Fenômenos de Telecinesia em Relação aos Acontecimentos de Morte
Quinta categoria
Música transcendental no leito de morte
Os fatos nos quais a música transcendental se realiza no leito
de morte e, mais raramente, nas crises de doença grave, são os mais numerosos; constituem, por conseqüência, a forma mais conhecida das manifestações de que nos ocupamos.
Encontram-se exemplos nas tradições dos povos, na literatura
greco-romana, nas crônicas da Idade Média e sobretudo nas coleções das vidas dos santos: nos conventos, deles se conserva a lembrança com ciumenta veneração.
Não obstante, esse muito interessante assunto tem sido até
aqui esquecido pelas pessoas dadas às pesquisas metapsíquicas; os livros e as revistas do gênero narram bem poucos casos; limitam-se geralmente, quando deles se ocupam, a tocar-lhes de modo sumário e a tal ponto que não é possível tomá-los em consideração.
É deplorável isso, porque muitos fatos, que por essa razão
somos obrigados a eliminar, se revestiriam de considerável valor teórico.
Os próprios jornais políticos, por vezes, se interessam pelo
assunto. Ultimamente, o Daily Mail registrou um caso; para logo a redação do jornal recebeu muitas cartas nas quais se assinala-vam casos análogos, mas sempre científicos.
Entre os correspondentes do jornal londrino houve o Sr. Sear-
le, professor de Física na Universidade de Cambridge; infeliz-mente, ele também fala do modo sumário que se segue:
“São mais freqüentes do que geralmente se crêem, os ca-
sos análogos aos do Sr. Drew.
Não mais tarde que sábado último, um cura me informou
de que havia assistido uma criança moribunda, a qual repe-
tiu muitas vezes que ouvia uma música angélica.
Algumas semanas antes outro vigário me dissera que em
sua paróquia habitava um homem muito religioso que per-
cebia muitas vezes “a música do paraíso”.”
Narrado pela Light, 1919, pág. 317.
Como se pode ver, apesar da provável autenticidade dos fatos
aos quais se faz alusão, é impossível levá-los em conta.
O valor teórico desta categoria consiste especialmente no fato
de que nela, muitas vezes, os episódios de audição supranormal não são eletivos, mas coletivos; quer dizer que não é unicamente o moribundo que ouve a musica transcendental, mas todas as pessoas presentes ou algumas entre elas; na maior parte mesmo dos casos, só os assistentes a percebem; não o pode fazer o moribundo, por causa das condições comatosas em que se encon-tra, o que é de grande importância teórica, como veremos mais adiante.
Daí resulta que os casos coletivos da presente categoria vêm
em apoio dos eletivos; assim, a música transcendental percebida no leito de morte, nas duas circunstâncias, deve ser considerada como tendo uma origem positivamente extrínseca e de forma alguma alucinatória, na significação patológica do termo.
Por outra parte, como não podemos separar esta categoria das
precedentes, segue-se também que, se esta é constituída por episódios que têm uma origem extrínseca, não há razão para deixar de admitir uma origem idêntica para os episódios contidos nas outras categorias; tudo, bem entendido, sempre de maneira geral.
Caso 13 – Começo registrando alguns casos nos quais o fe-
nômeno da audição musical é sempre eletivo.
Tiro a narrativa seguinte do livro de A. Beauchesne, Vie,
Martyre et Mort de Louis XVII. O autor recolheu os pormenores da própria boca dos cidadãos Lasne e Gomin, que foram os guardas do infortunado Delfim. Ele escreve:
“Aproximava-se a hora da agonia e Gomin, um dos guar-
das, vendo que o doente estava calmo. silencioso e imóvel,
disse-lhe:
– Espero que não sofra.
– Sim, sofro ainda, não porém como antes... Esta música
é tão bela!
Não se percebia nenhum eco de música; não se podia,
aliás, percebê-la, do quarto em que o pequeno mártir jazia
moribundo.
Gomin, espantado, perguntou:
– Em que direção a ouve?
– Ela vem de cima.
– E a percebe há muito tempo?
– Desde que ajoelhaste. Não a ouves, pois? Oh! escute-
mos, escutemos!
E a criança abriu seus grandes olhos, iluminados de ale-
gria extática e chegou a fazer um sinal com a mãozinha
exangue.
O guarda, comovido, não querendo destruir essa última
doce ilusão, fingiu que escutava também. Depois de alguns
minutos de grande atenção, a criança pareceu estremecer de
alegria; o olhar tornou-se-lhe brilhante e ela disse com voz
que exprimia bem uma emoção intensa:
– Entre as vozes que cantam reconheço a de minha mãe!
Esta última palavra, logo que saiu dos lábios do pobre ór-
fãozinho, pareceu aliviá-lo de todo o sofrimento; a fronte
serenou, o olhar tornou-se calmo e pousou em qualquer coi-
sa invisível.
Via-se bem que continuava a escutar, com atenção extáti-
ca, os acordes de um concerto que escapavam aos ouvidos
humanos.
Dir-se-ia que para esta alma jovem começava a despontar
a aurora de nova existência.
Pouco depois, o outro guarda, Lasne, veio substituir Go-
min e o príncipe olhou-o, por muito tempo, com olhar lân-
guido e velado.
Vendo-o agitar-se, Lasne perguntou-lhe como estava, se
queria alguma coisa.
Ele murmurou:
– Quem sabe se minha irmã ouviu essa música do paraí-
so; far-lhe-ia tanto bem!...
O olhar, então, do moribundo dirigiu-se com movimento
brusco para a janela; um grito de alegria saiu-lhe dos lábios;
dirigindo-se ao guarda, disse:
– Tenho alguma coisa a dizer-lhe.
Lasne aproximou-se, tomando-lhe a mão. O prisioneiro
inclinou a cabeça sobre o peito do guarda, que se julgou no
dever de escutá-lo, mas em vão: tudo estava acabado.
Deus tinha poupado, ao pequeno mártir, as convulsões da
agonia e o último pensamento do moribundo ficou desco-
nhecido.
Lasne colocou a mão sobre o coração da criança: o cora-
ção de Luís XVII tinha cessado de bater!”
Não é o caso de fazermos comentários a esse comovente epi-
sódio, por ser de audição de música transcendental eletiva; esperemos chegar aos casos coletivos, que confirmam indireta-mente os primeiros.
Farei observar que a descrição das diferentes atitudes toma-
das pelo moribundo, combinadas com as correspondentes excla-mações de surpresa e de alegria, permitem supor que o pequeno agonizante teve também a aparição de sua mãe: aparição prece-dida e preparada pelo fenômeno análogo do reconhecimento de sua voz entre as que constituíam o coro transcendental.
Essa combinação sucessiva de duas manifestações diversas,
que convergem para o mesmo fim, não deixa de ter valor suges-tivo, tanto mais quanto se repete em outros episódios do mesmo gênero (como por exemplo no 26º caso), como se a manifestação musical representasse, para a entidade do defunto, a via de menor resistência, devendo preparar a outra, a da aparição pes-soal ao parente no leito de morte.
Caso 14 – Em minha obra sobre as Aparições de Defuntos no
Leito de Morte, citei o comovente caso da pequena Daisy Dryden, que durante seus três últimos dias de vida teve a visão das esferas espirituais. Sendo longa a narrativa, tive que me limitar à citação das passagens que se relacionam com o assunto tratado na obra, isto é, à visão que a criança moribunda teve de seus falecidos pais.
Transcrevo agora outra passagem da narrativa, donde se vê
que a menina percebia também a música transcendental.
Relata sua mãe:
“Ela falava muitas vezes de seu fim próximo e parecia ter
tão nítida visão da vida futura e da felicidade que a espera-
va, que não se perturbava absolutamente com o pensamento
da morte.
O mistério da separação da alma e do corpo não existia
para ela. A morte era-lhe como a continuação da vida, com
a vantagem da passagem das condições precárias da exis-
tência terrestre às de uma existência livre e feliz, cheia de
luz e de exaltação, na morada de Deus.
Uma vez, disse ela:
– Ó papai, não ouves esta música celeste? São os anjos
que cantam. Não a ouves? E no entanto devias ouvi-la, por-
que o quarto está cheio inteiramente dela. Percebo o coro de
anjos que cantam. Ó, quantos! quantos! Que multidão! Eles
são muitos mil. Como são gentis, prestando-se a cantar para
uma criança como eu!
Mas eu sei bem que no céu não há diferença de grandeza;
ninguém é pequeno, ninguém é grande: o amor é tudo e en-
volve tudo...”
Este incidente, posto que coletivo, no que concerne à maneira
de produzir-se, constitui parte integrante de um caso complexo e é teoricamente de muita importância; nele se encontram muitos episódios de outra natureza, com o valor de identificações espíri-tas e que contribuem para mostrar a origem positivamente ex-trínseca das visões transcendentais que se manifestaram, durante três dias, à menina moribunda; dever-se-ia, pois, concluir logi-camente pela natureza não menos transcendental da música que ela percebeu.
Para o episódio em apreço, não seria, pois, necessário esperar
confirmação indireta por meio de outros casos análogos, com caráter coletivo.
Casos 15, 16 e 17 – Dos numerosos casos que recolhi e de-
pois abandonei por insuficiência de dados, decidi-me a extrair três, que narro aqui, por me parecerem eles positivamente autên-ticos, ainda que sejam insuficientes os pormenores fornecidos sobre os mesmos.
1º caso – Jakob Böhme, o conhecido místico alemão, no mo-
mento da agonia percebeu uma música muito doce, executada pelos anjos que vinham buscar-lhe o espírito, preparado-o para a morada celeste.
Até o momento da morte fez ele alusões à música transcen-
dental que percebia.
2º caso – Joseph Clark envia à Light (1921, pág. 312) uma
carta que recebeu de um dos amigos residentes em Haia, Holan-da, na qual se encontra relatado o episódio seguinte:
“Os membros de minha família foram todos apaixonados
por música, com exceção de uma de minhas irmãs, que a
detestava.
Ela morreu com a idade de 15 anos e, no instante pré-
agônico, murmurou:
– Ouço uma música maravilhosa... Oh! como é bela!
Penso que o caso é interessante, não só por ter minha ir-
mã ouvido a música transcendental em seu leito de morte,
como, principalmente, porque pareceu escutá-la com prazer
nessa hora suprema.”
3º caso – E. W. Barnet escreve ao Professor Hyslop:
“Em resposta à sua carta, eis o que lhe posso dizer a res-
peito do incidente que deu causa às suas perguntas:
Na primavera de 1880, meu irmão, então com a idade de
15 anos, caiu gravemente doente de pneumonia e o médico
que o tratava preveniu a família de que o rapaz estava em
perigo de morte. O doente não tardou, com efeito, a perder
a consciência, e ficou três dias nesse estado.
Quando chegou a minha vez de velar, na companhia de
um amigo, ele não mais falava nem dava sinais de vida
desde 24 horas.
À meia-noite, levantou-se, abriu os olhos e perguntou
donde vinha aquela música deliciosa. Repetiu a frase muitas
vezes, acrescentando que nunca tinha ouvido música tão be-
la e perguntou se a percebíamos.
Meu amigo me disse que este sinal era precursor da mor-
te; eu fui da mesma opinião; mas tal não aconteceu. O do-
ente continuou a escutar a música transcendental, fazendo-
lhe ainda alusões, muitas vezes. Em seguida, acabou por
adormecer. Quando acordou estava muito melhor e não tar-
dou entrar em convalescença. Vive ainda...” (American
Journal of the S. P. R., 1918, pág. 628.)
Caso 18 – Passo a relatar fatos nos quais só os familiares per-
cebem a música transcendental no leito de morte.
O Reverendo F. Fielding-Ould, em um artigo intitulado As
Maravilhas dos Santos (Les Merveilles des Saints), conta o seguinte episódio:
“Uma jovem, pertencente ao “Exército da Salvação” e,
muito provavelmente, uma santa em toda a acepção do vo-
cábulo, estava no leito mortuário, em Camborne (Cor-
nouaille). Durante três ou quatro noites, misteriosa e doce
música ressoou no quarto, com freqüentes intervalos; os pa-
rentes, os amigos, podiam ouvi-la. A música durava, de ca-
da vez, cerca de um quarto de hora. Algumas vezes parecia
começar a distância, para aproximar-se em seguida, pouco a
pouco, aumentando gradualmente de sonoridade. Durante
essas manifestações a doente ficou sempre em coma.” (Ci-
tado pela Light, 1920, pág. 155.)
Os casos, como o precedente, nos quais o doente fica em
condições comatosas durante a manifestação da música trans-cendental, são teoricamente mais importantes que os em que ele a percebe coletivamente com os assistentes.
Com efeito, neste último caso, poder-se-ia ainda objetar (se
bem que se trate de hipótese inteiramente gratuita) que o doente foi sujeito a uma alucinação patológica, transmitida telepatica-mente aos assistentes.
Ao contrário, quando o moribundo está em condições coma-
tosas (que implicam a abolição total das funções do pensamen-to), não seria mais possível recorrer-se à explicação alucinatória, entendida na significação que acabamos de indicar.
Caso 19 – Extraio-o da Light (1912, pág. 324.)
O Professor Arthur Lovell escreve nos termos seguintes ao
diretor da revista:
“Conheciam-se numerosos exemplos de música percebi-
da perto do quarto ou no próprio quarto em que jaz um mo-
ribundo. Tenho agora conhecimento de um desses episó-
dios. Foi-me ele comunicado por uma de minhas alunas, fi-
lha de um ministro da Igreja Escocesa.
Vou transcrever a passagem da carta que contém a narra-
tiva, fazendo notar que esta não me foi remetida para ser
publicada, mas a título de informação confidencial, relati-
vamente a um fato que, para minha discípula, era absoluta-
mente novo e inexplicável.
Ela escreve:
“Meu pai morreu há três semanas; esse triste aconteci-
mento foi acompanhado por um incidente misterioso que,
penso, vos poderá interessar. Trata-se, talvez, de um fato
comum, mas eu nunca dele ouvi falar.
Três meses antes de sua morte, foi meu pai atacado de
congestão cerebral, com perda da palavra e letargo da inte-
ligência; somente reconhecia as pessoas. Morreu certa ma-
nhã, pela alva; eu não estava presente, porque mamãe achou
melhor não me chamar, visto não haver nenhuma esperança
de que o doente recobrasse a lucidez.
Ora, eis o que se produziu:
Às duas horas da madrugada meu pai entrou em agonia;
dois minutos depois (minha mãe tinha visto a hora), come-
çou-se a ouvir do lado exterior da janela, que está no andar
superior da casa, maravilhoso canto que fez acordar em mi-
nha mãe a lembrança de um jovem cantor da Igreja de São
Paulo.
A voz parecia vir de cima e afastar-se para o céu, como
um eco da música do paraíso.
Perceberam-se, então, três ou quatro vozes que cantavam,
em coro, um hino triunfal de alegria.
O canto continuou até às 2:10, isto é, durante 8 minutos,
depois enfraqueceu gradualmente até extinguir-se. Meu pai
se finou ao mesmo tempo que o canto.
Se minha mãe fosse a única a ouvi-lo, não teria eu julga-
do o incidente digno de ser narrado; poder-se-ia logicamen-
te supor que a tensão de espírito em que se achava fosse a
causa que a levara a crer ter percebido o que nenhum ouvi-
do humano jamais percebeu. Mas, havia lá também a en-
fermeira, que era uma mulher prática e positiva, além de
normal. Quando a manifestação musical cessou, dirigiu-se
ela a minha mãe – que não lhe queria falar a respeito do que
tinha sucedido – e lhe disse:
– A senhora ouviu também os anjos cantarem? Eu bem
me apercebi disso, porque a vi olhar duas vezes, com sur-
presa, para a janela. E se não fossem os anjos, que podia
ser? Ouvi dizer que os anjos cantam, algumas vezes, quan-
do morrem pessoas muito boas, mas é a primeira vez que
ouço o canto.
Tais são os fatos. Parece-me que o testemunho dessa mu-
lher, absolutamente estranha à família, constitui excelente
prova da realidade incontestável da música percebida por
minha mãe, qualquer que seja a explicação a que possamos
recorrer para esclarecer o mistério.
É preciso excluir de modo absoluto a idéia de que a ori-
gem da música fosse natural; primeiro, porque estávamos
em plena noite; depois, porque nossa casa se acha em uma
localidade afastada, longe de qualquer outra habitação, e
rodeada por um jardim, além do qual se estende o campo.
Além disso, o som desse coro não vinha do solo, mas pare-
cia localizado justamente defronte à janela, isto é, no ar...”
Observa o Prof. Lowell:
“O trecho que transcrevi não necessita comentários; ele
fornece uma prova nítida e autêntica de que existem potên-
cias invisíveis, que operam em torno das personalidades
humanas.”
As considerações que fizemos para o caso precedente apli-
cam-se com mais forte razão a este, no qual o doente, que se encontrava em condições comatosas, estava, havia três meses, em completo estado de torpor intelectual, em conseqüência a um traumatismo do cérebro.
É preciso pois, excluir, em absoluto, a hipótese de uma aluci-
nação com origem no pensamento do moribundo e transmitida telepaticamente às duas percipientes.
É de notar, ainda, que estas últimas localizavam o canto coral
no mesmo ponto – circunstância que contribui a mostrar ulteri-ormente a objetividade da música transcendental percebida. Esta não se poderia explicar sem recorrer à interpretação dada pela enfermeira, interpretação em que se reflete a sabedoria popular, a qual, livre dos entraves teóricos, chega muitas vezes à intuição da verdade.
Caso 20 – Este episódio é o muito conhecido da música
transcendental que se realizou no leito de morte de Wolfgang Goethe. Conta-o a Occult Review (1903, pág. 303), que o tradu-ziu do Gartenlaube (1860):
“A 22 de março de 1832, às 10 horas da noite, duas horas
antes do falecimento de Goethe, um carro parou diante da
morada do grande poeta; uma senhora desceu e apressou-se
a entrar na casa, perguntando com voz trêmula ao criado:
– Ele ainda está vivo?
Era a Condessa V..., admiradora entusiasta do poeta e
sempre por ele recebida com prazer, por causa da reconfor-
tante vivacidade de sua palestra.
Ao subir a escada, parou ela de repente e pôs-se a escu-
tar; depois perguntou ao criado:
– Como? Música nesta casa? Meu Deus! Como se pode
fazer música num dia destes!
O criado também escutava, porém ficou pálido, trêmulo e
nada respondeu.
Entrementes, a condessa atravessava o salão e entrava no
escritório, onde só ela tinha o privilégio de penetrar.
Frau von Goethe, cunhada do poeta, foi ao seu encontro;
abraçaram-se em lágrimas. Em seguida a condessa pergun-
tou:
– Dize-me, Otília; quando eu subia a escada, ouvi música
nesta casa; por que? Estarei enganada?
– Também tu a ouviste? – respondeu Frau von Goethe –.
É inexplicável! Desde a aurora de hoje que ressoa, de quan-
do em quando, misteriosa música, insinuando-se em nossos
ouvidos, em nossos corações, em nossos nervos.
Justamente nessa ocasião ouviu-se do alto, como se vies-
sem de um mundo superior, acordes musicais suaves, pro-
longados, que enfraqueceram pouco a pouco até extinguir-
se. Simultaneamente, João, o fiel criado de quarto, saía da
câmara do moribundo, tomado de viva emoção, e pergunta-
va com ansiedade:
– Ouviu, senhora? – Desta vez a música vinha do jardim
e ressoava até à altura da janela.
– Não – replicou a condessa –, ela vinha do salão ao lado.
Abriram as vidraças e olharam para o jardim. Uma brisa
leve e silenciosa soprava através dos ramos nus das árvores;
ouvia-se ao longe o ruído de um carro que passava na estra-
da; nada, porém, se descobria que pudesse revelar a origem
da música misteriosa. Entraram, então, as duas amigas, no
salão donde supunham provir a música; mas aí também na-
da encontraram de anormal.
Enquanto estavam ainda ocupadas em suas pesquisas,
fez-se sentir uma série de acordes maravilhosos; desta vez
pareciam vir do gabinete.
A condessa, entrando no salão, disse:
– Creio não me enganar: é um quarteto tocado a distância
e de que nos chegam fragmentos de vez em quando.
Mas Frau von Goethe observou, por seu turno: – Parece-me, ao contrário, ouvir o som próximo e claro
de um piano. Disso me convenci esta manhã, a ponto de
mandar o criado à casa dos vizinhos, pedindo-lhes que não
tocassem piano, em respeito ao agonizante; todos, porém,
responderam do mesmo modo: que bem sabiam qual o es-
tado do poeta e que, muito consternados, não pensariam em
perturbar-lhe a agonia, tocando piano.
De repente, a música misteriosa ressoou ainda, delicada e
doce; desta vez, dir-se-ia nascer do próprio aposento; so-
mente, para um parecia ser o som de um órgão, para outro
um canto coral e para o terceiro, enfim, as notas de um pia-
no.
Rath S., que nesse momento assinava o boletim médico
com o Dr. B..., olhou com surpresa para o amigo, pergun-
tando-lhe:
– É um concerto que se toca?
– Parece – respondeu o doutor –, talvez alguém na vizi-
nhança pense em divertir-se.
– Não é – replicou Rath S. –, quem toca está, sem dúvida,
nesta casa.
E a música misteriosa continuou a fazer-se ouvir, até o
momento em que Wolfgang Goethe exalou o último suspi-
ro.
Algumas vezes ressoava com longos intervalos, outras,
depois de muito curtas interrupções, ora numa direção, ora
noutra, mas parecendo vir sempre da própria casa ou de
muito perto.
Todas as buscas e inquéritos procedidos para aclarar o
mistério foram sem resultado.”
Na narrativa acima não se fala nas condições intelectuais em
que se achava o moribundo; mas como o relato faz alusão a manifestações que se produziram duas horas antes da morte e que persistiram até os últimos instantes da agonia, pode-se crer, sem receio de engano, que Goethe se achava em condições comatosas; se não fora assim, a pessoa que redigiu a descrição não deixaria de notar a atitude do doente com relação às mani-festações, isto é, se ele dera ou não sinais de perceber a música transcendental.
Esse silêncio permite acreditar que o doente estava sem cons-
ciência; nestas condições, o caso seria análogo aos que o prece-dem, além da circunstância curiosa, porém muito freqüente, das percepções contraditórias a que foram sujeitos os percipientes, tanto no que concerne à localização da música quanto à sua natureza instrumental ou vocal.
Já tivemos ocasião de observar que esta espécie de percep-
ções contraditórias, que encontramos a cada passo na telepatia entre os vivos, deve ser atribuída, a maior parte das vezes, às idiossincrasias especiais dos percipientes; em conseqüência delas, o impulso telepático (seja originado por um vivo ou por um morto, pouco importa), seguindo o rumo de menor resistên-cia, para penetrar da subconsciência na consciência, é freqüen-temente sujeito a transformar-se em percepções sensoriais diver-sas, segundo os diferentes temperamentos.
É bom notar, agora, que se esta interpretação pode ser consi-
derada bem fundada, não significa isso que não existam exceções à regra, tanto mais quanto, muitas vezes, em Metapsíquica, os fenômenos em aparência idênticos são, na realidade, de natureza diferente.
Assim, no caso citado, tudo contribuiria a fazer supor que as
percepções contraditórias produzidas quando os familiares, discutindo os fatos, buscavam explicá-los naturalmente, mostram uma intenção: a de provar aos percipientes a origem transcen-dental e por nenhuma forma terrestre, das manifestações a que eles assistiam.
Caso 21 – Pois que tocamos nas verificações contraditórias,
relativamente às mesmas manifestações supranormais, será útil referir um exemplo frisante, se bem que não seja conforme aos desta categoria, porque a audição musical não está em relação com acontecimentos de morte.
A narrativa é curta e a extraio do X volume dos Proceedings
of the S. P. R. (pág. 319). Lady C... escreve:
“Em outubro de 1879, estava domiciliada em Bishophor-
pe, nos arredores de York, e me achava deitava perto de
Miss Z. T., quando, de repente, vi um fantasma vestido de
branco, que atravessou o quarto rapidamente e em direção à
janela. Era uma figura vaporosa e desfez-se instantanea-
mente.
Fiquei terrivelmente impressionada e, dirigindo-me a mi-
nha amiga, perguntei-lhe:
– Viu o fantasma?
Ao mesmo tempo, perguntava a mim a minha amiga, com
voz não menos espantada:
– Ouviu o canto?
Repliquei, então:
– Vi um anjo que atravessou o quarto, voando. E ale:
– Eu ouvi cantar um anjo.
Ficamos ambas muito impressionadas com esse aconte-
cimento, mas dele não falamos a ninguém. Miss Z. T. es-
creve à Society for Psychical Research confirmando os fa-
tos.”
Provavelmente, neste caso, não se trata de transformação de
um impulso telepático em percepções diferentes, mas de duas manifestações supranormais simultâneas que, por disposições especiais dos percipientes, foram percebidas separadamente.
Caso 22 – O Sr. L. C. de Gilmour, de Brockville (Canadá),
envia à Light (1921, pág. 393) a seguinte narrativa de um fato que se produziu no mês de março daquele ano:
“Tendo-se agravado, de repente, o estado de um doente,
sua família que era de confissão católica, mandou chamar o
cura da paróquia. Infelizmente, o cura estava também gra-
vemente enfermo; entretanto, mostrando verdadeiro hero-
ísmo cristão, levantou-se para correr à cabeceira do seu pa-
roquiano moribundo.
Depois de ter exercido seu ministério até o fim, o pobre
cura sentiu-se por tal forma esgotado com o esforço que
fez, que não se pôde ter em pé, e foi forçado a deitar-se
nessa mesma casa onde, depois de curta agonia, entregava a
alma a Deus.
No momento do seu trespasse, uma música do paraíso
soou na casa; os assistentes sentiram tão profunda impres-
são, que um ministro protestante, alojado no imóvel, deci-
diu, sem mais, aderir ao credo católico.”
O diretor da Light faz acompanhar essa descrição das consi-
derações seguintes:
“A senhora que escreveu a narrativa que acabamos de ler
não pertence à religião Católica romana – o que constitui
uma garantia suplementar da imparcialidade do seu teste-
munho. Isto dito, é evidente que o elemento teológico nada
tem que ver no episódio citado. Para nós, ele mostra, de
maneira eloqüente, que no mundo espiritual aprecia-se a
virtude do sacrifício e a bondade d’alma, fora de qualquer
crença religiosa.”
Inútil é observar que as conclusões do diretor da Light são in-
contestavelmente sensatas.
Caso 23 – N. Spicer, no seu livro Strange Things (Coisas Es-
tranhas), conta nestes termos o decesso de um irmão do Dr. Kenealy:
“O quarto do doente dava para uma vasta extensão de
campo, circundada por uma coroa de colinas verdejantes.
Ao meio-dia, quase todos os membros da família, inclusive
o doutor, seu irmão, se achavam reunidos no quarto, que es-
tava iluminado por um raio deslumbrante de Sol.
De repente, um canto divinamente, melodioso ressoou no
aposento, canto muito superior a qualquer outro de origem
terrestre. Era um suava e melancólico lamento, devido a
uma voz de mulher. A entonação exprimia uma dor profun-
da e lacerante, impossível de descrever.
Ele continuou durante alguns minutos e depois pareceu
enfraquecer, afastando-se, como as ligeiras ondas que en-
crespam um lago e se perdem num murmúrio.
A agonia da criança tinha começado, ao mesmo tempo
que o canto, mas foi tal a emoção provocada nos assisten-
tes, por essa endecha misteriosa e divina, que eles tiveram a
atenção desviada por alguns minutos da cena solene.
Quando a última nota do canto se extinguiu muito ao
longe, o Espírito da criança já se tinha exilado do corpo.”
Que pensamentos nos sugerem esses cantos transcendentais,
misticamente solenes, que acompanham a agonia dos moribun-dos! E por que as condições nas quais eles se produzem são de natureza a afastar a explicação alucinatória e obrigam o pesqui-sador a procurar o agente telepático exterior que produz as manifestações, não me parece possível evitar-lhe a única inter-pretação lógica: a da presença, no leito mortuário, de uma ou de muitas entidades espirituais.
Tudo, pois, contribui a demonstrar que essas Inteligências
devem ser os Espíritos dos mortos, ligados ao doente por laços de afeição; esta conclusão é ainda fortalecida pelo fenômeno concomitante das freqüentes aparições de defunto na hora su-prema – fenômeno muito conhecido e de que já longamente tratei em monografia especial, de que esta é natural complemen-to; a segunda confirma, sob forma diferente, as conclusões reconfortantes a que chegamos pela primeira, isto é, que os Espíritos dos defuntos assistem, no leito de morte, as pessoas caras na crise solene da separação entre o Espírito e o organismo corporal e que, nessas ocasiões, eles se esforçam algumas vezes por se tornarem visíveis aos moribundos e aos que os rodeiam. Quando as circunstâncias não o permitem, buscam colimar o fim por outros meios, entre os quais o das manifestações de música transcendental.
Caso 24 – Foi tirado da Light (1921, pág. 321). O Sr. F. M.
Rooke de Guildford relata:
“Há alguns anos, minha irmã e eu fomos os percipientes
de uma experiência supranormal que nos trouxe o mais vivo
conforto de nossa existência.
Minha mãe estava gravemente enferma de reumatismo
artrítico; o doutor e a enfermeira foram de opinião que os
seus sofrimentos não deveriam prolongar-se por muito tem-
po.
Uma noite, cerca de uma hora, minha irmã e a enfermeira
velavam a doente, quando a atenção de ambas foi repenti-
namente atraída por majestosos acordes musicais. Pareciam
tocados por um instrumento celeste; nunca elas tinham ou-
vido melodias tão divinas.
Dirigindo-se à minha mãe perguntaram:
– Ouve esta música?
Respondeu-lhes ela:
– Não ouço nada.
Nesse momento, precipitei-me no quarto, indagando:
– Donde vem esta música do paraíso?
Os acordes vibravam tão fortemente que me haviam
acordado de um sono profundo!
Enquanto eu discutia a esse respeito com minha irmã, a
música se foi enfraquecendo gradualmente até se extinguir.
Olhei para minha mãe: ela tinha morrido! Seu Espírito
havia-se afastado do corpo, com a última nota da música
transcendental.
Meu pai, que dormia no quarto ao lado, nada ouviu!”
Este episódio é o único da presente categoria no qual se nota
o fato da percepção “eletiva”, e não “coletiva”, da música trans-cendental, por parte dos assistentes.
Das quatro pessoas presentes, duas a ouviram nitidamente,
enquanto as outras nada perceberam.
O fato pode ser explicado facilmente, visto como as percep-
ções espirituais pertencem a uma ordem espiritual de manifesta-ções e por conseqüência não podem ser percebidas senão pelo auxílio dos sentidos espirituais, que só surgem da subconsciência e funcionam em raras ocasiões, no curso da vida terrestre; na maior parte, mesmo, dos indivíduos, não aparecem e não funcio-nam nunca.
Caso 25 – Este episódio pode ser lido nos Phantasms of the
Living (vol. II, pág. 221); é teoricamente interessante, como logo o veremos.
A Sra. Sarah A. Sewel, de Eden Vilas, Albert Park, Didsbury
(Inglaterra), escreve nestes termos, com data de 25 de março de 1885:
“Na primavera de 1863, um de nossos filhos, uma menina
de nome Lili, caiu gravemente doente. Um dia, meu mari-
do, entrando em casa às 3 horas da tarde, disse a Lili que
ele jantaria em seu quarto, para fazer-lhe companhia.
Eu estava sentada ao lado da cama, segurando-lhe uma
das mãos; meu marido comia e conversava, e um de nossos
amigos se entretinha com Lili, sendo a nossa intenção dis-
traí-la.
De repente, nossa atenção foi despertada pelas notas tris-
tes de uma harpa eólia, que pareciam provir de um armário
colocado em um canto do quarto.
Calamo-nos logo, e eu perguntei:
– Lili, está ouvindo esta doce música?
Ela me respondeu que não, o que me surpreendeu, tanto
mais quanto a criança tinha grande paixão pela música.
Os acordes, no entanto, continuavam e aumentavam de
sonoridade; o quarto parecia invadido por eles. Depois,
pouco a pouco, eles se afastaram, como se fossem descendo
a escada até desaparecerem completamente.
Essa música foi também percebida pela criada, que estava
na cozinha, embora estivesse dois pavimentos embaixo, e
pela nossa filha mais velha que nesta ocasião se dirigia para
a despensa.
Esta parara no corredor, escutando, e perguntou, com
surpresa, donde vinham aquelas melodias; enquanto aí fica-
ra, a criada veio-lhe ao encontro e indagou:
– Que música é esta?
Pouco depois batiam as 4 horas.
No dia seguinte, domingo, minha tia, com a minha velha
ama, vieram visitar Lili; elas entraram no quarto com meu
marido, enquanto eu ficava na cozinha, ocupada em prepa-
rar um bolo de leite para a doentinha.
Eis quando, novamente, as mesmas melodias melancóli-
cas da harpa eólia começaram a fazer-se ouvir; foram elas
percebidas pelas três pessoas reunidas no quarto de Lili,
como o foram por mim, que estava na cozinha.
O dia de segunda-feira decorreu sem que o fenômeno se
repetisse; mas na terça, à mesma hora, meu amigo, meu ma-
rido e eu de novo ouvimos a melodia melancólica, que vi-
nha do mesmo lugar do quarto e aumentava rapidamente de
sonoridade até encher todo o ambiente, para afastar-se, em
seguida, descendo pela escada e extinguindo-se no jardim.
Convém assinalar que essa música foi percebida três ve-
zes, em três dias diferentes, sempre à mesma hora; e não
unicamente pelas pessoas que se achavam no quarto da do-
entinha, mas por mim própria, por minha filha mais velha e
pela criada, quando nos encontrávamos dois andares abai-
xo, e, no décimo dia, por minha tia e meu filho, quando se
encontravam na sala de jantar.
Achei, sobretudo, estranho que a doente, que gostava
apaixonadamente de música, nada tivesse ouvido.
E não podia haver engano a respeito da música que escu-
tamos, porque não há instrumento tocado por mãos huma-
nas capaz de reproduzir as notas dolentes da harpa eólia.
Morávamos nessa casa já havia 6 anos e ainda aí ficamos
mais 12, sem nunca ter ouvido, nem antes nem depois, uma
música dessa espécie.” (Assinado: Sarah A. Sewel.)
O marido, Sr. Sewel, escreve em abril de 1885:
“Aqui estou unicamente para confirmar a narrativa de
minha mulher. A música transcendental percebida por ela o
foi por mim também. Ouvimo-la pela primeira vez no sába-
do, 2 de maio de 1863, às 4 horas; depois, no dia seguinte, à
mesma hora, e na terça-feira, à mesma hora ainda. Perce-
bemos essa música eu, minha mulher, a tia de minha mu-
lher, sua velha criada, nosso filho Ricardo, de 7 anos, o ou-
tro filho Tomás, de 9 (os quatro últimos já falecidos), nosso
filho mais velho de 11 anos e a criada que, pouco tempo
depois, deixou o serviço para ir para a Irlanda, para junto de
seu marido soldado, tendo nós ficado, daí em diante, sem
qualquer indicação a seu respeito.
A filha mais velha habita Nova York e eu não duvido que
ela se lembre desse acontecimento.
Estou certo de que a música não provinha de causas natu-
rais. Nossa casa estava situada no meio de um jardim, a 50
metros da estrada; a única habitação que existia perto de
nós não estava alugada. Além disso, não eram sons confu-
sos ou vagos, mas notas distintas, sonoras, dolorosas, de
uma harpa eólia, que nasciam, se desenvolviam e se extin-
guiam muito nitidamente, aumentando pouco a pouco de
sonoridade até que o quarto ficava literalmente saturado de
acordes musicais, tão fortes como os de um órgão, os quais
desciam lentamente pela escada e se extinguiam docemente
com cadências rítmicas, nada tendo de terrestre.
Tenho a convicção absoluta de que essa música não pro-
vinha de músicos vivos.” (Assinado: Methew Sewel.)
A Sra. Lee, filha do casa Sewel, escreve de Nova York, a 20
de julho de 1885, confirmando a narrativa de seus pais:
“Lembro-me perfeitamente da música que percebemos no
leito de morte de Lili, e a impressão que ela produziu sobre
nós outros, filhos, ficará para sempre inapagável em meu
espírito. Fomos tomados de indefinível sentimento de es-
panto e de mistério, porque não podíamos compreender
donde vinha a música e o que ela era.” (Assinado: Mrs.
Lee.)
Gurney entrevistou o Sr. e a Sra. Sewel; reproduzo o trecho
seguinte de sua narrativa:
“... A natureza dos sons não permite que os expliquemos
atribuindo-os a causas naturais, como o ar e a água. Por ou-
tra parte, o fato de uma das pessoas presentes, dotada de
excelente ouvido, nada ter escutado, parece inconciliável
com uma explicação desta espécie.
A música tinha, de cada vez, a duração de um minuto. A
menina doente faleceu terça-feira, de tarde...”
No caso acima nota-se uma circunstância de considerável im-
portância teórica: é o incidente da criança doente, a qual, apesar de acordada e em posse de todas as suas faculdades mentais, não percebe a música transcendental ouvida por todos os familiares, compreendidos os que se encontravam nos andares inferiores do prédio.
Se, nos casos precedentes, a circunstância do estado comato-
so em que se achavam os doentes servia para eliminar a hipótese de uma suposta alucinação, que tivesse nascimento no espírito do doente e fosse transmitida telepaticamente aos assistentes, esta outra circunstância serve mais que nunca para excluir a mesma hipótese, pois que, desta vez, é a agonizante que declara não ouvir nada. Daí a absoluta certeza de que a audição musical não teve sua fonte na enferma e que era, pois, de natureza extrínseca.
É preciso, ainda, assinalar o fato de que as manifestações mu-
sicais se repetiram três dias seguidos, à mesma hora. Com efeito, isso demonstra uma ação vigilante – o que equivale admitir a presença, no leito de morte, de uma ou muitas entidades espiritu-ais.
Caso 26 – Termino esta categoria por um episódio no qual a
música transcendental se produz na cama de um doente, que, estando em situação grave, pôde restabelecer-se completamente.
A narrativa foi inserida no Journal of the S. P. R. (volume IV,
pág. 181). O caso foi examinado por Podmore e está rigorosa-mente documentado. Só reproduzo a narrativa principal.
Conta o Sr. Septimus Allen:
“Em 1872, eu morava em Leeds com minha mulher e o
irmão desta. Meu cunhado, cujo nome é João, exerce a pro-
fissão de pintor-decorador e é surdo-mudo. Um dia, caiu
gravemente enfermo de febre reumática. Imaginem-se as
condições de um doente vítima do martírio de uma afecção
reumática geral, sem se poder fazer compreender por ne-
nhum modo, porque os braços e as mãos, dolorosamente in-
chados, lhe impediam utilizar-se dos dedos, único meio pa-
ra ele de transmitir os pensamentos. Ele não podia dizer
quais eram seus sofrimentos, suas necessidades, o que dese-
java, nada!
A doença agravou-se rapidamente e o médico aconse-
lhou-nos que preveníssemos os outros membros da família,
para que o pudessem rever antes do falecimento.
Nessa tarde, minha mulher e eu estávamos no pavimento
térreo da casa para tomar chá; as crianças tinham saído. De
repente, ouvimos ambos uma música maravilhosa, que vi-
nha do quarto de João. Como ele estava só no andar de ci-
ma, ficamos profundamente surpreendidos e subimos ime-
diatamente ao seu quarto.
Encontramo-lo deitado de costas, com os olhos fixos no
teto, o rosto iluminado por um sorriso extático. Não ousa-
mos perturbá-lo, mas chamei um vizinho para que pudesse
testemunhar o acontecimento, que nos parecia estranho e
extraordinário.
Depois de certo tempo (não poderia determiná-lo de ma-
neira exata), João pareceu acordar desse estado extático e
por movimentos dos lábios e outros sinais exprimia estas
palavras: “Céu” e “Belo”.
Algum tempo depois, fez-nos compreender, por sinais,
que seu irmão Tom e sua irmã Harriett estavam em viagem
para vir vê-lo e já prestes a chegarem.
Um quarto de hora mais tarde, um carro parou à porta da
casa e as duas mencionadas pessoas desceram. Elas não ti-
nham anunciado a sua partida e não eram esperadas.
Quando o doente entrou em convalescença e pôde expri-
mir-se livremente pelos dedos, disse-nos que lhe tinha sido
concedido contemplar as belezas do paraíso e escutar uma
música angélica a que chamou maravilhosa.
Pergunto: Donde vinham os acordes musicais que ouvi-
mos? E como o doente pôde saber que os irmãos estavam
em caminho e que sua chegada era iminente?” (Assinado:
Septimus Allen.)
No que concerne à circunstância de uma manifestação musi-
cal que se produz no leito de um doente que não morre, é preciso notar que ela não se reveste de uma significação teórica especial.
Os fatos, cujo exame empreendemos, deixam supor que as
doenças graves têm, como conseqüência, o enfraquecimento dos laços que unem o Espírito ao corpo, predispondo o doente a entrar em relação com o mundo espiritual, e daí se pode facil-mente deduzir que estas relações devem, por vezes, estabelecer-se, também, no caso de uma enfermidade grave que não determi-na a morte.
Em apoio dessas considerações, é bem de notar que, no caso
acima, se encontra um incidente de “clarividência no espaço”, sinal de que as faculdades sensoriais espirituais tinham efetiva-mente surgido da subconsciência do doente.
Entre elas se havia manifestado, por sua vez, evidentemente,
a faculdade da audição espiritual, pois que um pobre surdo-mudo não podia ter nenhuma idéia da música, assim como um cego não pode formar idéia das cores. Não obstante, ele anuncia que ouviu uma música do paraíso, a que chama maravilhosa.
A importância desse incidente, no ponto de vista da teoria, é
incontestável; ele mostra, com efeito, que, se de um lado as enfermidades corporais suprimem as faculdades dos sentidos fisiológicos, do outro existem, inatacáveis, nas profundezas da subconsciência humana, as faculdades dos sentidos espirituais, destinadas a exercer-se numa ambiência espiritual.
São conclusões incontestáveis, porque deduzidas do fato de
que, em certas circunstâncias excepcionais de desencarnação parcial, um cego pode ver e um surdo-mudo ouvir uma música transcendental.
O caso de que nos ocupamos é o único da presente categoria
em que o doente participa, coletivamente com os assistentes, da audição musical. Poder-se-ia, pois, objetar que o doente tivesse sido o agente telepático transmissor a seus parentes da alucina-ção a que tinha sido submetido.
Se comparamos este caso, entretanto, com os que o precedem
e entre os quais temos a certeza científica de que há alguns em que esta participação não existe, vemos que a referida explicação é pouco provável. Tudo isso sem contar que não se conhecem exemplos de alucinações coletivas determinadas por um fenôme-no de transmissão telepática do pensamento.
Os tratados de patologia mental contêm grande número de
casos de alucinações coletivas (sobretudo nas multidões, por contágio místico); mas observa-se sempre que isso é determina-do por transmissão verbal da idéia alucinatória e nunca por transmissão telepática do pensamento.
Penso, pois, estarmos autorizados a declarar que a hipótese
das alucinações coletivas, nas circunstâncias análogas às de que nos ocupamos, não é cientificamente legítima.