educom que também promovem a ida de estudantes à UNEB. Inclusive, constatamos que as ações de Comunicação Social para os projetos em Educomunicação têm sido mais presentes que a proposta da Pedagogia com as TICs e mídias, sendo que este último tem um currículo por nucleação, sendo um dos núcleos o de Educom.
A aproximação entre os estudantes de Jornalismo e as práticas e conceitos da Educom possibilita uma primeira interação dos discentes com a realidade escolar. Essa oportunidade desnuda realidades nevrálgicas e, ao mesmo tempo, sinaliza para a urgência de outras ações voltadas, por exemplo, para o fortalecimento do Núcleo de Educação e Comunicação do DCH III e também de proposições de políticas públicas junto ao Governo Municipal, que evitem que a Educom não passe de uma experimentação no ambiente escolar, de uma ação sem continuidade. Não podemos desconhecer, embora tenhamos poucos dados, que o curso de Pedagogia desenvolve projetos de estágios nos Ensinos Médio e Fundamental.
5.1 Experiências exitosas no DCH III
Comunicação
Mesmo nesse cenário adverso, há registros de projetos exitosos no Sertão do São Francisco. Um deles foi a monografia de Pedroza (2015), que mapeou e analisou a presença da Educom nas redes Municipal e Estadual de Educação na área urbana de Juazeiro/BA. O trabalho também aponta para as principais barreiras:
Apenas 6% dos projetos funcionaram durante dois anos, isto corresponde a
uma única escola das 16 mapeadas. Inúmeros fatores contribuem para este
cenário, fatores estes, que, como vimos, envolvem: políticas públicas mal
executadas, falta de infraestrutura escolar, formação de pessoal e etc. Sendo
comum ainda, ouvir depoimentos que atribuem a finalização dos projetos à
falta de envolvimento dos estudantes. Porém, se nem mesmo
coordenadores, professores, e monitores (sobre os quais recai a maior parte
do trabalho) são capacitados e mobilizados, como será possível incentivar e
mobilizar estudantes? (PEDROZA, 2015, p.11)
Outra iniciativa exitosa foi fruto de uma ação de Educom desenvolvida por estudantes do curso de Jornalismo do DCH II da UNEB na Escola de Referência do Ensino Médio Jornalista João Ferreira Gomes, na cidade de Petrolina/PE, durante a disciplina Educação e Comunicação II, ministrada em 2014.
O projeto previa a realização de encontros com conteúdos temáticos técnicos e práticos, com jovens desse estabelecimento de ensino, que passaram a conhecer a proposta de Educom e uso do telefone celular para fotografar. Como produto final dessa intervenção, os jovens montaram uma exposição fotográfica. Uma das participantes do grupo de 17 estudantes demonstrou maior apreensão dos conteúdos de Educom e sensibilidade fotográfica foi Adrieli Lima Davino – na época com 15 anos - , que sequer possuía
um celular.7
Outra intervenção de forma indireta do DCH III é com a Organização Não Governamental (ONG) Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA). Localizada em Juazeiro/BA e com mais de 20 anos de criação, divulga práticas para a convivência com o Semiárido. Nesse sentido, tem no seu quadro de funcionários/as três ex-estudantes do curso de Jornalismo em Multimeios que recorrem à Educom para promover suas ações junto a comunidades rurais, principalmente.
No semestre 2015.1, as alunas do curso de Jornalismo em Multimeios Aparecida Débora Sousa Pereira e Eliane de Menezes Simões apresentaram o TCC “Práticas Educomunicativas com o celular: o olhar fotográfico de jovens de Petrolina e idosos de Juazeiro”. Em síntese, o projeto previu uma intervenção Educomunicativa com estudantes da 3ª série do Ensino Médio de uma escola pública de Petrolina/PE e idosos da Universidade Aberta da Terceira Idade (UATI/UNEB), cujo produto final foi uma exposição de 40 fotografias coloridas. Além da interação geracional, as estudantes elaboraram oficinas teóricas e práticas, discutiram com os dois grupos tanto questões teóricas como técnicas, a exemplo do papel social da Comunicação e a utilização de um telefone celular como câmera fotográfica.
Pedagogia
O reflexo da formação dos pedagogos que passam pelo DCH/III (UNEB) é presenciado nas escolas das redes de ensino, que hoje já são assistidas por esses profissionais, muitos deles efetivados em concurso público. São educadores/as que atuam nas mais diversas funções: gestores/as, coordenadores/as, professores/as, formadores/as. Em outras práticas exitosas, chamam atenção experiências com a Pedagogia de projeto:
Uso da linguagem de novela — cenário serviu para discutir o problema da evasão escolar dos alunos, analisando com os sujeitos os conteúdos na formação e proposta em uma turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) de forma contextualizada e desenvolvendo um trabalho na perspectiva crítica social dos conteúdos;
Comunicação para o Desenvolvimento do Sertão do São Francisco — buscou identificar os processos de comunicação para a transformação social do território do Sertão do São
Francisco, com ênfase nos movimentos sociais rurais. Desenvolveu atividades junto ao Fórum de Comunicação, que apoia rádios comunitárias e ações de Educomunicação em escolas públicas;
Caminhos e possibilidades do Cinema e do Audiovisual — projeto tinha como escopo o desenvolvimento de atividades que beneficiassem os estudantes de Comunicação Social – Jornalismo em Multimeios e de Pedagogia e os levassem a conhecer as possibilidades de utilização do cinema e também de vídeos na sala de aula, bem como as potencialidades que eles têm enquanto recursos didáticos e pedagógicos. E mostrasse aos estudantes de Jornalismo os meandros da narrativa cinematográfica, para que produzissem críticas cinematográficas fundamentadas e responsáveis; Curso de formação de Comunicadores em Rádio Comunitária — o Curso de Capacitação de Comunicadores em Rádio Comunitária foi idealizado com o objetivo de dar suporte teórico e prático aos comunicadores populares da cidade de Curaçá/BA, na comunicação radiofônica comunitária. Pretendeu-se formar multiplicadores na comunidade a partir do pensamento crítico, do fazer e entender a comunicação; Práticas formativas em Educomunicação com discentes dos cursos de Pedagogia e Comunicação — a proposta uniu os componentes curriculares de Comunicação e Educação dos dois cursos, em uma classe mista, para a realização de projetos. Inédita no Campus (2015), promoveu a primeira experiência do encontro das áreas em uma proposição comum. Na realização dos projetos, a priori, os componentes não foram mistos, as discussões e análises dos processos em construção é que agregavam os conhecimentos específicos e interdisciplinares. No decorrer do projeto, a metodologia potencializou destacar êxitos sobre o encontro da Pedagogia e da Comunicação Social nos projetos de Educomunicação. Análises:
1. O encontro da Comunicação e Educação desafia novas práticas
de formação através do diálogo e construção de projetos em
espaços formais, não formais e informais, de uso e construção com os meios e não para os meios;
2. Os/as sujeitos/as da educação aprendem mais sobre os
processos e possibilidades comunicativas com os meios nos contextos de formações, pois as experimentações acontecem constantemente, no fazer, dizer e escrever da comunicação, na denúncia e anúncio de outros constructos, ou seja, a comunicação promove mais ações que discursos, aspecto relevante no fazer dos projetos;
3. As colaborações mais efetivas da Pedagogia estão nos
processos de formação, este é muito importante nos projetos educomunicativos elaborados por educomunicadores/as da Comunicação Social, traz colaborações como entendimentos sobre as etapas de desenvolvimento e formação, a Pedagogia de projetos entre outras possibilidades de realização que veem do campo didático, cognitivo e de aprendizagens;
4. O diálogo com os meios e a apropriação de materiais como o
jornal, o cinema, a fotografia, a TV, ou ainda processos que envolvem outros meios comunicativos, desde a roda de conversa até a elaboração de constructos com os sujeitos, promovem maiores reflexões sobre a relação Comunicação e Educação. De um lado, o processo educacional e formativo como elemento chave; do outro, os meios como possibilidades para interação e ampliação das reflexões, pensamentos e construções dos/as sujeitos/as;
5. A compreensão de que o diálogo e imbricamento entre
Comunicação e Educação e vice-versa, necessitam de maiores esclarecimentos. Seus princípios dialogam com a formação do campo específico da Pedagogia em um núcleo de aprofundamento em Educomunicação.
Considerações finais
Ao longo de sua história, o departamento vem oferecendo diversos cursos Lato Sensu e, mais recentemente, os Programas Stricto Sensu de Mestrado e Doutorado, sendo este último em Comunicação, razão pela qual este trabalho se concretiza. Como vimos, as atividades desenvolvidas no DCH III da UNEB, em Juazeiro, demonstram a presença de proposições educomunicativas, podendo contribuir de forma substancial para que a formação dos pedagogos e jornalistas tenha consistência e qualidade, ajudando os futuros profissionais a responder as expectativas e intervenções da sociedade.
Percebe-se que existem diferenças entre os dois campos de formação quando separados, e os mesmos são pautados nas constituições curriculares de cada curso. Entretanto, quando dialogam, é clara a provocação da Comunicação à Educação, assim como a solicitação em potencial de criação de espaço para o encontro destas vozes e não apenas do discurso, pois, assim como não seremos comunicadores/as/jornalistas, os/as demais não serão pedagogos/as. Estas reflexões propõem ainda que criemos espaço para o encontro, pois cada um fala de um lugar de formação específica, com sua identidade profissional.
Portanto, quando os projetos e programas chegam aos espaços de formação, faz-se coerente que o diálogo aconteça com os/as educadores/as e comunicadores/as. Não se trata de um campo sugerindo ao outro como pensar os processos educomunicativos com as TICs e mídias, mas como promover a inter-relação, sem descaracterizar as especificidades de cada campo, no encontro e criação de outra possibilidade, a educomunicativa.
É importante salientar que este estudo ampliou a compreensão sobre as proposições de Educomunicação nos dois cursos, sendo que em Pedagogia estas aparecem estruturadas mais na perspectiva da mídia-educação, ou seja, do uso das tecnologias e mídias nas práticas de estágio e estudos em formatos que nem sempre se configuram como práxis educomunicativas. O que desafia a reformulação curricular e a consolidação de projetos que envolvam os dois campos. Outro aspecto a destacar refere-se à importância de esclarecimentos no currículo do pedagogo sobre os conceitos, epistemologia e práxis que o compõe. Pois é perceptível que tais proposições carecem de ampliações tanto para os docentes e pesquisas realizadas, como para os discentes que as promovem somente quando solicitados nas disciplinas.
Faz-se necessário uma análise da proposição curricular que se desenvolve, pois apesar das ações pontuais, é preciso compreender os conceitos e práxis da Educomunicação, assim como avaliar e promover ações que melhorem a formação dos graduandos. Dessa forma, vislumbraremos a possibilidade de mudanças efetivas com as tecnologias e mídias na formação do pedagogo, indo além da perspectiva da mídia-educação. Entendendo que esta última é muito importante, já que o núcleo Educação e Comunicação deveria ir além de breves proposições, exigindo, portanto, imbricamento entre os dois campos.
Ao discutir o fortalecimento de um núcleo de formação, discutem-se ainda as bases de sustentação da formação em Pedagogia e Comunicação Social, cujo diálogo com as transformações da/na sociedade e sujeitos coloca em evidência as fragilidades das proposições teórico-metodológicas, dos pressupostos como campo científico e formativo, que, no contexto contemporâneo, exige, além do discurso, práticas baseadas em um paradigma emergente, interdisciplinar, transdisciplinar e comunicativo, voltados para o “fazer” com coerência na busca de resultados para a formação dos/as sujeitos/as. Espera-se ainda que, a partir do fortalecimento do Núcleo, seja possível propor políticas públicas às redes Municipal e Estadual para a promoção e solidificação da Educom no ambiente formal de educação.
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