Ensaios: subjetividade, saúde mental, sociedade

Paulo Amarante · Capítulo 2 de 17

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Ensaios: subjetividade, saúde mental, sociedade

Apresentação

 

Esta é a coletânea inaugural de textos da coleção Loucura & Civilização. Seu objetivo é o de aglutinar variadas contribuições de autores nacionais e internacionais, com artigos nas mais diversas áreas de conhecimento que compõem o campo transdisciplinar dos estudos sobre loucura, saúde mental e, mais largamente, subjetividade.

Composta por textos históricos, filosóficos, antropológicos, sociológicos, clínicos, enfim, de diferentes abordagens relacionadas à área, a coletânea propõe tornar-se um espaço de reflexão e intercâmbio de idéias e experiências.

A abertura inicia-se com um ensaio de Jorge Vasconcellos, que, partindo da aurora do pensamento filosófico na Grécia arcaica, procura estabelecer uma articulação entre as várias formas de possessão e a verdade filosófica. Uma articulação entre loucura e civilização que, nesses idos, não era separada por nenhum índice de natureza ou, mesmo, lógico.

Na seqüência, o texto de Sérgio Alarcon, cujo propósito é nos conduzir, numa semiologia sem pretensões ao diagnóstico, pelos sinais e sintomas que representam as crenças mais singelas em nossa própria bondade, para problematizá-las no sentido de, ao menos, nos dar a silhueta de um caminho, um modo de se entender e de se praticar a experiência da libertação e as formas de a trabalharmos no que somos, tanto em relação a nós mesmos quanto em relação aos que a nós, como técnicos do campo da saúde mental, são confiados por efeito da lei e dos costumes, e que tratamos genericamente como loucos.

A clínica, despida de seu exercício usual de poder, mediante o emprego das 'teorias-estratégias' encontradas em Foucault, Deleuze e Guattari, transforma-se em crítica, quanto à invenção de novos modos de ser, no texto de Alexandre Magno Teixeira de Carvalho e Paulo Amarante.

Por sua vez, Carlos Eduardo Estellita-Lins resgata as idéias de Foucault, na História da Loucura, sobre a experiência trágica, como contribuição à investigação das relações entre loucura e atividade estética.

A partir da história da análise institucional francesa, Heliana Conde nos ajuda a resgatar algumas das 'armas discursivas' contra a lógica conservadora das 'identidades e representações' que constantemente nos paralisam ante o intolerável.

André Martins, refazendo a metapsicologia das psicoses, opera importante crítica à psicanálise enquanto fundamentada na dicotomia natureza-cultura e em favor de uma nova visão da psicose.

A psicanálise prossegue no debate com Joel Birman, ao analisar as respostas dessa especialidade às questões suscitadas por uma das mais assustadoras características da ordem social moderna: a intolerância.

Luiz Fernando Dias Duarte é introduzido na discussão ao abordar a institucionalização dos saberes psicológicos no Brasil e a constituição de modelos culturais da 'pessoa' dentro das exigências das políticas públicas de um Estado nacional moderno.

No texto relacionado às novas possibilidades e invenções concernentes à clínica, Cláudia Corbisier relata e reflete sobre importantes experiências das quais ela própria tem sido protagonista e autora das mais fundamentais.

Contribuindo ainda na questão da clínica, Cristina Rauter problematiza a reabilitação psicossocial, seus 'caminhos sem saída' e suas 'linhas de fuga'.

Abílio da Costa-Rosa, a partir do conceito de modo psicossocial, nos faz refletir sobre se haveria, nas práticas ideológicas e teórico-técnicas da reforma psiquiátrica, elementos que a constituam como novo paradigma diante do antigo 'modo asilar'.

Na seqüência de textos sobre as novas experiências e práticas, Franco Rotelli complexifica a compreensão sobre os aparatos de atenção em saúde mental, ao propor a empresa social como forma de se evitar a 'automarginalização de defensores dos loucos', na qual são induzidos a cair certos discursos e ingênuas práticas de assistência.

A cidadania e o poder contratual dos usuários do campo da saúde mental em termos de estratégia política são analisados por Eduardo Mourão Vasconcelos, ao questionar se as teses dos 'pós-modernistas' seriam suficientes para se estabelecer um projeto viável de lutas não-singulares, macrossocietárias, em países do terceiro mundo.

Cecília Coimbra examina a relação entre o 'paradigma da insegurança' e o 'homem endividado' como resultado e condição para a manutenção das relações que regem o modelo neoliberal no Brasil.

Finalmente, a coletânea se completa com um documento histórico: nada mais, nada menos, que o relato da visita que Olavo Bilac, a convite de Fernandes Figueira e Afrânio Peixoto, fez ao Pavilhão Bourneville – a seção de crianças –, do Hospício Nacional de Alienados, em 1905.

Queremos registrar nossos agradecimentos à Marilene Antunes Sant'Anna, do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental (LAPs/Escola Nacional de Saúde Pública/Fundação Oswaldo Cruz) pela localização e reprodução do texto de Olavo Bilac, e a Alexandre Magno Teixeira de Carvalho, Jorge Vasconcellos e a Sérgio Alarcon, pela colaboração na seleção dos textos e organização da coletânea.