Fenômenos de Telecinesia em Relação aos Acontecimentos de Morte
Segunda categoria
Música transcendental de realização telepática
Os episódios de música transcendental de origem telepática
não diferem de modo nenhum dos outros episódios pertencentes à fenomenologia telepática em geral e, por conseqüência, não apresentam especial valor teórico. São, além disso, relativamente raros, o que nada tem de espantoso, visto como as modalidades pelas quais se realizam estes fenômenos revestem constantemen-te uma significação que os liga direta ou indiretamente às carac-terísticas pessoais e aos estados d’alma do moribundo que serve de agente; isso equivale a dizer que, para que haja probabilidade de obter-se uma mensagem telepática de natureza musical, seria preciso que o agente fosse dotado de certa cultura musical. É o que não se encontra muitas vezes.
Nos casos conhecidos de telepatia musical, a regra constante
é esta: os agentes são sempre músicos.
Caso 1 – Lê-se no L’Inconnu, de C. Flammarion (pág. 78):
“Notável sábio, Alphonse Berget, doutor em ciências,
preparador do laboratório de física da Sorbona, examinador
na Faculdade de Ciências de Paris, comunicou-me o seguin-
te relato:
... Minha mãe tinha tido, como amiga de infância, uma
menina chamada Amélia M. Esta menina, cega, era neta de
um velho coronel de dragões do Primeiro Império. Tendo
ficado órfã, vivia com os avós. Era ela muito musicista e
cantava freqüentemente com minha mãe.
Com a idade de 18 anos, arrastada por muito pronunciada
vocação religiosa, tomou hábitos num convento de Stras-
burgo.
Nos primeiros tempos escrevia freqüentemente à minha
mãe; mais tarde as suas cartas se espaçaram e, enfim, como
sucede quase sempre em semelhantes casos, cessou comple-
tamente de corresponder-se com sua antiga amiga.
Ela era religiosa havia já 3 anos, quando, um dia, minha
mãe subiu ao eirado para buscar qualquer coisa aí guardada.
Desce, de repente, à sala, dando grandes gritos e cai sem
sentidos.
Todos correm; levantam-na, ela volta a si e diz soluçan-
do:
– É horrível! Amélia morre; ela está morta porque acabo
de ouvi-la cantar, como só pode cantar uma pessoa morta.
E nova crise de nervos fá-la perder os sentidos.”
Flammarion faz sobre o caso os seguintes reparos:
“Ao morrer, no mesmo instante da morte a amiga da Sra.
Berget, parece, pensou com grande intensidade – uma níti-
da lembrança, uma saudade imensa talvez – em sua amiga
de infância e, de Strasburgo a Schlestadt, a emoção da alma
da jovem veio ferir instantaneamente o cérebro da Sra. Ber-
get, dando-lhe a ilusão de uma voz celeste cantando uma
pura melodia. Como? De que modo? Nada sabemos.
Seria anticientífico, porém, negar uma coincidência real,
uma relação de causa e efeito, um fenômeno de ordem psí-
quica, pela razão única de que não sabemos explicá-lo.”
A respeito dessas considerações de Flammarion e para escla-
recer o mistério que cerca o fato de aspectos tão diversos, estra-nhos umas vezes, outras absurdos, nos quais se produzem as manifestações telepáticas, é lícito notar que a análise comparada dos fatos mostra como as manifestações supranormais, em geral, brotam da subconsciência e chegam à consciência seguindo o “caminho de menor resistência”, determinado pelas idiossincra-sias pessoais próprias ao agente e ao percipiente encarados em conjunto.
Daí resulta que a transmissão de uma mensagem telepática
pode realizar-se, por vezes, sob a forma visual; em outros casos, sob a forma auditiva, tátil, olfativa, emocional, tomando feições racionais ou simbólicas, muitas vezes, mesmo, de aparência absurda.
Vê-se, pelo caso acima, que a mensagem telepática foi deter-
minada pela forma auditivo-musical; isto significa que esta modalidade de realização constituía o “caminho de menor resis-tência” para a transmissão da mensagem, de acordo com as propensões particulares da agente e da percipiente, encarados conjuntamente: eram ambas cultoras da música.
Caso 2 – É extraído do Journal of the S. P. R. (vol. VI. pág.
27). Os diretores desta publicação observam sobre este assunto:
“A descrição seguinte foi escrita por Miss Horne, filha da
percipiente e dirigida a Miss Ina White, que a transmitiu de
bom grado à Society for Psychical Research. Foi em segui-
da reenviada à mãe de Miss Horne para que ela a assinasse
por sua vez; nestas condições, o relato, posto que escrito
por terceira pessoa, deve ser registrado entre os obtidos de
primeira mão.
Aberdeen, 25 de novembro de 1890.
O fato realizou-se há uns 30 anos, mas se conserva inde-
levelmente gravado na memória de minha mãe, e por tal
forma, que ela dele se lembra como se fosse ontem.
Minha mãe estava sentada na sala de jantar de pequeno
hotel isolado, tendo nos joelhos o meu irmão James, então
na idade de quase dois anos.
A governanta da criança havia saído; não ficara ninguém
na casa, além de uma criada que se encontrava no andar tér-
reo. As portas da sala de jantar e as do salão, que eram con-
tíguas, estavam abertas nesse momento. De repente, minha
mãe ouviu uma música celeste, em triste toada, muito sua-
ve, que durou uns dois minutos; o canto foi-se enfraque-
cendo depois, gradualmente, até que se extinguiu. Meu ir-
mãozinho saltou dos joelhos maternos, dizendo:
– Papai! Papai! – e correu para o salão.
Minha mãe ficou como paralisada onde estava, o que a
fez tocar a campainha para chamar a criada, a quem disse
fosse ao salão ver quem tinha entrado.
A criada obedece, mas só vê no salão James, que, em pé,
ao lado do piano, recebe-a dizendo:
– Papai não está mais!
É preciso acrescentar que seu pai gostava muito de músi-
ca e, quando entrava, tinha o hábito de ir diretamente para o
piano.
O incidente fez tal impressão no espírito da genitora, que
ela para logo o anotou, registrando a hora exata na qual ele
se produziu.
Seis semanas depois recebia uma carta do Cabo, em que
se lhe anunciava a morte da irmã. O dia e hora do trespasse
correspondiam exatamente ao dia e hora em que minha
mãe, com a criança, haviam percebido o trecho da música
transcendental. Devo acrescentar que minha tia morta era
uma excelente e apaixonada musicista.” (Assinado: Miss
Emily Horne e Mrs. Eliza Horne.)
Em carta subseqüente diz Miss Emily Horne:
“Minha tia chamava-se Mary Sophie Ingles; morreu a 21
de fevereiro de 1861, em Durban, no Natal. Mamãe encar-
rega-me de vos confirmar que o acontecimento coincidiu
não somente com o dia e hora do falecimento, mas ainda,
exatamente com o minuto...”
Como também se pode ver neste episódio, o agente é uma boa
cultora da música; as observações que fizemos ao caso preceden-te servem igualmente para este.
Não há nada de particular na realização do fato, a não ser a
circunstância notável de que a audição do trecho de música transcendental foi coletiva, como também a de ter sido esse trecho ouvido por uma criança de 2 anos de idade, apenas; esse detalhe é sempre teoricamente interessante, em qualquer classe de manifestações supranormais, porque constitui um bom argu-mento contra a hipótese auto-sugestiva, uma vez que a tenra mentalidade de um bebê não lhe poderia permitir a auto-sugestão a respeito de manifestações que lhe seriam inconcebíveis.
Em minha classificação figuram quatro outros episódios aná-
logos aos precedentes; abstenho-me, porém, de narrá-los, por não aduzirem nada de teoricamente novo em favor do nosso estudo.