Fenômenos de Telecinesia em Relação aos Acontecimentos de Morte
Sexta categoria
Música transcendental que se produz
depois de um acontecimento de morte
Esta última categoria de música transcendental, que se realiza
além do túmulo, constitui o prolongamento lógico e natural das outras categorias. E se a gênese das manifestações que exami-namos pode explicar-se pela hipótese espírita, a existência desta última categoria deve ser admitida a priori. Se ela não existisse, a legitimidade da hipótese espírita seria abalada; por outro lado, o fato de sua existência, inexplicável por qualquer outra suposi-ção, constitui a melhor confirmação da hipótese espírita.
Sou obrigado a declarar, também para esta categoria – o que
deploro –, que a maior parte dos incidentes que recolhi não são utilizáveis, tendo sido dados de modo muito sumário por seus narradores. A falta não é, aliás, destes últimos, mas dos diretores das revistas que, muitas vezes, não dispondo de espaço suficien-te, resumem em algumas linhas as narrativas que lhes são envia-das pelos protagonistas dos fatos.
Caso 27 – Eis um episódio tirado dos Proceedings of the S.
P. R. (vol. III, pág. 92). Como já o publiquei nas Aparições de Defuntos no Leito de Morte, limito-me a lembrá-lo aqui, resu-mindo-o.
Neste primeiro exemplo, a audição musical realiza-se ainda
no leito de morte, mas a pessoa doente percebe o canto de uma de suas amigas, falecida onze dias antes – o que a moribunda e todos os assistentes ignoravam.
“Um coronel irlandês contou que fora certa vez convida-
do para uma festa musical que deveria realizar-se em casa
de uma jovem, Miss Júlia, dotada de bela voz de soprano.
Depois de algum tempo Júlia se casara com o Sr. Henri
Webley e mudara de domicílio; não mais a encontraram e
ignorou-se o que dela tinha sido feito.
Sete anos depois, a mulher do coronel caiu gravemente
enferma. E o coronel conta o seguinte:
“De repente ela me perguntou:
– Ouves estas doces vozes que cantam?
Respondi que não e ela acrescentou:
– Já as ouvi muitas vezes hoje; acho que são anjos que
vêm desejar-me as boas-vindas no Céu.
Interrompeu-se e disse, indicando um ponto acima de mi-
nha cabeça:
– Ela está no canto do quarto; é Júlia; caminha agora; in-
clina-se para ti; eleva as mãos orando. Olha, ela já vai...
Partiu.
Afigurou-se-me, naturalmente, que suas afirmativas eram
visões do estado pré-agônico.
Júlia, porém, tinha morrido efetivamente 11 dias antes.
Durante as suas últimas horas não fez mais que cantar, com
voz que nunca fora tão suave.”
Este episódio apresenta alguma analogia com o caso 12, que
se refere ao delfim Luís XVII. Este havia percebido um canto coral muito harmonioso e reconhecera, entre as vozes que o compunham, a de sua mãe; depois tivera uma atitude que deixa supor lhe tivesse a mãe aparecido pessoalmente.
É o que se nota, também, no caso que acabamos de expor; a
doente percebe um coro de vozes maravilhosas, onde distingue uma que lhe era familiar; logo depois a amiga lhe aparece.
Nos casos desta natureza encontram-se em seguimento as du-
as principais modalidades das manifestações dos defuntos nos leitos mortuários, a propósito dos quais tenho feito observar que a origem transcendental de uma confirma a origem transcenden-tal da outra.
Nos casos que examinamos, a gênese transcendental da apari-
ção de Júlia Webley no leito de morte de sua amiga não parece duvidosa; as hipóteses sugestiva e auto-sugestiva devem ser afastadas da discussão, porque nem a moribunda nem os assis-tentes sabiam de sua morte e a hipótese da “telepatia entre vivos” está eliminada pelo fato de Júlia Webley ter falecido onze dias antes.
Caso 28 – Foi consignado no Journal of the S. P. R., pelo Dr.
Hodgson, que o tinha pessoalmente examinado.
Escreve Miss Sarah Jenkins:
“Em 1845, o Sr. Herwig, um músico alemão de grande
valor, domiciliado em Boston durante muito tempo, morreu
subitamente nessa cidade. Eu era, então, uma menina e só o
conhecia pela sua reputação, tendo-o ouvido muitas vezes
em seus concertos públicos de violino, que despertavam em
mim grande admiração pelo artista.
Minha única relação pessoal com ele consistia em que, no
correr do inverno precedente, época de sua morte, eu o en-
contrava na rua, quase todos os dias, quando ia para a esco-
la. Era puro acaso; mas esses encontros se tornaram tão fre-
qüentes que o músico acabou por notá-los, e sorrir quando
eu passava; em seguida, cumprimentava-me respeitosamen-
te e eu lhe respondia pela mesma forma.
Durante o outono ele morreu de repente; suas exéquias
realizaram-se a 4 de novembro de 1845, na igreja de Tri-
nity, na Rua Sumer.
A cerimônia foi solene e comovente, a ela assistindo to-
dos os músicos de Boston, ao mesmo tempo que grande
número de outros cidadãos eminentes; todos lhe lamenta-
vam a morte.
Eu aí estive com minha irmã e, no meio da cerimônia, fui
tomada do pressentimento inexprimível e inexplicável de
que ele poderia, nesse momento e naquele meio, levantar-se
do ataúde e aparecer entre nós, como se fosse vivo.
Sem prestar atenção no que fazia, tomei a mão de minha
irmã, dizendo quase em voz alta:
– Oh! Ele deve ressuscitar para nova vida!
Minha irmã olhou-me com espanto e murmurou:
– Mas cala-te.
Durante a tarde desse mesmo dia, achava-me na sala de
jantar com minha mãe, minhas duas irmãs e um amigo cu-
bano; falava-se das exéquias solenes às quais tínhamos as-
sistido e minha irmã contou o incidente singular de minha
exclamação, repetindo minhas palavras. De repente, espa-
lhou-se no aposento uma onde de música maravilhosa, co-
mo ninguém entre nós ainda tinha ouvido.
Vi o rosto dos assistentes tomarem uma atitude de espan-
to, quase de medo; eu mesma fui presa de uma espécie de
terror do invisível.
Pela segunda vez se elevaram os sonoros e maravilhosos
acordes musicais, que diminuíram pouco a pouco e desapa-
receram.
Minha irmã e eu nos precipitamos para a janela a fim de
verificar se alguma música passava na rua, mas esta estava
deserta; não se ouvia nenhum ruído além do tamborilar de
uma chuva miúda. Subi, então, as escadas, entrei na saleta
que existia embaixo da sala de jantar; lá estava assentada,
em atitude de quem lia, uma senhora, nossa hóspeda, per-
tencente à seita dos Quakers.
Havia aí um piano e, apesar de vê-lo fechado, perguntei:
– Teria alguém tocado piano?
– Não – respondeu ela –, mas ouvi agora uma música es-
tranha. Que seria?...
Ora, é preciso dizer que nenhuma de nós é supersticiosa
nem o foi nunca; pelo contrário, fomos educadas no me-
nosprezo de almas do outro mundo; também nenhuma pen-
sou em considerar o acontecimento como sobrenatural.
Apesar disso, não podíamos deixar de olhar-nos uns para os
outros, perguntando:
– Que se passou? donde vem esta música?
A Sra. S..., como boa quakeresa, ficou logo muito preo-
cupada e agitada. Quando suas filhas entraram, falou-lhes
do que se tinha passado; deram elas, todas juntas, uma volta
pela vizinhança, indagando se faziam música e a essa hora
da tarde; soube-se, de modo categórico, que ninguém havia
tocado instrumentos de música nem os ouvira tocar na rua.
Aliás, a música que tínhamos percebido elevava-se em
nossa própria ambiência e era diferente de todas as músicas
que temos ouvido. Nesse ponto estivemos todos completa-
mente de acordo.” (Assinado: Sarah Jenkins.)
A irmã da redatora dessa narrativa confirma-a nestes termos:
“Li cuidadosamente a descrição de minha irmã e posso
assegurar que ela é escrupulosamente exata.” (Assinado:
Elisabeth Jenkins.)
O Dr. Hodgson faz a Miss S. Jenkins algumas perguntas; das
respostas extraio os trechos seguintes:
“A Sra. S..., a dama quaker, estava domiciliada momen-
taneamente em nossa casa. Indaguei se alguém havia tocado
piano; não que a música que percebemos fosse igual à do
piano, mas unicamente para ligá-la de algum modo a uma
causa natural.
Pareceu-nos a todos que a música provinha do pavimento
em que estávamos. Ela começou em um canto do quarto e
fez-lhe a volta. Comparei essa música a raios de Sol que se
transformassem em sons, e não podia ainda hoje dar-lhe de-
finição melhor.”
Nesta interessante narrativa seria preciso supor, conforme a
gênese das manifestações telepático-experimentais, que o pen-samento de Miss Sarah Jenkins e dos assistentes, dirigido com vivo pesar para o artista desaparecido, tenha determinado a relação psíquica entre seus espíritos e as pessoas que dele se lembravam.
Daí resultaria que o Espírito do morto, desejando revelar a
sua presença em sinal de gratidão, e não conseguindo manifestar-se diretamente, fê-lo servindo-se do caminho de menor resistên-cia que lhe era traçado por suas idiossincrasias musicais.
O estranho e inexprimível sentimento de que Miss Sarah foi
presa no templo, levando-a a pensar na possibilidade da presença do falecido, no enterro, indicaria que a relação psíquica já se tinha, por essa ocasião, estabelecido entre o defunto e sua admi-radora, já submetida à influência de seu pensamento.
Isso parece ainda mais verossímil se encararmos este fato jun-
to ao outro complementar da música transcendental que se espalhou no ambiente, justamente na ocasião em que a irmã da narradora referia o aludido incidente; dir-se-ia que o Espírito do morto tinha a intenção de sublinhar os fatos que melhor indicava aos percipientes a origem e os fins da música transcendental.
Caso 29 – Esta outra relação, de data muito recente, apareceu
na Light (1921, pág. 622) e apresenta alguma analogia com o caso precedente.
O Sr. Neiburg, de Oakland, no Nebraska, Estados Unidos,
envia a descrição do incidente que se segue, em data de 28 de agosto de 1921:
“Ultimamente, uma música divina, vinda não se sabe
donde e tocada provavelmente por executores celestes, mú-
sica audível unicamente no local em que se realizava e onde
jazia o corpo da filhinha do casal Parker, de Woodlake, en-
cheu de espanto a mesmo de terror os parentes e os amigos
reunidos para a triste cerimônia do enterro.
O Sr. Parker é caixa do Banco Urbano do Estado de Wo-
odlake. Não somente os parentes da morta como os ban-
queiros Ben Mickey e Michael Flammingan e grande núme-
ro de outras pessoas que assistiam às exéquias – uma das
mais solenes que já houve no condado de Cherry – escuta-
ram, maravilhados, essa música celeste, que soou no come-
ço da última cerimônia fúnebre, continuando depois por al-
gum tempo.
Terminada a cerimônia, quiseram todos certificar-se da
proveniência desses acordes maravilhosos, mas em vão. Daí
resulta que sua origem não era terrestre.
A duração do fenômeno foi aproximadamente a de um
trecho musical comum; não passou de cinco minutos.
Os primeiros acordes, muito harmoniosos, só foram per-
cebidos pelos pais da menina morta, os quais supuseram
houvesse um organista no aposento ao lado. Pouco a pouco,
os acordes aumentaram de sonoridade e de força, transfor-
mando-se em ondas musicais cheias de sentimento, inva-
dindo todo o lugar sagrado, com ritmos e temas bem defini-
dos.
Em seguida, eles enfraqueceram lentamente e pareceram
extinguir-se em um eco longínquo; só quando as pompas
fúnebres terminaram, isto é, alguns minutos depois, é que
os assistentes se aperceberam de que o artista invisível não
existia em parte alguma, nem no templo nem em torno de-
le.”
Não é certamente por meio das “alucinações coletivas” que se
podem explicar fatos desta natureza; primeiro, por causa da razão a que já nos referimos: a de que os casos de alucinações coletivas são infalivelmente originados por sugestões verbais e nunca por um fenômeno de transmissão telepática do pensamen-to, como se poderia supor nas circunstâncias dos episódios acima; depois, porque, para auto-sugestionar-se de certo modo, é preciso que o sensitivo conheça a existência da classe de formas alucinatórias às quais deveria ser submetido, sem o que não poderá encontrar-se em condições de atenção expectante.
Ora, como é manifesto que, nos casos que acabamos de ex-
por, nenhum dos assistentes pensava na existência de manifesta-ções de música transcendental em relação com acontecimentos de morte, segue-se que nenhum deles podia estar sujeito a uma forma alucinatória simulando uma classe ignorada de manifesta-ções supranormais.
Uma vez eliminada esta hipótese insustentável, é evidente
que a única solução lógica do enigma é a de supor sempre a presença espiritual de defuntos interessados nos fatos, os quais se esforçaram por fazer conhecer sua presença e, por conseqüên-cia, sua sobrevivência, às pessoas caras que os choravam; e o fariam da maneira que lhes era possível e que é muitas vezes determinada pelas idiossincrasias que os caracterizavam quando vivos e pelas quais lhes foi mais fácil manifestarem-se aos sobreviventes.
Caso 30 – Encontrei-o no Journal of the S. P. R. (volume IX,
pág. 89), que reproduz uma carta do escritor alemão Jean-Henri von Thunen, dirigida a seu amigo Christian von Buttel, para referir-lhe o que se produzia em sua casa depois da morte do seu dileto filho Alexandre, o que se deu em 1831.
Conta ele:
“Na noite de 10 para 11 de outubro, três dias depois da
morte de Alexandre, minha mulher e eu acordamos entre as
duas e três horas da madrugada; minha mulher perguntou-
me se eu não ouvia uma campainha que tilintava sem ces-
sar. Escutei e a ouvi perfeitamente, mas não prestei muita
atenção, supondo que fosse uma ilusão dos sentidos.
Na noite seguinte, à mesma hora, acordamos de novo pa-
ra ouvir ainda o tilintar da mesma campainha, que, desta
vez, parecia soar com bem mais vigor. Achamos ambos que
o som era o de uma sineta pouco harmoniosa, mas em cujas
vibrações havia alguma coisa de musical.
Escutamos muito tempo em silêncio. Pedi, enfim, a mi-
nha mulher que me indicasse qual a direção donde parecia
vir o som; e quando ela indicou exatamente a mesma dire-
ção em que eu o percebia, o coração me saltou no peito, de
espanto.
Meus dois filhos, apesar dos seus esforços de atenção,
não ouviam nada. Na terceira noite, à mesma hora, a mani-
festação renovou-se pontualmente.
Algumas horas depois, à tarde, essa música inexplicável
soou e continuou até meia-noite, para cessar em seguida e
recomeçar às duas horas.
A 18 de outubro, aniversário do nascimento de Alexan-
dre, sons particularmente belos e harmoniosos se fizeram
ouvir. Minha mulher achava no fenômeno grande conforto
espiritual; quanto a mim era transitório o efeito que ele fa-
zia em meu espírito. A incerteza em que ficava quando in-
dagava se essa música era real ou uma ilusão dos sentidos
tornava-me nervoso e agitado, e o esforço contínuo com
que procurava chegar a uma solução entretinha em mim um
estado de contínua tensão espiritual.
Durante quatro semanas, meus sonos foram sem cessar
interrompidos e minha saúde começava a ressentir-se disso.
Recorri a todas as hipóteses e busquei, mesmo, explicar o
fenômeno procurando um laço entre o ritmo da campainha
e o batimento do meu coração, mas nada descobria.
No correr dessas quatro semanas, a natureza da música se
havia radicalmente modificado; tinha adquirido, a princípio,
sonoridade, de maneira que ultrapassava qualquer outra es-
pécie de ruído; à tarde, quando eu intentava ler ou escrever,
constituía um empecilho. O que tinha aumentado em sono-
ridade havia perdido em melodia. Podíamos, então, compa-
rá-la a um grupo de campainhas que tinissem todas juntas.
Depois de certo tempo, minha mulher começou, também,
a desejar o fim das manifestações, porque esse tilintar per-
pétuo a aborrecia e lhe excitava os nervos.
Conforme os nossos desejos, em meados de novembro
elas cessaram completamente; e, desde essa época, nem eu
nem minha mulher pudemos mais perceber qualquer som.
Sua desaparição revelou de novo em mim a dúvida de
que essa pretendida música das esferas não fosse mais que a
conseqüência da depressão de nossos espíritos. Minha mu-
lher começava já a partilhar de minhas dúvidas e isso a tor-
nava desiludida e triste. Eis, porém, que, depois de oito di-
as, a música recomeça com sons mais harmoniosos que
nunca, prosseguindo até o dia de Natal.
Na véspera dessa festa, voltou com extraordinário vigor,
soando límpida, melodiosamente, com uma variedade de
ritmos absolutamente novos.
Cessou ainda depois do Natal. Pensamos que ela se fizes-
se ouvir no dia de Ano-Bom, mas ficamos desiludidos; seu
silêncio prolongou-se durante quase todo o mês de janeiro.
Assim, pois, minha mulher e eu ouvimos essa música nas
mais diversas condições de espírito; tanto quando estáva-
mos preocupados ou abatidos como quando nos víamos
calmos e serenos; quando passávamos bem ou quando nos
sentíamos mal. Essas diferentes circunstâncias não modifi-
cavam sua modalidade e ela nos chegava sempre da mesma
direção. Isso posto, não nos era possível experimentar a
menor dúvida a respeito de sua realidade.
No segundo período de silêncio, acreditamos que a músi-
ca tinha cessado definitivamente. Ao contrário: ela recome-
çou em fins de janeiro, mudando totalmente de natureza.
Não eram mais campainhas que tilintavam, era um concerto
de flautas.
No começo de março, nova mudança; a música tornou-se
particularmente melódica; mas não eram mais flautas que
tocavam, senão um coro vocal com acompanhamento de
instrumentos musicais. Em certo momento, acreditamos
ambos haver apanhado algumas palavras do coro; isso foi,
porém, num instante apenas.
A 21 de março, aniversário de minha mulher, a música
modificou de novo a sua natureza, tornando-se ainda mais
melodiosa e, ao mesmo tempo, produzindo em nós quase
que a sensação de medo.
Nem minha mulher nem eu jamais conseguimos encon-
trar uma analogia com algum som terrestre, capaz de forne-
cer uma idéia do que essa música era para nós.”
Aí terminam as informações confidenciais ao amigo, contidas
na carta a von Buttel; mas o trecho seguinte da biografia de Henri von Thunen mostra que a música misteriosa não deixou de se fazer ouvir até à morte dos percipientes.
“A música misteriosa foi muitas vezes percebida no cor-
rer dos anos seguintes, sobretudo por ocasião dos aniversá-
rios e das outras festas concernentes aos membros da famí-
lia. Ela não se interrompeu, mesmo com a morte da mulher
de Thunen; continuou a deixar-se perceber, como fiel e re-
confortante companheira dos sobreviventes, durante toda a
vida de Herr e de Frau von Thunen.
Estes admitiam que a música, incontestavelmente perce-
bida por seus ouvidos, não lhes fornecia nenhum informe
sobre o desaparecido; reconheciam que suas idéias, seus
conhecimentos não eram mais extensos em conseqüência
dessas manifestações; mas acreditavam que a música era
para eles uma como declaração seguinte: – “Vosso Alexan-
dre sobrevive à morte do corpo” , e essa firme convicção os
fazia felizes.
Tenhamos em conta o que se disse na introdução à quarta ca-
tegoria: em matéria de classificações científicas, não pode haver outro sistema de pesquisa que não o da análise comparada apli-cada aos acontecimentos e nunca a análise de uma só categoria com o esquecimento da classe e ainda menos a de um só aconte-cimento com desprezo dos demais.
É preciso ainda admitir que a hipótese mais bem indicada pa-
ra explicar o estranho caso, que acabamos de expor, é sempre a de supor a presença de uma entidade espiritual ligada aos perci-pientes por liames afetivos.
Deveríamos reconhecer, nestas condições, que as convicções
intuitivas dos percipientes não os devem ter enganado; eles eram de opinião que essas manifestações musicais, desprovidas em si de significação, constituíam uma demonstração da sobrevivência de Alexandre; pode-se mesmo supor que essa convicção provi-nha de uma mensagem telepática análoga, transmitida pela entidade que se comunicava.
Se analisarmos mais a fundo o caso acima, não nos sentiría-
mos mal por assinalar fatos e circunstâncias que mostram perfei-tamente a intenção extrínseca que determinava as manifestações.
Primeiro, a circunstância de haverem as manifestações come-
çado três dias depois da morte do filho dos percipientes – o que mostra ligarem-se de qualquer modo ao acontecimento de morte que se produziu na família. Em seguida, o haverem as sinetas, nos primeiros dias das manifestações, tilintado sempre à mesma hora da noite, achando-se os percipientes acordados a essa hora exata, como para escutá-las; constitui isso outro indício de uma intenção que se esforçava, pondo em ação os meios de que dispunha (isto é, manifestando-se como podia e não como que-ria), para fazer compreender aos percipientes sua presença espiritual.
Nota-se mais, que quando os percipientes se mostraram con-
vencidos da origem transcendental das manifestações, começan-do, porém, a se sentirem perturbados e a desejar-lhes o termo, elas imediatamente cessaram; mas como a cessação do fenômeno reavivou a dúvida dos percipientes sobre sua natureza transcen-dental, ele recomeçou mais vigoroso que antes.
Todas essas demonstrações fazem ressaltar a existência de
uma intenção vigilante que se manifestava com um fim determi-nado: o de convencer os percipientes da presença de uma entida-de espiritual desejosa de se fazer conhecer. E se nos lembrarmos, enfim, de que a música se fazia especialmente ouvir por ocasião dos aniversários de família, somos levados a concluir que essa última prova de uma intenção servia também para designar o defunto que se comunicava: ele só podia pertencer à família na qual se manifestava por traços eloqüentes; ou, mais precisamen-te, ele só podia ser aquele que os sobreviventes indicaram.