Dumplin'
A presente obra é disponibilizada pela equipe…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.
QUARENTA E UM
Hoje é o dia do Homecoming, e a escola virou a maior muvuca. A agenda do dia está
lotada de exibições de cheerleaders, competições e visitas de ex-alunos. Quando me sento ao lado de Mitch no segundo tempo, logo encontro na carteira um mum azul, amarelo e branco. Enorme. Longas fitas cintilantes adornam um buquê de crisântemos artificiais, com um casal fofinho de ursinhos de pelúcia colados: ele de uniforme de futebol americano, ela de vestido cor-de-rosa e tiara. Os mums são como a boa comida: os melhores são os feitos em casa.
— Uau! — Chego a perder o fôlego.
— Não gostou? — pergunta Mitch, que usa uma versão menor do meu mum na braçadeira de capitão. Está com o cabelo penteado e a camisa do time para dentro da calça. — Minha mãe, às vezes, exagera um pouco, e enfim, não posso nem...
Eu me sento pesadamente na carteira.
— Não, não é isso. Eu adorei. Nunca tinha ganhado um mum. Obrigada. De coração.
— Mas...?
Suspiro.
— Vou ter que trabalhar à noite.
Ele sorri, mas o rosto está contraído de decepção.
— Imagino que você não tenha como se livrar disso, não é?
— Quem me dera. — Estou sendo honesta. — Mas acabei de voltar ao Harpy’s, e também vou ter que reservar um tempo para o concurso.
Ele aperta minha mão.
— Tudo bem. Pelo menos, amanhã é Halloween.
Por um momento, me distraio com a entrada de Ellen e Callie na sala, as duas rindo e trocando comentários sobre as fantasias que planejam usar amanhã à noite. Eu detestava me fantasiar com Ellen. Ela tinha mania de coordenar pares de fantasias que coubessem em nós duas, mas, por mais que tentasse, nunca dava muito certo. Ela nem se digna a olhar na minha direção.
Há mil coisas de que não consigo me lembrar. Como a tabela periódica. O aniversário da mamãe. Ou mesmo o segredo do cadeado do meu armário no Harpy’s.
Mas, se há uma de que não consigo me esquecer, são as palavras que ela disparou contra mim à queima-roupa.
Talvez a nossa amizade tenha mesmo ficado no passado. Talvez estejamos empatando a vida uma da outra. Eu perco um milhão de coisas por sua causa.
Como eu odeio cada uma delas. Como eu odeio que ela pense que está melhor sem mim. Que me veja como uma gorda digna de pena que fica se arrastando nos seus calcanhares.
Eu sei que deveria me desculpar.
Mas talvez ela também devesse.
Uso o mum durante o dia inteiro. É tão grande que sou obrigada a pendurá-lo no pescoço. Hannah e Amanda debocham de mim; Millie acha adorável. Mas, no fim do dia, o peso do troço me deixa com o pescoço dolorido e os ombros curvados.
Para o Halloween, Ron nos pede para usar fantasias, pois a Associação de Pais e Mestres do ensino fundamental vai dar uma festa escondendo os doces nos porta-
malas dos carros em nosso estacionamento. Como eu disse a Mitch durante o Mais Constrangedor Encontro de Todos os Tempos, o Halloween não faz muito o meu gênero. Com exceção das festas escolares, mamãe nunca me levou a parte alguma. Quer dizer, além da “festa da colheita” da igreja, que era só um disfarce para a do Halloween propriamente dita. Além disso, só podíamos nos fantasiar de personagens bíblicos. Para os garotos, isso não é um problema, mas para as meninas só resta Eva (alguém aí está a fim de usar um biquíni de folhas?), Ester, a Virgem Maria ou uma prostituta. E ainda por cima não tenho no meu arsenal outra coisa além da Betty da dupla Betty & Wilma dos Flintstones, que El e eu usamos há alguns anos.
Ron está todo de preto, como Zorro, com uma espada de plástico presa à cintura.
— Eu já tinha imaginado que nenhum de vocês iria se fantasiar. — Ele põe uma caixa de papelão em cima do balcão. — Trouxe uns chapéus e outros badulaques do teatro da igreja.
Marcus pega uma espécie de tiara com chifres de diabo na caixa e a inspeciona.
— O que é isso, alguma sobra do Auto do Inferno do ano passado?
Ron tira os chifres da mão dele e os recoloca na caixa.
— Vamos escolher coisas menos polêmicas. E os doces são só para as crianças, não para os adolescentes. — Ele sai da loja e vai até a máquina de pipoca que pôs na calçada, para distribuir sacos inteiros de brinde.
Bo tira um boné de maquinista listrado de azul e branco e passa a mão por cima do meu ombro para pegar um pirulito na tigela de doces. Apesar da ordem de Ron, Marcus coloca a tiara com os chifres, e eu pego a faixa de testa bordada de lantejoulas e enfeitada por uma longa pluma branca, no estilo das melindrosas.
Com exceção de um ou outro garoto querendo jantar, o Harpy’s está sem movimento. Fico tão entediada que começo a limpar a geladeira dos funcionários. Quando termino, dou de cara com Callie e o namorado, Bryce, parados diante do balcão. Ele está de jeans e uma camiseta recortada para se parecer com a túnica do Peter Pan, enquanto ela tenta se passar por uma versão da Wendy, com uma camisolinha azul sexy.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Cada palavra cai como uma gota de ácido.
— Nossa! — exclama Callie. — A agressividade de alguém está elevada à enésima potência.
A campainha acima da porta tilinta, e a situação vai de mal a pior. Ellen está fantasiada de Tinker Bell, e, sinceramente, apesar de ser uma das garotas mais altas que conheço, ela fica perfeita na personagem. Tim está de Capitão Gancho e, ao contrário de Bryce, levou a produção muito a sério.
Ai, que ódio. Ter que ver a galerinha toda fantasiada — feito idiotas — da mesma história. Ter que ver El fazendo esse ar de que estou violando seu espaço pelo simples fato de respirar o mesmo ar.
Os olhos de Tim se arregalam por um segundo, enquanto El mantém os seus fixos no chão. Tento não soltar um “ah!”. Foi ele quem bolou esse encontro. Foi ele quem convenceu El a vir aqui. Teria preferido que não trouxesse Callie e Bryce, mas essa é a minha chance e tenho que aproveitá-la.
Ellen levanta os olhos.
— Pensei que você não trabalhava mais aqui. — E é só o que ela tem a dizer. Depois de todas essas semanas de silêncio, é só o que ela declara.
— Voltei. — Apesar da nossa plateia, o momento parece extremamente pessoal. — Oi, Tim.
Ele me cumprimenta com a cabeça, sem fazer mais do que reconhecer a minha existência. Tenho vontade de chamá-lo de traidor, mas é óbvio de que lado ele está.
— Vamos nessa — diz El.
— É só isso? Eu não falo com você há semanas, e é só isso? — Posso sentir que agora Marcus e Bo também estão olhando.
Callie se vira para Ellen.
— Você não deve nada a ela.
Os olhos de El não se movem.
— Estou indo muito bem sem a gente se falar, portanto, sim, acho que é só isso.
Os quatro saem da loja e, nesse momento, Tim dá de ombros para mim.
Marcus e Bo têm juízo o bastante para não perguntar o que está acontecendo.
Marcus passa o intervalo no estacionamento, indo de uma caminhonete à outra com uma sacola de papel do Harpy’s.
— Gostei da pluma — diz Bo, apontando para os meus cabelos.
Já tinha até me esquecido de que estou usando esse adereço. Não parava de pensar em Ellen. Não consigo acreditar no que aconteceu. Uma parte de mim se apegava à esperança de que encontraríamos um jeito de quebrar o gelo — e de que tudo ficaria bem. Mas não ficou. Levo a mão à pluma, que me faz cócegas nos dedos.
— Valeu. Obrigada.
— Fico feliz que você tenha voltado.
Balanço a cabeça. Também estou feliz. Esse pé-sujo é um pedacinho do meu mundo. E Bo também. Gostaria que não fosse verdade, mas é.
Ele tira o boné de maquinista e torna a ajeitá-lo na cabeça.
— E me desculpe por ter feito com que você quisesse ir embora.
— Tudo bem. — Fico arrumando sem parar a mesma pilha de sacolas da loja. — Tem sentido saudades da Holy Cross?
Ele sorri.
— Para ser franco, só do uniforme.
— Como assim? Por quê?
— Sei lá. É legal não ter que pensar no que vestir quando acordo. — Ele passa o polegar pelo lábio inferior. — Acho que dá pra dizer que não me sinto muito bem de manhã cedinho. — Ouvi-lo falar tanto depois de dois meses de silêncio é como ser pega de surpresa por um temporal depois de uma longa estiagem. — E o meu irmão está odiando. — Ele rói a pele em volta da unha do polegar por um segundo antes de acrescentar: — E foi por minha culpa que nós tivemos que sair de lá.
Já estou prestes a perguntar por quê, quando Marcus torna a entrar.
— Gente, as mães não estão fazendo a menor cerimônia com os doces!
Coro até a raiz dos cabelos, como se tivéssemos sido flagrados durante um amasso.
No fim da noite, saímos todos juntos do restaurante, Marcus e Bo zoando a fantasia de Zorro do Ron. Bo ainda está com o boné de maquinista, e não posso nem olhar para ele sem começar a sorrir feito uma perfeita idiota.
No estacionamento, deparo com Mitch encostado no meu carro.
Sei que é horrível da minha parte, mas não me agradou nada encontrá-lo ali. Sou dessas pessoas que não gostam que a comida se misture no prato. Quero que Mitch fique do lado de lá, não do lado de cá.
— Bom... — digo a Marcus e Bo. — Vejo vocês mais tarde. — E me viro para Mitch. Pode ser fisicamente impossível, mas sinto o peso do olhar de Bo nas minhas costas. — Hum, oi! Que fantasia maneira.
Mitch está vestido de Indiana Jones, com uma calça cáqui, uma jaqueta de aviador e um chapéu de aba larga.
— É noite de sábado — diz ele. — Halloween.
Começo a rir.
— No meu vocabulário, isso significa “quero ir para casa”.
— Negativo. Nem pensar! Vou te mostrar por que o Halloween é o máximo. Vamos. Entra aí.
— Não estou fantasiada.
Ele dá de ombros.
— Você pode ir de funcionária de lanchonete. Ou de enfermeira.
Meus sentimentos por ele passam do frio para o quente, do quente para o frio. Gostaria que não estivesse aqui. Gosto que esteja aqui. Ele está invadindo o meu espaço. Poderia chegar mais perto. Sinto um sorriso se esboçar nos meus lábios.
— Tudo bem. Então prove que eu estou errada.
QUARENTA E DOIS
De dentro do carro, mando uma mensagem para mamãe, avisando que vou voltar um
pouco tarde, mas encontro outra à minha espera.
BO: Fico feliz que você tenha voltado.
Mordo os lábios e ponho o celular no porta-copo.
Mitch me leva até Stonebridge, o bairro mais chique de Clover City. Quer dizer, chique para os padrões de Clover City, mas foi construído na última década e tem portões. Que por sinal estão sempre abertos, mas, enfim...
Depois de estacionar aleatoriamente numa rua do bairro, ele joga uma fronha para mim.
— Espera aí. A gente não pode sair batendo de porta em porta a essa hora para pedir doces.
— Não é tão tarde assim.
— Já passou da meia-noite.
— Bom, mas nós vamos. — De repente, Mitch se vira e começa a voltar. — Esqueci uma coisa. — Dá uma corridinha até o carro e retorna com um chicote marrom enrolado em volta do pulso.
— Está tentando me assustar com esse troço?
— Como assim? É só para dar autenticidade à fantasia.
Caminhamos no meio da rua por algum tempo, procurando uma casa que ainda esteja com as luzes acesas. As calçadas são lisas, clarinhas, nem um pouco parecidas com as do bairro onde eu cresci, tudo remendado, o asfalto tomado de tapa-buracos. Todas as casas são amplas e imponentes, mas muito espremidas, com tirinhas ínfimas de grama bem tratada entre elas.
Quando esse bairro ainda estava em construção, mamãe e Lucy costumavam vir aqui de tantas em tantas semanas, comigo no banco traseiro. Ficávamos vendo as ruas sendo abertas e as mansões erigidas. Lembro que as novas placas de ruas me deixavam fascinada, como se assinalassem um território virgem recém-descoberto que éramos das primeiras a visitar. Eu não tinha conhecimento de como Clover City era pequena, mas, para mim, era aqui que viviam todas as pessoas glamorosas: estrelas de cinema, músicos, top models. E, na época, mamãe ainda era glamorosa para mim. Por isso, eu achava que um dia nós três teríamos uma mansão luxuosa.
Nossa primeira parada é uma casa de tijolos vermelhos, com uma ampla janela de sacada e um lustre cintilante visível da rua. Mitch toca a campainha, e me posiciono um pouco atrás dele. Já é tarde, e a pessoa que atender não vai ficar eufórica ao encontrar dois adolescentes parados do outro lado da porta.
Ninguém atende. Mitch toca de novo.
Começo a recuar na calçada.
— Não estão atendendo. Vamos embora.
— Espera! — pede ele.
A porta se entreabre e aparece uma mulher vestindo um roupão, com gotas d’água escorrendo pelo pescoço e o cabelo enrolado numa toalha. Já tem muita idade para ser minha mãe, mas não o bastante para ser minha avó.
— Posso ajudá-los?
Mitch estende a fronha sem a menor hesitação.
— Doces ou travessuras!
A mulher faz um ar de quem acordou em outro fuso horário.
— Ah. — Ela levanta o pulso para dar uma olhada na hora, mas está sem relógio. — Tudo bem.
Ela fecha quase totalmente a porta e volta momentos depois com um pirex cheio de doces. Sem pensar duas vezes, despeja metade dentro da fronha de Mitch.
Ele me dá uma cutucada e, apesar de estar me sentindo uma idiota, abro minha fronha.
Ela despeja os doces restantes. Deve estar pensando que, se dois alunos do ensino médio têm coragem de ir pedir doces a essa hora da noite no bairro mais luxuoso da cidade, eles merecem mesmo ganhar alguns.
A Senhora do Roupão dá tapinhas na barriga.
— É melhor mesmo eu não ficar com tudo isso dentro de casa.
Mitch levanta a aba do chapéu.
— Gracias, señorita.
Quando estamos voltando pelo jardim, ele bate com o ombro no meu.
— Viu só? Foi divertido.
A maioria dos moradores que visitamos tem a mesma reação da Senhora do Roupão: ou demoram a atender, ou não atendem, ou até apagam as luzes quando nos veem diante da casa.
Em uma delas, somos recebidos por um velho de cueca. O rosto é marcado por uma quantidade de rugas tão fundas, que ele parece um boneco de cera se derretendo.
— Fora daqui, seus vândalos do inferno! — grita.
— Doces ou travessuras! — Mitch eleva a voz por causa dos latidos de um cachorro atrás do sujeito.
— Pois eu já mostro a vocês o que é uma travessura! — O velho escancara a porta, revelando uma espingarda ao lado. — Vou é passar chumbo grosso no rabo de vocês!
Mitch segura a minha mão.
— Corre, corre, corre!
Cruzamos o jardim em alta velocidade e dobramos a esquina, enquanto uma gargalhada sinistra ecoa atrás de nós.
Quando já estamos a uma distância segura, finalmente paro, com as mãos nos joelhos. Nós dois estamos ofegantes.
— Aquele. Babaca. Doido. — Respiro fundo. — Poderia ter nos matado.
— Que nada — diz Mitch. — Só quis dar um susto na gente.
Endireito as costas, deixando que os músculos se alonguem.
— Missão cumprida.
Exibo a fronha cheia de doces, muito mais pesada do que tinha esperado que ficasse.
Mitch levanta o dedo e estremece um pouco.
— Mais uma casa — pede. — Por favor?
Ao luar, ele parece diferente. Quase misterioso. Talvez até bonito. Deixo escapar uma risadinha.
— A última — respondo. — Escolha com sabedoria.
Ele escolhe uma mansão branca, com um longo jardim, no fim de uma rua sem saída.
Mitch toca a campainha e, depois de alguns minutos, uma mulher com cara de exausta, usando um chapéu de bruxa e um conjunto de moletom, atende a porta.
— Ah, que pena — murmura, antes que Mitch tenha chance de dizer “doces ou travessuras!”. — Nossos doces já acabaram faz tempo.
— Indiana Jones! — grita um garotinho com uma fantasia de pirata alguns passos atrás dela. É uma fantasia feita em casa. Daquelas que são confeccionadas com grande atenção aos detalhes. — Irado!
Mitch abre um sorriso radiante.
— Tudo bem — respondo à mulher. — Estamos só brincando um pouco. Já está mesmo na hora de ir para casa.
Ela nos deseja uma boa-noite.
Já estamos na metade do jardim, quando ouvimos o garotinho gritar: “Ei! Ei! Esperem aí!” O Pequeno Pirata vem correndo na nossa direção com uma abóbora de plástico suspensa na mão. Quase escorrega ao parar diante de nós, e estende um doce para cada um.
— Obrigado, rapazinho. Sua fantasia de pirata é muuuito maneira. — Mitch não se dirige a ele como se fosse só um pirralho qualquer. Porque, para Mitch, ele não é. Para Mitch, todo mundo é alguém.
O garotinho volta correndo para casa, onde sua mãe espera à porta.
Sentamos no meio-fio com as fronhas caídas aos nossos pés. É a primeira noite do ano que mostra que o outono pode estar chegando, e uma brisa fria penetra até o fundo dos meus ossos sulistas.
— Eu não te disse que o Halloween é o máximo? — relembra Mitch.
Resolvo me deitar um pouco no gramado de algum rico (a verdadeira grama do Texas é áspera e marrom), entre a rua e a calçada.
— Foi legal.
— Quando aquele garoto me viu, ele viu o Indiana Jones. Não um cara que errou todos os lances na partida de ontem à noite. Ou que passa o dia inteiro jogando videogame. Para ele, eu era outra pessoa. — Ele se deita ao meu lado.
— Mas você não tem a sensação de estar se escondendo de si mesmo? — Eu me viro para ele; a grama espeta meu rosto. — Até entendo que uma pessoa não queira ser ela mesma. Mas não chega a ser quase mais triste fingir que é outra?
— Sei lá, acho que você deve ser quem quiser ser, até sentir que é a pessoa que está tentando se tornar, seja lá quem for. Às vezes, fingir que a gente é capaz de fazer uma coisa é meio caminho andado. — Ele se vira e apoia o corpo sobre o cotovelo. — Por exemplo, na primeira vez que falei contigo, você me apavorou. E ainda me apavora um pouco. Mas, quanto mais eu me comporto como se não apavorasse, menos apavora.
Entendo o que ele quer dizer, porque acho que brinquei de faz de conta a vida inteira. Não sei exatamente quando, mas, muito tempo atrás, decidi quem eu queria ser. E desde então venho me comportando como essa pessoa — seja ela quem for. Mas acho que a encenação está perdendo a força, e não sei se gosto dessa que sou por baixo da outra. Quem me dera que houvesse palavras mágicas capazes de estender uma ponte entre quem eu sou e quem eu gostaria de ser. Porque esse lance de ficar fingindo ser alguém até poder chegar lá não está mais dando certo comigo.
— Que foi? — pergunta ele.
Faço que não com a cabeça e tapo a boca, sorrindo sob os dedos.
— Eu te apavoro, é? — A ideia me deixa encabulada, mas também tem um lado gostoso. Porque eu deixo de ser aquela que se assusta o tempo todo.
Mitch afasta minhas mãos do rosto. As palmas estão suadas, e percebo como ele está perto de mim. Dá para ver até os cravos do nariz.
— Acho que as coisas boas da vida são sempre meio assustadoras — diz ele.
Seus lábios roçam os meus. Fico imóvel enquanto ele passa o braço pela minha cintura. Não usamos a língua, só os lábios. Seus gestos trêmulos transmitem todo o terror e a euforia que tomam conta dele.
Mas não fico assustada. Nem um pouco. E é então que percebo que esse momento é uma farsa. Sei o que deveria estar sentindo, mas não estou.
QUARENTA E TRÊS
No dia seguinte, é como se tivessem jogado uma bomba atômica na nossa casa. Tudo
começa no instante em que mamãe volta da igreja e decide experimentar o vestido do concurso.
— Dumplin’? — chama ela do quarto. — Filhota, meu zíper ficou preso.
E lá vou eu me arrastar escada acima. Desde que ela foi coroada, não houve um único ano em que o vestido não tenha cabido nela. Inclusive no ano em que me deu à luz. Pelo que Lucy contou, nossa casa virou uma academia 24h, sete dias por semana. Foi um sufoco, mas mamãe conseguiu.
Já vi tantas vezes esse vestido — com um corpete de lantejoulas verde-água e uma saia de chiffon —, que já nem consigo mais achá-lo bonito.
Como a casa é muito antiga, não há uma suíte no segundo andar, só um banheiro compartilhado no fim do corredor. É estranho pensar que os quartos de mamãe e de Lucy são os mesmos em que elas cresceram e passaram a vida inteira. Imagino as duas adolescentes batendo porta uma na cara da outra, ou entrando e saindo de fininho dos respectivos quartos. Já ouvi tantas histórias sobre a vida das duas antes de eu nascer, que às vezes me pergunto o que elas decidiram não me contar, e são essas lacunas que gosto de preencher.
Atravesso o corredor, seguro a maçaneta de vidro e abro a porta do quarto.
Ah, que merda.
Da porta, já dá para ver que o problema não é o zíper. Há um espaço de uns três centímetros entre as duas metades do vestido nas costas de mamãe.
Com a testa coberta de suor, ela acena para que eu me aproxime.
Finjo tentar puxar o zíper durante um ou dois minutos, antes de dizer:
— Hum... mãe... acho que o problema não é o zíper.
Ela se vira e dá uma olhada por cima do ombro, para poder ver o próprio reflexo.
— Puta que pariu! — exclama.
Minha mãe deve ter dito palavrões uma ou duas vezes na vida. E só de uma eu realmente me lembro.
— Pode puxar para baixo.
O zíper desliza como um suspiro de alívio.
Ela senta na beira da cama, segurando a frente do vestido contra o corpo.
— Tudo bem, vou ter que fazer um regime, bicicleta ergométrica e aulas de Pilates. — Ela pronuncia Pileites, o toque fanhoso em sua voz se tornando mais pronunciado com o aumento da ansiedade. — Acho que Marylou tem horário para uma aula que posso fazer amanhã à noite.
— Mas eu tenho que ir trabalhar — protesto. — Preciso do carro.
Ela olha para mim com as sobrancelhas erguidas, como se estivéssemos à beira do precipício e eu não compreendesse a gravidade da situação.
— Bem, filhota, vamos ter que dar um jeito. Você continua indo para a escola de carro, e eu fico com ele à noite. A maioria das meninas da sua idade nem carro tem. Cada um dispõe do que a vida deixa e não se queixa.
Não me dou ao trabalho de discutir com ela.
Estou sentada na sala dos funcionários, cutucando a maçã que ela me deu quando me deixou aqui. Juro por Deus, assim que ela entrou no estacionamento, foi logo
prendendo a respiração, como se fosse ganhar calorias extras só por respirar perto de tanta gordura trans.
Fiquei esperando que Mitch me procurasse ontem. Que me desse um telefonema só para dizer que estava tudo bem entre nós depois do Halloween. Ou, de repente, um daqueles de cliente, tipo pesquisa de satisfação, para dar uma nota ao meu atendimento, por assim dizer. Mas nada.
Acordei na manhã de ontem e precisei me convencer de que ele tinha mesmo me beijado. Não foi um beijo ruim. Só não foi de parar o coração, como os que Bo me dava.
Mas, hoje, ele está o mesmo de sempre. Sem fazer menção alguma ao Beijo. Começo a pensar que talvez ele tenha sido outra pessoa naquela noite, e que foi a magia do Halloween. Mas a culpa e o arrependimento que sinto são bem reais.
Então, já no fim do dia, quando nós fomos para o estacionamento, ele segurou minha mão com força. Foi difícil não sentir que não tínhamos pulado alguma etapa no caminho. Eu não iria embarcar em outro rolo que fosse pura ação, sem qualquer definição. Antes de eu ir para casa, ele me deu um livrinho de capa dura, Mágica para Jovens dos Oito aos Oitenta.
— Lembro de você ter comentado que precisava apresentar um talento. Para o concurso.
Guardei o livro na mochila e agradeci.
— Deixei um bilhete entre as páginas — acrescentou ele. — Mas lê depois.
Ouço uma batida à porta da sala dos funcionários, embora esteja aberta.
— Olá — diz Bo.
Sorrio involuntariamente.
— Oi.
— Eu quis ter certeza de que você chegaria bem em casa ontem à noite. — Ele fica brincando com os dedos, e então enfia as mãos nos bolsos traseiros da calça. — Fiquei meio preocupado de te deixar sozinha com aquele cara, mas depois o reconheci do baile. — Ele pigarreia. — Vocês devem ser muito íntimos, não?
Meu rosto começa a arder.
— Ah, sim. É, aquele era o Mitch.
Ele tosse na curva do braço dobrado.
— Legal.
Deixo escapar uma risadinha.
— Legal.
Ele se vira e volta para a cozinha.
Solto um lento suspiro pelos lábios franzidos. Acho que deve ter sido a interação mais calma que já tivemos. E eu me sinto como se estivesse pegando fogo.
Depois de fecharmos a loja, a primeira coisa que noto é a ausência do carro de mamãe. Já estou ligando para ela antes mesmo de as portas dos fundos se fecharem.
— Alô? — Sua voz está bêbada de sono.
Droga.
— Mãe?
— Ah, Dumplin’! — Ouço-a pegando as chaves e fechando a porta de vidro. — Já estou indo, filhota!
A linha fica em silêncio.
Marcus e Bo olham para mim.
— Podem ir — digo.
Marcus indica o carro de Tiffanie, onde ela o espera.
— Quer uma carona?
— Obrigada, mas minha mãe já está vindo.
Os dois se entreolham.
— Eu espero com você — se oferece Bo.
— Eu posso esperar lá dentro — respondo. — Ron ainda vai ficar mais um pouco.
— Não me custa nada. — Ele tira as chaves do bolso. — Vamos esperar na caminhonete. — Ele deve ter visto minha expressão imóvel. — Só ficar lá. Eu até deixo o descanso de braço abaixado entre a gente.
Já acomodados, Bo cumpre sua palavra e abaixa o descanso entre nós.
Ficamos em silêncio por um minuto, ouvindo o zum-zum do trânsito às nossas costas. O cheiro dele me atinge, cereja artificial e loção pós-barba. Acho que parei de notar no verão, mas agora já faz um tempo desde que estive na caminhonete. Não entendo muito bem como uma coisa pode ser tão familiar e tão estranha ao mesmo tempo. Como um déjà-vu.
Começo a zapear algumas estações no rádio. Bo não diz nada sobre a iniciativa.
— Não posso mais ouvir Dolly Parton sem me lembrar de você.
Sinto um aperto no estômago e solto uma risada nervosa.
— Bem, sorte a sua por ela não tocar mais tanto assim. — Minha voz sai mais ríspida do que pretendi. Mas a verdade é que adorei a ideia de ter conquistado um espaço na sua memória. O problema é que não consigo pensar em Dolly sem me lembrar de El ou Lucy. E isso não me parece lá muito justo.
— Por que Dolly? — pergunta ele. — Não entendo muito bem. Ela é tão... artificial.
— Sim, os peitos são. Obviamente. — Fico fazendo desenhos com o dedo no descanso, enquanto procuro as palavras certas. — Ela é o tipo de pessoa que parece nunca ter tido um dia difícil na vida. Acho que Dolly é como um guru para mim. As músicas que ela canta são ótimas. Mas porque é ela quem canta. Com aquele penteado parecendo um pompom e aqueles peitos de silicone. Nunca vi outra pessoa conseguir viver exatamente a vida que escolheu viver, como ela.
Ele me observa, mas não faz comentários.
— É como se todos os dias fossem o Halloween para Dolly. — Relembro a fantasia de Mitch. — Mas, para ela, não é um mundo de fantasias, não é um faz-de-conta. É a vida real. Exatamente como ela escolheu. — Paro de falar antes que meu discurso descambe para o brega.
— Hum. — Ele cruza os braços e se recosta mais no banco. — Sempre achei que ela tinha saído das páginas das histórias em quadrinhos. Mas talvez não tenha.
O letreiro do Harpy’s se apaga e deixamos que o rádio fale por nós.
— Está sem carro? — pergunta ele depois de um tempo. — Que foi que houve?
Inclino a cabeça no descanso.
— Problema na ignição. Acho que começou há uns dois meses. — Será que é só isso? Parece ter sido há séculos que tudo aconteceu. Que me inscrevi no concurso. Que perdi Ellen. — Está na oficina desde então. Não tenho dinheiro para pagar o conserto.
— Sei bem como é isso — diz ele. — O dinheiro deveria tornar as coisas mais fáceis, mas sempre acaba fazendo o contrário. Gostaria que a economia se baseasse num sistema de trocas.
Suas palavras me irritam. Bo frequentou uma escola particular nos últimos anos, e isso não saiu de graça para os pais.
— Que foi? — pergunta ele.
Balanço a cabeça, teimosa.
— Não, fala — insiste Bo. — Desembucha.
Após um longo momento, respondo:
— Você foi aluno da Holy Cross. Entendo que esteja tentando ser gentil, mas não acho justo dizer que sabe o que é não ter um centavo.
— Uau. Esse é um preconceito e tanto.
Um par de faróis às nossas costas ilumina o interior da caminhonete.
— Pode ser. Mas você perguntou. Boa noite. Lembranças para Bekah.
Desço da caminhonete e bato a porta.
Ele abaixa o vidro.
— Para o seu governo — diz — nem todo mundo que frequenta uma escola particular é rico. Principalmente os garotos pobres que jogam basquete muito bem.
O vidro torna a subir, separando-o de mim, antes que eu tenha chance de responder.
Meu rosto arde de vergonha. Mas, principalmente, estou confusa. Por que ele não me contou que tinha bolsa de estudos?
Minha mãe sai do carro e dá uma corridinha até a janela de Bo. Fico olhando do outro lado da caminhonete enquanto ela bate no vidro com o indicador e começa a falar numa voz estridente que só usa para se comunicar com os “machos”. Bo diz alguma coisa e o rosto de mamãe se ilumina, enquanto ela pousa a mão no seu braço e leva a outra ao peito.
— Que Deus te abençoe, Bo! — ouço-a dizer.
Ela volta para o carro e eu a sigo.
— Hum? Mãe?
Quando entramos, ela diz:
— Me perdoe, Will. Aquele tal de Pileites deixou meu bumbum em petição de miséria, e eu apaguei feito uma lâmpada assim que cheguei em casa.
— Tudo bem — resmungo, enquanto ela manobra para a rua. — Mas que papo foi esse, agora?
— Aquele seu colega simpaticíssimo, Bo, não é esse o nome dele? — Ela ri e murmura com o canto da boca: — O queixo daquele garoto cortaria até vidro.
— Mãe.
— Eu expliquei que você e eu andávamos nos arrastando de um lado para o outro, dividindo o carro, e agradeci a atenção que ele me deu. — Ela vira na esquina, mas não num ângulo fechado o suficiente para desligar o pisca-pisca. — Mas aí ele disse que vocês trabalham no mesmo horário, e que poderia te levar para casa todas as noites.
— Mãe! Você recusou, não recusou? — Fico em pânico. Clic, clic, clic. O pisca-pisca continua ligado.
— Mas por que eu faria isso? Ele foi tão gentil de se oferecer. Não vou impedir o rapaz de fazer uma boa ação.
Suspiro. Um suspiro dramático, quilométrico.
— Willowdean, já chega de suspirar. Agradeça pelas coisas boas que a vida te dá. — Ela entra no jardim. — Principalmente se forem bonitas.
— Eu te odeio — respondo, saindo do carro.
— Ah, pobre coitada — diz ela atrás de mim. — E faça esse cabelo antes de ir trabalhar amanhã! Se penteie para a profissão que você quer ter e não a que tem. Quem anda bem penteada se destaca entre a mulherada.
QUARENTA E QUATRO
A campainha da aula de história toca e, mal entro na sala, a Srta. Rubio fecha a porta.
Paro. Bem ali, na carteira onde Amanda costuma se sentar, ao lado da minha, está Bo. Sinto o cérebro escorrendo pelas orelhas. Do fundo da sala, ela dá de ombros e diz por mímica labial: Bundinha de Pêssego não quis sair. Aceno para dizer que está tudo bem. Mas, na verdade, não está, por que, afinal, que negócio é esse?
Não temos lugares fixos na aula de história, mas, como ninguém trocou de carteira desde a primeira aula, ficou estabelecido não oficialmente. Conhecendo Amanda como eu conheço, deve ter rolado um confronto quando ela viu Bo na sua carteira, mas alguém tinha que ceder. E não foi ele.
Bo dá um meio sorriso quando me sento e diz:
— Willowdean. — E só. É a única palavra que pronuncia durante a aula inteira.
Quando a campainha toca, saio da sala o mais depressa possível.
Encontro Mitch no estacionamento. Seu rosto se anima, pois ele pensa que o sorriso idiota no meu é para ele. Não, tenho vontade de explicar. Não me dê esse sorriso carinhoso. Eu não mereço.
No dia seguinte, lá está Bo de novo na carteira de Amanda. Eu fico observando-o com o canto do olho enquanto ele passa os nós dos dedos pelo queixo. Sinto vontade de tocá-lo. Parece inevitável. Ele é um polo negativo, eu sou um polo positivo, e tudo que resta entre nós é uma questão de tempo.
Como ontem, ele diz meu nome no começo da aula, mas dessa vez acrescenta:
— Te vejo hoje à noite.
Sentindo um verdadeiro enxame de abelhas no estômago, escuto Bo assoviar na cozinha. Ele sempre assovia quando pensa que não tem ninguém ouvindo.
Normalmente não é nenhuma música em particular, só uma lista aleatória de canções. Mas hoje ele está com os lábios franzidos, assoviando “Jolene”. O que me deixa com os joelhos bambos.
Ron sai do escritório e começa a cantar junto, enquanto reabastece o estoque de talões de pedidos. Faltando alguns minutos para a hora de fechar, Marcus pergunta em tom ríspido:
— Você não conhece nenhuma outra música?
O assovio se interrompe por um momento enquanto Bo vira um hambúrguer. O pão aterrissa no grill, chiando, e ele recomeça a assoviar.
Marcus nos observa com ar curioso quando, no fim da noite, vamos juntos para a caminhonete de Bo.
Entro na caminhonete no instante em que o celular toca. Ele atende, e eu fico só olhando enquanto ele escuta por um momento. Com a veia no pescoço estufada, ele faz que não com a cabeça. Responde alguma coisa entre os dentes e desliga antes de se sentar ao volante.
— Quem era?
Ele morde a parte interna do lábio inferior por um momento.
— Meu irmão.
— Ah.
— Ele precisa que eu vá buscá-lo depois que te deixar em casa. — Ele olha adiante para o campo que fica atrás do Harpy’s. — Nós andamos meio brigados.
Não tenho irmãos, mas sei como é viver em pé de guerra com uma pessoa que a gente vê todas as manhãs e todas as noites.
— Às vezes, sinto inveja dele — diz Bo. — Não foi a mesma coisa para ele quando mamãe morreu. Não sei até que ponto isso é verdade, mas às vezes acho que ele absorveu muito melhor o golpe do que eu.
Concordo com a cabeça. Eu conhecia Lucy de um jeito que mamãe jamais conheceu, e é difícil não sentir que o peso que carrego é maior por causa disso.
— Me perdoe — peço, enquanto afivelamos os cintos. Estou segurando essa batata quente há dias. — Pelo que falei sobre você ter frequentado uma escola particular.
Ele segura o volante e vira o pescoço ao dar marcha à ré.
— O que aconteceu? Você tinha uma bolsa de estudos, não tinha?
— Isso. — Adoro o jeito como ele dirige com uma das mãos na base do volante enquanto usa a palma para girá-lo ao virar, como se estivesse dirigindo um caminhão.
— À esquerda, na Rowlett — instruo.
— Eu estava no oitavo ano quando o pai de um aluno da Holy Cross me viu jogar. Modéstia à parte, acho que eu devia ser mesmo muito bom. Só que eu não sabia disso, porque ninguém dá a mínima para o basquete nesta cidade.
— Menos na Holy Cross — digo. A HC é pequena demais para ter um time de futebol americano, mas o time de basquete deles sempre vence o campeonato municipal, às vezes até o estadual.
— É, por isso acho que vários pais se reuniram e conversaram com o meu pai sobre a possibilidade de eu estudar lá. Mas nós não tínhamos como, principalmente depois do que tinha acontecido com mamãe. E os alunos do ensino médio não podem receber bolsas esportivas. Pelo menos, não segundo a associação atlética em que eles competem. Por isso, descolaram essa bolsa acadêmica para mim. E para o meu irmão também. Meu pai disse que eu não poderia ir, a menos que ele também fosse.
— Mas você não disse que tinha sido por sua culpa que vocês foram obrigados a sair? — Aponto para o meu jardim, algumas casas adiante. — A minha é aquela ali à esquerda.
— Eu estourei o joelho no fim da temporada no ano passado. Nós não tínhamos plano de saúde, por isso não sei quem pagou as despesas. Outros pais ricos, provavelmente. Mas eu não voltaria a jogar tão cedo.
O carro para diante da minha casa. Gostaria que o percurso até aqui tivesse sido três vezes mais longo.
— Mas a sua bolsa não era acadêmica? Eles não tirariam isso de você.
Ele cruza os braços.
— Depois da minha lesão, eu me meti numa briga com um cara do time. Collin, aquele garoto que apareceu no Harpy’s no verão.
— E a briga foi por causa de quê?
Ele balança a cabeça.
— Pelo mesmo motivo por que todos os caras brigam. Uma garota.
O clima na caminhonete fica pesado, e sinto isso até os ossos.
— Aquela que estava com ele?
— Amber. Nós namoramos durante dois anos. Mas eu fui uma merda de namorado para ela.
Sinto vontade de perguntar de que jeito, mas não sei se quero saber a resposta por enquanto.
— Eu quebrei a clavícula do Collin. E ele quebrou o meu nariz. Quando fomos nos matricular no ano seguinte, avisaram que a grana secou, o doador teve que suspender a doação. E agora meu irmão está com ódio de mim.
— Ele sente saudades da Holy Cross?
Bo sorri amarelo.
— Sente, ele era um verdadeiro rei por lá. Estava namorando a mesma menina desde o sétimo ano. Quem faz isso? — Ele balança a cabeça, ainda sorrindo. Posso ouvir o que ele não diz: que ama o irmão caçula demais e provavelmente jogaria até com o joelho arrebentado para deixá-lo feliz. — Ele agora está no nono, no primeiro ano do ensino médio. Ele reagiu à situação muito pior do que eu. E, como está com quinze anos e tudo é uma merda nessa idade, a namorada terminou com ele. Disse que não aguentava mais namorar a distância.
— A distância?
— Pois é, a escola ficava a dez minutos a pé da nossa casa.
— Caramba. — Minha mão paira sobre a maçaneta da porta.
— Posso te acompanhar até a porta? — pede ele.
— Não, não precisa.
— Faço questão — insiste ele.
— É que nós usamos a porta dos fundos.
— Por quê?
— Porque a da frente está emperrada. Há séculos.
— Mas por que vocês não mandam consertar? — pergunta Bo.
— Sei lá. É uma dessas coisas que a gente acaba nunca fazendo. E agora já estamos tão acostumadas, que nem incomoda mais.
Ele torce os lábios como se tivesse algo a dizer, mas fica em silêncio.
Saio da caminhonete e deixo a porta aberta por um momento quando uma ideia me ocorre.
— Por que você se sentou perto de mim nos últimos dois dias? Na aula. Você pode falar comigo no trabalho.
Ele faz aquele lance de passar os nós dos dedos no queixo.
— Acho que prefiro falar com você em todos os lugares.
Por trás da cerca do quintal, abro um sorriso.
Esvazio a mochila na cama, esperando conseguir fazer, pelo menos, uma parte do dever de casa antes de pegar no sono. Aberto entre os livros didáticos está o manual
de mágica que Mitch me deu. Puxo-o para o peito e deslizo até o chão. Há dias que me esqueci completamente do talento que preciso apresentar — aliás, me esqueci do concurso inteiro. A volta de Bo ao meu mundo, mesmo que de um jeito minúsculo, transforma o meu cérebro num vácuo onde nada mais existe, porque sou totalmente consumida.
Mas não quero isso. Não posso querer isso.
Folheando as páginas, encontro vários truques diferentes, mas nenhum de fato me atrai. Um bilhete desliza dentre as folhas, e eu o desdobro.
Will, quando eu era pequeno, tive uma fase de mágico em que usava capa e cartola em tudo
quanto é canto. Achei que talvez um pouco de mágica no seu mundo poderia ser útil. — Mitch
Torno a guardar o bilhete entre as páginas e suspiro. Que ridículo. Eu, fazendo truques bobos. Mas o que me resta fazer? Não tenho nenhum talento que me defina, como Bekah, nem pratiquei qualquer atividade por tempo o bastante para poder, pelo menos, quebrar o galho agora.
Recosto-me na cama com o livro no colo e começo a praticar movimentos de truques com moedas. Parece acomodação. Uma oportunidade perdida. Mas nem por isso chega a ser um erro.
Tento reviver o ímpeto do entusiasmo que me fez entrar no concurso. Mas esse toque de mágica simplesmente evaporou.
QUARENTA E CINCO
No dia seguinte, quando vou buscar mamãe no trabalho dela, encontro-a com uma
sacola de loja pendurada no braço. Ela a exibe ao entrar no carro.
— Antes de dizer qualquer coisa, me ouve.
— Tudo bem. — Mas não tenho como esconder a apreensão na minha voz.
— Debbie e eu demos um pulo em alguns brechós na hora do almoço. Eu sabia que você ainda não tinha comprado seu vestido, e ele precisa ser aprovado dentro de poucas semanas, por isso você não tem muito tempo. Talvez não se dê conta disso, mas não pode comprar qualquer coisa às pressas. Não é assim que funciona.
Sei que preciso de um vestido e que estou atrasada. Mas não há receita de desastre mais garantida do que minha mãe comprando roupas para mim. Eu já vi esse filme. Nós duas já vimos. E ainda temos as cicatrizes.
— Ele é bem simplesinho, mas podemos dar os nossos toques pessoais. Como se tivesse sido feito sob medida.
Prometo a mim mesma, pelo menos, experimentá-lo. Vou dar a ela o benefício da dúvida.
Mamãe deixa que eu me vista no quarto dela, para eu poder usar o espelho maior. Quando fecha a porta, percebo como é estranho que não fique comigo. Ela sai andando pela casa, trocando de roupa aos poucos, procurando uma meia sem par ou passando a ferro o uniforme. Não que jamais tenha me incutido vergonha da nudez. Mas chegou uma época, quando eu devia estar com uns onze, doze anos, em que ela parou de entrar comigo nos provadores e de escovar os dentes enquanto eu tomava banho. Talvez estivesse tentando ser sensível a algum anseio de privacidade que eu pudesse ter. Mas, no fundo, no fundo, acho que ela não está nem um pouco interessada em se lembrar do corpo que eu tenho.
Seja isso verdade ou não, ainda me magoa.
Mas, justiça lhe seja feita: o vestido não é horrível. É vermelho, daquele tom perfeito que é reservado aos esmaltes de unha sexy e aos carros esportivos, com um decote profundo e alças que escorregam dos ombros de propósito. Em mim, elas não ficam no ângulo reto que vejo nas atrizes e modelos, caem um pouco na curva, mas, mesmo assim, gostei.
Até o instante em que puxo o zíper.
E ele sobe.
Mas isso não significa que o vestido tenha ficado bem em mim.
Meu Deus. O fato de ter conseguido fazer com que o zíper fosse além dos quadris só pode ser uma lição de inércia ou força de vontade. O tecido se estica nas costuras, ameaçando se romper se eu sequer olhar torto para uma cadeira. E o busto é tão largo que dá até para enfiar os braços nele. (Se sentir frio, por exemplo.)
— Pronto — digo a mamãe em voz alta. — Pode entrar!
Ela fica atrás de mim, e observo nossos reflexos no espelho. Vejo seu olhar passeando pelo meu corpo, e os cantos de seus lábios se abaixando quando ela percebe como o tecido está querendo esgarçar nos quadris.
Nossos olhares se encontram, e ela resolve segurar a onda. Sua boca se curva num sorriso.
— Podemos alargar alguns centímetros. E apertar o busto. — A voz está muito alta e o sorriso largo demais, mas não me importo. Posso tirar tudo isso de letra. Porque, pelo menos, ela está se esforçando para enfrentar a minha realidade. — O que acha? — Puxa o decote do vestido para trás, apertando as sobras de tecido nos punhos.
Já dá quase para imaginar como ficaria e... gosto do que vejo.
— Ficou bom. Só vou usar por vinte minutos, não é? Dou meu jeito, pode deixar.
Estou na terceira fila do auditório da escola. Millie está ao lado, lendo um pocket, e do lado dela, Amanda, batendo com os pés no chão e tamborilando com os dedos na
coxa.
Hoje é o dia em que vamos ter nossos talentos aprovados (ou não) para o concurso. Não tenho nada para apresentar além de um truque que aprendi no livro que ganhei do Mitch. As regras determinam que a candidata deve exibir uma amostra do talento, por isso estou contando que seja o bastante.
Hannah passa pelo corredor, espremendo-se entre Amanda e Millie.
— Vou cair fora daqui assim que aprovarem o meu talento.
— Não acha que seria mais educado ficar para assistir à apresentação das outras candidatas? — pergunta Millie.
Hannah se joga numa poltrona ao meu lado, sem se dignar a responder.
A paciência de Millie com Hannah está pouco a pouco se esgotando, e extraio um prazer perverso disso. Adoraria ver a baixinha bem-humorada soltando os cachorros em cima da rabugenta Hannah.
Assim que todas as candidatas se acomodam, mamãe faz seu discurso e diz que os trajes para a prova dos talentos precisarão ser aprovados ao mesmo tempo que o restante do guarda-roupa.
— As surpresas são apenas para a plateia — arremata.
A primeira a se apresentar é Bekah Cotter, que — tchan-ran! — gira um bastão como uma super-heroína diabólica. Só que, dessa vez, não está com o nome de Bo estampado na bunda. Sei que não se justifica que eu a deteste tanto. Ela não deve ter trocado mais de vinte palavras comigo, mas basta eu imaginar Bo de smoking, acompanhando-a ao concurso, para me transformar numa fera que cospe fogo.
Depois vêm cinco candidatas em sequência cantando temas de vários musicais, como Os Miseráveis e Chicago. A interpretação de Chicago de Karen Alvarez é considerada sexy demais, e lhe dão uma semana para apresentar outra música. Ela sai de cabeça baixa do palco, abraçada ao songbook. Dá para ver que está mortificada, mas o lance cheira a escândalo de concurso e eu adoro essas coisas.
— Amanda Lumbard — chama Mallory Buckley.
Millie bate nas costas de Amanda, que pega uma sacola embaixo da poltrona. Quando sobe ao palco, noto que não está usando as botas ortopédicas do Frankenstein. Um dos saltos é mais alto do que o outro, e é um modelo esportivo.
— Acho que não é muito tradicional, mas é o que sei fazer. — Sua voz sai um pouco trêmula. Ela se agacha e abre a sacola, de onde tira uma bola de futebol. Sem maiores rodeios, começa a fazer embaixadinhas, e depois vai passando a bola de uma coxa para a outra. É incrível. Ela consegue fazer, inclusive, com a cabeça e os ombros, sem deixar que caia em momento algum.
Lá está Amanda fazendo uma coisa que eu nunca sonharia em fazer, mesmo tendo as duas pernas do mesmo comprimento. Depois de mais alguns malabarismos, ela põe a bola debaixo do braço, pega a sacola e sai do palco.
Millie e eu aplaudimos freneticamente, e o restante do auditório fica em silêncio, enquanto o comitê chega a uma decisão.
Demora o dobro do tempo das outras candidatas, mas, por fim, mamãe anuncia, num tom de voz não muito impressionado:
— Bem, não é o tipo de atividade que estamos acostumados a ver, mas passa.
— Estou aprovada? — pergunta Amanda.
Mamãe faz que sim.
Amanda sorri, toda tímida e aliviada ao tornar a se sentar.
Em seguida, vem um monólogo — Muito Barulho por Nada — de Shakespeare, que é maravilhoso, mas os jurados vão boiar completamente.
— Willowdean Dickson?
Pego o material na mochila e atravesso o corredor em direção ao palco.
Quando eu era pequena, participei de várias peças na escola. As luzes intensas nunca me deixavam ver a plateia, e era o que tornava a experiência suportável para mim. Mas hoje o auditório é que está iluminado, e as luzes do palco, apagadas.
— Posso começar? — pergunto.
Tento não contar as candidatas na plateia, porque, se começar, não vou parar mais.
A Sra. Clawson, que está sentada ao lado da mamãe, dá o sinal com a cabeça.
Exibo uma garrafa PET vazia e tiro uma moeda do bolso.
— Vou fazer um truque. — O rosto da mamãe está impassível. — Pretendo fazer outros também, mas esse é só uma amostra. — Fico esperando que digam que está bem ou que não preciso me preocupar, mas a única resposta que recebo é um silêncio mortal.
Aqui vão os detalhes de como o truque é feito: pego uma garrafa de água vazia, em que fiz uma abertura com uma faca. Devo segurá-la de modo que a plateia não veja (óbvio!) esse corte na lateral. Depois de bater na garrafa e provar que é normal, mostro à plateia uma moeda de vinte e cinco centavos e a enfio depressa na abertura da garrafa. Tchan-tchan-tchan-tchan!
— Isso aqui que estou segurando é uma garrafa de água perfeitamente normal. Foi com a água dela que tomei minhas vitaminas hoje de manhã. — Se eu conseguir fazer aquela entonação bem própria dos mágicos, talvez ninguém note como sou canastrona. Bato com os dedos por toda a superfície. — Uma garrafa comum, igual às outras.
Mostro a moeda. Na primeira fila, mamãe franze os olhos. Desatarraxo a tampa para mostrar que a moeda não passa pelo gargalo. O auditório faz o maior silêncio. Será por isso que os mágicos sempre contam piadinhas? Ou tocam aquelas músicas dramáticas, cheias de efeitos sonoros, como as dos filmes de ficção científica? Mostro a moeda mais uma vez antes de colocá-la entre os dedos como o livro ensinava e bato com ela na lateral, pela abertura.
— Voilà! — exclamo, o que até teria soado engraçadinho, se eu não tivesse falado antes da hora. Sacudo a garrafa, mas, além das gotas que restaram no interior, ela continua vazia. Não tive o cuidado de ver se estava batendo do lado certo.
— Tá no chão — avisa Callie da terceira fila, onde se senta ao lado de Ellen.
Ellen. Que está mordendo o lábio.
Sua presença na plateia. Meu talento de merda. O auditório com todas as luzes acesas. Estou perdendo tempo com esse concurso. Não acho que tenha sido isso que Lucy imaginou ao guardar aquele velho formulário na gaveta. E a culpa não é de ninguém, só minha. As lágrimas brotam nos cantos dos meus olhos, mas não deixo que escorram.
Olho para o chão e vejo a moeda caída aos meus pés. Rapidamente, eu me abaixo e a pego antes de enfiá-la do outro lado da garrafa.
O pior truque de todos os tempos.
O único aplauso vem de Millie. Obviamente.
— Ainda estou aprendendo — justifico.
Fico parada na beira do palco enquanto os membros do comitê — mamãe inclusive — discutem. Finalmente, ela anuncia:
— Aprovada. — Mas seu rosto diz tudo. Decepcionada. Muito mal impressionada.
Passo por Hannah e Millie ao voltar para a poltrona.
— Bem fraquinho — sussurra Hannah.
— Como se você tivesse planejado coisa melhor — rebato.
— Hannah Perez — chama mamãe.
Hannah atravessa o palco a passos duros, usando aqueles coturnos que as Forças Armadas põem à venda quando têm sobrando.
E então — graças ao garoto na cabine de som — a música que ela escolheu começa a tocar. É uma canção que me lembro de ouvir no toca-discos de Lucy: “Send in the Clowns”. É o tipo de melodia que entranha nos nossos ossos e deixa a gente triste, sem conseguir identificar o motivo.
A voz de Hannah está longe de ser excepcional, mas ela realmente interpreta a música. Como se fosse a compositora. O tema vai num crescendo, e sua voz também. E vou deixando de ver a Hannah de rosto azedo, dentes enormes e roupas pretas surradas, até ver apenas uma menina interpretando uma música de cortar o coração porque ela a entende, embora nós não.
A música é interrompida no meio, e segue-se um breve mutismo antes de o auditório irromper em aplausos.
Quando volta a ficar em silêncio, mamãe diz:
— Foi maravilhoso, Hannah. — Como se me alfinetasse: É assim que se faz, Dumplin’.
Hannah balança a cabeça e desce os degraus da escada de dois em dois. Sem agradecer. Apenas pega a mochila que está aos seus pés e sai.
Assisto a todas as apresentações. Callie traduz o tema de Titanic na linguagem de sinais, e tenho que admitir que é uma revelação. Millie toca no xilofone “Somewhere Over the Rainbow”, de O Mágico de Oz, uma interpretação que não chega a ser impressionante, mas que garante sua classificação. E Ellen sapateia com tamancos de madeira ao som de uma canção folclórica alemã. Ela foi membro de uma equipe de sapateado até o sétimo ano, e continua sapateando tão mal como na época.