Dumplin'

Julie Murphy · Capítulo 1 de 6 · parte 2/10

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Dumplin'

A presente obra é disponibilizada pela equipe…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.

— Espera... Entra um pouco.

Solto um suspiro pelo nariz.

— Ah, para de suspirar! Preciso da sua ajuda.

No quarto de Ellen, sento de pernas cruzadas no chão.

— Me deixa pegar o Jake?

Ela tranca a porta e caminha até o armário.

— Vai ter que ficar pra outra vez. Ele está trocando de pele.

Como qualquer pessoa com a cabeça no lugar, sempre senti um medo saudável de cobras, mas, quando estávamos com onze anos, os pais da El se separaram durante um tempo, e ela ficou no fundo do poço. Para levantar seu astral, o Sr. Dryver lhe prometeu um bicho de estimação. O que não iria imaginar nem em mil anos era que a filha fosse pedir logo uma cobra.

Quando El ganhou Jake, um macho albino de cobra do milho, ele não passava de um lápis, mas mesmo assim eu me recusava a chegar perto da casa dela. Não podia nem pensar em ficar debaixo do mesmo teto que o lápis. Mas então veio o aniversário de doze anos da El, e eu não poderia perder a festa. Lucy me levou até o pet shop para eu dar uma olhada nas cobras, e até pediu à vendedora para me deixar segurar uma. Como fiquei com medo, ela mesma fez isso. Dava para ver que estava com as mãos trêmulas, mas mesmo assim conseguiu me acalmar.

Agora eu sou capaz de passar horas vendo filmes com El, enquanto Jake passeia de um lado para o outro por cima das nossas mãos, como se fosse um fio de linha nos costurando.

Ellen tira uma sacola da Sweet 16 do fundo do armário.

— Preciso que você me ajude a decidir.

Sento-me sobre os joelhos enquanto ela despeja conjuntos de sutiãs e calcinhas de renda por toda a cama.

— Para o Tim. — Senta-se na beira do colchão. — Quero ficar sexy para ele.

Levanto um par transparente com a ponta do dedo mindinho.

— Você comprou tudo isso no trabalho?

— Callie me ajudou a escolher alguns, e eu preciso que você me ajude a eleger os finalistas, pra poder devolver o resto.

— Ah. — Sinto vontade de perguntar se ela contou a Callie que seria a sua primeira vez. Começamos a avaliar os candidatos. Rosa, branco, preto, vermelho. Até um verde. Claro que deve ter contado. Sei que estou fazendo uma tempestade num copo d’água. Não posso monopolizar as conversas da El sobre sua vida sexual com Tim, mas mesmo assim estou me sentindo como se tivesse sido traída.

— Tudo bem — começo. — Você é virgem, e não há nada de errado nisso. Nem haveria se não fosse, mas, na minha opinião, não faz sentido ficar com um ar de santa intocável. Afinal, a razão de ser do encontro é justamente você ser tocada, não é?

— É. — Sua voz soa categórica enquanto ela pega o conjunto de calcinha e sutiã branco. — Você acha que eu deveria ter escolhido alguma coisa mais careta?

Faço que não com a cabeça.

— Você acertou na mosca em relação ao estilo. Passa a mensagem de que está pronta pra se entregar, mas sem querer encostar o cara na parede.

— Eu morreria sem você. Simplesmente deixaria de existir.

Um sorriso se abre no meu rosto.

— O preto é muito intimidante. Quer dizer, é supersexy, mas talvez devesse ficar mais pra frente.

Ela o enfia na gaveta de baixo da mesa de cabeceira.

— Eu gosto do verde, mas não é o ideal. — Ignoro o bege, o vermelho, o roxo e o azul. — Este aqui. — Empurro todos os conjuntos para o lado, deixando só um de listrinhas marrons e vermelhas. — Este só falta gritar: “Virgem, mas não por muito tempo!”

El dá um tapa no meu braço e então pega o conjunto. É todo debruado por uma renda bordada com botõezinhos de pérolas. Ela o leva até o peito e se senta no chão ao meu lado, enquanto me viro e me sento também.

Ela encosta a cabeça no meu ombro. Adoro o cheiro que fica no corpo quando a gente sai da piscina. Cloro e suor. O cheiro do verão.

— Vai ser hoje à noite — revela.

SEIS

Saio da casa da El me sentindo exausta, e passar a noite inteira anotando pedidos

parece uma missão impossível.

Coloco o boné do Harpy’s prendendo o rabo de cavalo, enquanto assumo o caixa.

— Oi, oi, Will — diz Marcus, do balcão de condimentos. — Tá bem moreninha. Andou pegando uma cor?

— Parece.

— Está um pouco atrasada.

Dou uma olhada nos compartimentos de moedas para ver se preciso buscar troco no escritório.

— Olha só, eu andei pensando em fazer um bolão do concurso. Quer ser minha informante quando chegar a hora?

Faço que não com a cabeça, fechando a gaveta.

— Que é? — pergunta Marcus. — Greve de silêncio? O Fortinho Mudo lá atrás deve ter te contaminado

— diz ele, referindo-se ao apelido que deu para Bo.

Respiro fundo e dou uma olhada no suprimento de sacolas debaixo do caixa.

— Tive um dia muito cansativo. Preciso de um tempo.

Marcus resmunga não sei o quê sobre TPM e, para minha surpresa, vem a voz de Bo da cozinha:

— Por que ela não pode estar tendo um dia ruim? Não precisa inventar nenhum motivo idiota pra isso.

No escritório, Ron solta um assovio baixinho.

Marcus cai na risada.

— Eita.

— Talvez ela tenha visto a sua cara — continua Bo —, e aí soube que o dia estava perdido.

E dá uma piscadinha para mim, da janela de atendimento. Viro a cabeça e sorrio.

Mantenho as mãos ocupadas entre um cliente e outro, fazendo e refazendo estoques de guardanapos e condimentos. Bo está ouvindo música, mas agora só com um dos fones. Marcus passa a noite inteira ao celular e, pelo que percebo, está discutindo com Tiffanie por mensagens.

Bekah Cotter, com seus longos cabelos dourados e curvas enxutas, entra acompanhada de um vasto grupo de amigos, que montam um verdadeiro acampamento no Harpy’s entre batatas fritas e refrigerantes. Callie tem razão. Bekah vai participar do concurso e provavelmente vencerá. Ela é uma dessas beldades que a gente faz o possível para detestar. Mas é muito simpática, e até que tem talento. Se é que fazer malabarismos com bastões conta como talento.

Hoje Bo está trabalhando no salão, e, enquanto vai se movimentando com o aspirador sem fio, Bekah pega depressa um resto de comida numa mesa vizinha e diz alguma coisa para ele. Nada que dê para ouvir. Mas Bo sorri, e é difícil não me sentir como se tivesse engolido um punhado de pedras. Não entendo por que chamam isso de paixão, quando se parece muito mais com uma maldição.

O sininho acima da porta começa a tilintar, e, em seguida, entram Millie e a amiga Amanda, com as botas ortopédicas do Frankenstein. Millie está usando um shortinho e uma camiseta amarelo-clara com a gola debruada de pedras de strass em formato de coração. Gostaria de encontrar um jeito de lhe explicar, sem parecer escrota, como ela dificulta desnecessariamente a própria vida de mil e uma maneiras.

Sua testa está toda suada, mas os lábios exibem um sorriso firme e forte.

— Ah, oi, Will! Não sabia que você trabalhava aqui.

Amanda balança a cabeça, parecendo muito impressionada. Está usando um short de futebol e uma camiseta com uma foto em silkscreen do irmão caçula vestindo o uniforme do time dente de leite. O tipo exato de camiseta que a gente vê os pais usando quando vão assistir ao jogão do filhote.

— Aposto que te deixam comer tudo de graça — diz Amanda, e então aponta o polegar para Bo, no salão. — E a vista também não é das piores.

Concordo com ela, tentando não rir.

— Ah, sim. Tenho passado muito bem por aqui.

Elas pegam as sacolas com os pedidos, e Amanda se demora um pouquinho demais, tentando dar uma boa espiada em Bo enquanto ele se dirige à cozinha.

Faço meu intervalo depois de Marcus e Bo. Quando abro o armário para pegar o protetor labial, encontro um pirulito vermelho. E daqueles mais caros, que a gente vê no display ao lado do caixa no supermercado. Hesito por um momento, torcendo a boca de um lado para o outro, antes de finalmente enfiá-lo no bolso, me esforçando para não dar bandeira, pois pode ter alguém olhando.

Quando eu era pequena, nós decorávamos caixas de sapatos na escola para usar como caixas de correios no Dia dos Namorados. Elas ficavam em cima das carteiras o dia inteiro. Eu não suportava que me vissem espiando a minha. Não por ter medo de não receber cartões, já que todos os alunos eram obrigados a trocá-los, mas porque sempre esperava receber algo mais. Queria ser a garota com um cartão especial, assinado Do Seu Admirador Secreto.

O pirulito pode não ser um cartão numa caixa de sapatos, mas mesmo assim me faz sentir como se o meu coração fosse feito de caramelo derretido.

Quando o desembrulho, penso em mandar uma mensagem para a El, mas acabo virando a tela do celular para baixo, sem conseguir decidir o que dizer. Desabo numa cadeira e saboreio o doce presente. Ela pode estar fazendo amor neste exato momento. Pode até já ser uma ex-virgem oficial, e eu nem saberia. Fico imaginando se falou com Callie depois que fui embora. Deve ter falado. Ela saberia o que dizer a El. Quando termino de chupar o pirulito, jogo o pauzinho e o celofane na lata de lixo. Enfio o celular no sutiã e, quando estou passando pela cozinha, meus peitos começam a vibrar. Paro bruscamente para ler antes de entrar.

ELLEN: Tô meio nervosa, te ligo mais tarde.

ELLEN: Quer dizer, depois.

EU: A gata supersexy vai pôr as garras de fora. Miaaaaauuuu.

ELLEN: Você é a melhor amiga do mundo. Talvez eu vá dormir na sua casa aí a gente conversa. xo.

Um vago sorriso se esboça nos meus lábios melados. Levanto os olhos e vejo Bo me observando no instante em que enfio o celular no sutiã. Então percebo, dois segundos tarde demais, como é constrangedor a gente ser pega pelo cara por quem está apaixonada metendo a mão na blusa.

Já recebi olhares o bastante na vida para saber que, quando uma pessoa é flagrada encarando outra, desvia os olhos por instinto. Mas Bo continua me olhando fixamente, como se não tivesse nada do que se envergonhar.

Coro até a raiz dos cabelos. Limpo os lábios com as costas da mão e começo a cuidar das últimas tarefas do dia no salão.

Ron permite que Marcus saia dez minutos mais cedo no fim da noite, pois Tiffanie está esperando por ele, furiosa sei lá com o quê. Sentado lá no escritório, Ron termina de fazer os relatórios noturnos enquanto Bo passa o esfregão no piso da cozinha e eu limpo os tampos das mesas.

— Cuidado — avisa ele. — Acabei de lavar bem atrás de você.

Ando com passos leves, tomando cuidado para não escorregar, e lavo a gordura das mãos na ampla pia industrial.

Já cumpri com todas as minhas obrigações, mas começo a inventar mil coisas para fazer enquanto Bo termina de lavar o chão. Encho a pia para que ele possa deixar o esfregão de molho durante a noite, como Lydia gosta.

— Vão para casa, vocês dois — diz Ron, de longe. — E até amanhã.

Corro até o armário para pegar as minhas coisas, como se estivesse com medo de que Bo saia sem mim. Sigo-o pelos fundos da loja, e ele abre a porta para que eu passe, por isso tenho que me abaixar sob seu braço. Que não está cheirando mal, diga-se de passagem. Como é que ele consegue passar a noite inteira fritando hambúrgueres sem ficar com cheiro de gordura e temperos?

Enquanto caminhamos em silêncio até os nossos carros, a mão dele roça a minha sem querer e eu me pergunto qual seria a sensação se ele a apertasse, entrelaçando os nossos dedos.

Paro ao lado do carro, olho para ele por cima do teto e digo:

— Obrigada pelo pirulito.

Ele não se vira, limitando-se a inclinar a cabeça para o céu.

— Boa noite, Willowdean.

SETE

Sem eu ter que pedir, El me brinda com todos os detalhes picantes da perda da sua

virgindade. Acabou rolando no quarto do Tim, porque a mãe dele tinha ido visitar a avó em outra cidade, e o pai, que é policial, estava trabalhando no turno da noite.

Deitamos na minha cama, nariz com nariz, as luzes apagadas.

— Como foi? Não o ato em si, mas como você se sentiu?

Ela fecha os olhos por um segundo.

— Eu me senti... no controle. Tipo assim, da minha vida. — Abre os olhos. — E amada. Mas também estou me sentindo estranha.

— Por quê?

— Porque nós fizemos uma coisa adulta. Extremamente adulta. Mas sem deixarmos de ser nós mesmos. Ainda estávamos rindo, fazendo piadas. Eu esperava me sentir uma pessoa totalmente diferente, mas era eu, a velha Ellen de sempre... tomando uma decisão de que não poderia mais voltar atrás.

Balanço a cabeça. E com a maior seriedade, porque, dito nesses termos, posso entender.

El toca o meu rosto com as pontas dos dedos e, pela primeira vez, noto as lágrimas esparsas que escorrem por ele. Ela encosta a testa na minha, e não sei qual de nós duas pega no sono primeiro.

Apesar da casa entulhada de sacolas com mil materiais para o concurso de beleza, as semanas seguintes passam sem maiores problemas. Trabalho a maior parte do tempo

com Ron, às vezes com Lydia. As segundas e quartas são supertranquilas, mas as sextas e os sábados são uma loucura. Mamãe detesta o fato de ficarmos abertos até a meia-noite, mas, quanto a isso, não há nada que eu possa fazer.

Certa noite de sexta, enquanto fechamos a loja, Ron entra no salão carregando várias embalagens de copos plásticos.

— Copos novos — diz, colocando-os no balcão.

— Qual é o problema com os que estamos usando? — pergunto.

Ele rasga o plástico de uma das embalagens e me entrega um copo vermelho que tem o nosso logotipo, mas, logo abaixo, exibe em vermelho a frase Patrocinador Oficial do Concurso Miss Jovem Flor do Texas. Às vezes, tenho a impressão de que o concurso é como o Natal, e ficamos tentando comemorá--lo cada vez mais cedo, até se transformar num evento de ano inteiro.

— Uma das garotas do comitê da sua mãe veio até aqui, e, bem, a minha mãe foi a vencedora do concurso de 1977. Eu não poderia deixar passar a oportunidade de apoiar o evento mais importante de Clover City.

Sinto a minha testa franzir.

— Então nós vamos jogar fora todos os copos que estão em perfeito estado para usar esses?

Ele dá de ombros.

— Reabastece os dispensers antes de sair, tá?

Sempre me esqueço de como é horrível essa segunda metade do ano que antecede o concurso. É como se ela entulhasse a minha vida, mal me deixando espaço para respirar.

Quando terminamos de fechar o Harpy’s, Marcus e Ron já estão dando marcha a ré nos seus carros muito antes de Bo e eu chegarmos aos nossos.

Enquanto destranco a porta — a chave do meu carro não tem aquele botão chique que basta apertar —, Bo anuncia:

— Vai ter uma chuva de meteoros daqui a pouco. Mas não das grandes.

Jogo a bolsa no banco do carona.

— Como é que você sabe?

— Minha madrasta disse. Ela adora estrelas, astrologia, essas coisas.

Não sei quase nada sobre astrologia, a não ser que, segundo a igreja da mamãe, é o mesmo que bruxaria. Num impulso, fecho a porta do carro.

— Nunca vi uma chuva de meteoros.

Ele meneia a cabeça na direção da traseira da caminhonete, enquanto as luzes do estacionamento começam a se apagar.

— Vamos esperar por ela?

Prendo o fôlego. Acho que deve ser essa a sensação que a pessoa experimenta quando a sua vida finalmente começa a acontecer.

— Tem algum cobertor pra gente se sentar?

Ele liga o rádio e pega um agasalho com as iniciais da Holy Cross no interior da caminhonete.

— Usa isso.

Bo fecha os olhos de um jeito bem ostensivo enquanto eu faço um baita esforço para subir na traseira. Espero que estejam mesmo fechados, porque a palavra esforço e o uniforme de poliéster não combinam na mesma frase. Ele me oferece a mão, e não tenho vergonha de admitir que finjo precisar dela.

Fico surpresa ao perceber que seus dedos estão calejados do trabalho. Gosto de sentir o contraste áspero na pele. Quando já estou acomodada, acho difícil soltá-los.

Ele demonstra dor por um segundo ao impulsionar o corpo.

— Você está bem?

— Joelho estourado. — Ele se senta perto de mim e estende a perna.

— Qual é o problema? Alguma lesão, ou sempre foi assim?

— Um pouco dos dois.

— Mas você está bem?

Ele tosse no punho.

— Estou.

Os últimos postes na rua se apagam. Vivemos dentro dos limites da cidade, mas, todas as noites, quando Clover City encerra as suas atividades, é difícil esquecer como estamos isolados. Longe do caminho de qualquer estrada ou rodovia maior, é o tipo do lugar que só pode ser encontrado por quem estiver muito a fim.

Bo dá uma olhada no relógio do celular.

— Já deve estar escuro o bastante para ver.

Consigo distinguir com a maior facilidade a forma de várias constelações.

— Você disse que a sua madrasta curte astrologia?

Ele esfrega os nós dos dedos no queixo.

— Hum-hum.

— Seus pais são divorciados?

Ele nega com a cabeça, mas não faz comentários.

— Ah, desculpe por perguntar. Eu sou educada feito um touro numa loja de cristais. Quer dizer, é um problema sério.

— Não, não é isso. Não me importo de contar pra você, por isso não precisa pedir desculpas. É que eu não sou de falar muito. As pessoas demoram um pouco pra se acostumar.

Encosto a cabeça no vidro traseiro da caminhonete e cruzo os tornozelos.

— Já eu falo como se o mundo só pudesse continuar girando se fosse ao meu redor.

— Eu gosto de te ouvir. — Ele ri. — Um lance assim tipo síndrome de Estocolmo, quando o sequestrado começa a gostar do sequestrador. No começo, era meio assustador, mas agora até acho reconfortante. Tipo, o mundo poderia estar acabando, mas se eu viesse trabalhar você estaria falando como se tivesse o dever de fazer isso.

— Desculpe, mas será que esse comentário sobre o sequestrador foi uma maneira desastrada de dizer que eu sou cativante?

— Boa tirada — responde ele.

Dou um tapa no seu braço. Ele segura a minha mão e não a solta. O rádio atrás de nós começa a tocar “Creepin’ In”, aquele dueto da Dolly com a Norah Jones. Nossa cidadezinha está totalmente às escuras, mas sinto os olhos de Bo se unindo aos meus.

— Está começando — sussurra ele, e finalmente larga a minha mão.

Solto um suspiro trêmulo que nem notei que estava prendendo.

— É uma chuva de meteoros bem pequena — diz, ainda sussurrando. — Desculpe por não ser mais impressionante.

Ainda estou totalmente fascinada com tudo. Raios remotos recortam o céu, deixando rastros roxos como hematomas. Faço que não para ele.

— Nunca tinha visto uma. Acho que isso a torna especial, não é?

Inclinamos ainda mais as cabeças para o céu. Passados alguns minutos, ele diz:

— A primeira chuva de meteoros que vi foi um espetáculo. Não queria que acabasse nunca.

— Não podemos ter coisas maravilhosas o tempo todo — comento. — Esqueceríamos o quão maravilhosas elas são.

Ele faz que sim. Continuamos sentados ali por um bom tempo, como se tudo que está acontecendo fosse uma música feliz tocando no rádio sem interrupções.

— Você não se sente um pouco como se nós fôssemos as únicas pessoas no mundo que estão vendo isso? — pergunto depois de algum tempo, quase com medo de quebrar o encanto do momento.

— Não sei. — A voz de Bo sai grossa e baixa. — Minha mãe morreu. Há cinco anos. Gosto de pensar que, onde quer que ela esteja, seu céu também tem chuva de meteoros. — Cada palavra é um pedacinho de si que ele expõe, e estou louca para juntar as migalhas que já tenho para poder compreendê-lo.

Fico esperando que ele faça algum adendo, que diga que essa teoria é absurda, ou que se desculpe por tocar num assunto meio deprimente. Porque é o que eu faria. Mas Bo não se desculpa. E eu gosto disso. Gosto do fato de ele não ter pelo que se desculpar. Sinto vontade de dizer que lamento muito pela sua mãe e que também gosto de pensar o mesmo em relação a Lucy, mas me limito a observar:

— Acho que o céu é grande demais para não ser compartilhado.

OITO

Na manhã seguinte, quando mamãe pergunta a que horas cheguei, invento que o Harpy’s

estava ainda mais lotado que de costume. Não paro de mexer os lábios, lembrando os momentos passados na traseira da caminhonete de Bo.

Sei que deveria ligar para Ellen e contar tudo, nos mínimos detalhes. Mas ainda não estou pronta para me abrir sobre o que aconteceu. Gosto da ideia de guardar meu mundo em pequenos compartimentos, para evitar qualquer risco de colisão.

O movimento da noite de sábado é meio insano. Sempre fica fraco entre as dez e meia e as onze e meia, mas, perto da hora de fechar, recebemos uma última manada de clientes.

Ron está lá nos fundos, ajudando a preparar os pedidos, enquanto me encarrego de anotá-los. Hoje, Marcus está no drive-thru. Os fones de ouvido mal conseguem se ajustar nas orelhas com aquela cabeleira atrapalhando. Entre um pedido e outro, ele dá uma corridinha para me ajudar a arrumar as bandejas da clientela, mas a fila continua quilométrica.

Já nem estou mais me dando ao trabalho de levantar os olhos do caixa, quando de repente escuto alguém dizer:

— Ah, meu Deus. Esqueci totalmente que a Ellen tinha dito que você trabalha aqui.

Meus ombros se curvam de desânimo quando reconheço a voz.

Callie se debruça no balcão e solta na lata:

— Desculpe a franqueza, mas esses uniformes são horríveis.

— Bem-vinda ao Harpy’s Burgers & Dogs. Em que posso servi-la? — pergunto.

O namorado, Camdon, Brandon ou seja lá qual for o nome do cara, atira a carteira para Callie e informa:

— Preciso dar uma mijada.

Os dois trocam um beijo. Na boa: precisava? Será que ele vai se afogar na privada? Callie olha para mim com um sorrisinho compreensivo.

— Tudo bem, ele vai querer um número 1 com Dr. Pepper. Sem tomate e com cebola extra bem douradinha. E, se for possível, troca a batata frita por bolinho de batata? Eu vou querer um hambúrguer. Sem queijo. E batata pequena. — O sorriso se torna cúmplice. — Já estou dando balão na dieta para o concurso. Homens são uma péssima influência.

— Dez dólares e setenta e quatro centavos.

— Talvez a pergunta pareça um pouco estranha, mas será que um dia eu e a El-bell poderíamos dar um pulinho na sua casa? Eu adoraria... tipo assim, conversar com a sua mãe sobre o concurso e o ano em que ela venceu. Um papo informal.

Mal conheço essa garota, e ela já está tentando invadir a minha vida, como se tudo no mundo estivesse à sua disposição.

— Tenho andado muito ocupada — respondo, sem alterar a voz.

Ela franze os olhos para mim por um segundo antes de sorrir e checar as notas na carteira do namorado, até tirar uma de vinte.

— Aliás, menina! Você não levou um choque quando... — abaixa a voz — ... Ellen te contou sobre o desastre que foi o lance oral dela com o Tim?

— O quê...? — Eu sabia que a El conversaria sobre essas coisas com a Callie e não comigo. Mas não deixo que a surpresa transpareça. — Ah, sim. Que loucura, né? Seu pedido já vai chegar.

Estou furiosa. Sabia que isso iria acontecer. Sabia que o sexo criaria uma barreira entre mim e Ellen. Mas, acima de tudo, eu estou me sentindo inferiorizada.

Ron sai da cozinha e avisa:

— Pessoal, nós vamos fechar. Ou levam os pedidos pra viagem, ou vão embora sem eles. — Coloco o da Callie numa sacola e lhe entrego no instante em que seu namorado está saindo do banheiro.

Depois de trancarmos as portas do salão e o caixa, dou um pulo na cozinha para pegar o lixo.

— Vou levar lá para os fundos.

— Me dá só um minutinho — pede Bo. — Eu te ajudo.

Quando ele termina e Marcus apaga as luzes do drive-thru, Bo me segue pela porta dos fundos, cada um de nós segurando várias sacolas que quase transbordam de lixo. Quando a porta de vaivém está prestes a se fechar às nossas costas, Bo encaixa uma pedra com o pé entre ela e o batente. Coloca as sacolas no chão, pega a minha, levanta o braço acima da cabeça e a atira na caçamba. Em seguida, faz o mesmo com as dele.

— Obrigada. — Dou meia-volta para entrar.

— Espera. — Seus dedos roçam meu cotovelo, e eu prendo a respiração. — A noite passada. Gostei muito da sua companhia.

— Tá. Quer dizer, também gostei da sua. — E estendo a mão para a maçaneta.

— Willowdean. — A voz de Bo me assusta. Ele está tão perto que dá para sentir o cheiro da pele, encharcada de suor.

Chego a entreabrir os lábios para responder, mas ele se inclina para mim, hesita por um segundo e me deixa sem palavras quando mergulha a boca na minha. Nem tenho tempo de pensar na sua língua e no jeito como a minha reage. Sem saber o que fazer com os braços, deixo-os estendidos ao longo do corpo, as mãos fechadas em punhos. O beijo tem um gosto de cereja artificial e pasta de dentes. Sinto vontade de beijá-lo até os lábios caírem.

Ele finalmente se afasta.

Meu primeiro beijo. Um breve momento que dura para sempre.

O ar da meia-noite está quente e seco, mas isso não impede que eu me abrace. Espero pelas palavras — dele ou minhas —, mas nenhuma vem. O choque que sinto está estampado na minha expressão. Passo o polegar pelo lábio inferior e volto para a loja. Ele não tenta me impedir.

Fechar a loja demora uma eternidade. O salão está um caos, a cozinha também, mas nem noto, porque Bo e o meu primeiro beijo dão voltas e mais voltas pela minha

cabeça. Meu primeiro beijo, que aconteceu nos fundos do Harpy’s Burgers & Dogs, perto de uma caçamba abarrotada de lixo.

Mesmo assim, foi perfeito. Cada osso do meu corpo está doendo, como se eu tivesse sofrido um acidente de carro sem ter qualquer ferimento, mas ainda sentisse o impacto da cabeça aos pés.

No fim da noite, entro no carro e saio do estacionamento antes mesmo de Ron trancar a porta da loja.

Paro diante do sinal na esquina e passo as mãos pelo rosto várias vezes, tentando assimilar tudo o que aconteceu.

Um carro dá uma buzinada, e levanto os olhos para o sinal, mas ainda está vermelho. Escuto um grito abafado à direita.

Na outra pista, Bo acena com os dois braços, apontando para a minha janela. Esse não é o caminho que ele pega ao voltar para casa. Sempre viramos em direções opostas — ele vai para a Zona Leste e eu moro na Zona Oeste.

No instante em que abaixo o vidro, ele começa a falar:

— Me perdoe. Eu não devia ter... — beijado você, minha cabeça completa a frase — ... feito aquilo. Eu só... — Ele ergue os olhos, e percebo quando vê que o sinal no cruzamento ficou amarelo. — Segue o meu carro. Por favor.

Dou uma olhada no relógio. Já é uma e trinta e cinco da manhã.

O motorista atrás dele dá uma buzinada.

— Por favor. — Ele troca de pista, pondo o carro na frente do meu.

Provavelmente, eu não deveria seguir de madrugada um cara que mal conheço por uma rua escura. Afinal, ele poderia até me matar, de repente, e aí já não faria a menor diferença se eu sou gorda e o meu primeiro beijo aconteceu ao lado de uma transbordante caçamba de lixo, porque eu estaria totalmente ferrada.

Quando a avenida se bifurca e eu deveria pegar a direita, desvio para a esquerda e sigo um estranho garoto pela rua escura, enquanto o céu acima de nós dorme profundamente.

NOVE

Seguimos até os limites da cidade, bem onde fica a velha escola primária que pegou

fogo há alguns anos e desde então está abandonada.

Isso deveria ter bastado para me fazer sair correndo. Acho que eu nasci desprovida de um eficiente alarme de autopreservação na cabeça, porque o negócio está com toda a pinta de ser uma cilada de psicopata.

Quando estacionamos, espero que ele saia do carro primeiro. Se a El estivesse aqui, ela me diria para pegar a chave de roda no porta-malas ou esquentar o isqueiro do carro, mas não está. Então, procuro algo que sirva de arma no banco da frente, mas tudo que encontro é um pote vazio de manteiga de amendoim, um dólar e trinta e dois centavos, e uns folhetos publicitários que há semanas me esqueço de jogar no lixo. Fico pesando o chaveiro na mão por um momento.

A-há! Separo as três únicas chaves (carro, casa, El) e fecho a mão num punho, fazendo com que cada uma se projete dentre os dedos. Lembro que vi isso num programa, uma matéria sobre defesa pessoal. A televisão salva vidas.

Estou me sentindo ridícula, mas, enfim...

Bo está encostado no capô da velha caminhonete. Na lateral, vejo resquícios de letras, como se ele a tivesse comprado do dono de algum estabelecimento comercial e pintado por cima para apagar antigos dizeres.

— Isso é meio esquisito — observo, indicando a escola com a mão desarmada. O lugar inteiro está chamuscado, mas ainda dá para ver o arcabouço da construção, menos a parte do meio, que foi totalmente destruída. A natureza não foi nada generosa com a estrutura exposta. De onde estou, devido ao brilho do luar, dá para ver a silhueta dos brinquedos no pátio, enegrecidos. No estacionamento inteiro há apenas a luz de um único poste. E estamos muito longe da iluminação.

— Desculpe. — Ele tirou o uniforme do Harpy’s, que noto jogado no banco da caminhonete, e está usando só a camiseta de baixo. A correntinha que sempre vejo aparecendo acima da gola tem uma medalha de um santo padroeiro. — Eu estudei aqui. Até a escola ser destruída pelo incêndio. Foi o único lugar por perto que me ocorreu a essa hora da noite.

— Ah. — Tenho vontade de perguntar o que aconteceu com a mãe dele, qual era a sua professora favorita, se vinha à aula no ônibus escolar ou se os pais o traziam todas as manhãs. Mas não pergunto. Fico só na vontade. E que vontade.

Ele começa a rir, e não é um riso baixinho. Chega a perder o fôlego.

— Você veio preparada — observa, apontando o meu punho.

Levanto a mão que está pronta para me defender.

— Hum, é que você me trouxe a uma escola abandonada. Isso estava com toda a pinta de convite de psicopata que quer matar a mulher para passar semanas brincando de boneca com o cadáver.

Ele para de rir por um momento e diz:

— Está certo. Faz sentido. Mandou bem.

Guardo as chaves no bolso do vestido e começo a chutar pedrinhas no chão.

— Não me mata, hein?

Ele esboça um breve sorriso antes de responder:

— Não devia ter te beijado daquele jeito. Sem pedir.

— Então. Por. Que. Fez. Isso? — Cada palavra cai como uma gota num balde vazio.

— Sabe quando a gente é criança e está tendo um dia maravilhoso? Gosta da professora, tem amigos legais, não é mau aluno. Mas aí faz uma coisa que nunca seria capaz de controlar, mesmo que soubesse que teria o impulso?

Ele percebe a confusão no meu rosto.

— Tipo... chamar a professora de mamãe.

Não consigo esconder a expressão horrorizada.

— Espera aí. Como assim? Desculpe, mas você comparou o impulso de me beijar ao de chamar sua professora de mamãe?

Ele passa as mãos pelos cabelos, lamentando.

— Não. Quer dizer, sim. Foi como essa reação que eu tive. Uma coisa que não deu pra controlar.

— E agora está envergonhado?

— Não, não! — Ele levanta as mãos, como se pudessem apagar suas palavras. — O que eu quero dizer é que o impulso foi irresistível. Só estou envergonhado por não ter nem me dado ao trabalho de ver se você estava a fim. E peço desculpas por não ser uma coisa que você queria que eu fizesse.

— Não tem problema — respondo, principalmente porque ele não costuma falar muito e estou meio fascinada com isso.

Ele dá um passo na minha direção.

— Você quer dizer que me perdoa, mas não quer que se repita nunca mais ou... que gostou?

Dou de ombros, porque o resto do corpo está paralisado.

Ele avança mais um passo. Tudo fica em silêncio por um momento. É a minha chance de recuar e impedir que isso, seja lá o que for, aconteça. Mas sinto o autocontrole começar a fugir.

— Porque eu tenho a impressão de que você também me beijou.

Meu rosto começa a arder. Agora ele me pegou.

— Não foi ruim. Só não foi nenhuma bomba atômica — minto.

— Basicão?

Mordo os lábios, fazendo-os desaparecerem. Dou três passos, diminuindo a distância entre nós.

Ele apoia os cotovelos na caminhonete e inclina a cabeça para trás.

Faço o mesmo e, por um momento, ficamos observando o céu, até eu romper o silêncio.

— Quer dizer que você me beijou por impulso? — A tensão que contrai meus músculos diminui quando me sinto mais à vontade com ele. — Mas por quê? — Só que o zum-zum continua. A vibração da adrenalina.

Gotas de chuva pingam na gente, fazendo com que o ar fique instantaneamente carregado de umidade. Bo olha para o alto, como se estivesse tentando descobrir um jeito de fazer com que parem.

— Vamos entrar na caminhonete. — Abre a porta do carona para mim e eu me sento, enquanto ele dá uma corrida até o outro lado e entra.

Por pouco o temporal não nos pega. As gotas batem furiosas no para--brisas. O barulho é tão alto que ele é quase obrigado a gritar:

— Que nota você daria, de um a dez?

— Você não vai mudar de assunto, vai?

— É que eu sou meio egomaníaco.

Estou me sentindo corajosa. Ou melhor, eu sou corajosa.

— Talvez você devesse me dar outro. Para eu dizer qual o melhor.

Ele pigarreia, e eu o observo intensamente.

— Bom, geralmente eu prefiro acertar de primeira, mas detestaria privar você de um bis. — Ele se afasta do volante na minha direção. Sua mão aninha meu rosto. Abaixando a cabeça, seus lábios quase encontram os meus.

— Tem certeza?

Surpreendendo até a mim mesma, não respondo. Apenas beijo Bo Larson. E, quando ele entreabre os lábios junto aos meus, não penso nisso. Porque, pela primeira vez na vida, eu sou aceita. Totalmente aceita, sem nenhuma pergunta.

Ele segura meu rosto com as duas mãos e me puxa para mais perto.

Se El sente um décimo disso quando está com Tim, então não sei como pode ter esperado tanto para transar com ele, porque, quando os lábios de Bo se movem sobre os meus, não consigo pensar em mais nada além de nós dois.

Suas mãos passam para meu pescoço e ombros. Seu toque faz com que ondas de emoção percorram meu corpo. Excitação. Terror. Euforia. Tudo ao mesmo tempo. Mas então ele vai descendo os dedos pelas minhas costas até a cintura. Prendo o fôlego. A sensação é como uma verdadeira punhalada nas costas. Minha cabeça trai o corpo. A realidade de Bo me tocando. A ideia de Bo sentindo a gordura nas minhas costas e o pneu na cintura me dá ânsias de vômito. Pois na mesma hora eu me comparo com todas as garotas que ele já deve ter tocado. Todas com as costas retas e a cintura fina.

— Desculpe. — Seu fôlego sai quente e rápido.

— Não, não, não se desculpe. — Não sou desse tipo de garota. Não passo horas me olhando no espelho, pensando nas mil e uma maneiras como poderia ficar ainda mais bonita. A ideia de fugir dos seus braços me envergonha de um jeito que não entendo totalmente.

Ele nega com a cabeça.

— Não, quer dizer, eu não devia ter... Acho que não... deveria namorar ninguém no momento.

O estranho é que, até ele tocar no assunto, a ideia — a possibilidade — de namorarmos nem tinha me passado pela cabeça.

— Ah. — Minha resposta sai como um suspiro.

— Estou com mil problemas na minha vida. E não devo namorar ninguém. Ou, pelo menos, não namoro há algum tempo.

Faço que sim com a cabeça.

Se qualquer garota me contasse que um cara tinha dito isso, eu a aconselharia a pisar no freio e dar marcha à ré. Porque esse papo é de um espertalhão. E eu não consigo pensar isso de Bo. Mas acho que é assim que todas as mulheres já apanharam na guerra dos sexos. Porque as regras se aplicam a todo mundo, menos à gente.

Abro a porta.

— É melhor eu ir para casa. — A chuva molhando o interior da caminhonete.

— Já é tarde. — Pois é. A única coisa que ele tem a dizer.

— Te vejo no trabalho.

A chuva leva dois segundos e meio para me encharcar. Lá se foi minha dignidade por água abaixo, literalmente. Entro no carro e saio do estacionamento a toda velocidade. Ligo o rádio no volume máximo, na esperança de que abafe o vozerio na minha cabeça. Lucy, mamãe, Ellen, Bo. É como se eu tivesse versões em miniatura de cada um deles dentro de mim, uma mais barulhenta que a outra. A única voz que me falta — e a de que mais preciso — é a minha.

DEZ

Agora é oficial: está quente demais para ir nadar. Até Ellen concorda. Jake fica indo e

vindo por baixo das nossas mãos enquanto assistimos a um programa de baixarias que exibe o caso de uma mulher que se apaixonou pelo irmão sem saber quem ele era, pois não foram criados juntos.

— Eles só podem estar mentindo — comento.

El balança a cabeça, discordando.

— Não, não, eles podem ser esquisitos, mas acho que estão dizendo a verdade. De mais a mais, por que mentiriam?

— Hum, porque são nojentos e sabem disso. Provavelmente foram pegos em flagrante e precisavam de uma desculpa, ou algo do gênero.

— Santo Deus. — Ela solta um bufo. — Você é tão cética. Que é que te custa acreditar que nem todo mundo é mal-intencionado?

Jake se enrola em volta do meu pulso. Suas escamas estão lisinhas por ter acabado de trocar de pele.

— Nem sempre sou cética, mas as probabilidades de eles estarem dizendo a verdade são praticamente nulas. Seria o mesmo que dizer que Tim pode ser seu irmão.

Ela está tão absorta no programa que nem responde.

Seria uma boa hora para eu contar o que aconteceu com Bo. Mamãe já estava dormindo quando eu voltei, mas disse que tinha me ouvido chegar depois das duas e que da próxima vez que isso acontecesse ligaria para o meu patrão. Isso não é hora de uma moça de família chegar em casa, decretou. Fiquei meio irritada por ela automaticamente presumir que eu tinha vindo direto do trabalho. EU ESTAVA AOS BEIJOS COM UM GAROTO NUM ESTACIONAMENTO ABANDONADO, tive vontade de gritar. Mas isso é espantoso demais. Até para mim. E eu estava lá.

Não sei como formar as frases para explicar a El que não apenas ganhei o meu primeiro beijo, como ele terminou numa pegação forte, com tudo a que tinha direito. El já ficaria bastante chateada comigo por eu não contar o que eu sentia por Bo desde o começo. E, embora nenhuma de nós tenha dito que o que aconteceu na noite passada deveria ser mantido em segredo, essa é a sensação que tenho.

É uma besteira, eu sei, porque a El nunca pensaria isso, mas tenho a impressão de que a noite passada foi totalmente inexplicável. Um garoto — um garoto lindo de morrer, que as garotas ficam secando — me beijou, e me beijou pra valer. Um daqueles beijos que deixam a gente sem fôlego. E eu não sei como contar isso à minha melhor amiga. Fora o fato de que, se falasse sobre a noite passada, também teria que dizer como a noite acabou. Com Bo prometendo que isso nunca mais aconteceria e eu morta de vergonha ao pensar nas mãos dele alisando o meu corpo.

Mas não estou a fim de contar nada disso para a El. Mesmo que seja uma bobagem, quero preservar a boa impressão que ela tem dele, porque acho que, no fundo, no fundo, ainda sinto a esperança de ter uma chance com ele, apesar do jeito como a noite terminou.

Mas uma chance de quê? De namorarmos? Essa ideia me parece tão ridícula que nem consigo imaginar como seria aparecer em público de mãos dadas com alguém.

Não é que eu não tenha autoestima. Sei que mereço o meu final feliz. Mas e se Bo for o ponto alto da minha vida e eu não passar de um tropeço na dele?

Sinto falta de Lucy.

Os créditos do programa começam a passar, e El seca as lágrimas no rosto.

— Ah, meu Deus — exclama. — Ah, meu Deus. Que história mais triste. Eles se amam tanto que não conseguem se afastar. E a sociedade nunca vai aceitar.

— Você está menstruada, ou o quê?

— Você é muito chatinha às vezes, sabia? — Ela se levanta com Jake. — Vou colocá-lo na gaiola. Quer ficar para o almoço?

Sorrio.

— É melhor eu ir para casa. Quero dar uma olhada nas coisas de Lucy antes da mamãe chegar. Ela começou a limpar o quarto da minha tia há umas semanas.

Sigo El até o quarto, e ela põe Jake na gaiola. Ele se acomoda por baixo da luminária que aquece as suas escamas, deliciado.

Após alguns minutos, El me chama.

— O que é?

— Tia Lu costumava usar um broche de abelha quando nós éramos pequenas. Lembra? Aquele que ela colocava no sobretudo quando ia buscar a gente na escola?

Minha boca fica seca. Balanço a cabeça. Ela o usava na gola. Isso foi antes de atingir o peso máximo, mas já estava bem gorda. O sobretudo era preto, banal, obviamente comprado pela praticidade, sem qualquer pretensão de ser chique — o tipo de sacrifício que a gente faz quando é bem maior do que a média. Mas o broche era como um raio de sol brilhando por entre nuvens escuras. Ela nos chamava de minhas abelhudas e nos levava para tomar chocolate quente às segundas, porque não achava justo que a gente só recebesse uma atenção especial às sextas.

Era engraçado: eu me imaginava como uma segunda e Ellen como uma sexta. Mas a segunda e a sexta são só períodos de vinte e quatro horas com nomes diferentes.

— Se encontrar aquele broche, e só se não quiser pra você, se importaria de guardar pra mim? Não que você me deva isso, mas é que eu sempre adorei aquela abelha.

— Pode deixar. Vou procurar por ele, sem falta.

Desde o dia em que Lucy morreu, tive a sensação de que eu era a única responsável por manter viva a sua lembrança, e que, se não conseguisse, estaria falhando com ela da pior maneira possível. A conscientização de que ela não era só minha me vem como um doloroso alívio.

ONZE

Não vou beijar Bo Larson. Não vou pensar em Bo Larson. Não vou beijar Bo Larson.

Não vou pensar em Bo Larson. É um mantra que fica se repetindo sem parar na minha cabeça e que chego mesmo a recitar em voz alta, quando estou sozinha.

Horas antes de ir para o trabalho na tarde de segunda, mamãe me pede para aviar uma receita para ela, pois está com medo de encontrar a farmácia fechada quando sair do trabalho.

Vou até o Centro da cidade, onde fica a drogaria Luther & Sons. Como não encontro onde estacionar, sou obrigada a parar numa vaga na frente da All That Shines, uma loja de bijuterias quase tão velha quanto Clover City, que é a distribuidora oficial das coroas dos concursos em todo o estado do Texas.

Sinto os ombros arderem de calor enquanto tranco a porta da Jolene.

— Ah, que merda — murmuro. Bem na frente da vaga, preso num bloco de concreto, há um cartaz com os dizeres: EXCLUSIVA PARA CLIENTES.

Dou uma olhada, mas não vejo nenhuma outra vaga, por isso decido dar uma corridinha até o interior da loja.

Por trás do empoeirado balcão de vidro, sentada num banquinho de madeira que range, está Donna Lufkin. Os Lufkin têm tanto orgulho da sua família que nem mesmo a tradição e o conservadorismo conseguem convencer uma Lufkin a trocar de nome quando se casa. Mas Donna nunca se casou.

É uma mulher corpulenta, de porte robusto. Está vestindo uma bermuda cargo com bainha desfiada, e, pelo cheiro das galochas de jardinagem, foram usadas exatamente para o que se destinam. Ela é o oposto do que se poderia esperar de alguém que vende coroas para concursos de misses. Claro, ela vende outras coisas também, mas são as coroas que fazem da loja um monumento cultural.

— Willowdean Dickson! — exclama ela. — Não te vejo desde... — E se cala.

— O serviço religioso de Lucy — termino.

Ela concorda, mas não tenta sorrir, e fico-lhe mais grata por isso do que ela pode imaginar.

— Sua mãe te mandou buscar alguma coisa? Acabei de receber as novas coroas.

— Não, senhora. É que eu não achei vaga, e aí pensei se poderia deixar o carro na da loja enquanto dou um pulo na farmácia.

Ela me despacha com um gesto.

— Esses cartazes não servem pra nada mesmo.

— Obrigada — respondo, já com a mão na porta.

— Quer dar uma olhada nelas?

— Nelas o quê?

Ela abre um sorriso.

— Nas coroas, é claro.

Pode não parecer grande coisa, mas as coroas de zircônia cúbica são guardadas com mais segurança do que seriam no banco do outro lado da rua. Por mais que eu despreze esse concurso, não é uma oferta que se possa simplesmente recusar.

Donna tranca a porta da loja e eu a sigo, atravessando a cortina que leva ao estoque. Temos que passar por dois escritórios até ela destrancar um pequeno armário com prateleiras cheias de caixas. Cada uma está marcada com os nomes das cidades do estado, mas na frente e no centro três delas têm etiquetas que dizem CLOVER CITY.

— Espera aí. Por que três?

Ela enumera nos dedos.

— A primeira é a original. Às vezes, é exibida na prefeitura. A segunda é a que é dada à vencedora. E a terceira é a que fica de reserva, para o caso de a segunda ser roubada.

Ela tira as três caixas e as coloca lado a lado na escrivaninha. A que é dada à vencedora e a sobressalente são quase idênticas, mas a original... bem, essa parece o tipo de preciosidade que você encontraria na caixa de bijuterias da sua avó. As pedras de strass estão embaçadas e o metal, oxidado de velhice, mas ela ainda tem qualquer coisa de nobre. Gosto do fato de não ser brilhante ou altiva demais como as mais novas, e, ainda assim, ter personalidade.

Donna me vê observando a original.

— Também é a minha favorita.

Por um momento, o concurso faz sentido, e eu entendo por que mamãe lhe dedica metade da sua vida e a maioria das garotas na cidade sonha com vestidos de gala e refletores nas noites em que o céu está cravejado de estrelas.

— A senhora dá uma experimentada de vez em quando?

Suas faces se cobrem de um rubor claríssimo.

— Muito cá entre nós, uma vez ou outra. — Com grande cuidado, ela põe as mãos na caixa que contém a original.

— Experimenta.

— Tem certeza? — Com minha sorte, vou ser logo eu a quebrar a coroa original.

Ela me olha fixamente.

— E eu pareço ser do tipo de mulher que não tem certeza de alguma coisa?

Faço que não.

Ela me leva até a frente do espelho que fica atrás da porta. Prendo a respiração quando põe a coroa no alto da minha cabeça. Sei que é bijuteria, todas as pedras são falsas, mas isso não me impede de sentir seu peso como uma responsabilidade. Gostaria que Lucy, Ellen ou mesmo a minha mãe estivessem aqui para me ver com o uniforme vermelho e branco do Harpy’s e o bem mais precioso de Clover City na cabeça.

— Verdade seja dita, não acho que a sua mãe a tenha sequer experimentado. É melhor não contar isso a ninguém.

Digo que sim apenas com os olhos, porque estou com medo de balançar a cabeça.

— Por que me deixou experimentá-la?

Ela dá de ombros.

— Talvez porque nem sempre seja preciso vencer um concurso para se pôr uma coroa na cabeça.

Não vou beijar Bo Larson. Não vou pensar em Bo Larson.

Marcus ligou para avisar que está doente e não vem trabalhar, como se estivesse

pressentindo que o clima hoje vai ficar superpesado.

O brilho da coroa já desbotou, e nós estamos até o pescoço de trabalho. Bo acaba tendo que ser desentocado da cozinha para me ajudar no caixa. Pelo que vejo, as únicas frases em seu vocabulário são: “Vai comer aqui ou é pra viagem?” e “São... [o valor do pedido]”.

De vez em quando, nossas mãos se roçam ou esbarram. E cada toque faz com que eu sinta um choque elétrico correr pelas minhas veias. Mas, quando ele começa a discutir com um cliente por causa de picles, Ron o manda de volta para a cozinha.

No fim da noite, Ron despacha todo mundo para casa mais cedo e promete vir amanhã de manhã para fazer a checagem final. Eu até protestaria, pois minha mãe me ensinou que uma dama do Sul sempre bate o pé quando outra pessoa se oferece para fazer a faxina, mas estou louca para ir embora.

Tento ser rápida e chegar à porta antes de Bo, mas ele acompanha cada passo que dou, rente nos meus calcanhares.

Vou ter que arranjar outro emprego.

Já estou com a mão na porta do carro e quase livre para dar o fora.

— Willowdean.

Dou meia-volta.

Ele se aproxima tão depressa que chego a ter a sensação de que também estou me aproximando dele.

Nossos narizes se encostam e seus lábios param a um milímetro dos meus. Minha retina mental ainda precisa avançar no tempo e assimilar que ele está aqui, no meu espaço, redefinindo tudo o que achei que sabia sobre mim mesma. Minha discrição. Meu orgulho. Ambos se evaporaram, e é como se eu estivesse usando antolhos de cavalo.

Estou beijando Bo Larson. Estou pensando em Bo Larson.

Pela primeira vez na vida, eu me sinto ínfima. Minúscula. Mas não de um jeito que me intimida, e sim me torna livre e poderosa.

— Quero te beijar — anuncia ele, seus lábios roçando os meus a cada palavra.

Perco a capacidade de falar e, desistindo, entrelaço os dedos nos seus cabelos e puxo até sua boca se colar à minha.

DOZE

Quando fico na ponta dos pés para alcançar a prateleira mais alta, sinto o nó na cintura

se desfazer e o avental cair. Olho para trás, à direita e à esquerda, e vejo Bo sorrindo.

Ele dá uma piscadinha.

Bo se tornou a melhor parte do meu dia — e a pior também.

Meu relógio de pulso marca seis e dois da tarde. Hora do intervalo. Enfio o último saco de pães de hambúrguer na prateleira, na certa amassando-os com o gesto descuidado, e me viro para segui-lo. Os pés me carregam sem que a cabeça possa dar qualquer palpite. A barulheira às minhas costas silencia até só restarem os ecos do Harpy’s: pedidos gritados, clientes reclamando, o assobio do Marcus, a chiadeira da fritura — tudo se transforma no mais absoluto silêncio.

Até o começo do verão, eu não conhecia nada parecido com isso. É o momento antes de eu pegar o saco de lixo que fica em cima dos engradados e escancarar com o pé a porta entreaberta dos fundos.

É o segundo antes de eu largar o saco transbordante perto da caçamba quando Bo Larson me dá uma prensa contra a porta de metal e só seus lábios me tocam. É aquele milissegundo sem as mãos. Só os lábios.

E então, como se as comportas de uma represa se abrissem, suas mãos se mexem e o momento passa. E eu me lembro do constrangimento que sinto quando elas passeiam pelo meu corpo flácido.

Quando essa consciência me atinge, minha cabeça liga de novo, como se estivesse num timer. Cada momento parece ensaiado, porque, à medida que as coisas foram avançando entre nós, comecei a me concentrar cada vez mais em prever o que ele faria em seguida. E agora eu já sei. Sei que, quando ele me empurra lentamente em direção à caçamba tampada e passa a mão pela minha cintura, é porque quer me levantar. Por isso, sempre me apoio e faço isso eu mesma, porque me apavora a ideia de que ele possa tentar e me deixar cair. Quando sinto seus dedos descendo pelo meu peito, vou logo contraindo a barriga. O que é uma perda de tempo, já que nunca faz a menor diferença nas fotos, portanto duvido que faça agora.

É nesses momentos que eu me torno uma sombra da mulher que fui. Da mulher que Lucy sempre quis que eu fosse.

Mas, quando ele diz meu nome, é sempre uma surpresa. “Willowdean”, diz ele, e cada letra me corre como um arrepio até os dedos dos pés.

Continuar: parte 3 de 10