Ensaios: subjetividade, saúde mental, sociedade

Paulo Amarante · Capítulo 9 de 17

Páginas do PDF

Ensaios: subjetividade, saúde mental, sociedade

7 – Dois regimes históricos das relações da antropologia com a psicanálise no Brasil: um estudo de regulamentação moral da pessoa

7 – Dois regimes históricos das

relações da antropologia com a

psicanálise no Brasil: um estudo de

regulamentação moral da pessoa

 

Luiz Fernando Dias Duarte

Será aqui apresentado e discutido um esquema analítico que dê conta da forma diferencial como se desenrolaram as relações da antropologia com a psicanálise em dois momentos muito distintos da história das 'ciências morais' neste país, tratando do processo concomitante de 'institucionalização' em que estiveram envolvidas essas disciplinas – em cada momento – no âmago do movimento maior de consolidação e especialização de uma esfera 'científica' ou 'acadêmica' no seio da nação brasileira.

Busca-se assim produzir conhecimento sobre os princípios, organização e processos da 'construção social' ou 'regulação moral da pessoa' em diferentes contextos históricos balizados por formas específicas de interação entre os 'modelos culturais de pessoa', a 'organização do campo científico' e as exigências das 'políticas públicas' de um Estado Nacional moderno.

Essa questão pode envolver – do meu ponto de vista – pelo menos dois diferentes planos de interesse analítico combinados: a compreensão dos modos pelos quais se dão (ou não) associações entre o Estado e os diversos segmentos dos produtores de 'ciência' sobre certos assuntos e em determinadas conjunturas; e a compreensão do modo como as grandes características do processo de produção da Pessoa na cultura ocidental ('individualização', 'interiorização', 'racionalização', 'disciplinarização' e 'psicologização') se expressam nas sucessivas fórmulas de diagnóstico e intervenção das 'regulações morais' específicas. Regulação e regulamentação moral

Usa-se aqui a expressão 'regulamentação moral' da pessoa para ressaltar a especificidade dos processos em que as vicissitudes universais da construção da pessoa se encontram especificamente sujeitas a intervenções programáticas e repressivas, oriundas dos aparelhos institucionais de um Estado Nacional comprometido com os ideais característicos desses entes na cultura ocidental moderna. Uso, entretanto, a expressão 'regulação moral' para remeter aos processos mais abrangentes (que incluem as 'regulamentações') em curso nesse contexto cultural e histórico – e que na cultura ocidental moderna dependem diretamente da dinâmica interna do 'campo científico' e de suas relações gerais com a sociedade que o sustenta. O qualificativo 'moral' em ambos os casos aponta para a demarcação de uma zona específica de ação, voltada justamente para a boa construção e funcionamento dos 'sujeitos' humanos, ou seja, de uma ou mais variedades de 'pessoas' que apresentem um comportamento considerado adequado ao perfil das grandes coletividades políticas que compõem (inclusive como 'cidadãos').

Uma das características desses Estados Nacionais mais marcantes para a 'regulação moral', em geral, é o fato de se proporem operar nos marcos de uma rigorosa racionalização das relações entre meios e fins (coerentemente com o horizonte de valores que lhes deu origem). Isso implica uma particular atenção à organização dos saberes científicos e a sua capacidade de 'sustentar' as intervenções públicas; ou seja, uma particular imbricação entre as 'regulações' em geral e as 'regulamentações' eventualmente sistematizadas pelo aparelho de Estado. Em obediência à prístina crença na nova 'racionalidade' da gestão da res publica, muitas das transformações concretas dos modelos políticos no Ocidente passaram a ser vistas como decorrentes de avanços (ou eventualmente, de lamentáveis 'retrocessos') no conhecimento 'científico' da experiência humana.

Num plano mais operacional, a organização de políticas de Estado articuladas com o conhecimento científico se tornou sistemática a partir do século XIX, sobretudo na área dos fenômenos ligados à saúde e reprodução (no que Foucault chamou de 'política das populações'), de imediatas repercussões nas condições de reprodução econômica e política das nações.

A história da nação brasileira repete linearmente esse mandamento generalizado, infletida apenas pelas características materiais e morais de sua tardia, subordinada e pouco orgânica constituição (em comparação com os modelos metropolitanos). As particulares vicissitudes da 'consolidação de um Estado centralizado' forte e competente, por um lado, e de um 'campo científico' autonomizado e legítimo, por outro, vão se refletir diretamente no processo de 'regulação' / 'regulamentação', verdadeiro campo de testes e batalhas para o sucesso dos agentes envolvidos.

A posição subordinada no nível internacional impôs, além do mais, ritmos e características bem próprias ao processo nacional, sobretudo no campo científico, sempre dependente das iniciativas e avanços dos campos de vanguarda metropolitanos; mas também no campo direto de ação do Estado, por força de toda sorte de influências ou vicissitudes externas econômicas e políticas.

As 'regulações morais' constituem um dos mais estruturantes mecanismos políticos de construção de fronteiras sociais e culturais. Comprometidas com classificações sociais, elas secretam e manipulam continuamente sinais de demarcação do 'legal', do 'legítimo' e do 'normal', procurando aplicá-los ao conjunto da sociedade, com vistas à 'disciplinarização' generalizada, característica dos estados avançados do 'processo civilizatório', no sentido eliasiano.

 

A relação entre os saberes sociais e os

psicológicos

É uma característica importante da cosmologia erudita da cultura ocidental moderna conceber as suas ciências humanas, sobretudo, como ciências sociais afastadas dos saberes psicológicos em sentido lato, complexamente distribuídos entre a psicologia, a psiquiatria e a psicanálise.

Essa bifurcação tem evidentes implicações sobre a representação das relações entre ambos, esses conjuntos de saberes e o conhecimento da dinâmica mais geral das sociedades modernas. As propostas analíticas mais abstratas que inspiram este trabalho se caracterizam justamente por embaralharem aquela oposição, permitindo a análise articulada dos 'macroprocessos' político-sociais com a dos 'microprocessos' associados à produção das subjetividades. Trata-se, sobretudo, das hipóteses de Norbert Elias relativas ao 'processo civilizatório', as de Michel Foucault relativas ao 'regime disciplinar' e as de Louis Dumont relativas à 'ideologia do individualismo' no Ocidente.

A antropologia contemporânea dispõe de um largo horizonte de pesquisa na interseção entre as preocupações com a constituição dos 'atores políticos', na dimensão 'pública' da vida social, e a constituição das 'identidades pessoais', naquela outra considerada 'privada'.

O trabalho de superação dessa antiga dicotomia permitiu a demonstração empírica reiterada do seu caráter não estanque, pela ação das propostas analíticas referidas, voltadas para a compreensão da articulação íntima, da indissociabilidade, entre os mecanismos de produção dos lugares sociais da pessoa (de sua classificação, de seu investimento e qualificação) e dos processos aparentemente 'interiores' de sua construção. Esse movimento ganha tanto mais interesse heurístico porquanto embute no processo de produção de novas perspectivas de análise a compreensão dos mecanismos culturais produtores da necessidade daquela própria dicotomização prevalecente (e da história de sua constituição).

Pode-se remeter essa análise ao reconhecimento dos efeitos ideológicos da preeminência da representação do 'indivíduo' como valor (oposto ou antagônico ao da 'sociedade') no âmbito da cultura ocidental moderna. A progressiva hegemonização cultural desse sistema simbólico implicou a rejeição, desqualificação ou marginalização de todos os modelos alternativos comprometidos com uma representação relacional da pessoa (constituída 'dentro' da trama social) e impôs às nascentes 'ciências humanas' uma série de dualismos instituintes.

O mais abrangente foi provavelmente o dualismo entre 'realidade objetiva' e 'realidade subjetiva' (representado, sobretudo, pelo modelo cartesiano). Embora desafiado permanentemente pela ambição monista do universalismo das ciências de inspiração newtoniana, que importaram enormes modificações na

representação da realidade humana,70 o dualismo conservou-se na base das sucessivas tentativas de constituição de saberes específicos do 'humano' (por oposição à dimensão que passava a ser considerada 'animal').

Ao se observar que um dos principais temas dos filósofos sociais do século XVIII é o das relações entre o 'individual' e o 'coletivo', freqüentemente não se percebe que o que justifica tanta inquietação é justamente a súbita preeminência da própria dicotomia enquanto tal, necessitando-se assim de novas teorias sobre, por exemplo, a relação entre as paixões e os interesses individuais e a recém-

concebida 71 commonwealth, no interior das emergentes 'nações'.

Desse horizonte de renovada busca emergem ao mesmo tempo as primeiras 'ciências sociais' e as primeiras 'ciências psicológicas' (ainda às vezes chamadas de 'morais'): de um lado, as teorias sobre o funcionamento do 'econômico' e do 'político', de outro as teorias sobre o funcionamento do 'entendimento' e das 'paixões'.

O surgimento de propostas alternativas aos modelos 'empiristas' e 'sensualistas' não alterou fundamentalmente o horizonte de oposição. As 'ciências românticas' se propuseram reconstituir a totalidade perdida com as concepções 'mecanicistas', mas não no nível propriamente ontológico. Pelo contrário, a fórmula mais radicalmente dualista de sustentação das 'ciências humanas' do século XIX é a da oposição tipicamente 'romântica' das Naturwissenschaften ('ciências naturais') e das Geisteswissenschaften ('ciências morais', ou literalmente, 'do espírito'), elaborada explicitamente em meados do século (cf. Gusdorf, 1974 e Duarte, 1995).

O dualismo se reforçou paulatinamente com a consolidação de saberes considerados propriamente 'psicológicos', ou seja, comprometidos com o conhecimento dos mecanismos ou processos internos da pessoa, sua mente, seu espírito, seu pensamento, suas emoções, seu psiquismo. As 'psicologias' e as 'psiquiatrias' transformaram em objeto de reflexão, classificação e intervenção os mais diversos recortes da experiência dita 'interior' ou 'moral', criando novos e sempre mais complexos e discutidos sistemas de

representação sobre sua realidade e funcionamento.72 A emergência da 'psicanálise' freudiana em fins do século XIX aprofundou a autonomização dessa tendência, afastando mais radicalmente a concepção do 'psicológico' de suas relações com o

'substrato fisiológico', 'natural', de que tanto se tratava à época. 73

Esses desenvolvimentos eruditos ou acadêmicos (ligados ao movimento de autonomização e institucionalização dos saberes 'científicos') interagiram continuamente com movimentos mais amplos do que hoje às vezes se chama de 'história das mentalidades'. A mesma força de individualização das representações da Pessoa operou no nível dos grandes movimentos ideológicos (filosofia tout court, filosofia social, projetos políticos) e no nível do senso comum (em interação com os saberes eruditos), suscitando de modo muito enfático a valorização, a expressão e a inquietação com os 'sentimentos' e as 'emoções', sede da

singularidade individual. 74

Uma seqüência canônica de grandes questões acabou por se constituir e consolidar – atravessando os níveis das representações científicas, filosóficas, políticas e populares – em torno da inquietação com as formas consideradas de desequilíbrio, disfunção ou patologia das relações entre o indivíduo e a sociedade. O 'louco', o 'criminoso', o 'perverso sexual', o 'artista/gênio', o 'extático religioso', o 'fanático político' são núcleos imaginários recorrentes, separados ou combinados; mais ou menos 'isolados' (a questão da 'multidão' os encenava como coletivo e a 'loucura a dois' como díade, por exemplo). Todos eles correspondem a deslizamentos do modelo de pessoa 'racional', dotada de 'juízo' e 'controle de si', que gradualmente se impusera como suporte da desejada 'cidadania'.

Grandes sistemas procuraram organizar essas representações, apontando caminhos combinados para a compreensão científica, a terapêutica ou reforma moral e a intervenção sociopolítica. A grande configuração da 'degeneração' (ela própria montada sobre o modelo mais básico do 'nervoso'; cf. Duarte, 1986 e Davis, 1989) ofereceu certamente a forma mais complexa e abrangente de articulação entre essas instâncias de compreensão e intervenção, entre o 'individual' e o 'social' (cf. Carrara, 1996 e Serpa Jr., 1997). A ela se articulou o vastíssimo movimento social do 'higienismo', que mediou as antigas 'reformas morais' e a nova 'governamentalidade' reinante no Ocidente. A presença daquela configuração e deste outro movimento afeta diretamente todas as regulações morais na área de influência cultural ocidental até a Segunda Guerra Mundial, incluindo as diversas disposições radicais de regulamentação ligadas ao 'eugenismo'.

Vê-se assim que, apesar da pregnância dos citados dualismos (objetivo versus subjetivo; individual versus coletivo; emoção versus razão), uma intensa dinâmica articulou permanentemente os seus termos, sob uma pletora de formas discursivas ou institucionais. Quando vemos Durkheim tratar do 'suicídio' (um fenômeno suposto 'individual' que pretende analisar do ponto de vista do 'coletivo'); Freud tratar da 'multidão' (um fenômeno 'coletivo' que pretende analisar do ponto de vista 'psicológico') ou W. James tratar da 'experiência religiosa' (tornando 'psicológico' o que sempre fora considerado um fato 'moral'), observamos apenas a ponta mais abstrata ou 'acadêmica' de uma grande teia de 'dispositivos complexos de regulação', que envolvem a criminologia, a medicina legal, a antropologia física, a saúde pública, a psiquiatria, a sexologia, a polícia de costumes, o direito civil, a regulamentação do trabalho, as políticas populacionais, as estratégias pastorais das igrejas, o imaginário das publicações de massa; enfim, quase tudo o que delineou as sociedades contemporâneas e ainda conforma permanentemente sua dinâmica.

Todo esse processo pode ser também observado do ponto de vista do esclarecimento histórico-etnográfico dos processos sociais que vêm agindo na sociedade brasileira no sentido da difusão da ideologia do 'individualismo' (no sentido de L. Dumont), por meio da 'interiorização' propiciada pela difusão, consumo e reprodução das representações 'psicologizadas' da Pessoa. O grau de 'psicologização' tem sido recorrentemente proposto e discutido como um dos critérios de reconhecimento da modernidade, racionalização, civilização ou disciplinarização das sociedades ocidentais. Uma grande massa de informação confirma a íntima correlação entre esses processos na sociedade brasileira desde o início do século, o que permite hoje comparar a forma específica da 'psicologização' com as formas próprias da história política e da história do campo científico e acadêmico no País. Ainda uma vez mais, a comparação dos deslocamentos diferenciais da psiquiatria, psicologia, psicanálise, sexologia, higiene, medicina legal, educação, medicina social, antropologia, sociologia e economia enseja a composição de um quadro complexo das relações íntimas entre os temas da Civilização, da construção da Nação e da formação da Pessoa no Ocidente moderno, em geral, e na sociedade brasileira, em particular.

Todo esse universo de inter-relações cruciais para o funcionamento das sociedades e para o progresso da reflexão sobre o. humano tem sido objeto de investigação de cada uma e de todas as ciências humanas. Só a antropologia parece, no entanto, hoje em dia, capaz de coordenar a multiplicidade dos fios aí encontrados, por se ter habilitado a uma permanente costura entre a ambição de totalização analítica e a humildade da atenção etnográfica comparada. A maior parte dos trabalhos produzidos sobre nódulos desses processos foram feitos diretamente por antropólogos, ou por historiadores, sociólogos ou profissionais psi inspirados pela estratégia do conhecimento antropológico.

Trata-se, assim, de proceder aqui a um exercício delicado: o de compreender de modo 'antropológico' como a própria antropologia (como saber e disciplina institucionalizada) interveio e intervém até hoje como agente do processo complexo de regulações morais da Pessoa na sociedade brasileira, sobretudo por meio de sua relação com a 'psicologização' (de que a psicanálise é o mais dinâmico motor).

 

Os dois regimes

Este trabalho se desenvolve em dois planos. O primeiro, mais etnográfico ou 'interno', procura explicitar as características que assumiram as intensas relações acadêmicas da antropologia com a psicanálise em dois diferentes momentos da história das ciências humanas no Brasil: o período 'heróico' que vai – grosso modo – dos anos 20 ao fim dos 40 (o 'entreguerras') e o período 'crítico' iniciado nos anos 70 deste século.

O primeiro período é caracterizado basicamente pela produção de dois autores – Arthur Ramos e Roger Bastide – ambos considerados 'antropólogos' e igualmente influenciados pela freqüentação da literatura psicanalítica – cujas problemáticas invocam explicitamente em suas obras. Os próprios contrastes entre os dois autores – muito grandes sob diversos aspectos –, servirão para precisar o foco de análise sobre o 'regime' em que se processa sua articulação entre os dois saberes.

O segundo período é – por sua vez – caracterizado basicamente pela produção de dois outros autores – Gilberto Velho e Sérvulo Figueira – ao longo dos anos 70 e 80 no Rio de Janeiro. Neste caso, chegou a haver interação produtiva imediata entre os dois autores, ensejando a articulação de uma rede mais especializada do que a do período 'heróico', em razão de uma série de características diferenciais do campo acadêmico nos dois momentos. O primeiro autor é conhecido como antropólogo e o segundo como psicanalista, embora tenha produzido nesse período uma obra que era considerada (e que ele próprio considerava) de cunho antropológico. A psicanálise aparece como tema avantajado das duas obras, mas de uma forma muito diferente da do outro 'regime'.

Cabe ressaltar, desde já, o notável silêncio na relação entre os dois saberes que caracteriza os anos 50 e 60, por motivos que convém justamente deslindar (incorporando ao modelo mais abrangente).

O segundo plano, mais histórico (ou sócio-histórico), visa justamente produzir um modelo mais ambicioso para dar conta das relações que cada um dos referidos 'regimes' entretêm com o estado geral do campo das ciências humanas no Brasil nos dois períodos em questão.

No primeiro regime, que se caracteriza – no nível da análise 'interna' – pela disposição de incorporação dos recursos de interpretação psicanalítica à análise dos fenômenos 'culturais', prevalece a continuada referência à 'cultura negra' ou 'cultura dos negros' no Brasil e – particularmente – aos fenômenos religiosos ligados à 'raça' ou à 'herança africana'. A questão do 'transe' nos cultos atravessa crucialmente toda a produção desse 'regime', que nisso revela seu foco abrangente: trata-se de compreender como se organiza culturalmente o 'pensamento' das camadas subalternas da sociedade brasileira tendo por base uma característica vista como tipicamente arcaica ou primitiva (mesmo que se relativize até um certo ponto as implicações evolucionistas lineares dessa caracterização).

Como se verá, essa preocupação se constrói no interior de uma problemática relativa à civilização da nação brasileira, cuja fraqueza ou atraso se atribui, de algum modo, ao peso daquela raça ou herança. Contra as interpretações pessimistas oriundas dos saberes metropolitanos, produz-se interpretações que enfatizam a capacidade de 'redenção' cultural mediante um processo de 'educação' generalizada – o que não pode deixar de envolver, nesse período, altas expectativas de regulamentação e intervenção do Estado. Essa será a chave analítica do modo de entrada das idéias psicanalíticas no campo intelectual brasileiro (e na sua apropriação

pela antropologia). 75

A interpretação que faz Mariza Corrêa da antropologia brasileira do entreguerras, à luz da teoria foucaultiana das disciplinas, é aqui extremamente pertinente. Esse horizonte 'educativo' compartilhado pela antropologia e pela psicanálise corresponde diretamente ao que ela chama de "fiscalização" ou "repressão branda", lembrando expressões de Arthur Ramos e Gilberto Freyre (cf. Corrêa, 1982:219 e 260) –, por oposição aos defensores contemporâneos de uma repressão de tipo 'policial' (ibid.:242).

No segundo regime, a imagem da psicanálise passa de instrumento de civilização e educação para sintoma de uma 'civilização' de algum modo já ocorrida (sob a etiqueta da 'modernização'). O tema antropológico privilegiado será não mais o da 'raça' ou das 'heranças culturais' em geral, mas o da 'vida urbana', com os seus fenômenos considerados próprios de 'desvio' ou 'desmapeamento' cultural. O interesse em questões etnográficas como a loucura, as drogas ou a sexualidade desviante aproximam os antropólogos examinados do mundo dos saberes psicológicos (já agora organizado em um campo institucionalmente complexo) e os tornam interlocutores freqüentes, inclusive em torno de questões de regulação moral (a compreensão do consumo social das terapias psicanalíticas, por exemplo) ou mesmo de regulamentação pública importante (como a reforma psiquiátrica ou a descriminalização de drogas ilícitas) – em nome dos valores da liberdade e da tolerância. A chave de compreensão da problemática do regime será, neste caso – em vez da 'educação' – a da 'coerência' e 'reflexividade' desses sujeitos (e 'cidadãos').

As expectativas em relação ao Estado nesse último período são, sobretudo, negativas ou críticas (em relação a diversos tipos de regulamentação pública em curso, por exemplo), mas também freqüentemente indiferentes – devido em boa parte à forte autonomização atingida pelo campo acadêmico-universitário (no qual se encontram os antropólogos e alguns psicanalistas) e profissional psicoterapêutico (no qual se encontram os psicanalistas). Não poderemos desenvolver – mas não podemos tampouco deixar de evocar – a relação entre os dois 'regimes' em análise e os 'regimes políticos' sob os quais se desenvolveram. O primeiro é marcado pela Revolução de 30, que é vista por boa parte dos intelectuais brasileiros como uma oportunidade de levar adiante as expectativas de 'civilização' dirigida que se acumulavam desde o fim do Império, frustradas pela consolidação conservadora da

República Velha.76 A vinda de Ramos para a Capital logo após a revolução e sua rápida incorporação ao aparelho de Estado como agente da educação pública é expressiva das condições dessa primeira fase. O advento do Estado Novo corresponde certamente ao desencanto de uma boa fração dos portadores daquelas esperanças e corresponde – talvez não linearmente – ao momento de entrada dos nossos dois atores privilegiados no sistema universitário que acabava de se autonomizar. O período seguinte é marcado pelas inquietações da Segunda Guerra – num contexto nacional politicamente ambíguo, que se encerra com a deposição, retorno e morte de Getúlio Vargas às voltas de 1950. Arthur Ramos se destacou no período da guerra como o autor de mais de um manifesto público e coletivo contra o racismo, o que lhe valeu provavelmente um lugar de destaque no contexto do pós-guerra (inclusive a oferta do cargo na Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura [UNESCO] –, em cujo desempenho faleceu em Paris).

O segundo regime emerge em plena vigência da ditadura militar instalada em 1964 (após o interregno democrático e 'desenvolvimentista' dos anos 50). Sua ênfase em valores associáveis aos ideais da liberdade e sua indisposição em participar diretamente do aparelho de Estado podem ser correlacionadas assim, também – mesmo que não linearmente –, ao amplo movimento intelectual de resistência ao governo autoritário (que só se encerra na primeira metade dos anos 80).

 

O primeiro regime Arthur Ramos [1903-1949] era médico formado pela Faculdade da Bahia [1926], psiquiatra praticante, um dos vultos eminentes dessa área (tão particularmente densa no Brasil) que se desenhou na passagem do século entre a psiquiatria, a medicina legal, a criminologia e a antropologia (física e cultural). Sua trajetória intelectual, infletida pelo deslocamento de Salvador para a Capital da República depois de 1930, foi fortemente marcada pela evocação da obra de Nina Rodrigues – para cuja recuperação intelectual contribuiu de forma estratégica (ao lado de Afrânio Peixoto). Seu interesse precoce pela obra de Freud o colocou desde cedo em interlocução com os psiquiatras precursores da divulgação e interesse pela psicanálise no Brasil (cf. Perestrello, 1988). A vinda para o Rio permitiu que seu já grande interesse pelas questões da 'infância' se transformasse em investimentos concretos na 'educação', ao assumir – por indicação de Anísio Teixeira – a Seção Técnica de Ortofrenia e Higiene Mental do Departamento de Educação do então Distrito Federal [1934], onde desenvolveu intensa atividade. Logo depois [1935], acompanharia Anísio Teixeira na organização da Universidade do Distrito Federal, como encarregado da cadeira de Psicologia Social (enquanto Gilberto Freyre ocupava a de Antropologia Social e Cultural). Na Faculdade Nacional de Filosofia – em seguida – viria a ocupar a cadeira de Antropologia Física e Cultural [1939] até sua indicação para a recém-criada Diretoria de Ciências Sociais da UNESCO [1949]. Foi um dos intelectuais brasileiros mais em evidência ao longo dos anos 40, com volumosa produção voltada para temas de psiquiatria, antropologia física e cultural, educação, higiene e psicanálise. Além das citadas cátedras universitárias, controlou funções editoriais importantes (como diretor de coleção da Editora Civilização Brasileira a partir de 1934) e exercitou sua disposição institucional na fundação e direção da Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnologia (de 1941 até sua morte, em 1949). Foi a partir dessa última posição que organizou o chamado 'Manifesto contra o Racismo', divulgado em 1942. Foi ainda um dos relatores – pelo Estado brasileiro – do projeto de criação da UNESCO, ao término da Segunda Grande Guerra. Roger Bastide [1898-1974] vinha de uma formação em filosofia na França [carreira provincial; agrégé em 1924], marcada por uma grande ambivalência em relação à escola durkheimiana (discípulo de Gaston Richard) (cf. Pereira de Queiroz, 1983 e Braga, 1995). Em 1938 aceitou o convite para integrar o corpo docente da jovem Universidade de São Paulo, como tantos outros franceses nas ciências humanas. Suas peculiares preocupações intelectuais logo o fizeram freqüentar a literatura brasileira sobre a cultura 'negra' e – de certo modo – incorporar a disposição de se debruçar sobre a questão da diferença do 'pensamento'. Também utilizava o recurso às interpretações de cunho psicanalítico, que o tornaram um

interlocutor inevitável de Ramos. 77 Desempenhou papel mais 'moderno' como intelectual universitário especializado no campo brasileiro e retornou à França entre 1951 e 1954, embora continuando a escrever sobre a cultura negra e as religiões afro-brasileiras até sua morte (cf. Pereira de Queiroz, 1983).

Em ambos avulta – mais do que a influência de Freud – a outra, mais explícita, das inquietações de Lévy-Bruhl com o 'pensamento pré-lógico'. Arthur Ramos acrescentou à combinação desses dois autores muitos outros, significativos, de que se pode citar Jung, Pfister, Adler, Stekel, Ferenczi, Piaget (além de Anna Freud e Melanie Klein). Embora em ambos os autores a marca lévy-bruhliana tenha empalidecido ao longo das carreiras, permaneceram eles comprometidos com o grande horizonte das inquietações sobre o estatuto da 'civilização', tão característico do pensamento ocidental em geral desde o início do século XVIII. Acrescentavam a essa inquietação geral a preocupação específica com o estatuto das populações negras no continente americano – onde serviram tão vivamente para encarnar a Diferença resistente à expansão da

racionalidade oficial do Ocidente. 78 Arthur Ramos expressou particularmente bem essa injunção, despojando-a do organicismo 'racializante' dos primeiros teóricos e metamorfoseando-a paulatinamente na questão 'educacional' em que a subsumiu ao longo de sua obra. Bastide, por sua vez, já tendia a colorir a 'resistência' negra à civilização dos tons românticos da Singularidade, sem escapar do mentalismo diferencializante de seu contemporâneo brasileiro.

No caso brasileiro, em que o ideal da igualdade civil só encontrou plena sustentação legal em fins do século XIX, às portas da República, o desafio da Diferença como que se precipitou muito mais acelerada e dramaticamente em torno da 'questão negra' na

passagem do século.79 Os intelectuais inventores da 'questão', como Silvio Romero, R. Nina Rodrigues e João Batista de Lacerda, tiveram que se haver diretamente com o estado dos saberes sobre o humano hegemônicos à época no mundo metropolitano. Esses saberes, quer partissem da antropologia física, da psiquiatria, da medicina legal ou do direito penal, estavam fundamente marcados pela questão da 'degenerescência'. Essa teoria representava o apogeu das inúmeras tentativas de restauração ideológica da Diferença que tinham vindo à luz na Europa desde que os ideais da Liberdade e da Igualdade tinham se institucionalizado em estruturas e procedimentos políticos regulares. Era como se – de certo modo – os determinismos sociais expulsos da representação democrática do mundo político viessem então se refugiar em múltiplas formas de determinismos físicos (mais precisamente 'físico-morais'), escudados pelo crescente prestígio das 'ciências' e do

'cientificismo'. 80

No Brasil, a tese do 'embranquecimento progressivo' da população brasileira – apesar de sua aparente refutação do determinismo eugenista –, apenas adequava o modelo internacional às peculiaridades da situação e – digamos assim – do ethos nacional (cf. Seyferth, 1989). Montava-se assim, com os aportes sucessivos de Gilberto Freyre e de Roquette-Pinto, a hipótese do caráter não-discriminante das relações interétnicas no Brasil, que viria a ser contestado apenas durante a década de 50, sob o influxo reavivado das idéias igualitárias decorrente da derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra.

Na verdade, a trama da invenção da 'afro-brasilidade' foi constituída na confluência do reconhecimento da inevitabilidade da presença

vultosa dos negros na população brasileira81 e da consciência aguçada da Diferença que se tinha de enfrentar para produzir a Civilização na Nação. É assim que a palavra-chave dos movimentos da intelectualidade nacional nas quatro primeiras décadas do século foi a da 'educação', ou seja, os recursos gerais de transformação do diferente em 'civilizado' que se tinham formalizado no Ocidente como uma área específica de especulação e experimentação, pelo

menos desde Rousseau.82

Quer se tratasse da educação 'escolar', 'técnica' ou 'cívica', quer se tratasse da educação 'sanitária' brandida pela onipresente higiene (física e mental) e pelo movimento sanitarista, quase todas as preocupações convergiam para os mecanismos de transformação dos sujeitos e das populações que pudessem fazer confluir os esforços civilizatórios na construção da Nação 'moderna' – que a todos tão distante se afigurava. Na história das instituições nacionais, não só avultam as iniciativas dedicadas explicitamente à infância e à educação nos anos 20 e 30, como é difícil discernir as fronteiras entre a educação, a higiene, a psiquiatria e a psicanálise. A Associação Brasileira de Educação, fundada em 1924, mantinha estreitas relações com a influente Liga Brasileira de Higiene Mental, fundada no ano anterior pelo psiquiatra Gustavo Riedel (cf. Freire-Costa, 1981). Porto Carrero criou nesta última uma Clínica Psicanalítica, em 1926, e ministrou na primeira cursos de psicanálise aplicada à educação em 1928. Em 1926 foi fundado o Instituto de Higiene de São Paulo e no ano seguinte – também em São Paulo – a primeira e malograda Sociedade Brasileira de Psicanálise (a Seção do Rio seria fundada em 1928). Em 1927 foi criado o Serviço de Assistência aos Doentes Mentais do Distrito Federal, que viria a se transformar em serviço nacional ao ser incorporado ao Ministério da Educação e Saúde, instituído em 1930. Em 1928 deu-se a famosa primeira reforma do ensino público do Distrito Federal, com Fernando de Azevedo. Em 1929, ainda no Rio de Janeiro, organizava-se o primeiro Gabinete de Psicanálise no Hospício Nacional de Psicopatas. Finalmente, em 1932 era divulgado o famoso 'Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova', conciliando as tendências lideradas por Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira, que se haviam enfrentado na IV Conferência Nacional de Educação, realizada em Niterói no ano anterior (cf. Cunha, 1980).

Esse processo não era desconectado evidentemente dos movimentos internacionais ligados à 'civilização' – e particularmente do tom 'dirigista' ou 'autoritário' que caracterizou crescentemente a ação do Estado e o pensamento social do entreguerras. A adoção no Brasil do Dia da Criança, em 1924, seguia uma proposta da Liga das Nações, embora ecoasse também os efeitos do I Congresso Brasileiro de Proteção à Infância, realizado em 1922. A promulgação do Código de Menores em 1927 foi contemporânea das primeiras legislações de proibição do consumo de drogas (como a maconha e a cocaína), por uma pressão conjugada sobre o Estado brasileiro da diplomacia norte-americana e da Academia Nacional de Medicina, preocupada com os supostos efeitos antieugênicos do consumo dessas substâncias (cf. Brito, 1996). Em 1929, aliás, teve lugar o I Congresso Brasileiro de Eugenia, seguido em 1931 pela criação, por Renato Kehl, da Comissão Central Brasileira de Eugenia. Sergio Carrara estudou minuciosamente esse período (desde o fim do século XIX até a Segunda Grande Guerra) do ponto de vista das regulamentações morais referidas à sexualidade, à prostituição e à sífilis, demonstrando justamente a sua articulação com a dinâmica internacional e as características próprias das formas assumidas no Brasil (cf. Carrara, 1996). A descoberta de um rico material sobre 'educação sexual' produzido no Brasil no entreguerras ensejou outro trabalho, ainda em curso, que também concerne às regulações morais em suas determinações nacionais e internacionais (cf. Carrara, 1997).

A psicanálise lida por Arthur Ramos (e por todos os psiquiatras seus

contemporâneos) 83era fundamentalmente uma teoria da 'civilização'

ou 'educação' individual.84 Como já apontaram outros dos comentadores de Ramos (cf. Corrêa, 1982; Mokrejs, 1993; e Carvalho, 1995), a teoria freudiana era consumida sobretudo pela via da oposição entre um 'inconsciente' mais 'primitivo' (com todas as ambigüidades desta palavra) e uma 'consciência' capaz de se educar, de se controlar (e eventualmente se autocontrolar) pela própria via dos novos recursos psicoterapêuticos colocados à

disposição do processo civilizatório.85 Daí a importância que tiveram para Ramos, por exemplo, tanto a obra de Pfister (referida à psicanálise freudiana, mas nitidamente mais 'moralizante' ou 'didática') quanto a de Piaget (cujo mentalismo é de caráter diferente do da psicanálise, mas fundamentalmente comprometido com a educação individual).

O primeiro 'regime' de nosso modelo é assim um regime subordinado ao trinômio civilização/nação/educação, expressivo das condições gerais em que se podia constituir o campo intelectual brasileiro do entreguerras. A relação com a Nação se impunha não

apenas no plano dos ideais, 86 mas também no plano mais pragmático das relações com o aparelho de Estado. Na ausência de uma estrutura de mediações institucionais razoavelmente autônoma para sustentar os projetos intelectuais (veja-se as vicissitudes da Universidade do Distrito Federal, por exemplo, nos anos 30) e na

dificuldade de manutenção de instituições civis alternativas, 87 era inevitável ocupar posições dentro do aparelho de Estado.

É assim que todas as análises da história dos intelectuais neste país sublinham a sua enorme dependência da condição de 'funcionários públicos', no sentido literal do termo (cf. Corrêa, 1982:3-4). A rede médico-sanitária implantada desde o começo do século foi um dos

principais veículos dessa 'incorporação'. 88 Foi nela que Ramos iniciou sua carreira pública na Bahia, seguindo as pegadas de Nina Rodrigues, como médico do Hospital São João de Deus e como médico-legista do Serviço Médico-Legal do estado da Bahia. Como também ressalta Mariza Corrêa, porém, não se tratava apenas de ocupação passiva de funções no interior de um Estado pré-desenhado. Tratava-se também e sobretudo de criação ou transformação de instituições estatais, servindo à complexificação da rede de relações com a sociedade civil. Foi o papel desempenhado por Ramos ao apresentar, em 1928, um plano de construção do Manicômio Judiciário da Bahia e ao assumir, em 1934, a convite de Anísio Teixeira, o recém-criado Serviço de Higiene Mental e Ortofrenia da Secretaria de Educação e Saúde do Distrito Federal. A história das intensas atividades aí desenvolvidas

por nosso autor, até 1939, mal começou a ser realizada.89

Bastide escapou dessa dimensão da vida dos intelectuais brasileiros pela singularidade de sua presença entre nós: como estrangeiro e como convidado – já mais para o final do período [1938] – para compor o quadro da primeira universidade bem-sucedida do País (com todos os sinais da autonomização que esse tipo de instituição

implica).90 Arthur Ramos também passou a ocupar posições universitárias no Rio de Janeiro justamente a partir de 1939.

 

O grande interregno

O período de 'latência' dos anos 50 e 60 (do ponto de vista das relações ativas entre a antropologia e a psicanálise) se caracterizou por uma crítica acirrada ao 'culturalismo' que se julgava ter prevalecido até então e pela acelerada hegemonização da

sociologia. 91 Os estudos sobre a 'cultura negra' sofreram uma sistemática crítica da parte de 'sociólogos' treinados profissionalmente nas instituições universitárias implantadas ao longo dos anos 30 (como Costa Pinto e Guerreiro Ramos, sobretudo; cf. Cunha, 1994: 15). Intelectuais e militantes 'negros' convocaram, em 1950, o 1º Congresso Negro Brasileiro (cf. Seyferth, 1989:26), para levantar o debate sobre a suposta 'democracia racial' brasileira. Bastide procurou se afastar do regime anterior, associando-se ao movimento de reavaliação e assinando, por exemplo, junto com Florestan Fernandes, o Relações Raciais

entre Negros e Brancos, 92 em 1955 (cf. Fernandes & Bastide, 1955).

Fernandes, que participou com marcada reticência de um dos vários volumes de homenagens a Arthur Ramos por ocasião de sua morte (cf. Fernandes, Costa-Eduardo e Baldus, 1950), publicou sucessivamente em 1954 e 1956, na Revista de Antropologia, um artigo sobre Lévy-Bruhl e outro sobre as relações entre a psicanálise e a sociologia (cf. Fernandes, 1954 e 1956), que talvez possam ser considerados como uma operação de desconstrução sistemática das bases da antropologia representada por Arthur Ramos. Deve-se ressaltar aqui que a psicanálise aí evocada é fundamentalmente uma 'ciência' com aportes 'metodológicos' considerados importantes para a sociologia. Desaparece todo conteúdo programático ou ontológico (relativo ao 'pensamento' humano, por exemplo) e permanece apenas uma estratégia de pesquisa, útil para a nova racionalidade profissional em afirmação (o mesmo procedimento, aliás, caracteriza o artigo sobre Lévy-Bruhl). Esses textos parecem constituir, assim, apenas uma espécie de epitáfio para o 'regime' descrito para o entreguerras, uma vez que não conduzem a uma

verdadeira rearticulação interna da problemática. 93

Na verdade, uma outra rearticulação estava se dando, num nível mais abrangente, cada vez mais voltado para as 'macrorrelações' sociais. O 'econômico' vem atravessar todo o campo acadêmico do período, seja sob a forma da influência do marxismo no privilégio à

dimensão das relações entre as 'classes' dentro da sociologia,94

seja na consolidação universitária e profissional da economia,95 seja na constituição do complexo acadêmico-político constituído pela chamada 'teoria da dependência' e pela escola 'estruturalista' (assim nomeada em oposição aos 'monetaristas').

Foi nesse mesmo período, porém – de intensa 'institucionalização'

geral –, 96 que se organizaram as primeiras sociedades estáveis de psicanálise e de antropologia no País. A Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo obteve filiação provisória à IPA em 1951, a Sociedade de Psicanálise do Rio de Janeiro se filiou em 1955 e a Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro em 1957 (cf. Figueiredo, 1984 e Carvalho, 1995). A Associação Brasileira de Antropologia foi fundada em 1955, por ocasião da 2ª Reunião Brasileira de Antropologia (a primeira tinha tido lugar em 1953) (cf. Corrêa, 1988).

Esse período corresponde, também, ao desencadeamento do

processo de institucionalização da psicologia. 97Entre a criação do Instituto de Seleção e Orientação Profissional (Isop), também dentro da Fundação Getúlio Vargas, em 1947, e a regulamentação profissional da carreira (franqueando-lhe o atendimento clínico, mediante definição de competência para 'solução de problemas de ajustamento'), obtida em 1962, contra uma acirrada resistência de segmentos da medicina e da educação, transcorre o período de implantação universitária (primeiro curso na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ), em 1953, e de ocupação de espaços profissionais ligados inicialmente ainda à educação e logo – cada vez mais – ao atendimento psicoterapêutico (graças a uma generalizada influência da psicanálise e à proliferação de sociedades abertas a não-médicos ao longo dos anos 70).

 

O segundo regime

O que se chamou de 'segundo regime' das relações entre a antropologia e a psicanálise no Brasil se desencadeia institucionalmente em 1973, com a abertura de interlocução com o então jovem antropólogo Gilberto Velho [nascido em 1945] por parte do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro

(UFRJ) 98 e de alguns círculos da psicanálise, entre os quais a Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. O Instituto tinha, ele mesmo, um longo histórico de influência psicanalítica (cf. Venancio, 1990) e – embora o próprio diretor José Leme Lopes, autor do convite inicial a Velho, não fosse particularmente próximo à psicanálise – já em 1974 assumiria a direção do Instituto o psicanalista Eustáquio Portela.

Gilberto Velho compunha a primeira geração dos antropólogos formados pelo recém-criado Programa de Pós-Graduação em

Antropologia Social do Museu Nacional [1968]99 e retornara de um período de estudos nos EUA, em 1971, com um tipo de formação que lhe facultaria desencadear no Brasil uma linha de estudos que viria a ser conhecida como uma 'antropologia urbana' (considerada pelo próprio autor como herdeira da tradição da Escola de Chicago e do 'interacionismo simbólico' norte-americano). Essa formação incluía forte ênfase no chamado 'comportamento desviante' e nas situações de 'estigma', tocando nas doenças mentais, ao lado das drogas e dos desvios sexuais, por exemplo – temas, todos eles, que tinham se tornado mais particularmente cruciais para a dinâmica da cultura ocidental moderna a partir da transformação da 'contracultura' romântica em uma questão de comunicação de massa no final dos anos 60 (cf. Campbell, 1987). Gilberto Velho pertencia a uma geração e a um segmento social para os quais a experiência da terapia psicanalítica já se tinha transformado em uma

estratégia de consumo simbólico razoavelmente regular.100 Por volta de 1978, Velho iniciou um período de contatos acadêmicos com seu ex-aluno Sérvulo Figueira [nascido em 1951], psicólogo formado pela PUC/RJ [1975], já então em processo de formação

psicanalítica. 101

O campo das psicoterapêuticas vinha-se transformando profundamente ao longo dos anos 70, configurando o que se veio a

chamar de 'o 102 boom da psicanálise'. A primeira característica é a da pressão por entrada no mercado de atendimento dos psicólogos formados nos cursos criados a partir dos anos 50. As duas Sociedades Psicanalíticas filiadas à IPA no Rio de Janeiro (e também criadas nos anos 50) só aceitavam médicos para a formação psicanalítica. Cerca de dez instituições voltadas a uma formação aberta são criadas ao longo da década, com os mais variados matizes teóricos e propostas institucionais, até a abertura, em 1980, do acesso às próprias sociedades oficiais (cf. Figueiredo, 1984 e Carvalho, 1995).

Pari passu com esse incremento dos números brutos de psicoterapeutas, ocorrem inúmeros processos de distinção profissional e social, que implicam uma maciça ampliação dos investimentos editoriais e uma paulatina e notável ampliação da visibilidade da disciplina nos meios de comunicação de massa. Alguns psicanalistas passam a ocupar uma posição de intérpretes dos fenômenos 'culturais' na grande imprensa, ao lado – aliás – freqüentemente de antropólogos.

Também é notável o desenvolvimento de uma espécie de demanda do 'social' por parte de diversos segmentos do campo psi. Essa demanda pode se manifestar em um nível mais interno da profissão sob a forma da disseminação de 'terapias de grupo' (que gozam de uma notável popularidade ao longo dos anos 70), sob a forma de discussões e iniciativas concretas de invenção de recursos de

'atendimento psicoterápico popular'103 ou sob a forma da busca de reconstrução de relações coletivas ou sociais no contexto asilar (seja na direção específica das 'comunidades terapêuticas', seja na direção generalizada do processo de 'reforma psiquiátrica').

Da parte das ciências sociais, dois movimentos principais canalizavam as atenções para a psicanálise no começo dos anos 70: o primeiro se nutria do marxismo estruturalista francês, com suas expectativas de constituição de uma ciência total voltada para uma transformação absoluta do Homem. Esse movimento tinha como principal canal, na época, a Revista Vozes, e se esgotou sem deixar – aparentemente – uma herança significativa.

O segundo é o que vai resultar no aqui proposto 'segundo regime': um amálgama de influências acadêmicas que talvez se caracterize sobretudo pela ênfase 'construtivista', ou seja, que procurava não a realidade subjacente aos fenômenos examinados, mas a compreensão das condições sociais, culturais ou epistemológicas de sua emergência e manifestação. Foucault é uma presença marcante e compõe com Lévi-Strauss o único ponto de união deste movimento com o outro citado. Acrescentaram-se sucessivamente a sua contextualização da emergência dos saberes humanos os aportes da antropologia fenomenológica de Schultz e Berger, da sociologia romântica de Simmel e Elias, da história social de Castel e da história do individualismo de Dumont (entre outras diversas influências).

A informação sobre o processo pelo qual se constituiu esse segundo regime – sobre como se desenvolveu institucionalmente (envolvendo cursos, seminários, congressos, utilização de recursos editoriais etc.) e sobre como chegou a constituir uma área acadêmica razoavelmente delimitada –, é muito vasta e tem que ser

razoavelmente comprimida no corpo deste artigo.104 O que interessa enfatizar desde já a respeito do 'segundo regime' é que o seu horizonte temático é completamente diferente do do 'primeiro regime', a ponto de não haver – da parte dos atores constitutivos do segundo – nenhum sentimento de continuidade histórica e acadêmica em relação ao regime do entreguerras. A psicanálise não é em nenhum momento tomada como um recurso de interpretação dos fatos culturais, mas sim como objeto da própria interpretação antropológica – como um fenômeno, entre outros, dos sistemas de crenças das 'camadas médias' e 'superiores' do 'mundo urbano moderno'. Ela não se constitui mais tampouco como um recurso propiciatório do advento dos esperados processos de civilização; antes, pelo contrário, sua presença na sociedade é tomada como um 'sintoma' privilegiado de uma 'modernidade' já de algum modo atingida (em razão da 'individualização' e 'interiorização' implicadas na adesão a seu estilo terapêutico, a sua Weltanschauung, como preferia com freqüência Figueira (cf. 1990, por exemplo).

É assim que encontramos no 'segundo regime' – no lugar simétrico inverso do trinômio 'civilização/nação/educação' (e do mote empírico da 'raça') – uma tentativa de diagnóstico do grau e qualidade da 'modernização' da sociedade brasileira (em comparação com outras

sociedades nacionais, sobretudo os EUA).105 Não é à toa que seja a 'cidade' (e os estilos de vida que lhe são associados no Ocidente)

que esteja tão freqüentemente em questão. 106

A 'modernização' aparece como o horizonte fundamental da problemática, no sentido dos desafios apresentados à recomposição

das identidades pessoais107 no meio urbano – em que aquele processo se expressa paradigmaticamente. De um modo muito geral – e fazendo economia das diferenças nas versões pessoais dessas questões e das modificações de ênfase ocorridas ao longo do período – pode-se reconhecer em operação um conjunto temático que se nutre da observação e análise de situações de 'não conformidade' ou 'tensão' em relação a valores ou papeis convencionais da sociedade envolvente. As questões teóricas do 'comportamento desviante', do 'estigma', das 'acusações' e dos 'desmapeamentos' avultam assim necessariamente. Elas fazem ressaltar – em negativo – as questões empíricas dos 'estilos de vida', 'orientações' e 'projetos', que podem ser examinados do ponto de vista de sua 'coerência' ou de seu potencial de 'alternação' ou 'metamorfose'. Os sujeitos sociais são vistos como fundamentalmente complexos, dotados de uma interioridade móvel e mutável (dentro de certas condições e limites) que os habilita a lidar com a 'mudança' social generalizada (com maior ou menor eficácia). A discussão do estatuto do 'indivíduo' moderno toma, assim, uma grave preeminência, seja na direção das análises de Simmel (mais compatível com a formação 'interacionista' de Velho, por exemplo), seja na direção das hipóteses de Dumont (mais consentâneo com a influência de Foucault ou Lévi-Strauss). De qualquer modo, o interesse da interlocução entre a antropologia e a psicanálise parecia se confirmar regularmente nesse regime, pela ênfase comum na oposição entre visível / invisível ou consciente / não-consciente (se não, necessariamente, 'inconsciente').

Os autores do segundo regime marcaram sua presença no campo intelectual – como os do primeiro período –, pelo acionamento de

recursos editoriais importantes 108 e pela atividade docente universitária. Os recursos de que dispõem nas universidades parecem ser, porém, bastante diferentes dos que caracterizaram a docência de Ramos e Bastide. Isso implica que as atividades dos autores do primeiro regime permaneceram mais isoladas (ou pelo

menos assim parecem, vistas 109 a posteriori). O segundo regime envolve um importante grupo de produtores intelectuais, alguns colegas, a maior parte alunos e orientandos dos dois autores axiais. As publicações do período patrocinadas pelos dois autores testemunham do caráter mais coletivo do empreendimento, que deixará assim 'discípulos', mesmo com o deslocamento dos

interesses dos inspiradores originais. 110 Um recurso importante do novo regime é o da participação em um sistema de produção intensiva de teses de pós-graduação (como orientadores ou examinadores), tal como o que se instalou a partir do fim dos anos 60, no Brasil.

Distinguem-se, ainda, os autores do segundo período por disporem de uma forte rede de sociedades profissionais e científicas. Velho veio a ocupar influentes posições de organização do campo – e, eventualmente, de interlocução com o Estado (sobretudo a partir da Associação Brasileira de Antropologia – ABA, da Associação Nacional dos Programas de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais – ANPOCS, e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC). Figueira restringiu-se à participação em sua sociedade psicanalítica (a Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro / SBPRJ), obedecendo assim ao isolamento característico de que se cercam as instituições psicanalíticas no campo intelectual nacional.

Esperamos vir a explorar, em continuação a este trabalho, como um segmento importante dos próprios profissionais psi (psicanalistas, tanto quanto psiquiatras e psicólogos influenciados pela psicanálise) que se interessou e dedicou a essa contextualização social e cultural de sua prática (e visão de mundo). Deve ser sublinhada a importância daquela referida 'demanda do social' difundida por diversos mecanismos, nesse meio profissional tão recentemente institucionalizado, e que se relacionam com questões mais gerais da cultura ocidental moderna (como a já citada 'contracultura'), com questões da vida política da nação brasileira durante os anos 70 e 80 (especialmente a ditadura militar e seus efeitos sobre a sociedade, em geral, e sobre a intelectualidade, em particular) e com questões internas à própria constituição do campo

psicológico.111

Será particularmente importante referir a imbricação desse 'segundo regime' com a ativação do processo da chamada 'reforma psiquiátrica' brasileira (alguns autores do campo consideram 1978 o ano desencadeador do processo), decorrente ele próprio de uma complexa intersecção de temas 'sociais' com os tradicionais temas 'técnicos' ou 'profissionais' da psiquiatria (cf. Lougon, 1993; Venancio, 1990; Bezerra, 1994). A experiência da reforma psiquiátrica pode ser especificamente reveladora dos processos próprios do 'segundo regime' e seu contexto social amplo, na medida em que se trata de uma delicada mediação com a estrutura do Estado, do qual os atores intelectuais – nessa nova formação – procuravam em geral manter certa distância, em razão até mesmo das novas possibilidades de autonomia profissional garantidas pela consolidação das instituições constitutivas do campo intelectual (universidades, sociedades profissionais etc.).

Teria que ser levado em conta, para esse caso, o histórico da implantação das 'comunidades terapêuticas' no Brasil, que antecede a generalização da 'reforma'. Teixeira já vê como sinais importantes desse processo de reconhecimento da necessária dimensão social da experiência terapêutica o lançamento da Campanha Nacional de Saúde Mental pelo Ministério da Saúde em 1967 e a realização em São Paulo, em 1970, do I Congresso Mundial de Comunidades Terapêuticas (cf. Teixeira, 1993).

Idêntica situação pode ser detectada na chamada 'medicina social', que se desenvolve no mesmo período no Brasil (segundo Costa, 1992): interlocução com as 'ciências sociais', problemas de demarcação de domínios com a corporação médica tradicional, tensão nas relações com o Estado empregador. As duas situações sugerem, aliás, um investimento mais sistemático sobre as contradições peculiares dos serviços públicos de caráter médico ou terapêutico (incluindo a psiquiatria e outras psicoterapêuticas). Intensas crises tendem a se desencadear entre as aspirações de autonomia dos agentes (qualificados por um estatuto científico ou acadêmico) e a governamentalidade direta desses serviços – diferentemente do ensino e da pesquisa nas instituições universitárias (e mesmo do atendimento, no caso referido do Instituto de Psiquiatria da UFRJ).

A cobertura dos temas e situações em que os profissionais do 'segundo regime' tomaram a palavra pública (artigos na grande imprensa, direção de associações profissionais e científicas, participação em Conselhos e comissões de mediação do Estado com a sociedade civil etc.) pode ser importante recurso de comparação com os recursos de intervenção abertos aos participantes do 'primeiro regime'. Também seria particularmente esclarecedor trabalhar em torno de 'crises' institucionais públicas, em que os temas cruciais do campo (e especificamente o da relação com o Estado) foram dramatizados de modo revelador. Pensamos em situações como a famosa 'crise da DINSAM', de 1978, em que as condições abomináveis dos asilos públicos vieram ao conhecimento público, coincidindo com a criação do Movimento dos Trabalhadores da Saúde Mental (em si mesma um outro 'drama social' instigante). A longa 'crise' sofrida pelos meios psicanalíticos em conseqüência da denúncia de conivência de alguns de seus profissionais com a tortura política durante a ditadura militar seria outra preciosa fonte de compreensão dos mecanismos de organização do campo, da participação das alianças 'sociais' de toda sorte e dos modos de visibilização pública da vida profissional institucionalizada numa disciplina que cultiva com particular cuidado sua autonomia em face do Estado.

De um modo geral, pode-se dizer que a influência social dos autores do segundo regime se deu com base em posições externas ao aparelho de Estado. O único cargo público exercido por Velho, por exemplo, no período, foi o de professor de Universidade – justamente esse que a autonomia acadêmica faz eqüivaler a uma posição 'civil'. Ainda nesse caso, a eventual participação em conselhos (como o do SPHAN e o Conselho Federal de Cultura) e comissões da estrutura governamental se deu por força de uma autoridade profissional e acadêmica civil – obtida em grande parte pela intensa participação em prestigiosas sociedades científicas. A intervenção dos cientistas sociais em questões de regulação moral no segundo regime não se dá de forma imediata: ela não é menos forte, no entanto, do que a que puderam obter os intelectuais do estilo 'primeiro regime'; na verdade, veio a ser provavelmente maior. Ela se faz, porém, quase exclusivamente, através das mediações institucionais propiciadas pelo longo processo de institution building aqui evocado. É claro que essas características não são exclusivas do pequeno núcleo que recortou-se para modelo próprio. Tanto num pólo como no outro, os dois pares de atores são tomados como exemplares de processos que os ultrapassam em muitos sentidos.

Conclusões

Vê-se assim como a análise do caso tão específico das relações da antropologia com a psicanálise (no quadro complexo da institucionalização dos saberes psicológicos no Rio de Janeiro) pode produzir um efeito de esclarecimento sobre a múltipla informação disponível hoje sobre a história dos saberes sobre o humano, na sociedade brasileira em particular (e na cultura ocidental moderna em geral, por decorrência). O eixo de interpretação principal será, então, o de revelar o quão profundamente se transformaram as condições de refletir e investir sobre o 'sujeito' em nossa sociedade ao longo do século, passando-se – grosso modo – de um regime em que as ideologias individualizantes metropolitanas eram vistas como instrumento de um projeto englobante de construção da Nação civilizada (o que fazia avultar assim a questão da 'raça' e da 'educação') para um outro em que elas espelham experiências de 'individualização' consideradas como já efetivas no novo contexto de 'modernidade' econômica e social – incitando à criação de novas inquietações, basicamente relativas à 'reflexividade', 'consistência', 'estabilidade' ou 'coerência' dessas novas formas de subjetivação (o que corresponde, neste período, à preeminência da questão da 'cidadania' e da 'liberdade').

Observa-se, igualmente, como se podem agenciar nas sociedades modernas estilos bastante diferentes de 'regulação moral' com intervenção dos saberes acadêmicos e científicos, boa parte em virtude das condições de 'institucionalidade' dos campos nacionais – condições aliás não apenas 'quantitativas', mas também 'qualitativas', sobretudo no que toca as representações de Pessoa envolvidas. Essa última dimensão só poderá ser mais plenamente desenvolvida, porém, em um trabalho comparativo internacional – que resta fazer.

 

Referências bibliográficas ANDRADE, R. A. S. de. Avatares da história da psicanálise: da medicina social no Brasil à medicina nazista e à medicina romântica alemã. In: HERSCHMANN, M. & PEREIRA, C. A. M. (Orgs.) A invenção do Brasil moderno: medicina, educação e engenharia nos anos 20-30. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

BEZERRA, B. De médico, de louco e de todo mundo um pouco. O campo psiquiátrico no Brasil dos anos oitenta. In: GUIMARÃES, R. & TAVARES, R. (Orgs.) Saúde e Sociedade nos anos 80 Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

BOLTANSKI, L. La Souffrance à Distance. Morale humanitaire, médias et politique. Paris: Éditions Métailié, 1993.

BRAGA, M.-L. de S. Roger Bastide: paisagista. In: Marcos C. & SANTOS, R. V. (Orgs.) Raça, Ciência e Sociedade. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz/CCBB, 1996.

BRITO, G. Drogas: negócios de Estado, avisos à praça e defesa da raça – uma história da constituição do controle e vigilância oficiais sobre substâncias psicoativas no Brasil: 1900 a 1938, 1996. Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro: Ensp/Fiocruz.

CAMPBELL, C. The Romantic Ethic and the Spirit of Modem Consumerism. Oxford: Blackwell, 1997.

CARRARA, S. Tributo a Vênus: a luta contra a sífilis no Brasil da passagem do século aos anos 40. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1996.

CARRARA, S. Sexualidade e sexologia no Rio de Janeiro de entre-guerras (notas preliminares de pesquisa). Cadernos do Ipub, 8, 1997.

CARVALHO, C. A. de. Os psiconautas do Atlântico Sul. Uma etnografia da psicanálise, 1995. Tese de Doutorado, Campinas: Departamento de Ciências Sociais da Unicamp.

CORRÊA, M. As ilusões da liberdade – a escola de Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil, 1982. Tese de Doutorado, São Paulo: USP.

CORRÊA, M. Traficantes do excêntrico. Os antropólogos no Brasil dos anos 30 aos anos 60. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 6 (3), 1988.

COSTA, N. do R. Ciências sociais e saúde: considerações sobre o nascimento do campo da saúde coletiva no Brasil. Saúde em Debate, 36, 1992.

CUNHA, L. A Universidade Temporã. O ensino superior da Colônia à Era Vargas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

CUNHA, O. M. G. da. Cartas ao Mestre. Notas sobre a correspondência de Arthur Ramos e a invenção dos Estudos Afro-Brasileiros. PPGAS/Museu Nacional/UFRJ, 1994. (Mimeo.)

DAVIS, D. L. George Beard and Lydia Pinkham: gender, class, and nerves in late 19th. Century America. In: DAVIS, D. L. & LOW, S. M. (Ed.) Gender, Health and Illness. The case of nerves. New York: Hemisphere Publishing Corporation, 1989. p.93-114.

DUARTE, L. F. D. O Culto do Eu no Templo da Razão. Boletim do Museu Nacional (N. S.) (Três Ensaios Sobre Pessoa e Modernidade), 41:1-69, 1983.

DUARTE, L. E. D. Da Vida Nervosa (nas classes trabalhadoras urbanas). Rio de Janeiro: J. Zahar/CNPq, 1986.

DUARTE, L. F. D. Introdução: a análise da pessoa moderna pela história e etnografia dos saberes psicológicos. Cadernos do Ipub, 8, 1997.

DUARTE, L. F. D. & GIUMBELLI, E. A. As concepções de pessoa cristã e moderna: paradoxos de uma continuidade. Anuário Antropológico, 93, 1994.

DUARTE, L. F. D. & VENANCIO, A. T. A. O espírito e a pulsão (o dilema físico-moral nas teorias da Pessoa e da Cultura de W. Wundt). Mana. Estudos de Antropologia Social, 1(1), 1995.

FERNANDES, F. Lévy-Bruhl e o espírito científico. Revista de Antropologia, 2(2), 1954.

FERNANDES, F. Psicanálise e sociologia. Revista de Antropologia, 4(2), 1956.

FERNANDES, F. A Integração do Negro na Sociedade de Classes. São Paulo: Dominus / Edusp, 1965.

FERNANDES, F. & BASTIDE, R. Relações raciais entre brancos e negros em São Paulo; ensaio sociológico sobre as origens, as manifestações e os efeitos do preconceito de cor no município de São Paulo. São Paulo: Unesco/ Anhembi, 1955.

FERNANDES, F., COSTA-EDUARDO, O. & BALDUS, E. H. 'Arthur Ramos, 1903-1949', Revista do Museu Paulista, N. S., V. IV, São Paulo, 1950.

FIGUEIREDO, A.-C. C. Estratégias de Difusão do Movimento Psicanalítico no Rio de Janeiro, 1984. Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica.

FREIRE-COSTA, J. Ordem Médica e Norma Familiar. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

FREIRE-COSTA, J. História da psiquiatria no Brasil (um corte ideológico). Rio de Janeiro: Campus, 1981.

GAUCHET, M. & SWAIN, G. La pratique de l'esprit humain (l'institution asilaire et la révolution démocratique). Paris: Gallimard, 1980.

GUSDORF, G. Introduction aux Sciences Humaines. Essai critique sur leurs origines et leur développement. Paris: Ophrys, 1974. GUSMÃO, M. Arthur Ramos. O homem e a obra. Maceió: Dac/Senec, 1974.

HIRSCHMAN, A. The Passions and the Interests: political arguments for capitalism before its triumph. Princeton: Princeton University Press, 1977.

JACÓ-VILELA, A. M. et al. A profissão de psicólogo: constituição do campo. Cadernos do Ipub, 8, 1997.

LAWRENCE, C. J. The nervous system and society in the Scottish Enlightenment. In: BARNES, B. & SHAPIN, S. (Ed.) Natural Order Sage Publications, 1979.

LE BRETON, D. Dualisme et Renaissance. Aux sources d'une représentation moderne du corps. Diogêne, 142 (avr/mai), 1988.

LIMA, A.-C. de S. Um Grande Cerco de Paz. Poder tutelar, indianidade e formação do Estado no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1995.

LIMA-SILVA, M. A. O futuro da demanda (Simpósio: Quem está pirando no Rio de Janeiro. As transformações da demanda de psicoterapia). Ciência e Cultura, 35(8), 1983.

LOUGON, M. Os caminhos da mudança: a desinstitucionalização da assistência psiquiátrica pública. Physis. Revista de Saúde Coletiva, 3(2), 1993.

LOUREIRO, M. R. Economistas e elites dirigentes no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 20(7), 1992.

LOURENÇO FILHO, M. B. A Psicologia no Brasil. In: AZEVEDO, F. de. (Org.), As Ciências no Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1955.

MACHADO, R. et al. Danação da Norma: a medicina social e a constituição da psiquiatria no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1978. MANCEBO, D. Da psicologia aplicada à institucionalização universitária: a regulamentação da psicologia enquanto profissão. Cadernos do Ipub, 8, 1997.

MARTINS, L. A geração AI-5. Ensaios de Opinião, 11, 1979.

MASCARENHAS, E. O boom da psicanálise e a consciência nacional. Jornal do Brasil (Caderno Idéias), 12 de fev. 1978.

MOKREJS, E. A Psicanálise no Brasil. As origens do pensamento psicanalítico, Petrópolis: Vozes, 1993.

MOREIRA-LEITE, D. O Caráter Nacional Brasileiro. História de uma Ideologia. 3.ed. rev., refundida e ampliada. São Paulo: Pioneira, 1996.

NICÁCIO, E. M. Psicanálise, individualismo e divisão de si. Cadernos do Ipub, 8, 1997.

NUNES, C. A escola reinventa a cidade. In: HERSCHMANN, M. & PEREIRA, C. A. M. (Orgs.) A invenção do Brasil Moderno: medicina, educação e engenharia nos anos 20-30. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

OLIVEIRA, W. F. & LIMA, V. da C. (Orgs.) Cartas de Edison Carneiro a Arthur Ramos (41/12/36 a 6/12/38). São Paulo: Corrupio, 1987.

PAICHELER, G. L'lnvention de la Psychologie Moderne. Paris: L'Harmattan, 1992.

PEIRANO, M. 'The anthropology of anthropology: the Brazilian case', 1981. Tese de Doutorado, Cambridge: Harvard University.

PEREIRA-DE-QUEIROZ, M. I. Nostalgia do outro e do alhures: a obra sociológica de Roger Bastide. In:______. (Org.) Roger Bastide: sociologia. São Paulo: Ática, 1983.

PEREIRA NETO, A. de F. Palavras, intenções e gestos. Os interesses profissionais da elite médica. Congresso Nacional dos Práticos (1922), 1997. Tese de Doutorado, Rio de Janeiro: IMS/Uerj.

PERESTRELLO, M. Primeiros encontros com a psicanálise: os precursores no Brasil (1899-1937). In: FIGUEIRA, S. (Org.) Efeito PSI. A Influência da Psicanálise. Rio de Janeiro: Campus, 1988.

RAMOS-DA-SILVA, A. S. A 'creança brazileira', futuro da nação: infância, educação e higiene mental na Primeira República. Cadernos do Ipub, 8, 1997.

ROHDEN, F. O imaginário sobre a mulher através do olhar da Medicina no século XIX. Cadernos do Ipub, 8, 1997.

ROPA, D. Análise dos discursos psiquiátricos: o discurso psicológico, 1983. Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro: IMS/Uerj.

ROPA, D. et al. Considerações teóricas sobre a questão do atendimento psicológico às classes trabalhadoras. Cadernos de Psicanálise, 4(4), 1983.

RUSSO, J. O Corpo contra a Palavra – as terapias corporais no campo psicológico dos anos 80. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1983.

RUSSO, J. Existe um sujeito da psiquiatria? Cadernos do Ipub, 8, 1997.

SAGAWA, R. Y. Os inconscientes no divã da história, 1989. Dissertação de Mestrado, Campinas: Unicamp.

SERPA JR. & OCTAVIO, D. Degenerescência: queda, progresso e evolucionismo. Cadernos do Ipub, 8, 1997.

SEYFERTH, G. As ciências sociais no Brasil e a questão racial. In: SILVA, J. et al. (Eds.) Cativeiros e Liberdade. Rio de Janeiro: Ed. Uerj, 1989. p.11-31.

TEIXEIRA, M. O. L. O cristal de várias faces. A Psicanálise, o campo de saber psiquiátrico e o modelo assistencial das comunidades terapéuticas, 1993. Dissertação do Mestrado, Rio de Janeiro: Instituto de Psiquiatria, UFRJ.

TEIXEIRA, M. O. L. Nascimento da psiquiatria no Brasil. Cadernos do Ipub, 8, 1997.

VÁRIOS AUTORES. Arthur Ramos. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Saúde – Serviço de Documentação. [Anísio Teixeira, Ary da Matta, Egon Schaden, L. A. Costa Pinto, Lyly Lages, Manuel Diégues Júnior, Pedro Calmon, Péricles Madureira de Pinho, Roger Bastide], 1952.

VENANCIO, A. T. Sobre a 'Nova Psiquiatria' no Brasil: um estudo de caso do Hospital-Dia do Instituto de Psiquiatria, 1990. Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro: PPGAS/ Museu Nacional / UFRJ.

VENANCIO, A. T. Loucura, sanidade e terapêuticas: o caso da esquizofrenia. Cadernos do Ipub, 8, 1997.

VINCENT-BUFFAULT, A. História das Lágrimas: sécs.XVIII-XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

70 A objetivação do 'corpo' humano pela nascente fisiologia, nos moldes mecanicistas, é bem ilustrada, por exemplo, em LE BRETON (1988).

71 Ver, a esse respeito, o clássico estudo de HIRSCHMAN (1977) e a recente análise de BOLTANSKI (1993) (particularmente no tocante a Adam Smith). O brilhante e pouco conhecido artigo de LAWRENCE (1979) sobre a emergência conjugada da fisiologia e da teoria política da Escola de Edimburgo no século XVIII – como duas dimensões de uma mesma teoria da 'civilização' – deve ser particularmente referido.

72 O tema da interioridade psicológica moderna foi bem iluminado por GAUCHET & SWAIN (1980). Eu próprio o examinei sob diferentes ângulos em DUARTE (1983); DUARTE & VENANCIO (1995) e DUARTE & GIUMBELLI (1994).

73 Um artigo recente de Russo (1997) propõe um interessante modelo tripartido para esse desenvolvimento.

74 A história das lágrimas no Ocidente moderno de VINCENT-BÜFFAULT (1988) apresenta um convincente testemunho desse processo.

75 Mariza Peirano explora bem essa ênfase sobre a 'educação' como chave de compreensão e transformação da Nação, considerando-a como uma característica do pensamento social da década de 30 (PEIRANO, 1981:28 ou 39).

76 Seria interessante discutir esse 'dirigismo civilizatório' à luz da noção de 'poder tutelar' utilizada sistematicamente por Souza Lima para analisar as políticas públicas relativas às populações indígenas na República Velha (LIMA, 1995). Tanto Corrêa quanto Peirano utilizam a categoria 'tutelar' para se referir a disposições políticas contidas no pensamento social brasileiro do entreguerras.

77 Ver a própria evocação de Bastide, sobre a relação entre os dois no necrológio coletivo, publicado pelo Ministério da Educação (cf. VÁRIOS AUTORES, 1952).

78 Corrêa (1982:26 e 34) é particularmente esclarecedora sobre a articulação entre o problema da 'civilização' e a 'questão racial' nesse período.

79 Dante Moreira Leite já fazia, em 1954, essa associação histórica – depois muito retomada (cf. MOREIRA-LEITE, 1976).

80 Veja-se, além das já citadas obras de Carrara e Serpa Jr. – para aspectos mais gerais dessa questão –, Russo (1997) e VENANCIO (1997); assim como – para aspectos mais pontuais –, ROHDEN (1997) e TEIXEIRA (1997).

81 CORRÊA (1982:349) evoca a significativa expressão de Afrânio Peixoto para se referir à questão: "o eclipse negro".

82 SEYFERTH (1989:20) nos lembra que "(...) mesmo autores como Bomfim, que viam na mistura de raças um caráter renovador, não escaparam do ideário do progresso, com seu significado evolucionista. Mesmo sem usar argumentos raciais, a inferioridade do negro e do índio, e até certo ponto também dos mestiços, está implícita na noção de 'civilização'. Daí a ênfase tão grande na necessidade da 'educação' – como aparece, por exemplo, em Roquette-Pinto. Educar significa tirar do atraso – 'civilizar'". Sobre esse ponto ver ainda RAMOS-DA-SILVA (1997).

83 Ver ROPA (1983); particularmente sobre Porto Carrero e Antônio Austregésilo – considerados como os mais importantes pioneiros da psicanálise no Rio de Janeiro. Encontramos aí a seguinte transcrição de Austregésilo, em seu Viagem Interior, de 1934: "Penetremos cada dia dentro de nós-mesmos e reconheçamos as nossas faltas e exaltemos os nossos deveres, façamos viagens diárias ao íntimo de nossa personalidade (...) saibamos vencer-nos, saibamos educarnos, elevar-nos dentro de nós mesmos, porque só assim com a nossa melhoria individual o mundo melhora automaticamente" (ROPA, 1982:28).

84 É o próprio autor quem nos diz: "No Brasil, não têm passado despercebidos os aspectos pedagógicos da psicanálise. Desde 1926, por iniciativa deste incansável trabalhador que é o Professor Ernani Lopes, foi instalado na Liga Brasileira de Higiene Mental, por ele tão sabiamente dirigida, um serviço de psicanálise. Porto Carrero, o nosso grande estudioso desses assuntos, iniciou a propaganda daquele serviço em entrevistas de imprensa e irradiou uma conferência sobre 'Psicanálise e Educação', seguida de pois de outros ensaios sobre o mesmo tema, e hoje reunidos em seus livros sobre psicanálise (...)" (RAMOS, 1934c:24).

85 "Mas a sublimação mais perfeita deve ser para um trabalho de rendimento à comunidade. A tarefa do educador é de adivinhar logo cedo as sublimações para que tendem as forças instintivas de cada criança, qual será esse trabalho social que deve ser escolhido não como uma tarefa pesda e desagradável, mas com alegria, com participação de toda a personalidade, pois que ele tem raizes instintivas, tendências elementares que se trasnformaram por via da sublimação. É todo um capítulo novo de orientação profissional." (RAMOS, 1934c: 157).

86 Veja-se PEIRANO (1981), sobre o mandamento de "explicar o Brasil" entre os cientistas sociais brasileiros.

87 Veja-se que as primeiras sociedades psicanalíticas fundadas em São Paulo e no Rio de Janeiro no fim dos anos 20, assim como as primeiras associações de antropologia (a Sociedade de Etnografia e Folclore, criada em São Paulo em 1937, e a Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnologia fundada por Ramos no início da década de 40), não só tiveram vida curta como não foram simbolicamente recuperadas por suas congêneres bem-sucedidas dos anos 50.

88 A medicina foi uma das primeiras disciplinas (junto com o direito) a se institucionalizarem no Brasil. As duas faculdades iniciais (da Bahia e do Rio de Janeiro) foram criadas em 1830, substituindo os antigos Colégios Médico-Cirúrgicos. A Academia Nacional de Medicina (inicialmente Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro) foi fundada em 1829. A Gazeta Médica da Bahia surgiu em 1866 e o Brazil-Médico em 1887 (cf. BRITO, 1996). A Psiquiatria participou dessa implantação desde a criação do Hospício Pedro II em 1841, que só começou no entanto a funcionar em 1852 e a ter uma administração plenamente médica com Teixeira Brandão em 1886 (cf. TEIXEIRA, 1997). A primeira cátedra de psiquiatria foi instituida em 1881 e os Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins começaram a circular em 1905. A Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal foi criada em 1907. Para uma revisão dos compromissos de regulação moral da medicina no Brasil no século XIX, ver FREIRE-COSTA, 1979 e 1981 e MACHADO et al., 1978. No período em que se centra minha análise, assiste-se a uma intensa reconversão dos horizontes profissionais da medicina, com o notável crescimento das funções reguladoras do Estado. O Congresso Nacional dos Práticos, realizado em 1922, parece ter se voltado sobretudo para a reflexão sobre essas novas condições da carreira (cf. PEREIRA NETO, 1997).

89 Mariza Corrêa dá importantes pistas sobre isso (CORRÊA, 1982:354 e seg.) e o trabalho de NUNES (1994) apresenta alguma informação interessante. Seria necessário verificar particularmente o papel do Instituto de Pesquisas Educacionais aí sediado – como precursor da institucionalização específica da psicologia e de um atendimento psicanalítico oferecido nos órgãos de Estado – durante os anos 50 (cf. LIMA-SILVA (1983); FIGUEIREDO (1984); MANCEBO (1997) e JACO-VILELA (1997).

90 A aproximação entre Ramos e Bastide nesse 'primeiro regime' visa justamente ressaltar uma continuidade na qual ela não é habitualmente vista e na qual não era vista, aliás, à época. Embora os dois autores se citassem e compartilhassem – entre todos os sinais aqui descritos – da reverência a Nina Rodrigues como o "fundador da antropologia brasileira" (segundo Bastide), as diferenças de suas posições acadêmicas tornavam-nos bastante díspares. É significativo que Bastide nunca tenha sido aproximado formalmente da 'Escola de Nina Rodrigues' (cf. CORRÊA, 1982) e que os sociólogos paulistas dos anos 50 tenham podido se aliar a este último, enquanto se incumbiam do enterro acadêmico do recém-falecido Ramos.

91 A análise de Mariza Peirano é muito clara sobre esse ponto, aduzindo inclusive uma passagem de entrevista com Florestan Fernandes em que ele declara explicitamente ter naquela época preterido a antropologia em favor da sociologia (PEIRANO: 1982:94 e seg.).

92 Esse trabalho foi um dos muitos resultados da grande pesquisa encomendada pela UNESCO sobre as relações raciais no Brasil (comparadas com outros dois países) e que tinha sido concebida justamente por inspiração de Arthur Ramos em sua fugaz passagem pela Diretoria de Ciências Sociais em 1949 (ver especificamente CORRÊA, 1982:224; e, para referências sobre o conjunto da pesquisa, PEIRANO, 1981:99).

93 A única exceção notável ao desinteresse mútuo entre as duas disciplinas nesse período parece ser a presença na obra de Dante Moreira Leite: O Caráter Nacional Brasileiro (tese defendida na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da USP e publicada em 1954), de uma revisão das posições da escola de Cultura e Personalidade norte-americana, sobretudo dos autores da sua fase tardia, mais 'psicanalizante'. De qualquer modo, trata-se de um trabalho que se manteve bastante isolado em seu gênero e época.

94 Veja-se, por exemplo, o título significativo da obra de Florestan Fernandes, publicada inicialmente em 1964: A Integração do Negro na Sociedade de Classes (FERNANDES, 1965).

95 A Faculdade Nacional de Ciências Econômicas, da então Universidade do Brasil, e a Faculdade de Ciências Econômicas e Administração da USP tinham acabado de ser fundadas, em 1946, e o Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) foi criado dentro da Fundação Getúlio Vargas em 1951, sete anos depois da criação da própria Fundação (nota cf. sobre a institucionalização da Economia no Brasil em geral, LOUREIRO, 1992).

96 O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por exemplo, foi criado em 1951 e, em 1952, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) – cujo FUNTEC daria lugar à FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos; atualmente ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia), em 1976.

97 Há um particularmente notável atraso na institucionalização da psicologia brasileira em relação aos países metropolitanos, como se pode verificar no confronto com a análise dos casos nacionais da França e dos EUA feita por PAICHELER (1992). Para o caso brasileiro, ver LOURENÇO FILHO (1955); MANCEBO (1997) e JACÓ-VILELA et al. (1997).

98 O Instituto de Psiquiatria da UFRJ (ainda hoje conhecido como IPUB) foi criado em 1938, como resultado da transferência do Instituto de Psicopatologia do Serviço de Assistência a Psicopatas do Distrito Federal para a então Universidade do Brasil. A instituição – possivelmente em razão da maior autonomia que o seu estatuto universitário lhe conferia – sempre se caracterizou como "um centro aglutinador de diversas contribuições para a área psiquiátrica" (cf. VENANCIO, 1990:149), pelo menos em contraste com as demais instituições asilares do País.

99 Mariza Peirano observa que os cursos de especialização montados pelo antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira no Rio de Janeiro, desde 1960 (vindo ele próprio de uma formação paulista) – e que levaram à criação do Programa do Museu Nacional –, eram de 'antropologia social' e não 'cultural'. Ela se pergunta, com grande pertinência, se não teria sido mesmo necessário – naquele momento – sair de São Paulo (haut lieu da sociologia dos anos 50/60) para poder reavivar o campo disciplinar da antropologia (cf. PEIRANO, 1981:149).

100 Poderiam ser exploradas certas propriedades da trajetória familiar desse autor para melhor compreender essa característica simbólica, particularmente o papel de seu pai – um intelectual general do Exército – na própria rede de institucionalização da psicologização, como professor de 'psicologia militar' no curso de oficiais superiores e tradutor para o português de numerosos autores ligados à psicanálise, como E. Fromm e Melanie Klein.

101 Essa é uma época de reafirmação nacional do campo disciplinar da antropologia, que se reflete no estatuto igualitário que ela obtém (junto com a sociologia e a ciência política) na nova Associação dos Programas de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), criada em 1977 e logo tornada um modelo para as sociedades da área. A crise da sucessão na direção da Associação Brasileira de Antropologia na reunião de 1978 pode ser entendida provavelmente como um sintoma desse processo.

102 Ver, como "sintomas" da percepção desse fenômeno à época, o artigo do psicanalista Eduardo Mascarenhas em que a expressão aparece diretamente (MASCARENHAS, 1978) e o famoso artigo de crítica à 'alienação' pelo 'modismo psicanalítico' do sociólogo Luciano Martins, publicado em 1979 com o título de 'Geração AI-5' (MARTINS, 1979).

103 Movimento que mereceu uma intervenção crítica minha ainda no começo dos anos 80, em um texto elaborado em conjunto com a psicanalista Daniela Ropa e discutido com um grupo de psicólogas comprometidas com um serviço de 'psicologia aplicada' na favela de Acari, na periferia do Rio de Janeiro (cf. ROPA et al., 1983).

104 Como se trata de um movimento relativamente recente – e do qual participei pessoalmente, como doutorando de Gilberto Velho e participante de algumas das atividades que lhe poderiam ser associadas –, disponho ao mesmo tempo de um acervo de informações muito amplo e muito 'subjetivo'. Isso exige um esforço de objetivação reduplicado, inclusive por meio de entrevistas formais com 'colegas', o que apenas pude iniciar. Tem que ser levado até mesmo em conta o efeito de 'autoconsagração' que poderia estar sendo desencadeado na construção de uma 'genealogia' de meu próprio trabalho dentro do campo brasileiro (parafraseando assim – entre outras – a relação de Ramos com Nina Rodrigues (cf. CORRÊA, 1982: 229).

105 Além da presença maciça das imagens dos EUA como contraponto da identidade nacional brasileira desde o começo do século XX, deve ser evocado que os dois autores-chave do 'segundo regime' viveram naquele país por curtos períodos de sua infância, tendo Velho aí retornado ainda em 1971 para estudos de pós-graduação – como referido anteriormente. A categoria "modernização" aparece no título de FIGUEIRA (1985c) (publicado originalmente em 1980), por exemplo; e a dicotomia "moderno/arcaico" no título de FIGUEIRA (1986). Em Gilberto Velho, encontramos sobretudo 'mudança' e 'modernidade'.

106 É interessante ressaltar que os dois autores do 'segundo regime' vêm de famílias urbanas cariocas, expostas às grandes transformações dos anos 60/70. Gilberto Velho é explícito em sua obra sobre os efeitos da mudança de sua família do bairro mais tradicional do Grajaú para o bairro 'moderno' de Copacabana para a inspiração da problemática que construirá a partir de A Utopia Urbana (1972). Já os autores do regime do entreguerras vinham de um contexto provincial (se não propriamente rural), na passagem do século: Ramos, filho de médico na pequena cidade de Pilar (hoje Manguaba), no interior do estado de Alagoas; Bastide, nascido em Nimes mas criado em Anduze, nas Cevenas – 'porta de entrada para o famoso Désert', evoca significativamente a biógrafa PEREIRA-DE-QUEIROZ (1983:8).

107 Veja-se o título significativo da coletânea organizada por Velho em 1980: O Desafio da Cidade; que evoca o de seu primeiro livro – A Utopia Urbana (VELHO, 1973).

108 Velho foi o primeiro e único diretor da importante coleção de Antropologia de Zahar Editores (depois Jorge Zahar Editor) desde 1974, tendo-se tornado membro da Comissão Editorial da Editora da UFRJ a partir de 1990. Figueira ocupou funções de diretor de séries de Psicanálise e Psicologia nas editoras Campus e Francisco Alves, entre 1975 e 1984. Os dois organizaram 10 coletâneas de diversos autores no período em que se manteve sua interlocução (entre 1978 e 1990, grosso modo), sendo uma em conjunto (VELHO & FIGUEIRA, 1981).

109 A única 'discípula' de Ramos mencionada na literatura é Marina São Paulo de Vasconcelos (sua sucessora na Faculdade Nacional de Filosofia), que não deixou obra marcante. Bastide continuou influenciando de longe o espaço de discussão da 'cultura negra' no Brasil, mas os dois autores brasileiros mais proximamente marcados por sua influência – Maria Isaura Pereira-de-Queiroz e Renato Ortiz – não o acompanharam no interesse pela interlocução com os saberes psicológicos.

110 Figueira, em comunicação pessoal, declara ter-se dedicado, na última década, "à teoria da técnica psicanalítica, ao desenvolvimento da prática terapêutica nos termos mais práticos e concretos possíveis e ao estudo comparativo de paradigmas psicanalíticos". Velho considera – no entanto – ter deixado de investir particularmente na interlocução com a psicanálise por volta de 1985.

111 Jane Russo (que produziu uma fina análise das relações entre identificações sociais e identificações 'acadêmicas' no campo psicoterapêutico carioca dos anos 70 (cf. Russo, 1993), sugere – em comunicação pessoal – que o recurso ao "social" ou ao "cultural" poderia ter constituído estratégia de acumulação simbólica alternativa dos psicanalistas de formação não-médica, então no auge de sua luta por legitimação e ocupação do mercado.