Dumplin'
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.
— O Chili Bowl estava precisando de atendentes.
— O Chili Bowl sempre está precisando de atendentes — rebate ela.
Pego um punhado de batatas na tigela.
— Sei lá. Estava cansada de usar aquele uniforme.
Acho que El se dá por satisfeita com essa explicação, porque na mesma hora passa para um assunto muito mais picante.
— E aí, quando é que vai ser o seu encontro?
— Amanhã.
— Está nervosa?
— Acho que sim. Mas não muito.
— Mitch... Eu nunca teria adivinhado. Você gosta dele?
— Gosto. Sei lá, acho que preciso de algo novo. — Cubro o rosto com um dos travesseiros, abafando as palavras. — Não teria aceitado o convite, se não gostasse.
— Algo novo? Você nem nunca foi beijada. — Ela dá um laço frouxo nos cadarços do meu tênis. — Ele não parece fazer o seu tipo.
Estou sufocando de culpa. Não posso mais contar a ela sobre Bo. É tarde demais, e, de todo modo, não há mais nada a contar.
— Eu não tenho um tipo.
— Ainda não.
Mais tarde, quando estaciono o carro na frente de casa, a primeira coisa que noto é a janela acesa do quarto de Lucy.
Eu até deveria me demorar mais um pouco e me preparar para o que a minha mãe estiver fazendo com aquele quarto, mas, em vez disso, tiro a chave da ignição e avanço a passos furiosos para os fundos. Riot está esfregando o corpo na porta de vidro. A primeira coisa que ouço é Olivia Newton-John no volume máximo no segundo andar.
Jogo a bolsa na bancada da cozinha enquanto Riot corre pela escada, alguns passos à minha frente.
Não sei o que espero encontrar, mas não é mamãe sentada por trás de uma mesinha dobrável e todos os móveis de Lucy empurrados até as paredes.
— O que está fazendo? — pergunto à queima-roupa. Os discos emoldurados da Dolly Parton que enfeitaram essas paredes durante a minha vida inteira estão empilhados na ponta da cômoda, e o iPod da mamãe, jogado em cima do toca-discos rosa-claro de Lucy.
É o pior que poderia ter acontecido.
— Bem — responde ela, os olhos fixos na máquina, enquanto costura uma linha reta. — Eu sempre precisei de um ateliê. Nós já conversamos sobre isso. E o meu quarto não está mais dando conta do recado.
— Seu quarto? Você tem a casa inteira!
Ela empurra os óculos de leitura até o alto do nariz.
— Eu sei que você está aborrecida, Dumplin’. Eu sei. Mas não podemos deixar este quarto fechado como um mausoléu. Temos que seguir em frente. Lu compreenderia.
Sou eu que não compreendo.
— Mas você mudou tudo. Será que não pode trabalhar aqui sem virar o quarto do avesso? Até tirou as capas dos discos das paredes. Por que fez isso?
— Ah, querida, esses discos já estavam tão velhos... E também vamos ter que trocar o papel de parede, por causa das manchas quadradas que deixaram.
Pego o maior número possível de discos e os carrego até meu quarto. Se me restassem mãos livres, também bateria a porta. Solto os discos em cima da cama e volto para buscar mais.
— Dumplin’...
Dou meia-volta, apertando contra o peito os discos embolorados.
— É como se você estivesse tentando se livrar dela.
— Você sabe que isso não é verdade — murmura mamãe, uma agulha presa entre os dentes.
— Afinal, no que está trabalhando?
— Cenários. Este ano, o tema será “Texas: Somos Ou Não Somos Os Bão?” — Ela traça uma linha no cetim com um pilô vermelho. — E você não deveria estar trabalhando?
— Eu me demiti.
— Se demitiu? — Sua voz sai mais alta do que o normal.
Por fim, ela endireita um longo pedaço de cetim na máquina de costura, o pé suspenso acima do pedal.
A minha vida inteira, esse bendito concurso invadiu cada centímetro do meu mundo, menos o quarto de Lucy. Porque, no mundo em que eu vivia com ela, ninguém dava a mínima para coroas e faixas.
— É extremamente desrespeitoso da sua parte vir costurar essas fantasias ridículas logo aqui. Afinal, o que pode ser tão difícil assim numa fantasia de Estátua da Liberdade? Basta jogar um pedaço de pano em cima do ombro. — Minha voz começa a falhar. Mantenho os olhos bem abertos, com medo de piscar e rios de lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
A máquina de costura trepida num ritmo metódico, implacável, mas que vai ficando mais forte a cada ponto. A agulha incessante perfura minha cabeça, esperando que eu entregue os pontos.
— Dumplin’ — ela me chama sem tirar os olhos da máquina, ignorando totalmente o que acabei de dizer. — Por que não vai à cozinha e toma um copo de água gelada para se acalmar?
O desespero cresce no meu peito, e eu penso que seria capaz de fazer qualquer coisa para tirá-la deste quarto.
Caminho em passos duros até a cômoda e arranco a gaveta de cima. Sem qualquer hesitação, encho o interior vazio com tudo em que consigo pôr as mãos — principalmente discos.
— Willowdean Dickson, acho bom rezar para não ter quebrado o trilho da gaveta.
— É como se a morte dela não bastasse! — grito. — Você não vai se sentir satisfeita até dar sumiço em cada parte de Lucy e encher este quarto com tudo que ela não era!
A máquina finalmente para. Minha mãe se levanta sem dizer uma palavra.
Levo a gaveta para o quarto e bato a porta. Torvelinhos de poeira giram no ar, fazendo cócegas nas minhas narinas. Solto um espirro violento nos álbuns.
— Saúde — diz ela, do corredor. Sua voz sai tão baixa que mal dá para ouvir.
VINTE
Os preparativos para o meu encontro com Mitch mais parecem um processo de
transformação total que acontece no meu quarto. El me faz experimentar mil e um vestidos, desde o que usei na festa de formatura da oitava série até essa túnica trapézio de chiffon com estampa floral que mamãe me deu no Natal passado. “Você fica tão madura com ela”, foram suas palavras. Que eu não recebi como um elogio.
Por fim, o visual escolhido é um jeans com uma camisa de listrinhas brancas e pretas, arrematado por meus cabelos castanho-claros soltos sobre os ombros.
Digo a Mitch para vir me buscar às cinco, já que mamãe ficou presa na reunião com a diretoria do concurso até as seis, e eu não estava a fim de ouvir um discurso quilométrico sobre como ser uma moça fina e quais são as expectativas dos rapazes. Fora o fato de que eu ainda estava furiosa com ela, é claro.
Após trancar a porta dos fundos, sento-me no meio-fio ao lado da caixa de correio. Ouço e sinto o cheiro do carro antes mesmo de dobrar a esquina. Ele dirige um velho Suburban vermelho-tijolo que não deve passar por uma revisão há uns cinco anos. Estaciona à minha frente e sai no instante em que desliga o motor.
— Estou atrasado? — Ele segura a minha mão e me puxa... Nossa, que força.
— Não, nem um pouco.
— É que eu não entendi por que você está sentada aqui fora, já que normalmente os rapazes vão buscar as moças na porta de casa.
— Ah. — Aponto o polegar para a varanda. — É que nós não usamos a porta da sala. Está emperrada há séculos.
Ele inclina a cabeça de lado.
— Você está muito bonita.
— Você também. — E está mesmo. Com uma camisa social, comprida até mesmo para um cara alto como ele, e um jeans engomado, com vinco e tudo. E botas. Não daquelas de bico fino de caubói que a gente vê no cinema, mas esportivas, com bico arredondado. Minha avó costumava dizer que nunca se deve confiar num homem com botas limpas.
O interior do carro de Mitch está relativamente limpo, mas não há um sulco à vista que não esteja entupido de pó e sujeira. O banco traseiro é um verdadeiro mar de roupas — calças com estampa de camuflagem, botas — e copos descartáveis.
Ele me leva a um restaurante chamado Mr. Chang’s Chinese Palace, um point badalado num velho shopping que abriga várias financeiras, companhias de seguros e a filial de uma empresa que faz declarações de imposto de renda e obriga os funcionários a se fantasiarem de Estátua da Liberdade.
A hostess nos acomoda numa cabine de “madrepérola” como uma daquelas conchas gigantes de A Pequena Sereia, em que a Ariel ficava com as irmãs. Para minha surpresa, Mitch senta ao meu lado e não à minha frente, e um “ah” involuntário me escapa dos lábios.
A garçonete aparece para anotar nosso pedido e Mitch pergunta:
— Sabe aqueles negocinhos crocantes que vocês têm? Podia trazer uma porção, com molho de maçã?
— Hum, claro — responde a garçonete, uma menina que reconheço como sendo uma das alunas do último ano quando eu estava no nono ano, o primeiro do ensino médio.
Assim que ela se afasta, Mitch se vira para mim.
— Eu detestava ir a restaurantes chineses quando era pequeno, porque o couvert não tinha pão nem torradinhas, por isso minha mãe sempre pedia aqueles negocinhos crocantes...
— Rolinhos primavera. — Tenho que me controlar para não sorrir. — É assim que se chamam.
— Hum-hum. Pois é, são uma delícia.
Estudamos o cardápio em silêncio. Quando a garçonete se aproxima com nossas bebidas, Mitch se inclina e sussurra no meu ouvido:
— Pode pedir o que quiser.
Fico tentada a responder que todos os pratos no cardápio têm mais ou menos o mesmo preço, mas me limito a agradecer.
Assim que a garçonete anota os pedidos, Mitch estende um rolinho para mim.
— Aceita?
Faço que não.
— Eu soube que o seu time ganhou ontem.
Ele concorda.
— Foi meio apertado, mas, enfim, vitória é vitória.
Ficamos em silêncio por um momento, enquanto o rádio toca nos alto-falantes e nossos pés se roçam.
Mitch dá uma tossida no punho.
— Quer dizer então que a Ellen Dryver é a sua melhor amiga.
Pego o copo d’água e minha boca fica de um lado para o outro, sem conseguir encontrar o canudo.
— É, sim. — Conto a ele sobre Lucy e a Sra. Dryver, e como a Dolly Parton nos aproximou.
— Você é fãzaça da Dolly Parton? Mas ela não está caquética?
Não sei se existe algum manual ensinando a gente a sair com um cara sem pagar o mico do século, mas, se existe, tenho certeza de que confessar uma obsessão bizarra por Dolly Parton não está na lista do que se deve fazer. Mesmo assim, não consigo trair o intenso sentimento de lealdade que tenho em relação a ela.
— Vamos aos fatos. Sim, eu sou fãzaça da Dolly Parton. E há uma coisa que você precisa entender sobre os fãs da Dolly: a maioria de nós é louca de pedra. Então, considerando essa alta taxa de loucura entre nós, eu, em comparação, não sou tão pinel quanto os outros. Afinal, há pessoas no mundo que dedicaram a vida a fazer bonecas de porcelana da Dolly Parton. Algumas até abandonaram a família e o emprego só para ficar perto dela.
— Tudo bem — diz Mitch, as sobrancelhas franzidas. Dá para ver que ele está fazendo um grande esforço para compreender. — Tudo bem, mas, numa escala de um a dez...?
— Numa escala de um a dez, sendo dez o grau de louco varrido, acho que Ellen e eu somos quatro. Ou talvez cinco. A Sra. Dryver não é menos de oito, mas não chega a nove, porque não fez plástica. Pelo menos, ainda não. E acho que a minha tia Lucy era sete.
— Era? — pergunta ele.
A lembrança da minha tia se apodera de mim e se entranha até o fundo dos ossos.
— Era. Ela morreu em dezembro do ano passado.
Mitch se recosta no sofá.
— Ah, puxa. Sinto muito. Sinceramente.
— Obrigada. Tudo bem. — Pego um rolinho. — E você? Quem é o seu melhor amigo?
Por favor, não diga que é o Patrick Thomas. Por favor, não diga que é o Patrick Thomas.
Ele estala as juntas da mão direita, depois as da esquerda.
— Sou muito amigo de todo o pessoal do time. É difícil não ser. Mas acho que o meu melhor amigo mesmo é o Patrick Thomas.
Mordo o lábio e me dou cinco segundos para pensar numa resposta. Um... Dois... Três...
— Você se encolheu toda — observa ele.
— Hum? Não me encolhi, não.
Ele ri.
— Se encolheu, sim. Mas não tem problema.
Meus ombros se curvam.
— Tá. — Troco de posição no sofá para olhá-lo melhor. — É que aquele cara é um...
— Escroto.
— Exatamente. E você não é.
— Eu conheço o Patrick há séculos. Às vezes, ainda penso nele como o mesmo garotinho que era na nossa infância, e aí me lembro de que ele sempre foi assim.
Entendo o que Mitch quer dizer. Quando a gente conhece alguém há muito tempo, não vê as mesmas coisas na pessoa que os outros veem. Mas quando a amizade se baseia em quem vocês foram e não em quem são, é difícil não procurar o fio comum que os une. Mesmo assim, acho que não tenho o direito de policiar a vida social do Mitch.
— Sim, eu entendo.
Ele dá de ombros e tamborila com os dedos na mesa.
— Hum... E aí, qual é o seu feriado favorito?
— Acho que é o Quatro de Julho.
Ele seca o suor da testa com um guardanapo.
— Já eu prefiro o Halloween.
A garçonete aparece e põe duas tigelas de sopa de ovo na nossa frente.
— Detesto o Halloween. — Sempre detestei. El adora, e me arrasta para mil festas todos os anos. Mas, quando eu era pequena, nenhuma fantasia cabia em mim e eu acabava tendo que me contentar com o que encontrasse nos armários da mamãe e de Lucy. Acho que a magia de ser outra pessoa se perde quando você não pode sair totalmente da própria pele. Para mim a gota d’água foi no quinto ano, quando mamãe me mandou para a escola fantasiada de Rainha Elizabeth, com um velho tailleur amarelo, o cabelo todo cacheado e branco de spray. Todas as meninas na turma foram de princesa, pop star ou bruxa. Os gordos já têm bastante dificuldade para encontrar roupas, não precisam do estresse extra do Halloween.
— Você não sabe o que está perdendo.
Sinto vontade de dizer a Mitch que detesto o Halloween porque tenho a impressão de que, sendo um cara corpulento, ele vai entender, mas não sei como formar as palavras ou mesmo se estou pronta para despir essa camada de mim mesma e deixar que ele me veja. Só porque é um cara grandão, isso não significa que posso lhe contar todos os meus Segredos de Garota Gorda.
Tomamos a sopa em silêncio até a garçonete trazer o jantar. Quando terminamos de comer, Mitch paga pela refeição com notas de cinco.
Já em casa, ele sai do carro e abre a porta para mim.
— Obrigada pelo jantar.
— O prazer foi todo meu. — Ele estende a mão e eu a observo por um momento, antes de ele apertar a minha vigorosamente.
— Hum... boa noite.
E esse é o fim do meu primeiríssimo encontro oficial: Dolly Parton, minha falecida tia, nossos feriados favoritos, nossos melhores amigos e um aperto de mão. E agora vou ter que me sentar ao lado dele pelo resto do ano.
Não tenho forças para ligar para Ellen e contar tudo em detalhes. Trocar beijos com Bo encostada naquela caçamba parecia mil vezes mais romântico do que esse encontro. Gosto de pensar que não sou muito exigente, mas será que é pedir demais que role uma química entre mim e o cara? Um toque de magia que me faça sentir como se nós fôssemos as únicas pessoas no mundo durante dez minutos?
Em casa, mamãe está sentada à mesa da cozinha falando ao celular, enquanto toma notas num caderno com a capa coberta de glitter.
— É que nós não podemos coreografar o número de dança antes da abertura das inscrições. — Ela faz uma pausa. — Sim, eu confio nas suas habilidades, mas este ano só tem gente nova, Judith. E eu... Só um minuto. — Ela tapa o fone e se vira para mim. — Quem foi que te trouxe em casa?
— Um amigo. — Do outro lado da linha, Judith continua soltando o verbo sobre a coreografia do concurso, que nunca passou de meia dúzia de passos cadenciados. — Vou dormir.
Já no quarto, dou uma vasculhada nas pilhas de discos de Lucy antes de colocar um no toca-discos. E fico observando a agulha seguir os sulcos da voz da Dolly.
VINTE E UM
A noite passada foi a minha estreia lá no Chili Bowl. Ninguém, e quero dizer ninguém
mesmo, entra no Chili Bowl. Se esse primeiro dia de trabalho serve como indicador, é impossível que a luz daquele restaurante ainda não tenha sido cortada.
No fim da noite, quando Alejandro trancou a porta da loja, ele soltou um suspiro e disse:
— É que ainda não chegou a época em que o pessoal come chili.
Nem imagino qual seja a época do ano que faça tanta diferença assim, quando todo mundo sabe que no sul do Texas só temos duas estações: Quente Como Um Forno e Quase Tão Quente Como um Forno.
Como eu não tinha nada para fazer a não ser ficar relembrando o encontro mais constrangedor de todos os tempos, compilei uma lista de prós e contras em relação à minha mais recente escolha de vida.
Os prós e os contras de trabalhar no Chili Bowl
PRÓS
Posso trabalhar de calça jeans. Não tenho que usar aquele uniforme de poliéster com zíper na frente.
Não gosto de chili, por isso não vou ter com o que me empanturrar tão cedo. Não vejo Bo.
Não recebemos adolescentes bêbados que resolvem fazer pedidos cinco minutos antes de fechar.
A limpeza é facílima por causa da clientela inexistente. O lugar é silencioso.
CONTRAS
Minhas roupas ficam com cheiro de chili.
Menor carga horária = salário baixo.
Não vejo Bo.
O lugar é silencioso demais.
Bo está em toda parte. Com os lábios vermelhos de sempre. No quinto tempo, sinto seus olhos me seguindo como uma sombra. Às vezes me vejo vagando pelos corredores, sem ter plena consciência do que estou fazendo até perceber sua presença.
Mas não é só isso. Minha cabeça inteira se voltou contra mim. Toda vez que pisco, só consigo enxergar defeitos. Meu corpo virou um daqueles espelhos de parque de diversões. Os quadris são muito largos. As coxas são muito grossas. E a cabeça é muito pequena em relação ao resto do conjunto. Até o começo do verão, eu me sentia totalmente à vontade no meu corpo. Até mesmo orgulhosa dele.
Mas aí, Bo aconteceu. Desde a primeira vez que nós nos beijamos na caminhonete dele, foi como se eu desmoronasse. Alguma coisa no contato da sua pele com a minha fez aflorarem todas essas dúvidas que eu nem sabia que tinha.
E eu achava que, quando ele se afastasse, esses sentimentos passariam. Mas eles continuam firmes e fortes, e o máximo que posso fazer é tentar ignorá-los.
Peço licença à Srta. Rubio para ir ao banheiro. Não por necessidade, mas porque preciso sair. O quinto tempo se tornou um verdadeiro inferno, e o volume na minha cabeça já está no máximo.
Deixo que o cheiro híbrido de metal e suor dê um bom choque nos meus sentidos enquanto passo pelos corredores em direção ao banheiro mais próximo.
Estou jogando água no rosto, quando a porta de vaivém se escancara e uma voz pergunta:
— Tem alguém aí?
— Hum, tem. — Puxo uma folha de papel-toalha do rolo.
— Willowdean? — Bo mantém a porta aberta e dá uma olhada no corredor. — Tem mais alguém?
— Tá brincando? É o banheiro feminino!
— Preciso conversar com você. — Ele entra.
— Pode ter gente aqui.
Ele abana a cabeça, os cabelos castanhos balançando.
— A pessoa já teria dito alguma coisa.
— Você não pode ficar aqui.
— Me dá só cinco minutos.
Solto um suspiro pesado e me encosto à porta, preparada para bloquear qualquer garota que tente entrar.
— O que é?
— Você foi embora. — Ele cruza os braços e mantém as pernas bem afastadas. — Que foi que eu fiz?
Desfaço o rabo de cavalo para dar uma arejada nos cabelos.
— Está querendo ganhar um beijo, é? — pergunta ele.
— Como assim? Claro que não. Por que perguntou isso?
— Então, prende o cabelo.
Boquiaberta, olho para Bo, esperando que diga mais alguma coisa.
Ele não desvia os olhos.
— Estou falando sério.
Jogo os cabelos para frente e os prendo num rabo de cavalo, para que ele não possa ver o rubor que se espalha pelas minhas bochechas e desce para o pescoço. Com os dentes, puxo o elástico do pulso e torno a levantar a cabeça, esperando que a vermelhidão tenha passado. Ou que talvez ele pense que é por eu ter abaixado a cabeça.
— Olha, você está numa das minhas aulas. As coisas não deram certo entre nós. Mas eu não posso trabalhar e estudar com você — digo.
— As coisas não deram certo? Mas foi você quem terminou com tudo. Eu nem tive escolha.
— Teve, sim. Você passou o verão inteiro fazendo escolhas. — E eu também. — Olha, pra mim não dá mais. Tá? Não dá mais.
Ele discorda com a cabeça, mas isso não o impede de ir embora.
Lavo as mãos uma vez atrás da outra, tentando silenciar o vozerio na cabeça.
A porta do reservado para deficientes se abre, e meu coração dá um pulo. Hannah Perez, com sua boca cheia de dentes enormes. Seus coturnos saem batendo nos ladrilhos até ela chegar ao meu lado. Enquanto me observa no espelho, estende o braço e abre a torneira.
Eu deveria ficar com medo de que Hannah conte a alguém sobre mim e Bo. Mas a triste verdade é que ninguém acreditaria numa garota como Hannah Perez. O que não me impede de me sentir totalmente exposta.
Saio sem secar as mãos, esfregando-as na calça jeans. Já no corredor, respiro fundo várias vezes, como se estivesse sufocando.
VINTE E DOIS
— Não. Não. Não. — Encosto a cabeça no volante e tento dar a partida mais uma vez.
— Peeeeegaaaa! — Endireito as costas e dou um tapa no volante, mas a única resposta da adorável Jolene é uma buzinada fraquinha.
Ela não quer pegar. Minha filhota está com a bateria arriada. É terça de manhã, e o universo me odeia.
Vejo mamãe atravessar o jardim e passar pelo seu carro, segurando a bolsa e a marmita. Ela bate na minha janela com a dura unha de acrílico do indicador. Uma vez. Duas.
Como não me movo um centímetro, ela escancara a porta.
— Vem. Eu te dou uma carona até a escola.
Encosto a cabeça no descanso e solto um suspiro totalmente justificável.
— Você está estressada, não está? — pergunta ela sem olhar para trás, voltando a cruzar o jardim em direção ao seu carro. — Vou ligar para o Bruce e pedir que dê uma olhada no carro, mas, até lá, esses suspiros de alma sofredora não vão ajudar em nada.
No percurso até a escola, mamãe sintoniza ora uma estação que só toca flashbacks, ora uma evangélica. Não somos muito religiosas, mas ir à igreja faz parte da vida dela. Não me parece ser exatamente uma manifestação de religiosidade e sim uma forma de expressão social.
Na escola, ela me deixa na entrada, onde ficam os alunos até o nono ano e os demais pobres coitados que não têm ou estão sem carro.
— Ellen pode te dar uma carona na volta? Tenho uma reunião com o comitê.
— Pode deixar, eu me viro.
Já estou na metade do caminho quando escuto:
— Dumplin’! Dumplin’! Você esqueceu o celular!
Meu corpo inteiro se retesa como um cabo de vassoura. Alguns garotos espinhentos caem na gargalhada. O apelido que mamãe me deu é... enfim. Não me lembro de nenhuma ocasião em que ela não tenha me chamado de Dumplin’. Não que ele me incomode, nem penso nisso. Mas ela nunca me chama assim fora de casa — por motivos óbvios. Afinal, quem gostaria de ser chamada de bolinha de queijo, risole, almôndega, coxinha ou pastel em público?
Volto depressa até o carro, e ela me entrega o celular.
— Por favor, não me chame assim fora de casa, tá?
Ela sorri.
— É um apelido carinhoso, só isso. E aí, pode jantar sozinha hoje?
Faço que sim.
— Época de concurso... — acrescenta ela, como uma explicação.
Pego o celular e caminho depressa pela calçada. Perto da entrada, encostado a uma coluna, está Patrick Thomas. Ele sorri, mas de desprezo. Gostaria de ser invisível. Mas ele me vê. E, qualquer que seja a decisão que acabou de tomar a meu respeito, é irrevogável.
Depois do segundo tempo, Mitch me segue até o corredor.
— Eu te mandei cinco mensagens ontem. Pensei que talvez a gente pudesse dar uma
saída no domingo. Pegar um cineminha, sei lá. Até preferiria que fosse no sábado, mas o técnico quer que a gente vá assistir a um vídeo para a partida da semana que vem.
Continuo andando. Ele segura a minha mão, me obrigando a parar.
— Tá namorando, Mitch? — pergunta um garoto do nono ano, com as mãos em volta da boca.
— Nós não estamos namorando! — grito.
Mitch cora até a raiz dos cabelos.
Arranco a mão e sigo na direção oposta. Estou me sentindo um ser humano horrível. Mas hoje não é o meu dia, portanto eu não tenho que dar corda a ele fingindo que podemos ser mais do que amigos.
Ainda assim, eu lhe devo um pedido de desculpas.
— Will! — chama ele às minhas costas.
Mas não me viro. Quando estou contornando uma parede, escuto:
— Ei! Dumplin’! — Patrick Thomas arrasta cada sílaba do bendito apelido. Abre um sorriso e aponta por cima da minha cabeça. — Aí Mitch, meu camarada! Finalmente encontrou uma mulher do seu tamanho.
Já fui provocada o bastante na vida para saber que há várias maneiras de reagir a um bully. Só precisei chorar uma vez, no segundo ano, para compreender que as lágrimas só servem para excitar a violência dessas pessoas.
Lucy sempre me disse para ignorar os bullies. Que eles só querem atenção, e que, se você não passar recibo, tira todo o gás deles. Acho que, na maioria dos casos, até é verdade. Mas Patrick Thomas é um desses imbecis que não precisam de uma razão para continuar falando. Ele é apaixonado pelo som da própria voz.
Contudo, seu rosto parece um tanto chocado quando ele me vê avançar deliberadamente na sua direção. Lembro os grunhidos que soltou ao lado do carro de Millie Michalchuk. E como ele inventou que as botas ortopédicas de Amanda Lumbard a deixavam parecida com o Frankenstein. O pior é que ninguém tenta se defender de Patrick Thomas. Nem mesmo Hannah Perez, que é mais casca-grossa do que um lutador de MMA. O cara bota um apelido na pessoa e o troço pega. Mas não vou ser chamada de Dumplin’ por ele. Ah, não vou mesmo!
Patrick é pego totalmente de surpresa quando acerto uma joelhada violenta nas suas bolas. Sua expressão se transforma, todo o sangue fugindo do rosto para o sul do corpo. Ele solta um uivo de dor, mas o som é mais parecido com o ganido de um cachorrinho. Levo as mãos à boca.
Estou tão chocada quanto ele. Já tinha imaginado essa cena: eu indo até o infeliz, brandindo o dedo na cara dele e dizendo tudo o que pensava. Mas aí meu corpo assumia o controle e um mecanismo de defesa primitivo decretava: Não vamos apoiar essa iniciativa.
Mitch me puxa pelos ombros. Os professores lotam a cena do crime, e sou empurrada na direção oposta.
Isso parece não ser nada bom.
VINTE E TRÊS
Mamãe fica pê da vida, lívida. E morta de vergonha. E muitas outras coisas também.
Mas já desisti de prestar atenção.
Seus dedos apertam o volante com tanta força que é de admirar que as unhas postiças não saltem fora. Depois de sair da sala do Sr. Wilson, ela foi desabalada para o estacionamento dos visitantes. Eu tive até que acelerar para acompanhar seus passos.
Voltamos para casa em silêncio. Ela nem reduz a velocidade quando vira no jardim e freia a centímetros da cerca.
Ainda nem desligou o motor, e eu já abri a porta e estou indo para os fundos. Fecho a porta de vidro ao entrar, embora ela só esteja alguns passos atrás de mim.
Desabo no sofá e só se passam alguns segundos até Riot se aninhar no meu colo.
— Está de castigo.
Mamãe nunca me pôs de castigo. Nunca. Nem bateu em mim. Nada. Não sou nenhum anjo, mas nunca fiz nada que merecesse tal punição.
Pego Riot e o coloco na almofada ao lado antes de me levantar. Não quero que ele fique no fogo-cruzado da cena que está prestes a se desenrolar.
— Por quê? — Minha voz soa alta demais na casa deserta. — Só porque reagi quando um cara me chamou daquele apelido insuportável que você me obrigou a ouvir a vida inteira?
Ela apoia as mãos nos quadris e nega com a cabeça. Noto alguns fios grisalhos nas têmporas que eu nunca tinha visto antes.
— Você está fazendo tempestade em copo d’água.
— Talvez você não tenha notado, mãe, mas a questão vai muito além daquele apelido idiota. Você nunca vai assumir isso e dizer com todas as letras, mas sei que não suporta que a sua filha tenha essa aparência. — Meus braços se agitam, frenéticos.
— Do que você está falando?
— Não se faça de desentendida. Eu vejo, toda vez que você liga a tevê em algum programa sobre garotas perdendo peso, ou me fala de alguma amiga que emagreceu horrores porque fez a última dieta da moda, ou quando faz uma lista com os itens da despensa ao chegar em casa, para ter certeza de que eu não me empanturrei com eles.
Seu queixo treme, e a possibilidade de ela chorar nesse exato momento me deixa furiosa.
— Eu só quero que você seja feliz.
— Eu sou feliz — digo, pronunciando cada sílaba com a máxima clareza. Não sei o quanto de verdade há nesta declaração, mas não posso imaginar de que modo uma perda de cinco quilos, ou mesmo de vinte e cinco, poderia amenizar a saudade brutal que sinto de Lucy, ou a confusão em relação a Bo, ou a distância cada vez maior entre mim e El.
— Isso é o que você pensa porque ainda não conhece o mundo. Você está perdendo tanto! — Ela dá um passo na minha direção. — Rapazes, namoros... Esse tipo de coisa.
Passo as mãos no rosto.
— Você só pode estar brincando. Extra, extra! Um homem não vai resolver os meus problemas.
— Eu só... — Ela se cala.
— Mas eu quero namorar sim, mãe. Quero ter namorados. Mereço isso. Mesmo que você ache que não. — Desejo que isso seja tão verdadeiro quanto soa.
Ela levanta as mãos.
— Você está fazendo o que a Lu fazia quando éramos meninas. Está distorcendo totalmente o sentido das minhas palavras.
Balanço a cabeça sem a menor hesitação.
— Não, mãe. A única coisa que Lucy fazia era mostrar a você como a sua visão de mundo é ridícula.
— Isso não tem nada a ver com Lu, está bem? Ela morreu, e foi graças ao modo como viveu. Gostaria que você não a idolatrasse tanto. — Seus olhos se enchem de lágrimas que não chegam a se derramar. — Ela ainda estaria aqui, se tivesse perdido peso.
Meu corpo é o grande vilão da história. É assim que ela o vê. Uma prisão que encarcera a parte melhor e mais magra de mim. Mas está redondamente enganada. O corpo de Lucy nunca foi um obstáculo para a sua felicidade. Por mais que eu sempre vá amar Lucy, foi decisão exclusiva dela se manter trancada nesta casa.
— Eu também era grande. Você sabe disso. Lu e eu éramos.
— Eu já ouvi tudo isso, tá? Já ouvi todas essas histórias de como você perdeu peso antes de começar o ensino médio. Parabéns! Entrou num concurso de beleza de uma cidadezinha do interior e venceu. Isso se tornou literalmente a realização que coroou a sua existência. Dane-se a faculdade, danem-se os empregos que não exigiriam que você viva limpando o rabo de gente velha. Dane-se tudo isso. Porque você emagreceu o bastante pra ganhar uma porcaria de uma coroa de strass! Deve estar muito orgulhosa de si!
Uma lágrima escorre pelo seu rosto.
— Pois eu diria que essa coroa é muito mais do que você jamais realizou na vida. — Ela seca a lágrima.
— Lucy foi muito mais minha mãe do que você jamais será.
Seus lábios se apertam.
— Você não pode ir trabalhar. Nem sair. Até o fim da suspensão. Vou chegar às seis.
Subo para o quarto e Riot me segue rente nos calcanhares. Deito enroscada na cama e fico ouvindo o som do celular que vibra na escrivaninha, enquanto recebo uma mensagem atrás da outra. Imagino que sejam todas da El. Pego a Bola 8 Mágica na mesa de cabeceira, o oráculo que contém as respostas para todas as perguntas que não chego a fazer, e aperto-a com força contra o peito.
VINTE E QUATRO
Passo o dia inteiro no quarto. O encanamento decrépito me avisa que mamãe já está de
volta do trabalho, lavando a louça, e depois as tábuas do assoalho anunciam que vem subindo a escada. Antes de se trancar no quarto, sua sombra para diante do meu, escurecendo a fresta entre a porta fechada e o chão.
Riot estica as patas e empurra meu peito, antes de pular da beira da cama e se esfregar na porta. Como não me movo, ele começa a miar, avisando que a sua paciência comigo se esgotou.
Entreabro a porta e deixo que saia, enquanto acendo a luz.
No espelho, vejo uma versão de mim mesma com os ombros curvos e o rímel borrado. Pego uma caneta na cômoda e escrevo um lembrete no braço para avisar Alejandro que não vou trabalhar nos próximos dois dias. A julgar pelos primeiros, não acho que a minha ausência será um grande problema.
Tomando cuidado para não fazer barulho, desço a escada no escuro e tomo um bom copo d’água gelada em três goles. Parece uma bobagem, mas mamãe me condicionou a sentir essa necessidade toda vez que choro. Era o remédio que sempre me receitava. Acalme-se e tome um copo d’água, Dumplin’. Como se eu precisasse reabastecer o poço de lágrimas antes que secasse.
No quarto, a Bola 8 Mágica ficou em cima da cama, onde a deixei. O celular vibra, então olho as mensagens.
ELLEN: Ah, meu Deus. Você tá bem?
ELLEN: Já devo ter te ligado umas oito vezes, e você sabe como detesto falar no telefone. ME LIGA.
MANDA UM TORPEDO. SINAIS DE FUMAÇA. MENSAGEM EM CÓDIGO MORSE.
ELLEN: É verdade aquele lance com o Patrick Thomas? Mandei o Tim matar o desgraçado.
ELLEN: Ele disse que talvez faça isso depois do jantar.
ELLEN: Droga. Agora estou me borrando de medo.
Estou bem, digito. Foi só...
Paro e aperto a droga do botão de Chamar, porque no momento só quero a minha melhor amiga. O toque nem chega a soar até o fim, pois ela atende correndo.
— Que merda. Ah, meu Deus. Que merda.
— Oi — digo, a voz rouca contra o fone.
— Você está bem? O que aconteceu?
Suspiro no celular, e como é bom não levar um esporro por causa disso. Então, conto tudo a ela. Que mamãe me chamou de Dumplin’ no estacionamento na frente da escola, diante de todos os alunos do nono ano e de Patrick Thomas, que esperavam a aula começar. Conto sobre o incidente no corredor, e como nunca alguém tinha feito com que eu me sentisse tão pequena por ser tão grande. El solta mil palavrões, mil palavras carinhosas e faz tudo que me leva a pensar que o telefonema foi a decisão certa.
Ela solta um desaforo sobre “os merdinhas do nono ano com aqueles pintos minúsculos”, e conta que Patrick Thomas levou pau em tantos testes de direção que agora só pode tentar de novo quando fizer dezoito anos.
Conto a ela sobre a briga que tive com a mamãe.
— E estou suspensa pelo resto da semana. Felizmente, isso vai dar ao pessoal na escola tempo bastante para esquecer esse barraco lamentável. — A televisão da mamãe se silencia bruscamente. — E também estou de castigo.
— Nossa. Puxa, foi o pior dia da sua vida, hein? Mas a boa notícia é que, já que foi o pior, o de amanhã só pode ser melhor. Mesmo que só um pouquinho.
Dou uma risada. Sinto que as coisas estão melhorando.
— Amanhã... vamos descobrir. — Um bocejo me sobe do fundo do peito. — Não entendo por que chorar deixa a gente tão cansada.
— Deve ser a adrenalina, ou algo assim.
— Boa.
— Olha, eu sei que provavelmente você não quer conversar sobre isso agora, mas você não me deu nenhum detalhe sobre o seu encontro.
— Pois é, não tinha muita coisa pra contar. Foi extremamente... banal.
— Ah, amiga. Eu estava cheia de esperanças em relação ao Mitch.
— A gente se fala amanhã.
— Te adoro, viu? Ouve um pouco de Dolly. Ela vai fazer você se sentir melhor.
VINTE E CINCO
Passo os dias da suspensão de bobeira no sofá. Depois da aula, Ellen vem me trazer o
dever de casa antes que mamãe chegue. Ficamos assistindo à tevê em silêncio e, embora eu esteja louca para perguntar se alguém falou sobre mim, fico na minha. É sempre o Tim quem a traz e vem buscar, mas nunca entra. Eu já gostava dele, mas agora gosto mais ainda por não se convidar e me deixar passar essas horas a sós com a El.
No começo, mamãe e eu temos horários diferentes, e à noite é como se alguém dividisse a casa com cordões de isolamento. Quando saio do quarto, ela se mantém a distância e, quando é ela quem sai, eu me tranco no meu. Mas, pouco a pouco, nossos caminhos começam a se aproximar, até que, na manhã de sábado, ela avisa:
— Hoje tenho uma reunião de planejamento que vai durar o dia inteiro. Estamos nos preparando para a abertura das inscrições. Tem salada de atum na geladeira.
Não é uma trégua, mas, pelo menos, serve para quebrar o gelo entre nós.
Mitch manda algumas mensagens, pedindo desculpas pela cena que provocou e dizendo que o Patrick é um bocudo. Respondo que prefiro não falar sobre o assunto, mas sei que sou eu quem deveria se desculpar.
El passa o sábado inteiro trabalhando e vai a uma festa depois, por isso fico sozinha. Já estou há tanto tempo presa em casa, que chego a ter a impressão de que o papel de parede está derretendo.
Detesto o fato de não passarem nada de bom na tevê nas tardes de sábado. É como se até as emissoras estivessem tentando fazer com que eu mexa a bunda e vá cuidar da vida. Acho que esse pessoal que faz a programação nunca deve ter ficado de castigo num fim de semana.
Talvez seja o tédio, mas o quarto de Lucy me chama como uma sereia.
A cama está feita e impecável, com a colcha de patchwork musgo e bege que vovó fez dobrada aos pés, e o ferro de passar de mamãe no canto.
Na mesa de cabeceira de Lucy, encontro mais recortes de jornais, mas esses são quase todos de artigos sobre a mamãe. Ela vive aparecendo no Clover City Tribune. Acho até que já namorou o editor durante um tempo, mas o cara acabou se casando com a dona da lavanderia.
A grossa pilha de recortes contém dezenas de fotos amareladas de mamãe envergando a coroa e o vestido de vencedora. E posando com eles todos os anos, ao lado de cada Miss Jovem Flor do Texas. Vasculho mais fundo na gaveta e encontro um saco envelhecido lotado de documentos, gigante. Contratos, panfletos, contas. Até que me deparo com um formulário de inscrição do concurso, totalmente em branco. Datado de 1994, três anos antes da vitória da mamãe. Ela era muito jovem na época para participar. Mas não pode ser esse o motivo. Lucy achava esse concurso o fim da picada. Ou, pelo menos, eu pensava que achasse.
Minha tia não era uma mulher tímida, mas não consigo imaginá-la se inscrevendo no concurso, nem mesmo na ocasião em que esteve mais magra. O formulário em branco tem esse ar de promessa vazia, de algo que poderia ter sido e não foi. Observo o papel e imagino sua letra ali. Os campos são os de praxe: nome, data de nascimento e endereço. Mas há outros que me dão calafrios, como altura, peso, cor dos cabelos e dos olhos, projetos profissionais e talentos.
Tento montar mentalmente as peças do quebra-cabeça, mas é inútil. Faltam algumas.
O único objeto que restou nessa gaveta de itens pessoais é uma caixa de veludo vermelho contendo um enfeite de Natal: um globo branco iridescente com um beijo de batom ao redor da circunferência e a assinatura da Dolly em dourado. Um suvenir de Dollywood — um lugar que Lucy sempre quis visitar. A mãe da El ganhou duas passagens de avião no emprego, e imediatamente ofereceu uma a Lucy. As duas iriam para Dollywood, como sempre tinham sonhado.
Fizeram mil planos. Pesquisaram hotéis e carro para alugar. Passaram três horas na estrada indo até o aeroporto mais próximo, só para descobrirem que Lucy teria que comprar mais uma passagem, já que não caberia numa poltrona só. Ela contou que a atendente da companhia aérea foi extremamente gentil, mas se mostrou irredutível. No fim, Lucy ficou tão envergonhada que preferiu voltar para casa a ocupar duas poltronas no avião. Na volta, a Sra. Dryver trouxe esse enfeite para ela. Dá para ver que custou caro, porque tem uma fita de veludo vermelho em vez de um ganchinho de metal.
Me arrasto de volta para o quarto, levando o velho formulário de inscrição e o enfeite. Passo o resto da tarde estudando o primeiro, e qual não é a minha surpresa ao descobrir que as únicas exigências são que a candidata tenha entre quinze e dezoito anos e uma autorização dos pais. Diante dos mil e um requisitos que eu tinha imaginado, mal consigo acreditar que seja tão simples assim participar de um concurso, e quantas garotas podem se inscrever.
Uma ideia obscena me passa pela cabeça e, antes que ganhe força, vou logo escondendo o formulário na gaveta de baixo da cômoda.
A voz da mamãe se espalha pela casa quando ela entra pela porta dos fundos.
— Não creio que ela esteja em condições mentais de ser um membro ativo do comitê. Sinto muito, mas a nossa cidade não está pronta para um número de abertura ao som de Beyoncé. — Não consigo deixar de rir da sua pronúncia, “Beionsei”. — Embora seja uma das músicas mais light... ou, pelo menos, é o que ela diz... não vou correr esse risco.
Despenco na cama. Riot entra no quarto e se esparrama à minha frente, até eu fazer festinha no seu queixo.
— Bem, prontos ou não, as inscrições serão abertas esta semana — diz mamãe.
Pego a Bola 8 Mágica na mesa de cabeceira e dou uma boa sacudida nela.
Todos os sinais indicam que sim.
VINTE E SEIS
Na manhã de domingo, uma tremenda ressaca emocional me pega de jeito. Tomei uma
decisão na noite passada — uma decisão pra lá de estúpida. Digo a mim mesma que posso desistir a qualquer momento, porque ninguém além de mim está sabendo. Se na hora H eu perder a coragem, serei a única testemunha.
É mais ou menos como quando alguém deixa cair a bandeja com o almoço na escola e você é a única que nota. Ninguém vai saber se não for lá ajudar. Mas você vai.
Passo o dia inteiro andando de um lado para o outro, sem prestar a menor atenção ao fato de que hoje mamãe e eu até fomos gentis uma com a outra.
Depois do jantar, eu me tranco no quarto para ler alguns livros de leitura obrigatória da escola. Mas o que acabo mesmo fazendo é namorar o bendito formulário. Não posso imaginar que tenha mudado muito desde 1994. Eu com um vestido de mangas bufantes e saia rodada, avançando pelo palco em passos altivos como se fosse a dona do pedaço, é uma ideia grotesca.
Há muitas coisas que Lucy nunca fez. Não porque não pudesse, mas porque estava convencida de que não poderia, e ninguém conseguiu tirar essa ideia da sua cabeça. Não vou mentir para mim mesma e dizer que ela esbanjava saúde nos últimos anos, mas essa é uma razão inaceitável para ter se privado de fazer as coisas que mais queria. E eu nem ao menos sinto tanta vontade assim de participar do concurso. Mas é que, mesmo que ela sentisse, não teria participado.
Pego o telefone e aperto o botão de chamar.
— Oi! Sua suspensão já está quase acabando — relembra El.
— Preciso te contar uma coisa.
— Diga.
Eu até poderia mudar de ideia e dizer “deixa pra lá”. Ou contar sobre Bo e como não consigo esquecê-lo totalmente. Mesmo agora, com tudo que está acontecendo na minha vida. Mas, em vez disso, anuncio:
— Vou participar do Concurso Miss Jovem Flor do Texas de Clover City.
A linha fica em silêncio por um segundo quase longo demais para me deixar tentada a dizer: “Brincadeirinha!”
— Que. Ideia. Genial.
— Você não acha que eu enlouqueci?
— Bom, doida de pedra você já é, mas isso vai ser o máximo.
— Não sei, não.
— Você contou pra sua mãe?
Esfrego a testa.
— Caramba. Não. Ainda não pensei na logística da coisa. Eu só sei que quero participar do concurso. Não que vá poder esconder isso dela.
— Ela vai pirar.
— Claro, sempre teve vergonha de mim. Por que não dar a ela um bom motivo?
Ellen não diz que estou errada, mesmo que seja o que pensa.
— Precisamos bolar um plano. O que você vai fazer amanhã?
— Trabalhar, mas não acho que Alejandro se importaria se você aparecesse pra bater um papo comigo.
— Tudo bem. Eu e você. Amanhã à noite.
Desligo e guardo o velho formulário. Agora que já contei a Ellen, ela não vai me deixar voltar atrás.
Tento dormir, mas nem mesmo a Dolly consegue acalmar meus nervos.
VINTE E SETE
Ellen e Tim vêm me buscar em casa de manhã para eu não ter que enfrentar a galera na
entrada, pois agora me tornei oficialmente a inimiga pública número um de Patrick Thomas.
Mas, salvo por um ou outro cochicho, encontro as coisas relativamente calmas na escola. Todo mundo parece já ter esquecido ou posto de lado o que rolou na semana passada.
Pelo menos, é o que penso até a hora do almoço. As pessoas se reúnem em grupos, os celulares passando de mão em mão. A maioria está rindo. Alguns balançam a cabeça, com ar de nojo. Na fila da cantina, olho por cima do ombro de uma garota. Ela se vira para mim, com voz de riso, e pergunta:
— Já deu uma olhada nisso? — O braço está estendido, exibindo a tela de um celular a centímetros do meu nariz.
Hannah Perez. Sua foto escolar está ao lado da imagem de um cavalo, a gengivona cheia de dentes gigantes bem à vista. Igualzinha à de Hannah. Só que os dela são ainda mais tortos. A legenda da foto é HaaaaaAAAaaannah. Chego a ouvir na cabeça a voz relinchada do Patrick Cérebro de Titica.
— Não tem a menor graça — disparo à queima-roupa.
Na mesma hora, a garota retira o celular da minha frente, apertando-o contra o peito, o rosto contraído de perplexidade.
— Hum. Tudo bem.
Sei muito pouco sobre Hannah, a não ser que é uma garota caladona e cabeça-dura. Quando éramos do terceiro ano, um dia, na aula de artes, estávamos colorindo aqueles perus que as crianças desenham contornando a mão com o lápis, para o Dia de Ação de Graças. Eu não tinha ouvido Hannah dar um pio o ano inteiro, mas aí peguei o pilô que estava na sua frente — e que ela nem parecia estar usando —, e ela deu um tapa na minha mão, gritando que eu deveria ter pedido licença. A única outra lembrança que tenho dela é do quinto ano, quando ela perdeu a paciência com uma professora que não parava de chamá-la de afro-amenicana. O que foi perfeitamente compreensível, já que ela é dominicana.
Quando estou a caminho da aula seguinte, ouço comentários do tipo “Que horror”, “Desculpe, mas ela é hedionda” e “Por que não usa aparelho?”.
Esse último é o pensamento que passa o resto do dia na minha cabeça, pois Hannah não deveria ser obrigada a usar aparelho. Talvez ela não possa pagar por um, ou tenha medo de usar. Seja como for, ela não deveria ser obrigada a entupir a boca de metal só para alguns imbecis a deixarem em paz.
No quinto tempo, Bo cruza os braços com força sobre o peito. Está com um hematoma no rosto e a casca de um corte cicatrizando no canto do lábio. Quero saber o que aconteceu. Com quem ele andou brigando.
Mas isso não é da sua conta, relembro a mim mesma.
Quando ele me vê, a testa se enruga e os lábios se franzem tanto que chegam a romper a casca. Ele puxa a manga do agasalho sobre a mão e limpa a boca.
Depois da aula, encontro Ellen no estacionamento.
— Você viu a montagem com a foto da Hannah?
Faço que sim.
— Ela deve ter ficado uma fera quando descobriu. Alguém sabe quem fez aquilo?
— Tim disse que foram uns caras da equipe de golfe, mas que não vai dar em nada já que ninguém pode provar e não aconteceu na escola.
— Que palhaçada.
Tim e El me dão uma carona para casa e ficam esperando enquanto visto a camisa do Chili Bowl. Eles me deixam no trabalho, e Ellen promete voltar mais tarde com o carro da mãe para me buscar.
E eu me preparo para enfrentar Alejandro. Ele só pode estar furioso por eu ter faltado dias seguidos ao trabalho, mas, quando entro, ele se limita a perguntar:
— Você não está mais de castigo, está?
Faço que não.
— Ótimo. Porque eu não compro briga com a mãe de ninguém. Portanto, se estiver mentindo, pode voltar para casa.
— Não estou — afirmo. — Estou totalmente liberada.
Por volta das sete, Ellen entra no Chili Bowl.
— Desculpe, minha mãe disse que eu só poderia usar o carro se jantasse em casa.
— Não tem problema.
Ela se senta na outra ponta do balcão e cochicha:
— Este lugar cheira a cebola e cecê. Ainda não entendo por que você trocou o Harpy’s por este muquifo.
— O salário é melhor — minto, enquanto me inclino para frente, praticamente estendendo a parte superior do corpo no balcão. — Por quanto você acha que eu descolo um vestido de baile? Aquele concurso não vai sair barato.
Ela dá de ombros.
— Uns duzentos paus, de repente. Você também pode procurar num brechó.
Os mensageiros do vento acima da porta começam a tilintar. Eu me levanto, pega totalmente desprevenida pela perspectiva de um cliente. Ellen não se move um milímetro.
Millie Michalchuk acena para nós ao entrar. Ela sorri para mim, e, na mesma hora, a culpa pelo pensamento maldoso que seu peso sempre me inspirou afunda meu astral como uma âncora.
— Oi, Millie. — Ellen a cumprimenta com um breve aceno.
— E então, em que posso ajudar? — pergunto.
Ela põe as chaves no balcão, e vejo que há, pelo menos, vinte e seis elos no chaveiro com duas chaves.
— Uma porção de chili da casa. — Ela faz uma pausa. — E uns cream crackers. Pra viagem.
— Tá na mão.
Depois de pagar, Millie pega alguns potes plásticos no balcão de condimentos, enquanto tiro o chili da panela.
— Então — começa Ellen —, a taxa de inscrição não pode ser mais de duzentos dólares, certo?
— Acho que sim. Tenho quinhentos e sessenta e oito na poupança, portanto, se todas as despesas juntas passarem disso, vou ter que arranjar mais um emprego. — Pressiono a tampa no pote da Millie. — Prontinho!
Seus olhos passeiam entre a El e eu antes de ela pegar o chili e deixar a loja.
El fica vendo Millie sair do estacionamento.
— Isso foi meio esquisito.
— Foi, sim — concordo. — Mas ela é esquisitona mesmo.
Passamos a noite conversando e, quando Alejandro sai do escritório, Ellen desce do balcão e finge ser uma cliente. Ele faz o relatório de fechamento do caixa e, quando está voltando para o escritório, pede, sem se virar:
— Diz pra sua amiga que estamos precisando de atendentes!
VINTE E OITO
Entro na escola correndo, a cabeça coberta com a mochila para me proteger da chuva.
Dou uma parada rápida para esfregar os pés no capacho.
— Will? — Millie está alguns passos ao lado, encostada nos armários, usando uma legging florida com uma túnica combinando.
Vou até ela para não ficar no caminho dos alunos que entram.
— Oi! E aí, o que me conta de novo, Millie?
Ela puxa as alças da mochila, que afundam nos seus ombros.
— Eu ouvi você conversando ontem com a Ellen. Sobre o concurso.
Sou pega totalmente de surpresa.
— Sim, nós...
Ela se inclina para mim e sussurra:
— Você vai participar, não vai?
— Eu... Bom... Vou, sim.
Um largo sorriso se abre, empurrando suas bochechas para cima e para os lados. Ela bate palmas como se eu tivesse feito algum tipo de truque.
Eu me viro para ela, dando as costas ao fluxo de estudantes.
— Presta atenção. Isso não é nenhum grande segredo, mas também não quero que caia nos ouvidos de todo mundo, entendeu?