Dumplin'
A presente obra é disponibilizada pela equipe…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.
— Isso não significa que não servimos para ser amigas uma da outra. — Penso que as partes da minha identidade que foram construídas a partir de lembranças ao lado de Ellen são as que mais aprecio. — Me perdoa? — peço. — Eu fui cabeça-dura.
Sento no banquinho diante do cenário. Mamãe fica atrás do fotógrafo. Ela faz um gesto com os indicadores, como se abrisse um sorriso no rosto. Está me dando uma ordem.
Respiro fundo e imploro a mim mesma para sorrir. Sorrir. Sorrir. Sorrir.
Ellen continua na cadeira encostada à parede, ainda esfregando em círculos a mancha de sangue com gordura do churrasco.
Não sorrio.
Depois das fotos, somos liberadas para arrumar nossos espaços no vestiário. O teatro comunitário no Centro da cidade foi projetado para sediar o concurso, e por isso o
vestiário feminino é quatro vezes maior que o masculino.
Cada assento tem uma etiqueta. Encontro meu nome num pedaço de papel colado com durex a um canto do espelho. Só que, por cima do nome, está escrito DUMPLIN’ em pilô preto. Rabiscado às pressas, como se alguém tivesse que me identificar e não resistisse a usar meu apelido. Olho à direita e à esquerda para ver se encontro o culpado.
Ellen solta suas tralhas ao lado das minhas. Vejo seu nome colado ao espelho. Estamos novamente em ordem alfabética.
No reflexo, seu olhar encontra o meu. Ela revira a bolsa por um momento antes de tirar uma caneta. Esticando-se por cima de mim, pega o papel com meu nome. Fico só olhando enquanto ela escreve meu nome sem o Dumplin’ por trás, descola o pedaço de durex e o reaplica antes de colar a etiqueta novamente no espelho.
— Obrigada — digo.
Ela se senta no banquinho ao meu lado.
— É só uma palavra. Não significa nada, a menos que você deixe. — Ela se vira para mim. Seus olhos não chegam a se fixar nos meus. — Mas, se é algo que te magoa, então me magoa também.
Meu corpo inteiro relaxa, mas o queixo começa a tremer.
— Me perdoa?
— Me perdoa você também? — pede ela.
Balanço a cabeça.
— Não, não, eu é que tenho que pedir.
Só então ela levanta o rosto, nota meu queixo trêmulo e segura minha mão.
O vestiário começa a ficar cheio, à medida que as outras garotas vão entrando.
— Vem — chama ela.
Sigo atrás de El, que me leva pela mão até um surrado sofá de couro de dois assentos a alguns metros da mesa da diretora de palco.
Sentamos e, sem a menor cerimônia, El joga a perna por cima da minha.
— Tudo bem, pode falar.
— Tá. Eu fiquei muito zangada contigo por ter se inscrito no concurso. E aí você ficou zangada comigo por ficar zangada com você. E aí eu continuei zangada com você. E aí você continuou zangada comigo. — Balanço a cabeça. — Eu sei que as coisas já estavam indo nessa direção há muito tempo. Nós estávamos nos afastando cada vez mais.
Ela faz que sim.
— Isso me assusta. Não quero me sentir afastada de você. Mas de repente nós não deveríamos fazer tudo juntas. Talvez devêssemos ter um mínimo de privacidade.
— É difícil aceitar isso. — Procuro as palavras certas. — Quero ver você feliz. E fazendo novos amigos. Mesmo que seja gente como a Callie. Não quero sentir ciúmes de você. — Nunca tinha dito isso em voz alta. Acho que até pensar nisso me assustava, mas sei que é verdade no instante em que sai da minha boca. — Não quis dizer ciúmes no sentido possessivo e suspeito da palavra, mas às vezes acho que nossas vidas estão seguindo em velocidades diferentes, e é difícil não ter medo de que você me ultrapasse.
Ela solta um riso parecendo um soluço.
— Não vou te ultrapassar tão cedo. E, se está falando de sexo... É verdade que eu amo o Tim, mas tive que aprender muita coisa. — Ela dá de ombros, acrescentando: — Talvez eu sinta inveja de você, às vezes. Você não liga para pessoas como a Callie ou nenhuma das garotas com quem trabalho. Mas eu sinto necessidade de que elas gostem de mim. É o tipo da coisa que chega a me dar insônia. Eu nem acho elas descoladas. Mas sinto necessidade de que gostem de mim. Minha cabeça mantém uma espécie de registro de quantas pessoas me admiram, me adoram, e eu me importo com isso. Mesmo que não queira me importar.
Sorrio, e o nó no peito afrouxa um pouco.
— Você é a minha melhor amiga. Mesmo nestes últimos dois meses, sempre foi. E você nunca me tratou diferente. Não como os outros me tratam às vezes. E sei que sou boa em ser quem eu sou. Sou boa em dizer: “Essa sou eu. Me ama ou vai à merda.” Cê sabe, né? Mas... — Ah, meu Deus. Tem tanta coisa que não contei a ela. Começo pelo começo. — Eu conheci um cara no verão. Bo. O Garoto da Escola Particular. No trabalho. E a gente se beijou.
— E você não me contou? — Ela estapeia meu braço. — Poxa, Will!
Balanço a cabeça.
— Eu sei. Desculpe. Mas nós nos beijamos mais algumas vezes depois disso. E aí a coisa continuou rolando.
— Ah, meu Deus. Você transou com ele. Foi um espetáculo? Ainda estou zangada com você por não ter me contado.
Dou uma risada.
— Não, não, não transamos. Mas eu gostei do jeito como ficar com ele me fez sentir. — É como se minha cabeça fosse um carretel se desenrolando. — Mas aí... Alguma vez você sentiu medo quando Tim te tocou? Tipo assim, no começo?
Ela encosta a cabeça no meu ombro.
— Ai. Senti, sim. Ele tocava a minha cintura, ou alguma espinha no meu queixo, e eu me fechava como uma perfeita paranoica.
Sou inundada pelo delicioso alívio do reconhecimento.
— Foi o que aconteceu quando Bo me tocou. Tipo, eu me sentia totalmente bêbada quando a gente se beijava. Mas aí ele colocava a mão nas gordurinhas das minhas costas ou no meu culote, e eu me fechava feito uma ostra.
— Não acredito que você tenha escondido isso de mim. — Sua voz é suave. — Eu deveria estar pau da vida com você.
— Eu sei, eu sei. Desculpe. Mas, enfim, a gente já estava nessa correria do concurso, não estava? E você disse que ia começar a fazer sexo com o Tim, e eu me senti como se fosse explodir. Mas não só por ciúme. Foi mais por me sentir criança e inexperiente. E eu não podia... aliás, acho que ainda não posso, pelo menos não cem por cento... me imaginar deixando que alguém me veja desse jeito.
— Ah, Will.
— E isso me irritou demais. Era como se eu estivesse te perdendo. Mas ao mesmo tempo estava me achando bizarra. Tudo isso me deixou na maior raiva, porque eu não queria ser uma daquelas garotas que se sentem mal em relação a si mesmas por causa de um cara.
Ellen se endireita e eu deito a cabeça no colo dela, enquanto faz cafuné nos meus cabelos. Então, conto tudinho, nos mínimos detalhes. Sobre Bo no shopping, e como ele não me disse que trocaria de escola. Sobre Mitch. E o baile. O Halloween. A volta ao Harpy’s. Bo, conto tudo sobre Bo. E como El gostaria demais dele. E o quanto ele quer ser meu namorado.
— Ele quer que tenhamos esse rótulo — conto a ela. — E você sabe que não vamos conseguir passar um dia na escola sem sermos ridicularizados. Ele não entende isso.
— Olha só — diz ela. — Tem muita gente no mundo que é babaca, tá? Não vou mentir em relação a isso, mas pensa em mim e no Tim. Ele é muito mais baixo do que eu. Pensa que as pessoas não zoam? Pois zoam muito.
É verdade, mas, até esse momento, não era algo que eu já tivesse ouvido El mencionar.
— Mas nem sempre a gente escolhe quem o coração quer. E, mesmo que sempre pudesse escolher, eu escolheria Tim. Todas as vezes. Por isso, você tem que pensar: uma relação é entre duas pessoas. Todos aqueles babacas na escola são espectadores entediados. Você e Bo atrás da caçamba no Harpy’s, aquilo sim foi o coração de vocês falando. Mas um namoro entre você e Bo. Uma relação fiel e exclusiva. Isso é a sua cabeça. Seu coração está totalmente a fim, mas isso não significa que você não tenha escolha. Pelo que parece, ele já fez a escolha dele.
Penso em como é fácil dizer isso na minha cabeça. Até mesmo em voz alta. Mas fazer, segurar a mão dele e dizer: “Eu mereço isso. Nós merecemos” — isso é apavorante.
— Eu estava com medo de que vocês tivessem terminado — digo a El. — Você e Tim. Eu te vi chorando no corredor outro dia.
A mão dela para por um momento. Ela dá uma fungada.
— Meus pais estão brigando de novo. Meu pai tinha ido passar a noite na casa do tio Jared. E voltou. Mas sei lá. Tenho a impressão de que agora é o fim da linha.
— Puxa, El. Sinto muito.
— Eu queria tanto te contar. Mas estava sendo teimosa. E burra.
— Não, eu é que devia ter ido falar com você quando te vi no corredor.
— Tudo bem — diz ela. — Não é a primeira vez. Algumas coisas não podem ser remediadas. Pelo menos, não para sempre.
A ideia faz meu coração se apertar. Eu ajeito as costas e ficamos ali por mais algum tempo, enroscadas como dois gatinhos.
CINQUENTA E SETE
Eu acabo passando o resto da tarde com Ellen e Tim. Quando eles me dão uma carona
na volta, vejo a caminhonete de Bo estacionada na frente de casa.
— Hummm, aquele é quem eu penso que é? — pergunta El.
Ele está diante da porta da sala, com uma enorme caixa de ferramentas aos pés.
Tim estaciona no jardim, e El desce para eu poder me esgueirar pelo banco traseiro do Jeep.
Atravesso o jardim, sentindo Ellen nos meus calcanhares. Eu me viro abruptamente.
— Aonde a senhora pensa que vai? — pergunto a ela.
— Quero assistir, ué.
— Não. Negativo. Você vai para a sua casa.
— Me liga — pede ela. — NÃO. ESQUECE.
— Tá.
Ela me dá um abraço, e eu me demoro por um segundo longo demais, esperando que seu carinho penetre minha pele.
Aguardo o carro de Tim se afastar antes de dar os últimos passos até Bo.
— Isso é uma tentativa de invasão de domicílio, ou o quê?
Ele se vira bruscamente, como se não tivesse ouvido Tim me deixar em casa. Está com um cinturão de ferramentas em couro marrom pendurado na cintura.
— Juro que não.
— Ah, bom.
Seu sorriso é firme, mas nervoso.
— Eu saí com meu pai, para ajudar em alguns trabalhos dele, quando nós esbarramos com a sua mãe no posto de gasolina. Acho que eles andaram namorando no ensino médio.
Dou uma risada.
— Não me surpreende nem um pouco.
— Ela voltou a falar no problema da porta, e o meu pai... Bom, na verdade, eu me ofereci para vir consertar. Espero que não tenha pegado mal.
Sento nos degraus, e ele faz o mesmo.
— Só um pouquinho.
Sinto no peito o peso das palavras reprimidas que não sei como dizer.
— Você consertou?
— Foi a coisa mais fácil do mundo. Eu mal posso acreditar que vocês tenham deixado ficar assim durante tanto tempo.
Abraço os joelhos contra o peito.
— Era só pra não ter que atender.
Ele estende a mão às minhas costas e gira a maçaneta. A porta se abre.
— Agora, não tem mais desculpa.
— Pois é. — Aponto seu pescoço. — Esse cordão é o quê?
Ele o retira de baixo da camiseta e mostra a medalhinha.
— Santo Antônio. Dizem que ajuda a encontrar coisas perdidas.
— E o que você está procurando?
— Não sei. — Ele torna a enfiar a medalha por baixo da gola. — Acho que talvez já tenha encontrado. Mas tem dias em que acho que foi a coisa que me encontrou.
Balanço a cabeça. Há um certo consolo em saber que, para cada pessoa no mundo esperando ser encontrada, há alguém à sua procura.
— Willowdean?
— Diga.
Ele se levanta e pega a caixa de ferramentas.
— Você faz mais perguntas que perito de companhia de seguros.
CINQUENTA E OITO
Acordo e descubro que mamãe enfiou um exemplar do jornal por baixo da minha porta.
Eu o desdobro e vejo o meu rosto, bem no meio da dobra. A manchete diz: CONCURSO MISS JOVEM FLOR DO TEXAS DE CLOVER CITY: QUEM É QUEM. A primeira página inteira exibe as fotos que tiramos ontem. Logo abaixo vêm nossos nomes, idades, pratos favoritos e definições de Clover City em uma palavra.
Desconfio que mamãe não tenha tido oportunidade de ver as fotos antes de o jornal sair. Mas, seja como for, lá estou eu. Com meu rosto nada sorridente.
No ensaio, passamos um tempão mofando, sentadas no auditório, aguardando os técnicos darem os últimos retoques na iluminação. Miranda Solomon, a musa do teatro comunitário de Clover City, se vira na poltrona e explica para mim, El, Hannah, Amanda e Millie que as candidatas passam metade dos ensaios finais tomando chá de cadeira, esperando que os técnicos façam seus ajustes. Ela dá de ombros.
— Faz parte do show.
Quando se levanta para ir ao banheiro, El se vira para mim com os ombros erguidos e a voz alta:
— Faz parte do show.
Callie está sentada algumas filas atrás de nós, com outra garota que reconheço da Sweet 16. Procuro me esforçar ao máximo para não dar uma de metidinha, mas não é nada fácil.
Tirando isso, as coisas estão muito quietas, o que é suspeito. Concursos são uma receita infalível para desentendimentos. Porque você tem que ser perfeita. E, como se não bastasse, a sua perfeição tem que ser a melhor de todas. Está todo mundo com os nervos à flor da pele. Principalmente Millie. Ela está balançando as pernas com tanta força, que dá para sentir as vibrações três poltronas adiante.
Ellen se vira para mim.
— E aí, vai mesmo fazer aqueles truques? Eu te amo, sou sua amiga, mas sua apresentação estava de doer.
— Bom, a essa altura do campeonato, não tenho escolha.
— Sei lá, mas... Acho que se você não quer ser desclassificada, então não tem mesmo.
A ideia de fazer algo totalmente diferente nem tinha me ocorrido.
— Mas não há nada que eu poderia fazer.
Ela continua sentada por um minuto, profundamente pensativa, mordendo uma mecha de cabelo. De repente, solta um gritinho e começa a cochichar no meu ouvido. Bastam três palavras para a ideia me conquistar. Ela se recosta na poltrona, esperando minha resposta.
Posso até imaginar a cena perfeitamente. Já que não tenho a menor chance de vencer o concurso, por que não tentar algo apoteótico?
— Eu poderia até...
— Millie Ranea Michalchuk!!! — chama uma voz irada dos fundos do teatro.
As vibrações que senti durante a última meia hora param, e o corpo inteiro de Millie se congela.
Estico o pescoço e vejo a mãe dela avançando em passos furiosos pelo corredor. O pai não está muito longe.
Viro depressa e dou uma cotovelada na barriga de Hannah.
— O que está acontecendo? — sussurro alto demais no ouvido dela.
Millie se espreme por entre nós para ir ao encontro da mãe no corredor. Levanta bem o queixo, tentando respirar pausadamente.
Os olhos de Hannah demoram um segundo para se ajustar.
— Xiii... — exclama ela, e esconde o riso no punho.
— Xi o quê?
— Eu menti. E feio.
Agora, todo mundo está olhando. Inclusive os técnicos da iluminação.
— Está brincando comigo?!? — pergunto.
— Millicent — diz a Sra. Michalchuk. — Você mentiu para nós. Descaradamente. — As lágrimas brotam nos cantos de seus olhos, e fica óbvio que ela não está usando rímel à prova d’água. O pai de Millie para atrás da esposa, de braços cruzados. — Você agiu por nossas costas depois que decidimos não assinar o formulário. Por quê? Por que fez uma coisa dessas?
— Isso é verdade? — Minha mãe está no palco, com uma prancheta enfiada debaixo do braço.
Com as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo, Millie se vira para mamãe e diz:
— É. Eu falsifiquei a assinatura da minha mãe. — O rosto se contrai por um segundo, como se ela estivesse prestes a chorar. Torna a olhar para os pais. — Mas vocês estão errados. — Sua voz se suaviza. — Eu sei que querem me proteger. Eu sei disso. Mas... às vezes eu só preciso que me apoiem.
Mamãe franze o cenho.
— Vamos conversar no foyer.
Fico olhando enquanto Millie segue pelo corredor, mamãe rente nos calcanhares dela. Levanto da poltrona e passo por cima das pernas compridas da El.
— Aonde você vai? — pergunta ela.
— Ela precisa de ajuda — digo.
Corro pelo corredor e empurro a porta o bastante para que o auditório inteiro escute minha mãe dizer: “Sinto muito, mas não podemos permitir que você participe sem a autorização dos seus pais.”
A porta se fecha atrás de mim.
— Millie tem que competir. — Os pais dela se viram. — Ela se esforçou demais — conto a eles. — E ela não é frágil. Não mesmo. Tem uma casca bem mais grossa do que vocês imaginam. Todo mundo neste auditório, até as garotas de pernas compridas e cabelos sedosos, sabe o que é ser objeto de deboche. Millie e eu sabemos. Amanda e Hannah. Ellen. — Aponto minha mãe. — Até minha mãe sabe. Mas a gente não pode viver com medo o tempo todo. Não precisa ser assim.
Millie segura minha mão e a aperta com força.
— Eu quero muito participar — pede ela. — Sonho em participar deste concurso desde que me entendo por gente. Não há nada no estatuto que diga que as gordinhas não podem participar. — A mãe dela faz uma expressão de desagrado ao ouvir a palavra e seca discretamente uma lágrima. — A única coisa que me impede de fazer isso é você, mãe.
A Sra. Michalchuk olha para o vasto banner do concurso pendurado sobre as portas do auditório e então para mamãe, que esboça um sorriso. O marido segura sua mão. Ela se vira para Millie e faz que sim com a cabeça.
Lado a lado, voltamos para o auditório, onde, obviamente, todas as outras garotas estavam de ouvido ligado na conversa. Algumas até se viram e dão sorrisos de encorajamento para Millie quando nos sentamos. Ellen segura minha mão, e depois a de Millie, que entrelaça os dedos com os de Amanda. Viro para o outro lado onde está Hannah, a palma para cima. Ela respira fundo antes de segurar minha mão.
Um vínculo mais poderoso do que qualquer coroa vibra entre nós cinco, e, pela primeira vez desde o começo do concurso, sei que sou eu que estou por cima.
Quando finalmente começamos a ensaiar, é a maior bagunça. Nenhuma de nós pratica os talentos. Não dá tempo. Callie escorrega na rampa durante o número de abertura.
Todas nós erramos as deixas. Rolam tombos. Lágrimas. E até um ou outro machucado. No fim, sai tudo exatamente como eu já esperava.
Em casa, mamãe está jogada no sofá com uma garrafa de champanhe barato, como faz todos os anos. A essa altura, já não resta mais nada a fazer, e, mesmo que ainda falte alguma coisa, é tarde demais para se dar a esse trabalho: tudo que ela pode fazer é deixar que a purpurina caia onde quiser (palavras dela, não minhas).
Eu me sento à mesa da cozinha com uma caixa de papelão, alguns vidros de guache e um par de tesouras. Tenho que dar um jeito de criar um adereço para o número de abertura.
Não prestei a menor atenção ao tema sorteado, Cadillac Ranch, desde o dia do ensaio da coreografia. Normalmente eu acharia que um troço desses é pura frescura de concurso de beleza, mas até que é legal. Claro, o Texas tem mil pontos turísticos que todo mundo conhece de nome, mas também essas joias desconhecidas. Como as Luzes de Marfa, o Poço de Jacob, o Vale dos Dinossauros e até a escultura da Prada, que fica a algumas horas daqui. Acho que Cadillac Ranch se encaixa na categoria dos excêntricos. É a cara do Texas, mas, por outro lado, foge completamente ao estereótipo.
Cadillac Ranch é uma instalação de arte pública em Amarillo, composta por uma fileira de Cadillacs embicados ao lado da estrada. A pintura dos carangos já era há muito tempo, e por isso os visitantes são encorajados a soltar a imaginação com sprays de tinta. Pois é. Não faço a menor ideia de como criar um adereço decente que diga: “É óbvio que eu sou Cadillac Ranch.”
Mamãe entra na cozinha para pegar gelo — sim, ela toma champanhe com uma pedra de gelo.
— Isso é para algum trabalho escolar? Você tem que descansar bastante hoje à noite, Dumplin’.
Ela vai me matar por não ter feito esse troço antes.
— É para o meu, hum, adereço do número de abertura.
Ela se senta ao meu lado.
— Ah, meu Deus.
Balanço a cabeça.
— Tudo bem — contemporiza ela. — A gente dá um jeito. — Mamãe dá uma olhadinha no papel com o tema. — Cadillac Ranch. — Fico só observando enquanto ela se levanta e pega um copo plástico no armário. Despeja um pouco de champanhe e o entrega a mim.
Pego o copo, mas não faço comentários. Não quero que ela mude de ideia por qualquer motivo.
— Você acha que a sua cintura passa por essa caixa?
Dou uma olhada nela por um segundo e tomo um gole de champanhe. Borbulha no meu peito.
— Acho que passa.
— Então dá um pulo na garagem e pega pra mim aquele rolo de elástico largo, a pistola de cola e a minha caixa com sprays de tinta.
Volto com os itens pedidos, e, em instantes, ela já está trabalhando na caixa, cortando-a com um estilete.
— Dumplin’, você vai ter o adereço mais espetacular daquele número de abertura.
Meu corpo inteiro vibra de satisfação, e dou outro gole no champanhe.
Algumas horas e uma garrafa depois, digo:
— Mãe?
— Sim, Dumplin’.
— Foi muito legal da sua parte deixar a Millie concorrer. Mesmo depois dela ter mentido.
Ela vira o copo num gole só.
— Millie é uma boa menina. Muito meiga. E tem um lindo sorriso.
Espero que ela diga algo sobre o tamanho de Millie e como está em desvantagem, mas ela se limita a abrir outra garrafa.
Pintamos em silêncio uma base branca no papelão, e, quando já está quase seca, sinto alguma coisa fria respingar no meu rosto. Passo o dedo na pele. Tinta.
— Ah, não, você não fez isso — digo, passando a tinta do dedo no nariz dela.
Começamos a soltar gargalhadas. Histéricas. Do tipo que a gente não consegue controlar. Do tipo que dói. Acho que estou bêbada. Mamãe certamente está. Mas estou me sentindo bem, e quem precisa dormir para ficar com uma cara boa quando se tem champanhe em casa?
Quando finalmente terminamos, à uma da manhã, saímos da cozinha deixando a mesa coberta de folhas de jornal manchadas de tinta e pedaços soltos de cartolina. Riot pula na mesa e fareja o projeto terminado. Seu rabo bate e desliza na maquete de cartolina coberta de tinta spray.
Experimento o adereço. Ele fica suspenso dos meus ombros por elásticos e vem até a cintura. É simplesmente ridículo. E simplesmente perfeito.
Antes de irmos dormir, abro a porta da sala. A rua está silenciosa e escura. Daqui de onde estou, a casa inteira parece cheia de novas possibilidades.
Mamãe apaga a luz do corredor atrás de mim. Fecho a porta e passo a tranca.
Já na cama, mando uma mensagem para Ellen com uma lista de todas as coisas que vou precisar para a apresentação do meu talento amanhã.
MAGNÍFICO, responde ela.
O champanhe que ainda corre pelas veias embala meu sono. É mesmo magnífico.
CINQUENTA E
NOVE
ELLEN: Hoje é o dia do show, gente. HOJE É O DIA DO SHOW!!!
A mensagem de El é a primeira coisa que me faz sorrir. Mas acordo numa tremenda crise de insegurança. Será que a noite passada aconteceu mesmo? Olho para as mãos e vejo os pingos de tinta seca salpicados na pele.
Ainda faltam algumas horas até termos que sair, por isso tomo um banho bem demorado, daqueles que lavam até a alma, e enfio mil grampos no cabelo até conseguir montar uma espécie de penteado com os cachos caindo por cima da testa. Depois, passo esmalte roxo-escuro nas unhas com o maior capricho.
Abro o armário para ter certeza de que não esqueci nada do que vou precisar. Pendurado bem na frente e no centro está o vestido vermelho que mamãe comprou para mim. Levanto a capa de plástico e puxo a bainha, observando o brilho do tecido.
Mamãe bate à porta antes de entrar.
Fecho o armário.
Ela está toda maquiada, pronta para desempenhar o papel de apresentadora glamorosa por um dia.
— Está na hora. Vou te esperar no carro — avisa. Inclina a cabeça para o lado. — Seu cabelo... Está bonito. — E fecha a porta antes que eu possa agradecer.
Eu me sento na beira da cama por um momento. Pego a Bola 8 Mágica e dou uma boa sacudida.
É assim que tem que ser.
Abro a porta do armário.
O camarim está empesteado por uma névoa de laquê. Sério, sou obrigada a respirar pelo nariz, ou corro o risco de engolir vapores tóxicos. As bancadas estão repletas de
itens de maquiagem, flores, ursinhos de pelúcia, potes de vaselina e bebidas energéticas.
As misses ensaiam os talentos. Cantando baixinho enquanto aplicam batom. Contando os passos da coreografia enquanto passam laquê no cabelo. Recitando monólogos enquanto põem rímel nos cílios.
Mal tenho tempo para absorver tudo isso. Vejo Millie nos fundos do camarim. O cabelo da garota. Está enorme! Tão enorme que até poderia servir de dublê da Rapunzel. Falando sério, ela deve ter ganhado uns quinze centímetros de altura, sem contar os saltos. Ela sorri e acena para mim.
Diante do espelho estão um singelo buquê de girassóis embrulhado em papel celofane amarrado com um barbante rústico, uma solitária rosa vermelha e uma garrafa de cidra.
Pego o cartão enfiado no buquê.
Toda a sorte do mundo! — Bo & Loraine
Colado ao caule da rosa está um Post-it que diz:
xoxo mamãe
Por fim, abro o envelope preso à garrafa de cidra.
Queria te dar da autêntica, mas o Dale disse que não. Desmancha-prazeres. Quebra tudo, garota! Um beijo, Lee (& Dale)
Gostaria que Lucy estivesse aqui. Não para me ver concorrer, mas para ver isso. Porque sinto que esse momento é tão dela quanto meu.
Mal acabo de me maquiar, a Sra. Clawson abre a porta e avisa:
— Dez minutos, senhoritas!
Ellen senta ao meu lado, celular na mão. Dois círculos perfeitos de blush colorem suas faces, mas o batom vermelhão manchou os dentes da frente.
— Tim — diz ela. — O idiota está com intoxicação alimentar. É, Will, fiquei sem acompanhante!
Esse concurso já me parecia uma causa tão perdida desde o começo, que nem me lembrei de ficar preocupada com o fato de não ter um acompanhante.
— Eu também.
El está respirando muito depressa. Já tinha me esquecido de como essas coisas a deixam nervosa.
— Mas tudo bem — digo. — Não se preocupe com os acompanhantes, tá? — Em voz mais baixa, acrescento: — Você e eu podemos ser as acompanhantes uma da outra. É assim que deveria ser mesmo, não é?
Ela morde o lábio inferior por um momento antes de concordar.
— Cinco minutos! — avisa a Sra. Clawson. — Hora de fazer fila, senhoritas.
Se há um Deus lá em cima, tenho certeza de que pôs os olhos em mim e em Ellen quando estávamos na fila dos embriões e disse: Esses dois. Dickson. Dryver. Não
poderia ser mais perfeito.
Formamos uma fila por ordem alfabética nos bastidores, esperando nossas deixas. O tema sorteado por El foi o Dallas Cowboys, por isso ela está segurando um par de pompons azuis e prateados e usando um chapéu de caubói nas mesmas cores do time. E eu estou com meu Cadillac pendurado nos ombros. Estamos apertando a mão uma da outra com tanta força, que as coitadas chegam a estar brancas, sem circulação.
Tento me lembrar da coreografia que ensaiamos um milhão de vezes, mas de repente me deu um branco total. É como se a minha cabeça estivesse perdida no meio de um labirinto, e eu à procura de uma sombra.
Bekah Cotter estende um pote de vaselina para El.
— Passa nos dentes e nas gengivas — instrui. — Ajuda a sorrir.
El e eu nos entreolhamos e damos de ombros, antes de enfiar os dedos no pote e lambuzar os sorrisos de vaselina. O gosto é nojento.
— Obrigada — agradeço a Bekah.
Mallory está à nossa frente, usando fones de ouvido pretos.
— Vão, vão, vão!
Passamos correndo por ela, e, no instante em que as luzes se acendem sobre mim, a lembrança volta. Rodamos em círculos, de modo que cada candidata tem dois segundos e meio para dizer o nome.
A música termina e as luzes se apagam. Não consigo nem assimilar as coisas, de tão depressa que tudo acontece. É como se a vida tivesse virado um filme acelerado e todo mundo falasse com vozinha de duende.
Em seguida, vem a exibição dos trajes de banho.
Nem tinha me ocorrido que eu não contaria com a menor privacidade para vestir o maiô. Mas cá estamos nós, e privacidade que é bom, neca. Tiro as roupas da maneira mais estratégica possível, com o maiô parado na altura das coxas e a saia enrolada em volta da cintura. Por um momento, eu me permito dar uma olhada no camarim. E descubro que sou a única idiota que está espionando em vez de cuidar da própria vida. Vou ser totalmente honesta e dizer que peito por aqui é o que não falta, mas ninguém está dando a mínima.
Enfrento a situação e tiro a blusa. Depois de me sacudir toda para puxar o resto do maiô até em cima, ponho no alto da cabeça os óculos vermelhos em formato de coração que Bo me deu há meses. Já nem me lembrava mais deles, até a semana passada, quando resolvi dar uma limpa no armário.
Formamos filas nos bastidores, enquanto a Sra. Clawson nos vistoria, andando de uma ponta à outra, passando um jato de laquê nos nossos traseiros.
— Os maiôs não podem entrar no bumbum — explica.
Fico assistindo enquanto El vai para o palco. Sei que por dentro ela está morta de medo, mas esbanja segurança exibindo um biquíni verde e um par de espadrilles.
Sei também que não deveria, mas dou uma olhada nas minhas sandálias pretas e no maiô vermelho esticado por cima da barriga redonda. Mas não é nem isso que me incomoda mais.
Todo mundo tem alguma parte do corpo que não suporta. Eu até poderia sair por uma tangente e dizer que detesto o corpo inteiro, mas o que não suporto mesmo são as coxas. Coxonas de potranca, pernil de Natal, o nome que você quiser dar. Minhas pernas nem parecem pernas. A barriga eu tiro de letra, mas, nos raros momentos em que passo diante do espelho sem nada por cima da pele, só consigo ver dois barris de celulite que me carregam de um canto para o outro e ficam se roçando, criando uma assadura simplesmente infernal.
A Sra. Clawson bate no meu ombro, avisando que é a minha vez.
Respiro fundo e sorrio. Sorria, Dumplin’, escuto mamãe dizer.
Posso até estar me sentindo constrangida, mas me recuso a me sentir envergonhada.
Talvez seja porque não dá para ver a plateia. Ou talvez porque ninguém esteja gritando para eu sair do palco. O fato é que minhas coxas sobrevivem ao seu momento sob os refletores. Não fujo correndo como fiz naquele dia, na piscina. Ninguém me vaia. O mundo não acaba. A plateia não fica cega.
Há algo no biquíni que faz com que as mulheres achem que precisam conquistar o direito de usá-lo. E isso é um absurdo. Na verdade, o critério é muito simples: você tem um corpo, não tem? Então veste um e manda ver!
Amanda está esperando por mim nos bastidores.
— Você arrasou!
Aperto seu braço.
— Obrigada. Está pronta para a exibição de futebol?
Ela faz que sim. Seu rosto fica cor-de-rosa.
— Eu entrei no time de futebol — anuncia.
— É mesmo?
Ela abre um sorriso.
— Imaginei que, se poderia sobreviver ao concurso, também poderia entrar no time, mesmo mancando.
— Isso é incrível — digo a ela, enquanto Ellen vem ficar ao nosso lado.
Dos bastidores, observamos Millie, que entra no palco exibindo um maiô xadrez com um saiote e um par de saltos anabela. Está usando óculos de sol enormes e batom vermelho-cheguei, e até carrega uma bola de praia colorida debaixo do braço.
— Meu Deus — sussurra Ellen. — Ela nasceu para isso. Tem uma miss dentro daquela gordinha fofa.
Um sorriso lento e satisfeito se abre no meu rosto, e respondo:
— Não. Aquela gordinha fofa é uma miss.
SESSENTA
— Argh, mas que bela porcaria! — Meu crânio parece ter sido massacrado por um
processador de alimentos. — Será que todas as perucas machucam tanto assim?
— É que essa deve ser um pouco pequena — explica Ellen. — Só pode. Eu peguei a única que encontrei no quarto da minha mãe.
El e eu nos apropriamos do banheirinho nos bastidores para eu poder me preparar para a prova de talentos. O cabelo dela está dividido em duas tranças, e ela conseguiu dar um jeito de se enfiar no traje que usava para sapatear no sétimo ano. (Embora a mãe tenha tido que costurar um pedaço de elástico na cintura.)
— Tudo bem, tudo bem. — Inspiro profundamente, tentando acalmar a tensão nessa minha cabecinha oca, e fecho os olhos. — Enfia logo a peruca.
Ellen veste a peruca loura na minha cabeça.
— Pronto — diz, depois de pôr o último grampo. — Entrou. Dá uma olhada.
Levanto a cabeça. No espelho, Dolly Parton olha para mim. Uma Dolly Parton gorda e adolescente.
— Ah, meu Deus! — exclama El. — Acho que você deve ser o meu animal de poder.
Espero nos bastidores do outro lado do palco, enquanto ela sapateia alguns compassos atrasada em relação à música, sem parar um instante de revirar os olhos.
Se eu não estivesse tão nervosa, choraria de rir.
Tivemos o cuidado de nos esconder do outro lado para que ninguém me visse. Principalmente mamãe, a Sra. Clawson ou Mallory.
A música de El acaba alguns segundos antes de ela dar a coreografia por encerrada, então finalmente termina e faz uma reverência antes de correr para os bastidores.
— Mandou bem — diz. — Você vai bombar.
Pagamos vinte pratas ao cara da sonoplastia para ser nosso cúmplice.
— Fechado — disse ele. — Grana pra cervejinha.
Mamãe sai dos bastidores que ficam mais perto do auditório, do outro lado do palco.
— Foi maravilhoso, Ellen. E que malhação deve ser! — A plateia ri baixinho. — Agora, Willowdean Dickson apresentará um número de ilusionismo para nós.
Ah, sim, conseguir enfiar aquela peruca na minha cabeça foi mesmo um número de ilusionismo impressionante.
Entro no palco e vou para baixo dos refletores, as botas ecoando no chão. Minha sombra em formato de poncho franjado de camurça se estende para além da poça de luz.
Mamãe fica na boca do palco, segurando o microfone. Com os olhos arregalados, o corpo retesado de tensão.
A música começa. São aqueles primeiros acordes que todo mundo no auditório já conhece tão bem. Dá para ver os jurados cochichando entre si na mesa com as luminárias cintilando.
Eu me viro para mamãe e levo à boca o microfone de brinquedo. A voz da Dolly canta “Jolene, Jolene, Jolene, Jolene, I’m begging of you, please don’t take my man”.* Mexo os lábios junto com cada palavra.
* “Jolene, Jolene, Jolene, Jolene, estou lhe implorando, por favor, não roube meu homem.” (N. T.)
Fecho os olhos e revejo cada momento em que ouvi essa música. Viajando de carro pela estrada, com mamãe, Lucy e vovó, as janelas abertas, nós quatro arrastando as mãos pelo vento. Sentada no quarto de Lucy, enquanto “Jolene” jorrava do toca-discos. Deitada nos azulejos frios da cozinha de El enquanto a mãe dela cantarolava e preparava uma macarronada. No serviço religioso de Lucy. Na caminhonete de Bo. Na The Hideaway, vendo Lee se apresentar. Aqui, neste palco.
Canto “Jolene”, e talvez seja minha imaginação, mas ouço algumas vozes na plateia cantando junto comigo. É o tipo de hino que ultrapassa todas as fronteiras, idiomas e religiões. É “Jolene”.
A música termina, e a plateia aplaude. Por um segundo, chego a ter a impressão de ouvir um oinc!, mas é logo abafado pelos aplausos.
No instante em que saio do palco, mamãe me segura pelo braço.
— O que foi isso? — Mas não tenho tempo de responder, porque ela já está correndo para anunciar a próxima candidata. — Bem, não foi uma surpresa? — vibra sua voz para a plateia.
Passo por Callie a caminho do camarim.
— Você sabe que vão te desclassificar por não apresentar o talento aprovado, não sabe?
— Valeu a pena — respondo, sem me dar ao trabalho de parar.
No camarim, desabo ao lado de Ellen. Ainda temos um tempinho enquanto as outras terminam de se apresentar.
Hannah passa por mim ao sair. Levanta a mão para me dar um toca aqui, sem dizer uma palavra.
Quando as apresentações terminam, há um intervalo antes da prova dos trajes de gala. Ajudo Ellen a pôr o vestido — um modelo frente única em tom coral, bordado com strass. Ela dá uma ajeitada no meu cabelo depois do estrago feito pela touca da peruca.
A Sra. Clawson enfia a cabeça pela porta e diz:
— Até agora, tudo dentro do esquema, senhoritas! Dez minutos! Willowdean, sua mãe quer dar uma palavra com você.
Sinto o rosto ficar vermelho. Algumas garotas fazem oooooh enquanto sigo a Sra. Clawson até o camarim privado de mamãe.
Bato à porta e, antes mesmo de afastar o punho, ela já abriu.
— Eu sabia que você ia aprontar alguma — diz, balançando a cabeça.
— Não, mãe, não foi nada disso. Não planejei nada. — Bem, pelo menos não até ontem.
Ela está segurando o vestido do concurso ao redor do peito.
— Você está desclassificada — avisa. — Não podemos permitir que chegue às finais. Não seria justo.
— Eu nunca venceria mesmo — respondo. — Mas por que não posso só subir no palco e dar uma andada?
— Simplesmente porque você infringiu as regras. Estou usando os mesmos parâmetros que usaria para qualquer candidata. Sinto muito, mas sua participação se encerra aqui.
Sei que é uma idiotice. Uma tremenda idiotice. Mas parte de mim está devastada por não chegar às finais. Depois de tudo que aconteceu, e faltando menos de uma hora para esse troço terminar. Mas não me sinto surpresa. Ou não deveria me sentir, pelo menos. Sabia que o que estava prestes a fazer seria punido com a desclassificação, mas, lá no fundo, contava que mamãe livrasse a minha cara.
Ela se vira de costas.
— Quer puxar o zíper?
O bendito não chega a emperrar tanto quanto da última vez, mas...
— Mãe, não consigo puxar mais do que isso — afirmo, categórica. Ainda estão faltando uns dez centímetros, mesmo que eu puxe com toda força. Mas o troço não sobe um milímetro. Fato.
Ela vira a cabeça e dá uma olhada no espelho.
— Não é possível. Não, não. Eu experimentei dias atrás. Tenho feito religiosamente as aulas de Pileites e de transport. — Acho que ela está prestes a ter uma crise nervosa, e, se isso acontecer, o concurso inteiro vai por água abaixo.
— Calma — peço a ela. — Nós vamos dar um jeito.
— Dois minutos! — avisa a Sra. Clawson do outro lado da porta.
Gotas de suor brotam nas têmporas de mamãe.
— Fica aqui. — E saio correndo. Sigo desesperada pelo palco até a oficina onde são feitos os cenários.
Serras. Furadeiras. Pregos. Martelos. Parafusos. Chaves inglesas. Alicates. Vou enchendo os braços com tudo que possa servir.
Quando corro de volta ao camarim, encontro mamãe à beira de um ataque de nervos.
— Dumplin’, eu tenho que entrar neste vestido. Eu uso todos os anos desde que venci. As pessoas estão esperando me ver com ele. É uma tradição.
— Vira de costas. — Jogo todas as ferramentas na bancada.
— Todo mundo vai notar. — Ela já está à beira das lágrimas.
— Não, não chora. Caber no vestido você não vai. Tá impossível.
Ela solta um gemido.
— Mas isso não significa que a gente não possa criar a ilusão.
Pego dois grampos gigantes que vi os técnicos carregarem nas bermudas, meio parecidos com aquelas pinças dos cabeleireiros. Eles usam esses troços para quebrar mil galhos, tipo prender fios ou juntar pedaços de madeira enquanto a cola seca.
— Olha só, mãe. Você não pode se virar no palco, entendeu? Tem que ficar paradinha no mesmo lugar.
Ela faz que sim.
Prendo um dos grampos atrás do bustiê e ponho o vestido por baixo dele. E faço o mesmo com o outro lado.
Sua respiração se tranquiliza por um momento quando ela nota a diferença no espelho.
— Está vendo? Ficou ótimo.
Ela respira fundo e coloca a coroa sobre o penteado impecável.
— Perfeito, Dumplin’. — Ela se vira para mim, a expressão hesitante. — Você detesta esse apelido, não detesta?
Sorrio.
— Não tanto quanto no passado.
— Posso parar de te chamar...
— Não. Acho que já o assumi. — Às vezes, descobrir quem você é implica entender que o ser humano é um mosaico de experiências. Eu sou Dumplin’. Will e Willowdean. Gorda. Feliz. Insegura. Corajosa.
— A cortina vai subir! — avisa a Sra. Clawson.
Mamãe se vira para o espelho mais uma vez.
— Obrigada, obrigada, obrigada. Eu te amo, Willowdean. — Ela pressiona os lábios vermelhos na minha testa. — Minha doce Dumplin’. — Sai correndo pela porta, e, quando anuncia as primeiras candidatas e seus acompanhantes, corro para o camarim.
Debaixo da bancada está minha mochila, e enrolado dentro dela o vestido vermelho que mamãe comprou para mim. Aplico uma segunda camada de batom e coloco o vestido pela cabeça. Calço os sapatos e ajeito as tiras nos calcanhares. Tentando puxar o zíper no caminho, corro até Ellen, que está esperando na fila, atrás da Callie.
— Puxa meu zíper? — peço, ofegante.
Ela faz isso sem hesitar.
— Você está linda.
Sorrio, ainda tentando recuperar o fôlego.
— Eu sei.
— Ellen — diz Mallory, observando sua prancheta. — Onde está o seu acompanhante? — Ela se vira para mim. — E Will, você está descla...
— Sou eu a acompanhante dela.
— Ellen Dryver — chama mamãe do palco.
Mallory arregala os olhos quando dou o braço a Ellen e entramos juntas.
— E acompanhando Ellen está Timothy...
Avançamos rebolando pela rampa até a frente. Caminho pondo um pé adiante do outro, como Lee ensinou.
A boca da mamãe está aberta, mas então se curva num sorriso amarelo.
— E, acompanhando Ellen, está Willowdean Dickson.
Solto o braço de Ellen para que ela dê uma voltinha na beira do palco, e depois voltamos para os bastidores.
Assistimos juntas às outras candidatas. Amanda com o irmão mais velho. As botas ortopédicas estão enfeitadas com uma renda igual à do vestido — ideia da Millie, é claro. Malik atravessa o palco de braços dados com Millie como um perfeito cavalheiro. E, naturalmente, Hannah. Acompanhada por Courtney Gans. Courtney é um desses nomes geniais que podem ser de homem, mas nesse caso não é. A acompanhante de Hannah, que imagino ser de outra cidade, pois nunca a vi antes, usa o cabelo louro penteado para trás e preso num coque bem-feito. Que complementa muito bem seu smoking estruturado. E, o melhor de tudo, Hannah, com um longo preto de alcinhas, coturnos e sem uma gota de maquiagem, não está infringindo nenhuma regra.
Todas nós caminhamos rebolando, as passadas com os dedos dos pés jogando os quadris de um lado para o outro, como Lee nos ensinou.
Hannah sai do palco pela direita, onde já esperamos por ela. Courtney dá um beijo no seu rosto antes de dizer:
— Te vejo lá fora mais tarde.
Assim que Courtney se afasta, Ellen solta uma gargalhada e bate nas costas de Hannah.
— Você é diabólica, hein?
Está escuro, portanto não dá para saber, mas tenho certeza quase absoluta de que Hannah fica vermelha.
Continuo nos bastidores, vendo o resto do concurso. Assisto à sessão de Perguntas & Respostas, e algumas candidatas me surpreendem com tiradas quase filosóficas, enquanto outras gaguejam. Amanda conta uma piada com um trocadilho simplesmente infame, que mata os jurados de rir. Millie encanta a todos com sua risada contagiante. Hannah é irônica como sempre, mas deixa a plateia profundamente pensativa.
Donna Lufkin deixou os tamancos de jardinagem em casa. Está usando um macacão colante cor de ameixa e espera nos bastidores à minha frente, montando guarda à coroa.
Mamãe continua parada no mesmo ponto debaixo dos refletores, sem se mover, como se estivesse com torcicolo. Ela está linda. E não só vista de frente. Mesmo com todos aqueles grampos segurando o vestido nas costas, ela está maravilhosa.
Este momento. É a representação mais verdadeira da minha mãe que eu já vi. Acho que, às vezes, a perfeição que vemos nos outros é feita de mil pequenas imperfeições, porque tem dias em que a porcaria do zíper do vestido não sobe de jeito nenhum.
SESSENTA E UM
Fico tempo bastante para saber que Millie — a nossa Millicent! — é a segunda
colocada. Ela segura o buquê de rosas e dá um aceno perfeito de miss. Mas não fico para a coroação da vencedora. Nem preciso.
Quando estou indo para o foyer com a garrafa de cidra que ganhei de Lee e Dale, vejo Mitch com um grupo de caras do time. Eles venceram a partida da semana passada, por isso vão participar do estadual no Dia de Ação de Graças.
Patrick Thomas é o primeiro que me nota.
— Amarelou? — diz para me zoar. — Não aguentou a pressão?
Mitch balança a cabeça, com uma expressão resignada.
— Não foi ela que...
Levanto a mão para interrompê-lo.
— Ninguém acha a menor graça em você, Patrick. Será que é tão difícil perceber? Ninguém está rindo. Nem mesmo seus amigos.
Patrick franze o cenho por um segundo, e então dá de ombros antes de se virar.
Mitch balança a cabeça uma vez. Demoro mais um momento, esboçando um sorriso.
A plateia no auditório irrompe em aplausos no instante em que me viro para ir embora.
Caminho os três quarteirões com o vestido e os saltos altos. Adoro este meu vestido. Quero sempre olhar para ele pendurado no armário e me lembrar desta noite de
novembro em que fiquei sob os meus próprios refletores. O vento me empurra, ondulando o tecido, enquanto avanço pelas ruas da minha cidadezinha.
O sininho tilinta acima da minha cabeça quando abro a porta e deparo com o Harpy’s ocupado pelas dez pessoas de Clover City que não compareceram ao concurso.
— Uau — diz Marcus, entregando o recibo a um cliente. — Está parecendo outra mulher, Will.
Ao ouvir meu nome, Bo contorna o balcão com um pirulito de cereja pendurado na boca manchada de vermelho.
Coloco a garrafa de cidra no balcão.
Ele desamarra o avental do pescoço e o deixa pendurado na cintura. Seus lábios se curvam num largo sorriso.
— Willowdean — diz.
Suspiro.
AGRADECIMENTOS
Sou uma mulher de sorte. Acordo todos os dias e faço aquilo que amo e em que
acredito. Não estaria nesta posição sem o apoio e a orientação de várias pessoas maravilhosas.
Alessandra Balzer, você é o tipo de editora com quem os escritores sonham em trabalhar, e eu agradeço todos os dias pelo fato de que esta tem sido minha realidade. Obrigada por investir na Willowdean e por saber o que eu queria dizer antes mesmo que eu soubesse como fazer isso.
Molly Jaffa, acredito sinceramente que você moveria uma montanha por mim, se pudesse. Obrigada por manter minha vida em movimento, e por aquele empurrãozinho extra no livro quando eu estava me sentindo meio desesperada. Você é minha agente e amiga, e sou grata por ambas as coisas.
Caroline Sun, você é a feiticeira que fica escondida nos bastidores. Obrigada por tudo que faz.
À equipe de marketing da The School & Library (Patty Rosati e Molly Motch!), sou eternamente grata por ter todos vocês na minha equipe.
Aurora Parlagreco e Alison Donalty, eu não poderia ter desejado uma capa mais perfeita. Minha paixão por seu design é maior do que eu posso expressar. Ruiko Tokunaga, agradeço por fazer uma capa perfeitamente táctil.
Há muitas pessoas na Balzer+Bray/HarperCollins/Epic Reads/HCC Frenzy a quem devo um mundo de gratidão: Susan Katz, Kate Jackson, Andrea Pappenheimer, Kerry Moynagh, Heather Doss, Donna Bray, Kelsey Murphy, Nellie Kurtzman, Booki Vivat, Margot Wood, Alexei Esikoff, Suman Seewat, Aubry Parks-Fried, Jennifer Sheridan, Kathy Faber e todos aqueles de que posso ter me esquecido (porque tenho certeza de que me esqueci!), sua bondade e fé no meu trabalho foram inestimáveis. É uma honra trabalhar com seres humanos tão dedicados.
Jessica Taylor, por sempre me ler e por me deixar mostrar meu lado mais íntimo e terrível. Haja cupcakes!
Jeramey Kraatz, obrigada por sempre ser meu cúmplice e por viajar a outro estado comigo para ver Dolly Parton — um dia de que nunca vou me esquecer.
Natalie Parker, é claro que sou grata por sua honestidade e senso de justiça, mas principalmente por sua amizade e por sempre me deixar ir com você aos lugares sem ser convidada.
Corey Whaley, obrigada por todas as horas passadas lendo no Skype e conversando sobre tudo em geral e nada em particular.
Tessa Gratton, por me tirar do buraco negro do segundo livro e por passar duas semanas comigo dentro de um carro e ainda me amar no fim.
Kristin Treviño (e todo mundo na Irving Public Library!), tudo que vocês fazem é incrível, e sou muito grata por todas as oportunidades que tive de participar.
Jenny Martin, a querida amiga de minha cidade natal. Obrigada por sempre torcer por mim.
Como disse Joe Cocker: I get by with a little help from my friends. Katie Cotugno, Adam Silvera, Bethany Hagen, Jennifer Mathieu, Kristin Rae, Sarah Combs, Christa Desir, Michelle Krys, Amy Tintera, Kari Olson, Jen Bigheart, Caron Ervin, Preeti Chhibber, Stef Hoffman, Courtney Stevens, Ashley Meredith, John Stickney, Hayley Harris, Jeffrey Komaromi e Asher Richardson. Todos os blogueiros, bibliotecários, professores e leitores. Minha comunidade Lone Star, OneFourKidLit, #Lufkin6, The Fourteenery e The Hanging Garden. Obrigada a todos vocês.
Mamãe, papai e Jill, obrigada por sempre serem meu lar e por acreditarem em mim e nos meus sonhos mais loucos.
A Dolly Parton, por nunca se desculpar por ser quem é e por todos os sucessos que grava. A sua música era o combustível que faltava a este livro.
A Ian, por sempre me amar.
Aos jovens gordos, magros, altos, baixos, e todos que ficam entre um extremo e o outro: ainda bem que não há gente exatamente igual. O mundo seria extremamente tedioso.
JULIE MURPHY
Vive no norte do Texas com o marido que a ama, o cachorro que a adora e os gatos que
a toleram. Quando não está recordando deliciosos momentos de sua vida como bibliotecária, escrevendo
ou mesmo tentando recolher animais abandonados, Julie pode ser encontrada assistindo a filmes feitos
para a TV, caçando a perfeita fatia de pizza caprichada no queijo e planejando sua próxima grande
aventura turística. Após abandonar a profissão de bibliotecária (quanta saudade!), Julie agora é escritora
em tempo integral. Seu aclamado romance de estreia se chama Side Effects May Vary.
Visite Julie em juliemurphywrites.com
Sumário
Créditos
Um
Dois
Três
Quatro
Cinco
Seis
Sete
Oito
Nove
Dez
Onze
Dois meses depois
Doze
Treze
Quatorze
Quinze
Dezesseis
Dezessete
Dezoito
Dezenove
Vinte
Vinte e um
Vinte e dois
Vinte e três
Vinte e quatro
Vinte e cinco
Vinte e seis
Vinte e sete
Vinte e oito
Vinte e nove
Trinta
Trinta e um
Trinta e dois
Trinta e três
Trinta e quatro
Trinta e cinco
Trinta e seis
Trinta e sete
Trinta e oito
Trinta e nove
Quarenta
Quarenta e um
Quarenta e dois
Quarenta e três
Quarenta e quatro
Quarenta e cinco
Quarenta e seis
Quarenta e sete
Quarenta e oito
Quarenta e nove
Cinquenta
Cinquenta e um
Cinquenta e dois
Cinquenta e três
Cinquenta e quatro
Cinquenta e cinco
Cinquenta e seis
Cinquenta e sete
Cinquenta e oito
Cinquenta e nove
Sessenta
Sessenta e um
Agradecimentos
Julie Murphy