Ensaios: subjetividade, saúde mental, sociedade

Paulo Amarante · Capítulo 12 de 17 · parte 1/3

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Ensaios: subjetividade, saúde mental, sociedade

10 – À beira da brecha: uma história da análise institucional francesa nos anos 60

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

10 – À beira da brecha: uma história

da análise institucional francesa nos

anos 60

 

Heliana de Barros Conde Rodrigues

Não se pretende que essas vozes confusas sejam preferíveis a

outras e exprimam a verdade

última. Para que haja um sentido em escutá-las e em procurar o que

querem dizer é

suficiente que existam e se oponham ao que se arma contra elas

para as fazer calar (...). É

por causa dessas vozes que o tempo dos homens não toma a forma

de uma evolução, mas

precisamente a de uma história.

Foucault

O presente trabalho reconstitui a trajetória da Análise Institucional francesa até os acontecimentos de maio de 68, cujas características rupturais levaram a que Castoriadis, Lefort e Morin os alcunhassem de "a brecha". Pretende, com isso, favorecer uma apreensão do institucionalismo, por parte dos estudiosos brasileiros, mais nuançada do que a que tem sido até hoje possível, em virtude não apenas da escassa bibliografia existente em nossa língua, como do caráter 'mercadológico-tecnicista', que, por vezes, caracteriza sua transmissão.

Julgando que tal circunstância derive, ao menos em parte, da impossibilidade de apreender as relações existentes entre a gênese teórica e a gênese social dos conceitos (e dispositivos) institucionalistas, este artigo apresenta a Análise Institucional em sua emergência histórica, ou seja, na qualidade de movimento original atualizado em meio aos regimes de verdade, prática e subjetivação que configuram o panorama da intelectualidade francesa nos anos 60. Assim procedendo, visa contribuir para que conceitos-ferramenta como os de 'instituição', 'analisador', 'encomenda', 'demanda', 'transversalidade', 'subjetividade' e 'intervenção', entre outros, despontem em sua singularidade histórico-político-teórica, potencializando, desse modo, seus virtuais efeitos libertários.

 

Em favor de uma história efetiva

Os modos instituídos de introduzir o paradigma da Análise Institucional francesa tendem a apresentá-lo em duas grandes seções – Socioanálise e Esquizoanálise –, associando-as a nomes de autores – Lourau e Lapassade, no primeiro caso; Deleuze e Guattari, no segundo. Para um estudioso que pretenda efetivamente fazer história, e não metafísica da evolução e/ou moral do progresso, isto constitui problema: uma história 'das práticas' que configuram os diversos momentos temporais não pode ser a de sujeitos-autores, tomados como fontes de significações. Tais autores necessitam ser apreendidos na qualidade de elementos-e-atores de um presente, identificado a regimes de verdade, poder e subjetivação (cf. Veyne, 1982).

Visando a uma solução, aspiramos a que, estando o autor presente, como decerto estará, em nossa construção, o faça unicamente em dois registros:

• como nome-de-autor ou função-autor; isto é, modo de

funcionamento de determinados regimes que reservam certo

lugar a sujeitos possíveis, visto que, neles, "importa quem fala"

(cf. Foucault, 1991:34);

• como indício apenas 'supostamente' biográfico, pois, quando

de biografia acaso se trate, será para intensificar certo segredo:

"A história de todo mundo guarda seu segredo, porque ela não

é a história de ninguém" (Gusdorf apud Hess, 1988:14). Descortina-se, em acréscimo, um segundo problema nos modos habituais de transmissão: o próprio nome do paradigma – Análise Institucional francesa ou institucionalismo francês. Trata-se de um 'ismo' a posteriori, construção um tanto arbitrária de uma pretensa continuidade histórica, a vincular conceitos, intervenções e constituições subjetivas bastante fragmentárias, que se estendem por cerca de 35 anos. Além de efeito histórico, este 'ismo' é efeito geográfico ou geopolítico: o uso da designação 'institucionalismo francês' por muitos de nós decorre da assunção de uma supostamente realizada, ou permanentemente almejada, ruptura com nossa, por vezes, tão mortífera genealogia de professores-e-práticos-psi no Rio de Janeiro do presente. Neste sentido, não acompanha a constituição do paradigma no território francês – geográfico e temporal – de emergência. É uma 'ficção carioca', tendo também sua história particular.

Portanto, ficções, ficções... inclusive do objeto a historicizar. Por que, então, embrenhar-se, como faremos neste artigo, na tentativa de fazê-lo emergir enquanto conjunto de práticas e problematizações em meio aos movimentos da intelectualidade francesa, quando já dispomos de três bases aparentemente mais realistas, a saber:

• caracterizações de Socioanálise e Esquizoanálise, na pena de

seus epígonos, como 'correntes' distintas de um mesmo 'rio', a

Análise Institucional (cf. Barbier, 1985);

• artigos e livros de seus autores (Lourau et al., 1977; Lourau,

1979; Lapassade, 1980), ou mesmo de estudiosos latino-

americanos (Saidón & Kamkhagi, 1992; Baremblitt, 1992), em

que se reconstituem as 'fontes do' e as 'influências sobre' o

institucionalismo;

• considerações históricas de amplo escopo, formuladas pelos

representantes franceses, nas quais a gênese da Análise

Institucional remonta à liberação da ocupação alemã (1944), ao

movimento libertário espanhol (1937), à derrota dos Conselhos

Operários Alemães (1918), ao fracasso da II Internacional

(1914) ou, inclusive, aos movimentos anarquistas do século XIX

(Deleuze & Guattari, 1976; Lourau, 1978)?

Apesar de as aparentes vantagens, prescindimos da primeira base porque, abordadas enquanto comportadas 'correntes' de um 'rio' teórico e de intervenção, Socioanálise e Esquizoanálise não emergem como formas singulares, mas sim, respectivamente, como uma sociologia das organizações bastante animada (e pouco organizada), e uma psicanálise a mais, agora sim, talvez, a verdadeira 'peste'. As definições adotadas por Barbier são exemplares neste (mau) sentido:

Socioanálise: (...) o termo foi estabelecido por Lourau e

Lapassade com o sentido de designar uma intervenção feita a

pedido de uma organização-cliente, (...) numa situação criada

pela instalação de um dispositivo analisador (...). A intervenção

analítica diz respeito às estruturas sociais visíveis e sobretudo

invisíveis, às relações sociais antagônicas e veladas, de que se

compõe uma 'instituição' (...) como, por exemplo, um centro

religioso, um departamento de universidade, uma associação

de trabalhadores sociais.

Esquizoanálise: (...) na linha de pensamento de Nietzsche e

Reich, como reação a uma certa Psicanálise que estabelece o

imperialismo do Édipo, G. Deleuze e F. Guattari propõem uma

esquizoanálise cuja fundamentação está no reconhecimento do

desejo-máquina que é da ordem da produção e não da

representação (...). O objetivo da esquizoanálise é a destruição.

(Barbier, 1985:58)

Recusamos igualmente a segunda base, pois os autores citados contam histórias que induzem às ilusões retrospectivas das fontes e das influências, as quais, certamente, não se identificam ao movimento constituinte. Também são ficções, é claro, mas de determinado tipo: funcionam fixando uma 'tradição', da qual cada acontecimento seria mera expressão parcial. Quando os socioanalistas, por exemplo, refazem um caminho que abarca a psicoterapia institucional, a pedagogia institucional, a psicossociologia, a sociologia das organizações, as antipsiquiatrias inglesa e italiana, as antipedagogias de Illich e Reimer, o grupo Socialismo ou Barbárie, maio de 68 etc., cada um desses movimentos perde em singularidade: dele se subtrai toda a raridade, para transformá-lo em etapa de algo que, estando pressuposto ao fim da cadeia como destino, é colocado no começo da mesma... como origem! Enquanto antídoto, vale recordar a bela frase de René Char: "Retirei das coisas a ilusão que elas produzem para se preservar de nós e lhes deixei a parte que elas nos concedem" (apud Foucault, 1961:X).

Finalmente, a terceira base precisa ser relativizada. É certo que sempre que o discurso socioanalítico insistiu no vínculo entre a gênese teórico-conceitual e a gênese social de seus conceitos, e a esquizoanálise na imanência entre desejo e produção – afirmações que, para nós, funcionam de modo semelhante –, tendemos a desencadear novas problematizações, desprendendo-nos de nosso presente disciplinado e de nossos dóceis corpos profissionalizados. Instigados por passados ainda tão presentes – revoluções e organizações, esquerdas e direitas, fascismos, stalinismos, comunismos, esquerdismos, grupos, publicações, minorias, desvios, teorias políticas, marxismos... –, arriscamos um presente-futuro 'outro'. Mas tivemos também dificuldades. Primeiro, porque essa suposta base realista por vezes nos pareceu simples forma ampliada do funcionamento-tipo-tradição anteriormente citado. Segundo, porque pouco sabíamos sobre tudo isso, já que nossa formação 'psi' em nada ajudava, e não queríamos censurar, nos textos, o que alguns apelidariam 'coisas de francês', ou seja, aquelas enigmáticas referências à Internacional Situacionista, ao movimento 22 de março, à revista Arguments, à conferência de Bandung, à Teoria das Duas Ciências etc... etc..., tantos etc.! Não desejávamos ser espécies de 'franceses tristes', a importar acriticamente em meio ao desconhecimento ativo.

Por tudo isso, decidimos 'ficcionar' uma nova forma de história para

a Análise Institucional francesa, 125 sendo possível, agora, explicitar o sentido que atribuímos a este termo. Para tanto, lançamos mão de algumas considerações de Foucault:

Parece-me plausível fazer um trabalho de ficção dentro da

verdade, introduzir efeitos de verdade dentro de um discurso

ficcional e, de algum modo, fazer com que o discurso permita

surgir, fabrique, algo que ainda não existe, portanto ficcione

algo. Ficciona-se a história partindo de uma realidade política

que a torna verdadeira; ficciona-se uma política que ainda não

existe partindo de uma verdade histórica. (Foucault, 1980:75)

'Realidade política' que torna verdadeira essa ficção: certo diagnóstico de nosso presente como intelectuais psi no Rio de Janeiro, em ruptura, ao menos parcial, com um intolerável encargo de 'guardiães da ordem' (Coimbra, 1995), ruptura esta em que a Análise Institucional francesa tem sido ferramenta fundamental.

Contribuição da verdade histórica para ficcionar 'uma política que ainda não existe': certa história do institucionalismo francês – aquela que o faça emergir como conjunto de discursos, práticas e éticas, em meio a outros –, permitindo-nos saber o que não sabemos ou não devemos saber – o aparentemente banal, o pequeno acontecimento, as forças e inversões de forças, o teor e a datação do texto ou da intervenção – poderá incrementar a invenção de táticas e a flexibilização de estratégias em nossos enfrentamentos, no presente, com tudo aquilo que nos aparece com a intensidade do intolerável (na academia, clínica, hospício, hospital, escola, comunidade, vida cotidiana).

 

Bandung na educação

Em 1963, Lapassade publica A Entrada na Vida, abordando o tema da adolescência nas sociedades modernas. Pouco antes, Aries lançara L'enfant et la Vie Familiale sous l'Ancient Régime, resgatando um dos 'excluídos da história': contra todas as evidências, afirma que a infância não constitui um fato natural. Em 1964 será a vez dos lacanianos: com A Criança Atrasada e a Mãe, Mannoni fará, das atribulações psíquicas dos 'pequenos', efeito da estrutura edípico-familiar, responsabilizando os 'grandes'. Embora os referenciais adotados sejam muito distintos, bem como as eventuais propostas de intervenção deles derivadas, todos se inscrevem em uma configuração histórica particular, característica do período que se estende, aproximadamente, de 1955 a 1968. Tal período pode ser delimitado por duas 'marcas acontecimentais', que

denominamos, respectivamente: 'Bandung substitui Billancourt' 126 e

'A Grande Recusa'.127

Seu começo pode ser definido pela instauração de uma diferença relativa aos anos que se seguiram ao término da Segunda Guerra Mundial. Nesses últimos, os regimes de saber, poder e subjetivação que caracterizavam a intelectualidade francesa obedeciam a um eixo horizontal, a polarizar o mundo (e as posturas) entre o Leste (Moscou, o comunismo) e o Oeste (Washington, o capitalismo). Linha dura, inflexível, não permitia a abertura de territórios discursivos/práticos/éticos que não fossem os de uma 'escolha forçada'. Não se dobrando a linha, outra acabou por vir a cortá-la perpendicularmente, fazendo emergir o tema do colonialismo em todas as suas frentes, fossem elas do Leste ou do Oeste. Os corpos do dizer, fazer e subjetivar passaram, a partir de então, a polarizar-se entre o Norte e o Sul, o super e o sub, colonizadores e colonizados. Dos inúmeros destinos desse eixo vertical se compõem as histórias do período que começamos a focalizar. Seu término será marcado por uma ruptura que, apesar do rótulo de ressonâncias escatológicas – A Grande Recusa –, constitui acontecimento efêmero: não mais do que alguns meses entre um fim de março e um fim de junho de 1968 em que uma 'revolta' fragmentária e expansiva conecta territórios vários sem se totalizar em uma revolução que 'dividiria' a História em um antes e um depois.

Houve, pois, um momento em que 'Bandung substituiu Billancourt'. Ou melhor, de 'documento histórico oficial' – Grande Conferência Terceiro-Mundista –, Bandung passa a sugerir mero 'nome-síntese' para uma multiplicidade de enfrentamentos anticolonialísticos no campo da intelectualidade francesa. É desejável, por conseguinte, recordar algumas das séries que se conectam a esse 'efeito Norte-Sul'.

Desencadeando um novo olhar etnológico, dos Tristes Trópicos ao Pensamento Selvagem de Lévi-Strauss, condena-se o 'colonialismo externo' ('civilizados' versus 'selvagens') no plano do pensamento e da prática política; uma nova esquerda francesa, independente do Partido Comunista, alia-se aos nacionalistas argelinos em suas lutas por independência, denunciando, paralelamente, a colonização política em ação no prudente vanguardismo do internacionalismo proletário oficial; uma História da Loucura redigida pelo jovem filósofo Michel Foucault arqueologiza a percepção e o conhecimento que condicionam a existência do colonialismo interno exercido sobre os desarrazoados; variados estruturalismos, na pena dos que se intitulam modernos cientistas humanos, assediam, via periferia, o centro imperial das tiranias universitárias (leia-se Sorbonne); bricoleurs, como Deleuze, recorrem aos excluídos da História Oficial da disciplina filosófica – Hume, Nietzsche, Spinoza etc... –, que até então se julgava a chefe-da-orquestra de todo o saber, desafiando a monotonia identitária que a caracterizava; órgãos de imprensa recém-criados se desaparelham de tutelas partidárias na busca de uma informação que, não sendo neutra, tampouco é vulgar braço midiático para doutrinas a priori; o psicanalista Jacques Lacan, juntamente com alguns aliados, interpela o monopólio da IPA sobre a herança freudiana; uma esquerda sindical estudantil procura, mediante a instauração de novos dispositivos de funcionamento, descorporativizar e despartidarizar a União Nacional dos Estudantes Franceses; Louis Althusser, filósofo da Escola Normal Superior, veicula 'idéias claras e distintas' num processo de dúvida metódica quanto ao que a escolástica PCFense apresenta como verdadeiro pensamento de Marx; revistas de grupos a-partidários – Arguments,

128 129 Socialismo ou Barbárie – põem em questão a propriedade do epíteto 'pátria do socialismo', atribuído à União Soviética; jovens militantes buscam na festa revolucionária cubana, na Grande Marcha chinesa ou em problemáticos processos de autogestão argelina e/ou iugoslava, paradigmas renovadores para a ação política; escritores rejeitam o biográfico e o subjetivo, fazendo 'd'as coisas' sempre-já-aí a historicidade fragmentária da nova temporalidade do romance; uma onda cinematográfica põe em cena o infame das vidas comuns, desconstruindo o herói e o roteiro preestabelecidos; sindicalismos operários de nova face contrariam, timidamente que seja, o caráter geral das centrais únicas de tutela sobre os trabalhadores; grupos político-culturais de vanguarda,

como a Internacional Situacionista,130 manejam adjetivos contra todos os revisionismos sábios, singularizando-se via uma raridade autoproclamada; ex-aprendizes-construtores-de-aparelhos-de-Estado questionam a máxima de que a revolução superestrutural (cultural) deva aguardar a tomada do poder e a transformação da base econômica para ser desencadeada; a sexualidade, de preocupação pequeno-burguesa, se vê alçada ao posto de mediação possível (ou mesmo fundamental) para a repressão política; a percepção da universidade, em vez de descortinar um venerável templo do saber, faz aparecer um cursilho de formação de quadros tecnocráticos; a velha América, antes fonte unitária de todos os males, passa a se dividir em velha-branca-racista-assassina e jovem-negra-dominada-libertária etc. etc...

Julgando que esses fragmentos favoreçam a montagem de um rosto histórico no qual o documento Bandung se faça visível como monumento constituído de inúmeras séries, retornemos ao livro A Entrada na Vida, ou melhor, a sua tese fundamental: a maturidade é um engodo. Lapassade sugere que, não existindo, na modernidade, perspectiva válida de maturidade, esta consista na assunção de um 'inacabamento'. Nesta linha, as tentativas de fazer do homem um ser completo seriam fonte de renovadas alienações: o homem adulto e as formas sociais que o instituem – escola, medicina, medicina mental, carreira profissional – se vêem demolidos a golpes de martelo por este trabalho, apoiado em Nietzsche e na face marginal de pensadores como Marx, Freud, Trotsky e Heidegger.

"Se eu soubesse, não teria vindo" – diz a criança de A Guerra dos

Botões, 131 almejando ao absenteísmo ou à deserção, à saída da 'formadora-de-adultos-por-excelência'. A problematização da educação infantil não é nova entre os franceses, cientes das experiências de pedagogia moderna, que há muito propõem, em diversas partes do mundo, transformar a escola, inventando formas singulares de organização e relações. O principal ponto de apoio dos projetos de transformação pedagógica na França do pós-guerra são os trabalhos de Celestin Freinet, cujos primórdios remontam aos anos 20.

Não obstante partilhe do projeto das novas pedagogias, Freinet percebe que se limitam a uma clientela de classes privilegiadas e, tendo por objetivo a constituição de uma 'outra' escola, deseja-a 'para todos'. O acaso desempenha seu papel: ferido durante a Primeira Guerra, passa a sofrer de grave insuficiência pulmonar que o impede de ministrar as tradicionais aulas magistrais. Sendo assim, incentiva a ação e a experiência, desqualificando as intermináveis verborréias pedagógicas e o teoricismo a elas associado. Amante da natureza, conduz seus pequenos alunos de Bar-sur-Loup a passeios pelos campos que se tornam "aulas-descoberta, aulas-exploração, aulas-investigação" (Fonvieille, 1988:35). Ao mesmo tempo, lança mão de uma idéia de Paul Robin que, em fins do século XIX, utilizara a imprensa no trabalho com crianças deficientes. Generaliza esta 'imprensa escolar' capaz, a seus olhos, de fornecer reconhecimento à experiência e pensamento infantis. Esses recursos, aliados a texto e desenho livres, jornal escolar, organização de uma biblioteca de trabalho, correspondência escolar e conselho de cooperativa – onde alunos e professores elaboram semanalmente as normas da vida da classe – reduzem cada vez mais a distância entre professor e aluno.

As idéias de Freinet chegaram a ser incorporadas, embora reduzidas a meros artefatos técnicos, a reformas educacionais levadas a cabo por diversos governos franceses, o que não impediu que o velho mestre fosse alvo de violenta repressão, sendo excluído simultaneamente do Partido Comunista e do ensino público. Forçado, a partir de 1934, a fundar sua própria escola, prosseguiu exercendo influência sobre numerosos professores que, após a Segunda Guerra Mundial, se reúnem no Instituto Cooperativo da Escola Moderna (ICEM).

No início dos anos 60, emergem sérias polêmicas no interior dessa organização, opondo Freinet aos professores de Paris. Estes não acatam a tese do líder de que se deva ser obrigatoriamente professor para ter direito de expressão no movimento; tampouco aceitam, intactas, idéias pedagógicas originadas em meio rural. A influência das ciências humanas, particularmente do modelo da

psicoterapia institucional segunda versão (lacaniana), 132 é bastante forte, em especial na palavra de Oury. Também a psicossociologia,

trazida para a França via Plano Marshall, 133 assim como o recente impulso da sociologia, que volta a se afirmar no panorama universitário, instigam inúmeros participantes a intercâmbios com as novidades do campo intelectual.

Freinet, contudo, prefere 'os práticos' (sinônimo de 'os professores'), que supõe os únicos capazes de entender seu projeto. O conflito se faz inevitável e, em 1961, Fonvieille e Oury fundam um grupo exclusivamente parisiense, o Grupo de Técnicas Educativas (GTE), autodenominado defensor de uma pedagogia institucional. O grupo quer novos companheiros – psicoterapia institucional, psicossociologia, sociologia –, presumidamente aptos a auxiliá-lo a superar uma pedagogia diagnosticada como meramente empírica e algumas ideologias julgadas simultaneamente naturalistas e politicistas, por meio da teorização estrita. Os tempos são de rigor e novidades, mas, nesse tipo de tempos, conforme qual rigor e qual novo se defenda, as cisões proliferam. Em 1963, tentando talvez evitá-las, Oury e Fonvieille entram em contato com Lapassade, pedindo-lhe que leve a cabo uma análise das tensões que emergem no staff do GTE.

Fernand Oury trabalha com 'turmas de aperfeiçoamento', às quais são enviadas crianças com 'problemas psíquicos'. Muito ligado ao irmão Jean Oury, estabelece analogias entre a psicoterapia institucional por este praticada e os efeitos terapêuticos dos dispositivos cooperativos Freinet. Já Fonvieille está mais próximo dos professores que atuam junto a adolescentes, cujas atenções se voltam para o conhecimento dos 'fenômenos de grupo'.

A presença de Lapassade não traz o consenso. Muito ligado à psicossociologia, este se apaixona pelas práticas que o grupo de Fonvieille desenvolve na escola de Gennevilliers. Com isso, dá-se um encontro multiplicador entre o investigador de grupos e os praticantes de pedagogia: Lapassade ganha um terreno de pesquisa; os professores penetram no 'novo mundo' da psicossociologia. Em 1964, ocorre a cisão entre os dois grupos outrora rompidos com o movimento Freinet, que passam a reivindicar, cada um a seu modo, o título de pedagogia institucional: constituem-se formalmente o Grupo de Educação Terapêutica (GET), liderado por F. Oury, e o Grupo de Pedagogia Institucional (GPI), por Fonvieille.

O primeiro porta a imagem de 'nova geração Freinet', mas, ao contrário da família de origem, não restringe sua fronteira aos professores, dirigindo-se ao grande público. Em 1967 é lançado Vers une Pédagogie Institutionelle, de F. Oury e Vasquez, em que já se visualiza a ruptura entre psicossociologia e psicanálise, igualmente característica do percurso da psicoterapia institucional. Acerca do qualificativo 'institucional' associado a esta última, vale rememorar um comentário feito, anos mais tarde, por Lourau:

A outra tendência enfiou-se no lacanismo (...) aparentemente

institucional na medida em que (...) recusa a problemática do

sujeito individual, em proveito de uma versão estruturalista. A

estrutura, com efeito, permite combater a idéia de relações

'duais' (...). Termina em certa medida no institucional, ainda que

os limites do 'psicanalismo' e do narcisismo dos médicos

psiquiatras (...) tenham (...) preferido psicologizar o social em

vez de sociologizar o psíquico. (Lourau, 1979:18)

Se estas observações não revelam grande simpatia pelo alienismo esclarecido obtido via retorno lacaniano a Freud, não é maior a que demonstram Oury e Vasquez pelos referenciais do GPI, do qual faz parte Lourau. Referindo-se à não-diretividade rogeriana, tão cara aos psicossociólogos, disparam eles:

É possível que a não-diretividade seja uma técnica bastante

eficaz para as personalidades superegóicas. Os hiper-

civilizados, hiper-morais, os inibidos sociais ou sexuais não

podem senão apreciar a permissividade do terapeuta (...)

Porém nós nos perguntamos se em outros casos (...) não se

arrisca, sem se dar conta disso, a caminhar no sentido da

doença de seu cliente. (Oury & Vasquez, 1982:221)

O referencial exclusivamente terapêutico em que se apoiam tais argumentos – apesar de a antipsiquiatria já ser força viva na voz de ingleses e italianos – indica que a analogia estabelecida pelo GET entre psiquiatria e pedagogia é bem mais que formal: psiquiatras e professores são naturalmente legitimados em suas missões sociais de curar e educar (ou de curar educando, no último caso). Aqueles que se recusam a aceitar esse encargo sem discussão são lançados ao 'gueto da perversão' pelos que se autoproclamam dedicados ao trabalho sério: "Os 'voyeurs de grupo', que entram 'a cavalo' em uma turma e se retiram na 'ponta dos pés' deixando ao professor o cuidado de 'restabelecer a ordem' arriscar-se-iam a ser mal acolhidos" (Idem:232).

Vasquez e Oury pouco se ocupam em justificar o qualificativo institucional atribuído à própria pedagogia, denominando 'instituições' três tipos de realidades: as 'regras' que funcionam como leis da classe; o que se 'institui' no trabalho pedagógico (papéis, lugares, estatutos ou rituais); o conselho de cooperativa, instituição capaz de criar novas instituições, ou melhor, de institucionalizar o meio de vida em comum. Por vezes desponta, todavia, um sentido mais preciso, análogo ao adotado pela

psicoterapia institucional. 134 Enquanto nesta o recurso a uma concepção estrutural do inconsciente servia para desconstruir as noções de psicoterapia dual – semelhante ao encontro fenomenológico –, ou mesmo individual – aparentada às versões adaptacionistas da Psicologia do Ego –, Oury e Vasquez buscam efeito semelhante mediante a idéia de mediação:

[A pedagogia Institucional] tende a substituir a ação permanente

e a intervenção do professor por um sistema (...) de mediações

diversas, de instituições, que assegura de maneira contínua a

obrigação e a reciprocidade das trocas, dentro e fora do grupo.

(Oury & Vasquez, 1982:249)

Em que pese esta aparente confiança nos efeitos das mediações (instituições), Oury e Vasquez pensam que um problema permanece sem solução: de que modo suas classes, dotadas de tal conjunto de meios favorecedores do aprendizado e do desenvolvimento afetivo, se irão inserir na sociedade adulta? (Idem:245). Com certeza Lapassade, recorrendo a seu ensaio sobre o 'inacabamento do homem', já seria capaz de diagnosticar, nessa pergunta, a presença de um pressuposto 'adultista' acerca da educação. Porque da mesma maneira que as forças de despsiquiatrização são minimizadas pela psicoterapia institucional, Oury e Vasquez ignoram ativamente as de desescolarização. Em suma, ao alienismo ou tratamento moral esclarecidos da psicoterapia institucional correspondem, quase ponto a ponto, o pedagogismo ou moralismo esclarecidos da pedagogia institucional do GET.

Estará a tendência ligada ao GPI mais apta a promover um Bandung educativo, a 'descolonizar' os jovens? Suas influências teórico-políticas são múltiplas: Lobrot prefere Rogers; Lapassade, Kurt Lewin e as experiências autogestionárias espanhola, iugoslava e argelina; Fonvieille e Lourau, a autogestão e o conselho tipo Freinet, ampliado à totalidade das atividade da classe. Todos se sentem atraídos pela psicossociologia e estão próximos dos membros da Association pour la Recherche et l'Intervention Psychosociologique (ARIP). Igualmente os seduz a reflexão promovida por Socialismo ou Barbárie em torno da autogestão, conselhos operários e crítica da burocracia. Alguns freqüentam os seminários de Lacan, outros lêem Strauss, Jackobson e/ou Barthes com paixão; outros ainda estão em contato com o marxismo estruturalista de Althusser, sem deixar, por isso, de manter ligações com os ex-integrantes da revista Arguments, Lefebvre principalmente.

O modo de funcionamento é o da pesquisa-ação: o GPI reúne-se semanalmente para debater os fenômenos observados nas turmas dos professores, freqüentadas pelos psicossociólogos. Paralelamente, alguns alunos do secundário comparecem às reuniões, dando prosseguimento à análise do processo pedagógico. Na época, estão sendo implantadas as primeiras experiências de prolongamento da escolarização obrigatória até 16 anos e diversos integrantes do GPI nelas estão envolvidos. Fonvieille, por exemplo, é encarregado de uma turma experimental com alunos de 14-15 anos marcados por uma seqüência de fracassos escolares. Instaura o dispositivo Conselho, com uma importante modificação: enquanto no modelo clássico as reuniões servem para discutir e avaliar as atividades da semana anterior e propor as da seguinte, dentro de um enquadre preestabelecido (horários, programas...), no Conselho-modelo-GPI se gestionam programas, horários, métodos, objetivos, ou melhor, o conjunto das questões do grupo-classe. A idéia é que tudo se possa dizer e propor, transformando o conselho em autogestão pedagógica.

No mesmo período, Lourau é professor no liceu de Aire-sur-l'Adour, experiência sobre a qual comentou mais tarde:

...aquilo que se chama o acaso quis que eu mergulhasse

bruscamente no movimento (...) que agitava (...) uma fina franja

de pedagogos influenciados pelos últimos trabalhos nas

ciências humanas, psicologia, psicossociologia, psicoterapia

institucional, sociologia. No sindicalismo estudantil que tentava

seu segundo sopro depois do período de falsa saúde que

conhecera durante a Guerra da Argélia, em classes primárias

nos arredores parisienses, falava-se em pedagogia de grupo,

em funcionamento democrático das instituições educativas,

não-diretivismo, autogestão pedagógica... (Lourau, 1979:88) Tais considerações, referindo-se a uma multiplicidade de tendências, demonstram que as diferenças de concepção entre os dois grupos de pedagogia institucional estão ainda em gestação, mesmo após a separação entre GET e GPI. Evidentemente já se instaura a polêmica psicossociologia – que pode remeter a dialética, sujeito, não-diretividade, T-Group lewiniano – versus estruturalismo – capaz de conotar psicanálise, descentração, primazia do significante, reformismo-adultismo. No entanto, ambos os movimentos sugerem 'crítica da tradição e ruptura com as ortodoxias', estando geralmente misturados nas práticas dos agentes e em eventuais teorizações.

Sendo assim, em 1964, ano da fundação do GPI, o que preocupa seus integrantes é menos o estruturalismo do que a incômoda distinção conceitual entre instituições internas e externas. Conscientes de sua capacidade para administrar as primeiras – métodos, objetivos, horários, programas –, suspeitam que isso talvez em nada abale as últimas – a Educação Nacional com seus regulamentos e hierarquias. Diagnosticando como burocrático o sistema externo vigente e sonhando transformá-lo, os GPIstas oscilam entre algumas utopias e certo grau de conformismo.

Na vertente utópica ativa situa-se a aspiração de, por meio da transformação das instituições internas à classe, atingir a transformação das externas. É nessa linha de raciocínio que Lourau introduz, em um de seus trabalhos sobre pedagogia, uma citação do velho Binet:

As pessoas mais sensíveis ao hipnotismo – ou seja, à sugestão

autoritária – não são (...) as mulheres nervosas, mas os antigos

militares, os antigos empregados de administração, numa

palavra, todos aqueles que contraíram o hábito da disciplina e

da obediência passiva. (apud Lourau, 1979:85)

Na vertente utópica analítica está o desejo de Fonvieille de que "a análise do funcionamento do grupo deva desembocar sobre uma tomada de consciência da extensão do trabalho interno à dimensão das instituições da sociedade global" (apud Hess & Savoye, 1993:24).

Esses 'utopismos' pouco resistem à crítica: mudar o externo mediante a instauração do interno, ou da tomada de consciência do externo via interno, assemelha-se demasiado à máxima 'mudar o homem a fim de transformar a sociedade' para que seja projeto facilmente admissível nestes 'tempos de suspeita', em que se buscam as estruturas que nos constituem ou as funções reprodutoras que exercemos queiramos ou não, saibamos ou não. Sendo assim, em 1969, quando Lourau defende sua tese de estado, já aborda o projeto da pedagogia institucional com base em uma espécie de conformismo lúcido: "A autogestão da tarefa e a análise permanente da autogestão 'dentro do sistema de referência da instituição': tal é o projeto que se propõe a pedagogia institucional" (Lourau, 1975:264).

Estará, portanto, o termo 'análise' confinado às instituições internas, permanecendo as externas como limites a priori impostos a qualquer tipo de ação? Se esse fosse o caso, à definição 'positiva' de instituição interna – dispositivo organizativo – se estaria apenas acrescentando uma definição 'negativa' – o limite, a regra, a lei. As presumidas vantagens analíticas permaneceriam em descompasso com as possibilidades de intervenção concreta, apontando a algo como "eu 'sei', mas mesmo assim 'não é' possível" – uma pirueta conceitual, em suma. No que tange à gênese da Análise Institucional, todavia, Lourau não nos fala em piruetas, mas de um "'salto mortal' executado por Lapassade ao compreender que era necessário superar a sedução da psicologia dos pequenos grupos, desmascarando a 'dimensão institucional', quer dizer, toda a política reprimida pela ideologia das boas relações sociais" (Lourau et al., 1977:1). A descrição do Gran Circo onde se realiza essa arriscada acrobacia dá continuidade a nossa exposição.

 

Um acrobata no gran circo psicossociológico Conforme assinalamos, as idéias psicossociológicas penetram na França com maior intensidade no pós-guerra. De volta ao país após visitas aos EUA, diferentes equipes fundam associações de pesquisa, formação e intervenção. A trajetória de uma delas, a ARIP, ajuda a precisar a forma como a psicossociologia americana foi apropriada pelos franceses. Quando da fundação, seus integrantes, geralmente empregados em organismos de consultoria e formação de executivos, desejam praticar T-Group, psicodrama, sociometria e grupos de encontro em empresas (privadas e/ou estatais). No começo dos 60, a ARIP ainda chega a realizar uma intervenção psicossociológica ampla numa empresa, mas, a partir de então, a organização/condução de seminários formativos passa a representar a principal atividade.

Os seminários derivados do grupo T, cada vez mais marcados

pelas contribuições da Psicanálise, eram objeto de discussões

severas e distintas publicações. Esta evolução se ligou também

à clientela (...), onde a proporção de professores, de

trabalhadores sociais, de padres e religiosos, de psiquiatras e

psicoterapeutas aumentou consideravelmente. (Dubost & Lévy,

1981:55)

Acerca dos determinantes da mudança, Dubost e Lévy aventam variadas hipóteses: alternativas teórico-políticas adotadas (orientação mais clínica que experimental, atitude crítica frente à tendência de desenvolvimento organizacional)', recusa de encomendas baseadas em mera prospecção comercial; participação crescente no ensino e pesquisa universitários, reduzindo o tempo dedicado às intervenções etc. Optam, porém, por um condicionante primordial: a dissolução do clima de consenso nacional característico do imediato pós-guerra, somado a eventualidades políticas específicas da França dos anos 50-60:

a Guerra da Argélia (...), o fato de que certas bases ideológicas

discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial

coincidiam com as do movimento estudantil que explodiu em 68

(a tendência que a maioria seguiu no seio da UNEF até o ano

de 65 em Paris chamava a si própria de "psicossociológica"), ou

com as de certos meios intelectuais (veja-se os últimos anos da

revista Socialismo ou Barbárie, os números especiais de

Arguments acerca da autogestão, psicossociologia e política,

etc...). (Idem:56)

Do privilégio assumido, no seio da psicossociologia, da formação sobre a intervenção; dos novos meios onde ela ganha público – pedagogia, psiquiatria, movimentos de trabalhadores sociais, religiosos progressistas; e, em especial, da tendência psicossociológica da UNEF (Esquerda Sindical) se compõe o trapézio no qual Lapassade praticará o 'salto mortal' entre a 'psicologia dos pequenos grupos' e a incipiente Análise Institucional.

Entre 1955 e 1960, Lapassade aproximou-se da direção nacional da UNEF. Conhecido por seus interesses político-pedagógicos, também "militava em favor da psicossociologia" (Lapassade, 1981:126) e estava em contato com os grupos de estudo dos alunos de psicologia da Sorbonne. De tudo isso nasceu, em 1962, o projeto de um seminário de formação em dinâmica de grupo para os futuros psicólogos e os dirigentes da organização estudantil.

Pouco antes desse trabalho, Lapassade participa de um colóquio sobre Rousseau, no qual defende que a estrutura do encontro seja objeto de discussão em assembléia geral. A franca hostilidade dos organizadores à proposta indica que nem todos os (bons) selvagens pensam do mesmo modo. Essas diferenças já haviam sido teorizadas, em artigo datado de 1959 (Função pedagógica do T-Group), no qual Lapassade ressalta a presença de uma 'inversão' que, nos 'grupos de formação', privilegia o primeiro termo em detrimento do último, fazendo com que a psicossociologia habitual tome como objetivo principal, e logo único, o desenvolvimento das técnicas de grupo. Pontua, então, que na qualidade de 'técnica' o grupo não é senão um instrumento entre tantos outros, incapaz, por si só, de questionar as bases da pedagogia tradicional. Para usar a linguagem de Rousseau, a técnica grupal não instaura necessariamente uma Educação Negativa:

Quaisquer que sejam as variáveis assim introduzidas no nível

dos objetivos, a situação é tal que um 'grupo' de participantes

encontra um monitor que sabe que é monitor, sendo assim

percebido pelos outros. A situação no início é definida como

uma relação entre 'saber' e 'não saber'. Isto pode e deve ser em

seguida contestado, mas esta contestação é a própria vida do

grupo. (Lapassade, 1979:77)

Com base nesta reflexão, Lapassade conclui que o T-Group tradicional não desafia o diretivismo pedagógico: a instituição do saber mantém-se como pressuposto positivo e não analisado de toda a situação. Por mais que o psicossociólogo se autoproclame não-diretivo, seu lugar está garantido porque supostamente sabe o que os outros vêm aprender, não sendo esta diretiva problematizada.

Quando a UNEF solicitara o seminário, havia fixado dois objetivos: restabelecer o diálogo entre os quadros e a base; transformar os métodos de formação, vistos como excessivamente burocráticos. Com vistas ao desenvolvimento do trabalho, Lapassade recorrera a várias associações de psicólogos, a fim de organizar um staff interventor. Em face da recusa destas, fora forçado a compô-lo pela reunião de pessoas isoladas e, já durante o primeiro encontro, entra em conflito com as diretrizes de sua (?!) equipe.

Enquanto meus colegas psicossociólogos se inscreviam na

direção personalista e afetivista (...), eu insistia, pelo contrário,

na dimensão intervencionista da situação. Além disso, o

'cliente', colocado em situação de seminário, não demandava

menos que se conseguisse dissimular a instituição nos grupos.

(Lapassade, 1981:127)

O modo de ação proposto por Lapassade tinha por meta a percepção, pelos participantes, de que a compreensão exclusiva de questões internas ao grupo – afetos, lideranças etc. – ocultava as condições de instauração do grupo como tal. A análise destas exigiria responder a perguntas tais como: quem decidiu sobre a formação?; onde, quando e como?; por quê? – passíveis de exibir a presença da instituição no grupo.

Embora esse modo de ação mostre avanços se comparado à psicossociologia ortodoxa – sugerindo uma autogestão generalizada –, o conceito de instituição manejado está afetado de uma espécie de regressão teórica quando se recorda o artigo de 1959. Em vez de aparecer como 'forma social' – o saber, o diretivismo ou a pedagogia –, a instituição é identificada à UNEF ou à entidade de psicossociologia responsável pela organização do seminário, à maneira das tão ambíguas instituições externas.

Nessa mesma linha, vale recordar a participação de Lapassade no colóquio Le psychossociologique dans la cité (dez./62), em que sugere instituir práticas de formação conduzidas por sociólogos formados em análise institucional, conferindo à expressão direitos de originalidade na cidade psicossociológica. No ano seguinte, porém, em artigo publicado em Recherches Unniversitaires (órgão da MNEF), aparenta retomar o velho sentido de instituição manejada por psicoterapeutas e/ou pedagogos:

Chamo sistema institucional interno a essa estrutura das

práticas [seminários de formação psicossociológica] (...) Porém,

além da estrutura internadas práticas, deve-se compreendê-las

em relação a uma 'instituição externa' (...): ou bem a associação

de psicossociólogos (...) ou bem a organização 'cliente' que

recorreu aos psicossociólogos para animar as práticas de

formação. (Lapassade, 1979a:92)

Não obstante tantas hesitações, é difícil negar que Lapassade seja um psicossociólogo crítico ou, melhor dizendo, um crítico interno da psicossociologia: recorre, para fustigá-la, à denúncia do que mantém como enquadre incontestável. Sabendo-se que um dia Castel apelidará psicanalismo ao que a psicanálise nos custa – sombra que lança, dimensão que oculta –, não seria exagero dizer que Lapassade define o psicossociologismo. Suas objeções distinguem-se das críticas externas, oriundas dos marxistas partidários, que reduzem a psicossociologia a lance adicional na monótona história de uma interminável Guerra Fria, em que a modernização e o Plano Marshall constituem simples aggiornamento dos modos imperialistas de incrementar a exploração do proletariado.

Conquanto admire a temática das mediações e vá fazer da 'Crítica da Razão Dialética' base de apoio para a conclusão de 'Grupos, organizações e instituições', Lapassade tampouco supõe, como Sartre, que baste arrancar a psicossociologia das mãos dos capitalistas e voltá-la contra eles. Apesar de freqüentemente confundir organizações e instituições – seu 'salto mortal' parece sustentado por uma cama elástica que o reimpulsiona a cada queda –, jamais deixa de frisar, com base no artigo de 1959, que nem tudo é técnica e transparência relacional na modernização grupalista. Se o grupo é um nível possível, e mesmo desejável, de intervenção, há que trazer à luz suas condições – organizacionais e institucionais – de existência. Pois ele não constitui uma nova natureza espontânea e liberta pelo simples fato de lhe havermos subtraído o líder diretivo, substituído pelo monitor rogeriano, lewiniano, moreniano, psicanalítico ou alegadamente institucional.

Nos livros e artigos que virá a publicar nos anos 70, Lapassade escolherá um movimento como sua efetiva acrobacia, assim resumindo o nascimento da Análise Institucional:

Cheguei à análise institucional (...) refletindo simultaneamente

sobre a forma seminário (que é o instituído da formação) e

sobre a instituição (no sentido ativo do termo) da relação de

formação (enquanto separa os formadores, postos em situação

de 'adultos' e os formandos, assimilados a 'crianças' que

'devem formar-se'...). A análise institucional nascerá destas

perguntas formuladas a propósito dos grupos T: a) que ocorre

com a forma (o instituído) da formação?; b) que significa o fato

de instituir a formação? Logo: que é a instituição

(instituinte/instituído) da formação? (Lapassade, 1981:165)

Para estabelecer essa síntese, reatualiza o artigo sobre o T-Group, tornando a conceituar instituição como forma ativamente engendrada: separação entre os que dirigem e os que executam, dotando os primeiros de um monopólio de legitimidade que os últimos devem alcançar com vistas a um reconhecimento institucional. Essa definição, que não mais deixará de caracterizar a análise institucional conforme entendida pela tendência aglutinada em torno do GPI, é enriquecida por uma dupla de conceitos, 'instituinte' e 'instituído', em relação dialética.

Referimo-nos anteriormente a variadas aproximações com o grupo Socialismo ou Barbárie: a ele se chegam a Esquerda Sindical da UNEF, alguns psicossociólogos da ARIP, o Grupo de Pedagogia Institucional. No período 1964-1965, Cornelius Castoriadis desenvolve uma análise da 'instituição do capitalismo', fundamentada em alguns conceitos-chave: imaginário radical; auto-instituição do social-histórico; instituinte, instituído e união/ tensão entre instituinte e instituído. Principiam então a se desfazer as confusões entre o sentido 'ativo' – tudo é sócio-historicamente instituído – e o corrente ou 'reativo' de instituição – organizações ou estabelecimentos reformáveis pela introdução de novos dispositivos. Em meados dos anos 60, Lobrot, Lourau e Lapassade freqüentam Socialismo ou Barbárie, antes pouco atento a problemas distintos dos explicitamente ligados ao projeto revolucionário do movimento operário. Dessa aproximação, realizada sob a égide da questão pedagógica, somada às atenções do GPI pelos movimentos anti (desescolarização, deserção, antipsiquiatria) se constitui, no plano teórico, a Análise Institucional 'vertente socioanalítica' (ou 'vertente Lapassade'), conforme esclarece Dubost:

...a análise institucional no sentido de Georges Lapassade é

filha não tanto da terapêutica do mesmo nome quanto das lutas

da UNEF nos meios universitários das ciências humanas (...),

assim como da análise crítica das concepções lewinianas e

rogerianas, do trabalho de Castoriadis e dos sócio bárbaros, de

uma suficiente tomada de distância quanto à demanda social de

psicossociologia e das estruturas acadêmicas. (apud

Lapassade, 1980:34-35)

Em 1966 será publicado Grupos, Organizações e Instituições. Engana-se quem, impressionado pelo título, supõe que todas as questões teóricas estarão ali resolvidas. O livro explora três níveis ou instâncias (grupal, organizacional e institucional) em capítulos distintos, finalizando com uma tentativa de articulá-los em uma dialética que deve tudo ao Sartre de a Crítica. Ao tratar grupo, organização e instituição separadamente, Lapassade dá a impressão de puramente acrescentar a última aos dois primeiros, já tão bem (re)conhecidos pela psicossociologia e sociologia das organizações. Quando define instituições, entende-as seja como "grupos sociais oficiais, as empresas, as escolas, os sindicatos" – lembrando a equivalência entre instituição e estabelecimento –, seja como "sistemas de regras que determinam a vida desses grupos" (Lapassade, 1977:193) – restringindo-se ao instituído de Castoriadis. Recorrendo aos psicoterapeutas institucionais, lembra que "a instituição também existe ao nível do inconsciente do grupo" e, lançando mão de Strauss, acrescenta que "naquilo que cada indivíduo vive, está presente a estrutura universal da 'instituição' parentesco" (Idem:195). Com tantas considerações ad hoc, a questão dos 'níveis' fica bastante relativizada, visto que "a experiência do grupo é o elemento vivido de uma ordem estruturante, institucional, que traduz, no grupo, a organização da sociedade e principalmente a sua organização política, a da produção". No entanto, a frase prossegue e instaura novamente a dúvida: "Qual é a gênese desse inconsciente social? Ela implica certas repressões sociais, tais como a da censura burocrática com relação à palavra do grupo" (Idem:195-196).

Os fragmentos transcritos dão a medida dos problemas conceituais de Lapassade. Psicossociólogo crítico, suspeita da espontaneidade vivida, da não-diretividade sem fronteiras de uma presumida dinâmica natural. Todavia, ainda psicossociólogo, acaba, ao menos aparentemente, por remeter a instauração do institucional à repressão de uma palavra grupal originariamente livre. Em 1969, Lourau trará à luz os dilemas com que se defrontava o companheiro ao apelar ao corpo da dialética sartreana como recurso integrador: "aqui (...), as instituições são a 'negatividade' em ação nos grupos. Mas não será isso postular grupos sem instituições e uma palavra social não reprimida, uma "palavra plena" (...)?" (Lourau, 1975:225). No modelo sartreano, o 'grupo em fusão' se destaca da 'série' pelo juramento, que lhe confere uma organização. Com base nesta, desliza-se para a fraternidade-terror, redundando em uma instituição enrijecida, que nega os primeiros estádios e se converte, novamente, na serialidade característica do prático-inerte. Essa é, porém, mais história épica que seqüência temporal efetiva. Para Lourau, falta à abordagem sartreana o recurso que propiciaria uma verdadeira 'análise institucional dos grupos': um conhecimento obtido pela análise 'em situação', isto é, uma dimensão intervencionista. É exatamente dessa proposta que se aproxima, desde 1959/1960, a análise institucional dos grupos e da formação conforme desenvolvida por Lapassade. Este, em todos os escritos e práticas anteriormente relatados, empenha-se em instaurar dispositivos capazes de viabilizar uma análise coletiva, incluindo tanto o grupo como os coordenadores. Nas palavras de Lourau, apesar dos percalços conceituais, tal análise se deseja evidenciadora de que, na situação cotidiana, em que "os grupos se formam, crescem, renovam-se, diminuem, morrem", as operações em pauta "nada têm a ver com a gênese ideal de Sartre. O que existe antes do grupo (...) não é a série, mas outros grupos e instituições" (Idem:259).

Em 1973 Lapassade escreverá um artigo para a revista Pour, revisando a problemática dos anos 60. Nele propõe o abandono da expressão "três níveis", advertido dos 'determinantes institucionais' da antiga conceituação:

Isto facilitou, sobretudo na prática e sobre o mercado da

psicossociologia, uma recuperação sem risco. Acrescenta-se a

etapa institucional, em geral sob a forma de conferências, à

etapa do grupo, que continua sendo a base das práticas e da

ideologia dominante da formação. Há, pois, que insistir (...)

sobre o fato de que a instituição atravessa todos os demais

'níveis' da análise. (Lapassade, 1977a:65)

A ênfase exclusiva na análise do grupo pelo próprio grupo é diagnosticada como podendo, na melhor das hipóteses, ocultar questões relativas à organização da formação (gestão da programação; relação entre os grupos e as organizações promotoras; modelo organizativo dessas organizações); na pior, como arriscando-se a cair em mera análise psicológica dos indivíduos que compõem o grupo e suas relações interpessoais. Não basta, contudo, incorporar a análise da organização (da formação) à dos grupos. Para ser compreendida, a organização exige que se considere a instituição da formação, somente acessível quando se apreende, em situação, que para haver grupo, sob certos modos de organização, é imprescindível pressupor: uma divisão e quantificação do tempo social (instituição do tempo); uma divisão do saber, distinguindo o que pode ser descoberto pela experiência e o que deve ser transmitido, o que é pertinente ao campo dos grupos e o que não é pertinente (instituição do saber, instituição das disciplinas); uma divisão social do trabalho e do poder associado (instituição da separação entre trabalho manual e intelectual); uma referência generalizada à escola, definida como lugar exclusivo da formação, separado das outras práticas sociais (instituição escola ou pedagogia); uma relação de clientela entre formadores e formados (instituição do mercado, dos serviços, do dinheiro) etc...

O institucional não é, pois, nível adicionável ao grupo ou à organização, antes puras naturezas ou funcionalidades. Nada é natural nos grupos ou organizações, nada é enquadre inquestionável. O grupo não é a instância das instituições internas, modificáveis à vontade, dentro de um setting de instituições externas resistentes e/ou repressivas. Não existe puro dentro e puro fora do grupal ou organizacional. A análise institucional não se confunde com a dialética sartreana – história épica de uma catástrofe serializante –, tampouco com a objetivação cristalizante da razão analítico-positivista. A ordem institucional, sempre sócio-histórica, que atravessa grupos e organizações, pode e deve ser trazida à luz por uma análise realizada em situação. Daí sua necessária dimensão intervencionista que, se não exclui o trabalho psicossociológico, propõe que este seja permeável a todas as (des)institucionalizações / desnaturalizações.

Em Lapassade, conseqüentemente, mesmo a psicossociologia termina por ser conceituada/analisada como instituição. Para os agentes, grupos e organizações que a produzem/reproduzem ao modo da instauração/ instrumentação de um mandato, as idéias deste desrespeitoso acrobata dificilmente são bem-recebidas. Psicossociólogo em tempo inteiro, recusa instalar-se nas plagas tranqüilas da idade adulta, da carreira e dos especialismos naturalizados. Para usar uma noção política, é um entrista, conforme sugeria na conclusão de A Entrada na Vida:

O entrismo é, no sentido estrito, uma estratégia de oposição

interna definida por uma corrente do movimento trotskista: o

militante entra num partido já constituído e que não é o seu,

para converter este partido ao marxismo verdadeiro (...) O

mesmo conceito, porém, pode ser igualmente utilizado para

definir comportamentos que visem ao conjunto das instituições

(...) Este modelo estratégico é (...) o do estrangeiro-participante

(...) Sob a máscara dos estatutos e dos papéis o homem

entrista "milita" por um novo destino. (Lapassade, 1975:325-

326)

 

Um indisciplinado contrabandista

Os que apreciam a ordem tampouco considerariam necessária a existência de um intelectual como Guattari que, implicado em permanente nomadismo e repetida estrangereidade, pouco se ajusta a formas preestabelecidas. Para falar dele há que penetrar num labirinto de percursos que não compõem uma carreira, de tal modo escapa por todos os lados ao que o poderia haver fixado a

alguma espécie de mesmo. 135

No começo dos anos 50 está na Clínica de La Borde, estabelecimento de resistência à colonização do psicótico e à

colonização argelina. Como Saint Alban136 de outros tempos, é laboratório de experimentação de uma nova psiquiatria e front de luta (lugar de passagem e esconderijo para militantes clandestinos pela luta de libertação da Argélia). Muito cedo, esse "contrabandista" – como o chama J. Oury – freqüenta o hospital de Saint Anne para ouvir as palavras do então artífice do desafio à ortodoxia psicanalítica, Jacques Lacan. De uma estranha conexão de séries em que se misturam, em proporções variadas, os compromissos do PCF com o colonialismo francês na Argélia e com o soviético, em Budapeste; um fantasma de Stalin dificilmente exorcizável, onde a condenação de 1949 à psicanálise continua a compor a cena; a crescente influência de Lacan junto aos que batalham por uma nova-esquerda psi, liberada das ressonâncias da

Continuar: parte 2 de 3