Ensaios: subjetividade, saúde mental, sociedade
5 – Criação e psicose: refazendo a metapsicologia das psicoses
5 – Criação e psicose: refazendo a
metapsicologia das psicoses
André Martins
Gostaríamos, neste texto, de apresentar algumas questões e interpretações que podem contribuir para uma maior compreensão da psicose e, com isso, levar a uma reflexão sobre nossa sociedade e sobre a neurose em geral.
Compreende-se que a neurose e a psicose têm uma origem comum,
e que esta origem está associada ao superego42 como instância psíquica que, em nós, incorpora as pressões e exigências sociais – como diz Freud, seja pela introjeção do superego dos pais, seja pela introjeção diretamente das pressões sociais. O que se quer dizer com isso? Que o indivíduo neurotiza quando, e somente quando, deixa de lado (tenha ou não consciência disso) suas realizações pessoais e íntimas para almejar as realizações que a sociedade, por intermédio dos pais, ou da mídia, ou do grupo, apresenta como 'desejáveis'. Mas o que se quer dizer com 'realizações pessoais'? Qual a diferença destas e daquelas que se realizam por meio do que a sociedade ou a família consideram como símbolo de uma vida bem-sucedida, como um ideal para o ego individual?
Freud apresenta em sua segunda tópica, como se sabe, o aparato psíquico como sendo constituído de três instâncias: ego, id e
superego. 43 "O ego é aquela parte do id que foi modificada pela influência direta do mundo externo, por intermédio do sistema
perceptual". 44 O id seria, sobretudo, inconsciente e pulsional: "o ego (...) esforça-se por substituir o princípio de prazer, que reina
irrestritamente no id, pelo princípio de realidade" 45 Ou ainda: "O ego representa o que pode ser chamado de razão e senso comum, em contraste com o id, que contém as paixões". O superego, por sua
vez, corresponde à instância responsável pela "censura moral"46 inconsciente, introjetada com base no superego dos pais e
ancestrais47 e, posteriormente, a partir da sociedade e daqueles que exercem autoridade sobre o indivíduo.
Assim, segundo Freud, o ego "deve serviços a três senhores e, conseqüentemente, é ameaçado por três perigos: o mundo externo,
a libido do id e a severidade do superego".48 O papel do ego será o de controlar as pulsões desorganizadoras provindas do id, transformando os ideais próprios do id, considerados como ideais de prazer e satisfação irrestrita, em ideais da cultura, chamados ideais de ego – em contraposição ao eu ideal, que apenas realizaria as pulsões oriundas do id. Nas palavras do próprio Freud (1988a:68): "o ego evolui da percepção para o controle das pulsões, da obediência a elas para a inibição delas. Nesta realização, grande parte é tomada pelo ideal de ego, que, em verdade, constitui parcialmente uma formação reativa contra os processos pulsionais do id."
Ainda segundo Freud, tanto neurose quanto psicose são reações a uma frustração, a uma não-realização de desejos onipotentes da infância. A diferença entre uma e outra dependeria "de o ego permanecer fiel à sua dependência do mundo externo e tentar silenciar o id", no caso da neurose; "ou ele se deixar derrotar pelo id
e, portanto, ser arrancado da realidade", no caso da psicose. 49 Pois, na neurose, "o ego entrou em conflito com o id, a serviço do
superego e da realidade",50 enquanto, na psicose, o id venceria o
ego e o superego, entrando em conflito com o mundo externo.51 Ou seja, para Freud, o ego deve dominar o id, com a ajuda do ideal de ego – isto é, dos ideais introjetados psiquicamente como um superego –, embora silenciar o id possa gerar uma neurose. Pior seria se o id vencesse a disputa, pois isso arrancaria o ego da realidade, enlouquecendo-o. É nesse sentido que Freud afirma que "para o ego, viver significa o mesmo que ser amado pelo
superego". 52
A idéia de Lacan não difere, em alguns aspectos fundamentais, dessa de Freud. Enquanto para este a psicose deriva de um não-investimento nos ideais de ego, superegóicos, para Lacan a psicose se relaciona à não-inserção do infante no registro do simbólico.
Freud apresenta a psicose como uma vitória do id sobre o ego e sobre o superego, e Lacan, analogamente, a apresenta como resultado da 'forclusão' do Nome-do-Pai, como buraco aberto no simbólico correspondendo a uma ausência da significação fálica que garantiria ao indivíduo sua inserção no simbólico, no mundo normal, de uma maneira devidamente vetorizada e limitada: a linguagem passa a falar sozinha, de modo alucinatório – é o real quem fala.
Tanto para Freud como para Lacan, a psicose se caracteriza pela ausência do controle propriamente humano, racional, cultural, que seriam dados pela castração, por sobre a natureza última e primeira do indivíduo, que assim se expressaria de modo desordenado.
Em Freud, o id expressaria, na psicose, suas pulsões e moções narcisicamente, isto é, a pulsão primeva destrutiva, pulsão de morte, assim como a pulsão sexual, regidos somente pelo princípio de prazer e não pelo princípio de realidade. O ego, que teria o papel de regular e ordenar o id, com a ajuda repressora do superego, teria sido derrotado pelo id; seria um ego fraco, pois o indivíduo não teria aceitado verdadeiramente a castração. Teria desejado permanecer com seus desejos onipotentes infantis, visando a uma satisfação sem limites, buscando o mórbido prazer – isto é, o prazer, nos termos freudianos – da ausência de excitação e exigência de trabalho por meio da autodestruição, da projeção desta como destruição, e da descarga da pulsão sexual. Teria desejado permanecer em união com a mãe, negando ao pai a castração desse desejo incestuoso, não aceitando assim a inserção social, não trocando o eu ideal (idealização majestosa do bebê introjetada neste pela idealização dos pais sobre ele) pelo ideal de eu (idealização dos ideais da cultura como desejáveis, como fontes secundárias de satisfação). Quis permanecer 'sua majestade o bebê', não abrindo mão de suas satisfações primárias; não quis sublimar suas pulsões em objetivos da cultura, da sociedade, do amor contratual e do trabalho reconhecido socialmente. Permaneceu na paixão, no pathos, no corporal, sem elevar-se ao espiritual.
Em outras palavras, prevaleceu o que é primevo; o animal homem não foi domado pelo ser racional, não aceitou ser frustrado em seus desejos impossíveis de satisfação, abandonando assim a realidade; realidade esta que lhe daria esquadro, inclusive para o seu prazer, distanciando este da autodestruição e da destruição, do fechamento narcísico. O sofrimento psicótico seria dado, portanto, pela recusa do indivíduo a aceitar o malestar cultural, tendo inconscientemente optado pela pulsão pura, pura pulsão de morte, que o destrói.
Em Lacan, ocorre o mesmo, sob outra leitura. O real, um vazio, precisa ser organizado pelo simbólico social, instituído, normalizador, pela Lei, pelo falo, pelo Nome-do-Pai, caso contrário ficará à mercê de um imaginário, desestruturado, desordenado, incompreensível, não-consensual, não-reconhecível, alucinatório. A castração insere o sujeito no simbólico, isto é, na linguagem, no significante. Sem a inserção no simbólico do bebê, este não é nada: "é o discurso que enxerta brutalmente sobre a inércia inicial do bebê
as primeiras simbolizações da situação edipiana";53 "o desenvolvimento (do ego) somente acontece na medida em que o
sujeito se integra no sistema simbólico". 54 Sem o enxerto da limitação edipiana, o imaginário não se estrutura simbolicamente, impedindo o desenvolvimento do ego, que seria o agente e o resultado da organização do imaginário simbolicamente, isto é, "em
uma certa ordem" 55 admitida socialmente ("a virtude da palavra é um funcionamento coordenado a um sistema simbólico estabelecido
previamente, típico e significativo"). 56 Sem isso, o real fala diretamente, desordenadamente, derrotando o ego e a Lei.
O real, realidade primitiva, sobrepõe-se ao "mundo exterior – o que chamamos o mundo real, e que não é nada mais que um mundo humanizado, simbolizado, feito da transcendência introduzida pelo
símbolo na realidade primitiva". 57
Tanto em Freud quanto em Lacan, há a idéia de que existe uma natureza originária do ser humano que é louca, desarrazoada, desmedida, e que a vida se torna viável devido a sua submissão à medida, à razão, ao senso comum, ao bom senso, à ordem consensual, que enquadra, limita, castra, barra, submete. Sem polícia, o id/real destrói; é preciso que ele aceite de bom grado a instância simbólica, a sublimação, ou a Lei se abaterá sobre ele através do superego, definido como "a instância judiciária de nosso
psiquismo".58 Ou a submissão fálica ou o castigo. Afinal, a única alternativa possível, nessa visão, seria muito pior: a psicose, sofrimento maior de um psiquismo que não conseguiu entender e aceitar que a vida é feita de frustrações para se tornar socialmente viável, e que desejar apenas satisfação levará à inviabilidade social e, por conseguinte, à inviabilidade do próprio indivíduo, esse 'ser social'.
Ambos opõem sociedade e indivíduo; ou melhor, opõem 'indivíduo' enquanto satisfeito socialmente (sublimatoriamente, satisfação secundária) ao aceitar as regras que lhe causam frustração e neurose – e 'indivíduo' – enquanto satisfeito narcisicamente (pulsionalmente, satisfação primária) ao desejar-se onipotente, 'sua majestade'. Ou ainda: opõem indivíduo social e indivíduo natural. Opõem cultura e natureza.
Nenhuma possibilidade além desta dicotomia natureza-cultura. A natureza é inevitável; a razão deve sobrevir para humanizá-la; mas se somente houver razão, haverá recalque e neurose; é preciso então que a razão leve em conta as paixões, não negando-as ou denegando a natureza bestial do homem, mas corrigindo-a, elevando-a, sublimando-a – transformando o que é sólido em vapor, o que é matéria e corpo em idéia (cultura). O que é imoral ou amoral, em moral. O que é destruição em conservação. O que é barbárie em civilização. Ideário Romântico, que se distingue do ideário cartesiano apenas por incluir um terceiro estágio na dialética da dicotomia natureza-cultura: uma cultura que permita a sublimação das pulsões, nocivas socialmente, que transforme os ideais de ego em ideais da cultura, ou que permite as perversões, como válvula de escape da civilização, como todo ato transgressor ainda tem a Lei como referencial e origem, não sendo, assim, nocivo ao sistema como o será o ato que não reconheça a Lei, como o ato psicótico. O preço desse ato não-perverso, insubmisso, é pago pelo próprio sujeito, pelo sofrimento que ele próprio se lhe acarretou.
A idéia é: ceda, castre-se, neurotize e amenize seu mal-estar por neurotizar mediante fantasmas ou perversões (com a ajuda institucional de seu analista), ou enlouqueça.
Mas será só assim? Serão essas as opções únicas em jogo na vida psíquica: castração ou onipotência, neurose ou psicose, enquadramento ou exclusão, normalização ou loucura? Serão inexoráveis as dicotomias? Natureza versus Cultura, Dioniso versus Apolo, Animal versus Racional? Será a única opção não-delirante o mal-estar de um compromisso entre dois lados de uma dicotomia, entre duas setas opostas de um sujeito barrado, cindido?
Parece evidente que não; e é uma pena que boa parte da psicanálise insista nesses seus dogmas, característicos da herança filosófica que a fundou, seja ela romântica ou estruturalista. A filosofia, desde a Antigüidade, e sobretudo a partir de Espinosa, no século XVII, e de Nietzsche, quebrando com a modernidade romântica e positivista, percebeu que a vida pode não ser vivenciada psiquicamente como uma dicotomia entre natureza e cultura; que o corpo não precisa submeter-se à alma, que é incorreto pensar-se a natureza miticamente como distinta da cultura, cabendo a esta tornar o homem 'humano', distingui-lo do animal, que, no esquema freudiano, corresponderia ao id, esse lado bestial do homem que inconscientemente só pensa em sexo e destruição.
Também a psicanálise produziu seus autores que não reconheceram no psiquismo uma necessidade de oposição entre a guerra e a civilização, entre uma natureza primária e uma cultura secundária. Entre esses privilegio, particularmente, Winnicott.
Será apresentada, a partir daqui, uma maneira própria (minha, individual) de compreender o psiquismo de forma não-dicotômica e de entender a etiologia psíquica desse dogma dicotômico (quando o ambiente é intrusivo – por exemplo, quando a cultura dos pais passou essa 'ideologia' através do superego, no que este se liga ao id e ao inconsciente), assim como a etiologia psíquica da crença nesse dogma (como forma de fugir do desamparo: tomando-o como inevitável, a castração como inevitável; forma de obedecer à Lei: acreditando que é inevitável o que, na verdade, se reveste do moralismo que prega que ela 'deve' ser inevitável, e promove essa 'pseudo-inevitalidade' pela repressão), me utilizando e me apropriando de Winnicott, mas não somente.
Primeiro ponto que se propõe, portanto: natureza e cultura não se opõem necessariamente. De modo que o id não se caracteriza pela pulsão de morte ou pela pulsão sexual, e isso de duas maneiras distintas:
• A pulsão primeva não é a de morte ou de destruição, mas a de
criação, expansão, o que Espinosa chamou de conatus (elan,
movimento para fora; que na física seria uma conseqüência do
spin) e que Nietzsche designou de Vontade de Potência
(entendida no sentido do conatus espinosiano, de tendência
para o aumento de sua potência de agir e, portanto, de pensar).
Tampouco é uma pulsão originariamente sexual. A pulsão
sexual apenas uma das formas – ainda que privilegiada – de
expressão desta pulsão primeva de criação, de movimento e de
expansão – realizando e vivenciando o que chamo de
"univocidade":59ao mesmo tempo de individuação e de encontro
com o outro, refazendo a união de cada um com o todo; uma
união, portanto, que não desfaz a individuação;60 não tem,
portanto, a função de descarga de energia, de morte do
indivíduo, ou de promoção da união social, o que ocorrerá
somente quando tiver uma função reativa; nos casos em que
expressa a pulsão primeva criativa, em que é, portanto, um
modo de expressão de uma univocidade, ao contrário renova as
energias, abre para a vida e para a expansão.
• Essa pulsão de expansão e criação, pulsão de afirmação da
individuação, se expressa modalmente, no mundo,
espontaneamente de uma maneira que, para os outros modos
(entes, indivíduos), é considerada como agressiva, o que não
quer dizer violenta ou destrutiva. Pode-se diferenciar, aqui, a
agressividade como forma de expressão da diferença, ou seja,
da individualidade singular no mundo, ante as demais
diferenças individuais, ou ante as igualdades sociais ou grupais;
e a violência, que é já reativa, surge apenas quando a
agressividade não é aceita ou permitida, isto é, quando o
ambiente impede, efetivamente (seja real ou imaginariamente),
a individualidade de se expressar, de ser e existir
singularmente, de expressar seu conatus.
A matriz da destrutividade, portanto, não é uma simples 'natureza' do id, associada tanto em Freud, quanto em Lacan, ao obscuro, ao negro, ao primitivo, ao não colonizado pela razão, à mulher, ao feminino, ao inefável, às Trevas, ao demoníaco; mas sim a relação com um ambiente intrusivo. Primeiramente, nos meses de vida iniciais (e mesmo no ventre, em relação às agressões de possíveis ansiedades e angústias da mãe); depois, no mundo e na vida social. Esses meses iniciais contribuirão fortemente para que o bebê adquira maior ou menor confiança no ambiente. Com confiança no ambiente, o bebê acreditará que o mundo e a vida lhe são favoráveis para que expresse seu conatus, e sua matriz de reações diante do mundo e dos acontecimentos será pouco ou nada persecutória, de cuidado e zelo para com o mundo e a vida que o acolhem, e de agressividade espontânea em suas expressões. Sem confiança no ambiente, porém, o bebê acreditará que a natureza é Treva, é ameaçadora, é destrutiva, e se preservará isolando-se do mundo, por conseguinte não se expressando – ou expressando-se pouco e temerosamente – em sua individualidade e reagindo ao mundo defensivamente, reativamente, com violência e destrutividade.
Devemos perceber que, se entendemos a realidade dessa maneira winnicottiana e espinosiana, a atribuição da destrutividade a uma pulsão primeva de morte se mostra um mero 'caminho mais fácil' para se explicar o que não se entendeu: 'é da natureza humana'; sem se entender em que sentido e em que situações a natureza humana se comporta destrutivamente. Nos termos de Espinosa, trata-se de substituir o entendimento das causas por uma imaginação: a ilusão (no sentido mesmo freudiano de realização de desejos) de, por se indignar com a violência e destrutividade da guerra ou das pessoas em geral, consolar seu desamparo dizendo-se 'é assim mesmo, é da natureza humana'. Imagina-se que a natureza é destrutiva, pois a inelutabilidade de algo que nos desagrada ameniza o sofrimento que este algo impõe. Isso, tanto em Freud quanto em Lacan – neste, ocorre o mesmo quanto à idéia de inelutabilidade da Lei; ao passo que naquele ocorre com a idéia de inelutabilidade do desamparo. Tornando um absoluto, não é preciso entender sua etiologia, suas condições de desenvolvimento, gerando a satisfação compensatória da resignação – exatamente como no funcionamento que o próprio Freud denunciara na religião.
Trata-se da mesma matriz preconceituosa e cultural, e de modo algum natural ou primevamente pulsional que considera – tal qual Freud e Lacan – a mulher como ausência, obscuridão, mistério, desordem. Ou seja, falta de razão, controle, medida, poder. Daí se associá-la à passividade e o homem à atividade; atividade fálica que submete a natureza destruindo-a. Uma visão-de-mundo, nada mais que isso. A mesma triste visão-de-mundo de nossa – não necessária, porém ainda presente – herança judaico-cristã-platônicoracio-ocidental que tem gerado, ao longo de tantos séculos, desastrosos efeitos colaterais psíquicos, sociais e ecológicos.
Em outras palavras, é mais do que evidente e, a meu ver, inconteste, que a atribuição de Freud do excesso dionisíaco ao id, e de Lacan deste mesmo excesso dionisíaco, a que chamou de real, segue, tal qual, a herança filosófico-especulativa, introjetada em seus inconscientes superegoicamente, que associa o excesso à morte do indivíduo e, portanto, contrapõe à morte a ação secundária do indivíduo, de sua medida, senso ou razão apolínea, no papel de dominar essas 'forças demoníacas'.
São essas tais forças 'demoníacas' que em toda a história, e em Freud e Lacan, são associadas à psicose, à loucura. Tomando-as como loucura, isto é, tomando-as como demoníacas, caberá à psicanálise freudiana e lacaniana não mais reprimi-las e recalcá-las como no cartesianismo, mas sublimá-las, elevá-las, aculturá-las, civilizá-las, mudar seu destino, dessexualizá-las, mudar seus ideais para os da cultura ou da Lei, ou ainda, buscar perversões que, como tais, se constituem válvulas de escape (ou descarga) que ainda têm como referencial a Lei.
Todo crime ou destruição mostra-se, assim, como reativo ao desejo de lei, ordem, controle. São reativos, isto é, provocados pelo desejo de controle, este também reativo, refratário ao fluxo da vida; introjetado superegoicamente pela herança cultural ocidental. Freud e Lacan não percebem isso; pensam a perversão e a destruição como primeiros, e refratários à lei no sentido que seriam refratários àquilo que lhes impede a satisfação. Mas não é assim. São refratários não ao que impede sua satisfação de destruir, pois esta não é nunca originária, mas são refratários sim contra o que impede sua satisfação, no sentido de expressarem-se como si-mesmos, como conatus, como individualidades primeiras que todos somos. Ou seja, são defesas primárias, não desejos primários. O desejo primário, a única pulsão primária é a pulsão de criação, de expressão, de vida como fluxo e não como cristalização.
Quer dizer, o problema não está na solução apresentada por Freud ou por Lacan ao conflito entre natureza e cultura, indivíduo e sociedade, mas sim na própria maneira de formular a questão, exposta inconscientemente como se somente houvesse essa forma de expô-la. O que vale dizer, como se as definições dos termos natureza e cultura fossem absolutas. São essas definições, e o fato de Freud e Lacan as tomarem como únicas possíveis sem sequer suspeitar que poderiam haver outras formas de defini-las, que são uma herança datada, cultural, filosófica, incorporada por eles inconscientemente. Nada mais natural do que a incorporação de traços culturais de uma época e de um povo como se não o fossem, desapercebidamente. Porém, uma vez revelado esse caráter contingente e segundo dessas definições, insistir nelas como se fossem naturais e 'científicas' passaria a ser de um dogmatismo propriamente religioso – no aspecto negativo que Freud dá ao dogma da religião –, em nada corajoso ante a aceitação do novo e do heterodoxo.
Isto é, natureza não é Treva, nem Cultura tampouco é Luz. Essas são definições do Iluminismo, do Positivismo e do Romantismo, dos quais Freud e o estruturalismo são herdeiros. Definições modernas que remontam a Platão. Porém, definições que nunca foram as únicas. Physis foi para os pré-socráticos o mesmo que Logos: este dizia da ordem 'daquela', e não de uma ordem unicamente humana que deveria domar a desordem natural e animal da qual o humano saiu e 'evoluiu'. Espinosa mantém essa mesma idéia no século de Descartes, contra este: cultura, mente, alma, espírito, razão pertencem à natureza, não a 'elevam', apenas a compreendem, estando junto a ela, e não contrapostos a ela. Nietzsche, contemporâneo a Freud, partilhou com este da visão romântica até perceber seu caráter ilusório de atribuição de uma cegueira à natureza, e de uma luz à razão, quando então separou-se dessa visão-de-mundo, mostrando que não existe, de um lado, uma luz apolínea masculina, e de outro, uma escuridão dionisíaca feminina; e mais, que o dionisíaco somente parece ser trevas e morte aos olhos do apolíneo; ou seja, somente se a dicotomia se mantiver. Caso se tenha outro olhar, outro sentimento, de um único fluxo da vida, da vontade de potência, este fluxo é o dionisíaco não-dicotômico, a própria vida, que se expressa, portanto, por traços dionisíacos e apolíneos em um mesmo sentido; de modo que, neste caso, o dionisíaco é não a morte, mas a vida, da qual o próprio apolíneo não-dicotômico é também expressão.
Assim, o 'conflito' não é mais exatamente um conflito, mas o próprio elan que constitui tanto o orgânico quanto o inorgânico; que, portanto, não se dá entre Apolo e Dioniso, homem e mulher, masculino e feminino, pulsão e sublimação, mas como o próprio conatus que a tudo constitui, a própria vontade de potência, a própria potência de vida como fluxo.
A psicose não será nunca, por conseguinte, a expressão de um puro 'real', ou de um id, caracterizados como desordem, exclusão da linguagem ou da ordem. Será, ao contrário, uma dificuldade de expressão do conatus, em razão de uma dificuldade de expressão deste em um mundo que lhe foi intrusivo, que não o respeitou, que não respeitou sua individualidade, sua diferença, que não acolheu sua agressividade, sua singularidade pré-simbólica e pré-imaginária.
A singularidade tem origem no somático, desde o ventre materno e nos primeiros anos de vida do bebê. É o apoio, a sustentação e o contato somático que integrará gradualmente o bebê em si mesmo, muito antes de este ter uma imagem especular visual dessa integração. O ego somente dá imagem ao que já foi integrado, não o contrário. Quando esse é o caso, quando a imagem especular toma o lugar do sentimento de integração de si mesmo, tal imagem terá uma função não-saudável de substituir o indivíduo (que é sem-imagem) por uma idealização egóica de si.
Psicoses e neuroses surgem daí, da identificação com imagens sociais, simbólicas ou imaginárias. A identificação com a 'ordem correta', como diz Lacan a respeito do simbólico, gera neuróticos e resignados, depressivos, cordeiros do Nome-do-Pai e seguidores de seitas, inclusive psicanalíticas. A identificação com a ordem incorreta, imaginária, gera, segundo Lacan, também neuróticos mas sobretudo psicóticos, nos quais o imaginário não se estruturará, permitindo a emergência desordenada (e não apenas "desruptiva") do temível real.
O que se afirma é que a psicose surge quando o id, definido então não mais como primevamente destrutivo (tampouco como primevamente ou propriamente sexual, embora a sexualidade seja dele uma expressão), ou seja, definido como 'si-mesmo', como conatus ou vontade de potência, não consegue se expressar num mundo por demasiado igual, padronizado, repressor. Então, esse id se revolta contra as pressões externas de um mundo neurótico. Mas não se expressa como gostaria, isto é, criativamente. Se expressa como pode, reativamente, violentamente, delirantemente, alucinatoriamente, pois desidentifica-se não só de seu ego e de seu superego, representantes da realidade externa repressora e intrusiva que introjetaram, mas desidentifica-se também de seu próprio id, que se perde em meio ao ego e ao superego que lhe fazem mal.
O que vale dizer: o surto psicótico se deve ao seu id não conseguir se expressar, de modo que o indivíduo não sabe mais quem é, confuso por estar distante de si mesmo – distante do id –, pois este está oprimido pelo superego que lhe cobra que seja como os outros 'normais', que seguem as normas; ele não quer seguir as normas, não quer seguir o que lhe ordena sua 'instância judiciária', não acredita na falácia de um simbólico apresentado como inelutável; não quer gozar com a lei, este gozo das migalhas do que restou da vida após a ditadura do simbólico; mas se defendeu dessa ditadura deixando de expressar seu conatus, diminuindo sua potência de agir e de pensar, de modo que seu ego passou a expressar não mais o seu si-mesmo, mas os recalques e traumas dessa intrusão superegóica, portanto não mais na ordem do simbólico diretamente, porém numa desordem que se remete a ele, numa reatividade. Não é de modo algum o gozo do real que aí tem lugar, como pensara Lacan, mas, ao contrário, o gozo do simbólico expresso de forma reativa, conjuratória, exorcizatória. É o simbólico que se quer exorcizar no delírio, esse simbólico neurótico que o persegue, pois que se lhe apresentou como inelutável, oprimindo-lhe a expressão de seu conatus.
O delírio não é a expressão direta do id, por natureza desordenado, constituindo a loucura; mas a loucura é a expressão desordenada e desesperada de defesa contra o superego, o ego, o simbólico. A desordem não vem do id, mas do ego e do superego, como em um vômito, em que se expele o que nos faz mal.
Na loucura, e isto não só na psicose mas também na neurose, a pessoa sente-se distante de si, e está. Confunde-se entre ego, id e superego, entre simbólico e imaginário. Está, ao contrário do que supôs Lacan, longe do real. Está em meio às trevas não do real ou do id, mas de uma imagem misturada resultante de exigências externas repressoras, recalcantes, contrárias à expansão de seu conatus, de si-mesmo. Defende-se de um ambiente intrusivo, mas não sente mais quem se defende. Não se deixa mais enganar pela mentira do simbólico, mas, contra este, não sente, muito menos sabe, quem ele é. 'Sabia' que ele era o que lhe disseram nesse simbólico da lei: o ego especular. Porém, preenchido com os 'Tu deves' do simbólico, deixou de acreditar naquela imagem, sem que tenha se sentido, se percebido de outra forma.
E por quê? Porque o ambiente intrusivo o fez se defender retirando-se, não se expandindo, não aparecendo. É por isso que toda clínica e terapia com psicóticos precisa, antes de tudo, constituir-se em um ambiente acolhedor, suficientemente bom, que o aceite, que lhe permita confiar no ambiente e nas pessoas. Isto é, que acolha sua singularidade e conseqüente agressividade, expressões que ao serem rotuladas como más ou proibidas, o fizeram se sentir não-aceito, aceito apenas na condição de não ser inteiro, de não ser si mesmo. A violência somente emerge como uma linguagem – ainda que imaginária – de se fazer ouvir, respeitar; ou seja, quando nossa diferença não está – imagináriamente ou realmente – conseguindo ser, ser-se. Quando, nos casos em que o conatus individual quase não mais se expressa, é preciso então acolher não somente a agressividade e a própria expressão do conatus, mas mesmo a violência e a expressão defensiva, delirante desse 'falso' si mesmo, desse ego desordenado e aflito.
Esse acolhimento, como se sabe, não é o mesmo que uma submissão masoquista; mas tampouco pode-se confundir com uma ordem jurídica, com uma Lei categórica. Deve ser uma compreensão, a criação de um espaço potencial para ambos – terapeuta e paciente –, uma relação porosa, de sobrevivência dos afetos e direcionamento amorosamente realizado. Sobreviver à violência, ao delírio, à agressão, aceitá-los não enquanto tais, mas interagindo com elas como formas de comunicar uma dor, a dor de não expressar a si mesmo, é uma maneira de aceitar que todos somos frágeis, que todos temos dificuldades psíquicas maiores ou menores, que todos temos um id que sonha, que é lúdico, que quer um mundo melhor; que todos, também, temos um núcleo narcísico que gostaria de se sentir acolhido, reconhecido, valorizado, amado.
A dor inconsciente da psicose vem do desejo de ser amado, confrontado a uma exigência social e superegóica – social introjetado primeiramente a partir do superego dos pais e posteriormente diretamente do social – que diz ao indivíduo que para ser amado ele precisa ser de tal e tal maneira. Que lhe dita quais são os valores 'válidos'. Como na dor da neurose. Porém, na neurose o indivíduo consegue assumir tais valores, esse ideal de ego, que o farão sofrer e recalcar quanto mais distantes estiverem de seus ideais que expressam o que o realiza em relação a si mesmo e não em relação ao que os outros esperam dele. Na psicose, o indivíduo não aceita a falsidade desses ideais sociais, no entanto, os toma como o único critério a ser preenchido para poder ser amado.
Em outras palavras, seu conatus não se enquadra na neurose do mundo; entretanto, ele desejaria aquela neurose, pois incorporou que somente daquela maneira viria a ser amado, aceito, valorizado. E na tentativa de ser bom como o ideal que ele incorporou como sendo o que os outros querem que ele seja, ao não conseguir se enquadrar nisso, surta, entra em crise, sai da realidade não para entrar no mundo do id e do prazer, mas por não conseguir estar na realidade neurótica, opressora do conatus. Mas não sai para o mundo do id. Ao contrário, sendo a impossibilidade de estar no mundo do id ao estar no mundo social o que o faz sair deste último, ele sai deste para ficar num mundo imaginário assombrado pelo simbólico, referido ao simbólico, como num envenenamento em que o simbólico está presente, porém rejeitado, não aceito. E não era mesmo para ser aceito, se não o acolhia, se não o aceitava. Ou seja, o surto se dá porque e quando o indivíduo não sente – nem ele nem seu corpo – que é possível estar na realidade, mas não ser da realidade, isto é, estar na realidade de forma própria, transformadora, se 'lixando' para o simbólico, para as leis e para o superego, criando outros valores para o mundo e para si, no mundo, encontrando nele brechas para ser si mesmo, expressar-se e viver junto ao fluxo da vida. E não sente que isso é possível porque a defesa contra o ambiente intrusivo o fez esquecer-se de si, tentar ser o que 'deveria' ser.
Muito mais do que negociar com a lei, é preciso inventar sua própria lei, suas brechas, seus encantos. Pois não há um mundo verdadeiro, um simbólico verdadeiro, uma lei inelutável, uma ordem correta, um interdito absoluto ou inquestionável, uma realidade externa única. O que existe é uma poiesis, uma criação de realidades. E perante essas realidades 'autopoieticamente' vividas, existe bom número de construções e crenças, funcionamentos platônicos, dogmáticos, que acreditam que há uma verdade, uma lei, uma barra, um mal-estar.
Quando sentimos confiança em nossa singularidade pré-simbólica e utilizamos a linguagem somente para expressá-la, e não o contrário, conseguimos viver a vida de modo a termos nossa potência de agir aumentada, a nos expandirmos, a estarmos de bem com a vida e conosco próprios. Quando, ao contrário, essa confiança falha, vivemos acreditando na falha, na falta, em um mundo de rivalidade e inveja, como no mundo lacaniano, ou de desejo de assassinato e morte, como no mundo freudiano.
Se o real existe e se constrói 'autopoieticamente', nosso id, no sentido de nosso si-mesmo, ou conatus, existe e vive no mundo, se expressa no mundo. A 'autopoiesis' é a própria expressão do id. De modo que nem psicose, nem neurose, são expressões do id ou do real. Exceto se pensamos o mundo metafisicamente dividido em trevas e luz, essência que destrói e aparência que salva, ou vice-versa, indivíduo que destrói e social que torna a vida viável, real que destrói e simbólico que torna a vida viável. Visões de mundo moralistas. O simbólico e o cultural somente se opõem ao real, ou ao id, se se os considera naquela definição dicotômica. Pelo bom e velho medo da barbárie: temos que nos submeter todos à polícia, caso contrário a barbárie, a desordem, a 'putaria', a perdição, o diabo, a loucura, advirão. Esta, a grande loucura civilizatória.
Se psicóticos e neuróticos perderam a confiança no ambiente, o que os distingue, quanto a isso, é que na neurose o indivíduo confia no ambiente civilizado, familiar, no qual o estranho causa horror – como dizia Freud falando não de um caso específico de neurose, mas do que ele considerava como normal e, mais, como único sentimento possível diante do novo –, enquanto, na psicose, o indivíduo não confia mais em ninguém, pois perdeu ou 'embaralhou' todas as referências.
A grande estratégia social é a que: ou bem neurotizamos, ou enlouquecemos. Exatamente como sugere Lacan explicitamente, ao propor que o real é um vazio, o que chamamos mundo real é o mundo simbólico, humanizado, não-animal; ou aderimos a ele, ou enlouquecemos, viramos feras bestiais, bichos, ou 'um amontoado
de carne'. 61 Ou como propõe Freud ao acreditar que ou esposamos os ideais da cultura, ou seremos narcísicos, associais, onipotentes, psicóticos. Algo como: ou somos nacionalistas, integristas, ou nossa identidade se perderá; logo, matemos o estranho, o estrangeiro, o diferente. Ou ainda: não precisamos matá-lo, basta que ele sublime sua estranheza e se converta a nossa religião, isto é, a nossa maneira de estar no mundo e de acreditar que esta é a única viável, a única aceitável.
Por isso muitos artistas são loucos. Sublimam na arte sua expressão de si mesmos (e não sua sexualidade), porque na arte pode – é previsto em lei que exista arte e perversão. E pela arte se re-ligam consigo próprios. Por isso a arte é uma via de acesso privilegiada para o contato com o psicótico: nela ele pode se sentir acolhido; ela escapa ao simbólico social que, de tanto pressionar aquela pessoa, lhe trouxe surto e continua a assombrá-la. Na arte, seus medos e inseguranças começam a se expressar, e junto com eles, pouco a pouco, se expressam seu conatus, seu ser, si-mesmo. Pela arte passa o afeto, e não o interesse, a competição ou a exploração. Nela eles não são exigidos a uma produtividade como foram antes do surto, e muitas vezes mesmo após; muitas vezes até mesmo nos estabelecimentos ditos de reabilitação, quando estes entendem essa como visando tornarem os psicóticos aptos novamente (novamente?) a entrarem numa linha de produção e exploração como a que desencadeou o próprio surto.
Uma sociedade que acredite que somente é gente o cidadão, e que somente é cidadão o consumidor, gerará cada vez mais excluídos e a estes tratará de maneira cada vez mais cruel. Mas essa sociedade é apenas mais uma versão, com uma nova moral e um novo critério de seleção, da República de Platão, que selecionava os sábios em detrimento dos não-sábios, e estes em detrimento dos estrangeiros, das mulheres e dos escravos.
A psicose é fruto de uma exclusão, de uma exclusão tão acentuada que o indivíduo se escondeu para se preservar, para tentar estar nesse mundo que lhe faz tantas exigências inalcançáveis, que lhe oferece uma singularidade de segunda, uma falsa singularidade. O simbólico, o superego, é intrusivo para todos. Mas para o psicótico foi vivido como tão intrusivo que esse passou a desejar neurotizar e não conseguiu. Neuróticos e psicóticos, para reencontrar a alegria de viver, sua potência de agir e de pensar, seu entusiasmo, sua energia, precisam desinvestir nos ideais da cultura – em que um e outro investem, cada um a seu modo –, passando, então, a investir
em ideais de si mesmo, 62 em seus sonhos, em realizações singulares, em relações criativas, positivas, que abram o indivíduo para a vida.
Pois o mundo é como o sentimos, o vivemos, o criamos e o transformamos. A pior alienação talvez não seja a alienação no imaginário, mas justamente aquela que se dá como crença no simbólico, isto é, aquela que acredita que todo objeto apenas cumpre uma função simbólica, estrutural, para quem as relações serão sempre insatisfatórias – ou, em termos substancializantes, e por isso metafísicos, para quem os objetos serão sempre insatisfatórios.
Considerar a singularidade como somente podendo se dar em uma 'humanização' estruturalmente já dada, ou como o esposamento masoquista de ideais sociais, não somente consiste em não entender a vida, como impede de ver em que consiste a psicose, julgando-a como que um castigo para uma não-inserção social resignada à lei vigente – se a perverta ou não.
O ego não só é a parte do id que se organiza, como é a parte do id que o expressa, sendo que este id não é destrutivo, mas, ao contrário, pulsante e criador. A pulsão primeva não é de morte, portanto, mas de vida, pois a vida não se opõe à morte. Vida é a transformação contínua que constitui todas as coisas. Cristalizamos – neurotizamos ou psicotizamos – quando acreditamos que devemos nos enquadrar no que imaginamos que devemos ser. Assumir o simbólico em nossa fala, como propõe Lacan, é ainda muito pouco; pois ainda é uma farsa. Não é um jogo, é uma farsa, pois quem fala assim é um sujeito, sujeitado ao que imagina ser o único jogo possível, o jogo dos significantes. Ainda é dar apenas uma imagem ao indivíduo, preencher um vazio. Fingir para o psicótico ou para o neurótico que ele expressa a si mesmo.
Somente pensa assim quem imaginou o real como um vazio, porque o imaginou como trevas, obscuridão, animalidade. Fora dessa visão-de-mundo, pode-se claramente entender e sobretudo sentir que o real é o que se expressa no imaginário quando este não acredita que o mundo tem uma verdade, ainda que seja uma verdade vazia, uma estrutura, ou um jogo de cartas marcadas, ou 'corretas'.
Ora, toda ordem é válida quando expressa o real, e nenhuma ordem o expressa privilegiadamente, muito menos pelo fato de ser oficialmente consensual. Todo indivíduo criador sabe disso, vive isso. Mais: todo indivíduo que em algum momento se sentiu inteiro no instante, de bem com a vida e consigo próprio, sabe disso, viveu isso. O simbólico ou o cultural são apenas suportes da pulsão de vida que nos gera imanentemente a cada eterno instante. Não devem, então, ser vistos imaginariamente como um só, um certo, um possível. Existem para acompanhar nossa criação individual, a criação que expressa a cada vez a singularidade originária e pré-simbólica que somos, no tempo e na vida.
Toda terapia será eficaz não tendo como referência apenas o mundo consensual atual, mas o aumento da potência de agir e do amor à vida, como um todo, por parte do próprio indivíduo. E, para isso, é preciso muita confiança, muito carinho, muita aceitação da diferença, muita ausência de preconceito, ou seja, algo muito diferente do simbólico, de qualquer instância judiciária, de qualquer imperativo categórico, de qualquer instância moral 'elevada' ou ética do sujeito barrado. Algo muito diferente do sentimento de Lacan, por exemplo, quando escreve:
Vocês devem perceber a insuficiência que a fórmula destes
analistas que dizem 'é preciso falar ao paciente a sua
linguagem' trai. Sem dúvida, aqueles que mantêm tais
proposições devem ser perdoados como todos os que não
sabem o que dizem. (...) Revela-se somente sua
condescendência, e a que distância mantemos o objeto de que
se trata, a saber, o paciente. Pois que ele está aí, bom, falemos
sua linguagem, aquela dos simples e dos idiotas. Marcar esta
distância, fazer da Linguagem um puro instrumento, uma
maneira de se fazer compreender por aqueles que não
compreendem nada, é eludir completamente o que se trata – a
realidade da palavra. (...) O doente fala? Se não distinguimos a
linguagem e a palavra, é verdade, ele fala, mas como a boneca
aperfeiçoada que abre e fecha os olhos, absorve líquido, etc.
(LACAN, 1981:44-45) [tradução minha]63
Ao contrário, uma redenção da natureza, uma reconciliação com a vida, um desinvestimento no ideal de enaltecimento da sublimação, da cultura e da civilização, que tantos afetos tristes têm gerado em todo o mundo e em tantas culturas.
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42 Cf. MARTINS (1999b).
43 Ou, numa melhor tradução: eu, isso e supereu.
44 FREUD (1988d:38).
45 Idem.
46 Ibid., p.49.
47 Ibid., p.51.
48 Ibid., p.68.
49 Ibid., p.169.
50 FREUD (1988b:168).
51 Ibid., p.170.
52 Ibid., p.70.
53 LACAN (1975:100).
54 Ibid., p.101.
55 Ibid., p.102.
56 Ibid., p.103.
57 Ibid., p.102.
58 FREUD (1988e).
59 Cf. MARTINS (1996).
60 Cf. MARTINS (1999a).
61 Herança metafísico-aristotélica: para LACAN (1981:51), a humanidade é dada pela linguagem, enquanto o psicótico é um "idiota" que perdeu "sua humanidade", assim como para Aristóteles e para os escolásticos, a forma dá forma à matéria, sem a qual seria disforme; no caso do homem, a razão (em Lacan, o simbólico, o falo, a linguagem) humaniza o corpo animal.
62 Cf. MARTINS (1999a).
63 Este trecho fica como testemunho da grande sensibilidade com que Lacan considerava aqueles que não se encaixavam em seus critérios de 'humanidade', ou mesmo animalidade, pois que uma boneca não é sequer um animal. Queremos chamar a atenção, também, para o fato de que a singularidade real, que leva a um aumento de potência de agir, distante do sadomasoquismo que Lacan propõe, toma necessariamente a linguagem como um instrumento de expressão de uma intensidade própria a cada um. A linguagem pode não ser uma servidão. A linguagem é o que, ao ser comum, deve ser transformada como mero instrumento que é, para dar conta da expressão singular pré-simbólica de cada um. Mas será que Lacan sabe o que diz, ou se trata apenas de um suposto saber? Porém, não é o caso de perdoar ou não, pois não falamos em Nome-do-Pai...