Dumplin'

Julie Murphy · Capítulo 1 de 6 · parte 9/10

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Dumplin'

A presente obra é disponibilizada pela equipe…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.

Millie nos leva pelo corredor e passamos pela sala de tevê, onde seus pais assistem a uma série exibida pela BBC em que ingleses falam aos cochichos sobre coisas escandalosas, tipo quem vai servir a sopa de ervilhas ao lorde e à lady.

— Espera só até ouvir o fiasco do meu vestido do concurso. Tomara que vocês estejam tendo mais sorte que eu — comento.

Millie faz que não com a cabeça e segura minha mão, me puxando para a porta de um quarto que sei que é o dela porque tem um coração de madeira com seu nome pintado em letra cursiva.

Amanda tapa o riso.

— Que foi? — pergunto.

Millie fixa os olhos nos meus, e há um desespero neles que eu nunca tinha visto. Ela abre a porta do quarto e deparo com Hannah sentada num pufe lilás, toda vestida de preto. Ela nem levanta os olhos.

Millie pega minha sacola e a põe ao pé da cama.

— Senta aí.

Faço isso. No chão mesmo.

Millie senta numa poltrona de vime imitando um trono, no canto do quarto. Parece uma coisa saída de um lar de idosos, mas, de um jeito estranho, combina com ela. Gostaria de tirar uma foto de Millie sentada nessa poltrona régia com o conjunto de moletom combinando, o cabelo cheio de cachinhos e o nariz adunco.

— Você não pode falar sobre o concurso na frente dos meus pais.

— Por que não? — pergunto.

— Porque eles não sabem que ela vai participar — explica Hannah.

Com um largo sorriso, Amanda se senta no chão diante de Millie.

— Mas e aquele campo no formulário que exige a autorização dos pais? — É mais uma pergunta retórica, porque já sei a resposta. Nunca imaginei que Millie seria capaz de uma fraude dessas.

Ela umedece os lábios.

— Eu falsifiquei a assinatura da minha mãe.

Hannah está checando mensagens no celular, com a boca fechada, mas sorrindo.

O rosto redondo de Millie se contrai um pouco, as bochechas coloridas por um rosa-choque ainda mais forte do que o normal.

— Eu pedi a eles. Quando descobri que você ia participar.

Balanço a cabeça junto com ela, encorajando-a a me contar mais.

— E a minha mãe levou uns dias para pensar no assunto. Mas, no fim, não deixaram. Disseram que não podiam ficar com esse peso na consciência. Que as pessoas iam “caçoar” de mim, e que não era uma maneira cristã de eu aproveitar o meu tempo.

Hannah solta um bufo.

Reviro os olhos para ela. O que não faz a menor diferença, porque ela não levanta o rosto nem um segundo do celular.

— Mas o que vai fazer? O concurso é no fim de semana que vem. Você vai aparecer no jornal. E aí todo mundo vai ficar sabendo.

É claro que todas nós já fomos alvo de deboche algumas vezes, mas, assim que o jornal chegar às bancas, não haverá mais volta. Vamos ser um prato cheio para gente como Patrick Thomas pelo resto da vida.

— Eu... não sei. — Ela rói a pele ao redor da unha do polegar, os olhos fixos no meu rosto, à espera de uma resposta. Algo que lhe diga que tudo vai acabar bem.

Agora eu entendo. Entendo tudo que está em jogo para Millie, que não quer outra coisa senão sair da redoma de cristal em que os pais a enjaularam.

— Tudo vai acabar bem — garanto. — Muito bem.

— Acho que foi muito fuderoso da sua parte — diz Amanda. — Eu nunca teria imaginado que você tinha essa coragem dentro de si.

— Ah, acho que ela tem espaço para muitas outras coisas — murmura Hannah.

É a gota d’água. Já estou cheia desse comportamento.

— Qual é o seu problema? — disparo. — Tá aqui por quê, então? Não pode odiar alguma coisa na sua própria casa?

— Will — intervém Millie.

— É verdade — insisto. — Millie te convidou para vir à casa dela, e a única coisa que você fez desde que cheguei foi ficar com a cara enfiada no celular, ruminando.

Hannah finalmente levanta a cabeça, achando a maior graça.

— Você tá se lixando pra essas duas. Só tá aqui pra se sentir bem em relação a si mesma. Que timinho mais patético de idiotas somos nós.

Sinto as narinas se dilatarem.

— É verdade — continua Hannah. — É a única razão por que você está insistindo nesse circo de aberrações. Você pisou na bola com a sua melhor amiga, e agora só tem a gente.

— Parou! — ordena Millie, tentando aliviar a tensão. — Vamos falar sobre as perguntas da entrevista. Pesquisei algumas de concursos passados para a gente praticar.

— Não fala assim comigo como se conhecesse toda a história — digo a Hannah. — Porque não conhece. — E para Millie: — Tem algum lugar onde eu possa trocar de roupa?

Millie aponta o banheiro em frente, no corredor. Todos os detalhes em lilás combinam, inclusive a prateleira em formato de casinha com o rolo extra de papel higiênico. Como no quarto de Millie, há vários quadrinhos bregas com citações inspiradoras. Minha favorita é: O sorriso é uma curva que endireita tudo.

Ainda sentada no trono de vime, Millie diz:

— Enfim, como está explicado naquela pasta que a gente recebeu, vai haver uma sessão de entrevistas na quinta anterior ao concurso. Os jurados vão nos dar notas e somá-las com a da entrevista ao vivo durante o concurso. Acho que são só uma ou duas perguntas.

— E não vamos ficar sabendo quais são com antecedência? — pergunta Amanda.

— Não — respondo, deixando aflorarem lembranças adormecidas de uma infância passada nos bastidores do palco. — É assim que eles gostam de tentar pegar as candidatas pelo pé.

— A entrevista é a parte que vale mais pontos, por isso, se a gente...

Millie é interrompida por uma batidinha à porta. Que se entreabre. Sua mãe, com um penteado alto o bastante para esconder mil segredos de família, está com os olhos úmidos, parecendo prestes a chorar.

— Estamos indo dormir.

— Tudo bem — diz Millie, mordendo tanto os lábios que chegam a desaparecer.

— Vou deixar o café da manhã pronto para vocês. Estamos muito felizes de ver Millie recebendo amigas em casa.

— Também estamos felizes por estar aqui — diz Hannah, a voz sem emoção.

Millie dá um sorriso forçado.

— Boa noite, mãe.

— Durma com os anjos, querida.

Depois de fechar a porta, discutimos a lista de pontuação e como é ridículo que a prova do maiô valha mais pontos que a do talento. Assim que Millie se certifica de que os pais estão dormindo, vamos para a sala de tevê e assistimos a alguns vídeos de antigos concursos que surrupiei da coleção da mamãe.

À medida que mais e mais beldades vão enfeitando a tela, fica cada vez mais claro que somos peixes fora d’água nesse troço. De vez em quando, aparece alguma ovelha negra, mas nunca alguém que se pareça com qualquer uma de nós quatro. O que faz com que eu me sinta minúscula, uma gotinha no oceano do concurso. E no ano que vem? E no outro? Em breve, vamos ser totalmente esquecidas, e, nesse caso, que sentido faz participar?

Millie passa a noite tomando notas febrilmente, enquanto Amanda faz perguntas tipo “E se o maiô entrar na bunda durante a prova do traje de banho?” ou “Vocês acham que já rolou alguma gafe, do tipo alguém pagar peitinho? Vai haver intervalos pra gente poder ir ao banheiro?”

Hannah levanta os olhos do celular e comenta:

— Isso é meio deprimente. Quer dizer, o concurso é o ponto alto da vida dessas garotas. Hoje em dia, as misses nesses vídeos são mães, talvez até avós, e provavelmente essa foi a melhor coisa que fizeram na vida.

— Que exagero — reclama Millie, em voz baixa. — Só porque essas mulheres ficaram em Clover City ou se tornaram mães, donas de casa ou caixas de supermercado, isso não significa que a vida delas fora do concurso tenha sido um desperdício.

Hannah não responde, mas seus lábios quase tremem.

— Olha aqui, Hannah — acrescenta Millie. — Eu sei que as pessoas costumavam ser cruéis com você, mas...

— Vou dormir. — Ela põe o travesseiro debaixo do braço e volta para o quarto da Millie.

Depois que sai, espero que Millie diga alguma coisa sobre como Hannah é execrável, mas ela guarda seus pensamentos para si.

Continuamos nós três na sala por mais um tempo. Millie conta que usou o dinheiro do cofrinho que tem desde o primeiro ano do ensino fundamental para encomendar um vestido na butique da Cindy.

— Mandei pôr mangas nele, mas, na última hora, decidi que preferia organza em vez de cetim, por isso ele ficou quase transparente. Estou meio nervosa porque não sei como vai ficar em mim.

— Tenho certeza de que você vai ficar linda — digo a ela.

Millie sorri, balançando a cabeça. Está escuro, por isso não dá para ter certeza, mas seus olhos parecem úmidos. Sinto vontade de acordar seus pais e dizer a eles que a filha vai participar de um concurso de beleza e que vai vencer. Ou, pelo menos, venceria, se dependesse de mim.

CINQUENTA E UM

 

Deito no sofá, onde vou passar a noite, para descansar um pouco. Cochilo e acordo o

tempo todo, como sempre acontece quando a gente dorme na casa de outra pessoa. Menos na da El. Lá, eu sempre conseguia pegar no sono.

Meia hora depois, ou talvez duas, não sei, escuto o assoalho rangendo quando alguém atravessa o corredor. Viro a cabeça para ver quem é. Passando por uma réstia de luar, Hannah se dirige à cozinha. Sem pensar duas vezes, empurro as cobertas e vou atrás dela.

Hannah para diante da geladeira, a luz branca transformando seu corpo numa silhueta.

Acendo a luz do teto.

Ela leva um susto e se vira, mas a tensão nos ombros relaxa quando me vê.

— Estou procurando uma garrafa de água.

— Então, por que pegou uma cerveja? — pergunto, apontando para a lata de Miller na mão dela.

— Encontrei na geladeira da garagem. Aí resolvi ver se tinha mais aqui. — Ela abre bem a porta da geladeira e mostra que não há nada além de água mineral e refrigerante diet para beber. — Mas ninguém vai dar por falta dessas aqui. — Ela aponta várias latas na prateleira. — Quer uma?

— Quero — digo, para minha surpresa. Aposto que a mãe da Millie não gosta nada da ideia de ter cerveja em casa, portanto, em teoria, estamos fazendo um favor ao Sr. e à Sra. Michalchuk. — Claro.

Sentamos no sofá, no escuro, bebendo nossas cervejas. O luar brilha na vidraça da janela, lançando um véu de prata sobre o chão acarpetado.

— Qual é a parada com aquele cara que te deixou aqui ontem? — pergunta Hannah.

— Que cara?

— Estou tentando ser simpática, tá? — É verdade. No escuro, ela parece ser uma versão menos hostil de si mesma. Como se ficasse mais à vontade quando ninguém pode vê-la. — Ouvi Amanda e Millie falando sobre ele quando foram dormir. Bundinha de Pêssego, é?

— Bo. — Se ela está disposta a retrair as garras, posso lhe dar algumas gotas da verdade. — Bo Larson. Nós trabalhamos juntos. Somos, hum, amigos.

— Ah... — Ela dá um longo gole na cerveja. — O Garoto do Banheiro. Tô me lembrando. Ele participa do meu grupo de estudos. Eu daria nota oito pra ele. E nem menos um décimo. Eu nem me amarro em homem, mas gosto de olhar pra ele.

Observo seu rosto no escuro. Será que a Hannah acabou de sair do armário? Não sei o que dizer ou fazer, mas sei que não me importo se ela gosta de meninos ou de meninas. Por isso, decido não dizer nada.

— É, ele é gostoso até demais. — Já eu não daria menos de dez. Um dez com estrelinhas de glitter.

— Amigos, é? Não pareciam amigos quando vi vocês dois. — Posso ouvir seu sorriso. — E no banheiro das mulheres, ainda por cima.

Dou de ombros. O que é uma bobagem, pois ela mal pode me ver.

— Amizade colorida.

Ela solta um assovio.

Sinto uma ardência no rosto e no peito. Espero que seja da cerveja.

Ela abre uma segunda lata.

— Como foi que rolou?

— Temos tido idas e vindas. Sei lá. Está começando a ir mais longe, e ele quer que seja oficial. É uma idiotice, porque, por um lado, é óbvio que ele é tudo que eu quero, mas...

— Mas caras como Bo não namoram garotas como nós. — O jeito como ela diz isso não é mesquinho, nem grosseiro. É sincero.

— Exatamente. Não entendo por que ele gosta de mim, mas acredito que goste. Sinceramente. Só que não acho que os outros vão entender o que ele vê em mim.

— É uma situação difícil — diz Hannah. — As pessoas são podres. Basta pensar em gente como Patrick Thomas. Se você namorasse um cara como o Bo, isso seria um prato cheio pra ele.

É maravilhoso conversar com alguém que entenda. Talvez Hannah não saiba como é você se perguntar se vai caber numa poltrona com braços ou como todo mundo te olha quando o assoalho range sob seu peso como se o prédio inteiro fosse desabar. Ela pode não saber o que é entrar num shopping e ter certeza de que noventa por cento das roupas não vão caber, ou que até pensar em ir a um self-service é má ideia, porque um gordo num bufê faz com que os demais clientes sintam pena do dono do restaurante. Mas ela não está me dando tapinhas nas costas e me dizendo para fazer o que me deixa feliz. E isso me dá um certo alívio.

— Gostaria que a gente vivesse num universo paralelo em que ele pudesse ser meu namorado. — É a primeira vez que digo a palavra em voz alta, e um arrepio me corre pelo corpo até os dedos dos pés. — E ninguém tivesse que saber.

— Mas não é essa a razão de ser de rótulos como “namorados”? Facilitar as coisas para a sociedade? — Ela dá um gole. — Não é deprimente? Como se a humanidade inteira tivesse que andar por aí com etiquetas para todo mundo poder se sentir mais tranquilo? Acho que as coisas são menos assustadoras quando as pessoas sabem que nome dar às coisas.

Tomamos nossas cervejas em silêncio. Suas palavras soam certas, mas parecem erradas. Sim, os rótulos facilitam a compreensão, mas gosto da segurança de saber as coisas. Principalmente com Bo. É por isso que ainda não lhe dei uma resposta. Não suportaria lhe dizer não.

— Hannah, quero te fazer uma pergunta. É meio grosseira, mas não é essa a minha intenção. — Embora isso não melhore em nada a situação.

— Manda — diz ela.

— Por que você nunca usou aparelho?

— Por que eu deveria usar? — responde ela na mesma hora. Com voz mais suave, acrescenta: — De mais a mais, é muito caro. Minha mãe é cabeleireira. Meu pai é mecânico. Nosso plano de saúde não é a oitava maravilha do mundo.

— Tem razão — concordo. — Quem manda na sua vida é você.

Ela pigarreia.

— Eu não quis bancar a escrota, você sabe, não sabe?

— Eu sei.

Ela ri.

— É difícil não mostrar as garras o tempo todo. Não tenho amigas como você. Não tenho ninguém para atravessar o corredor ao meu lado.

— Você tem amigas, sim. Não seja boba. — Mas basta eu fechar os olhos para vê-la na escola, usando preto da cabeça aos pés, com a boca esticada sobre os dentes, como se quisesse que as pessoas esquecessem sua existência.

— No início, minha intenção era sabotar esse concurso de dentro para fora. Foi a única razão por que me inscrevi. Não para ser a garota dentuça, mas para ser a garota que ferrou o concurso. — Ela se cala por alguns instantes. — Mas aí, minha mãe descobriu. Viu a pasta da inscrição. Ficou superorgulhosa de mim. E agora...

— E agora você não tem escolha senão ir em frente. — Faz sentido. Se as pessoas me tratassem com um décimo da crueldade com que tratam Hannah, eu também teria vontade de ferrar com o concurso em grande estilo.

— Vou dormir — diz ela. — Me dá suas latas. Eu jogo no lixo quando chegar em casa.

Dou o último gole na cerveja. Ela estende a mão e eu lhe entrego as duas latas. Sinto o sofá se remexer quando ela se levanta. Não sei onde está, nem se está virada para mim, mas digo:

— Sou sua amiga. Não estou dizendo isso para bancar a fofinha. Nem porque você disse que não tem amigas. Mas porque gosto de você. Gosto de conversar com você.

O silêncio é tão absoluto que, por um momento, chego a pensar que ela nem está mais na sala. Mas então, sua voz sai num sussurro:

— Tá.

Sinto saudades da Ellen. Nunca vou deixar de sentir. Mas também sinto um grande alívio por ter outra amiga com quem posso conversar sobre muito mais do que esse concurso idiota. Mesmo que seja apenas no escuro.

Quando chego em casa na manhã seguinte, encontro mamãe no quarto de Lucy. Nenhuma de nós tem vindo muito aqui desde que ela começou a transformar o cômodo

num ateliê. Está totalmente absorta nos assuntos do concurso e eu muito ocupada com meus problemas pessoais. O quarto de Lucy acabou ficando em segundo plano. Por um momento me pergunto se, de vez em quando, ela dá umas fugidinhas até aqui, como eu. Só para ver Lucy. Só para ficar perto dela.

Mas hoje ela está com aquele conjunto ridículo da Juicy Couture, entre caixotes onde escreveu a palavra DOAÇÃO. Não veio aqui para visitar Lucy, mas para se livrar dela.

Quando mamãe se sente frustrada, resolve fazer uma limpa nos armários. E quem fica frustrada com essa limpa no quarto de Lucy sou eu. E esses dois sinais negativos não resultam num positivo. Ela e eu ainda estamos pisando em ovos por causa do vestido, e, sinceramente, se ela não me deixar usá-lo, vou me dar mal. Não tenho outras opções. Uma gorda não pode entrar num brechó e, como num passe de mágica, encontrar um bom vestido que caiba feito uma luva.

E é isso que mais me irrita em relação ao vestido. Mamãe é a poderosa chefona. É ela quem dá as cartas. Ela só precisa dizer sim. Tenho tanto trabalho para encontrar uma calça jeans onde consiga espremer a bunda, que seria de esperar que ela desse uma festa por encontrar um vestido que não é nem hediondo nem colante e cujo zíper fecha. CUJO ZÍPER FECHA.

Mas o quarto. Lá está ela revirando tudo, remexendo nas coisas de Lucy, e cada gesto, por menor que seja, me dá a sensação de ter encostado sem querer numa boca acesa de fogão.

— O que está fazendo aqui? — Minha voz já sai alta e ríspida.

Ela me dá uma olhada.

— Não te ouvi entrar. — Torna a virar a cabeça. — Essas coisas não podem ficar aqui para sempre. Espero sinceramente que, quando eu morrer, você não deixe que as minhas se acumulem assim, durante meses.

— Mas essas coisas são da Lucy, mãe. Todos esses objetos pertencem a ela.

— Filhota — diz mamãe. — Pertenciam. Esses objetos pertenciam a ela. Já vai fazer um ano em dezembro. Não vou deixar tudo isso aqui como se fosse uma espécie de santuário.

Faço que não. Lágrimas me escorrem pelo rosto. Um ano. Um ano inteiro.

— Para — peço. — Por favor, para.

Ela finalmente se vira para mim. Com uma expressão de pânico no rosto. Acho que vou passar o resto da vida julgando mamãe em função do que ela fizer e disser nesse momento. Não temos esse tipo de relação. Não choro no seu ombro. Nós só passamos uma pela outra, mas nunca nos esbarramos.

Ela dá alguns passos na minha direção, as sandálias de ficar em casa batendo no assoalho.

Inclino o corpo para frente, esperando que ela me abrace. Não com os braços em volta da minha barriga, comentando como seus dedos quase se encostam. Um abraço de verdade. Onde eu possa me abandonar.

— Vou levar essas coisas para a casa de repouso no fim de semana. Se há alguma que você queira, a hora é agora. — Dá tapinhas no meu ombro. — Vou preparar o almoço antes de você ir para o trabalho.

Quando sai e fecha a porta, eu me jogo na cama de Lucy. A lembrança das últimas semanas toma conta de mim.

Não tenho um vestido. Tenho um namorado Não-Exatamente-Só-Talvez com quem não suporto ser vista em público, porque me sinto repulsiva quando penso em nós dois lado a lado. Mitch, com quem tenho sido péssima. Mamãe. Ellen. E a ausência de Lucy.

Preciso de Lucy. Ela deveria estar aqui para me dizer o que fazer. Alguma solução que nunca me ocorreria sem ela.

Penso nas coisas que posso mudar.

O vestido.

Eu poderia viver à base de alface até o concurso, e aí talvez ele coubesse, como mamãe imaginou. Mas e depois? O círculo vicioso das dietas, como quando eu era mais nova. Perderia o peso para caber no vestido, mas e aí? E depois? Começaria a comer mil coisas além de alface, recuperaria todos os quilos perdidos e, de quebra, mais alguns extras.

Todas as dietas que mamãe e eu fizemos durante as temporadas do concurso passam pela minha cabeça como um sumário. Vigilantes do Peso no quinto ano. Barrinha de cereal no quarto. Salada no terceiro. E nada disso jamais funcionou.

Ela vence. Minha mãe sempre vence. Eu nem sabia que tudo isso não passava de uma espécie de competição com ela até esse momento. Mas estou perdendo. Não tenho vestido. Talento, quase nenhum. E um acompanhante que estou magoando sem ele nem saber.

Se eu participar do concurso, vou deixar meu ponto de vista claro — isso é indiscutível. Só que não vai ser algum pelo qual quero ser lembrada.

CINQUENTA E DOIS

À noite, sentada na sala dos funcionários, uso o espelho do pó compacto para examinar

o anel verde ao redor do pescoço. Fecho o estojo como se fosse uma ostra, tiro o colar dourado e o coloco na mesa. A correntinha de metal é daquele tipo trançado que se vende nos quiosques dos shoppings, e o pingente exibe o nome Dolly em letras cursivas bem arredondadas.

Acabei enfiando de qualquer jeito no meu armário todas as coisas de Lucy que consegui pegar. Fiz o possível para reunir todos os itens de colecionador da Dolly, inclusive um par de sapatos com purpurina que ela usou num show em Las Vegas. As solas estão autografadas, com a letra bem característica, toda cheia de voltas, para provar sua autenticidade.

Bo se joga na cadeira ao meu lado.

— O que é isso?

Empurro a corrente com o indicador para que ele possa vê-la.

— Era da minha tia.

Ele faz que sim.

— Minha mãe está esvaziando o quarto dela. De novo. Ela tem feito isso aos poucos nos últimos meses. Mas acho que agora está levando a coisa a sério.

— Sinto muito. — Ele passa o dedo pela corrente. — Quando minha mãe estava morrendo, ela já foi dando uma esvaziada no quarto. Assim que descobriu que a doença era grave, começou a convidar pessoas para irem lá em casa, e ninguém saía de mãos abanando. Quando ela faleceu, só tinham restado algumas camisolas e pares de sapatos. — Ele se concentra no colar, balançando o queixo. — Fiquei meio irritado com ela. Mas, enfim, não acho que eu teria sido capaz de dar conta sozinho. Se dependesse do meu pai, ainda estaríamos usando o perfume dela como odorizador de ambiente.

Bo me observa por um momento antes de dar uma puxada na perna da minha cadeira, me trazendo para mais perto. Ele passa os braços pela minha cintura e eu relaxo contra seu corpo. Fico meio sem fôlego, mas a voz na minha cabeça que implora para eu não deixar que ele me toque já não passa de um murmúrio. Bo pressiona a boca nos meus cabelos, fazendo com que vibrações calmantes percorram meu corpo.

— Estou interrompendo alguma coisa? — Mitch está parado diante da porta, com uma sacola de mercado na mão.

Levanto a cabeça tão depressa que bato no queixo de Bo.

— Desculpe — digo, mas não sei para qual deles. Uma onda de pânico incendeia meu corpo, me paralisando. — O que está fazendo aqui?

Bo se levanta, esfregando o ponto onde minha cabeça bateu.

— É melhor eu voltar para o trabalho. — Sua voz está rígida.

A tensão entre os dois zune como uma cerca elétrica.

Mitch não sai da frente da porta, obrigando Bo a se espremer ao passar. Ele fica olhando para Bo antes de entrar na sala.

— Um cara lá da frente disse que você estava aqui. — Ele joga a sacola na mesa, por um segundo chacoalhando o conteúdo. — Comprei alguns artigos de mágica. Para a sua exibição de talento.

Faço o possível para manter a voz tranquila.

— Senta aí.

Ele continua de pé.

— Quem era aquele cara?

— Bo. Ele trabalha aqui.

Suas sobrancelhas se emendam numa só.

— Você gosta dele?

— Como assim? A gente só estava conversando, Mitch. — Minha voz sai defensiva, porque estou mesmo me defendendo. Tá, nós nos beijamos uma vez. Ficamos de mãos dadas de vez em quando. Isso não faz de nós dois coisa alguma. Ou talvez faça. Ele não me pegou beijando Bo nem pelada, mas estou me sentindo tão culpada como se tivesse sido o caso.

— Você gosta dele? — insiste Mitch.

Afasto os cabelos para trás das orelhas e demoro um longo momento antes de responder:

— Gosto.

Ele balança a cabeça e abaixa a viseira do boné de beisebol.

— Boa sorte com o concurso, Will. — Dá meia-volta e sai pela porta mais próxima, que por acaso é a da saída dos funcionários.

Meu coração dói com a perda de um dos meus poucos e preciosos amigos, sabendo muito bem que, se alguém é culpado por isso, sou eu mesma.

Naquela noite, Bo me leva para casa em silêncio.

Já estou na metade do jardim quando escuto a porta ser batida e ele dizer:

— Gostaria que me desse uma resposta. — Ele contorna a frente da caminhonete.

— Como assim? — Volto até ele. — Tem que ser agora?

— Quero ficar com você. Mas não posso fazer isso, se você não deixar.

— Por quê? — Solto a sacola no chão. — Por que você quer ficar com isto? — Indico meu corpo com as mãos. E na mesma hora sinto ódio de mim. A única pessoa que está fazendo essa maldade com meu corpo sou eu mesma.

— Porque eu gosto de você. E acho que seria capaz de sentir ainda mais do que isto, Willowdean. Por que é tão difícil assim de acreditar? Quando não consigo dormir à noite, não é por causa do trabalho, da escola, da Amber ou da Bekah. É você que está me deixando louco.

Nego com a cabeça, não faz sentido.

— Você já pensou no que as pessoas vão achar? No que elas vão dizer quando nos virem juntos, de mãos dadas?

— Você nunca me pareceu ser do tipo que dá a mínima para o que os outros pensam. — Seu queixo treme por um momento antes de ele abaixar a voz e dizer: — Quero ir a todos os lugares com você. Quero exibir você. Quero vestir um terno barato e ser o seu acompanhante naquele concurso ridículo.

Meus dentes começam a bater. Estou me esforçando ao máximo para não chorar. Porque está tudo aí. Eu gosto do Bo. Ele gosta de mim. Mas há muito mais do que isso em jogo. Não posso acreditar que faça diferença para mim, mas não vou ficar magra tão cedo, e não deveria me importar. Estou furiosa por não ter me atirado nos braços dele, bem ali, no meu jardim.

Mas eu me recuso a odiá-lo por se tornar mais uma razão para as pessoas cochicharem pelas minhas costas.

— Não posso. Sei que vou parecer uma covarde, mas... — As lágrimas finalmente cumprem a ameaça.

Ele vem até mim, e, por causa da inclinação do jardim, ficamos da mesma altura, nariz com nariz.

— Willowdean Opal Dickson, você é linda. Foda-se qualquer um que já tenha te feito se sentir menos do que isso. — Seu peito fica ofegante. — Quando fecho os olhos, vejo você. Posso falar com você. De um jeito como nunca falei com mais ninguém.

Linda, foi o que ele disse. Gorda, é o que eu penso. Mas será que não posso ser as duas coisas ao mesmo tempo? Levo a mão ao rosto de Bo, e a tensão que borbulha sob sua pele diminui. Beijo-o nos lábios mais uma vez. E prolongo o beijo por um momento, relembrando todos os detalhes de tudo que eu não deveria ter o direito de receber.

— Não posso — sussurro, sabendo que estou falando sobre muito mais do que nós dois.

Dou as costas e pego a sacola.

Ele fica parado no jardim até eu apagar a luz do quarto, transformando a casa numa concha escura.

CINQUENTA E TRÊS

 

Na segunda, quando estou saindo da aula, Mitch segura meu braço. O Sr. Krispin já se

mandou para a sala dos professores, e todo mundo foi embora. Estamos só nós dois.

— Queria dizer que acho que eu não devo ser seu acompanhante no concurso.

Olho para Mitch, mas ele só permite que nossos olhos se encontrem por um segundo antes de desviar os dele.

— Não vou mais participar do concurso. — Não tinha dito isso com todas as letras até este momento, mas tomei a decisão na noite de sábado, quando estava com Bo no jardim.

Dá para ver os pensamentos passando pelo rosto dele. O de tentar me convencer. O de me dizer para pensar no lado positivo. Mas ele não diz nada.

— E me desculpe — acrescento, tarde demais. — Não tive intenção de te magoar.

— Mas você gosta dele?

Faço que sim.

— Pedir desculpas não melhora as coisas — responde ele. — Eu teria sido um namorado muito legal pra você.

— Mais do que mereço.

Minha vontade é dizer que ele chegou muito perto, e que, se eu nunca tivesse conhecido Bo, teria ganhado esse páreo. Mas eu conheci Bo, e agora sei como é a gente ficar com os nervos à flor da pele só de ouvir o nome de uma pessoa.

Mitch enfia as mãos nos bolsos da jaqueta e vai embora.

Dou alguns segundos a ele, antes de seguir para a aula no outro lado do campus.

Caminho sem pressa. Prefiro me atrasar a ficar sem fôlego. Ninguém gosta de ver uma gorda bufando, esbaforida. A última campainha toca, e os corredores se esvaziam.

Então, Ellen sai da última sala à direita.

No começo, ela não me vê. Está secando os olhos. Chorando. Pode ser por mil motivos. Mas, seja lá qual for, não é nada que tenha chegado ao meu conhecimento.

Ela olha para trás e vê que a estou seguindo. Ela para, sem se dar ao trabalho de secar as lágrimas que escorrem pelo rosto. Talvez ela e Tim tenham terminado. Talvez ela tenha tido uma briga com as novas amigas. Talvez tenha se dado muito mal numa prova. Não sei. Esse é o momento para me aproximar. Para perguntar como tem passado e pedir desculpas por tudo.

Mas ela se vira e corre para o banheiro. O momento se perdeu.

Não fico para assistir às outras aulas. Esse dia já deu errado demais para eu correr o risco de continuar na escola. Quando chego em casa, encontro uma mensagem de Millie perguntando se deveríamos nos reunir para praticar os talentos. O concurso. Já nem importa mais. Quando eu me inscrevi, fiz isso por Lucy. E com Ellen do meu lado. Mas Lucy está morta, e Ellen está mais distante do que nunca.

Mando uma mensagem para Millie, Hannah e Amanda.

EU: Não posso participar do concurso. Estou avisando em cima da hora, eu sei. Mas vou desistir.

Vocês vão arrasar. Merecem participar. Vou ficar na plateia, torcendo por vocês.

Depois de ligar para o Harpy’s e dizer que não vou trabalhar porque estou doente, desligo o celular e decido mantê-lo assim durante o resto da noite.

CINQUENTA E

QUATRO

Passo a terça e a quarta fingindo que estou com febre e segurando um saco de minibiscoitos de chocolate que encontrei na despensa, de algumas temporadas atrás. Nossa casa não é bem abastecida em matéria de doces (surpresa!), principalmente com mamãe em plena Operação Entrar à Força no Vestido do Concurso.

Quando digo que não estou me sentindo bem, ela fecha a porta do meu quarto sem fazer perguntas.

— Desculpe, querida, mas, a essa altura, não posso me arriscar a pegar nada. Vai descansar. Tira o dia de folga.

Para mamãe, cada segundo não passado no transport da academia ou negligenciando o concurso faz com que soe um estrondoso alarme. Nossa casa está uma zona de guerra, com mil tecidos, adereços e lantejoulas, mas até que esse caos me dá uma certa sensação de paz.

Eu quero — ou melhor, eu preciso passar alguns dias na preguiça. Não tomo banho desde domingo, e é um estranho conforto saber que minha aparência está quase tão nojenta quanto me sinto. Quando Ron me deixou entrar de licença durante a semana do concurso, não devia ser isso que ele tinha em mente.

Na noite de quarta, o senso de liberdade começa a evaporar, e eu me vejo deitada de bruços na cama ouvindo um dos discos de Lucy, que, para falar sem rodeios, é um dos piores da Dolly Parton. As músicas que eu quero esquecer que ela gravou. Como “Me and Little Andy”. Fala sério, qual é a dessa música, Dolly? É sobre uma garotinha cujo cachorro está morrendo. Quem quer ouvir um troço desses?

A campainha da sala toca, interrompendo meu desabafo interior. Sorrio com o rosto no edredom. Não poderia ir atender nem que quisesse.

A campainha toca de novo. Mamãe não deve estar em casa. E de novo, e de novo.

Acabo me arrastando da cama e desço as escadas sem a menor pressa. Fico na ponta dos pés e dou uma espiada no olho mágico. Suspiro. Bato a cabeça na porta.

— O que você quer? — grito.

— Me deixa entrar — pede Hannah. — Por favor. — E toca a campainha uma vez atrás da outra. Umas nove, dez vezes.

— Vai pra porta dos fundos — grito finalmente.

Ela nem pergunta por quê.

Abro a porta para ela, que passa direto por mim. Riot a fareja por um segundo antes de sair correndo.

— Eu te liguei umas oitenta e cinco vezes este fim de semana — diz Hannah. — E olha que eu nem gosto de ficar no telefone. — Ela me entrega um Tupperware com um tipo de cozido. — Minha mãe queria que eu te trouxesse um pouco do sancocho que ela preparou.

— Sua mãe? — Abro a geladeira e enfio o pote entre uma caixa de leite e uma jarra de suco de laranja. — Eu nem conheço a sua mãe.

— Pois ela virou sua fã número um por causa desse concurso idiota, por isso espero que você fique orgulhosa. — Ela se joga na cadeira da mamãe à mesa da cozinha. Acho que Hannah é o tipo de pessoa que pode ficar à vontade na casa de qualquer um, sem fazer aquela cerimônia toda que a maioria de nós faz quando vai a um lugar pela primeira vez. Ela se debruça sobre os cotovelos. — Você não pode sair do con... Espera aí, está ouvindo Dolly Parton?

Dou de ombros.

Ela olha para mim, e então percebe meu estado atual.

— Tem muita coisa errada com essa imagem.

Encho uma xícara com café frio e a coloco no micro-ondas.

— Se com “errada” você quer dizer “certa”, então eu concordo.

— Quando foi a última vez que você tomou uma chuveirada?

O micro-ondas apita.

— Chuveirada é uma coisa muito subjetiva. — Dou de ombros. — Vamos para o meu quarto.

— Só se você tirar essa música horrível.

No quarto, levanto a agulha do disco, enquanto Hannah se esparrama na minha cama. Ela pega a Bola 8 Mágica na mesa de cabeceira e a sacode.

— Será que Will pirou geral? — Ela lê a resposta. — Pode contar com isso.

Eu me sento aos pés da cama e me deito de costas, atravessada nela. Talvez esse papo seja mais fácil se eu ficar olhando para o teto o tempo todo.

— Eu vou dar um chute: aconteceu alguma coisa com o Garoto do Banheiro.

— Garotos. Eram dois. E eu nem mesmo sei por que quis fazer isso. — Estendo os braços para fora da cama. — Talvez tenha achado que merecia as mesmas coisas que as outras garotas merecem. Sei lá. Mas sou diferente delas, e, mesmo que mereça as mesmas coisas, não significa que eu vá consegui-las. Subir naquele palco e competir com elas só serviria para provar isso.

— Não, senhora — diz Hannah. — Discordo totalmente. Você não merece vencer nada nem participar de qualquer concurso até ir à luta, batalhar. Talvez as gordas, as mancas ou as gengivudas e dentuças não costumem vencer concursos de beleza. Talvez não seja a norma. Mas o único jeito de mudar isso é marcando presença. Não podemos esperar as mesmas coisas que as outras garotas esperam até começarmos a exigi-las. Porque ninguém vai nos dar nada de bandeja, Will.

— Falar é fácil pra você. Eu entro numa sala e a primeira coisa que as pessoas notam é como eu sou enorme comparada com elas. Mas você só precisa ficar de boca fechada, e ninguém nota a diferença.

— Porra — reclama Hannah. — Golpe baixo. É verdade que eu posso ficar de boca fechada. Até ter que dizer alguma coisa. Experimenta só ser a filha lésbica de uma dominicana numa cidadezinha careta e conservadora do interior do Texas pra ver só uma coisa.

Balanço a cabeça.

— Desculpe. Eu estou péssima, e...

— E está projetando isso em mim etc., etc. Mas sair do concurso é fazer cagada. Se não vai participar por si mesma, então que seja por Amanda e Millie. — Ela morde o lábio e olha para o espelho na frente da minha cama. — E por mim também.

— Vocês vão ficar muito bem sem mim.

— Não vamos, não. Millie não vai poder participar, a menos que você participe.

Eu me sento.

— Como assim?

— Os pais dela descobriram sobre o concurso — conta Hannah, com a maior naturalidade. — Millie implorou de joelhos. Disse a eles que a sua mãe é quem dirige o troço, e aí eles disseram que, se você ia competir, então ela também podia. Mas só se você competir — Ela se cala para dar efeito. — E aí, você resolve fugir da raia.

Sinto o peso da culpa no peito. Umedeço os lábios descascados. Aos poucos, começo a tomar consciência de como me sinto nojenta depois de passar o fim de semana inteiro sem tomar banho.

— Olha só, isso é uma merda, realmente, mas...

— Mas o quê? Por favor, me diz que você não é uma egoísta.

Ela tem razão. Isso não é uma piada para Millie. Ela passou a vida inteira tietando e estudando essas misses, até finalmente se permitir ser uma delas. Fico batendo com a perna na cama enquanto penso. Não sei se isso vai me valer um bom carma. Talvez eu esteja num estado de espírito muito negativo, mas devo isso a Millie. Se não pretendo ir à luta e pegar a vida pelos chifres como ela, deveria, pelo menos, fazer a gentileza de não atrapalhá-la.

Hannah põe a mão na minha perna, aquietando-a.

Eu me viro para ela.

— Vai ser um desastre completo — digo.

Ela sorri quase sem abrir a boca.

— Conto com isso.

CINQUENTA E

 

CINCO

Os garotos são liberados da escola para viajar e competir nos jogos de futebol americano, por isso acho que não deveria me surpreender muito que as candidatas sejam dispensadas da sexta, véspera do concurso. O dia extra é passado entre provas de figurino exaustivas e entrevistas. Resumindo: bolhas nos calcanhares, metros de fita adesiva de dupla face e rios de lágrimas por toda parte. Isso não é um musical escolar de baixo orçamento. É o Concurso Miss Jovem Flor do Texas.

Na noite passada, Hannah me levou ao teatro comunitário, onde mamãe estava trabalhando, para que aprovassem meu guarda-roupa inteiro. Como eu não podia usar o vestido de gala, tive que pôr um preto de paetês no estilo “mãe da noiva” que encontrei no quarto da Lucy, numa das pilhas que mamãe separou para doar. Estava todo amassado, mas novo em folha, ainda com a etiqueta. Mamãe, Mallory Buckley e a Sra. Clawson me fizeram prometer passá-lo a ferro antes do sábado. Quanto ao traje de banho, minhas opções se limitavam ao maiô preto e ao vermelho de poás brancos que comprei no verão passado, mas até hoje não tive coragem de usar. Escolhi o vermelho. Se é pra fazer, faz direito.

De todo modo, o traseiro do preto está cheio de bolinhas.

O traje da prova dos talentos foi outro problema. Virei o quarto ao avesso até encontrar aquela faixa de melindrosa que eu tinha usado no Halloween. Coloquei o vestido preto do serviço religioso de Lucy, e mamãe concordou em me emprestar as luvas pretas de cetim se eu as devolvesse a tempo de ela poder usá-las na parte dos trajes de gala.

Na manhã de quinta, quando estou me vestindo, ela entra no quarto para ver o que vou usar na entrevista.

— Gosto dessa saia — diz ela. — Mas você podia colocar o blazer azul--petróleo que te dei de aniversário. — Dou uma olhada no espelho, considerando a sugestão, e concordo.

Vamos de carro até o Silver Dollar Banquet Hall, onde vão acontecer as entrevistas e o almoço. O ar-condicionado zumbe acima do vozerio fanhoso do rádio. Como o Dia de Ação de Graças já é na semana que vem, a temperatura está começando a cair, mas mamãe liga o ar no máximo porque está com aquele calor.

Estacionamos e ela veste o paletó bois de rose.

— Dumplin’, eu te amo. Espero que me deixe orgulhosa.

Meu estômago dá mil cambalhotas de pavor. Não quero envergonhar mamãe. Nem em mil anos.

— Mas — acrescenta ela — não posso deixar que pensem que estou te dispensando um tratamento especial, por isso vamos ser estritamente profissionais até a noite de sábado depois do concurso.

— Certo — murmuro. — Estritamente profissionais.

E este lugar é mesmo estritamente profissional. As candidatas têm que fazer fila diante do salão de banquetes. Ninguém tem permissão de conversar até as entrevistas

terminarem, o que não faz o menor sentido, já que não me parece ser o tipo de atividade em que se possa colar. Eles escolhem as perguntas de uma lista interminável e não fazem a mesma combinação para ninguém.

Depois das entrevistas vem o almoço, e, por fim, as candidatas têm permissão para arrumar seus espaços no vestiário. E é aí que a merda começa a feder. Amanhã será o dia da prova de guarda-roupa; a manhã de sábado está reservada para um ensaio rápido antes da apresentação, que começa pontualmente às sete da noite.

Estamos ridículas em último grau. Como se estivéssemos aqui para ter uma entrevista de emprego, e a única exigência fosse que as candidatas usassem um terninho de poliéster da mãe.

Fico assistindo enquanto as candidatas com sobrenomes começando por A, B e C entram e saem da entrevista. Algumas, com um largo sorriso. Outras, em estado de choque. E algumas às lágrimas. Sei que parece horrível, mas uma pequena parte de mim vê as que estão chorando como concorrentes eliminadas. Nem mesmo quero vencer, mas acho que há um instinto de sobrevivência em nós que entra em ação quando vemos outras pessoas falharem. Fico me sentindo um nojo; e extremamente humana.

Como estamos sendo chamadas em ordem alfabética, Ellen e eu — Dickson e Dryver — acabamos sentadas ao lado uma da outra. Toda vez que nossos ombros se roçam um milímetro que seja, ela se afasta de um jeito bem agressivo, como se tivesse levado um choque.

— Dickson? Willowdean Dickson?

Levo um susto e, por instinto, olho para El. Nossos olhares se encontram por um segundo, e vejo um lento sorriso se demorar nos seus lábios antes de ela perceber e desviar os olhos.

Vou me dar mal.

Mallory abre a porta para mim.

— Lembre-se — sussurra ela —, ninguém terá uma segunda chance de causar uma boa primeira impressão.

— Puxa, que encorajador — murmuro.

Os quatro jurados — que até agora eram anônimos — estão sentados em fila na frente do salão, por trás de uma mesa quilométrica.

Eles começam a se apresentar. Mas já sei exatamente quem são.

Tabitha Herrera. Proprietária não de um, mas de dois salões de beleza em Clover City: o Tabitha’s — um nome extremamente criativo — e o Tabitha’s 2. Tabitha faz de tudo, desde luzes até permanentes. Ela é o tipo de cabeleireira que tem a habilidade de controlar a mente da clientela. Você pode sentar na cadeira e jurar que veio fazer cachos, mas sair com um corte Chanel. E como isso faz parte do charme da Tabitha, ela te deixa pensar que a ideia foi sua. Ela tem uns peitos enormes e um megahair que combina com eles. Quando os nortistas pensam no Texas, é na Tabitha que eles pensam.

Dr. Mendez. Sei muito pouco sobre ele, a não ser que é o único ortodontista da cidade. Ele é da Filadélfia, de Boston ou de algum desses lugares em que as pessoas vivem aos gritos, e sempre parece meio irritado com tudo. Mas, enfim, acho que, se eu saísse da Filadélfia ou de Boston para vir morar num cafundó desses, também viveria com os nervos à flor da pele.

Grená McCall. Não estou brincando, o nome é esse mesmo. Não, ela não é uma estrela pornô ou a protagonista da nova novela. Os pais são formados pela Texas A&M (as cores da universidade são o branco e o vinho, mas acho que “Grená” soava melhor), e é uma ex-Miss Jovem Flor do Texas que se tornou professora de jardim de infância. Ela conseguiu chegar ao concurso estadual, onde foi a segunda colocada. Mamãe — que só competiu no concurso local, porque eu tinha nascido —, nunca chegou a confessar que sente inveja da Grená, mas, sempre que diz o nome da mulher, faz um ar de quem levou à boca alguma coisa fervendo e está prestes a cuspi-la.

Clay Dooley. Ou melhor: Clay Dooley Ford. Provavelmente é o cara mais rico de Clover City. O cabelo está sempre penteado à perfeição, e o jeans é só um pouquinho menos justo do que um torniquete. As fivelas dos cintos são enormes, de ouro, e devem valer mais do que o financiamento da nossa casa. Clay Dooley é cem por cento texano. Ele é o estereótipo que os pais do Dr. Mendez devem tê-lo ensinado a odiar. O cara é tão rico, que tem até tempo de ser jurado em concursos como esse, porque não é ele quem ganha a grana: tem empregados para fazerem isso.

Eu me sento diante deles e nenhum levanta os olhos, com exceção do Dr. Mendez. Os outros três folheiam papéis entre si e murmuram algo sobre o modo como a candidata anterior se esquivou das perguntas.

Grená finalmente levanta os olhos e, quando me vê, arqueia uma sobrancelha perfeitamente depilada. Tanto Clay como Tabitha têm o mesmo tipo de reação, mas conseguem disfarçá-la um pouco melhor. E é então que me dou conta de que sou a primeira das... suspeitas improváveis, como vou nos chamar.

Penso em todos os bons conselhos que já recebi na vida. A maioria foi de Lucy. Mas nenhum deles serve, nenhum me ajuda neste momento. Então, sintonizo mamãe. Se ela estivesse no salão neste exato momento, o que diria? Se não estivesse dirigindo o concurso e fosse apenas minha mãe, o que me aconselharia fazer?

Sorria, diria ela. E não se atreva a suspirar!

Sorrio. Com tanta força, que as bochechas chegam a doer. E faço o possível para não suspirar.

— Willowdean Dickson? — pergunta Tabitha.

Balanço a cabeça. Sorrio. Não. Paro. De. Sorrir.

— Dickson — repete Grená. — Você não é a filha da Rosie, é?

— Sou — respondo. Ouço a voz de mamãe na cabeça: Olha a educação. — Senhora — acrescento. — Sim, senhora — corrijo.

Clay pigarreia.

— Muito bem, vamos pôr mãos à obra. Willowdean... — começa ele, segurando uma nota de dólar novinha em folha. — Se eu lhe desse este dólar, o que você faria com ele?

É uma pergunta capciosa. Ainda estou sorrindo. Um dólar. O que eu poderia fazer com o dólar do Clay? Bem, poderia dar para um morador de rua. Comprar um donut. Sim, senhor, por favor, eu adoraria comprar um donut com o seu dólar.

Não, não. Tenho que voar mais alto. Caridade é óbvio demais.

— Eu daria uma passada numa papelaria e compraria uma caixa de canetas. Aí, na manhã do vestibular, iria para a porta de uma escola e venderia as canetas aos candidatos distraídos que tivessem esquecido as suas em casa. Por três dólares cada.

Os jurados ficam em silêncio por um momento, e então Clay solta uma risada.

Ao seu lado, Grená aperta os lábios.

— E o que faria com o dinheiro?

— Compraria mais canetas — respondo. Ela começa a anotar alguma coisa na folha de pontuação. — E depois, quando estivesse com uma boa quantia, doaria para uma instituição de caridade. Ou compraria uma cesta de Natal para uma família carente. — Criativa? Sim. Sensata? Sim. Abnegada? Sim.

Tabitha sorri para si mesma, e tenho a impressão de que até me dá uma piscadinha.

Quando os jurados terminam de escrever os comentários, Tabitha ergue o rosto.

— Temos mais uma pergunta para você. Qual é sua definição de lealdade?

É como se um aspirador sugasse toda a adrenalina do meu corpo. Não estou mais sorrindo.

— Lealdade. — Pronuncio a palavra sem pressa, tentando calcular quanto tempo me resta antes de ter que responder. — Lealdade é... Lealdade é dar uma força para quem precisa. É abnegação. É ficar do lado de alguém mesmo quando não se quer. — Ellen. Tudo que vejo é Ellen. — Porque se ama a pessoa.

Aquela noite em que ficamos deitadas na cama de El, conversando sobre a sua primeira noite, foi muito difícil. Eu me sentia como se estivesse com o estômago cheio de pregos, mas continuei ali, firme e forte. Ouvi cada detalhe, porque é isso que a gente faz pela melhor amiga. Sinto sua presença no corredor, pensando em mim. Pois, por mais zangada que esteja comigo, sei que está lá sentada se perguntando como estou indo diante desses jurados.

— A lealdade não é cega. — Embora eu preferisse que fosse. — Implica dizer a alguém que está errado, quando ninguém mais quer fazer isso. — Morro de vergonha por ter dito a El que não podia participar do concurso. Como se o fato de competirmos fosse estragar o que eu estava tentando demonstrar. Quando, na realidade, com ela, eu só fico mais forte. E sou a melhor versão de mim mesma.

Penso que meu mundo inteiro se estilhaçou em mil pedaços, e o único jeito de pôr tudo em ordem é recolá-los um de cada vez. E, para mim, o primeiro pedaço é sempre Ellen.

CINQUENTA E SEIS

É servido um churrasco na hora do almoço. Acho que o almoço deve ser alguma prova

secreta da nossa nota final, porque não há proeza maior para uma sulista do que a capacidade de comer churrasco e se levantar da mesa sem manchas nas roupas. Depois do almoço, ainda temos que aguentar um discurso da Ruth Perkins, uma ex-Miss Jovem Flor do Texas de setenta e oito anos, que prefere não usar o microfone porque dá microfonia no aparelho auditivo. O que nos obriga a sorrir e balançar a cabeça, enquanto ela fala no tom de voz de quem conta um segredo.

Depois de um tempo, chega um momento constrangedor em que Ruth fica esperando pelos aplausos, sem que nenhuma de nós saiba se ela já acabou de falar. Por fim, batemos palmas, e a Sra. Clawson sobe ao palco para lhe agradecer e oferecer um buquê de flores.

— Muito bem, senhoritas — diz ela ao microfone. — Nenhuma de vocês pode sair antes de tirar uma foto para o jornal. Há cadeiras encostadas à parede, e vocês devem ocupá-las na mesma ordem alfabética em que foram chamadas horas atrás. Vocês têm cinco minutos para retocar a maquiagem.

Olho para Hannah, que está sentada ao meu lado, e arreganho os lábios.

— Tem alguma coisa nos meus dentes? — pergunto.

Ela faz que não.

— E nos meus?

— Nada.

Então nos separamos e nos dirigimos às nossas respectivas cadeiras, enquanto as demais rumam em peso para o banheiro. Espero que El venha se sentar ao meu lado. Não consigo obrigar meu cérebro a se concentrar no que eu poderia dizer, mas vou falar com ela. Tenho que falar.

Ela se joga numa cadeira ao meu lado, e lambe o polegar para tentar remover uma manchinha de gordura da lapela do blazer.

— Aposto que eles sabem como cortar manchas do enquadramento da foto — digo. — Ou tirar no Photoshop.

Ela continua lutando com a mancha, esfregando-a com uma obstinação que a torna cada vez pior, mas não responde.

Começam a nos chamar uma por uma, e passamos de uma cadeira para a outra cada vez que isso acontece.

Com duas garotas à minha frente, digo:

— Não queria mais que a gente continuasse brigada.

E espero pela resposta. Avançamos mais uma cadeira.

— Eu estava errada. — Mais uma cadeira. — Muito errada, e não suporto mais isso. Não aguento mais ficar sem falar com você todos os dias. Por favor, não fique zangada comigo.

— Willowdean? — chama Mallory.

Lanço um olhar para Ellen antes de me levantar. Ela vai ceder em breve. Tem que ceder.

— Willowdean?

— Não é tão fácil assim. — A voz de El está rouca, como se não falasse há dias. — Nós estamos nos tornando pessoas diferentes.

Continuar: parte 10 de 10