Dumplin'

Julie Murphy · Capítulo 1 de 6 · parte 3/10

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Dumplin'

A presente obra é disponibilizada pela equipe…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.

Toda noite, quando Ron nos manda para casa, caminhamos até os nossos carros, separados por alguns passos. Depois que saímos da luminosidade avermelhada do Harpy’s para a escuridão, Bo roça os dedos nos meus antes de se dirigir à porta da caminhonete.

“Me segue.”

Nem me dou ao trabalho de balançar a cabeça, porque vou segui-lo e ele sabe disso.

Ele dá a partida na caminhonete e eu na Jolene. Nossa relação é como um passeio de montanha-russa. Os freios podem estar quebrados e os trilhos em chamas, mas não consigo escapar do carrinho.

TREZE

Fiquei sabendo muitas coisas sobre Bo. E mesmo assim ele ainda é um mistério para

mim. Como o lance dos pirulitos vermelhos. Ele tinha dificuldade para controlar a raiva quando era pequeno, por isso a mãe lhe dava um pirulito desses e dizia: Se você ainda estiver zangado quando terminar de chupar esse pirulito, pode espernear e gritar à vontade. Mas houve outras coisas, como a correntinha que ele sempre enfia de volta quando sai de baixo da camiseta. Quando eu perguntava por quê, ele sempre desconversava e dizia que era uma medalhinha com o santo padroeiro da Holy Cross.

A velha escola se tornou o que se poderia chamar de “nosso cantinho”. Eu estava uma pilha de nervos na primeira vez que fomos até lá. Mas, agora, essa escola arruinada se tornou o nosso santuário.

Estaciono atrás da caminhonete, tiro a chave da ignição e destranco o carro, tudo praticamente ao mesmo tempo. Ele abre a porta da Jolene para mim.

Entro na caminhonete.

Ele dá um beijo na ponta do meu nariz. De baixo do banco, retira uma sacola de presente vermelha, toda amassada, e a coloca no painel.

— Feliz aniversário.

Fiz anos há três dias. Não contei para ninguém no trabalho. Não porque não quisesse que ficassem sabendo, mas porque pareceria que eu estava pressionando o pessoal (principalmente Bo) a fazer alguma coisa para mim. E não é assim que as coisas funcionam entre nós. Não há qualquer compromisso. Nem responsabilidades.

— Como você descobriu?

Ele deu de ombros.

— Ouvi Ron te desejar um feliz aniversário.

— Posso abrir?

— Não. O presente é a sacola. Não estou te dando mais nada além dela.

Revirando os olhos, pego-a no painel. Meu estômago dá voltas e mais voltas de excitação. O peso da sacola afunda no meu colo. Uma sacolinha onde cabe toda uma história de verão.

Ele pigarreia.

— Eu não tinha papel de seda.

Seu olhar queima a minha pele. Fecho os olhos e retiro aleatoriamente um item da sacola.

— Uma Bola 8 Mágica — diz ele.

Um sorriso se abre no meu rosto. Estou me sentindo uma boba.

— Bem, nunca mais vou ter que sofrer com o peso de uma decisão.

— Olha o resto.

Obedeço. Uma Mola Maluca de metal, uma massinha Silly Putty e um saquinho de caramelos.

Bo sopra bolhas na massinha e a usa para tirar a tinta do seu manual de usuário, enquanto brinco com a Mola Maluca, deixando que deslize pelas minhas mãos, como Jake.

— Obrigada. Não precisava ter comprado nada.

Ele dá de ombros e observa os objetos espalhados entre nós.

— Você esqueceu uma coisa. — Ele enfia a mão na sacola. — Fecha os olhos.

Obedeço.

Sinto suas mãos no meu rosto enquanto ele ajeita um par de óculos no meu nariz. Meu cabelo prende numa reentrância da armação, mas ele tem o cuidado de colocar as hastes direitinho nas orelhas.

— Pronto. Pode abrir.

Ajeita o espelho retrovisor na minha direção, e vejo um par de óculos de um vermelho vibrante em formato de coração. Como as lentes são tingidas e escuras, meus olhos demoram um momento a me reconhecer. Tiro o cabelo de onde ficou preso.

Os óculos são para ser engraçados. Isso eu entendi. Mas adorei mesmo assim! Eles me transformam. No espelho, vejo uma mulher que acho que ainda não tive o prazer de conhecer.

— São lindos — declaro, para logo em seguida me sentir boba. São óculos baratinhos, de loja de 1,99. Uma coisa que ele deve ter atirado na cesta na última hora, quando já estava na fila do caixa.

Ele inclina o corpo na minha direção e pressiona os lábios nos meus. Meu corpo inteiro fica mole ao sentir o peso daquela musculatura.

— Você precisa ir pra casa — sussurra ele, entre beijos.

Faço que sim. E continuamos nos beijando.

Fico no estacionamento com Bo por tempo demais, mas tenho sorte de encontrar mamãe dormindo a sono solto com a porta fechada quando chego. Tenho passado o

verão inteiro inventando mil desculpas para ter que “trabalhar” até mais tarde do que o normal. Ela não parece acreditar em nenhuma, mas nunca me interroga. Além disso, está confeccionando banners, entrevistando novos jurados e procurando patrocinadores para o concurso, por isso tirou licença do cargo de mãe por alguns meses.

A porta de Lucy está fechada, como nos últimos dois meses. Toco na maçaneta ao passar, mas não abro. Desde o dia em que mamãe começou a arrumar o quarto e tivemos aquela briga, ela resolveu deixá-lo em paz, como se tivesse esquecido o incidente. E eu nunca toco no assunto, por medo de que ela recomece o que interrompeu.

Quando estou quase pegando no sono, o celular começa a vibrar.

ELLEN: Mentirosa.

Merda. Ela deve ter descoberto. Mas também tem guardado seus segredinhos de mim. Não posso mais ouvi-la falar do Tim sem me lembrar do comentário que a Callie fez naquela noite no Harpy’s sobre o tal “lance oral”. Sei que foi uma coisa sem importância e que, com o tempo, não vai fazer diferença, mas não posso deixar de me perguntar o que mais ela não me contou. Agora, virei a amiga virgem que não manja dessas coisas.

ELLEN: Sua cachorra mentirosa. Você prometeu passar no Tim quando saísse do trabalho.

Ah, graças a Deus. Eu tinha me esquecido totalmente da festa do Tim, mas isso ela vai perdoar muito mais fácil do que se descobrisse sobre os meus pegas com Bo.

O celular vibra de novo.

ELLEN: Você perdeu um senhor E-S-C-Â-N-D-A-L-O.

Viro de lado e digito uma mensagem rápida para me desculpar e dizer que a gente se fala amanhã, antes de passar para a seguinte.

BO: Boa noite.

Solto um longo suspiro. E não tô nem aí pra isso.

QUATORZE

Acordo com a campainha tocando.

Antes de me levantar da cama, dou uma olhada no celular.

ELLEN: Tô aqui abre a porta.

Visto um shortinho de lycra surrado e desço a escada aos tropeções para abrir a porta dos fundos. Encontro Ellen com a cara colada no vidro, fazendo barulhos de pum com a boca.

O verão inteiro tem sido megabizarro, um universo totalmente novo para nós. Sempre fomos diametralmente opostas. Lucy costumava dizer que as melhores amigas têm tudo e nada em comum. Cada menina é só uma versão diferente da mesma história, afirmava. Mas, nestes últimos dois meses, eu me sinto como se estivéssemos sendo puxadas em direções opostas, e sou a única que parece ter consciência disso.

Deslizo a porta e, por um segundo, El desliza o rosto junto com ela. Por fim, entra na cozinha e se joga numa das cadeiras ao redor da mesa.

— Minha nossa, Will. Eu estava derretendo lá fora.

Dou uma olhada no relógio do micro-ondas.

— É muito cedo — resmungo, me jogando numa cadeira. Contenho o impulso de dizer que fiquei até as duas da manhã com o Bo da Escola Particular.

— Hoje é dia de pagamento. Nunca é cedo demais para receber minha grana. — Ela se levanta e abre alguns armários, procurando um pacote de biscoitos ou um saco de batatas fritas para beliscar. — E são onze da manhã. Não é tão cedo assim. Sua mãe teria um troço se soubesse que você dormiu até essa hora.

— Paciência. — Cruzo os braços sobre a mesa e encosto a cabeça neles. — Você está com uma cara feliz. Por que essa euforia toda?

— Sei lá. Porque estou viva. Porque está tudo correndo bem. Porque as aulas vão começar daqui a uma semana. — Ela fecha a porta de um armário e se vira para mim. — E de repente porque não sou mais tão ruim fazendo sexo.

— A coisa não pode ser tão complicada assim, pode? — Mas, para ser sincera, a ideia de fazer AQUILO me deixa apavorada.

— Um dia você vai ver. — Ela balança a cabeça.

Não vou não, penso. Vou ser virgem a vida inteira. Este hímen veio pra ficar.

— Vai se vestir. Está na hora de eu receber o meu dindim!

—Tem uns sacos de batatas fritas na despensa — aviso, enquanto me dirijo à escada. — Me dá quarenta e cinco minutos.

— Você está com sorte, tenho um monte de programas de baixarias gravados na sua tevê a cabo para assistir — grita ela às minhas costas.

Tomo um banho rápido e seco os cabelos com uma toalha antes de prendê-los num coque frouxo. Dou uma boa olhada no armário, mas então decido que está fazendo muito calor para me preocupar com roupas e escolho um shortinho e uma camiseta de um dos concursos da mamãe.

— Tô pronta — digo, correndo pela escada. — Tenho que deixar um pouco de ração na tigela do Riot...

— Já fiz isso — anuncia Ellen.

Vou na direção da cozinha e a encontro guardando um saco de batatas fritas, que só comeu até a metade.

— Minha mãe vai pensar que fui eu — comento. Claro que ela nunca faria qualquer comentário, e nem seria preciso.

— Sua mãe anda precisando transar. — Riot pula na bancada da cozinha e Ellen faz uma festinha vigorosa atrás de suas orelhas. — Peguei o carro da minha mãe já na reserva. A gente pode ir na Jolene?

— Pode, claro. — El me segue pela porta dos fundos e, quando estou trancando o portão, pergunto: — E o que é que tem sexo a ver com o que a minha mãe diria sobre as batatas fritas?

El dá de ombros e puxa a maçaneta, esperando que eu destranque o carro. Desde que perdeu a virgindade, está se achando uma verdadeira sexóloga, e que a cura para tudo é fazer sexo adoidado. Isso me deixa louca. Sou virgem, não burra.

Quando destranco o carro e sento ao volante, soltamos assovios involuntários ao receber uma baforada de ar quente na cara.

— Minha nossa — exclama El —, abre logo essas janelas!

O que sempre achei irônico na Sweet 16 é que o maior manequim que eles têm é 44. Até comentei isso com a Ellen uma vez, mas acho que ela fingiu não ouvir.

Na primeira vez que entrei lá, fiz um esforço consciente para não deixar que o meu constrangimento transparecesse. Mas, depois de voltar com a El todas as quintas para ela receber o cheque, posso afirmar com segurança que já disponho de evidências suficientes para formar uma opinião científica sobre esse lugar.

Minha Opinião Científica: esse lugar é uma merda, e todas as garotas que trabalham aqui são umas escrotas sebosas que me tratam como se eu fosse uma obra de caridade da El.

As paredes da Sweet 16 são cobertas de espelhos e manequins com os ossos dos quadris salientes, jeans Saint-Tropez e camisetinhas baby look com dizeres do tipo Sou gata demais para fazer dever de casa. Sigo Ellen por entre as araras lotadas de roupas, tomando cuidado para não derrubar a porcaria da loja inteira com os meus culotes.

— El-bell! — grita Callie, que já elegi como minha inimiga mortal. — Momô — ela chama alguém que deve estar às suas costas, a mão em volta da boca. — A El-lefantinha veio pegar o dindim! — Retira debaixo do caixa um envelope branco novinho em folha e o entrega a El. — Oi, Willow! — Inclina-se para mim e acrescenta: — Menina, nem te conto! O campo de treinamento do concurso faz milagres. Estou quase com uma barriga de tanquinho. Mas não quero ficar muito musculosa. Acho grotesco.

— Meu nome é Willowdean — murmuro, mas ela não me ouve porque Morgan, a gerente, uma mulher velha demais para ser universitária e nova demais para ser mãe de garotas da nossa idade, sai em passos despreocupados da sala dos funcionários. É alta e longilínea, tudo que a El está começando a se tornar.

— Minha filha, nem te conto. Chegou a coleção nova, foférrima e eu estou aqui morrendo com M maiúsculo. Sério, gastei quase todo meu salário! Quem quer saber dessas ilustres desconhecidas chamadas “contas a pagar”?

El cai na risada. O que me deixa furiosa. Que graça isso teve?

— El — continua a criatura, usando o apelido que eu dei para a minha melhor amiga —, você tem que vir aqui experimentar esses modelitos!

El dá meia-volta e olha para mim.

Concordo com a cabeça, de má vontade.

Ela bate palmas.

— Tá, mas não posso demorar! — Torna a se virar. — Prometo que vai ser vapt-vupt. Aposto que nenhum vai caber mesmo em mim.

Sorrio com os lábios apertados. Sigo-a até os fundos da loja, mas sou paralisada pela sobrancelha arqueada de Morgan.

— Sinto muito — diz ela, os lábios se torcendo num sorriso. O tipo de sorriso que mostra que a pessoa não sente nem um pouco. — A área é restrita a funcionários.

— Você vai ficar bem aqui? — pergunta El, seus olhos buscando os meus.

— Vou. Mas anda logo.

Ela segue Morgan até os fundos, enquanto Callie se posta atrás do balcão, balançando os quadris no ritmo de uma música pop que sai dos alto-falantes, fingindo ler um calhamaço com pinta de relatório de vendas.

Espremida entre mil araras, fico pensando que este lugar deve virar um inferno aos sábados. Callie aumenta o volume quando o rádio começa a tocar um dance, e encaro isso como uma deixa para me esconder num dos provadores. Cada um consiste em uma cortina, um banquinho e mais nada. O único espelho é o que fica no corredor, e tem que ser compartilhado pelas clientes. Deve ser um saco ter que sair do provador toda vez que a gente quer ver se uma roupa ficou boa.

Do outro lado da cortina, som de cabides arranhando metal.

— Aonde foi a amiga da El? — pergunta Morgan.

— Sei lá — responde Callie. — Não vi ela sair, mas não é do tipo que passa despercebida.

— Ah, que maldade — diz Morgan. Pode até parecer que tentou ser gentil, mas a voz foi de sarcasmo.

— Sabe se a El-bell encontrou alguma coisa?

— Ela está experimentando uns vestidos na sala dos funcionários.

Mais cabides arranhando metal.

— É muito generoso da parte da El sair com aquela menina, mas a coitada não faz outra coisa senão ficar atrás dela de um lado para o outro, feito um cachorrinho. Deveria ter vida própria, não? É meio deprimente.

Basta eu ouvir isso para o meu corpo inteiro se retesar de raiva. Empurro a cortina e tropeço no tecido ao sair.

Quatro olhos me seguem até o banco que fica na frente da Sweet 16, onde me sento e me abaixo o máximo possível para não ter que ver as duas.

Se a minha pele tivesse um zíper para eu abrir e fugir, é o que eu faria.

Todas as vitrines do shopping estão lotadas de trajes de gala para o Baile de Homecoming e a temporada do concurso. Diante da Sweet 16 há uma loja chamada Frills que exibe um longo azul-claro de lantejoulas. De ponta à ponta da vitrine, em graxa de sapato, veem-se os dizeres: Clover City só pode ter uma Miss Jovem Flor do Texas. Faça com que seja você. Confira os nossos modelos exclusivos!

Odeio o sentimento de desprezo que esse concurso me inspira, mas ele parece uma verdadeira epidemia. E a cidade inteira está doente.

— Oi.

Viro a cabeça e vejo Bo sentado do outro lado do banco.

— O que está fazendo aqui? — pergunto em tom de acusação.

— Compras com minha madrasta e meu irmão. — Ele aponta para a sapataria ao lado da Sweet 16. — Vi você sentar aqui. Meu irmão caçula está experimentando tênis de basquete há quarenta e cinco minutos. — Ele sorri e abaixa o queixo até o peito. — E você, Willowdean, o que está fazendo aqui?

Sinto vontade de tocá-lo. De me aproximar, de dar um beijo no seu rosto e dizer oi. Mas não faço isso. Porque não estamos abraçados no escurinho atrás do Harpy’s nem atracados na caminhonete, e porque, embora nenhum de nós tenha chegado a dizer isso com todas as letras, nosso caso é um segredo.

— Vim aqui com uma amiga. Ela veio receber o salário.

— Ellen?

Faço que sim. Já falei sobre a El com Bo, mas conjugando todos os verbos no passado. Não sei como explicar esse estranho abismo que se abriu entre nós, por isso foi mais fácil falar sobre ela do mesmo jeito como falei sobre a Lucy — como se ela pertencesse à minha vida antes de eu o conhecer.

Noto que ele está usando um short e uma camisa de um antigo campeonato de basquete.

— É estranho te ver sem o uniforme. Quase não te reconheci.

— Ah, mas eu te reconheci. — Ele estende as pernas sobre o banco. E que pernas... Nunca as tinha visto expostas antes. — E aí, onde sua amiga trabalha?

Aponto para a Sweet 16.

Ele fica boquiaberto, e sei que agora vou passar a julgá-lo baseada no modo como reagiu a essa informação, mas uma voz o interrompe.

— Bo — chama uma mulher alta e magra, com cabelos castanhos brilhantes cortados em longas camadas. É jovem demais para ser a mãe e velha demais para ser uma irmã.

Ele olha para trás, e de novo para mim.

— Minha madrasta — sussurra.

Fico com a cara no chão. Sempre morri de medo do momento em que os nossos mundos se chocariam.

Atrás da madrasta de Bo está o irmão. É tão alto quanto ele, mas o rostinho redondo mostra que é, pelo menos, um ano mais novo.

— Perdi a noção da hora, não foi? — pergunta a madrasta. — O Sammy tem basquete à uma da tarde. Estamos em cima da hora. — Os olhos dela se fixam em mim, que estou sentada do outro lado do banco. — E quem é essa?

— Como vai? — Levanto e estendo a mão, porque sou uma sulista e, embora a minha mãe diga o contrário, sou muito bem-educada.

— Essa é a Willowdean — responde Bo. Olha ele dizendo meu nome todo outra vez. — É minha colega de trabalho.

— Willowdean. Um nome... bem comprido, não é?

Esboço um sorriso, prestes a agradecer — pelo quê, não faço a menor ideia —, quando Ellen aparece ao meu lado e diz:

— Mas pode chamá-la de Will.

Engulo em seco e balanço a cabeça.

A madrasta de Bo inclina a cabeça para o lado, como se tivesse acabado de ver a coisa mais adorável do mundo.

— E você é...?

— Ellen — respondo por ela. — Minha melhor amiga. — Respiro fundo. — Ellen, esse é Bo. Ele trabalha comigo no Harpy’s.

Bo dá um aceno curto para Ellen, mas ela pousa a mão no braço dele e diz:

— Muito prazer em conhecê-lo.

A madrasta sorri.

— Você é uma simpatia!

Eu sei que Ellen ama Tim. E, mesmo assim, sinto um calafrio de ciúme na espinha que me paralisa. Desde o começo do verão, tenho encontrado mil motivos para não contar a Ellen sobre meu caso com Bo. Mas, por mais que eu enrole, sei que, para ela, a omissão vale por uma mentira. Na verdade, é até capaz de achar que é pior do que uma mentira.

— Imagino que vocês duas estudem na Clover City High?

El e eu balançamos a cabeça.

— Ah, é maravilhoso saber que Bo vai encontrar tantas conhecidas já no primeiro dia!

— Como? — deixo escapar. Há mil coisas erradas na minha relação com Bo, mas, se há uma que está certa, é o fato de nossos mundos não terem qualquer área de interseção fora do trabalho. E, enquanto for assim, será fácil fingir que sou uma garota normal, ficando com um cara normal.

— Pois é, Bo e Sammy não vão voltar para a Holy Cross este ano. — Ela franze um pouco a testa. — Vai ser bom. Uma mudança é sempre bem-vinda, não é, meninos?

Nenhum dos dois responde. Os lábios de Bo se apertam num traço fino, e entendo que ele já sabia desde o começo do verão e não quis me contar.

— Loraine — diz à madrasta —, é melhor a gente ir andando. Sam tem treino. — Ele pega as sacolas no chão, e a madrasta segue à frente, os quadris balançando. E só. Nem um olhar, nem um dar de ombros. Nada que me prometa uma explicação.

Sinto a raiva me ferver da cabeça aos pés.

— Nossa! — exclama El. — O cara é ainda mais gato do que você disse!

— Vamos. — Saio pisando duro à sua frente em direção ao estacionamento.

— Você notou aquela cabeleira sexy que ele tem? E a barba por fazer?

Notei. É claro que notei. Mas não importa. Porque vou ter que dar um basta nisso. Minhas ilusões em relação ao nosso romance clandestino estão se evaporando rapidamente.

Eu tinha uma imagem muito definida de como a nossa relação poderia sobreviver até o fim do ano. Eu e ele iríamos trabalhar e deixaríamos nossas vidas reais do lado de fora da porta. Sem perguntas, só nós dois. Mas deve haver alguma razão para Bo não ter me contado que mudaria de escola. Tem que haver. E, mesmo que não haja, nós temos que terminar, porque não posso deixar que esse rolo invada a vida real.

Não vou ser ridicularizada. Não quero ser a metade de um casal que todo mundo fica encarando e se perguntando: Como foi que ela pegou esse cara?

QUINZE

Desde o início do verão, tenho passado todas as noites livres em casa, entocada no

quarto com o laptop e os livros que eu já havia deixado separados nas prateleiras. Mas hoje mamãe botou na cabeça que eu tenho porque tenho que assistir a um programa com ela, enquanto confecciona adereços para o número de dança que vai abrir o concurso.

Eu me sento no sofá, no lado oposto ao canto onde Lucy sempre se sentava, com o meu laptop apoiado em cima de um travesseiro. Mamãe guardou na cristaleira a coroa que costumava ficar no centro do aparador da lareira, para dar espaço à urna com as cinzas de Lucy. É bem pequena, mas basta para me lembrar de que minha mãe é mais do que o concurso.

Ela está usando um tipo de papel-manteiga para colar uns remendos com o ferro de passar em toalhas de brim. É para o almoço do concurso, tenho certeza.

— Então, eu vi uma chamada desse especial outro dia.

Ela zapeia os canais até parar na MTV.

A câmera segue uma garota que anda de costas pela rua de um bairro com as calçadas cobertas de neve. É corpulenta, com a barriga pendurada sobre o jeans. Na mesma hora sei aonde mamãe está querendo chegar.

Detesto ver gordas na tevê ou no cinema, porque parece que o único jeito de o mundo aceitar um gordo é se ele estiver infeliz com o próprio peso ou se for o melhor amigo piadista. E eu não sou nenhuma das duas coisas.

A voz de um locutor inicia a narração, enquanto a garota é mostrada fazendo coisas normais, tipo caminhar e comer. “Priscilla, de dezesseis anos, que mora em Bridgeport, Connecticut, pode ser louca por doces, mas isso não significa que seus dezesseis anos de vida tenham sido doces. Provocada e ridicularizada a vida inteira, ela já está farta de carregar os quilos extras. Ela ainda não sabe disso, mas nós da MTV resolvemos atender ao seu pedido.” A câmera dá um close no traseiro da vítima, o tipo de bunda que afina na base e sempre faz a pessoa parecer que acabou de levar um cuecão. De repente, a câmera corta para uma tela roxa com o nome do programa estampado como um selo de rejeição: ME TRANSFORMEM: ODEIO SER GORDA.

Dou uma olhada na mamãe, mas ela continua prestando atenção no seu projeto. Minha vontade é me levantar e ir me trancar no quarto, mas agora fiquei curiosa para saber qual será o destino da Patética Priscilla, por isso decido assistir mais um pouco. Talvez sua vida seja ainda mais complicada do que a minha, e no fim vou sentir que, pelo menos, estou numa situação melhor do que a pobre garota.

Essa estratégia da mamãe não é nenhuma novidade. Antes mesmo de eu chegar aos onze anos, ela já havia me obrigado a fazer mais dietas da moda do que posso enumerar. E isso sempre foi um motivo de discórdia entre ela e Lucy. Eu ouvia as duas batendo boca na cozinha, muito depois da hora em que já deveria estar dormindo.

“Ela é só uma criança”, argumentava Lucy.

“Pois quero que seja uma criança saudável”, retorquia mamãe. “É claro que você entende por que estou fazendo isso, não entende, Lu? Eu só não quero que ela cresça e fique...”

“Como eu? Pode dizer, Rosie. Você não quer que ela cresça e fique como a sua irmã mais velha. Mas ela me vê todos os dias, pelo amor de Deus. Acho que a minha simples existência já basta para desestimular qualquer um.”

“Você sabe muito bem o que enfrentamos quando éramos pequenas. Você se lembra.”

Mamãe nunca falou sobre sua vida antes da adolescência. Ela era gorda como eu. E não era algo de que se orgulhasse. Mas, no verão antes de começar o ensino médio, ela perdeu toda a gordura, como Jake trocando de pele. Lucy, que já estava no último ano, não teve tanta sorte. Por fim, ela acabou desistindo de me obrigar a fazer dieta quando cheguei à sexta série. Não sei exatamente por que motivo, mas só pode ter sido coisa da Lucy.

Na tevê, Priscilla é abordada na escola por uma mulher atarracada e agressiva, que se anuncia como personal trainer. Apesar de ter sido ela mesma que se inscreveu no programa, Priscilla entra em pânico na hora H, resolve se trancar no banheiro e tem uma violenta crise de choro. Por fim, a personal vai até ela e mostra que tem coração, batendo um papo carinhoso com a garota para animá-la. Taí... sinceramente, até fiquei meio entusiasmada. Em relação ao quê, não faço a menor ideia.

Eu nem preciso virar o rosto para saber que os olhos da mamãe estão úmidos. Esse momento “É sua vida que está em jogo, pare de sabotar a magra que existe dentro de você” é o favorito dela em qualquer programa sobre perda de peso.

Passo uma hora inteira saindo do ar a maior parte do tempo, mas não consigo desgrudar os olhos da tela quando, durante uma sessão de exercícios na pista de corrida da escola, a personal de Priscilla pega tão pesado que a garota vomita na arquibancada — diante do time inteiro de futebol.

Depois disso, a carrasca da Priscilla decide que ela deve malhar numa academia. Mas a garota se recusa a se matricular. A personal perde a cabeça e a enche de desaforos.

“Vou me sentir muito sozinha”, desabafa Priscilla, entre soluços. “Você já entrou num lugar que é dedicado a tudo que você não é? Quero ser saudável, mas também quero ser feliz.”

No final, Priscilla perde seis quilos. A personal a aplaude durante a última pesagem, mas dá para ver seu olhar decepcionado. Os créditos passam e as legendas explicam que, seis meses depois, Priscilla ainda está comprometida em manter um estilo de vida saudável, mas que já se resignou com o fato de que terá problemas com a balança pelo resto da vida.

Se El estivesse aqui, conversaríamos sobre o ridículo de um programa desses ser considerado entretenimento.

— Bem — diz mamãe —, foi inspirador.

Não tenho nada a declarar que ela esteja disposta a ouvir.

— Vou para o quarto. Já acabou aí?

Ela pega o controle remoto e sintoniza o noticiário da noite.

— Não, não. Tenho um monte de coisas para fazer antes da reunião de amanhã com a diretoria do concurso.

— Vou dormir.

— Boa noite, Dumplin’.

Já no segundo andar, paro diante da porta de Lucy por um momento longo demais antes de ir para o meu quarto. Tiro o celular do carregador e vejo que não recebi nenhuma mensagem de Bo. Desabo na cama e seguro entre as mãos a Bola 8 Mágica que ele me deu. Tenho perguntas demais para me contentar com uma só, mas sacudo a esfera três vezes e olho a resposta. O prognóstico não é bom.

O celular vibra.

ELLEN: Acabei de sair do trabalho. Você está bem? Pareceu meio estranha quando a gente veio

embora do shopping.

Decido contar mais uma mentira, porque agora é tarde para voltar atrás.

EU: Estou bem. É que o concurso tomou conta da minha casa. “Peito pra cima! Bunda pra fora!” Um

saco.

ELLEN: Grotesco. Quer que eu vá aí?

EU: Acho que prefiro ir dormir.

ELLEN: Tudo bem. Tim comprou uns óleos de massagem. Acha bizarro?

Reflito sobre a pergunta por um segundo.

EU: Não, a menos que tenham cheiro de algodão doce. Cês dois são um nojo. Boa noite.

DEZESSEIS

 

A raiva furiosa de ontem deu lugar a uma triste frustração. Não tenho motivos para

pensar que Bo me deve alguma coisa.

Beijos trocados diante de uma caçamba de lixo e no estacionamento de uma escola abandonada não significam nada. Se é só isso que nós temos — momentos na sombra e uma sacola de presentinhos cômicos —, fui muito idiota em pensar que merecia algo mais dele.

Essa é a conversa que tenho comigo mesma a caminho do trabalho.

Guardo minhas coisas no armário e saio da cozinha o mais depressa possível. Anoto os pedidos com toda rapidez e eficiência, e nem me dou ao trabalho de olhar para os clientes. Bo fixa os olhos bem na minha testa enquanto coloca sanduíches sob a lâmpada que mantém a comida aquecida ou cola adesivos desnecessários nas embalagens dos sanduíches, algo que sempre me faz sorrir. Mas continuo diligente, com os olhos fixos em qualquer coisa, menos nele.

Posso sentir a mudança entre nós, concreta e palpável, mas Marcus e Ron não estão nos tratando diferente, porque, para eles, não há nenhum problema visível. Meu mundinho de verão está desabando em cima de mim e eu sou a única testemunha. É isso que acontece, penso, quando um segredo se transforma numa mentira.

Depois do corre-corre da hora do jantar, a cozinha fica um caos, como se dois exércitos tivessem travado uma batalha de vida ou morte pela comida. Quando Ron pede um voluntário para reabastecer o balcão de condimentos, eu me ofereço com o maior prazer.

Fico esperando que a porta da despensa se feche atrás de mim, mas, como isso não acontece, compreendo a razão.

— Oi — diz Bo.

Não me viro para ele.

Tirando produtos de várias prateleiras, começo a arrumar as pilhas de suprimentos para levar para o balcão.

— Olha... — começa ele. — Eu ia te contar.

Escuto o som dos passos e o hálito no meu pescoço. Ele põe a mão na minha e sinto a secura das luvas de borracha que ele usa na cozinha, mas, mesmo assim, ele ainda me seduz.

— Não surgiu uma oportunidade. — Seu nariz roça minha nuca e pressiona os fios de cabelo soltos do rabo de cavalo. — Não fica zangada.

— Não... Eu não posso conversar sobre isso agora. — Nem mesmo sei como conversar com ele. Não sem os nossos lábios colados.

Ele beija meu pescoço, a região sedosa na base da orelha.

— Por favor. Por favor, para. — Arranco a mão, aperto contra o peito as caixas de guardanapos, utensílios e condimentos e passo bruscamente por ele.

— Willowdean.

Quero pegar meu nome de volta. Apagar o momento do nosso primeiro beijo, de que ele se apropriou indevidamente.

— Poxa, por favor... — pede ele, um pouco baixo demais, como se já estivesse resignado a perder uma briga que ainda nem começou.

No fim da noite, começo a completar os saleiros e pimenteiros. A campainha acima

da porta tilinta, e deixo que Marcus atenda.

— Ei, Bo — chama ele. — Seu amiguinho tá aqui.

Dou uma olhada no outro canto e vejo Collin, o mesmo garoto que visitou Bo no começo do verão.

— Veio fazer o quê aqui, cara? — pergunta Bo. Está parecendo exausto, com olheiras fundas.

Collin abre um sorriso.

— Vim só fazer uma visita ao meu velho amigo. A Holy Cross não vai ser a mesma sem você.

— Vocês vão sobreviver.

— Aliás, Amber mandou um abraço. Está passando muito melhor. A distância fez bem pra ela. — Collin dá de ombros. — Distrações sempre ajudam.

— Bom pra ela — murmura Bo entre os dentes.

— Você deveria pintar lá na quadra uma noite dessas. Para assistir na arquibancada, sei lá.

Alguma coisa faz cócegas na minha mão. Dou uma olhada e vejo que entornei sal em cima do balcão.

Os dois se viram para mim.

Collin sorri.

— Ah, eu me lembro de você. Como é mesmo o seu nome?

Abro a boca para responder, mas...

— Will. O nome dela é Will — adianta-se Bo.

É uma navalhada no rosto ouvi-lo me chamar por outro nome que não Willowdean. Deixo o sal e a pimenta no balcão e saio pela cozinha para pegar o lixo. Passos me seguem.

— Por favor, fala comigo — pede Bo.

Saio apressada pela porta dos fundos, sem responder. Estendo o braço e tento destampar a caçamba alta uma, duas, três vezes. Ele estende o dele e consegue de primeira.

— Precisamos conversar. — Bo tira os sacos das minhas mãos fechadas e os joga na boca da caçamba.

Esfrego as mãos suadas nas coxas.

— Sobre o quê? E a tal garota? Hein? O que eu fui? Seu casinho de verão?

Ele dá um passo à frente e eu quase dou um atrás para manter a distância, mas não estou disposta a mostrar uma gota de fraqueza.

— Você não foi um casinho, tá legal? Não é isso que a nossa relação foi. O que a nossa relação é. — Sua voz despenca uma oitava. — Mas a comunicação nunca foi exatamente o forte da nossa relação.

— Você podia, pelo menos, ter me contado que não voltaria para a Holy Cross.

Ele se cala por um momento, e eu interpreto seu silêncio como uma confissão.

— Por que não quis me contar, Bo? Por quê? Estava torcendo para que eu não descobrisse?

— Não, é que...

— Não importa. — Suspiro. — Nem sei por que estamos nos dando ao trabalho de discutir. Nós nos beijamos atrás da caçamba e num estacionamento abandonado. Não é o tipo de relação que valha a pena discutir.

Para não falar no jeito como a minha autoestima vai por água abaixo sempre que ele encosta em mim. Como se meu inconsciente dissesse: não tenho valor. Não sou bonita. Não sou magra.

— Eu pensava que você fosse incompreendido. Que as pessoas não te entendessem. Mas estava enganada. Você é um babaca, Bo Larson. — Agora dou um passo atrás, afrouxando a linha entre nós que nos manteve tensos o verão inteiro. Gostaria de poder contar tudo isso a Ellen. — E pra mim já chega de ser o seu segredo.

DEZESSETE

Mal dou uma olhada na minha agenda antes do primeiro dia de aula.

Fico esperando pela El na frente da sala durante o segundo tempo. É a única aula que temos em comum este semestre. Quando a campainha toca pela segunda vez e já estou prestes a entrar sozinha, lá vem ela voando pelo corredor na minha direção, com Tim atrás.

— Me desculpe, Will! — pede El, ofegante. Tim dá uma apertadinha na mão dela e continua correndo até a próxima sala, onde será a aula dele.

— Que é que vocês estavam fazendo?

Ela mexe as sobrancelhas, maliciosa, e dá de ombros.

Balanço a cabeça e entro na sala atrás dela.

Só encontramos duas carteiras vagas. Uma atrás da Callie, a colega da El, que acena para ela ir sentar ali, e outra nos fundos da sala, uma carteira dupla, ao lado de Mitch Lewis.

El se vira para mim e sussurra:

— Me perdoe, Will, de coração. A gente chega mais cedo na próxima aula. Prometo.

Vou me arrastando até os fundos da sala para me sentar ao lado de Mitch.

Quando me acomodo, Mitch retira a mochila para eu ter mais espaço do meu lado da carteira. Mitch é um gigante. É meio barrigudo e tem os ombros mais largos que uma porta, mas ninguém olha para ele e diz que é gordo, e sim atlético. O que faz sentido, já que é zagueiro do CCHS Rams.

— Oi — sussurra ele com o típico sotaque sulista que a gente ouve os atores de Hollywood imitarem. É quase simpático. — Will, não é?

Faço que sim com os olhos fixos no Sr. Krispin, como se não pudesse suportar que me distraiam da sua fascinante chamada.

— Eu seria capaz de apostar que não assistimos a uma aula juntos desde o sexto ano.

— Sra. Salisbury. — Sorrio, surpresa por ele se lembrar de uma coisa dessas. Foi a melhor professora que já tive. Eu me lembro de Mitch porque ele fazia as perguntas mais burras do mundo, tipo “Por que o ar é invisível?”, e, enquanto o pessoal ria baixinho, ela dava uma resposta tão inteligente que todo mundo percebia que a pergunta não tinha sido tão burra assim.

O Sr. Krispin dá início às atividades do dia e, no fim da aula, quando a campainha toca, ele anuncia:

— Espero que nenhum de vocês tenha problemas para assumir compromissos. Os lugares onde se sentaram hoje serão os mesmos que ocuparão durante o resto do semestre.

Enquanto o restante da turma avança em peso para a porta, El abre caminho pela multidão para chegar até mim.

— Me perdoa? — pede.

— É a única aula que vamos ter juntas, e não vamos nem poder sentar ao lado uma da outra.

Callie atravessa a multidão e nos interrompe.

— El-bell, você vai para o corredor C, não vai? — E para mim: — Oi, Willow.

Finjo um sorriso quilométrico, até onde o rosto se estica.

Ellen aperta a minha mão.

— Falo com você mais tarde, tá? — Ela já deu três passos na direção oposta, quando se vira e acrescenta: — E pode deixar que eu converso com o Krispin sobre os lugares onde a gente vai se sentar.

Não vejo sinal de Bo o dia inteiro, só o irmão caçula, quando passo pelo corredor onde estão os alunos do nono ano. Embora saiba que vou vê-lo no trabalho à noite,

sinto um alívio imenso ao seguir para o estacionamento, à procura do Jeep do Tim.

— Will!

Levanto os olhos. A cabeça de Mitch se agita no meio da multidão.

Para minha surpresa, sorrio quando ele se aproxima.

Mitch começa a caminhar ao meu lado e diz:

— E aí, o que você costuma fazer?

Quase dou uma risada, mas então sinto a lembrança da Sra. Salisbury pousar no meu ombro como um passarinho.

— Além de vir à escola?

— É.

— Bom, eu trabalho. — Meus ombros se erguem, em dúvida. — Vejo tevê... É isso que você quer saber?

— Onde você trabalha?

— No Harpy’s. Por quê?

Ele passa à minha frente e abre a porta para mim.

— Eu queria saber aonde te levar no nosso primeiro encontro, e aí pensei que deveria descobrir um pouco mais sobre você antes de escolher o lugar.

— Nosso primeiro encontro? — Aguardo enquanto ele segura a porta para uma manada de alunas do nono ano passar.

Bem-educado. Pai do céu. Ele é bem-educado.

— Exatamente. O encontro para o qual estou prestes a te convidar. E então, quer me conceder a honra de sair em minha companhia?

— Eu... Mas por quê?

— Por que eu te convidei?

Faço que sim.

— Bem, porque você é bonitinha. E porque me traz boas lembranças da sexta série.

— Ah, tá. — O “bonitinha” não chega a me encantar, mas é melhor do que outros adjetivos que já ouvi. — E você já convidou alguma menina pra sair antes?

— Uma ou outra.

— E alguma aceitou? — Paro e me viro para ele, mãos levantadas. — Espera aí. Não. Sabe de uma coisa? — A imagem de Bo no restaurante se acende na memória. Ouço-o dizer meu nome, e penso que a nossa situação não tem futuro. — Sim. A resposta é sim. Eu aceito sair com você.

Ele estende a mão para um aperto e eu a seguro. Fico esperando que esteja suada, mas não está. Como em Cachinhos Dourados e a terceira cama. Bem sequinha.

Mitch digita meu número no celular e promete me mandar uma mensagem para que eu possa salvar o dele. Então, segue em direção ao vestiário, que fica na frente do estádio.

Acho que é capaz de ser uma má ideia, mas eu vivo achando mil coisas. E preciso esquecer o Bo. Parece um bom começo.

— Will! — chama El bruscamente. Ela vem avançando pelas fileiras do estacionamento dos alunos, rebolando os quadris como uma corredora durante uma prova de marcha atlética nas Olimpíadas. — O. Que. Foi. Isso?

Dou de ombros.

— Sua galinha! Deu o telefone pra ele!

Tim se aproxima atrás dela, o celular na mão.

— Espera aí — diz ele. — Aquele era o Mitch Lewis?

Ellen responde antes mesmo que as palavras me ocorram:

— Em carne e osso. E essa periguete acabou de dar o número dela.

— O cara joga muito. Ouvi dizer que as gatas vivem em cima dele.

Esse é o problema de todos os jogadores de futebol americano decentes de Clover City. De vez em quando, o namoro se transforma em algo mais. A única coisa que se aproxima do futebol americano por aqui é o concurso. Os dois são a razão de ser da cidade. E digo isso no bom sentido. O concurso e o futebol americano obrigam nossa cidadezinha a sair da própria casca e florescer. Porque, quando as luzes do estádio se acendem e as cortinas do palco se abrem, estamos no ápice de nós mesmos.

— Não importa se ele joga bem ou não — decreta Ellen. — É amigo do Patrick Thomas.

— Ah, meu Deus. Aquele babaca, não. — Ainda vejo o cara me fuzilando com os olhos depois da aula no dia em que salvei a Millie das garras dele.

Tim balança a cabeça.

— É verdade. Eles são amigos desde pequenos.

Caminhamos até a Jolene, Tim atrás de nós, novamente enfronhado no celular.

— Então, talvez o esquema das carteiras na aula do Krispin não vá ser tão mau assim — diz El. Se ela soubesse tudo que aconteceu entre mim e Bo, bancaria a voz da minha consciência e diria que é cedo demais. Que primeiro preciso esquecê-lo.

Estendo a mão às costas e procuro as chaves no bolso frontal da mochila.

— É, eu acho que sim, mas ainda preferiria me sentar com você — respondo.

— Vocês não vão se sentar juntas no segundo tempo?

— Não. Graças a essa aí — aponto para El —, chegamos atrasadas.

— Desculpe — repete ela. — Eu já pedi desculpas?

— Bom, pelo menos você tem a Callie — provoco.

— Ah, por favor. Não seja assim.

— Fala sério, gata — diz Tim. — Você sabe que aquela garota é a maior mala sem alça do mundo, não sabe?

— Me deixem em paz, vocês dois. Ela é minha amiga, tá legal?

— Nós somos seus únicos amigos — diz Tim, um sorriso curvando seus lábios. — Você não precisa de outros amigos. — Dá um beijo no rosto de El.

— É isso aí — meto minha colher torta. — Só da gente. — E estou quase falando sério.

El bate com o ombro no meu.

— Senti a sua falta hoje.

— Eu também. — Embora ela esteja parada bem ao meu lado, parece tão distante. Mais distante do que posso ver.

DEZOITO

 

À noite, quando já estou no trabalho, o celular toca. Deixo Marcus no balcão e atendo,

enquanto caminho até a sala dos funcionários.

— Oi, tudo bem? Aqui é o Mitch. — A linha fica em silêncio por um segundo. — Estou te ligando para combinar nossa saída. — Ele já não está mais parecendo tão confiante no telefone. O que até seria fofo, se não tivesse também certa pinta de propaganda enganosa. Mas acho que foi simpático da parte dele telefonar em vez de mandar uma mensagem.

— Ah, sim. Claro.

— Que tal no sábado? — pergunta ele. — Nossa primeira partida vai ser na sexta.

— Claro, no sábado está ótimo.

— Tudo bem, então. — Posso ouvir seu sorriso. — Maravilha.

— Então está combinado, no sábado. Mas vou te ver na escola antes disso — relembro a ele.

— Certo. Sim, vamos nos ver antes. Porque estudamos na mesma escola. E porque pareceria estranho se eu te evitasse até lá.

Dou uma risada.

— Hum-hum. Claro. Muito estranho.

Depois de desligar, volto a atravessar a cozinha, onde Bo está encostado no fogão, com os braços cruzados, mordendo o lábio inferior, enquanto seu olhar me segue até eu contornar a parede.

Estou me sentindo ótima. É algo que me faz muito bem. Ser desejada sem ser possuída.

No fim da noite, saio com Bo e Marcus, já que Ron ainda está preenchendo os cheques dos funcionários. Marcus entra no carro da namorada e some do estacionamento em questão de segundos.

Bo não diz uma palavra, apenas espera para ir embora enquanto ligo a Jolene e saio de ré da vaga.

O carro passa pelo quebra-molas na saída e os faróis iluminam as vitrines do Chili Bowl, o restaurante que fica do outro lado da rua. Emoldurado pela vitrine, está um grande cartaz que diz ESTAMOS CONTRATANDO. O chili até pode ser uma especialidade da culinária sulista, mas a Opinião Oficial de Willowdean é a seguinte: se parece comida de cachorro e cheira a comida de cachorro, então deve ser comida de cachorro. Há uma longa lista de coisas que eu prefiro fazer a trabalhar lá.

Bo passa por mim, mas continuo olhando para frente. Sempre para frente.

E agora cá estou eu, esperando para falar com o gerente do Chili Bowl.

O lugar foi construído para se parecer com uma cabana de brinquedo, daquelas

bem rústicas, feitas de toras empilhadas. As paredes são cobertas por mil e um estilos de molduras com fotos de moradores de Clover City dos últimos sessenta anos fazendo de tudo, desde curtir um piquenique ao lado do carro até beber cerveja na varanda ou se esparramar na grama para assistir à parada do Quatro de Julho.

Entro numa baia para esperar o gerente, com o Harpy’s bem do outro lado da rua me atormentando.

A culpa é toda do Bo. As coisas estavam indo muito bem até o quinto tempo. Eu estava tendo um ótimo dia. Tudo normal no trabalho na véspera, e talvez eu estivesse me sentindo meio envaidecida demais por causa disso. Um primeiro dia de aula bastante razoável. Um primeiro encontro à vista. E uma relação profissional relativamente amigável com Bo.

Mas, quinze minutos depois de começar a aula de história, Bo entra na sala com um papel amarelo dobrado ao meio. Um aviso de transferência.

— Turma — chama a Srta. Rubio —, gostaria que dessem as boas-vindas a Bo Larson. Ele vai participar da nossa aula pelo restante do ano.

A melhor amiga da Millie, Amanda, que senta perto de mim, solta um assovio baixinho.

Ele foi se sentar na fila ao lado, duas carteiras à minha frente. Enquanto se acomodava, deu uma olhada para trás e piscou para mim sem a menor cerimônia.

— Esse não é o cara com quem você trabalha? — cochichou ela.

— É. — A sensação de pavor foi tão violenta que eu cheguei a ficar nauseada.

— E como é que você consegue trabalhar olhando praquela bundinha que parece um pêssego?

— O quê?

— Parece direitinho o emoji do pêssego — explica ela. — Bundinha de Pêssego suculenta...

Depois da aula, saí em campo como quem realiza uma missão. Nem esperei por El e Tim. Entrei no carro, botei no drive e saí do estacionamento o mais depressa possível. Milagrosamente, não atropelei nenhum pedestre no caminho.

Portanto, foi isso que me trouxe ao Chili Bowl.

— Está aqui por causa do emprego? — Um cara que não deve ter mais de vinte e cinco anos, com cabelos pretos lisos e escorridos, senta numa cadeira à minha frente. — Meu nome é Alejandro.

— Hum-hum. — Balanço a cabeça.

— O salário é uma merda.

— Eu preciso de um emprego.

— Tudo bem. — Ele se inclina para mim, como se alguém pudesse ouvi-lo, embora o lugar esteja deserto. Acho que ele é do tipo ansioso, e por isso prefere trabalhar num lugar sem movimento. — O negócio é o seguinte: já foi presa?

— Não.

— Já trabalhou num restaurante?

— Mais ou menos. Eu fui caixa no Harpy’s.

— Chega perto. E, finalmente, foi demitida do último emprego?

— Não.

Ele gira os polegares em volta um do outro e respira pausadamente várias vezes.

— Quando pode começar?

E esse é o fim da entrevista.

Eu me recosto na baia. Diante do Harpy’s, Ron está sentado no meio-fio, fumando um cigarrinho no seu intervalo. Estou me sentindo uma idiota por deixá-los desse jeito, sem qualquer aviso, mas não posso enfrentar Bo quatro noites por semana.

— Agora mesmo — respondo.

A porta do escritório de Ron está aberta. Ele está sentado atrás da mesa, vestindo uma bermuda cáqui e uma camisa polo do time do colégio.

— Will.

— Eu... Podemos conversar? — Abro a porta mais um pouco, as dobradiças rangem.

— O que é que manda, menina?

Prendo a respiração e então solto o ar.

— Preciso ir embora.

Ele aperta os lábios, franzindo as sobrancelhas grossas. Vejo as dúvidas no seu rosto, mas ele se limita a perguntar:

— Aconteceu alguma coisa?

Faço que não com a cabeça.

— Vou devolver o uniforme depois que lavar.

Ele assente.

— Não tem pressa.

E, exatamente como aconteceu com Bo, fico triste por ele não ter insistido mais.

Nenhum de nós diz uma palavra.

— Mas... muito obrigada — acrescento, rompendo o silêncio. — Pela oportunidade.

— Vou sentir falta de ver o seu rosto por aqui — diz ele.

Volto para casa em silêncio, com as janelas abaixadas, os pensamentos sendo engolidos pelo vento.

DEZENOVE

 

Na sexta, vou para a casa da El depois da aula. Sentamos à mesa da sala de jantar,

dividindo um saco de batatas fritas, enquanto a mãe dela abre embalagens de materiais para trabalhar no seu scrapbook. Espalhadas sobre a mesa à nossa frente estão várias fotos da Sra. Dryver exibindo mil e um visuais da Dolly Parton. Depois de limpar os dedos no jeans, observo uma das fotos em que ela aparece vestindo um casaco de camurça com mangas franjadas e uma longa saia lápis jeans. Os cabelos estão lisos, com um topete bem alto, como os da Dolly nos primeiros anos da sua carreira.

— Gosto deste — digo a ela.

A Sra. Dryver pousa a mão no meu ombro.

— Ah, eu também. Acho que é o meu penteado favorito. Foi uma drag queen em Odessa que confeccionou a peruca para mim. Ele demorou uma semana para acertar.

El pega uma fotografia da mãe envergando um longo de lantejoulas vermelhas.

— Belo permanente, mãe. Muito chique.

— Ellen Sadie Rose, você não reconheceria uma coisa chique nem em um milhão de anos. — Faz cócegas na nuca da El com as unhas compridas.

Enquanto Ellen é alta e magra, a mãe é atarracada e curvilínea. Mas dá para ver que são mãe e filha pelo jeito como elas enrolam o cabelo no dedo, mordem o lábio inferior e assobiam pelo canudinho antes de dar um gole.

— Leva esta de lembrança — diz a Sra. D, entregando-me uma foto em que aparece com Lucy, tirada há anos. Elas estão diante de um letreiro de néon que diz THE HIDEAWAY. Atrás delas há um estabelecimento lotado de gente e fumaça. Parece ser um bar ou uma boate, mas, seja lá o que for, é o tipo de lugar aonde Lucy nunca teria ido desacompanhada. A Sra. Dryver está usando um macacão com uma camiseta vermelha justinha por baixo, enquanto Lucy usa um dos vestidos bem largos que eram sua assinatura, mas com um toque de sombra azul nos olhos. Eu nunca a tinha visto maquiada. A Sra. D despertava o lado mais arrojado de Lucy. Sei que ela era importante para a Sra. D, mas, para Lucy, era uma amizade eterna.

Guardo a foto no bolso da mochila. Adorei, mas também me entristeceu. A Sra. Dryver é a Dolly perfeita, e era impossível para Lucy, com as pernas grossas e pálidas e o cabelo escorrido, não parecer deprimente em comparação. A fina camada de sombra azul nas pálpebras foi um apelo silencioso à mulher que ela sempre quis ser. Mesmo posando de queixo empinado, não posso deixar de ver o que ela não era. E me sinto uma traidora por isso.

— Por que você nunca participou do concurso, mãe? — pergunta El.

Está aí uma coisa que eu sempre quis saber. A vida da Sra. D é praticamente concurso atrás de concurso. Ela teria tirado de letra o de Clover City.

Ela dá de ombros.

— Eu até pensei em participar. Acho que todas as garotas da cidade pensam. Mas eu não era a mesma pessoa que sou hoje. Na época, eu não tinha coragem para fingir que sou segura de mim o bastante para entrar num concurso de beleza.

Suas palavras calam fundo em mim. E me pergunto se é por isso que o concurso mexeu mais comigo este ano do que no ano passado. As candidatas devem se orgulhar de si o bastante para acharem que merecem competir. Esse tipo de autoconfiança inabalável está me deixando insegura de um jeito como eu nunca tinha me sentido.

Ellen enfia um punhado de batatas fritas na boca.

— Vamos lá pra cima.

Pego a tigela e a sigo até o quarto. Deitamos em direções opostas, ela com a cabeça aos pés da cama e eu com a minha nos travesseiros empilhados.

— Quer dizer então que você saiu do Harpy’s? Assim, sem mais nem menos? — pergunta ela, de boca cheia.

Continuar: parte 4 de 10