Dumplin'
A presente obra é disponibilizada pela equipe…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.
Isso me faz sorrir. Ela me vê, mas não me cumprimenta. Quando o número termina, bato palmas alto demais, e até mamãe se vira.
Já a caminho de casa, ela abaixa o volume do rádio diante da placa de Pare que fica em frente à nossa casa e diz:
— A aprovação do seu talento foi o primeiro e último favor que te fiz. — Respira fundo por entre os dentes. — Sei que você não leva esse concurso a sério, mas talvez pudesse, pelo menos, fingir que leva.
Ela tem razão. Não é justo com ela, nem com Amanda, Millie e Hannah. Quando entro no quarto, a primeira coisa que faço é sentar diante do computador com Riot enroscado aos meus pés e escrever um e-mail. No campo do assunto, digito: SOS.
QUARENTA E SEIS
À luz do dia, a The Hideaway não passa de um barzinho com pintura descascada e
assoalhos encardidos.
Ao meu lado, Hannah não para de cambalear sobre um par de saltos dez.
— Não vou usar esses troços no concurso.
Lee Wei nos enfileira no palco, todas de salto alto, enquanto Dale, o segurança/dono, senta diante do bar, bebericando uma lata de cerveja. Mandei um e-mail para ele abrindo o jogo, muito mais do que tenho feito nos últimos tempos. Contei que tinha encontrado o velho formulário na cômoda de Lucy e expliquei tudo sobre Millie, Amanda e Hannah. Já fui longe demais, disse a ele. E não só vou dar o maior vexame, como vou arrastar essas meninas comigo. Precisamos de ajuda. De um tipo que a gente não encontra em Clover City.
Porque a verdade é que não temos a menor ideia do que estamos fazendo. Não sabemos como andar, fazer poses ou nos apresentar. Não quero subir naquele palco e ser a gorda que caiu de bunda no chão e conseguiu fazer alguns truques mal e porcamente. Não sou ingênua. Sei que não vou vencer. Nem quero. Mas quero chegar lá e provar que não há razão pela qual eu não possa ou não deva participar.
Do meu outro lado, está Millie, num silêncio totalmente atípico e com os joelhos imóveis.
— Você está bem? — sussurro.
Seus olhos se fixam no refletor escuro metros acima.
— Estou tentando me concentrar em não cair.
— Dobra os joelhos! — instrui Lee.
Hannah aponta o polegar na direção de Amanda.
— Não entendo por que ela não precisa usar esses instrumentos pontiagudos de tortura.
Amanda abre um sorriso inocente.
— Hannah — começa Millie. — Você sabe que...
Lee a interrompe em tom sério:
— Porque a vida não é um rio, e nem todos estamos indo na mesma direção.
Hannah revira os olhos.
— E, querida — acrescenta Lee —, você precisa melhorar um pouquinho esse seu humor.
Pedi a Lee e a Dale para sacrificarem a tarde de sexta, e aqui estão os dois se lamuriando.
— Vamos lá, pessoal.
— Acabar logo com isso — completa Amanda.
Lee pigarreia.
— A primeira coisa que vocês precisam definir é o modo de andar. O andar faz da mulher uma rainha. Porque, minhas amigas, não é o que sai da sua boca que causa a primeira impressão. Está tudo... — ela mexe os quadris para a direita, e então para a esquerda — ... no balanço das ondas do mar.
Com o canto dos olhos, vejo Millie roendo as unhas sem parar.
Lee nos manda sentar enquanto mostra exatamente o que quer dizer, e soltamos suspiros de alívio quando nossos traseiros tocam as cadeiras. Ela rebola de um lado para o outro do palco, os saltos fazendo um toc definido a cada passo.
— Veem como estou caminhando com um passo à frente do outro? Finjam que é um teste de sobriedade...
— Elas são adolescentes — resmunga Dale.
— Então devem saber exatamente do que estou falando, não é, meninas? — A única que balança a cabeça é Hannah. — Então, vocês vão caminhar como se estivessem pisando numa linha amarela. Nada de passinhos de bebê. Cada passada deve ter, no mínimo, o comprimento do antebraço. — Ela dá mais uma volta. O jeito como esse travesti baixinho e gorducho se move num robe de seda e um par de saltos estratosféricos o transforma numa verdadeira diva. Talvez eu esteja vendo o que quero ver, mas é difícil pensar em Lee como sendo menos do que isso.
— Vocês não podem jogar todo o peso do corpo em cima do calcanhar. Não é justo fazer com que os pobres saltinhos sustentem vocês sem ajuda. Distribuam a função pelo resto do pé. Agora, quero ver uma de vocês tentar.
Levanto a mão. Posso fazer isso. Em grande estilo.
Dale solta um assovio.
Com cuidado, começo a avançar.
Lee faz um floreio com o braço, pondo o palco à minha disposição.
— Bota um som aí pra menina, Dale!
Respiro fundo. Não reconheço a música, mas basta ouvi-la para ignorar a dor nos dedos espremidos e a ardência nas solas dos pés. Os primeiros passos são tão longos como Lee mandou, embora lentos e hesitantes. Ela tem razão quando diz que o truque é pisar primeiro com os dedos e depois com o calcanhar, um pé na frente do outro. Faz com que os quadris balancem e põe o corpo inteiro em movimento, como uma bicicleta numa descida: depois que a gente começa, não consegue mais parar. Quando me viro para o outro lado do palco, Dale me brinda com um segundo assovio. Caminho com determinação e a consciência de que, se o salão estivesse lotado de gente, todos os olhos se colariam em mim.
Lee bate palmas e me abraça pela cintura. Quando encosta a cabeça no meu peito, por um breve momento lembro que ela é ele. Gostaria que todos os dias da minha vida fossem tão absurdos como esse. Queria que Lucy testemunhasse isso. Que visse que liguei todos os pontos espalhados da sua vida, até chegar aonde estou.
Fico assistindo enquanto Hannah caminha aos tropeções e leva não um, mas dois tombos. Ao voltar, arranca os sapatos na metade do palco e os joga na plateia vazia. Mas rindo o tempo todo, coisa que não posso dizer que a vi fazer muitas vezes.
O andar de Millie é comedido e cuidadoso. Lee é obrigada a ficar lembrando a ela que os olhos devem se fixar no horizonte e não nos pés. Volta e meia ela tem que levantar as mãos para se equilibrar, mas acaba conseguindo. E Amanda caminha tão à vontade com suas botas ortopédicas, que praticamente dispensa orientações.
Antes de irmos para casa, sentamos um pouco no bar, enquanto Dale prepara drinques não batizados para nós e batizadíssimos para Lee.
Ela nos fala de tudo, desde maquiagem de palco até os tipos de roupas que expressam pontos de vista, até já ter tomado tantos drinques que encosta a cabeça no balcão.
— Gostaria de ter conhecido vocês quando eu era adolescente.
— Por quê? — pergunta Hannah. — Gosta de ser alvo de bullying?
— Não, não, é porque gostaria de ter tido amigas que corressem atrás das coisas proibidas. Eu tinha muito medo de mim mesma naquela idade. Medo de que todas as coisas grandes que eu queria fossem ficar só na vontade.
Dale contorna o outro lado do balcão.
— É melhor eu te levar para casa antes da hora de abrir o bar.
Lee se endireita.
— É melhor mesmo — concorda. — Olha só pra mim. Estou vivendo meu sonho. Apaixonada. Feliz. Mas esperei até que essas coisas acontecessem comigo. E vocês estão fazendo e acontecendo agora, indo à luta.
Ficamos bebericando nossos drinques por alguns momentos. Não digo nada, mas suas palavras despertaram algo dentro de mim. Como se eu estivesse usando um músculo de cuja existência já tinha até me esquecido.
— Obrigada por nos ajudar — agradece Amanda. — Embora eu não possa usar salto alto.
Com a ajuda de Dale, Lee desce do banquinho.
— Filhinha, você não precisa de salto alto. Você já é poderosa com o que a natureza lhe deu.
Ela caminha por entre nós e nos dá dois beijinhos. Millie faz menção de abraçá-la, e Lee não se afasta. Quando Dale a acomoda no carro, pegamos nossas coisas e entramos na van da mãe de Amanda.
Voltamos para casa em silêncio. Nem Hannah é capaz de fazer comentários ácidos. Millie nos pede para darmos uma parada numa papelaria, para comprar um cartão de agradecimento. Todas nós assinamos, e Millie promete colocá-lo nos correios.
Há algo diferente em nós. Dá para sentir. Não tem a ver com o andar, nem com as dicas de maquiagem. Não é uma coisa que se possa rotular ou fotografar, mas que fica lá no fundo como a sensação de ser o dia do seu aniversário — nada que seja visível, mas que intuitivamente se sente.
QUARENTA E SETE
— Dumplin’! Visita pra você!
Desço correndo as escadas. Bo se ofereceu para vir me buscar, mas eu disse a ele, de maneira muito explícita, que me mandasse uma mensagem quando estivesse estacionando. Acho que ele não é muito dado a seguir instruções.
Na noite passada, quando eu estava indo dormir, meu celular vibrou. Não deveria ter olhado, mas, por um segundo, achei que fosse Ellen.
BO: Oi, oi. Quer estudar praquela prova de história no fim de semana?
Respondi que sim, sem nem pensar se deveria fazer isso.
Agora Bo se encontra na cozinha ao lado da mamãe, que ainda está tomando café. Ela lhe dá as costas ostensivamente e mexe as sobrancelhas para mim.
— Vou estudar na casa do Bo, mãe.
O rosto dela está vermelho como se estivesse de porre.
— Comportem-se, vocês dois.
Bo abre a porta de vidro e espera que eu saia primeiro.
— Não se esqueça de pedir o orçamento ao seu pai, querido! — grita ela numa vozinha cantarolada para Bo.
Contornamos a parede e seguimos em direção ao jardim.
— Que orçamento? — pergunto.
— Ah, sim. — Ele faz um gesto em direção à casa. — Nós estávamos falando sobre a porta da sala. Meu pai é chaveiro. Mas ele também conserta portas.
Seguimos em silêncio na caminhonete durante algum tempo, até eu dizer:
— Minha mãe é doida de pedra. Desculpe.
— Vocês se parecem.
Tento engolir, mas minha boca está seca feito um deserto. Ninguém jamais tinha dito isso sobre mim e mamãe. Era sempre em relação a Lucy. Você se parece com a sua tia. Não me envergonho disso, mas gosto da ideia de ter puxado à minha mãe.
— No bom sentido — acrescenta ele.
Baseada no que Bo me contou sobre a bolsa de estudos, imaginei que não vivesse em nenhum dos bairros mais novos, mas não cheguei a esperar exatamente isso. A casa
em que ele mora — com um gramado bem-cuidado — fica numa rua onde só se veem telhados afundados, tinta descascada e jardins com mato crescido.
Bo estaciona na entrada, o calçamento está decrépito.
— É aqui que eu moro.
Sigo-o pela trilha até a porta, onde está pendurado um cartaz com os dizeres: FIADO SÓ AMANHÃ!
O interior da casa é quente, mas não de um jeito desconfortável. Só tem um andar e é consideravelmente menor do que a minha. Os móveis devem ter, no mínimo, duas décadas, mas combinam entre si. Imagino como deve ser para a madrasta de Bo viver numa casa que foi decorada pela mãe dele.
O lugar tem um cheiro forte de incenso que se harmoniza com o restante do ambiente. Fico me perguntando se Bo achou que a minha casa tem um cheiro parecido com o meu.
Não sei onde esperava que ele morasse, mas não era aqui.
— Deixa eu te apresentar para a minha madrasta.
Sigo-o pelo curto corredor que separa a porta da cozinha, onde há um incenso queimando. Ela está xingando o freezer da geladeira, os pés cercados por uma poça d’água com cubos soltos de gelo derretendo. Não está parecendo tão bem-cuidada como no dia em que a conheci no shopping, mas mesmo assim é uma mulher bonita, de um jeito muito diferente de mamãe. Uma beleza natural. Sem as unhas pintadas, a maquiagem e o laquê.
— Loraine — diz Bo —, a Willowdean veio estudar comigo.
Ela se vira depressa com um facão na mão.
— Ah! — Solta uma risada, abaixando o braço. — A menina com dois nomes. Eu me lembro de você.
Bo faz que sim com a cabeça.
Ela sorri e me abraça. Sem usar a mão que segura o facão.
Bo dá uma tossida.
— O freezer parou de funcionar?
Ela torna a levantar o facão, como se fosse apunhalar.
— Ah, congelou tudo. Tentei quebrar uma parte, para seu pai não ter esse trabalho. Ele foi chamado para fazer um serviço bem quando estava tomando café.
— Nós vamos estudar no meu quarto — informa Bo.
Os olhos de Loraine passeiam entre nós dois. Fico esperando que responda algo como Seria melhor que estudassem aqui ou Deixem a porta aberta, mas ela se limita a dizer:
— Me avisem se precisarem de alguma coisa.
O quarto dele não é sujo, mas bastante surrado. É como se cada uma de suas idades tivesse deixado vestígios por ali: pôsteres de bandas que até me surpreende que ele conheça, uma bola de basquete autografada na escrivaninha, um pote com pirulitos vermelhos sortidos, uma rede suspensa do teto cheia de bichos de pelúcia, uma camisa do San Antonio Spurs emoldurada.
Ele fecha a porta atrás de nós, e tenho a sensação de que todo o ar que restou para se respirar no mundo ficou trancado aqui dentro. Quando acabar, babau. Vai ser a morte de Willowdean Dickson no quarto de Bo Larson.
Sentamos em almofadas no chão com os livros e as anotações espalhados à nossa frente. Durante um tempo, conversamos sobre o que pode cair na prova, mas só consigo pensar em BO-BO-BO-O-QUARTO-DE-BO-ELE-DORME-AQUI-BO-BO-BO-É-AQUI-QUE-ELE-TIRA-A-ROUPA.
Bem atrás da sua cabeça, pendurado na maçaneta da porta, há um largo molho de chaves, com centenas delas penduradas.
— O que é esse chaveirão de zelador? — pergunto.
Ele dá uma olhada atrás de mim.
— Ah. Ganhei do meu pai. — Ele gira o corpo e se recosta na cama. Faço o mesmo. — Comecei a colecionar chaves quando era pequeno. Meu pai bolou um jeito para ajudar ele a dar uma geral na caminhonete, dizendo que eu podia ficar com todas as chaves avulsas que encontrasse. Quase todas são peças que ficaram malfeitas ou velhas e não podiam mais ser usadas.
Estamos com as mãos espalmadas no tapete, a centímetros uma da outra.
— Você ainda ajuda seu pai?
Ele faz que não com a cabeça.
— As coisas mudaram quando comecei a estudar na Holy Cross. Estava sempre ocupado com os treinos de basquete. E com os amigos. Sei lá. Minha vida começou a parecer muito mais importante do que essas chaves bobas. Sabe quando a gente começa a fazer mil planos para o futuro e de repente o trabalho dos pais parece insignificante? E acho que eu também sentia vergonha dele. Fiquei tão acostumado a ver os outros pais na Holy Cross usando camisas polo e calças cáqui, que pedi a ele para não ir mais me buscar na caminhonete. — Ele balança a cabeça. — Eu era um babaca. E às vezes ainda sou.
— Acho que sentir vergonha dos pais faz parte do processo de amadurecimento, tanto como ficar mais alto.
Ele sorri com os lábios fechados.
— Eu adorava ver o velho abrindo cadeados. O jeito como ele ficava lá com o ouvido no troço, como se estivesse escutando sua música favorita. E, de repente, a gente ouvia aquele clic.
— Não sei se faz diferença, mas não acho que você seja um babaca. Pelo menos, não totalmente.
— Não foi só meu pai — continua Bo. — Minha ex-namorada também. Amber. Fui horrível com a garota. Ela fazia tudo para me apoiar. Não faltava a uma partida do meu time. Mesmo quando jogávamos em outra cidade, ela ia, se arranjasse tempo. E, em troca, eu dava uns amassos nela no escurinho do cinema ou me enfiava com ela na sala da casa do pai só para ver jogos de basquete na tevê. Como pensava que ela estava me usando como símbolo de status, não achava que isso importasse. Mas ela não estava recebendo nada de mim que não pudesse receber de um outro qualquer.
Sinto um gosto azedo na boca. Esse esquema me parece muito familiar. E não é nada que eu esteja a fim de relembrar.
— O que a Loraine faz?
Ele fica vermelho da cabeça aos pés e cobre o rosto com as mãos, por isso não posso vê-lo.
— Ela dá reuniões na casa das clientes e vende... certos acessórios.
— Espera aí. — Faço um esforço bárbaro para não rir. — Desculpe. O que foi que você disse?
Ele recosta a cabeça na cama.
— Ela dá reuniões na casa das clientes e vende certos acessórios.
— Tipo sex toys?
Ele fica ainda mais vermelho.
— Minha mãe trabalha num lar de idosos — conto a ele, tentando socorrê-lo, embora seu rubor seja a coisa mais fofa do mundo.
Ele se vira para mim, o vermelho começando a se apagar do rosto.
— Pensei que ela fosse a diretora do concurso.
— E é. Ela é a diretora do concurso que limpa a bunda das avós das candidatas durante o dia.
— Nossa. Nunca teria imaginado.
Suspiro.
— Puro glamour.
— E aí, você se inscreveu mesmo naquele troço?
— Hum-hum. — Balanço a cabeça. — Por quê? — Todo mundo parece ter alguma coisa a dizer sobre a minha participação, e tenho certeza de que Bo não é exceção à regra.
— Bom, eu sempre achei que esses concursos eram uma idiotice, mas também pensava o mesmo da Dolly Parton.
Sorrio.
— Resposta certa.
— E a sua tia? — pergunta ele. — A que faleceu.
Engulo em seco.
— Ela não trabalhava. Era aposentada.
— Ah, então vocês já esperavam? Não que isso melhore as coisas. O que eu quis dizer foi que...
— Não. — Minha voz é suave, mas ele me ouve. — Nós não esperávamos.
Ele aguarda que eu fale.
— Ela era obesa. Não como eu. Pesava duzentos e vinte e cinco quilos. Teve um infarto. Mas ela cuidava de mim. Como uma segunda mãe.
— Gostaria que houvesse alguma coisa melhor para dizer do que “sinto muito”.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, observando as sombras criadas pelos galhos das árvores que o vento faz balançar por trás das persianas de PVC.
— Acho que ele ficou até feliz quando perdi a bolsa de estudos.
— Por que ficaria feliz com uma coisa dessas? — pergunto, sem ter a menor dúvida sobre quem é “ele”. Bo cruza os braços e, nesse momento, sua mão roça a minha. Cada pequeno detalhe, as mãos se tocando, a porta se trancando, faz com que uma onda de calor suba pela minha coluna.
— Não feliz, exatamente. Mas aliviado. — Ele torna a encostar a cabeça e observa as minibolas de basquete penduradas nas correntes do ventilador de teto. Imagino que deva ser estranho viver neste santuário dedicado a um esporte que ele não pode mais praticar. — Acho que eu já estava com um pé fora da cidade. Era um bom armador. Bom o bastante para ser notado por algumas faculdades menores, e talvez ele também tenha percebido isso. Mas não era para eu ir embora de Clover City. Antes da Holy Cross, o que estava planejado era que eu viveria e morreria aqui, trabalhando com meu pai.
Cada palavra me é familiar. Sua verdade é a minha verdade. Há uma versão do futuro na minha cabeça em que fico aqui para sempre. Vendo minha mãe trabalhar até o último dia da sua vida. E aí eu fico sozinha naquela casa com a porta da sala emperrada, cheia de materiais do concurso e discos da Dolly Parton. Pois é, um futuro sombrio. Mas, mesmo assim, sinto um certo conforto por saber o que o futuro me reserva. Eu nunca soube o que é uma surpresa favorável na vida.
— Não culpo o velho — continua Bo. — A sensação de ver as pessoas irem embora é assustadora.
— É, eu entendo o que quer dizer. — Acho que talvez estejamos falando de um tipo diferente de perda. O tipo que não pode ser resolvido com uma passagem de avião.
Batem à porta.
— Entra.
— Oi, filho. — O pai de Bo é uma versão mais baixa dele. Parruda, com ombros largos. Ele me nota e cumprimenta com um aceno de cabeça.
— Pai, essa é a Willowdean. Nós somos colegas de escola. E ela também trabalha no Harpy’s.
Fico de pé.
— Prazer em conhecê-lo, Sr. Larson.
Ele faz um gesto dispensando a formalidade.
— Pode me chamar de Billy. — Vira-se para Bo. — Preciso da sua ajuda para trocar o pneu da caminhonete, e tem que ser agora.
— Claro. — Bo se levanta e promete voltar logo.
Fico parada no quarto por um momento. No quarto de Bo Larson. Sozinha. Na escrivaninha, ao lado da bola de basquete autografada, há três porta-retratos. O primeiro mostra uma foto de Bo tirada há alguns anos. Ele está com uma camisa da Holy Cross, segurando uma bola de basquete debaixo do braço. Parece bem mais jovem com o cabelo curto e o rosto sem barba, mas o contorno dos bíceps já antecipa o presente. Uma promessa do Bo que conheço hoje. A foto seguinte é antiga e está meio desfocada, como se tivesse sido tirada de um celular. Nela aparecem Bo, o pai e o irmão, Sammy. Bo não parece ter mais de nove anos. Os três estão na areia suja de uma típica praia texana, com o mar ao fundo. Bo está ao lado do pai, com os braços cruzados e as pernas bem afastadas. O Sr. Larson segura Sammy acima da cabeça como se fosse um haltere. O último porta-retratos é o da foto do casamento dos pais. E agora vejo de quem Bo herdou a altura. A Sra. Larson era, pelo menos, uns dez centímetros mais alta do que o marido. Ela está usando um vestido amarelo-claro, com uma saia rodada até os joelhos, um par de sandálias douradas e o cabelo solto sobre os ombros. É uma foto bem natural, onde ela aparece com a cabeça jogada para trás, rindo, enquanto o marido exibe o sorriso que tantas vezes já vi no rosto de Bo.
— Ela era linda. E uma típica escorpiana.
Eu me viro. Loraine está parada diante da porta, com um sorriso tranquilo.
— Desculpe — peço, sem saber direito pelo quê. — Estou esperando que Bo volte.
— Não tem do que se desculpar.
Mordo o lábio por um momento antes de perguntar:
— Você a conheceu?
— Só de passagem, mas, por tudo que ouço dizerem, era uma boa pessoa.
Olho para a foto mais uma vez.
— Vem tomar um chá gelado comigo — convida Loraine.
A maioria das mulheres no Sul tem o maior orgulho das suas receitas de chá gelado, que são passadas de geração em geração. Mas Loraine não é como a maioria. Ela põe chá em pó na água. Para mamãe, chá gelado feito com esses chás que já vêm prontos é quase tão ruim quanto a possibilidade de ser abandonada depois de uma noite de paixão.
— Quer com limão? — oferece Loraine.
— Quero, seria ótimo. — Espremo um limão no copo antes de dar um gole. Delicioso. Como lasanha gelada. Onde quer que mamãe esteja, acaba de desmaiar.
Loraine senta à minha frente com um copo para si mesma. É uma dessas pessoas que poderiam ter vinte e cinco ou quarenta e cinco anos, e ninguém perceberia a diferença.
— Qual é o seu signo, Willowdean?
— Signo?
— Seu signo do zodíaco. Astrologia.
— Eu... Ih, não sei. — De acordo com mamãe, a astrologia está a dois passos da possessão demoníaca. — Nunca prestei muita atenção nessas coisas.
Ela balança a cabeça, soltando um muxoxo.
— Nunca vou entender como as pessoas podem passar a vida inteira sem conhecerem os próprios signos. Que dia é o seu aniversário?
— Vinte e um de agosto.
— Ah! Uma leonina, mas passou raspando.
Eu me inclino para Loraine.
— O que isso significa? — Estou entrando num universo totalmente novo.
— Você, minha querida, é uma leoa. — Isso é dito com a mais extrema dramaticidade, mas não entendo o sentido da frase. Ela suspira. — Você é a rainha da selva, felina. A autoconfiança em pessoa.
Bom, pelo visto, a astrologia é uma tremenda furada.
Ela brande o dedo para mim.
— Não duvide das minhas palavras antes do tempo. Tem mais. Leão é um signo do fogo. Você ama profundamente, mas também se magoa profundamente. Mas nem sempre deixa que a mágoa transpareça, porque é uma vulnerabilidade. Você é como o sol. Está sempre aí. Mesmo quando não podemos te ver.
Ela acredita tão piamente nisso, que acho difícil não acreditar também. E eu não desgosto da ideia de ser do jeito que sou porque estava escrito nas estrelas.
— Entretanto... — lá vem o lado ruim da coisa — você também sente necessidade de aprovação. E essa falha é grande o bastante para te paralisar. Mas o que importa lembrar é que, apesar do signo, cada um faz o seu próprio destino.
É difícil não sentir o quanto essas palavras são verdadeiras.
— Como você sabe todas essas coisas?
— Todo mundo tem uma religião, não é verdade? — Ela dá de ombros. — Mesmo que não seja exatamente uma religião.
— Qual é o seu signo?
Ela sorri.
— Sagitário, mas o mais interessante é o signo de Bo em relação ao seu.
Fiquei vidrada. Agora ela me pegou. E ela sabe.
— Bo é de Aquário. Como o pai. Ensimesmado e reflexivo, mas com um bom coração.
Demoro um segundo para perceber que estou balançando a cabeça.
— De acordo com as estrelas, vocês dois formam um par perfeito. — Dá um gole no chá e pisca para mim.
Sei que par pode querer dizer qualquer coisa: amigos, colegas, sócios. Mas isso não impede meu rosto de ficar quente como se estivesse queimado de sol.
Ela põe a mão no meu joelho.
— Ah, querida, você está bem?
Balanço a cabeça um pouco rápido demais.
— Você... Onde é o banheiro? — Meu rosto está pegando fogo.
Ela franze o cenho, preocupada.
— A segunda porta depois do quarto de Bo, à esquerda.
Fico de pé e dou as costas a ela, parada entre a cozinha e a sala de jantar.
— Gostei de conversar com você — digo.
Ouço a porta da garagem se abrir.
— Você é sempre bem-vinda para vir bater um papo comigo.
No banheiro, jogo um pouco de água no rosto. Quero acordar todos os dias como naquele filme, Feitiço do Tempo, e reviver esse dia uma vez atrás da outra.
Mas aqui, sozinha, é difícil não me perguntar se ele já trouxe Bekah para casa. Ou se Amber se entrosou com Loraine tão bem como sinto que nós duas nos entrosamos.
Bo está esperando no quarto. Ele trocou de camisa e colocou nossos livros e anotações em cima da cama. EM. CIMA. DA. CAMA.
Mas a porta está aberta, e eu sinto um certo alívio por isso. Afinal, como as pessoas podem funcionar numa situação dessas? Como conseguem pôr gasolina no carro, pagar as contas ou amarrar os sapatos quando estão apaixonadas? Ou poderiam estar apaixonadas. Ou estão apaixonadas. Ou entre uma coisa e a outra.
O celular vibra no meu bolso.
MITCH: O que vai fazer hoje à noite? Está a fim de ir comer uns tacos? Ver um filme?
Saio das mensagens.
— De quem era? — pergunta Bo.
— De ninguém em especial. Só minha mãe.
Estudamos durante as horas seguintes até escurecer e precisarmos acender o abajur da mesa de cabeceira. Trocamos de posição e nos recostamos nas almofadas em meio a um mar de papéis.
Quando ele me leva para casa, percebo que estou viciada no conforto da sua presença. Passei o dia inteiro sendo totalmente eu mesma. Nem filha, nem sobrinha, nem a gorda de quem as pessoas ficam amigas para salvar a própria aparência. Só Willowdean. E a sensação me faz sentir saudades de El. Mas já estou cansada desse lance de os outros me fazerem sentir assim. Estou pronta para ser eu mesma a me fazer sentir assim.
— Gostei da Loraine — digo a ele.
— Ela tem um jeitinho que conquista as pessoas. Cativante, como diz meu pai. Tentei ao máximo não gostar dela. Mas, quanto mais eu tentava, mais eu queria gostar. Ela não tenta bancar a minha mãe. Não como algumas mulheres fariam. Mas ela é outra coisa para mim. Não uma amiga, mas não uma mãe. Não sei.
É assim — essa descrição curta e exata — que eu me sinto em relação a Lucy. Mas não existe um termo específico para isso, e às vezes penso que é o que torna a dor de tê-la perdido tão difícil de aceitar.
Ele estaciona diante da minha casa.
— É isso que você costuma fazer aos sábados? Ficar estudando em casa? — Quero saber tudo sobre cada minuto da sua vida.
— Hum-hum — responde ele. — A menos que meu pai precise de mim.
— E nos domingos? — Esse é o nosso dia de folga no Harpy’s, o que significa que é o único da semana em que Bo é um total mistério para mim.
— Vou à igreja. À missa.
— Espera aí, você é católico?
Ele traça desenhos com o dedo no volante.
— Sei lá.
— Como pode não saber?
A luz dos postes se reflete na correntinha de prata que aparece acima da gola da camiseta.
— O técnico sempre mandava a gente ir à missa durante a temporada, e acho que adquiri o hábito.
— Ainda bem que sem duplo sentido.
Seus lábios formam um sorriso meio torto.
— Sei lá, eu gosto da tradição da coisa.
— Sua família também vai?
Ele ri.
— Nem à força.
O silêncio da minha rua deserta entra pelas frestas da caminhonete.
— É melhor eu ir — sussurro.
Ele se inclina para mim e entrelaça os dedos na minha nuca, me puxando. Nossos lábios se roçam, tão de leve que chego a sentir cócegas. Mas não é exatamente um beijo.
— Quero te beijar. Quero te beijar em breve. — Suas palavras se derramam dentro da minha boca. — Mas dessa vez não vou dar mancada.
Tenho um milhão de perguntas para fazer, mas acho que por hoje basta.
Ele abaixa as mãos, deixando que os dedos deslizem pelo meu rosto.
— Vem à missa comigo amanhã.
Mordo os lábios.
— Tá.
QUARENTA E OITO
No instante em que entro, a realidade despenca ao meu redor. Mamãe está trabalhando
no meu vestido e assistindo a um filme na tevê com o volume alto demais.
Tudo que eu mais quero é ligar para El e contar sobre cada segundo desses dois últimos dias. Lee Wei, Dale, Bo, Loraine. Tudo. Despenco numa cadeira da cozinha e passo as mensagens no celular até encontrar as últimas que trocamos há quase dois meses. Clico para escrever.
EU: Passei o dia com o Bo da Escola Particular. Ele gosta de mim, muito. Conversamos sobre tudo e
sobre nada. Ele quase me beijou e foi o não beijo mais fantástico de todos os tempos. Estou tentando
não pensar em Mitch. Ignorei as mensagens dele durante todo o fim de semana. Como pode o fato de
eu ter passado um dia tão maravilhoso conseguir me fazer sentir uma pessoa tão horrível? Sinto falta
de Lucy. E uma saudade gigante de você. Me perdoa. Por tudo que fiz de errado. TUDO.
Fico olhando para as palavras, imaginando o que poderia acontecer se eu apertasse o botão de Enviar. Acabo apagando o texto. O medo de El não responder é grande demais para correr o risco.
Bo me manda uma mensagem quando chega aqui em casa, e não poderia ter sido em melhor hora, pois mamãe está entrando no chuveiro.
— Volto mais tarde! — aviso em voz alta.
Se ela perguntar aonde vou, basta fingir que não ouvi por causa da água.
Não estou tentando esconder que vou sair com Bo, e sim que vou a uma igreja com ele, porque mamãe preferiria que eu não fosse à igreja alguma a que fosse a uma católica. O que não faz o menor sentido para mim. Católicos, evangélicos, batistas... todos acreditam nas mesmas coisas, só têm maneiras diferentes de expressá-las, na minha opinião, claro. Acho que somos batistas. Afinal, ela frequenta a Primeira Igreja Batista de Clover City, e eu também, nos feriados.
Usando uma calça cáqui passada a ferro e uma camisa polo preta, Bo está encostado na porta do carona, à minha espera. Estou me sentindo meio empetecada com o vestido preto que usei no serviço religioso de Lucy, mas é o único que tenho apropriado para ir à missa.
Ele abre a porta para mim, e passamos todo o percurso até a igreja com as mãos no descanso entre nós. Nada se toca além dos mindinhos, e a sensação é de uma centelha prestes a se inflamar numa labareda.
Nunca estive dentro de uma igreja católica na vida. Imagino que sejam essas construções antigas com confessionários, vitrais e bancos para se ajoelhar que a gente vê no cinema.
Mas a da Holy Cross é mais nova. Mesmo assim, tem tudo o que eu imaginava. É mais silenciosa do que a igreja da mamãe. Mais tranquila. Nenhum voluntário vem nos receber falando em voz alta, tampouco há professores fofoqueiros de escola dominical.
É simpática.
Dos dois lados do altar há velas em copinhos vermelhos, mas nem todas estão acesas.
— Para que são as velas? — sussurro para Bo depois de encontrarmos assentos no meio da igreja.
— É para a gente deixar um dólar, ou qualquer quantia, na caixa de coleta e acender uma vela em memória de alguém. E acho que fazer uma oração também, se quiser.
A missa começa e, após alguns anúncios e hinos, o prato de coleta é passado entre os bancos, de mão em mão. Bo tira uma amassada nota de dez da carteira e a coloca no prato antes de passá-lo adiante. Padre Mike faz o sermão. Eu esperava que fosse em latim, mas não, é na nossa língua mesmo. Cada palavra é comedida. O lance todo é meio parecido com uma cerimônia, como a da passagem do nível de Margarida para o de Brownie, nos meus tempos de bandeirante.
Depois da missa, sigo Bo até a parte em que estão as velas, onde algumas pessoas se reuniram. Ele põe umas moedas na caixinha e me dá uma vareta para acender uma vela na chama da outra maior. Cada um de nós acende uma. Não chegamos a dizer para quem são, nem é necessário.
Imagino como seria fazer isso todos os domingos em companhia de Bo. Mesmo sem saber se acredito nesse ritual, gosto da ideia de fazer parte de alguma coisa. Ao lado dele.
Saímos para o estacionamento, onde os fiéis estão se confraternizando. Bo acena para alguns. Ele aponta para um sujeito de blazer azul-marinho e calça cáqui.
— Aquele é o meu técnico. — Sinto uma tristeza enorme por ouvi-lo falar do cara com tanta ênfase, no presente, como se ainda fosse seu técnico.
— Bo! — Demoro um momento para reconhecê-lo, mas é Collin. O cara que foi visitar Bo no Harpy’s. Ele dá uma corridinha até nós. — Oi — diz ele, apontando para mim. — Estou te reconhecendo.
Começo a me encolher.
Bo estende a mão, e os dois trocam um aperto tão firme que mais parece uma demonstração de força. Mas Bo não está irradiando aquela tensão sufocante da última vez que os dois se viram.
— O que tem feito, cara? — pergunta Collin.
Bo dá de ombros.
— Trabalhado. Estudado.
Outros caras do time estão se aproximando. E eu me sinto como um elefante branco — ou preto, já que é a cor do meu vestido.
Ele aperta a mão de cada um deles.
Os caras perguntam a ele sobre a escola, sobre o joelho, se vai fazer fisioterapia para voltar às quadras. Meus ombros relaxam um pouco, e quase começo a me sentir invisível.
De repente, Collin aponta para mim e pergunta:
— E essa aí? É a sua namorada agora?
Bo olha para mim e responde:
— Essa é a Willowdean. — Ele se vira para os amigos. — E eu estou fazendo de tudo para que seja. — Segura minha mão. E a aperta. Bem ali, na frente de todo mundo. Fico tão eufórica quanto envergonhada.
Alguns dos amigos assoviam quando ele se despede e voltamos para a caminhonete. De mãos dadas.
Entramos e ficamos esperando na fila para sair do estacionamento.
— O que foi isso?
Ele passa as costas da mão no queixo.
— Eu te disse que quero fazer as coisas do jeito certo. E já estou cansado de te manter em segredo. Aliás, nunca tive a intenção de fazer isso. Eu estava... sei lá. Às vezes, as coisas legais acontecem com a gente na pior hora possível. Você foi uma ótima coisa, Willowdean.
— E a Bekah?
— Que é que tem ela?
— Vocês não estão namorando?
Ele dá uma risada.
— Que nada. Só saímos algumas vezes. — Ele faz uma pausa. — Tudo bem. Acho que a gente meio que namorou. Mas eu estava tentando te esquecer. Ou te deixar com ciúmes, de repente. Sei lá. Não esperava que você fosse ficar vidrada naquele gigante, por isso acho que eu é que estava com ciúmes.
— Mitch. O nome dele é Mitch. Ele não é esse tipo de cara. É só um amigo.
Ele não responde por um momento.
— Nada além disso?
— Nada — respondo, como se a ideia me chocasse.
Sinto seu olhar em mim.
— Sei lá. — Ah, meu Deus. É claro que nós somos mais do que amigos. Pelo menos, na cabeça do Mitch. E acho que, às vezes, na minha também. — Nunca definimos o status da nossa relação, mas acho que ele gostaria disso.
— E você também gostaria? Com ele?
— Eu... não sei. Na maior parte do tempo, não. Mas não cheguei a dizer isso a ele. — Giro uma mecha de cabelo entre os dedos. — Mas e você e a Bekah? — Balanço a cabeça. — Nunca vai chegar a hora certa para nós, Bo.
— Eu não disse a ela que estávamos namorando, se é isso que quer saber.
— Mas então estavam fazendo o quê? Você pretendia dar um fora na garota?
— Ela e eu não somos namorados.
— E nem nós dois — rebato.
Com um movimento brusco, ele gira o volante e entra com a caminhonete numa rua sem saída. Para e puxa o freio de mão.
Bo desafivela o cinto de segurança e se aproxima.
— Eu quero mais. Com você. Eu quero segurar sua mão em público. Te levar para casa do trabalho e te dar um beijo de boa-noite. E ficar conversando no telefone até tão tarde que a gente acabe pegando no sono.
Mordo o lábio inferior para que pare de tremer. Há muitas razões para que a gente não dê certo. Sei que temos uma história juntos — há provas incontestáveis disso —, mas... Se eu fosse sacudir a Bola 8 Mágica, posso praticamente garantir que ela me diria: O prognóstico não é dos melhores.
Mas Bo não se deixa abater.
— Você não me conhecia no ano passado, Willowdean. E fico feliz por isso. Eu era um otário. Só queria saber de ir embora desta cidade. Eu brinquei com você no verão. Sei disso. E não vou te perder de novo. Eu vou conversar com a Bekah e ser cem por cento honesto com ela. Não vai haver nenhum mal-entendido.
— Não é tão simples assim, Bo. Talvez até seja pra você, mas pra mim não é.
Ele franze os olhos.
— É isso que eu quero: que você seja minha namorada. Quero pôr um rótulo na nossa relação. Quero que todo mundo saiba exatamente o que eu sinto por você, Willowdean. Acho que isso é bastante simples.
Eu não deveria ceder, mas me aproximo para beijá-lo. Meus nervos estão à flor da pele, e este momento em que meu corpo vira uma mistura de caos e determinação é exatamente o que faltava com Mitch.
Ele se afasta.
— Primeiro, quero sua resposta.
Desvio os olhos, deixando que se fixem em mil lugares, menos nos dele. Não sei se posso enfrentar os olhares e os cochichos dos outros. Mesmo que consiga superar a repulsa por mim mesma quando ele me toca — me toca pra valer —, não acho que eu tenha coragem de enfrentar as pessoas sempre perguntando, com ar atônito, como se fosse o milagre da água e do vinho, como nós fomos acabar juntos.
E agora sei exatamente como Lucy se sentia quando decidiu que não poderia tomar o avião para Dollywood. Todos esses anos, pensei que ela só estava se sabotando, mas agora sei que não tinha escolha. Quando as opções da gente se limitam a sofrer em privado ou se envergonhar em público, não há escolha. Não posso entrar no avião.
Mamãe tem razão. Nunca vou ser feliz com este corpo. Não plenamente. Nunca vou confessar isso em voz alta, mas ela tem razão. Quero tanto provar que está errada, que quase chego a aceitar, mas em vez disso roo a pele em volta da unha do polegar e respondo:
— Preciso pensar.
Porque não posso suportar a ideia de dizer não a ele. Ainda não. Quero viver com a possibilidade do que poderia ser. Mesmo que seja só por alguns dias.
QUARENTA E NOVE
Só tive uma ressaca séria na vida. Ellen e eu fomos a um retiro na igreja da mãe do
Tim, e ele, sendo o bom namorado que é, levou para a gente um cooler cheio de garrafas de vinho afanadas do pai. Ellen e eu servimos o vinho em copos descartáveis e ficamos tomando um atrás do outro até a mãe dela ir nos buscar na manhã seguinte. Nos sentamos no banco traseiro e pegamos no sono, aconchegadas uma à outra. Apagamos durante o dia inteiro e, quando acordamos, eu estava me sentindo como se tivesse hibernado. Tudo estava tão luminoso, e a única coisa que eu queria era me empanturrar de comida engordativa antes de voltar para a cama.
Na manhã de segunda, acordo de ressaca do fim de semana que passei com Bo. Meu corpo inteiro está mole, e sou obrigada a me levantar da cama em etapas. Um braço de cada vez, uma perna de cada vez.
Devemos ter passado umas oito horas estudando para a prova de história, mas mal me lembro das perguntas do resumo, que dirá das respostas. E minha tarde de sexta na The Hideaway mais parece uma vaga lembrança perdida em algum lugar do passado.
Quando Mitch entra na sala no segundo tempo, estou relendo minhas anotações, tentando recordar um pouco o que estudei. É como se meu cérebro tivesse decidido deletar informações para dar espaço aos acontecimentos dos dois últimos dias.
Quando o corpanzil invade a porta estreita, sua lembrança me atinge como uma chicotada. Mitch e eu vivemos nessa zona indefinida, mas acho que é bem mais indefinida para mim do que para ele.
— Oi — diz ele. — Te mandei várias mensagens no fim de semana.
— Ah, sim. Desculpe. Eu estava afogada num mar de anotações para a prova de história. Via suas mensagens, e aí pensava em responder quando terminasse de ler, mas esquecia. — Entrei em modo de blábláblá doido.
Seu rosto parece relaxado, mas os olhos estão tensos e concentrados.
— O concurso é daqui a duas semanas. Andei pensando... — Ele seca algumas gotas de suor da testa com as costas da mão. — Eu poderia ser o seu acompanhante. Fui ao concurso há uns anos, e sei que as candidatas precisam de um acompanhante. Eu poderia, sei lá, alugar um smoking. Acha que é bobagem? Na verdade, você é quem devia me convidar, mas você escreveu no rosto aquele convite para o Baile da Maria Cebola, então não sei. O que acha?
— Eu... Eu... Sim. Seria legal. Ótimo. — E já quero retirar o que disse. Isso é mais do que um gesto amigável. Ainda assim, pensando com todo o egoísmo, preciso mesmo de um acompanhante. E Bo não se ofereceu, não com todas as letras. Além disso, se não aguento a ideia de atravessar um corredor ao lado dele, como vou suportar que me acompanhe diante da cidade inteira?
— Tudo bem. Devo escolher alguma coisa que combine com o seu vestido? No estilo de um baile de formatura, de repente?
— Acho que preto cai muito bem. E pode ir de terno. Não precisa alugar um smoking.
Ele balança a cabeça.
— Ideia da minha mãe. Ela está toda animada.
Ah, meu Deus. A mãe dele.
— Que ótimo.
— Ela está adorando que você participe. Diz que é muito corajoso da sua parte.
Sorrio. Mas não quero que seja corajoso. Quero que seja normal.
Depois da aula, Millie me encontra no estacionamento, o que não é difícil, já que estou ali parada, na esperança de topar com Ellen sozinha.
Hoje, Millie está parecendo uma balinha de menta — até a mochila é verde. O cabelo está preso num rabo de cavalo com um elástico forrado de tecido combinando. Millie deve ser a única pessoa que conheço que ainda usa esse tipo de elástico.
— Oi! — diz ela. — A sexta foi maravilhosa.
— Foi mesmo.
Ela balança o corpo para os lados, torcendo as mãos.
— Eu... Minha família é meio religiosa. Na verdade, é muito religiosa. Meus pais também. Enfim, eles não ficariam lá muito satisfeitos se soubessem onde estive. E com quem a gente esteve.
Sinto os ombros se curvarem.
— Como assim?
— Estou dizendo isso porque... sempre achei que pessoas como Lee e Dale estavam erradas. Como se estivessem vivendo em pecado.
Detesto frases assim. El chamaria a isso de “vocabulário evangélico”. Coisas que aprendemos na igreja e são incutidas em nós até parecerem tão normais que esperamos que os outros que não vão à igreja entendam o que queremos dizer.
Millie balança a cabeça.
— Não estou conseguindo encontrar as palavras certas. O que estou tentando dizer é que gostei de Lee e Dale e me diverti naquela noite no The Hideaway. Fico pensando a respeito, e eles são boas pessoas. Gostaria que todo mundo pudesse ver isso. — Ela sorri. — Queria apenas que você soubesse.
Sinto meu peito se encher de um sentimento que só posso definir como sendo de orgulho. Aperto o ombro de Millie.
— Fico feliz.
— A-lá... as leitoas do concurso! — grita alguém do outro lado do estacionamento, interrompendo meu momento com Millie. — Oinc! Oinc!
— Vão pra merda! — grito. E, para Millie: — Desculpe.
Ela prende uma mecha de cabelo atrás da orelha e dá um passo atrás.
— Não tem problema. Relaxa.
Eu sabia que isso acabaria acontecendo. Faltando duas semanas para o concurso, toda a atenção da cidade está concentrada em nós. E, no nosso caso, isso pode não ser bom.
Millie puxa as alças da mochila.
— Estava pensando em convidar você, Amanda e Hannah para uma festa do pijama. Amanda vai, mas acho que Hannah só vai topar se você for. E aí... está a fim?
Geralmente não vou a esse tipo de festa, a menos que as noites passadas na casa de El possam ser classificadas assim. Não acho a menor graça na ideia de dormir de camiseta e calcinha no chão da casa da Millie, enquanto os pais dela vêm vigiar a gente de tantas em tantas horas. Mas não tenho coragem de dizer não neste momento.
— Claro — respondo. — Estarei lá.
Na noite seguinte, quando vou buscar mamãe no trabalho, ela diz que fez alguns ajustes no meu vestido e pergunta se eu me importaria de, ao chegar em casa,
experimentá-lo.
Mais uma vez, ela me deixa trocar de roupa sozinha no seu quarto. A metade de cima do vestido está simplesmente perfeita. Nem posso imaginar quanto tempo ela deve ter levado para acertar as barbatanas. Já a metade de baixo são outros quinhentos. Ela disse que alargaria a saia o máximo possível, mas ainda está superapertada. Mesmo assim, estou me sentindo bem nele. Nem constrangida, nem nada.
Mas vejo sua testa franzida.
— O corpete ficou bom — observo. — Aliás, ficou perfeito.
Ela pressiona minhas costas com a mão.
— Tenta ficar um pouco mais ereta.
Endireito a coluna.
Ela solta um muxoxo.
O som de sua decepção me dói como agulhas enfiadas debaixo das unhas.
— Mãe, ficou ótimo, tá? Adorei.
— Dumplin’ — diz ela —, está colado nos seus quadris feito camisa de força. — Ela passa os dedos pelas laterais. — Não posso alargar mais do que isso sem correr o risco de romper as costuras.
— Mãe, ficou bom. Só vou ter que usar por dez minutos.
Ela torce os lábios.
— Que foi? — Dou meia-volta para olhá-la, sem o reflexo entre nós. — Fala logo, mãe. Seja lá o que estiver pensando, pode dizer.
Ela faz um gesto, me despachando, e começa a guardar a caixa de costura na cômoda.
— Pensei... que você poderia se esforçar para perder uns quilinhos antes do concurso. — Ela se vira para mim. — Afinal, você está ou não levando isso a sério? Espero que entenda que não é uma piada. Só permiti que participasse porque esperava que o levasse a sério.
Suas palavras me deixam totalmente desorientada.
— Quer dizer que o vestido não coube porque você esperava que eu perdesse peso? — Faço um gesto, exibindo minhas formas. — Mãe, esta sou eu. Este é o meu corpo.
Ela nega com a cabeça.
— Eu sabia que você me interpretaria mal. Sempre vê o pior em tudo que eu digo. Não posso nem mais querer ajudar? Não sou a vilã da história.
— Então, quem é?
Ela fica em silêncio, e as palavras que não diz pairam entre nós como estalactites gigantescas prestes a se soltarem.
— Está apertado demais — diz ela, por fim. — Não vou aprová-lo para o concurso. Mas não por você ser minha filha. Agiria da mesma forma com qualquer candidata. É inapropriado.
— Mas eu estou me sentindo tão bem, mãe! — Minha voz começa pausada e calma. — Este vestido me faz sentir uma pessoa que eu nem sabia que poderia ser. Nunca tive nada parecido com ele. Mas, se quando você olha para ele, se quando olha para mim, só pensa que é uma pena que eu não tenha perdido alguns quilos, então, dane-se, mãe. Não posso fazer nada.
Continuo onde estou por um momento, esperando que ela vá embora. Então, lembro que sou eu que estou no quarto dela. Suspendo o vestido para não tropeçar na barra e deixo mamãe no quartinho solitário onde vai passar o resto da vida com a faixa, a coroa e o vestido verde-água.
CINQUENTA
Quando saímos do trabalho na noite de sexta, Bo me dá uma carona como tem feito nas
últimas duas semanas, mas, dessa vez, não me leva para casa.
Paramos diante da casa da Millie. Ron nos deixou sair um pouco mais cedo, para eu poder chegar aqui antes da meia-noite.
Ponho no colo a sacola com as roupas e me preparo psicologicamente para a hora de me socializar.
O concurso se tornou algo precipitado para mim. Acho que minha intenção inicial ao me inscrever foi a certeza de que eu tinha um ponto de vista a provar. Não sei se era para mim mesma, para mamãe ou para a humanidade, mas, a cada dia que passa, eu me sinto cada vez menos como se tivesse algo a dizer.
— Vocês vão se reunir para ensaiar para o concurso?
— Não exatamente. Acho que é mais para planejar estratégias. Temos que nos manter unidas.
Ele franze o cenho, confuso.
— Vocês quatro entraram juntas no concurso?
Faço que sim.
— Eu apoio totalmente a ideia de que qualquer pessoa que queira tenha o direito de participar, mas por que é tão importante pra vocês?
Sorrindo, eu me viro para ele.
— É mais ou menos como você continuar indo à missa mesmo depois de ter saído da Holy Cross. É uma coisa que seus colegas fazem juntos, não é? Mas só porque você não está mais no time isso não significa que não deva mais ir. E só porque nós não temos o biotipo de misses isso não significa que não tenhamos o direito de participar.
— Acha que seria muito brega dizer que eu te acho dez vezes mais bonita e mais inteligente do que qualquer miss?
Meu rosto pega fogo.
— É, sim. Superbrega.
— Não sabia que as garotas ainda davam festas do pijama — diz ele.
— Pois é, mas acho que dão, sim. El e eu sempre dormíamos na casa uma da outra, mas nunca chamávamos isso de festa. — Nos últimos dias, contei tudo a Bo sobre mim e El, e como não estamos nos falando. Ele achou que superaríamos isso, mas não consigo concordar com esse prognóstico.
Abro a porta.
Ele segura a minha mão.
— Willowdean? Você já refletiu um pouco mais sobre o que conversamos? Sabe que eu não estava brincando, não sabe?
É impossível não responder que sim. Dizer a ele que eu quero ser sua namorada.
— Preciso de um pouco mais de tempo.
Ele balança a cabeça.
— Tudo bem. Tempo.
Amanda está parada diante da porta, o queixo tão caído que quase bate no peito. Às suas costas, Millie estica o pescoço.
— Ah! Meu! Deus! — exclama Amanda. — Era o Bundinha de Pêssego.
Digo shhh e faço um gesto, mandando as duas entrarem. A primeira coisa que me chama a atenção na casa de Millie é o fato de tudo combinar — das flores artificiais às almofadas, passando pela cor das paredes. Millie está usando um conjunto de moletom, meias e uma faixa de cabeça que a deixam parecida com um algodão-doce lilás. É como se ela tivesse pesquisado na internet “roupas para festas do pijama” e tirado essa pérola da capa de uma revista sobre recém-nascidos.
Amanda, só pra variar, está com um short de futebol e uma camiseta, mas descalça. É a primeira vez que a vejo sem as botas ortopédicas, e não quero bancar a idiota que fica encarando, por isso fixo os olhos no seu rosto, mas mesmo assim a estratégia parece óbvia.
— A verdade, somente a verdade — diz ela. — Ele te deixou aqui. Você estava no carro dele. Conta tudo.