Dumplin'

Julie Murphy · Capítulo 1 de 6 · parte 1/10

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Dumplin'

A presente obra é disponibilizada pela equipe…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.

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Sobre a obra:

 

A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.

É expressamente proibida e totalmente repudíavel a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo

 

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toda e qualquer pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso site: lelivros.love ou em qualquer um

dos sites parceiros apresentados neste link.

"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e

poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

“Estou obcecada com este humor ferino, este realismo comovente. Personagens por quem nos

apaixonamos e torcemos. Dumplin’ é uma verdadeira estrela.

”Katie Cotugno, autora de Duas vezes amor e 99 Days

“Dumplin’ deveria ser leitura obrigatória para qualquer pessoa, mulher ou homem, que já tenha se

sentido desconfortável – mesmo que só uma pontinha – com o próprio corpo. A estrela de Julie

Murphy continua a brilhar com esta história revolucionária e comovente que mudará muitas vidas.”

John Corey Whaley, premiado autor de Quando tudo volta e Noggin

“O livro retrata e desafia os esteeótipos dos concursos de beleza, dos problemas com a obesidade

e da aceitação feminina. De maneira delicada e maravilhosa, Dumplin’ expõe questões de gênero e

mostra que mesmo pessoas aparentemente autoconfiantes sofem com o bullying e vivem momentos de

dúvida.”

VOYA

“Julie Murphy conectou todas as peças da história, de forma que, quando unidas, criaram um livro

afetuoso, engraçado e que nos faz refleti.”

Publishers Weekly, resenha estrelada

“A voz autêntica da protagonista leva o leitor a pensar sobre tudo que constrói – e destrói – a

autoestima.”

Booklist, resenha estrelada

 

“Uma leitura gostosa e agradável para todos os adolescentes que, em algum momento, não se sentiram

bem na própria pele.”

School Library Journal

Copyright © 2015 by Julie Murphy

Publicado mediante contrato com Folio Literary

Management, LLC e Agência Riff

TÍTULO ORIGINAL

Dumplin’

CAPA

Raul Fernandes

ILUSTRAÇÃO DE CAPA

Daniel Stolle

DIAGRAMAÇÃO

Fatima Agra | FA studio

ADAPTAÇÃO PARA E-BOOK

Marcelo Morais

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

M96d

Murphy, Julie

Dumplin' [recurso eletrônico] / Julie Murphy; tradução Heloísa Leal. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Valentina, 2017.

recurso digital

Tradução de: Dumplin'

Formato: ePub

Vl Vivi star

Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions

Modo de acesso: World Wide Web

ISBN: 9788558890328 (recurso eletrônico)

1. Romance americano. 2. Livros eletrônicos. I. Leal, Heloísa. II. Título.

 

17-41325 CDU: 821.111(73)-3 CDD: 813

Todos os livros da Editora Valentina estão em conformidade com

o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA VALENTINA

Rua Santa Clara 50/1107 – Copacabana

Rio de Janeiro – 22041-012

Tel/Fax: (21) 3208-8777

www.editoravalentina.com.br

Dedicado a todas as gordelícias.

Descubra quem você é e faça isso de propósito.

Dolly Parton

UM

As melhores coisas que aconteceram na minha vida começaram com uma música da

Dolly Parton. Até mesmo a minha amizade com Ellen Dryver.

A canção que nos uniu foi “Dumb Blonde”, do álbum de estreia, Hello, I’m Dolly, de 1967. Foi no verão anterior ao primeiro ano do ensino fundamental, quando a minha tia Lucy e a Sra. Dryver resolveram trocar figurinhas, já que ambas eram fãs da Dolly. Enquanto bebericavam chá gelado na sala, Ellen e eu assistíamos a desenhos na tevê sentadas no sofá, sem saber o que pensar uma da outra. Até que numa tarde ouvimos aquela música tocando no som da Sra. Dryver. Ellen começou a marcar o ritmo com o pé enquanto eu cantava, e, antes mesmo do refrão, já estávamos girando pela sala e soltando a voz. Felizmente, tanto essa amizade quanto a admiração por Dolly duraram mais que uma música.

Estou esperando por Ellen na frente do Jeep do namorado dela, e o sol no meu rosto me obriga a recuar o tronco cada vez mais ali no asfalto do estacionamento da escola.

Tento não ficar me contorcendo enquanto a vejo passar pela saída e abrir caminho pela multidão de alunos que deixam o prédio.

El, o apelido que lhe dei, é tudo que eu não sou: alta, loura e com o dom de ser desajeitada e sexy ao mesmo tempo, paradoxo que só parece existir nas comédias românticas. Ela sempre se sentiu confortável no próprio corpo.

Não estou vendo Tim, o namorado dela, mas não tenho a menor dúvida de que deve estar alguns passos atrás com o nariz enfiado no celular, conferindo os resultados dos jogos que perdeu durante a aula.

A primeira coisa que eu notei ao conhecer Tim foi o fato de ele ser, no mínimo, uns dez centímetros mais baixo do que El, mas ela nunca deu a mínima. Quando mencionei a diferença de estatura, ela sorriu, o rubor no rosto se espalhando pelo pescoço, e disse: “Fofo, né?”

El freia os passos ao chegar diante de mim, ofegante.

— Você vai trabalhar hoje à noite, não vai?

Pigarreio.

— Vou.

— Nunca é tarde pra descolar um emprego de verão no shopping, Will. — Ela se recosta no Jeep, seu ombro cutucando o meu. — Comigo.

Faço que não com a cabeça.

— Eu gosto do Harpy’s.

Um caminhão passa voando à nossa frente, em direção à saída.

— Tim! — grita Ellen.

O distraído para bruscamente e acena para nós no instante em que o caminhão tira um fino dele, a um triz de achatá-lo feito panqueca.

— Pelo amor de Deus! — murmura El, num tom de voz que só eu posso ouvir.

Acho que eles foram feitos um para o outro.

— Obrigado pelo aviso — agradece ele ao longe.

Mesmo que estivéssemos no meio de uma invasão alienígena, Tim diria: “Tranquilo.”

Depois de atravessar o estacionamento, ele guarda o celular no bolso traseiro e dá um beijo em El. Não daqueles nojentos, de boca aberta, mas um selinho que mostra que sentiu saudades e que ainda a acha tão bonita como no primeiro encontro.

Deixo escapar um longo suspiro. Se pudesse olhar para o lado todas as vezes que vejo um casal se beijando, tenho certeza de que minha vida seria, pelo menos, dois por cento mais feliz.

Não que eu sinta inveja de Ellen e Tim, ou que ache que ele está roubando minha amiga de mim, ou mesmo que o queira para mim. Mas quero o que eles têm. Quero alguém que me beije sempre que me encontrar.

Dou um jeito de passar espremida entre os dois, indo até a trilha que cerca o campo de futebol americano.

— O que aquelas garotas estão fazendo ali? — Várias meninas de shortinho e regata rosa-choque se movimentam pelo local.

— Elas organizaram um boot camp, um campo de treinamento para o concurso — responde Ellen. — Vai durar o verão inteiro. Uma das minhas colegas de trabalho na Sweet 16 vai participar.

Não faço o menor esforço para não revirar os olhos. Clover City não é famosa por grandes feitos. De tantos em tantos anos, nosso time de futebol americano consegue chegar às finais, e de vez em quando alguém dá um jeito de sair da cidade e realizar algo digno de reconhecimento. Mas a única coisa que põe a nossa cidadezinha no mapa é o fato de sediar o concurso de beleza mais antigo do estado, o Miss Jovem Flor do Texas, que começou na década de 1930 e vem se tornando mais popular e mais ridículo a cada ano. Estou por dentro porque a minha mãe dirige o comitê organizador há quinze anos.

Ellen tira as chaves do bolso traseiro da bermuda de Tim antes de me dar um abraço.

— Tenha um bom-dia. Se liga, vê se não deixa respingar gordura em você na lanchonete. — Em seguida, ela destranca a porta do motorista e diz para Tim, que está do outro lado: — Deseje um bom-dia para a Will.

Ele levanta a cabeça por um momento e abre o tal sorriso que Ellen tanto ama.

— Will. — Tim pode passar a maior parte do tempo com a cara no celular, mas quando abre a boca... aí é que a gente entende por que uma garota como a El não quer saber de outro cara. — Espero que tenha um bom-dia. — E faz uma reverência até a cintura.

El revira os olhos, senta-se ao volante e enfia um pedaço de chiclete na boca.

Aceno para os dois, e já estou quase chegando no meu carro quando eles passam por mim e Ellen grita tchaaau, com o megassucesso da Dolly “Why’d You Come in Here Lookin’ Like That” jorrando dos alto-falantes.

Estou procurando as chaves na bolsa, quando vejo Millie Michalchuk vindo pela calçada em passos pesados, atravessando o estacionamento.

E imagino a cena antes de acontecer. Recostado à minivan dos pais está Patrick Thomas, um garoto que deve ser o maior babaca de todos os tempos. Seu maior talento é pôr apelidos nas pessoas e fazer com que peguem. Um ou outro até se salva, mas em geral são coisas do tipo Haaaaaaaannah pronunciado com um relincho de cavalo, porque a garota é... dentuça. Pois é, o cara é esperto.

Tenho vergonha de admitir que Millie é o tipo de pessoa que a vida inteira me fez pensar: As coisas poderiam ser piores. Sei que sou gorda, mas a gordura de Millie é do tipo que exige elástico na cintura, porque não fazem calças com botões e zíperes no seu tamanho. Ela tem olhos muito próximos e narinas largas. Ainda por cima usa camisetas estampadas com cachorrinhos e gatinhos, e não é por ironia.

Patrick fica na frente da porta do motorista, ele e o barulhento grupo de amigos que já estão grunhindo como porcos. Millie começou a dirigir há algumas semanas, e quem a vê se exibindo naquela minivan pensa até que é um Camaro.

Ela está prestes a dobrar a esquina e deparar com os palhaços reunidos em volta da van, quando grito:

— Millie! Chega aqui!

Abaixando as alças da mochila presa às costas, ela muda de direção e se aproxima, o sorriso fazendo as bochechas rosadas chegarem quase às pálpebras.

— Oiê, Will!

Sorrio para ela.

— Oi. — Nem pensei direito no que lhe diria quando estivesse na minha frente. — Parabéns por ter tirado carteira de motorista — improviso.

— Ah, obrigada. — Ela torna a sorrir. — É muito gentil da sua parte.

Atrás dela, vejo Patrick Thomas achatar o nariz com o dedo, para ficar igual a um focinho de porco.

Fico ouvindo Millie me contar como teve que reprogramar toda a memória das estações no rádio da mãe e como foi sua primeira vez num posto de gasolina. Patrick me dá uma geral. Ele é o tipo de cara que você torce para nunca te notar, mas não adianta eu tentar ficar invisível. Um elefante não tem como se esconder.

Millie conversa comigo por alguns minutos, e então Patrick e os amigos desistem e vão embora. Ela faz um gesto, indicando a van às suas costas.

— Porque, afinal de contas, eles não ensinam a gente a abastecer nas aulas de direção, e aquele negócio...

— Olha... — interrompo. — Desculpe, mas já estou atrasada para o trabalho.

Ela faz que sim.

— Mais uma vez, parabéns.

Fico vendo Millie caminhar até o carro. Ela ajusta todos os espelhos antes de dar marcha à ré e sair da vaga no meio do estacionamento quase deserto.

Estaciono nos fundos da lanchonete Harpy’s Burgers & Dogs, corto caminho pelo drive-thru e toco a campainha. Como ninguém atende, toco de novo. O sol a pino do

Texas castiga minha cabeça.

E eu lá parada, esperando, quando um sujeito com uma pinta esquisita, usando um chapéu de pescador e uma camiseta suja, passa pelo drive-thru e solta um pedido quilométrico e cheio de detalhes, chegando a mencionar o número exato de picles que quer no hambúrguer. A voz no alto-falante anuncia o total. Ele olha para mim, abaixando os óculos de lentes alaranjadas, e solta na lata:

— E aí, delícia.

Dou meia-volta, segurando o uniforme com força ao redor das coxas, e toco a campainha quatro vezes. Meu estômago dá voltas e mais voltas de vergonha.

Eu não tenho que vir trabalhar de sainha. Também posso usar calça comprida. Mas o cós da calça de poliéster não era elástico o bastante para passar pela minha cintura. Ponho a culpa na calça. Não gosto de pensar nos meus quadris como um estorvo e sim como um atrativo. Afinal, se estivéssemos, digamos, em 1642, esse popozão de parideira valeria muitas vacas.

A porta se entreabre e escuto a voz de Bo do outro lado:

— Eu já tinha ouvido nas outras três vezes.

Sinto um arrepio. Não vejo Bo até ele abrir um pouco mais a porta para eu entrar. A luz do dia ilumina seu rosto. A barba está por fazer. Um sinal de liberdade. As aulas na escola em que ele estuda — um colégio católico grã-fino, onde os alunos são obrigados a usar um uniforme todo elegante — acabaram no começo da semana.

O cano de descarga do carro solta um estouro no drive-thru às minhas costas, e eu entro correndo. Meus olhos demoram um segundo para se acostumarem com a penumbra.

— Desculpe o atraso, Bo — digo a ele. Bo. A sílaba pula no meu peito, e eu adoro. Adoro o tom categórico desse nome tão curto. É o tipo de nome que diz: Sim, tenho certeza absoluta.

Sinto um incêndio nas entranhas que me sobe até o rosto. Passo os dedos pelo queixo, os pés afundando no concreto como se fosse areia movediça.

A Verdade: sou totalmente apaixonada pelo Bo desde que o conheci. Ele tem um cabelo castanho despenteado que se enrola no maior ninho de rato no alto da cabeça. E fica ridículo naquele uniforme vermelho e branco. Parece um urso num tutu de bailarina. As mangas de poliéster superjustas nos braços me fazem pensar no quanto seus bíceps e meus quadris devem ter em comum. Menos a capacidade de fazer musculação, é claro. Uma correntinha de prata aparece acima da gola da camiseta, e os lábios estão melados de corante, graças ao seu estoque infindável de pirulitos vermelhos.

Ele estende o braço para mim, como se fosse me abraçar.

Respiro fundo.

E solto o ar quando ele estica o corpo à minha frente para passar o trinco na porta de entregas.

— Ron está doente e não veio trabalhar, por isso hoje vamos ser só eu, você, Marcus e Lydia. Acho que ela foi obrigada a emendar dois turnos, portanto, já estou avisando.

— Obrigada. Você não vai mais à escola, não é?

— Não, as matérias já acabaram.

— Acho legal você dizer “matérias” em vez de “aulas”. É como se já estivesse na faculdade e só tivesse duas matérias por dia, e o resto do tempo pudesse dormir à vontade num sofá e... — Caio em mim. — Vou guardar minhas coisas.

Ele aperta os lábios num meio sorriso.

— Vai lá.

Entro correndo na sala dos funcionários e guardo a bolsa no armário.

Nunca fui do tipo que fala muito, mas o que sai da minha boca na frente de Bo Larson põe uma diarreia verbal no chinelo. É mais como uma erupção vulcânica verbal, uma coisa grotesca.

No dia em que nós nos conhecemos, quando eu tinha acabado de ser contratada, estendi a mão e me apresentei: “Willowdean. Caixa, fã da Dolly Parton e gorda de plantão.” E esperei pela resposta... que não veio. “Bem, também sou outras coisas. Mas...”

“Bo”, a voz foi seca, mas os lábios se curvaram num sorriso. “Meu nome é Bo.” Quando ele apertou minha mão, mil lembranças que nunca tive se acenderam num flash. Nós dois de mãos dadas no cinema. Andando pela rua. Juntinhos num carro.

Ele soltou minha mão.

Naquela noite, enquanto relembrava nosso primeiro contato, percebi que ele não tinha ficado constrangido ao me ouvir dizer que era gorda.

E gostei disso.

Porque a palavra gorda deixa as pessoas constrangidas. Mas, quando alguém me vê, a primeira coisa que nota é o meu corpo. E o meu corpo é de uma gorda. Por exemplo, eu posso notar que algumas garotas têm peitos grandes, cabelos oleosos ou joelhos ossudos. São coisas que é permitido dizer sem rodeios. Mas a palavra gorda, que é a que melhor me descreve, deixa as pessoas desconfortáveis.

Mas essa sou eu. Gorda. Não é nenhum palavrão. Não é nenhum insulto. Pelo menos, não quando eu digo. Por isso, sempre me pergunto: por que não chutar logo de uma vez para longe essa pedra do caminho?

DOIS

Estou passando um pano no balcão, quando entram dois caras e uma garota. A loja está

tão sem movimento que já quase removi o verniz da madeira, de tanto esfregar..

— Em que posso servi-los? — pergunto, sem levantar os olhos.

— Bo! Armador dos Buldogues, o time de basquete da Holy Cross! — grita o cara à direita, fazendo uma voz de locutor, mãos em volta da boca.

Como Bo não aparece imediatamente, os dois ficam repetindo seu nome sem parar:

— Bo! Bo! Bo!

A garota entre os dois revira os olhos.

— Bo! — grita Marcus. — Vem logo, pros seus amigos calarem a boca.

Bo contorna o balcão, enfiando a viseira no bolso traseiro da calça. Cruza os braços sobre o peito estufado.

— Fala, Collin. — A garota ele cumprimenta com um aceno de cabeça. — Amber. Rory. — Recosta-se no balcão atrás de nós, aumentando o espaço que o separa dos amigos. — O que estão fazendo por essas bandas?

— Dando um rolé — responde Collin.

Bo pigarreia, mas não faz comentários. A tensão vibra entre os dois.

O outro cara, acho que Rory, fica estudando o menu no balcão.

— Oi — diz ele para mim. — Será que pode me trazer dois cachorros--quentes? Só com molho e mostarda.

— Hum, claro. — Digito o pedido no computador, tentando não deixar que meus olhos se desviem.

— Faz muito tempo — comenta Amber.

Como isso é possível? Todos os anos umas trinta pessoas por turma se formam na Holy Cross.

Collin passa o braço pelos ombros de Amber.

— Temos sentido a sua falta lá na quadra. Por onde tem andado?

— Por aí — responde Bo.

— Quer beber alguma coisa? — pergunto.

— Quero — responde Rory, e estende uma nota de cinquenta diante do meu rosto.

— Só tenho troco pra vinte, no máximo. — Aponto para um pequeno cartaz escrito à mão na frente da caixa registradora.

— E eu só trouxe o cartão de crédito, Bo — avisa Collin. — Quebra essa aí pra gente, na moral.

Por um momento, faz-se um silêncio mortal, que parece não acabar nunca.

— Não trouxe a minha carteira.

Collin sorri.

Amber, a Incrível Reviradora de Olhos, enfia a mão no bolso e põe uma nota de dez no balcão.

Dou o troco a ela e digo a Rory:

— Seu pedido já vai sair.

Collin inclina a cabeça, me observando.

— Como é seu nome?

Abro a boca para responder, mas...

— Willowdean. O nome dela é Willowdean — responde Bo. — Tenho que voltar ao trabalho. — Bo se dirige à cozinha e nem se digna a virar-se quando os amigos pedem que volte.

— Gostei da barba — elogia Amber. — Ficou bem em você. — Mas ele já se foi.

Ela olha para mim com ar irritado, mas tudo que posso fazer é dar de ombros.

Já em casa, vou até os fundos e entro pela porta de vidro. A da frente está emperrada há anos. Mamãe sempre diz que precisamos chamar um marceneiro para consertá-la,

mas Lucy achava que era a desculpa perfeita para não termos que atender a campainha. E não deixava de ter razão.

Mamãe está sentada à mesa da cozinha, ainda de uniforme, com os cabelos louros presos no alto da cabeça, assistindo ao noticiário na tevê portátil. Até onde me lembro, ela sempre viu tevê ali, porque Lucy costumava ocupar o sofá da sala. Mas já faz seis meses que minha tia morreu, e mamãe ainda está acompanhando a programação pela tevê menor na cozinha.

Ela balança a cabeça para o apresentador, e então diz:

— Oi, Dumplin’. O jantar está na geladeira.

Largo a bolsa na mesa e pego o prato embrulhado em plástico filme. O fim das aulas assinala o início da temporada de preparativos para o concurso de beleza, o que significa que ela está de dieta. E, quando minha mãe está de dieta, o mundo inteiro também está. Conclusão: o jantar é salada com frango grelhado.

Poderia ser pior. E já foi.

Ela solta um muxoxo.

— Você está com uma espinha na testa. Não tem comido aquelas coisas gordurosas que servem na lanchonete, tem?

— Você sabe que eu não morro de amores por hambúrguer e cachorro--quente — respondo. Sinto vontade de soltar um suspiro, mas me contenho porque ela vai ouvir. Por mais alto que esteja o volume da tevê. Mesmo que já se houvesse passado dois anos e eu já estivesse na faculdade ou morando em outra cidade, a centenas de quilômetros de distância, minha mãe me ouviria suspirar e me telefonaria para dizer: “Dumplin’, você sabe que eu detesto esses suspiros. Não há nada mais desinteressante do que uma jovem reclamona.”

Na minha opinião, essa tese está furada sob vários aspectos.

Sento-me para jantar e despejo uma generosa porção de molho ranch no prato, porque no oitavo dia Deus criou essa delícia.

Mamãe cruza as pernas e estende um dos pés, examinando o esmalte descascado nas unhas.

— Como foi o trabalho?

— Tudo tranquilo. Um cara no drive-thru me paquerou. Fui chamada de delícia.

— Ah, que fofo! Até que é lisonjeiro, se você pensar bem.

— Ah, mãe, por favor. É grotesco, isso sim.

Ela gira o botão da tevê, desligando-a.

— Filha, acredite em mim quando eu te digo que o mercado masculino vai diminuindo à medida que a gente envelhece, por mais bem-conservada que a gente se mantenha.

Essa não é uma conversa que eu esteja a fim de ter.

— Ron ficou doente e não foi trabalhar.

— Tadinho. — Ela ri. — Já te contei que ele foi loucamente apaixonado por mim no segundo grau, não contei?

Pelo menos uma vez por semana, desde que comecei a trabalhar, ela refresca a minha memória. Quando me candidatei ao emprego no feriadão do Dia de Ação de Graças, Lucy me contou que sempre suspeitara ter sido o contrário. Mas, do jeito como minha mãe fala, é como se todos os caras da cidade tivessem sido vidrados nela.

“Todo mundo queria tirar uma casquinha da vencedora do concurso Miss Jovem Flor do Texas de Clover City”, declarou certa vez, a voz arrastada depois de várias taças de vinho.

Esse concurso foi a única realização importante na vida da minha mãe. Ela ainda cabe no vestido — fato que não deixa ninguém esquecer, razão por que, na qualidade de chefe do comitê e apresentadora oficial, faz questão de se espremer no dito-cujo, numa espécie de bis anual para os fãs de carteirinha.

Sinto nos pés o peso de Riot, o gato da minha tia. Começo a balançá-los, e ele ronrona.

— Vi um monte de garotas organizando uma espécie de boot camp.

Ela sorri.

— Vou te contar... A competição fica mais acirrada a cada ano.

— E você? Como foi o seu dia na casa de repouso?

— Ah, não foi dos melhores, não. — Ela folheia o talão de cheques, e então massageia as têmporas. — Perdemos Eunice.

— Ah, não. Sinto muito, mãe.

Uma vez por ano, como Cinderela, minha mãe leva uma vida glamorosa, a vida que sempre quis viver. Mas, durante o resto do ano, ela trabalha como supervisora no Rancho Buena Vista, um lar de idosos onde faz coisas exóticas, como distribuir os medicamentos, alimentar os velhinhos e cuidar da higiene deles. Eunice era uma das residentes favoritas de mamãe. Sempre a confundia com uma das irmãs e sussurrava segredos de infância no seu ouvido quando ela se abaixava para ajudar a idosa a se levantar.

— Ela comeu uma tigelona de ambrosia na sobremesa, como sempre, e fechou os olhos. — Balança a cabeça. — Deixei que continuasse sentada por um minuto, porque pensei que estivesse cochilando. — Levanta-se e dá um beijo na minha cabeça. — Vou dormir, Dumplin’.

— Boa noite.

Espero até ouvir o som da porta se fechando, então despejo o prato na lata de lixo e cubro tudo com um daqueles jornais gratuitos que distribuem na rua. Pego um punhado de biscoitos e um refrigerante antes de subir a escada correndo. Paro por um momento diante da porta fechada do quarto de Lucy e deixo que os dedos rocem a maçaneta.

TRÊS

— Acho que quero transar com o Tim nesse verão — declara Ellen, e então pega um

cubinho de queijo e o enfia na boca. Todas as sextas-feiras, desde o ano passado, El vem “estudando a hipótese” de transar com Tim. Falando sério, antes do começo de cada fim de semana, nós discutimos os prós e contras de a dupla finalmente chegar às vias de fato.

— Acho estranho. — Não levanto os olhos das minhas anotações. Não sou má amiga, mas é que já tivemos essa conversa mil vezes. Além do mais, é o último dia de aula, e eu ainda tenho que fazer uma prova final. Estou tentando meter a cara nos estudos, mas El não precisa porque já fez todas.

Com a boca cheia daquelas nozes carameladas, ela pergunta:

— Acha estranho o quê?

— Me faz perguntas sobre a matéria? — peço, colocando um punhado de passas na boca, e estendo para ela uma folha com tópicos sobre escalões do governo. — Que não é nenhum casamento. Não é tipo... “Ahhh, eu gosto das cores do verão. Vou perder a virgindade no verão, pra poder combinar a lingerie com a minha estação favorita.” A pessoa deve fazer sexo porque está a fim.

Ela revira os olhos.

— Mas o verão é um período de transição. Eu posso voltar das férias já sendo mulher — diz, esbanjando dramaticidade.

Reviro os olhos para minha amiga. Detesto falar por falar. Se El estivesse mesmo pensando em levar isso adiante, eu teria subido na mesa e engatinhado até ela para a gente ter uma conversa olho no olho sobre o assunto, nos seus mínimos detalhes. Mas ela nunca vai em frente. Não entendo como pode falar tanto sobre a possibilidade de transar.

Quando percebe que não mordi a isca, dá uma olhada na folha.

— Os três poderes do governo.

— Executivo, legislativo e judiciário. — Decido lhe dar uma migalhinha. — De mais a mais, transar não faz de ninguém uma mulher. Isso não passa de um clichê bobo. Se quiser transar, transe, mas não transforme o sexo numa coisa descomunal, com um significado histórico. Desse jeito, você vai acabar tendo uma decepção.

Ela curva os ombros e franze as sobrancelhas.

— Quantos senadores e deputados compõem o Congresso?

— Quatrocentos e trinta e cinco senadores e cem deputados.

— Acertou os números e errou os cargos.

— Tá. — Repito os números em voz baixa. — E a estação do ano também não importa, desde que você sinta que é a hora certa, concorda? Afinal, o inverno também é legal, pois você pode dizer... “Ai, estou com tanto frio... Vem me esquentar.”

Ela ri.

— É, tem razão.

Mas eu não quero ter razão. Não quero que El transe antes de mim. Talvez até seja egoísta da minha parte, mas não vou saber lidar com o fato de ela já ter feito uma coisa que eu ainda não fiz. Acho que estou com medo de não saber ser uma boa amiga. Afinal, sexo é coisa séria, e como eu posso orientá-la num terreno em que nunca pisei?

Minha vontade é pedir que espere. Mas ela e Tim já estão namorando há quase um ano e meio, e El ainda fica vermelha toda vez que fala nele. Não sei como se mede o amor de uma pessoa, mas esse parece um bom ponto para começar. Também não sei se lhe pediria para esperar por qualquer outro motivo além de mim.

Enquanto dou uma olhada no meu resumo, Millie avança pela nossa fila com uma bandeja de almoço e a melhor amiga, Amanda Lumbard, alguns passos atrás. Juntas, Millie e Amanda formam uma espécie de alvo móvel gigante que só falta gritar: ZOEM A GENTE.

Amanda tem uma perna mais curta do que a outra, por isso é obrigada a usar botas ortopédicas que a deixam parecida com Frankenstein (pelo menos, na opinião do Patrick Thomas). Quando éramos pequenas e ela ainda não usava esses saltos especiais, Amanda mancava, balançando os quadris a cada passo. Ela nunca pareceu se importar, mas isso não impedia que as pessoas ficassem reparando e comentando. O apelido é bastante idiota, se a gente pensar bem. Frankenstein era o médico, não o monstro.

Millie acena, e eu levanto a mão depressa quando ela passa por nós.

El sorri.

— Amizade nova?

Dou de ombros.

— Às vezes, sinto pena dela.

— Pra mim, ela parece feliz. — El me faz mais algumas perguntas sobre a matéria, enquanto terminamos de almoçar. — Que sistema está em vigência para que nenhum setor do governo se torne poderoso demais?

— O sistema de freios e contrapesos.

— E aí, como foi o trabalho ontem à noite? Como vai o Garoto da Escola Particular?

Começo a enrolar no dedo uma ponta solta da espiral do caderno.

— Tudo tranquilo. — Dou uma olhada no meu almoço da cantina. — Ele está bem.

Tenho vontade de contar tudo sobre os amigos grosseiros e a barba por fazer que Bo está usando, mas não sei como tocar no assunto sem dar a impressão de que sou uma louca varrida que guarda as unhas cortadas do cara num pote de vidro debaixo da cama. Na noite passada, tive que recontar três vezes o dinheiro da registradora, porque ele não parava de passar na minha frente.

— Eu gosto da Sweet 16, mas sinto uma certa inveja de você por trabalhar com garotos. — Ela guarda a cenoura mordida no saco plástico e puxa o zíper. — Ainda não consigo acreditar que não estamos trabalhando juntas.

El nunca vai me deixar esquecer que estraguei nossos planos de fazer uma dobradinha depois da aula quando arranjei um emprego no Harpy’s. Se ela não teve sensibilidade para perceber por que eu não quis trabalhar numa loja cujas roupas não cabem em mim, eu é que não ia me dar ao trabalho de explicar.

— Por que você gostaria de trabalhar com garotos? Não foi você mesma que acabou de dizer que quer transar com o Tim?

Ela dá de ombros, como se o meu argumento fosse irrelevante.

— Seria divertido, só isso.

Terminamos de almoçar, e eu faço a prova sobre o governo. E ponto final. O segundo ano do ensino médio acabou. O estacionamento se enche de gritos de comemoração e pneus cantando. Mas não experimento a mesma sensação de progresso que os outros. O que sinto é que estou presa, esperando que a minha vida aconteça.

QUATRO

O carro da mamãe já está na porta da garagem quando chego em casa depois do último

dia de aula. Estaciono o meu, puxo o freio de mão e recosto a cabeça no descanso do banco. Adoooro o meu carro. É um Pontiac Grand Prix vermelho-cereja 98, que ganhei de Lucy e batizei de Jolene.

Já em casa, subo a escada seguindo o ruge-ruge de tecidos no quarto da minha tia, onde mamãe está sacudindo sua bunda arrebitada. E isso porque está usando o agasalho de grife que um ex-namorado lhe deu há seis anos. Ela o chama de “loungewear” e é o seu bem mais valioso, só perdendo para a coroa de rainha do concurso Miss Jovem Flor do Texas.

— Cheguei — aviso, o pânico transparecendo na minha voz. — O que está fazendo aqui?

Ela se endireita e suspira, soprando os fios de cabelo da testa. O rosto está vermelho de calor, e os fios louros na testa se enrolaram em cachinhos.

— A funerária finalmente mandou aquela urna que encomendamos, por isso saí mais cedo do trabalho. Resolvi voltar para casa e começar a pôr as coisas em ordem.

Solto a mochila no corredor e entro no quarto.

— Que coisas?

Mamãe se senta na cama ao lado de uma pilha de vestidos de andar em casa, todos engomados e pendurados nos cabides adornados com fitas.

— Ah, você sabe, as coisas de Lucy. Nossa, como tinha mania de guardar tudo! Mal dá para abrir as gavetas. Acredita que encontrei até o véu da sua avó? Eu estava atrás dele há séculos.

Curvo os lábios num sorriso.

— Ah, é?

Mamãe reivindicou o vestido de casamento da vovó quando ela ainda estava no asilo. Não teria mesmo cabido em Lucy, por isso as duas nunca chegaram a discutir. Menos pelo véu, porque esse serviria para qualquer uma. Elas brigaram por causa dele durante meses, até que os nervos de Lucy ficaram tão abalados que ela desistiu. Então, há alguns anos, o bendito véu desapareceu.

Era minha mãe quem não largava do pé dela, mas é como se Lucy tivesse ficado com a última palavra.

Não costumava ser assim o tempo todo. As duas nem sempre viveram brigando, mas esses momentos se destacam mais na minha memória do que as noites de sexta em que eu chegava em casa e as encontrava juntas no sofá, aos risos, assistindo aos seus filmes antigos favoritos.

— E o que vai fazer com todas essas coisas? — pergunto.

— Bom, acho que vou doar. Você sabe como é difícil para as mulheres maiores encontrarem roupas, por isso tenho certeza de que alguém vai adorar tudo isso.

— Mas e se eu quiser algumas? Não pra usar. Só como lembrança.

— Ah, Dumplin’, você não quer esses vestidos velhos. E as gavetas só têm calcinhas, sutiãs, anáguas e recortes de jornais.

Eu sei que já deveria ter superado a morte de Lucy. Afinal, faz seis meses. E, ainda assim, estou sempre esperando vê-la com Riot no colo ou fazendo palavras cruzadas na cozinha. Mas não está. Ela se foi. E nem temos retratos dela. A realidade do seu corpo não era algo que ela gostasse de ver refletida sob a forma de fotografias.

Isso me assusta. Se não posso vê-la ou ouvi-la, vou acabar por esquecê-la.

Aos trinta e seis anos, pesando duzentos e vinte e cinco quilos, Lucy morreu. Sozinha, de um infarto fulminante, sentada no sofá enquanto assistia a um programa na tevê. Ninguém a viu morrer. Por outro lado, ninguém em casa jamais a vira viver. E agora não restou ninguém para lembrá-la. Não do modo como ela gostaria de ser lembrada. Porque mamãe, sempre que pensa na irmã, só consegue se lembrar de como ela morreu.

É por isso que a ideia de ela desmontar o quarto como se fosse uma exposição itinerante se reveste dessa dor e se transforma em algo totalmente novo.

Ela abre a gaveta da mesa de cabeceira e começa a separar papéis em várias pilhas. Posso ver sua cabeça trabalhando: o que guardar, o que descartar, o que deixar de lado para decidir depois. Alguns dias eu me pergunto em qual das categorias me encaixo.

— Por que não deixa como está? — pergunto. — Era o quarto dela.

Mamãe se vira para mim com uma expressão incrédula.

— Dumplin’, estamos deixando um quarto inteiro da casa se encher de poeira. E a temporada do concurso vai começar. Vou passar o verão todo trabalhando feito uma condenada. Vai ser bom ter um quarto para costurar trajes típicos ou montar um ou outro adereço de cenário sem que a casa inteira fique entulhada de coisas.

— Um ateliê? — Pronuncio a palavra com amargura. — Está pensando em transformar o quarto de Lucy num ateliê?

Ela abre a boca, mas saio antes que tenha tempo de responder.

No Harpy’s, Bo está fritando hambúrgueres no grill, usando fones de ouvido. Levanto a mão para acenar quando passo.

— Feliz verão, Willowdean — diz ele, a voz um pouco alta demais. Os lábios estão melados, vermelhos e com algum sabor que eu adoraria provar.

Beijar Bo. A ideia me mata de vergonha. Sinto vontade de me transformar numa poça e escorrer pelo ralo da cozinha.

Na frente da loja, Marcus já está diante do caixa.

— Chegou antes de mim? — comento.

— Tiff tem me deixado aqui mais cedo por causa dos treinos.

Marcus e eu nunca passamos de figurantes na vida um do outro. Ele está um ano à frente na escola que frequentamos desde a infância. Conheço o cara do mesmo jeito como a gente conhece o primo da melhor amiga: de nome e de vista. Quando comecei no Harpy’s, era legal trabalhar com alguém que pelo menos eu reconhecia, e agora acho que somos amigos. Ele e Tiffanie, a capitã do time de beisebol, começaram a namorar no início do ano, e em questão de semanas suas vidas já tinham se colado feito velcro.

— Como foi nas provas finais? — pergunta Marcus.

Dou de ombros. Distraída, me viro para olhar e vejo Bo nos observando de trás do balcão. E ele não desvia os olhos. Meu estômago dá voltas de montanha-russa.

— Acertei meu nome — respondo. — Deve valer alguma coisa. E você?

— Fui bem. Estudei com a Tiff. Ela vai visitar várias faculdades nos próximos meses.

Percebo que provavelmente eu deveria estar pensando no que fazer quando concluir o ensino médio, mas não consigo me imaginar na faculdade e não sou capaz de fazer planos para algo que não consigo imaginar.

— E você? Também vai visitar alguma?

Ele vira a viseira de lado e concorda, pensativo.

— Acho que sim.

Os sininhos acima da porta começam a tilintar quando alguns garotos da escola entram em fila. Enquanto esperamos que terminem de ler o menu, Marcus olha para a vitrine e diz:

— Minha namorada vai embora da cidade, e só sei que eu vou com ela.

Clover City é o tipo de lugar que a gente deixa para trás. É um amor que te sufoca ou te expulsa. Poucas pessoas conseguem sair daqui e não voltar, enquanto que a maioria de nós bebe, procria e vai à igreja, e isso parece ser o bastante para nos manter vivos.

Como fechamos mais tarde nas sextas e nos sábados, mamãe já está dormindo quando chego. Depois de apagar as luzes e trancar a porta dos fundos, subo a escada pé ante

pé e dou uma conferida para ver se ela não acordou. Roncos suaves saem de baixo da sua porta enquanto entro no quarto de Lucy, pisando com todo o cuidado para o assoalho não ranger, e começo a revirar as pilhas de objetos feitas por mamãe.

São mil quinquilharias inúteis, pilhas de recortes de jornais sobre pessoas e lugares que nunca farão sentido para mim. Detesto que haja coisas — coisas triviais, tipo qual a razão de ela guardar uma matéria sobre a autora de um livro de culinária que viria visitar a biblioteca — sobre as quais nunca pude lhe perguntar por nem ter chegado a tomar conhecimento.

A pior parte foi o serviço religioso. E não apenas pelos motivos óbvios. Metade de Clover City compareceu — afinal, o que mais resta a fazer numa circunstância dessas? Acho que todos esperavam vê-la num caixão, como uma espécie de advertência sinistra. Mas a triste verdade é que não pudemos pagar pelo caixão maior e mais caro. Por isso, apesar da crise nervosa de mamãe por não poder dar à irmã um “enterro decente”, Lucy foi cremada.

Mas não suporto me lembrar do serviço religioso. Prefiro recordar outras ocasiões, como o dia em que ela me levou à primeira aula de balé, quando eu estava no terceiro ano do ensino fundamental. Meu collant se esticava ao máximo sobre a barriga redonda, e as coxas roçavam, por mais que eu lhes implorasse para não fazerem isso. Já era bem gorda na época. E muito alta. Não me parecia em nada com as outras meninas que esperavam para entrar na sala de aula.

Como me recusei a sair do carro, Lucy veio se sentar ao meu lado no banco traseiro.

“Will.” Sua voz estava doce como mel. Prendeu uma mecha solta dos meus cabelos atrás da orelha, tirou um lenço de papel do bolso do vestido de andar em casa e me entregou. “Eu perdi muito tempo na vida me preocupando com o que as pessoas diriam ou pensariam. E, às vezes, era em relação a coisas bobas, como uma ida à mercearia ou aos correios. Mas houve ocasiões em que me proibi de fazer coisas importantes. E tudo porque estava com medo de que alguém me olhasse e decidisse que eu não tinha valor. Mas você não tem que se incomodar com essas bobagens. Perdi todo esse tempo para que a minha sobrinha não tivesse que passar pelo mesmo. Se entrar lá e concluir que não é para você, então não volte mais. Mas a oportunidade você tem a obrigação de aproveitar, está me ouvindo?”

Acabei frequentando as aulas somente no outono, mas não foi isso o mais importante.

Na gaveta de meias de Lucy, encontro uma caixinha com fitas cassete — todas da Dolly. Escolho uma ao acaso e a ponho no som da mesa de cabeceira. Deito na cama e fico ouvindo com o volume tão baixinho que é quase um murmúrio. Lucy devia adorar Dolly mais do que tudo. E acho que Ellen e eu também adoramos.

Talvez a Sra. Dryver seja a melhor sósia da Dolly Parton por estas bandas do Texas, com o mesmo tipo mignon e timbre de voz. Como Lucy foi vice-presidente de uma seção regional do fã-clube da Dolly até alguns anos atrás, as duas sempre se encontravam. Acho difícil deixar de acreditar que a minha amizade com Ellen não tenha sido traçada muito antes de nascermos, nos tempos em que Dolly era uma ilustre desconhecida, sem um tostão, no Tennessee. Como se El fosse uma espécie de presente que Lucy sempre quis me dar.

Não foi só a aparência da Dolly que nos atraiu. Foi a atitude inspirada na consciência de que as pessoas achavam essa aparência ridícula, mas sem mudar nem um único detalhe, porque se sentia bem em relação a si mesma. Para nós, ela é... invencível.

CINCO

Já não acho mais a mesma graça das férias de verão que achava quando era pequena.

Quando El e eu estávamos no ensino fundamental, Lucy nos levava a uma sorveteria. Com as mãozinhas meladas de calda, sentávamos no salão mal iluminado com um ventilador de teto girando na velocidade máxima, enquanto Lucy zapeava os canais na tevê até encontrar um daqueles programas de baixarias a que minha mãe nunca nos deixaria assistir.

O primeiro fim de semana do verão passa como um dia igual aos outros. Na manhã de segunda, acordo e encontro a tela do celular piscando.

ELLEN: NADAR. AGORA. VERÃO. MAIOR. CALOR.

ELLEN: AGORA.

ELLEN: AGORA.

Não posso deixar de sorrir ao ver as mensagens. Ellen vive num condomínio bem popular, que até tem piscina, mas é pra lá de maltratada. Contudo, durante o verão, o lugar é um verdadeiro oásis.

Sei que as garotas gordas deveriam ter alergia a piscinas, mas eu adoro nadar. Não sou boba: sei que as pessoas ficam encarando, mas não podem me culpar por eu querer dar uma refrescada. E por que isso deveria fazer alguma diferença? Por que ter coxas enormes e cheias de celulite me obriga a pedir desculpas à humanidade?

Paro na frente da casa da El e encontro minha amiga sentada na varanda, de biquíni, com uma toalha enrolada na cintura.

Nossas havaianas vão batendo pelas calçadas enquanto caminhamos três quarteirões até a piscina, e, embora ainda sejam dez da manhã, já estamos pingando (minha mãe diz cintilando) de suor.

— Ah, não! — exclama El, enquanto esperamos na fila. — Está um formigueiro humano. — E cruza os braços.

Dou o braço a ela.

— Vamos lá.

Por causa da multidão, só conseguimos encontrar uma espreguiçadeira vaga. El desenrola a toalha da cintura e corre para a piscina. Tiro o vestido pela cabeça, descalço as havaianas e acelero na pontinha dos pés.

El afunda até os ombros, enquanto a água bate na minha cintura, e a sensação de frescor e alívio me faz revirar os olhos. Ahhh, agora sim, é verão!

Ficamos boiando como estrelas-do-mar, e eu me lembro de que, quando éramos pequenas, íamos para baixo d’água com os óculos de natação e gritávamos segredos uma para a outra. Só que não tínhamos nenhum, então eram só coisas que já sabíamos. “CHASE ANDERSON É O MAIOR GATINHO!”, gritava El. “ROUBEI DEZ DÓLARES DA CARTEIRA DA MAMÃE!”, gritava eu.

Continuo boiando até o ombro roçar os ladrilhos da piscina e eu sentir uma sombra em cima de mim. Entreabro os olhos e vejo um garotinho agachado na beira. Sua boca forma várias palavras.

Fico de pé, e o barulho estilhaça meus tímpanos, quase me dando uma concussão cerebral. Fecho os olhos com força por um segundo. Minha cabeça parece ter sido embalada a vácuo.

— Que é?

O calção vermelho do garotinho pinga numa poça d’água às suas costas.

— Pensei que você tivesse morrido. E tá toda vermelha. — Então, ele se levanta sem a menor cerimônia e vai embora.

Levo as mãos ao rosto, e a água escorre dos dedos para a pele como gotas de chuva por uma terra seca e rachada. Não sei há quanto tempo estou boiando. Olho ao redor à procura da El e me deparo com ela sentada na nossa espreguiçadeira, conversando com um casal. Caminho até a parte rasa da piscina o mais devagar possível, na esperança de que os pombinhos decidam ir embora, mas, depois de mais uns minutos tentando ganhar tempo, eles ainda não arredaram pé.

Vou logo me preparando e saio da piscina em alta velocidade. El está sentada na beirinha da espreguiçadeira, enquanto uma garota que não conheço se senta na outra ponta com um rapaz às costas, como se estivesse pilotando uma moto com ele na garupa.

— Oi — digo.

Por uma fração de segundo, El não responde, e a outra garota fica me encarando com um ar de quem diz: Como posso te ajudar? Precisa de alguma coisa? Não? Então, pode ir embora.

— Gente, essa é a Will, minha melhor amiga. — El se vira para mim. — Essa é a Callie. E o namorado... — Sua voz se arrasta por um segundo, e ela estala os dedos.

— Bryce — informa Callie. Ele faz que sim às suas costas. Está usando aqueles óculos espelhados ridículos estilo vôlei de praia, meio parecidos com os de Star Trek. Suas mãos seguram os ombros de Callie, e eu percebo que devem ser do tipo de casal que não desgruda.

— Prazer em conhecê-los — resmungo.

El me fuzila com os olhos.

Não é que eu não goste de conhecer pessoas. É que geralmente não me sinto à vontade com pessoas que ainda não conheço. E talvez seja essa a minha característica que mais irrita a El. Até onde me lembro, ela vive tentando estragar o nosso par perfeito com uma terceira pessoa. Talvez eu é que seja a chata, mas não preciso de outra melhor amiga. E menos ainda dessa garota que não desgruda os olhos de mim, como se eu fosse um acidente de trânsito.

El se afasta um pouco para que eu possa me sentar ao seu lado, mas continuo onde estou.

— Sabia que a Callie vai participar do concurso?

Bryce aperta os ombros da namorada, que solta um riso estridente.

— Pois é. Minha irmã foi finalista há uns anos. Acho que se pode dizer que está nos meus genes.

— Que bom pra você. — Minha voz sai grave e amargurada, embora sem a menor intenção.

El força um sorriso.

— Callie também vai participar daquele treinamento que a gente viu depois da aula na semana passada.

Não faço a menor ideia do que ela espera que eu diga. Essa conversa é um verdadeiro letreiro de néon piscando a mensagem BECO SEM SAÍDA.

— Aliás, Callie, você sabe que a mãe da Will é a diretora do concurso, não sabe? — pergunta El.

Aqui no Sul, os jogadores de futebol americano são idolatrados como deuses, e as cheerleaders não ficam muito atrás. Mas, em Clover City, as mulheres que reinam soberanas são as misses. Infelizmente, ser a filha gorda da miss mais querida da cidade não me confere tanto prestígio.

Callie bloqueia o sol com a mão ao levantar o rosto para mim.

— Sei. — Se eu pudesse mudar só uma coisa na mamãe, seria o status de ex-miss. Na verdade, tenho certeza de que minha vida inteira deslancharia tipo efeito dominó se eu pudesse dar um jeito de apagar esse evento anual.

Callie solta uma risada.

— Mas você não vai participar, vai?

Espero um segundo. Dois. Três. Quatro. Ellen não diz uma palavra.

— E por que não participaria? — Obviamente, eu nunca entraria num concurso de popularidade cruel daqueles. Mas e daí? Que tipo de imbecil faz esse tipo de dedução?

— Você não parece ser desse tipo de garota. Quer dizer, no bom sentido.

De repente, eu me lembro de que o meu maiô é minúsculo. Os elásticos das cavas marcam os quadris e as alças apertam os ombros. Sinto a ansiedade se emaranhar ao meu redor como mil barbantes.

— Pois é — continua Callie —, Bekah Cotter vai ser um páreo duro. A garota é a típica namoradinha da América.

O impulso de fugir começa a puxar meus pés.

Mas, obviamente, Callie resolveu fazer o meu vestido de toalha de praia, para que a sua preciosa pele não encoste no assento plástico quente.

Digo a Ellen:

— Vou dar um pulo na sua casa pra usar o banheiro. — Enfio os pés nas havaianas, pego a primeira toalha que vejo e me afasto o mais depressa possível.

— Tem alguma coisa errada? — Ouço a voz de Callie perguntar, como se dissesse: Qual é o problema dessa garota?

— Mas tem um vestiário aqui! — avisa El a distância.

A toalha mal dá a volta na minha cintura. Mas não me importo. Continuo caminhando.

Um carro cheio de garotos passa por mim e dá uma buzinada.

— Ah, vão se foder! — grita El às minhas costas.

Dou meia-volta. Ela vem correndo pela calçada, só de biquíni, carregando nos braços o vestido e a sacola que deixei para trás.

— Estou tentando te alcançar! — grita ela.

Abro a boca para falar, mas então lembro que estou furiosa com ela e continuo andando. El e eu nunca brigamos. Sei que é normal melhores amigas se desentenderem de vez em quando, mas não nós. Claro, podemos até discutir por causa de bobagens como programas de tevê ou o melhor visual da Dolly, mas nunca nada sério. Mesmo assim, estou zangada por ela não ter me defendido da tal da Callie. Não deu nem uma palavra, poxa.

Talvez eu esteja fazendo uma tempestade num copo d’água. Talvez seja uma daquelas coisas que só eu noto. Como aquela espinha na testa que a gente acha que é a única coisa que os outros veem quando nos encontram.

Mas eu não fantasiei aquele olhar de cima a baixo que Callie me deu. Como se eu fosse uma aberração da natureza. E a verdade é que estou furiosa principalmente por ter sentido vergonha — afinal, por que deveria? Por que deveria me sentir mal só por estar a fim de cair na piscina ou de usar maiô em público? Por que deveria sentir necessidade de entrar e sair correndo, só para ninguém ver a atrocidade que são as minhas coxas?

— Will! Espera, caceta. Pelo amor...

Sem me dar ao trabalho de parar, respondo:

— Preciso ir pra casa.

— Mas será que não dá, pelo menos, pra me explicar o que aconteceu? Você ficou pau da vida. Por que isso?

Sou obrigada a parar porque cheguei à casa da El e, agora que os pés não têm mais para onde ir, é como se eu não conseguisse impedir a boca de falar.

— “Por que isso?” — repito a pergunta, também aos gritos. — Porque você me deixou sozinha na piscina. Porque me abandonou completamente. E quem era aquele palito escroto? — Assim que as palavras saem da boca, sinto um arrependimento mortal. A vida inteira tive um corpo digno de comentários, e se há uma coisa que viver na minha pele me ensinou foi que, se o corpo não é seu, você não tem direito de dizer nada. Seja a pessoa gorda, magra, alta ou baixa, não interessa.

Mas El se limita a explicar:

— Você parecia tão relaxada! De que jeito te deixar sozinha na piscina me torna má amiga? Você tem dezesseis anos e está zangada comigo por uma coisa dessas?

Já vi a El brigar com o Tim um monte de vezes, por isso sei que essa é a sua especialidade: simplificar ao máximo a situação, para que o outro se sinta idiota. Ela é o tipo de pessoa que a gente quer ter como advogada, não como adversária.

Nego com a cabeça, porque não quero dizer a verdade com todas as letras. Não quero dizer que estou zangada porque fiquei sem a minha muleta: ela. Ou que deveria ter tomado as minhas dores, em vez de se omitir.

— E o “palito escroto” — continua El — é minha colega de trabalho. Você não precisava ficar amiga dela, mas podia, pelo menos, ter sido gentil.

Levanto as mãos.

— Tá. Assunto encerrado. Não quero brigar.

Ela põe a sacola e o vestido no porta-malas da Jolene.

— Tudo bem.

Coloco o vestido, desenrolo a toalha da cintura e lhe entrego antes de tirar as chaves da bolsa.

— A gente se fala mais tarde. — Vou até o lado do motorista, mas ela continua parada no mesmo lugar.

Continuar: parte 2 de 10