Dumplin'
A presente obra é disponibilizada pela equipe…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.
Ou talvez não seja mais da sua conta, digo a mim mesma.
— Millie convidou Malik. Do jornal — conta Amanda. — Ele é até charmoso, se você der um desconto para as sobrancelhas juntas. Ou se achar que uma sobrancelha em vez de duas é charmoso.
Viro o rosto para ela, grata pela distração, mas de repente sou atingida pela consciência da exata posição em que estou sentada. Talvez, se eu me empertigar um pouco mais, as gordurinhas nas costas desapareçam.
— E como ela fez isso?
Amanda começa a rir.
— Ela cantou para ele. Tocando ukulele.
Fico morta de vergonha pela garota. Provavelmente, todo mundo caiu na gargalhada.
— E depois? — sussurro.
— Ora, ele aceitou — diz Amanda, em tom de “Dããã, por que ele não aceitaria?”.
— Espera aí. Sério?
— E também vai acompanhá-la no concurso. Foi tão fofo. E ele até deu um beijo no rosto dela. Foi a coisa mais ousada que eu já tinha visto.
A aula continua se arrastando, e eu me pergunto o quanto sou idiota por esperar que Millie fosse humilhada. Se ela antes tivesse pedido a minha opinião, eu teria dito que a ideia era fofa, mas teria feito o possível para que não a pusesse em prática. Não por achar que ela não merece ir ao baile e ter um acompanhante, e sim por não querer que seja alvo de deboche. Nunca desejaria uma experiência dessas para ninguém. E, mesmo assim, Millie já passou por isso. Ela já serviu de exemplo de infinitas piadas.
Mas lá está a garota, totalmente na dela, sem dar a mínima para o que os outros vão pensar.
Quase me dói saber que ela está se aventurando de uma maneira tão corajosa. É como ver uma velha amiga de quem você se afastou e se lembrar de todas as experiências que compartilharam.
A aula acaba e sou empurrada pela porta por uma enxurrada de alunos. Posso ouvir Bo conversando com José Herrera sobre trigonometria e depois sobre uma festa.
No corredor, uma parede de garotas nos detém. Estão de mãos dadas, como numa partida de Red Rover.*
* Jogo em que os participantes de um time devem ficar de mãos dadas (como um cordão de isolamento), enquanto um participante do time adversário tenta romper o cordão. (N.T.)
— Desculpe pelo atraso — diz uma delas.
— Só vai demorar um minuto — acrescenta outra.
Bekah Cotter está atrás da galera, usando um shortinho jeans, sapatilhas douradas e uma T-shirt branca vários números acima do seu, com um nozinho amarrado às costas. Os dizeres em silkscreen são: Vem ao Baile da Maria Cebola comigo... Ela gira um bastão entre os dedos, esperando que o pessoal se aquiete.
Amanda está atrás de mim, flexionando os dedos dos pés.
— Só de olhar para esse short minha calcinha já entra na bunda.
Bekah respira fundo e, sem anunciar, gira o bastão no ar, atirando-o sobre o ombro para apanhá-lo em seguida, enquanto faz uma ginástica tão brusca e rápida que mal dá para acompanhar. É o máximo, e, ainda assim, nem um décimo tão complicado como o que já a vi fazer nas partidas de futebol americano. Seu talento vai arrasar no concurso.
Ela lança o bastão para o alto e faz o mesmo tipo de rotação doida, e então pousa de costas e pega o bastão no instante em que ele se encontra prestes a cair no chão. Quando seu traseiro está em pleno ar, fica claro quem ela vai convidar para o baile. Em cada um dos bolsos do shortinho jeans estão as letras B e O em glitter.
Os colegas da aula de história o empurram até a frente das garotas. Ele sorri, e mal tenho coragem de olhar quando Bekah segura sua mão. Bo dá uma olhada para o lado, e eu sei que me vê. Mas não há tempo para decisão ou pensamento. Ele concorda. E agora eles são Bekah e Bo. Bo e Bekah.
Empurro Amanda da minha frente e vou abrindo caminho por entre o tráfego de alunos que se dirigem ao estacionamento. Com os olhos fixos no chão, observo o mar de pés até encontrar um banheiro. Fico de joelhos e reviro a mochila, procurando uma coisa. O celular? Uma granada?
No fundo da mochila, encontro um marcador permanente. Retiro a tampa, me viro para o espelho e, como a pessoa totalmente sã que eu sou, começo a escrever na minha própria testa.
Eu não havia refletido sobre a logística de ir do ponto A ao ponto B enquanto estava escrevendo na testa. Só depois de me olhar no espelho é que me dou conta de que
agora não tem mais volta. Mesmo que eu queira, acho que é chamado de marcador permanente por uma razão.
Andando até o estacionamento o mais depressa possível, jogo os cabelos por cima do rosto, como o Primo Coisa da Família Addams, confiando na visão que me resta por entre os fios e rezando ao Menino Jesus para não ser atropelada.
E lá está ele. Caminhando até o seu carro.
— Mitch! — grito. — Mitch!
Essa foi uma péssima ideia. Aliás, acho que é seguro dizer que todas as minhas ideias são péssimas.
Ele se vira.
— Will? — Seu rosto se contrai, deixando transparecer a preocupação. — Aconteceu alguma coisa? Você está bem?
Quando chego a alguns passos dele, jogo os cabelos para trás, deixando que veja meu rosto.
Sua preocupação se transforma em perplexidade.
— alobeC airaM on somaV
— Merda — murmuro. — Escrevi na frente do espelho.
Ele abaixa os olhos, tentando esconder o sorriso de mim, enquanto escava o cascalho com o dedão do pé.
— E então, topa? — pergunto. — Ir comigo ao Baile da Maria Cebola?
— Não sei. — Suas bochechas se inflam. Ele fica aliviado por eu não ter esquecido do aniversário dele. Sou um ser desprezível. — Você vai de vestido?
— Topa ir?
Ele enfia as mãos nos bolsos.
— Tá, eu vou com você. — Ele estende a mão e esfrega minha testa com o polegar. — Isso é permanente, não é?
— Para sempre — respondo.
Seus olhos se iluminam.
Deveria ter acrescentado: “Como amigo.” Topa ir comigo ao Baile da Maria Cebola como amigo? Mas agora é tarde demais. Não vou estragar a diversão dele, embora sinta medo de ter agido pensando só em mim.
TRINTA E SEIS
É noite de sexta e estou esparramada no sofá, assistindo a um programa de entrevistas
que gravei, sobre gêmeas que alegam se comunicar telepaticamente.
Mamãe está na cozinha tingindo uma toalha para a mesa do júri.
O apresentador dá às gêmeas uma espécie de teste, com cartas de baralho, formulando perguntas que elas deveriam ser capazes de responder, graças às suas “habilidades”. A primeira acerta só cinquenta por cento e culpa a diferença de fuso horário e o jet lag causado por voar da Louisiana para Nova York.
Quando o programa entra nos comerciais, mamãe se senta no sofá de dois assentos e desamarra o avental do pescoço.
— Ufa! — exclama. — Vou deixar aquilo de molho por um tempo. — Pega o controle remoto e põe a tevê no mute.
— Espera aí — digo. — Dá um pause. Não quero descobrir o que vai acontecer por acidente.
Ela mexe no controle por um momento antes de devolvê-lo para que eu aperte o pause.
— Vamos conversar um pouquinho.
O papo deve ser sobre o concurso e como não o estou levando muito a sério. Ou como ela acha que vou acabar sofrendo uma humilhação.
— Desde que Lucy faleceu, não recebemos mais a pensão dela.
Território totalmente diferente do que eu esperava.
— E o valor do seguro de vida não foi muito alto, mas bastou para nos sustentar durante os últimos meses.
Endireito as costas. Minha visão demora um instante a se ajustar.
— Nós vamos vender a casa?
— Não, não. Nada disso. Em alguns anos terminamos de pagar. Creio que posso aguentar as pontas até lá. Não quero que se preocupe com isso.
— Tá...
— Mas não tenho condições de arcar com o conserto do seu carro.
É isso. Sinto um desânimo mortal. Sei que é uma idiotice me preocupar com uma bobagem como um carro quando obviamente temos outras coisas para pensar, como comida, luz, gás... Ainda mais considerando que, em tese, não precisamos dele. Mas aquela latinha velha vermelha é a minha liberdade sobre rodas. Clover City vai ficar parecendo ainda menor e mais isolada sem a minha Jolene.
— Desculpe, querida.
— Quanto vai custar?
— Por volta de três mil dólares.
Faço que sim. Isso é, no mínimo, um ano de trabalho no Chili Bowl.
— Talvez, se a gente fizesse um cofrinho...? Poderia pôr os trocadinhos do dia nele...
Torno a me recostar e aperto o play na tevê. Se fosse uma filha melhor, eu responderia que está bem, que compreendo. Posso não ser a filha que ela esperava, mas ela nunca me deixa na mão.
As primas estão de volta. Pessoas na plateia riem baixinho enquanto elas obviamente erram uma pergunta atrás da outra.
Mamãe se levanta e torna a amarrar o avental no pescoço.
Antes de ir para a cama, sento à escrivaninha do quarto, com Riot enroscado no colo. Quase todos os meus e-mails são spams, mas, soterrado por baixo deles, encontro um
enviado do e-mail de Lucy.
Meu estômago se enrola como uma espiral. Clico.
Mas é spam. Uma porcaria qualquer sobre taxas de juros.
Eu me recosto na cadeira e esvazio os pulmões. Se estou recebendo spams do e-mail da minha falecida tia, então talvez outras pessoas também estejam.
Saio da minha conta. Tento várias vezes, até que finalmente adivinho a senha de Lucy. DUMBBLONDE9. Uma das suas músicas favoritas da Dolly e seu número da sorte. Já estou prestes a fechar a conta, mas me distraio com as mensagens acumuladas durante meses. A caixa de entrada está lotada de e-mails não lidos, num verdadeiro lembrete de que somos seres passageiros num mundo permanente.
Clico em algumas. Não vejo nada que chame a atenção, até a quinta página. No espaço do assunto, topo com uma dizendo: NOITE DA DOLLY PARTON!
TRINTA E SETE
As estrelas de cartolina e as faixas de papel crepom penduradas do teto não bastam
para me fazer ignorar o cheiro de suor e esquecer que nós estamos no ginásio. A música ecoa pelas paredes, lembrando a todos que este lugar não foi construído pensando-se na acústica.
— Ficou muito legal — grita Mitch no meu ouvido.
— É... Ficou, sim. — Só que não. Deve haver umas quinze pessoas dançando, enquanto as demais se espalham pela arquibancada. Há uma estranha tensão hormonal no ar que eu nunca tinha notado. Talvez porque os alunos estejam se pegando em público à vontade, de um jeito que jamais seria tolerado no horário normal das aulas.
Ellen está na arquibancada ao lado de Callie e do namorado. Tim está com o braço em volta do ombro de El, a cabeça tão inclinada para trás que acho que é capaz de estar cochilando. O namorado de Callie é superatencioso e fica passando a mão na coxa da garota de um jeito safado que me dá calafrios, enquanto ela e El trocam sussurros, compartilhando segredos, com certeza.
Pego Callie apontando para mim, e me viro.
— Vou dar um pulinho no banheiro.
Os lábios de Mitch formam uma pergunta, mas ele se limita a fazer que sim.
No banheiro, abro a torneira ao máximo e deixo que a água quente me escorra pelas mãos até ficarem vermelhas. É horrível não poder ir até lá e dizer a El que papel ridículo eu fiz ao convidar Mitch para o baile. Essa distância entre nós começou há meses. Sei disso. Mas talvez ela não saiba. Talvez a pessoa só note quando é ela que está sendo deixada para trás. Eu deveria ter segurado minha língua comprida e mantido o concurso em segredo, mas a inscrição de Ellen me fez sentir como se o time adversário tivesse vencido.
— Posso te dar um conselho?
Endireito as costas, o cérebro voltando da viagem.
— Oi, Callie.
Ela me observa no reflexo do espelho.
— Eu sei que a El foi muito legal contigo desde que vocês eram pequenas. Mas dizer a ela que não poderia entrar no concurso foi muita sacanagem.
Estou me sentindo nua. Como se, de algum modo, em meio a toda à sua raiva, El pudesse ter revelado cada um dos meus segredos e inseguranças.
— Escuta aqui, Callie, não te conheço, e nem tenho que conhecer muito para saber que não gosto de você. Portanto, cai fora e vai cuidar da sua vida.
— Tudo bem. — Ela levanta as mãos. — Sabe, ela está mesmo melhor sem você. Pelo menos agora você não está por perto para arrastar a El-bell pra baixo. — Ela dá meia-volta, mas torna a se virar de repente e acrescenta: — E sabe do que mais? Se você fizesse um mínimo esforço para se cuidar, ficaria surpresa de ver a diferença enorme que faria. E eu nem estou sendo grosseira, só honesta. — Ajeitando o decote do vestido, ela torna a arrumar os peitos no sutiã. — A propósito, ao contrário do que você e suas amigas possam pensar, esse concurso não é nenhuma atividade extracurricular beneficente onde você recebe nota dez pelo empenho. — Callie se afasta. Ainda bem, porque estou a dois passos de quebrar o nariz dela.
A porta se fecha às suas costas, e eu fico ouvindo os saltos batendo no piso de vinil.
Talvez ela tenha razão. Talvez minha vida entrasse nos eixos se eu conseguisse perder cinquenta quilos. Prendo as lágrimas que brotam nos olhos. Talvez meu corpo e eu sejamos os únicos culpados.
Mitch está esperando fielmente por mim atrás do DJ, que não é realmente um DJ, mas um técnico de time de basquete universitário com um iPod e acesso às caixas de som.
Dou uma cotovelada no seu braço.
— Vamos dançar.
Ele me segue até a pista de dança, onde encontro Millie com o namorado, Malik. Amanda está ao lado deles.
Estou começando a adorar Amanda. Ela é ríspida, esquisita e o oposto de todo mundo que conheço. É o tipo de pessoa que vai fundo em qualquer situação e leva as brincadeiras longe demais. No momento, com a cabeça balançando e os braços e as pernas se agitando, ela quase parece uma daquelas bandas de um homem só, porém sem os instrumentos.
Apresento-os a Mitch, embora todos nós estudemos juntos há séculos.
Amanda me dá uma cotovelada e cochicha:
— Nada mau. Mas não se compara com o Bundinha de Pêssego.
— E você? Convidou alguém?
Ela se inclina para mim, sem parar de agitar a cabeça.
— Minhas opções eram limitadas, por isso decidi vir sozinha.
— Você não está sozinha! — grita Millie. — Está com a gente. Não é, Malik?
Malik segura a mão de Amanda.
— Sim, é claro.
Meu coração de manteiga se derrete. Porque, para mim, Malik e Millie são o rei e a rainha de todos os bailes, o do Homecoming, o de inverno, o de primavera e o de formatura combinados num só.
A próxima música começa a tocar, e é o tipo de lentinha que faz os casais esfregarem os umbigos. Como são seres humanos horríveis, Millie, Amanda e Malik nos abandonam, indo até a mesa dos salgadinhos e refrigerantes.
O espaço ao nosso redor não para de se encher de adolescentes no cio. Mitch deve notar o pânico no meu rosto. Ele segura meus braços, fazendo com que eu os passe pelo seu pescoço. Suas mãos fortes mal tocam minha cintura, mas mesmo assim contraio o estômago o máximo possível. Não consigo me controlar. E, no meio de todos aqueles amassos e beijos, começamos a dançar.
— Gosto de ir com calma — diz Mitch. Ele está um perfeito cavalheiro sulista com calça cáqui de vinco, camisa xadrez com botões de pressão imitando madrepérola e botas marrons.
Aos poucos, deixo que meu corpo relaxe contra o dele.
Dançamos devagar ao som de músicas rápidas e dançamos rápido ao som de músicas lentas, criando nosso próprio ritmo.
Patrick se aproxima de nós, tirando uma casquinha do maior número possível de garotas no caminho.
— Beleza, Mitch. Se eu fosse você, cara, tomava cuidado com essa aí. Ela é violenta. — E para mim: — O fabricante de bebês ainda funciona, caso esteja se perguntando.
— Que Deus nos proteja — comento, balançando a cabeça.
Patrick movimenta o corpo, flexionando os calcanhares.
— Ouvi dizer que você convenceu algumas amigas a participarem do concurso. Deveria perguntar a elas se sabem que é um concurso de beleza, não uma exposição agropecuária.
E vai embora antes que ele ou eu possa responder.
Mitch dá um passo à frente, mas aperto seu braço, puxando-o de volta.
— Você sabe que ele é podre, não sabe? — pergunto.
— Não estou tirando sua razão.
Só vejo Bo e Bekah durante uma música lenta, parecendo o tipo do casalzinho que posa para fotos de camisa branca e jeans, ou que sai de férias com a família no verão.
E que ódio que isso me dá.
Encosto o rosto no ombro de Mitch. Bo levanta os olhos, mas dessa vez não desvio os meus. Ali, na pista de dança do ginásio, nossos olhares se encontram. E eu imagino que somos ele e eu dançando, totalmente a sós. Não porque o salão esteja vazio, mas porque ninguém mais importa.
— Fui a um baile no ensino fundamental — conta Mitch. — Minha mãe me obrigou. Tive que usar aquele terno todo empetecado que a gente usa no domingo de Páscoa. Eu era o único garoto que estava produzido daquele jeito.
Meus olhos continuam em Bo, e tenho aguda consciência do incêndio que devora meu peito.
— Você teve um encontro? — Minha voz vem de muito longe.
— Ninguém chegava a ter encontros na época. Quer dizer, havia casais que se consideravam namorados, mas era só isso.
Bekah diz alguma coisa e, após um momento que me dói como uma despedida, Bo desvia os olhos. E os dois se afastam por trás de uma muralha de gente.
Fico olhando para o espaço vazio deixado por ele.
— Você dançava com alguém? — pergunto.
Mitch passa o dedo lentamente pela minha coluna, e sei que esse pequenino gesto é um grande avanço para ele.
— Não. Ficava a noite inteira sentado numa cadeira dobrável perto dos adultos que acompanhavam a molecada. Ou com uns garotos que treinavam arremessos na cesta de basquete do outro lado do ginásio. Mas dançar, não.
— Bom... — Levanto a cabeça. — Agora você está dançando.
Ele sorri.
— Valeu a pena esperar.
Mais tarde, quando nos dirigimos ao estacionamento com os sons do baile silenciando atrás de nós, meus sapatos de salto gatinha parecem querer se livrar dos meus pés, e Mitch estende o braço para mim. No baile, as regras não se aplicavam. Eu tinha permissão para encostar a cabeça no seu peito e deixar que ele me abraçasse, porque era um baile e é isso que a gente faz nos bailes. Mas aqui, fora da bolha, é diferente. Não quero incentivá-lo a transformar nossa amizade em algo que não é.
Ele sorri. Passo o braço pelo dele, porque já estraguei coisas demais nos últimos tempos e não estou disposta a acrescentar essa noite à lista.
— Você ainda não está falando com a Ellen?
— Não. — Sem especificar as circunstâncias, eu tinha lhe contado sobre a nossa briga, e que fora feia. Não queria falar mais do que isso, e nem ele perguntou.
— Vocês sempre foram inseparáveis. Eu me lembro daquele dia, no sexto ano, em que estávamos lendo nossas dissertações sobre When the Red Fern Grows,* na frente da sala. * Romance infantojuvenil do autor Wilson Rawls, sobre um menino que compra e adestra dois cães de raça. (N.T.)
Faço que sim.
— Ela sempre chorava quando nós chegávamos à parte em que o cachorro morre. — El detestou aquele livro. Não é do tipo de pessoa que lê uma história que a faça chorar e pensa que foi boa porque a comoveu. Não, livros e filmes que fazem Ellen chorar a enfurecem, como se fossem uma espécie de traição.
— E aí você terminou de ler a dissertação para ela.
— Ela tinha ensaiado dezenas de vezes na frente do espelho. Ficava furiosa quando começava a chorar. — Levanto a cabeça ao me dar conta de que estava o tempo todo encostada ao braço de Mitch.
Ele abre a porta do carro para mim.
— Por quanto tempo mais você vai deixar que role esse clima?
Por uma fração de segundo, penso que ele está se referindo a nós dois.
— Olha... — começa Mitch. — Obviamente eu não conheço a história inteira, mas as boas amizades são duradouras. Elas têm que sobreviver aos vãos, às fendas e às dificuldades da adolescência.
TRINTA E OITO
Amanda Lumbard é uma tremenda barbeira, mas, como Millie não vai poder usar a van
da mãe hoje à noite, é a única de nós que dispõe de um carro que esteja funcionando e que tenha capacidade de acomodar as quatro confortavelmente.
— Foi muito legal da parte da sua mãe deixar a gente usar a van — diz Millie.
Amanda dá de ombros, o pé fundo no acelerador.
— Ela ficou animada quando soube que eu ia sair com umas amigas. Mesmo sendo numa noite de terça.
Balanço a cabeça. Não cheguei a dar todos os detalhes quando as convidei por uma mensagem de grupo.
EU: Meninas, acho que todas concordamos. Ainda falta resolver algumas questões antes do concurso.
Vai ter um evento no mesmo estilo em Odessa amanhã à noite, e acho que a gente podia dar uma
conferida para ver se pegamos algumas dicas.
HANNAH: Minha agenda está lotada.
EU: E também vamos precisar de uma carona. Meu carro está fora de circulação.
MILLIE: Estou aqui com a Amanda. Nós topamos. Ela pode dirigir. Mal podemos esperar!
HANNAH: Tudo bem. Eu vou.
A meia verdade é que estou me sentindo responsável pelas três, e achei que talvez estivéssemos mesmo precisando de umas dicas em relação ao concurso. Não estou tentando bancar a chefona, mas, se não tivesse sido eu a começar tudo isso, nós não estaríamos nesse barco.
A verdade inteira é que estou precisando de uma carona. É meio egoísta da minha parte, eu sei. Mas paguei para pôr gasolina no carro da Amanda, e encher tanque de van não sai nada barato. Portanto, até certo ponto, estou absolvida.
Enquanto nos distanciamos cada vez mais da cidade, fico ouvindo Millie e Amanda discutirem alguma série literária que estão lendo, sentada no banco traseiro com Hannah e uma folha amassada na mão.
NOITE DA DOLLY PARTON!
Venha torcer por sua sósia favorita da Dolly competindo pelo título de melhor periguete do
Texas! A vencedora ganha o direito de ficar toda-toda e um suprimento de batons da Avon
durante um ano, cortesia da nossa querida Kiwi Lavender! The Hideaway, esquina da Palmer
com a Fourth, Odessa, Texas. As portas se abrem às 20! O show começa às 21!
Quando entramos no estacionamento, Millie se vira para mim.
— Tem certeza de que esse é o lugar certo?
Dou uma conferida na rua transversal e aponto o letreiro em néon rosa--choque com o nome piscando: THE HIDEAWAY. Reconheço o local da foto de Lucy que a Sra. Dryver me deu de lembrança.
— Tenho, é aqui mesmo.
— Que tipo de concurso rolaria num bar? Isso é um bar, não é? — pergunta ela.
Pigarreio.
— Acho que o melhor a fazer é não ter preconceitos. E eu não disse que era exatamente um concurso.
Hannah dá uma risada.
— Está com pinta de ser divertido.
Saímos do carro.
Amanda para no meio da poça de luz que pisca abaixo do letreiro.
— A van da minha mãe vai ficar segura aqui, não vai?
Nenhuma de nós responde.
Há uma curta fila diante da porta, com um grupo de gays à nossa frente. Ou caras que presumo que sejam gays. Vou parecer uma perfeita caipira por confessar isso, mas acho que nunca conheci um gay. Quer dizer, que fosse assumido. Tenho certeza de que há gays em Clover City, mas todos de que ouvi falar eram tratados como lendas urbanas ou advertências. Lucy tinha vários amigos gays em redes sociais, porque, como costumava dizer, Dolly Parton é a diva padroeira dos gays.
Há momentos na minha vida em que me sinto como se já soubesse tudo, como se já tivesse explorado tudo, sem deixar pedra sobre pedra. Mas coisas assim me lembram de como o meu mundo é pequeno.
— Gente, acho que os caras são gays — sussurra Amanda depois que eles entram no bar.
Hannah revira os olhos.
— Não diga! Sério?!?
Amanda nem se abala com o comentário.
— Como é que eles conseguem ter sobrancelhas tão perfeitas?
O segurança parado diante da porta é um tipo grandalhão, corpulento e barrigudo, mas só está usando uma calça jeans e um colete de couro.
É difícil imaginar Lucy nesse lugar, mas então lembro a sombra azul-turquesa que a vi usando naquela foto, e isso já não parece tão impossível.
— Identidade — rosna o sujeito.
— Hum, pra quê? — pergunta Millie.
— Só entra maior de dezoito — responde ele.
Sinto um desânimo mortal.
— Não era isso que o e-mail dizia — reclamo.
— Pois é o que eu estou dizendo — rebate ele.
Hannah passa por Millie e Amanda.
— Escuta aqui, moço, a gente se despencou de Clover City pra vir ao show. Tem noção da distância?
Ele solta um resmungo.
— Justamente — diz ela. — É claro que não tem, porque é um cafundó do Judas que ninguém conhece. Nós dirigimos por mais de duas horas para sair daquele fim de mundo, e você não pode agora vir nos dizer que foi pura perda de tempo.
O sujeito umedece os lábios. Quase chego a pensar que Hannah conseguiu dobrá-lo. Afinal, é só olhar para nós: Millie está com um macacão de poliéster e Amanda usando um short de futebol — acho que pode até ser o mesmo de ontem. Não fazemos o tipo de garotas que vão a um bar para encher a cara. Bem, Hannah até que seria capaz.
— Nada feito — teima o cara. — Desculpe, meninas, mas não vai rolar.
— Dá só uma olhada nesse e-mail — insisto, como se fosse fazer alguma diferença.
Ele tira o papel da minha mão e fixa os olhos no alto da página, antes de dizer:
— Esse e-mail não é seu.
Engulo em seco.
— É da minha tia. Lucy.
Ele dobra o papel com cuidado e o devolve. Tira quatro pulseiras laranja fosforescentes do bolso do colete e as prende em nossos pulsos.
Meu queixo despenca.
— Se alguma de vocês der uma olhadinha sequer na direção do bar, vai ser explulsa na hora. — Ele segura meu braço enquanto as outras entram. — Lucy era gente finíssima.
Faço que sim e agradeço à minha tia em silêncio pelo pequeno milagre.
No salão, encontramos uma mesinha ao lado do palco, a léguas do bar. O garçom passa, dá uma olhada em nossas pulseiras e traz quatro garrafas de água mineral.
Millie puxa a cadeira para mais perto e ajeita os cabelos.
— Tem homem aqui que não acaba mais, hein?
Hannah dá uma olhada ao redor por um momento, e a expressão no seu rosto se transforma.
— Deixa eu ver aquele e-mail?
Eu me afasto dela.
— Como assim? Por quê? Não.
Ela estende a mão para o meu bolso e, embora eu empurre suas mãos, consegue arrancá-lo. Millie e Amanda estão cada uma no seu mundo, apreciando o panorama. Hannah dá uma segunda olhada no e-mail.
— Puta merda — murmura.
As luzes começam a se apagar.
— O que é?
Ela balança a cabeça.
— Ah, meu Deus. Você nem sabe, né? — Ela dá um tapa na mesa, soltando altas gargalhadas. — Millie, a sua mãe vai te fazer lavar os olhos com sabão quando você chegar em casa!
A boca de Millie forma um O, mas é tudo que vejo antes de todas as luzes se apagarem na boate, menos os tubos fluorescentes que contornam o balcão do bar.
Dos alto-falantes sai uma voz baixa e sensual:
— Vadias e vagabundos, divas e divos, bem-vindos à Noite da Dolly Parton na The Hideaway!
A galera vai ao delírio.
— A primeira a honrar o nosso palco hoje será a adorável Srta. Candee Disch!* Vamos recebê-la com uma salva de palmas!
* Trocadilho com candy dish, bomboneira. (N. T.)
Um refletor ilumina o centro do palco onde está uma mulher alta, com uma peruca loura escandalosa, usando um longo de veludo verde-limão. A maquiagem é exagerada e os lábios, carnudos e delineados a lápis. A música começa, e bastam algumas notas para eu reconhecê-la: “Higher and Higher”.
“Your love has lifted me”, canta ela. “Higher, higher, and higher.”* * Seu amor foi me elevando/ Cada vez mais alto. (N.T.)
Então o ritmo acelera e, embora ela seja reta e magra, os quadris parecem mágicos quando começa a rebolar, e ela exibe no palco tudo a que tem direito. Fico totalmente fascinada. Tanto, que nem me lembro de observar a reação de minhas amigas. Canto junto com Candee Disch, e só quando ela está prestes a sair do palco é que percebo que Hannah está às gargalhadas.
Meus olhos já se acostumaram ao escuro. Millie se vira para mim, a boca ainda no mesmo formato de O de quando as luzes se apagaram.
— Willowdean, corrija-me se eu estiver errada, mas isso era um homem. E um homem muito bonito.
Dou uma olhada rápida ao redor. Homens de mãos dadas. Mulheres se abraçando.
— É melhor que o Big Brother — comenta Amanda.
A multidão aplaude e Candee Disch faz uma reverência.
— Agora, uma salva de palmas para a lendária Britney Swears!* * Trocadilho com o nome da cantora pop Britney Spears e o verbo to swear, na acepção de “xingar”. (N. T.)
Outra mulher sai dos bastidores, e dessa vez percebo o contorno áspero do maxilar quadrado, os ombros largos e a leve sombra da barba por baixo da maquiagem, apesar da depilação bem-feita.
É um show de drag queens.
Endireito as costas na cadeira.
Sinto uma onda de excitação se espalhar pelo corpo. Pela primeira vez desde a noite em que me sentei na traseira da caminhonete de Bo para assistir à chuva de meteoros, eu me sinto como se minha vida estivesse acontecendo.
— Estou quase deslumbrada — declara Hannah.
Ficamos assistindo ao desfile de drag queens de todos os tipos, cores e tamanhos que dão tudo de si e esbanjam talento no palco daquela boatezinha fuleira nos confins do Texas. Elas usam vestidos cintilantes e sofisticados, saltos altíssimos e perucas insanas. Cada uma tem seu próprio tipo de beleza. Rola até um dueto com uma mulher travestida de Kenny Rogers, numa interpretação de “Islands in the Stream”.
Mas a minha favorita é uma drag asiática mignon, com o nome de Lee Wei. Está usando um minivestido azul-claro com uns paetês tão longos que toda vez que ela se move é como se desse uma pincelada de cor no palco. Quando o refletor a ilumina e a música começa, basta uma nota para a boate inteira ir ao delírio. “Jolene.”
Sei que é um clichê, mas, se tivesse que ouvir uma única música pelo resto da vida, seria “Jolene”. Todo mundo adora, mas, para mim, só quem conhece as mais profundas mágoas tem o direito de chamá-la de sua. Afinal, Dolly Parton — A Autêntica — canta para uma Jolene misteriosa que pensa que é mais bonita e melhor do que ela, implorando que não roube o seu homem. É irresistível e todo mundo sabe a letra, mas, para mim, o que vale é esse lembrete de que, seja você quem for, sempre haverá alguém mais bonito, mais esbelto ou mais inteligente. A perfeição não é nada mais do que um fantasma que perseguimos. Se eu tivesse voz para cantar, essa seria a música que apresentaria no concurso.
Quando a canção termina, seco as lágrimas que nem tinha notado que estavam escorrendo.
No fim da noite, nós quatro saímos da boate com uma expressão de pasmo, como se tivéssemos passado horas sentadas perto demais da tevê.
Quando estamos voltando para a van, alguém nos chama da porta dos fundos.
— Ei! Meninas!
Dou meia-volta. É o segurança de horas atrás.
— Podem ir — digo a Millie, Hannah e Amanda. — Volto num segundo.
O cara corpulento está sentado num banquinho, mantendo a porta aberta com as costas.
— Meu nome é Dale — diz ele. — Se divertiu com o show?
Faço que sim.
— Acho que é seguro dizer que foi uma experiência transformadora na minha vida.
— Parece algo justo a dizer sobre a maioria dos shows de drag queens.
Meneio a cabeça em direção à van.
— Minhas amigas também se divertiram.
— Lee! — ele chama alguém às costas, amassando a guimba de cigarro com o pé. — Querida!
Lee Wei, a drag queen que cantou “Jolene”, sai rebolando da porta dos fundos. Parece ainda mais baixinha e rechonchuda sem os saltos altos. Ela olha para nós dois e sorri, embora obviamente não faça a menor ideia de quem eu seja.
— Se lembra da Lucy? — pergunta Dale. — A que costumava vir aqui com Suze Dryver?
A mãe de El. Oh, Jesus. Como gostaria que El estivesse aqui. É a única coisa que poderia tornar essa experiência ainda mais perfeita.
Lee leva a mão ao peito.
— Ah, a gracinha da Lucy! É claro que me lembro. — Sua voz é mais grossa do que eu esperava.
— Essa é a sobrinha dela — informa Dale.
Concordo com a cabeça.
— Willowdean.
Sem hesitar por um segundo, Lee segura minha mão.
— Lamento demais — diz ela. — Ficamos muito tristes quando ela faleceu.
— Ob-brigada — gaguejo, e não sei por quê, mas acrescento: — Tenho me sentido muito perdida sem ela. Como se ela fosse uma bússola que eu nem sabia que tinha.
Lee faz que sim, e Dale aperta os lábios numa linha fina.
— Pode mandar um e-mail para a boate se precisar de alguma coisa — avisa ele.
Lee se aproxima e sapeca um beijo na minha testa.
— Não há nada de bom em perder alguém — diz ela. — Mas talvez Lucy não devesse ser sua bússola para sempre. Talvez ela só tenha estado aqui para te orientar por um tempo, até você aprender a ser a sua própria bússola e encontrar o seu caminho no mundo. — Ela pisca para mim. — O universo é muito estranho.
Deixo Dale e Lee na saída do camarim e entro na traseira da van.
— O que eles queriam? — pergunta Amanda.
— Dizer que não posso voltar até fazer dezoito anos.
— Você está com batom na testa — avisa Hannah.
— Eu sei. — E minha vontade é deixá-lo lá para sempre, como uma bênção. A última permissão de que preciso para me tornar minha própria musa inspiradora.
TRINTA E NOVE
Uma semana se transforma em duas, e eu me dou conta de que, além de sempre almoçar
com Mitch, tenho passado com ele quase todos os momentos que não dedico ao trabalho ou ao concurso. Quase chego a contar sobre o show das drag queens na The Hideaway, mas é como tentar explicar a cena favorita de um filme para alguém que nunca o viu — é impossível fazer justiça a ela.
Criamos uma espécie de rotina tranquila, em que vou à sua casa e fico vendo-o jogar videogame, às vezes até roubando o joystick da mão dele. Fico para jantar uma noite, mas tenho a sensação de estar ultrapassando um limite proibido.
Conforme descobri, Mitch e a mãe jantam juntos todas as noites, enquanto o pai faz a refeição com uma bandeja na frente da poltrona. Vejo-o chegar do trabalho, pegar uma cerveja e ficar esperando na sala que a comida lhe seja servida.
Jantamos nós três à mesa em total silêncio, somente os talheres raspando a louça dos pratos. Sinto vontade de perguntar a Mitch a razão de ser disso, mas tenho a impressão de que é um segredo que não devo conhecer.
Alguns dias depois, estamos à mesa almoçando, enquanto conversamos sobre o que pretendemos fazer após nos formarmos, quando ele mesmo toma a iniciativa de tocar no assunto.
— Não sei se posso deixar minha mãe — confessa. — Quer dizer, ele não chega a bater nela, nem nada. Mas eles não se falam. Nem uma palavra. E tenho a vaga esperança de que talvez o problema seja comigo, e aí, se eu for embora, as coisas vão melhorar.
— Por que eles não se divorciam? — O lar de uma mãe solteira foi tudo que conheci, e Lucy mais do que compensava a ausência de um pai vagabundo e aproveitador. Meu pai biológico foi um cara que passou pela cidade. Ele ficou por um tempo, mas não o bastante para se tornar mais do que um qualquer. Agora está em Ohio, Idaho ou seja lá qual for o estado famoso por suas batatas.
Mitch sorri de um jeito triste.
— Minha mãe não acredita em divórcio. E fica muito irritada quando toco no assunto.
Quando estou prestes a responder, Tim passa direto por nós.
— Espera um segundo? — peço, já me levantando para ir atrás dele. — Tim! — Olho em volta para ver se há algum sinal de Ellen enquanto o sigo até a fila da cantina.
Passo por três alunos do nono ano para me espremer atrás de Tim.
— Tim, por favor. Fala comigo.
Ele pega uma bandeja, e eu, outra.
— Nós também somos amigos — relembro.
Ele pega uma tigela de espaguete com queijo derretido no balcão.
— Eu sei disso, Will.
Torno a olhar para trás à procura de El, embora não a tenha visto no segundo tempo.
— Ela ficou doente hoje — informa ele.
A atendente me oferece um prato de peito de frango à milanesa, mas recuso com um gesto.
— Você tem que convencer El a falar comigo.
Ele faz que não com a cabeça.
— Quando é que alguém convence Ellen a fazer alguma coisa?
Ele tem razão.
— Por favor, Tim. Faz alguma coisa. Eu posso me encontrar com vocês um dia desses no estacionamento, ou, sei lá, de repente você pode marcar um encontro com ela no ginásio, e aí eu vou no seu lugar.
— Não vou enganar a Ellen para que ela fale com você. Não quero ficar no meio disso.
Tim paga pelo almoço enquanto a atendente dá uma olhada na minha bandeja vazia. Pego uma tigela de gelatina de limão e lhe entrego algumas moedas, sem esperar pelo troco.
— Não vai me dizer que ela não está infeliz sem mim.
— Tudo bem, eu prometo que vou tentar. Mas não vejo como isso vá fazer a menor diferença.
Balanço a cabeça mil vezes, fingindo que ele não disse a última frase.
— Obrigada. Muito obrigada.
— Eu odeio aquela tal de Callie — confessa ele.
Sinto uma onda de alívio no peito. Não há vínculo mais forte entre as pessoas do que um inimigo comum.
Volto apressada para a mesa onde deixei Mitch.
— Foi mal — peço.
Mas ele não está aborrecido.
— Não sou mais importante do que um súbito desejo de comer gelatina.
Enfio uma colherada na boca. Eu podia ter, pelo menos, pegado a de morango.
— Olha só — diz Mitch. — Sem querer forçar a barra, a minha mãe tem falado em fazer um mum pra você usar no Homecoming, e eu queria ter certeza de que não pegaria mal, sei lá.
Sorrio.
— Não, não “pegaria mal, sei lá”.
Os mensageiros do vento na porta do Chili Bowl tilintam muito raramente, o que significa que estou sempre correndo o risco de levar um susto quando isso acontece.
Ron, meu ex-patrão, entra no restaurante. Como o interior é igual a uma cabana de toras com acessórios vermelhos, ele fica parecendo uma bengala de Natal no meio de um depósito de madeiras, com essa camisa de listras vermelhas e calça branca.
— Ron — sussurro, contornando o balcão. — O que faz por aqui?
— Talvez eu queira comer um chili — responde ele, um pouco alto demais.
Cruzo os braços e lhe dou o melhor olhar de “até parece” do meu repertório.
— Tudo bem. — Sua voz cai alguns decibéis. — Olha, estamos desesperados e com o quadro de funcionários reduzidíssimo. Lydia está com uma carga horária de sessenta horas semanais para cobrir o seu turno, porque todo mundo que contratamos acaba encontrando coisa melhor e indo embora. Ela está ameaçando pedir as contas, e eu não posso me dar ao luxo de perdê-la.
Já estou fazendo que não com a cabeça antes mesmo de ele terminar.
— Me ouve. — Ele levanta a mão. — Você se demitiu às pressas. Posso estar velho, mas não sou burro. Não sei o que aconteceu, mas, seja lá o que for, prometo que os garotos vão se comportar como cavalheiros de agora em diante. Depois que você foi embora, encostei os dois na parede, Marcus e Bo, mas não consegui apurar nada. — Ele balança a cabeça, e vejo as rugas de exaustão ao redor da boca e dos olhos. — Dá mais uma chance pra gente. Estou te implorando, Will.
Abro a boca para dizer que não, mas não sai nada. Ron sempre foi muito bom comigo, e acho que devo a ele, pelo menos, fingir que vou pensar no assunto.
— Eu te dou uma resposta no fim de semana. Vou ter que pensar primeiro.
Ele levanta as mãos.
— Muito razoável. Muito razoável. — Tira a carteira do bolso traseiro da calça. — Vou querer um bowl de chili.
Só vejo mais alguns clientes até o fim da noite, o que me dá tempo de sobra para pensar. No começo, sou lógica. Você não ganha metade do que ganhava no Harpy’s,
e o seu carro ainda está preso na oficina. Pelo menos, lá o movimento é muito maior, o que faz o tempo passar mais rápido.
Então, lembro como tenho me sentido sozinha nessas últimas semanas. Millie, Hannah, Amanda e Mitch são muito legais — maravilhosos, na verdade. Mas nenhum deles é Ellen. A ideia de voltar para o Harpy’s é tentadora como uma barra de chocolate num momento de tristeza. E não é só por causa de Bo. Também sinto saudades de Marcus e Ron.
Bo foi a razão de eu ter ido embora. A razão por que não aguentava mais trabalhar lá. Mas agora a raiva que me forcei a sentir parece falsa. Uma espécie de encenação do que eu achava que deveria ser. E é óbvio que ele também já me tirou da cabeça. Não tenho certeza, mas ouvi uns boatos sobre ele e Bekah. Se eu não ficar me lembrando dos beijos que trocamos, talvez até possa me convencer de que os dois formam um lindo casal. Têm química. E talvez essa ardência no peito que só pode ser de ciúmes finalmente passe.
Antes de sair do trabalho, faço uma faxina geral na loja e reabasteço o balcão de condimentos, embora já esteja praticamente completo. Ainda estou pensando, digo a mim mesma. Ainda não me decidi. Dou boa-noite a Alejandro e entro no carro da mamãe.
Em vez de dobrar à esquerda do Chili Bowl, meu pé afunda no acelerador e quase voo pela rua afora até o estacionamento do Harpy’s. Agora não posso mais voltar atrás.
As portas do salão de jantar estão trancadas, mas bato mesmo assim.
Marcus abre o cadeado e me deixa entrar.
— Opaaa. Olá! O que aconteceu, Will? Está cheirando a cebola.
Bo me observa de trás do balcão com os olhos arregalados e o queixo trêmulo.
Não consigo desviar os olhos dele.
— Ron está no escritório? — pergunto a Marcus.
Se ele tirasse os olhos do cadeado em vez de ficar mexendo naquele chaveirão, veria tudo que aconteceu entre mim e Bo, porque nesse momento está claro como água. Escancarado. Para quem quiser ver. Está ali, na cara, exposto como um coração durante uma cirurgia de peito aberto.
— Acho que sim. — Ele finalmente tranca a porta às minhas costas. — Mas você ainda não disse o que veio fazer aqui.
Não respondo. A montanha-russa no meu estômago me leva pela sala dos funcionários até o escritório de Ron. Dou uma batidinha na porta aberta.
Lydia, que está sentada num caixote diante da mesa dele, se vira ao me ouvir.
— Ah, graças a Deus. A caixa pródiga à casa torna! — Ela se levanta e pega seu maço de cigarros na mesa. — Vou deixar vocês a sós. — Depois de dar as costas a Ron, abre um sorrisinho minúsculo para mim e fecha a porta.
Sem me dar ao trabalho de sentar, vou logo dizendo a Ron:
— Quero um aumento. E também vou precisar de dois dias de folga para... resolver um lance meu aí.
Ron responde sem hesitação:
— Posso te dar um aumento de setenta e cinco centavos. E vou combinar um novo horário com você. A gente chega a um acordo.
— Beleza. — Não esperava que fosse ser tão simples assim. — Bem, então, negócio fechado.
— Você está voltando?
— Estou.
— Aquele chili estava horrível. Tentei comer o troço, mas Lydia tinha ânsias de vômito toda vez que passava pelo escritório. Acho que estava brincando, mas, enfim...
— Horrível é apelido.
Ele ri baixinho.
— Estou feliz por você ter voltado. — Ele se levanta e me leva pela cozinha até o restaurante. — Pode começar a trabalhar na segunda?
— Estarei aqui.
Ele estende a mão para mim e trocamos um aperto.
Volto para o carro enquanto o olhar de Bo me segue, e a sensação faz surgir uma bola de fogo no meu peito que se espalha como o raiar do sol.
QUARENTA
Avisei a Alejandro que vou embora, e ele me olhou com um ar de quem pergunta: “Mas
por que demorou tanto?” Prometeu que eu sempre teria um emprego no Chili Bowl e me pediu para dar seu número a Ellen. Guardei o papelzinho dobrado no bolso e jurei esquecer que o tinha colocado ali. Estava uma pilha de nervos quando contei a Mitch que voltaria para o Harpy’s, mas ele deu de ombros e continuou jogando o videogame. Então me ocorreu que ele não tinha motivos para ficar chateado. Pela primeira vez, a omissão da minha história com Bo pareceu uma mentira.
Minha primeira noite no Harpy’s corre na mais santa paz. Marcus me bombardeia com mil perguntas sobre o Chili Bowl, tipo “Quem faz o chili?” ou “É verdade que eles não lavam as panelas?”.
Bo fica na dele, trabalhando na cozinha, mas entramos numa espécie de jogo de gato e rato com os olhos por cima dos balcões. Na hora do intervalo de Bo, Marcus se inclina para mim e diz:
— Ele quase foi demitido duas semanas depois de você ir embora.
— O quê? — Do jeito como Ron pintou a situação, não podia se dar ao luxo de demitir ninguém, portanto não posso imaginar o que Bo teria feito de tão grave assim para quase ser demitido.
— Ron mandou Bo ficar no balcão da frente enquanto ele trabalhava na cozinha, o que por si só já foi uma péssima ideia, e aí chegaram uns caras da escola em que ele estudava e Bo se recusou a atendê-los. Assim, na lata, disse que eles não eram bem-vindos. E os caras criaram o maior caso. Até os pais entraram na parada, e, pra encurtar a história, o único jeito de Bo não perder o emprego seria Ron colocá-lo de volta na cozinha.
— Nossa.
— O cara é muito louco. Tenho pra mim que ou ele vai se tornar um serial killer ou um astro do cinema. Com ele, não tem meio termo.
E eu gosto disso em Bo. Ou você está com ele, ou contra ele.
Marcus começa a falar sobre as mil faculdades que a namorada, Tiffanie, anda visitando e como ele pretende ir para alguma escola técnica perto da que ela escolher. Em nenhum momento se interrompe para me fazer uma pergunta ou pedir minha opinião sobre o que está dizendo, mas parece sentir um certo alívio por conversar com alguém que não fique enchendo seus ouvidos sobre os motivos pelos quais não deveria planejar a vida em função de uma namorada. Sei lá. Talvez os dois façam faculdade, se formem, se casem e sejam felizes para sempre. Só não quero entrar para a história como a idiota com quem ele trabalhou numa lanchonete que plantou as sementes da dúvida na sua cabeça.
Depois da limpeza, tiro a bolsa do armário e encontro um pirulito vermelho na prateleira. Tento não sorrir ao guardá-lo na bolsa.
Bo não faz comentários. Nem olha para mim. Mas, quando estamos indo para a porta, desembrulho o pirulito e o coloco na boca.
É um ramo de oliveira com sabor de cereja.
Quando chego em casa, encontro mamãe ajoelhada diante de um banquinho, Lacey Sanders de pé em cima dele com um vestido de baile e Bekah Cotter sentada no sofá,
digitando no celular.
— Oi, Dumplin’ — diz mamãe, com vários alfinetes presos nos lábios. — Lacey, como é que está essa bainha, querida? Não pode subir mais do que isso com aqueles saltos, ouviu?
Lacey estoura o chiclete e sopra uma bola.
— Sim, senhora.
Muitas coisas acontecem durante a temporada do concurso, mas mamãe reformando vestidos no meio da sala é novidade. E o pior é que, com Bekah aqui em casa, meu cérebro entrou no modo de alerta máximo daqueles videogames de Mitch, com letras vermelhas piscando acima da cabeça da garota: ALVO. ALVO.
Não pega nada bem ir para o quarto e deixar todas elas na sala, por isso me sento no sofá e estalo a língua até Riot sair do seu esconderijo.
Bekah levanta os olhos do celular e se vira para mim.
— Ah, oi. Você não trabalha no Harpy’s? Deve conhecer o Bo. — Ela nem sabe que sou uma ameaça; como poderia saber?
Lacey gira o corpo e vejo a expressão apavorada de mamãe.
— Lacey, querida, você tem que ficar parada.
— Desculpe, Sra. D. — Ela sopra outra bola de chiclete.
Dou uma olhada no meu uniforme.
— Eu conheci o Bo no verão, e só voltei a trabalhar lá hoje. Por quê? — Meu tom é ríspido, mas Bekah parece não notar.
— Aquele cara é estranho — comenta Lacey.
— Ele vai ser meu acompanhante no concurso — informa Bekah. — Quer dizer, ainda não fiz o convite, mas acho que ele vai aceitar.
— Pois é... — diz Lacey para Bekah. — A timidez dele pode ser... — ela abaixa a voz — ... uma merda, mas, pelo menos, ele vai ficar bem de smoking. Talvez até te deixe fazer malabares... com o bastão dele.
Sinto vontade de vomitar. Nos sapatos dela.
— Meninas! — repreende mamãe, levantando a voz.
Bekah abre um sorriso.
— É que nós fomos juntos ao Baile da Maria Cebola — explica ela.
Ignorando os protestos de Riot, ponho-o debaixo do braço e me levanto para ir para o quarto.
— Belo vestido, Lacey.
Eu me sento na cama, ainda de uniforme, e escrevo mensagens para Ellen que nunca vou enviar. Dou uma olhada para ver se perdi alguma do Tim. Toda vez que o vejo na escola, espero algum tipo de olhar cúmplice, mas o máximo que ele me deu até agora foi um tímido aperto de mão.
Depois de um tempo, mamãe bate à porta e entra sem esperar que eu dê permissão.
— Estou reformando vestidos este ano para faturar um dinheirinho extra. — Ela tira o elástico dos cabelos e os penteia com os dedos.
— Você podia ter, pelo menos, me avisado. — Bekah Cotter. No meu sofá. Não estou mais segura nem na minha própria casa. Mas, então, noto as olheiras fundas de mamãe. — Desculpa.
Ela faz que sim.
— Por pouco você não encontra a Ellen. Ela deu um pulo aqui com a mãe.
— Ela esteve aqui? — Na mesma hora meus olhos se enchem de lágrimas querendo se derramar.
— Só para fazer a bainha do vestido. Você conhece aquela menina. Pode comprar qualquer vestido de baile sem nem experimentar, e ainda assim cai como uma luva nela.
— Hum-hum. — Nem sei o que ela vai usar no concurso. Ou que talento vai apresentar. Ou se já começou a fazer o adereço para o número de abertura.
— Afinal, o que é que está havendo entre vocês duas?
— Eu e El? — Dou de ombros. — Só uma diferença de opiniões.
— Vocês vão fazer as pazes. Eu e Lu sempre fazíamos. — Ela avança mais alguns passos e se senta aos pés da minha cama. Tento me lembrar da última vez que a vi acomodada ali, mas nenhuma imagem me ocorre, e é como uma dessas lembranças que a gente pensa que são reais, mas não são, apenas gostaria que fossem. — Já pensou nos trajes que vai usar no concurso?
— Hum, não muito. — Mordo a pele ao redor da unha do polegar. — Mãe, você sente saudades dela?
— De quem?
Acho horrível que ela não saiba por intuição.
— Lucy.
— Lu. — Ela pronuncia o apelido como se soltasse o ar. — Sinto. É claro. O tempo todo.
Ficamos em silêncio por um momento.
— No ano em que venci o concurso, ela passou uma noite inteira acordada pregando lantejoulas no meu vestido. Que eu tinha comprado num brechó. Falei pra ela que ninguém notaria algumas lantejoulas faltando, mas ela nem se abalou, dizendo que a diferença entre a vitória e a derrota está nos detalhes.
As brigas entre as duas ocupam tanto espaço na minha memória, que às vezes chego a me esquecer de que, acima de tudo, elas se amavam.
Mamãe se levanta da cama.
— Os vestidos da butique da Cindy são caríssimos e ela teria que encomendar um para você, mas talvez nós mesmas possamos fazer um.
Quero me sentir grata por isso, por ela tirar a coroa de ex-rainha do concurso para ser só minha mãe. Mas não parece ser o suficiente.
— Às vezes — digo —, penso que não seria capaz de sentir mais saudades de Lucy do que já sinto, mas aí surge alguma coisa, como a necessidade de comprar um vestido, e eu me lembro de tudo que ela não vai estar aqui para ver.
Pela primeira vez em muito tempo, mamãe não diz uma palavra. Nunca me dei conta do quanto faltava na nossa relação até o momento em que Lucy já não estava mais aqui para preencher as lacunas. Agora, somos só nós duas, tateando no escuro.