Dumplin'

Julie Murphy · Capítulo 1 de 6 · parte 5/10

Páginas do PDF

Dumplin'

A presente obra é disponibilizada pela equipe…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.

— Claro, com certeza. Entendidíssimo.

Alguma coisa no seu sorriso me deixa nervosa.

— Obrigada.

Quando me encontro com El horas mais tarde, conto sobre o estranho diálogo com Millie.

Ela me segura pelos ombros e se inclina para mim.

— Will, você é a inspiração dessa menina.

Balanço a cabeça com veemência.

— Não sou, não.

— Ah, meu Deus, você tem um fã-clube!

— Ah, sai pra lá. — Um grãozinho de mim se enche de orgulho.

A chuva faz com que apareçam alguns clientes a fim de saborear um chili. É o maior movimento que já vi no restaurante até hoje. Sirvo um bowl atrás do outro, e, sem

levantar os olhos para ver quem é o próximo na fila, vou logo perguntando:

— Gostaria de experimentar o novo chili de feijão branco?

— Ah, sim. Um pote, uma tigela, um bowl, o que for. — Aquela voz.

Não levanto os olhos.

— O que você quer, Bo?

— Comer chili. Este é um restaurante especializado em chili, não é?

Mil palavras borbulham no meu peito, mas nenhuma é adequada, nenhuma diz exatamente o que eu quero. Porque a verdade é que não sei o que eu quero.

— Deseja mais alguma coisa?

Ele morde o lábio inferior. Que desaparece sob os dentes. Adoro esses dentes. São perfeitos, menos os dois da frente, que são trepados. Mas só um pouquinho. É como se o universo tivesse decidido que ele havia ficado perfeito demais e que precisava de algum defeitinho para compensar.

— Não — responde Bo.

Fico olhando enquanto ele atravessa a rua com a tigela de chili para viagem. Ele tira o boné do bolso traseiro e o coloca, antes de entrar correndo no Harpy’s.

Nos dois dias seguintes, abro a boca pelo menos uma dúzia de vezes para contar a mamãe que vou participar do concurso. Mas não consigo. Não posso ter essa conversa com ela. É como se ainda tivesse uma pontinha de esperança de que no dia em que for fazer a inscrição ela dê um grito de alegria. Que diga que sempre sonhou que eu participasse e seguisse sua carreira de miss. Mas que não queria me pressionar, porque achava que eu deveria descobrir o meu próprio caminho.

É um sonho do qual não quero acordar.

VINTE E NOVE

 

Eu sempre soube que o concurso era uma parte gigantesca da vida da mamãe, mas

nunca saiu de segundo plano para mim. Quando eu era pequena e ela precisava comparecer a alguma reunião ou ensaio, geralmente eu ficava em casa com Lucy, ou então ia para a casa da El. O concurso e tudo que ele incluía eram território exclusivo da mamãe.

As inscrições estão rolando no Centro da cidade, mais precisamente no Centro Comunitário de Clover City. Logo em frente há uma pracinha pitoresca com um coreto. O quarteirão sempre cheira a frango frito, graças ao Frenchy’s Fried’n’ Such, o restaurante que põe todos os concorrentes no chinelo.

El e eu nos sentamos num banco, enquanto conto as notas dos duzentos dólares da taxa de inscrição.

— Por acaso você não pediu à sua mãe para assinar o formulário, pediu? — pergunta ela.

— Não. — Menores de idade só podem participar do concurso com a autorização dos pais. E, no momento, o meu maior medo é que mamãe diga não. Na frente daquelas mil pessoas.

De lá do outro lado da praça, vem uma garota baixinha e gorducha agitando os braços freneticamente.

— El... — Franzo os olhos. — Não é a...?

Ellen levanta o rosto. E seu queixo cai.

— Ah, que bom que você ainda não entrou! — grita Millie. — Timing perfeito!

— Ela te adora — diz El. — É fascinada por você. — Ela se levanta e faz sombra aos olhos com a mão. — Aquela ao lado é... Amanda Lumbard?

Faço que sim.

— Nós também vamos nos inscrever — declara Millie.

— Vai demorar muito? — pergunta Amanda. — Minha mãe vai me matar se eu me atrasar pra pegar o meu irmão.

Olho para Ellen. Ela dá de ombros.

Millie põe as mãos nos quadris.

— Eu entendi que você não quer que a sua participação se torne um acontecimento, Will. E, para ser honesta, eu nem mesmo sei quais são seus motivos pessoais para participar. Mas você vai participar. E é isso que importa. Quero fazer parte disso. Nós duas queremos.

— Ela me obrigou a vir — resmunga Amanda.

Millie revira os olhos.

— Eu tentei convencer a Hannah Perez a participar também, mas ela não quis.

— Aliás — começa Amanda —, ela te mandou enfiar uma faixa de miss no seu rabo gordo.

Eu tinha dito a Millie que queria que isso ficasse entre nós, mas, com essas duas, foi o mesmo que pôr um anúncio na primeira página do Clover City Tribune. Não vou fazer isso para me tornar uma espécie de Joana D’Arc das Gordas. Vou fazer isso por Lucy. E por mim. Estou pronta para voltar a ser a garota que eu era antes de conhecer o Bo. Participarei desse concurso porque não há qualquer motivo para não fazer isso. Vou em frente porque quero cruzar a fronteira que me separa do resto do mundo. Não para me tornar a salvadora de alguém.

— Não é uma boa ideia — digo, balançando a cabeça.

— As melhores coisas na minha vida nunca começam com uma boa ideia — declara Millie.

— Millie, as pessoas são muito cruéis — respondo. — Eu sei disso. E tenho certeza de que Amanda também sabe.

Amanda concorda.

— Haters gonna hate.

— E participar desse concurso é como colar um cartaz gigante no traseiro com os dizeres ME CHUTA. Você não precisa da minha permissão, mas não quero ser responsável pelo que vai fazer.

Os ombros de Millie se curvam de desânimo.

Ellen escava a terra com o dedão do pé.

— Elas devem participar. Se Millie e Amanda querem entrar no concurso com você, então é o que devem fazer. Viva la revolución, e coisa e tal.

— Não — insisto. — Vocês devem é ir para casa.

Amanda dá de ombros e começa a se afastar, mas Millie não arreda pé da calçada, num pedido silencioso.

Ellen segura a minha mão e a aperta com força.

Suspiro.

— A taxa de inscrição para la revolución custa duzentas pratas.

A barulheira no salão do Centro Comunitário é igual à que reina no ginásio da escola durante a aula de educação física das meninas. Conversas em tom estridente

reverberam no teto, ecoando e se multiplicando, até as vozes de vinte garotas se transformarem nos gritos de cem.

Grupinhos se sentam em volta de mesas redondas com toalhas, as mesmas que mamãe passou a ferro na sala ontem à noite. As “herdeiras”, com as mães e as irmãs que já foram coroadas. As atletas, que estão tentando incrementar o currículo para impressionar as universidades. A mesa das cheerleaders e da torcida organizada, que abriga qualquer garota que faça algo num jogo de futebol americano que não inclua uma bola. E, naturalmente, as alunas do curso de teatro e as do coral. Todas estão de vestido. Aqueles modelos chiques que a gente usa na Páscoa, de saia rodada. Preciosos vestidinhos floridos com cardigãs combinando. Enquanto nós estamos na base do jeans e da camiseta.

Olho para Amanda e Millie e tento lhes dar um sorriso encorajador que não diga “Não sei o que estou fazendo, estou me sentindo nua”.

El aperta a minha mão.

— Vamos lá.

Passamos pelo labirinto de mesas e, quando chegamos à frente, o silêncio começa a se espalhar pelo salão, até as vozes não passarem de um murmúrio abafado de perguntas.

Sentadas à mesa de inscrições estão duas ex-rainhas, Judith Clawson e Mallory Buckley. Só as vencedoras são convidadas a se tornar membros do comitê organizador. Judith é, no mínimo, vinte anos mais velha do que Mallory, mas as duas têm o mesmo sorriso branco, tão cintilante quanto os broches em formato de coroa que usam nos cardigãs.

— Olá. Vim me inscrever.

As duas me dão um sorriso forçado. Judith cochicha no ouvido de Mallory, e então se levanta e pergunta:

— Perdão, como disse?

Judith examina meu formulário.

— Seu talento precisa ser aprovado até a primeira semana de novembro.

— Claro. Sem problemas.

Seus olhos pulam do formulário para mim, enquanto ela lê meu peso e altura.

— Vou precisar da assinatura da sua mãe, querida.

— Willowdean. — Como se tivéssemos combinado, mamãe segura meu braço no exato instante em que Mallory passa apressada por ela para recuperar seu posto.

Mamãe me puxa para o lado e atravessamos uma série de portas de vidro. Vejo por trás delas Amanda e Millie entregando os formulários. Tenho o impulso de voltar para lhes dar uma força, como se de certo modo as tivesse abandonado.

Ellen, que está atrás das duas, levanta o polegar para mim.

— O que pensa que está fazendo? — A voz de mamãe é um sussurro ríspido.

Endireito a coluna, fincando os punhos nos quadris.

— Estou me inscrevendo.

— Esse concurso não é uma piada.

— Está me vendo rir?

— E quem são aquelas moças com você?

— Minhas amigas. E elas também querem participar.

— Isso é algum tipo de manobra para chamar atenção? Está tentando se vingar de mim por algum motivo? — Sua voz se ergue a cada palavra e, embora eu não tenha a menor intenção de abaixar o rosto, sinto que os olhos de todos na sala de inscrições estão fixos em nós.

— Ah, então são essas as perguntas que você faz às concorrentes? Engraçado, não vi nenhuma no formulário.

Ela aponta uma impecável unha rosa perolada para o meu rosto.

— Não faça isso. Não arraste essas pobres meninas para os nossos problemas. Esse concurso não é uma piada pra você usar como um castigo contra mim.

— E por que teria que ser? Por que tem que chegar a essa conclusão, mãe? Por que não posso participar sem que você encare isso como uma piada ou uma vingança?

Ela cruza os braços, os lábios franzidos num nó apertado.

— Você não pode se inscrever, a menos que eu assine a autorização.

Eu sabia que esse momento era inevitável.

— E por que não assinaria?

Sua voz se suaviza.

— Além do fato de eu não ter certeza de que as suas intenções são honestas? — Ela lambe o polegar e esfrega um ponto na blusa acima do meu peito. — Não quero que você passe por uma terrível humilhação.

Abro a boca, prestes a rebater.

— E nem tem o direito de submeter aquelas meninas a isso. Elas vão ser ridicularizadas, Dumplin’. — O apelido é uma navalhada funda na minha carne, de um jeito como nunca senti antes.

Há muitas coisas que eu poderia responder, mas resolvo ir direto ao ponto.

— Mãe. — Minha boca está seca. — Se não assinar este formulário, vai ser como se estivesse me dizendo que acha que eu não tenho valor. Que cada garota no salão é mais bonita e digna de vencer do que eu. É essa que vai ser a sua mensagem.

Faz-se um longo silêncio entre nós.

Mamãe nunca me encorajou a participar do concurso. Ainda me lembro do dia em que eu estava sentada na cozinha com El, no verão antes do primeiro ano do ensino médio, decorando nossas agendas novas, iguaizinhas, quando dei um pulo no quarto para pegar mais pilôs. Quando voltei, parei entre as sombras do corredor ao ouvir mamãe dizer: “Você pode pensar em participar do concurso quando fizer quinze anos, querida.” El respondeu que não estava interessada, e esperei mais alguns segundos antes de voltar a me sentar à mesa. Aquele dia representou para mim a conscientização de que a visão de mundo sustentada por nossos pais não serve para nós.

Fico olhando para mamãe, esperando que entregue os pontos.

— Tudo bem — concorda ela, após um longo momento. — Mas não se atreva a esperar um tratamento especial, ou qualquer mordomia.

É com os olhos arregalados que El nos vê passar pela porta. Leio a pergunta que me faz por mímica labial.

Balanço a cabeça uma única vez.

Mamãe passa por mim em direção à mesa e assina o formulário.

TRINTA

Sento a uma das mesas com Ellen, Millie e Amanda, enquanto mamãe, diante da mesa

de inscrição, bate palmas, silenciando o salão.

— Bem-vindas, minhas amigas. — Ela pigarreia. — Vocês estão prestes a embarcar numa jornada que muitas já trilharam no passado e outras tantas trilharão no futuro. O concurso Miss Jovem Flor do Texas de Clov...

A porta pesada nos fundos do salão se abre com um rangido, e todas as cabeças se viram, inclusive a minha.

— Cheguei muito tarde para me inscrever? — pergunta Hannah Perez, com a voz mais natural do mundo.

Meu queixo despenca. Junto com os de todas as mulheres no salão.

Segurando uma prancheta, a ex-miss mais jovem da mesa de inscrições vai apressada até Hannah. Dá uma olhada no formulário e pede que ela se sente.

Hannah se senta sozinha a uma mesa vazia.

Minha mãe torna a pigarrear.

— Um, dois, três. Sua atenção, por favor. — Ela hesita por um momento. — Como eu estava dizendo, o concurso Miss Jovem Flor do Texas é uma estimada tradição da nossa cidade, com uma história riquíssima. As vencedoras se tornaram empresárias, médicas, mães e esposas amadas. Temos até mesmo uma prefeita entre nós. — Em seguida, ela explica as origens do concurso, e como foi suspenso durante a Segunda Guerra Mundial e no ano do assassinato de Kennedy.

Nunca tinha visto mamãe no comando de um salão como agora. Está com a coluna ereta, falando com a voz projetada. Ela está no seu habitat. Mas acho que o que mais me surpreende é o fato de todo mundo parecer cativado. Inclusive na minha mesa. Aqui, no seu reino, ela não é a minha mãe. Aqui, ela é Rosie Dickson, a Miss Jovem Flor do Texas de Clover City de 1997. Aqui, ela é uma rainha. Todos saúdem Sua Majestade.

— Se vocês ainda não declararam seus talentos, devem fazê-lo até a primeira semana de novembro. Não se esqueçam: o comitê deverá julgá-los apropriados. Portanto, nada de exibições de sensualidade, entendido? Vocês também vão precisar que os trajes de gala, de banho e de talento sejam aprovados até a quarta-feira anterior ao concurso.

Ela aguarda até que algumas pessoas balancem a cabeça na plateia.

— Muito bem. Gostaria de lhes apresentar minhas colaboradoras este ano. Esta é a Sra. Judith Clawson, que foi a vencedora do concurso em 1979. — A mulher mais velha se levanta e faz uma reverência. — E esta aqui é a Sra. Mallory Buckley, que conquistou o título em 2008. — Ela se cala e recebe aplausos discretos. — O que elas aprovarem, será como se eu mesma aprovasse. O que desaprovarem, será como se eu mesma desaprovasse.

As duas percorrem o salão, distribuindo pastas rosa-choque com o logotipo dourado do Octogésimo Primeiro Concurso Anual Miss Jovem Flor do Texas de Clover City impresso na capa.

— Observem à sua volta por um momento. — Ela espera, enquanto trocamos olhares cerimoniosos. — Em algum lugar do salão, está a próxima vencedora. A má notícia é que apenas uma jovem usará a coroa. A boa notícia é que ela está aqui entre nós. Vocês devem ter notado que este é o octogésimo primeiro aniversário do concurso. Temos surpresas maravilhosas para vocês, inclusive um número de abertura lindamente coreografado...

— Ninguém falou que ia ter dança — murmura Amanda.

— ... e a promessa de fotos na primeira página do Clover City Tribune.

Mallory (ela é tão jovem que não consigo chamá-la de Sra. Buckley) contorna a nossa mesa, entregando uma pasta a cada uma de nós. Inclusive a El.

— Ah — sussurro. — Ela não vai participar do concurso. Só veio aqui para nos dar apoio moral.

Mallory, com seu cabelo castanho-avermelhado de mil cachinhos, sorri para mim como se eu tivesse falado grego e insiste em entregar uma pasta a El.

— Ellen — sussurro.

Ela se vira na cadeira e abre a pasta, folheando as páginas.

— Diga.

Mamãe ainda está soltando o verbo, por isso me inclino para El e digo:

— Isso foi meio esquisito, não foi?

— O quê?

— O que a Mallory fez.

— Por que foi esquisito? — sussurra ela, ainda folheando as páginas.

Sinto meus olhos se arregalarem.

— Você se inscreveu no concurso?!?

— Não foi para isso que viemos aqui?

— Obrigada, senhoras — diz mamãe, a voz límpida como um cristal. — Fiquem à vontade para conhecerem umas as outras. Não se esqueçam: só depende de vocês fazerem jus à expressão competição amigável. Serviremos um lanche naquela mesa dos fundos, cuja grande estrela, naturalmente, é o meu famoso chá gelado.

Aplausos ecoam nos meus ouvidos.

— Você não pode participar do concurso. Isso não fazia parte do plano.

Todos ao meu redor se dirigem aos fundos do salão.

— Como assim? — Ela não está mais sussurrando. — Nós não conversamos sobre outra coisa há dias.

— Você não pode estar falando sério.

— Por que não? Por que isso é um problema tão grave assim?

— Porque... você poderia vencer. Nós não estamos aqui para vencer. Não é esse o nosso objetivo. — Percebo como essa resposta soa ridícula.

— Você só pode estar de sacanagem comigo.

Não sei o que dizer. Não há o que dizer.

— Você levou em consideração o fato de que estou me sentindo tão deslocada aqui quanto você?

— Você tem que sair do concurso, El. Por mim, você tem que sair. Me deixa ter pelo menos isso.

— O quê? Deixar você ter o quê? Você não pode escolher quem se junta à revolución. — Ela faz aspas no ar ao dizer revolución.

Percebo a lógica de suas palavras. E reconheço a verdade delas. Mas, se El participar do concurso, ela poderá vencer. E, se vencer, vai estragar tudo.

Ainda me lembro daquela noite, há dois anos, em que estávamos sentadas à mesa da cozinha e fingi não ter ouvido mamãe incentivando-a a se inscrever. Isso não deveria ter feito diferença para mim, mas fez. Foi um momento que enterrei muito fundo na memória, e agora era a única coisa que eu via. Como um círculo se fechando. Ela era minha mãe. Morávamos sob o mesmo teto, e, durante todo esse tempo, jamais estendera o convite a mim.

Então, penso que tenho o direito de ser egoísta. Que mereço fazer algo por mim mesma.

— Você já tem tudo — tento argumentar. Pais perfeitos. Um emprego perfeito. Um namorado perfeito. — Poxa El, deixa eu ficar, pelo menos, com o concurso.

El faz que não com a cabeça.

— Não é justo. Você não pode me impor isso. Talvez Callie tenha razão, Will. Talvez a nossa amizade tenha mesmo ficado no passado. Talvez estejamos empatando a vida uma da outra. Eu perco um milhão de coisas por sua causa. Nem acredito que você possa sequer pensar em me pedir para não me inscrever.

Toda a tristeza e a amargura que senti nos últimos meses culminam num único e violento acesso de raiva. Empatando a vida uma da outra?

— Callie? É mesmo? Não acredito que você fala com ela sobre nós. Desculpe se não posso ser uma amiga leviana pra você, dessas que só ficam por perto e dizem o quanto você é impecável. Anda, diz logo o que está pensando. Nós não empatamos a vida uma da outra. Sou eu que empato a sua vida, não é?

Ela não responde.

— Não sou sua discípula, nem fico do seu lado pra você parecer mais magra. — Dou um passo na sua direção. — Esse concurso é para mim, El. Estou fazendo isso por mim mesma.

Seu rosto fica vermelho de raiva.

— Você é um lixo como amiga, Will, e já estou cheia de perder meu tempo. Não vou sair, e ponto final. — Dito isso, ela vai embora.

TRINTA E UM

Na segunda, Ellen me ignorou. E eu mereci. Já esperava que ela me desse um gelo. Nós

duas temos pavio curto, mas ela está sempre disposta a perdoar. É uma coisa que aprendi a dar como certa. Mas aí chegou o fim de semana, e ela não me mandou nenhuma mensagem. Na terça, nem Tim me cumprimentou. E foi então que a minha ansiedade se transformou em pânico total.

Hoje, não posso deixar de falar com ela. Não sei qual de nós está certa e qual está errada, mas não estou pronta para enfrentar o concurso sem ela. Tento escorá-la no corredor, depois do segundo tempo. E digo a mim mesma que tudo vai ficar bem. Que nós somos como um casal de velhinhos que de repente nem lembram mais por que brigaram.

— Oi, Ellen! Oi!

Ela para e se vira. Sua postura é defensiva e distante.

— Que talento você acha que eu posso exibir no concurso? — pergunto, tentando fingir que nada aconteceu.

Ela abre a boca, e meu coração fica aos pulos enquanto espero sua resposta. Mas ela apenas balança a cabeça e se afasta.

Callie passa por mim e me dá um olhar de nojo, antes de correr atrás da minha melhor amiga.

— El-bell!

As lágrimas se acumulam nos meus olhos o dia inteiro, esperando que as comportas da represa rebentem. Vou embora da escola o mais rápido possível. Mamãe resolveu permitir que eu vá e volte no carro dela, desde que antes a deixe no trabalho. No instante em que saio do estacionamento, liberto as lágrimas. Que escorrem pelo rosto. Grandes, grossas, pesadas. Como furiosos pingos de chuva fustigando o para-brisa.

Ela deveria compreender. Logo ela deveria compreender. Paro num sinal vermelho e fecho os olhos por um momento, mas, quando faço isso, a única coisa em que consigo pensar é naquele dia, quando estávamos com quatorze anos. Sei que é egoísta, sei que é errado. Mas eu não sou perfeita, nem ela. Quando a gente gosta muito de alguém tem que aceitar os defeitos da pessoa. Fazer sacrifícios pelo seu bem-estar emocional. E eu preciso dela para manter o meu. Preciso que ela sacrifique seus planos por mim.

Uma buzina berra às minhas costas, lembrando que estou ao volante de uma geringonça de metal que pesa mais de uma tonelada.

Em casa, estaciono na porta da garagem. Tenho duas horas para matar, antes de ter que ir buscar mamãe.

Viro o espelho retrovisor para mim e seco os olhos batendo neles com as pontas dos dedos. Use as pontas dos dedos, ensinou mamãe. Secar com as mãos só serve para deixá-los ainda mais inchados.

Saio do carro e paro bruscamente, com a mão na maçaneta.

— O que está fazendo aqui?

Mitch está parado na junção do jardim com o asfalto. As pernas do jeans estão enfiadas de qualquer jeito nas botas, e o boné de beisebol surrado exibe várias manchas de suor.

— Eu te vi chorando.

Bato a porta do carro.

— E aí resolveu me seguir?

Seu rosto fica vermelho.

— Só para ver se você estava bem. Não para te espionar.

— Tá. — Passo a mochila para o ombro. — Estou bem. — De repente me dou conta de que, tirando os cumprimentos, não chegamos a nos falar direito desde aquele pesadelo no corredor. Estou lhe devendo um pedido de desculpas. — Você não deveria estar treinando?

Ele dá de ombros.

— Vamos entrar — digo.

Ele me segue pelo quintal, e eu o convido a se sentar numa das cadeiras de metal enferrujadas.

— Aceita um copo de chá gelado de pêssego?

Ele tira o boné, deixando à mostra os cabelos desgrenhados, e seca o suor da testa com o antebraço.

— Aceito, obrigado.

Na cozinha, solto a mochila na mesa e sirvo dois copos. Estamos naquela época estranha do ano em que passamos por todas as estações ao longo do dia. Acho que a maioria das pessoas chama esta de “outono”, mas aqui no Sul o que temos é uma rebelde combinação de primavera-verão-outono-inverno. Mesmo assim, o chá gelado é uma delícia servida o ano inteiro.

Sento-me diante de Mitch e lhe entrego um dos copos.

— Feito pela minha mãe — informo. — Receita da vovó.

— Obrigado.

Ficamos bebericando o chá por alguns momentos.

— Me desculpe por aquele dia no corredor — peço. — Quando alguém disse que estávamos namorando.

— Tudo bem. — Ele massageia a nuca. Acho que toda mulher tem uma quedinha por alguma parte do corpo masculino. A de El são as mãos. A minha é no limite entre os cabelos e a nuca. Adoro a sensação de passar os dedos naqueles fios espetados do cara. E quando digo “cara”, estou me referindo a Bo, com a correntinha fina de prata aparecendo acima da gola da camiseta. Porque ele é o único cara no mundo.

Só que, talvez, não precise mais ser.

— Não sei por que as pessoas têm que ter encontros — observa Mitch. — Se a gente chamasse de “dar uma saída” ou algo assim, não haveria tanta pressão. Mas um encontro, minha nossa, é um verdadeiro evento, e a gente tem que ficar à altura.

— É verdade. — Deixando de lado o nosso, que foi péssimo, percebo uma característica muito confortante em Mitch: ele parece ser do tipo que a gente não tem que pedir para ficar, porque provavelmente nunca irá embora. Eu me abaixo para colher uma flor no canteiro da mamãe e fico torcendo-a entre os dedos até amolecer.

— Eu me inscrevi no concurso Miss Jovem Flor do Texas.

— Pois sabe de uma coisa? Se você conseguir sorrir, é capaz de vencer aquele troço.

Dou um tapa no seu ombro.

— Você não acha estranho?

— Que você tenha se inscrito? — Ele abre um sorriso relaxado. — Por que acharia?

— Sei lá. Não faço muito o tipo de uma miss.

— Bom, o concurso em si não me parece ser a sua praia, mas, se quer saber a minha opinião, você tem todos os requisitos para brilhar.

Sinto meu rosto pegar fogo.

— Obrigada.

— Quero que sejamos amigos — diz ele.

Preciso de um amigo. Desesperadamente.

— Eu também — respondo, e me levanto.

Ele arremata o resto do chá e também se levanta, enfiando as mãos nos bolsos.

— Tenho que ir para o treino.

— Sábado é meu dia de folga. Vamos dar uma saída?

— Lamento que alguma coisa tenha feito você chorar — diz ele.

Eu fico esperando que pergunte o que aconteceu, mas ele não o faz, e acho muito gentil da sua parte.

TRINTA E DOIS

Amanda, Hannah e eu nos sentamos num reservado apertadíssimo nos fundos do

Frenchy’s, enquanto Millie ocupa uma cadeira à cabeceira da mesa. Quando fomos nos sentar, Millie deu uma olhada no reservado e disse:

— Parece bem apertado pra gente, hein?

Os lábios da garçonete se franziram numa expressão de “pudera”, mas Millie não deu a mínima e pediu uma cadeira. É o tipo de coisa que teria feito com que Lucy parasse de frequentar o restaurante, mas Millie parece não se importar.

Depois de fazermos os pedidos, pergunto:

— E aí, já pensaram nos talentos que vão apresentar?

— Acho que quero fazer alguma coisa relacionada com futebol — diz Amanda. — Embaixadinhas, por exemplo. — E balança as pernas com tanta força que a mesa inteira trepida. Ela é desse tipo de pessoa que não consegue ficar quieta.

— Você joga futebol? — pergunto, enquanto Millie apoia os cotovelos na mesa. Nunca tinha imaginado que alguém como Amanda, com uma perna mais curta que a outra, pudesse praticar esportes.

— Bom, eu não estou na seleção da escola. Mas bato uma bola com meus irmãos de vez em quando.

Millie lhe dá um sorriso encorajador.

— Não vejo por que você não poderia fazer isso. Lembro que alguns anos atrás a irmã mais velha da Lacey Sanders fez uma demonstração de primeiros-socorros.

Hannah se recosta na cadeira, de braços cruzados. Seus cachos estão muito compridos e caem sobre os olhos, de modo que ela é uma cabeleira com uma boca. Uma verdadeira peruca falante.

— Talvez eu devesse vestir uma fantasia de cavalo e ficar trotando pelo palco durante cinco minutos.

Millie se vira para mim, morta de constrangimento, menos pelo sorriso.

— E você, Will?

— Sei lá. — Abandonei o curso de balé, não tive aulas de violino nem pratiquei qualquer esporte “formalmente”. Meus talentos consistem em ver televisão, ser a melhor amiga de Ellen, suspirar e conhecer as letras de todas as músicas da Dolly Parton. — Mas nós também precisamos resolver outras coisas, como os vestidos e tudo que rola antes da entrevista.

— Não vou gastar mais dinheiro com essa merda — declara Hannah. — Vou de calça jeans, se for preciso.

— E se a gente fizesse um vestido pra você? — sugere Millie, a voz tão aguda que quase falha.

Hannah não responde. Acho difícil olhar para ela sem me perguntar o quanto ouviu da minha conversa com Bo no banheiro da escola naquele dia. Não trocamos mais do que algumas palavras, mas ela ficou conhecendo um segredo meu tão grande que não contei nem mesmo à minha melhor amiga.

— E aí, o que precisamos saber? — pergunta Amanda, mastigando uma mecha de cabelos. — Tipo, da última vez as meninas estavam todas produzidas e a gente ficou com cara de idiota. A hora das amadoras.

— Bom — respondo —, tem os trajes, o talento e a entrevista. Não muito mais do que isso. O objetivo é subir naquele palco e não cair de cara no chão nem deixar que percebam que os cílios postiços estão quase furando os olhos. Ah, e os trajes de banho. A gente tem que escolher um também.

Millie rói a pele em volta da unha do polegar.

Hannah cruza os braços e esparrama o corpo todo, tomando cada vez mais espaço de Amanda no reservado.

— Estamos fodidas e mal pagas. É sua mãe que dirige o concurso e você não sabe mais nada?

— Não sou nenhuma tiete das misses, tá? Nunca dei a mínima pra esse troço... até a semana passada. Desculpe se é uma coisa que você acha que não tem condições de fazer, mas agora é tarde demais, meu bem.

Millie faz um barulhão com o canudo ao terminar de tomar o refrigerante.

— Hum... Will, se não se importa, tenho algumas coisas a acrescentar. — Ela põe o copo na mesa e se endireita. — Um concurso não é só uma exibição de vestidos e talentos. É presença de palco. E autoconfiança. Muitas vencedoras se destacam em outras áreas depois. Como a Srta. Hazel, por exemplo — ela se refere à locutora da nossa rádio local —, ou a Dra. Santos. É um conjunto de atributos.

E só então a ficha cai. Millie leva a maior fé nesse concurso. Não é uma piada para ela. É um ideal de vida.

— Nenhuma de nós é a concorrente perfeita — prossegue ela. — Acho que em relação a isso todas nós concordamos. O segredo é explorar nossos pontos fortes. Sem querer me gabar, acho que a minha entrevista já está no papo. Amanda, quando puser as botas ortopédicas, suas embaixadinhas vão deixar todo mundo de queixo caído.

Quase prendo a respiração, esperando que ela chegue a mim com alguma ideia brilhante.

— Hannah, não me leve a mal, mas eu já te vi de maiô, e você está podendo, garota. — O canto do lábio de Hannah treme, e, juro por Deus, se Millie conseguir fazer ela sorrir, isso não será menos do que um milagre. — Enfim, como já foi dito na apresentação, é o octogésimo primeiro aniversário do concurso...

— Espera aí. Qual é o meu ponto forte? — pergunto.

Ela sorri.

— Sua autoconfiança, claro.

Saio totalmente do ar. Como ela pode ver algo que não sinto? E de que adianta agir de um modo confiante, se eu não sou? Nunca pensei que me importasse com o que via no espelho. Mas Bo estragou isso. E deveria ser mais fácil gostarmos de nós mesmos quando outra pessoa gosta.

Mas isso não pode ser verdade. Por mais que eu tente me convencer de que a gordura e as estrias não importam, elas importam, sim. Mesmo que Bo, por qualquer motivo, não dê a mínima, eu dou.

Por outro lado, tem dias em que não estou nem aí para nada disso e me sinto totalmente confortável no meu corpo. Como posso ser essas duas pessoas ao mesmo tempo?

— Tem mais alguma coisa a acrescentar, Will? — pergunta Millie.

Pisco uma vez. Duas.

— Ã-ã. Não, acho que não.

Hannah sai do reservado.

— Fui.

Amanda fica chupando o canudinho até o refrigerante fazer bolhas barulhentas no fundo do copo.

Eu me viro e chamo Hannah.

— O que te fez mudar de ideia? Quando Millie te convidou, você recusou, não foi?

Ela se vira para mim.

— Já sou chamada de bizarra todos os dias mesmo. Posso muito bem exibir a minha bizarrice em público.

— Que dose cavalar de sarcasmo — murmura Amanda, quando Hannah já está a uma boa distância.

Millie lhe dá um pontapé debaixo da mesa.

— Isso não foi nada simpático.

— E por acaso ela é? — rebate Amanda.

TRINTA E TRÊS

Dessa vez digo a Mitch que podemos nos encontrar na sua casa. Ele me convida para

assistir a uns filmes, e eu presumo que seus pais vão passar a noite fora.

Quando a porta da sala se abre, encontro a versão feminina de Mitch usando uma camiseta amarelo-clara com gatinhos rolando entre fios de lã. A mulher que só pode ser a mãe de Mitch joga um pano de prato sobre o ombro e me dá um abraço.

— Palavra de honra! — exclama. — Mitch disse que você era bonita, mas não que era linda. — Ela me solta por um segundinho antes de segurar meu rosto e me puxar porta adentro.

A entrada da casa vira um gargalo de garrafa. Apertada e congestionada. Mas sua mãe não se afasta.

— Vamos dar uma olhada nesse rosto. — Ela passa os polegares pelas minhas bochechas como se estivesse secando lágrimas.

— Mãe!

Ela dá um passo atrás e vejo Mitch no estreito corredor, o rosto escarlate.

— Oi.

— Oi, Will. — Mitch pigarreia. — Hum, mãe, nós vamos para o meu quarto.

A mãe faz que sim.

— Deixem a porta aberta.

— Mãe, nós não vamos fazer nada demais! — Mitch acena para que eu o siga pela escada.

— Pelo Espírito Santo! — exclama ela atrás de nós.

Penduradas nas colunas da cama de Mitch estão as braçadeiras com mums texanos em miniatura que sua mãe usou no Homecoming do primeiro e do segundo anos do ensino médio. Os mums são uma dessas coisas tão especificamente sulistas, que eu os adoro e odeio. Os melhores são os feitos em casa, daqueles gigantescos, num fundo de cartolina, com longas correntes de fitas penduradas. Como são enfeites para o Homecoming, são confeccionados em cores escolares, e geralmente as fitas têm letras de purpurina formando as mais variadas palavras, como seu nome e o do namorado, ou o da mascote da escola. No passado, as garotas os prendiam na blusa, mas, como acontece com quase tudo no Texas, eles foram ficando cada vez maiores. Hoje em dia, são tão pesados que só podem ser usados pendurados no pescoço. E os rapazes — principalmente os jogadores de futebol americano, como Mitch — usam versões em miniatura nas braçadeiras. É tudo bem ridículo, mas de um ridículo assim bem ao estilo da Dolly.

As paredes do quarto exibem um monte de pôsteres de videogames, mas um em particular se destaca aos meus olhos. O torso de uma garota ocupa a maior parte. Ela segura uma metralhadora, com uma horda de zumbis às costas. Colado por cima do que quer que esteja usando, há um vestido de papel pardo até os joelhos. Aponto o pôster.

— O que aconteceu ali?

— Argh, foi a minha mãe. É o meu game favorito, ou pelo menos era antes de lançarem a sequência, e ela sempre detestou o pôster. — Ele levanta o vestido de papel, revelando uma regata decotada e um shortinho verde-azeitona tão minúsculo que poderia se passar por uma calcinha. — Ela não achou a menor graça de eu ter uma garota seminua no quarto. Mesmo que seja em 2D. E disso ela não abre mão. Toda vez que eu arranco o vestido, ela cola um novo.

— Por que você não tira o pôster de uma vez?

Ele se senta na beira da cama.

— Sei lá. Gosto do game. Não ligo muito para a garota nua.

— Como assim?

Ele agita as mãos, como se tentasse apagar o que disse.

— Não é que eu não goste de garotas nuas. Quer dizer, eu não saio por aí atrás de garotas nuas. Eu... — ele respira fundo — ... quis dizer que jogo esse game porque a protagonista é fodona. Não porque está com a bunda de fora. — As três últimas palavras são sussurradas.

— Então, tá — murmuro. Puxo a cadeira em frente à escrivaninha e me sento, porque pega mal sentar na cama de um rapaz.

— E aí, quer ficar aqui e ver um filme, ou o quê? Também podemos sair. Imaginei que seria melhor a gente pegar leve.

— Um filme parece boa ideia.

— Tudo bem. Maravilha. Podemos assistir a um aqui no meu notebook. Ou na sala.

— Aqui tá legal. Ou na sala.

— Podemos sentar aqui na cama, ou eu posso sentar no chão e você senta no...

Sento ao seu lado na cama.

— Tranquilo. — Estou tão acostumada a ser eu a nervosa, a que precisa respirar fundo, que é quase um alívio não me sentir como se fosse cair de um penhasco a qualquer momento. — Não tem problema algum. Sentar na sua cama não vai me deixar grávida.

— Você deveria dizer isso pra minha mãe.

Dou uma risada.

— Bem, pelo menos nós deixamos a porta aberta para o Espírito Santo.

Ele reduz as luzes do quarto e pega o notebook, que coloca sobre uma pilha de travesseiros à nossa frente.

— Não sei se você gosta, mas eles fizeram um filme baseado naquele videogame, ou a gente pode alugar alguma coisa on-line.

— Estou meio curiosa para ver sobre o que é o filme dos zumbis.

Nós nos recostamos, iluminados pelo brilho do notebook. O filme é exatamente como o pôster do videogame anuncia, só que a protagonista não usa um vestido de papel pardo. Dá para notar que Mitch já assistiu esse troço centenas de vezes. Seus lábios se movem junto com os atores quando eles dizem suas falas favoritas. Ele ri alguns segundos antes de cada piada e faz uma careta antes de cada cena assustadora; como nunca fui muito fã de filmes de terror, fico grata pela advertência.

Quase perco a maior parte do final, porque, em vez do filme, meus olhos se fixam na mão de Mitch, que rasteja em direção à minha.

Eu deveria afastá-la.

Seu dedo mindinho roça no meu.

De repente, o notebook explode.

Quer dizer, o que explode é o hospital cheio de zumbis no filme, mas, como não estou prestando atenção, levo um susto tão horrível que solto um grito.

— Pelo Menino Jesus, a que tipo de tortura está submetendo a menina?!? — grita a mãe de Mitch.

— Final Death 3! — grita de volta Mitch.

— Eu estou bem, senhora! — grito eu para ela.

Passam os créditos, deixando o quarto bem escuro.

— Tá com fome? — pergunta ele.

Estou morta de fome.

— Eu comeria alguma coisa.

— Tem um quiosque de tacos na esquina com a Dawson. A gente pode dar um pulo lá e curtir um pouco antes de você ir para casa.

Sigo Mitch até a cozinha, onde sua mãe está digitando o valor de um recibo numa daquelas calculadoras velhas, com bobina.

— Estão com fome, crianças?

— Na verdade, acho que vamos dar um pulinho no Taki’s Tacos, aqui na esquina.

Ela tira os óculos de leitura, que ficam pendurados no pescoço, quicando nos gatinhos e novelos de lã da blusa.

— Ora, mas por que fariam isso quando fui ao mercado hoje de manhã? Vou preparar uns sanduíches de salaminho. E também sobrou um pouco do ensopado de frango com espaguete. — Ela se vira para mim. — Modéstia à parte, o meu ensopadinho com espaguete é de comer rezando.

— Nós queremos sair um pouco, mãe. Por que o drama?

— Porque é um desperdício, só isso. — Ela torna a pôr os óculos. — Mas, ok, é noite de sábado. Esteja em casa antes da meia-noite.

O quiosque dos tacos fica num velho estacionamento. Ervas daninhas crescem por entre as rachaduras no asfalto, como um lembrete de que o forte aqui são mesmo os

tacos e não o paisagismo. Ao lado do quiosque há um conjunto de brinquedos de playground enferrujados, que parecem ter sido tirados de um parque urbano e abandonados nesse estacionamento. Sentamos num banco à beira do círculo de luz lançado pelo Taki’s, tentando nos afastar o máximo possível dos mosquitos.

Depois de comermos, damos uma volta pelos brinquedos. Sento num balanço, Mitch em outro. As correntes gemem sob o seu peso.

— Os tacos estavam uma delícia — digo.

Ele faz que sim.

— Gostou do filme?

— Foi... bem sangrento. Mas eu gostei.

— Você se inscreveu mesmo no concurso Miss Jovem Flor do Texas?

— Me inscrevi. Estou morta de medo. Preciso demonstrar algum talento, e não tenho nenhum.

Recuo no balanço e deixo que o impulso me empurre para frente, estendendo as pernas.

— Sem contar que várias outras garotas acabaram entrando só por minha causa. É como se eu devesse liderar o grupo. Mas nem mesmo sei o que eu estou fazendo. E me sinto responsável por elas, entende?

Mitch fica atrás de mim e me empurra com gentileza toda vez que o balanço volta.

— Talvez, se você se der ao trabalho de tentar entender seus próprios motivos, possa ajudar suas amigas a entenderem os delas.

Ele continua me empurrando enquanto assimilo a ideia.

— Olha só, Mitch...

— Sim?

— Você é craque no futebol americano, não é?

— É o que dizem.

— Aposto que vai descolar uma bolsa de estudos em alguma faculdade bem longe daqui.

Pela primeira vez, Mitch não responde.

— Que foi? — pergunto. — Não acha que vai?

— Sei lá. Acho que sim. — Ele para de me empurrar e se senta de novo no balanço ao meu lado, mas na direção oposta. — Eu nunca gosto do que deveria gostar. Sei que sou bom de bola. Mas essa temporada está parecendo mais uma obrigação que eu tenho que aturar.

Acho difícil entender isso. A ideia de que a pessoa possa ser muito boa numa coisa e mesmo assim não goste dela.

— Quando se é um homem vivendo numa cidade dessas, as pessoas esperam mil coisas da gente. Você tem que jogar futebol americano, caçar e pescar. Na infância, eu não tinha muitos amigos, mas contava com o Patrick. Nós íamos caçar nos fins de semana com os nossos pais.

— Você caça? — pergunto. Não deveria ficar surpresa. Milhares de pessoas caçam por aqui. É um nojo, mas não sou vegetariana, por isso não tenho moral para falar.

— Bom, mais ou menos — responde ele. — Eu participo de caçadas desde pequeno. Quando saía com meu pai, ele me deixava tomar meia lata de cerveja enquanto nós esperávamos que o animal da temporada aparecesse, qualquer que fosse. Mas, sempre que chegava a hora de atirar, eu errava. Durante um tempo, disse a ele que eu era ruim de mira. O velho ficava furioso comigo. Eu sempre errava o alvo. Por poucos centímetros. Até que ele começou a perceber que era de propósito.

Sinto uma onda de carinho por Mitch me encher o coração. Talvez sejam as coisas sobre as quais não queremos conversar que as pessoas mais querem ouvir.

— Estávamos na sétima série, e o velho fazendo a maior pressão em cima de mim. Patrick e o pai também estavam lá. Era a temporada dos cervos. Eu acertei um. — Ele se cala. — Foi por acidente. Era um macho enorme, com um porte altivo. Meu pai me deu um tapa nas costas. Mas lembro que eu estava me sentindo como se estivesse sufocando.

— Sinto muito. — Essas palavras parecem tão inadequadas. Como sempre soam quando alguém as diz em relação a Lucy.

Ele se levanta e puxa as correntes do meu balanço para trás. Sinto-o soltar um longo suspiro no meu pescoço.

— Sei que homem não chora, mas eu chorei muito naquela noite. E acho que foi aí que cheguei à seguinte conclusão: fazer bem uma coisa não significa que se tenha a obrigação de fazê-la. Só porque é fácil não quer dizer que seja certo. — Ele solta as correntes e meus pés tocam as estrelas.

Essa noite, eu sonho que estou dentro do videogame de Mitch, usando um shortinho minúsculo e uma regata esfarrapada. Meu corpo não é nenhum Photoshop ideal de mim

mesma. As coxas continuam grossas, cheias de celulite, e os pneus na cintura se derramam sobre o cós do short. Meus cabelos ondulados e castanho-claros estão num daqueles penteados de cachinhos da Dolly do passado. Como a protagonista do game de Mitch, estou armada até os dentes, com munição e facas presas às costas e às coxas, além de uma bazuca encostada no ombro. Sou fodona. Uma gorda fodona.

Corro para dentro de um centro cívico abandonado. A porta de vaivém bate em meses de escombros acumulados quando entro. No começo elas avançam lentamente, mas então começam a se multiplicar. Misses zumbis. Por toda parte.

Espero até que cheguem quase perto demais antes de disparar a bazuca. Pronto. Partículas voam. Eu me abaixo. Estão mortas. Dessa vez, estão mortas mesmo.

Mas ainda restou uma. Que está ficando grisalha, vestida para o melhor dia da sua vida, com um longo de gala vermelho e rasgado. Sua coroa está amassada e quebrada, e a faixa é velha demais para se ler o que diz. Ela avança na minha direção, arrastando um dos pés pelo chão de mármore.

Recarrego a bazuca.

TRINTA E QUATRO

Há algumas coisas — como a parte em que as misses se exibem de maiô — em que

nem cheguei a pensar antes de me inscrever no concurso. Mas para o que eu não me preparei mesmo foi o número de dança em grupo.

Eu, Millie, Amanda e Hannah estamos sentadas em fila, encostadas à parede dos fundos do Dance Locomotive, o único estúdio de dança que há em Clover City. Sei que isso não parece fácil, mas também não pode ser muito mais difícil do que ficar andando em círculos coreografados.

Minha mãe está usando uma saia comprida, um collant meio apertado demais, uma meia-calça cor da pele supercintilante e sapatos de dança pretos. Ao seu lado estão a Sra. Clawson, com um jogging turquesa que faz um barulhinho toda vez que ela respira, e Mallory Buckley, com uma calça de ioga branca e um sutiã esportivo rosa-bebê. Pego mamãe olhando para Mallory várias vezes com uma pontinha minúscula de desprezo e extraio um perverso prazer disso.

Todo mundo é sarado, bronzeado, com cabelos oxigenados, e veste conjuntinhos de ginástica. Enquanto eu estou usando a mesma calça de pijama com que dormi na noite passada. Amanda, de short de futebol, e Millie, com seu conjunto de lycra, estão um pouco mais preparadas, mas é Hannah quem nos desbanca, toda de preto com um black jeans e uma T-shirt.

— Vamos nos alongar, meninas. — Mamãe se senta à nossa frente, de costas para o espelho. Cada uma de nós fica na sua posição favorita. Inclusive a Sra. Clawson, que está de pé fazendo Moinhos de Vento. Está ofegante, com o rosto vermelho, enquanto conta quantas vezes respira a cada rotação. Como que por um milagre, seu permanente não se move um milímetro.

Mamãe está sentada com as solas dos pés se tocando, na postura da borboleta.

— O tema deste ano é: “Texas: Somos ou Não Somos os Bão?”

— É... — murmura Hannah —, a gramática dos caipira — diz a palavra imitando sotaque de jeca.

Amanda ri, e Millie dá um chute na sua canela com o pezinho minúsculo calçado com um Keds.

Tento alcançar os dedos dos pés, mas a barriga e os peitos ficam entre mim e as coxas.

— No fim do ensaio, cada uma de vocês sorteará algum tema relacionado ao Texas, para que possa planejar o traje do número de abertura. Pede-se a todas as candidatas que usem uma saia jeans, uma camisa xadrez e um par de botas de caubói. Tirando isso, vocês têm plena liberdade para criarem o que quiserem em homenagem ao tema. Por exemplo, quem sortear a flor símbolo do Texas, poderá usar um arranjo de lupinos azuis na cabeça. Essa é uma oportunidade para os jurados terem uma mostra da sua personalidade e verem se vocês desempenham bem a tarefa designada. Aproveitem, meninas.

Ellen está sentada na fileira da frente com Callie, que, naturalmente, vai participar do concurso. Ambas usam conjuntinhos de ginástica com um chamativo logotipo da Sweet 16. Não nos falamos há duas longas semanas. A última vez que passei tanto tempo assim sem falar com Ellen foi quando os pais dela alugaram um trailer e a levaram para passear pela Costa Oeste. Escrevi uma carta para ela todos os dias em que esteve ausente, e, quando voltou, nossas mães deixaram que ela dormisse lá em casa durante duas noites seguidas.

Mas agora é muito pior. Pois ela está bem aqui, do outro lado do salão, e, se eu chamá-la, ela não vai responder. Já quase fui me desculpar mil vezes, mas, agora, deixei passar tempo demais. E uma parte de mim ainda acha — ou melhor, tem certeza — que eu tenho razão.

Levantamos para aprender a coreografia. Millie se inclina, ficando na ponta dos pés, e diz:

— Você deveria falar com ela.

— Do que está falando?

Ela puxa as mangas do agasalho.

— De Ellen.

— Todo mundo fazendo os passos da quadrilha! — Minha mãe ergue a voz para ser ouvida em meio à música country. — Cinco para a esquerda. Cinco para a direita. Bekah! — chama ela. — Vem cá para as meninas admirarem a sua técnica.

Bekah fica vermelha, mas obedece a mamãe. Só de olhar para ela já fico irritada, e não tenho nenhum bom motivo para isso. Ela é perfeita em tudo. E também é bonita. E humilde.

Passo a hora seguinte tropeçando nos pés, tentando acompanhar os mil e um passos e voltas, enquanto entramos e saímos dos túneis da quadrilha. Pego mamãe me olhando no espelho quando tropeço no salto plataforma de Amanda e caio de bunda no piso de madeira. No fim, mamãe tinha razão de chamar Bekah para ficar na frente, porque ela sabe o que está fazendo.

Termina o ensaio e estou suando em lugares que eu nem sabia que suavam.

Millie está com uma expressão enlouquecida no rosto e um largo anel de suor em volta do pescoço.

— Foi o máximo — declara. — Que ponto turístico você sorteou?

Mostro o papelzinho que retirei da urna.

— Cadillac Ranch. — Um lugar que só vi em fotos. Uma coisa que se precisa entender sobre o Texas é que ele é simplesmente enorme. Conheço mil pessoas que nunca sequer chegaram a sair do Estado. Já até ouvi dizer que, dependendo do ponto de partida, é possível dirigir durante um dia inteiro sem sair do Texas.

— E você?

Ela abre um sorriso.

— Tirei The Stockyards. O bairro histórico em Fort Worth. — Só Millie mesmo para transformar um mercado de agropecuária numa joia digna de um concurso. Se o otimismo da minha amiga fosse contagiante, eu até seria capaz de apostar que vou vencer esse troço.

TRINTA E CINCO

Ouvi dizer que nas escolas maiores os bailes não andam mais com essa bola toda.

Acho que é porque têm alunos demais. Só que, para minha falta de sorte, na Clover City High eles ainda bombam. E, tirando os bailes de formatura, o mais badalado da cidade é o da Maria Cebola. Como uma moça não pode simplesmente convidar um rapaz para sair como se fosse uma coisa normal, as garotas não pouparam esforços para que seu convite para o Baile da Maria Cebola fosse o mais elaborado possível.

Até que, há três anos, Macy Palmer reinventou a roda ao convidar o namorado Simon para o baile usando como tema os “Doze Dias do Natal”.* Eu não estou * Referência a uma célebre canção natalina inglesa que enumera vários presentes dados por um rapaz à sua amada, entre 25 de dezembro e 5 de janeiro. (N. T.)

brincando: todas as manhãs o garoto chegava à escola e dava de cara com algum dos itens, que podiam ser as três galinhas ou os doze tamborileiros. E eles já eram namorados! Não ia suspeitar que ela fosse convidar outro cara. (Só para deixar registrado: os dois se formaram. Ela estava grávida de quatro meses, e ele com um pé fora de Clover City, graças a uma bolsa de estudos que descolou por ser fera no golfe.)

Depois disso, deixou de ser aceitável convidar um rapaz para ir ao Baile da Maria Cebola oferecendo um pote de biscoitos caseiros ou usando uma blusa com o número da camisa do time de futebol americano dele. Agora, não só você tem que tomar muita coragem para convidar o cara, como ainda por cima precisa fazer isso em grande estilo.

O primeiro ano não foi tão mau assim, pois Ellen ainda não tinha começado a namorar Tim. No ano passado, dei a desculpa de que estava doente. Mas, este ano, depois de tudo o que aconteceu, não estou vendo os banners e os cartazes anunciando a venda dos ingressos.

Após passar cinco horas transitando por um campo minado de convites para ir ao Baile da Maria Cebola — inclusive uma pirâmide de cheerleaders na hora do almoço —, ainda tenho uma hora livre. Sento-me à carteira ao lado de Amanda.

Ela levanta o rosto do celular.

— E então, convidou alguém?

— Não. E você?

— Negativo. Acho que vou deixar os convites serem feitos e fazer uma triagem entre os que sobrarem amanhã. Eu preferiria não me dar a esse trabalho, mas nós temos mesmo que convidar um rapaz para nos acompanhar ao concurso. Desse jeito, mato dois coelhos com uma cajadada só.

Seguro o rosto entre as mãos e solto um gemido. Tinha me esquecido dos acompanhantes. Minha carteira trepida como se tivesse levado um chute. Viro a cabeça na hora e vejo Bo andando até a carteira dele nos fundos da sala.

Sinto um prazer secreto ao vê-lo assim, com as roupas que escolhe a dedo no armário todas as manhãs. E me pergunto se ele faz isso de caso pensado ou pega a primeira que a mão alcança, no escuro. Feito um zumbi. Ou talvez ele se levante bem cedinho e saia para dar uma corrida, ou coma ovos mexidos, ou alguma dessas coisas que as pessoas fazem pelas manhãs.

Continuar: parte 6 de 10