Fenômenos de Telecinesia em Relação aos Acontecimentos de Morte

Casos de quedas de retratos e outros objetos

em coincidência com acontecimentos fúnebres

 

Caso 1 – Principio por um exemplo tirado de Mes Mémoires

(Minhas Memórias), de Alexandre Dumas, pai (cap. CXV).

Esse autor conta como, estando uma tarde em casa de seu

amigo Villenave, para dar-lhe uma carta que lhe haviam confia-do a fim de ser entregue a esse amigo, encontrou-o adormecido numa poltrona e às escuras. E continua narrando:

“– Veja – diz-me Villenave – é bem singular... eu tinha

adormecido, o crepúsculo chegou; durante esse tempo ex-

tinguiu-se o fogo. O senhor acordou-me, achou-me sem luz

e sem prestar atenção ao ruído que aqui se fazia... Foi sem

dúvida o ar da porta que passou pelo meu rosto, mas, acor-

dando, pareceu-me ver voltejar, diante dos olhos, qualquer

coisa branca, como uma mortalha... É bem singular, não é?

– perguntou, com um movimento de corpo, como se um ar-

repio lhe corresse pelos membros resfriados.

–Ei-lo aqui, tanto melhor – e estendeu-me a mão.

Respondi-lhe à cortesia, passando-lhe a carta que lhe le-

vava, da mão direita à esquerda.

–Que é que tem aí? – perguntou-me Villenave.

– Ah, perdão, esquecia-me... é uma carta que Françoise

me entregou para dar-lhe e que deu motivo a vir perturbá-

lo.

– Obrigado. Olhe, faça favor, estenda o braço, e dê-me

um fósforo; em verdade, estou ainda muito entorpecido e,

se fosse supersticioso, acreditaria em pressentimentos.

Apanhei os fósforos, que lhe dei, e ele acendeu as cinzas

rubras do fogão.

À medida que o fósforo queimava, espalhava-se a luz no

quarto e, apesar de trêmula, permitia distinguir os objetos.

– Oh, senhor! – exclamei imediatamente – que sucedeu a

seu belo “pastel”?

– Veja: o vidro e o quadro estão quebrados; espero o vi-

draceiro e o enquadrador... É incompreensível!

– Que é incompreensível?

– O modo por que caiu.

– Desprendeu-se o prego? Quebrou-se o aro?

– Nada disto. Imagine que, anteontem, estava tranqüilo

toda a tarde; era meia-noite menos um quarto; sentia-me fa-

tigado e tinha, entretanto, que rever ainda as provas da pe-

quena mas compacta edição do meu Ovídio. Decidi-me a

aliar a fadiga com o trabalho, deitando-me e revendo-as na

cama. Deito-me, pois; ponho a vela na mesa de cabeceira;

reflete-se-lhe o clarão sobre o retrato de minha pobre ami-

ga; seu olhar segue a luz da vela; dou-lhe as boas-noites,

como de hábito... Uma janela entreaberta deixava passar um

pouco de vento; o vento faz vacilar a chama da vela, de

maneira que me pareceu haver o retrato respondido às mi-

nhas boas-noites com um movimento de cabeça igual ao

meu!

Como pode compreender, julguei loucura essa visão de

movimento; mas, visão ou loucura, o caso é que meu espíri-

to se preocupou com o fato; quanto mais penso nele, mais

se me afigura real, e meus olhos, atraídos para um único

ponto, deixam o Ovídio para se fixar no quadro; meu espíri-

to distraído remonta, malgrado, aos primeiros dias da moci-

dade; esses primeiros dias repassam, um a um, diante de

mim... Na verdade! Creio ter-lhe dito, o original desse pas-

tel ocupou grande lugar nesses primeiros dias! Eis-me, pois,

vogando, de velas desfraldadas, nas minhas lembranças dos

vinte e cinco anos; falo à cópia como se o original pudesse

ouvir-me e a minha memória responde por ele e me parece

que o pastel move os lábios; e se me afigura que suas cores

se apagam e que sua fisionomia se entristece e toma uma

expressão lúgubre... qualquer coisa como um sorriso de

adeus passa-lhe sobre os lábios; uma lágrima sobe-lhe aos

olhos e está quase a umedecer o vidro. Começa a soar meia-

noite; estremeço, contra a vontade; por que? não sei! O ven-

to soprava à última pancada da meia-noite; vibrava ainda a

sineta quando a janela se entreabre, violentamente, e eu ou-

ço um frêmito, como um lamento; os olhos do retrato se fe-

cham e sem que se quebre o prego que o sustenta, sem que

o aro se desprenda, cai o retrato e apaga-se a vela. Quis rea-

cendê-la; não havia, porém, mais fogo na fornalha nem fós-

foro na chaminé.

Era meia-noite; todos dormiam na casa; nenhum meio,

por conseqüência, de fazer luz. Fechei a janela e deitei-

me... Sem ter medo, estava comovido; sentia-me triste, ti-

nha grande necessidade de chorar; parecia-me ouvir passar

pelo meu quarto o roçagar de um vestido de seda... Por três

vezes esse ruído foi tão sensível, que perguntei: – Há al-

guém aí?...

Enfim, adormeci mais tarde e, acordando, o meu olhar foi

para o pobre pastel; achei-o no estado em que vê.

– Com efeito – disse-lhe –, é bem estranho. E recebeu,

como de costume, essa carta que recebe todas as noites?

– Não, e isto me inquieta; e por esse motivo recomendei a

Françoise que subisse ou mandasse que subissem logo que

houvesse cartas para mim.

– Mas – repliquei eu –, pode ser esta que lhe trago... – Não é o seu modo de dobrá-las, mas não importa, como

vem de Angers...

Depois, virando-a para romper-lhe o envelope:

– Oh! Deus – disse ele –, está tarjada de preto... Pobre

amiga, sucedeu-lhe qualquer desgraça!

E villenave abriu a carta, empalidecendo. Ela continha

uma segunda. À leitura das primeiras linhas dessa primeira

carta, encheram-se-lhe os olhos de lágrimas.

– Veja – disse ele, apresentando-a –; leia!

E enquanto, triste e silenciosamente abria a segunda car-

ta, tomei a primeira e li:

“Senhor: É cheia de mágoa, aumentada com aquela que

lhe vou fazer experimentar, que lhe anuncio a morte da Se-

nhora ***, domingo último, quando soava a última pancada

da meia-noite.

Tinha ela sido tomada de indisposição, na véspera, no

momento em que lhe escrevia, indisposição que supusemos

ligeira a princípio, mas que se lhe agravou até o momento

de morrer.

Tenho a honra de enviar-lhe, incompleta como está, a

carta que ela havia começado para o senhor. Esta carta pro-

vará que, até o último momento de vida, os sentimentos que

lhe votava ficaram inalteráveis.

Sou, senhor, bem tristemente, como o deve julgar, sua

humilde e obediente serva,

Teresa Miraud.”

– Pois bem, veja – disse-me Villenave – foi à última pan-

cada da meia-noite que o retrato caiu, foi à última pancada

da meia-noite que ela morreu.

Achei que a dor pela qual ele passava não era para as pá-

lidas consolações que eu lhe pudesse dar, mas para uma so-

ledade povoada de recordações.

Tomei o meu chapéu, apertei-lhe a mão e saí. Isso me havia evocado a lembrança de meu pai, que na

noite de sua morte, quando eu era ainda criança, veio acor-

dar-me e, sem encontrar resposta, fiz a mim mesmo esta

pergunta, tantas vezes repetida:

– Por que misteriosos laços a morte está ligada à vida?”

 

Se, no caso acima, o quadro tivesse caído por haver-se o pre-

go destacado da parede, seria legítimo, até certo ponto, atribuir o acontecimento a uma coincidência acidental; mas, ao contrário, como se pôde ver, Villenave faz notar, com espanto, as circuns-tâncias do prego fixado na parede e do aro fixado no quadro, os quais tinham ficado em seus lugares. Ora, estas circunstâncias, insignificantes na aparência, constituem, na realidade, provas em favor de uma intervenção supranormal no incidente que se produziu.

Noto, a esse respeito, que as observações sobre os pregos, os

ganchos e os cordões que se encontram intactos após as quedas dos quadros, constituem a regra nas narrativas deste gênero.

 

Casos 2 e 3 – O Professor A. Alexander, membro da Socie-

dade Inglesa de Pesquisas Psíquicas e residente no Rio de Janei-ro, fez chegar ao Congresso Espiritualista Internacional, que se reuniu em Londres em junho de 1898, um longo relatório de numerosos incidentes supranormais, examinados por ele próprio; entre estes, encontram-se quatro, pertencentes à classe de que nos ocupamos. Começo pelos dois mais simples. O professor Alexander escreve:

“Na casa do Sr. Carlos Jansen, um pequeno retrato de sua

mãe foi projetado em terra no próprio dia em que esta se-

nhora morria na Alemanha. Quando ela estava no Brasil,

havia prometido a um dos seus netos que muito amava, que,

no caso de morrer, anunciar-lhe-ia, fazendo cair o seu retra-

to, e isto, de fato, se deu.

O retrato não estava pendurado à parede, mas colocado

em um móvel e inclinado sobre a parede, onde estava apoi-

ado.

O segundo caso teve por testemunha o Tenente Costa,

que citei a propósito de um outro incidente supranormal.

Tinha ele um irmão chamado Antônio, que morreu durante

a guerra do Paraguai.

Uma noite, antes que sua morte fosse sabida no Rio de

Janeiro, sua mãe estava com disposições para contar casos

de sua infância e quis começar uma frase por estas palavras:

– Quando Antonico nasceu... – mas teve um lapsus lin-

guæ e disse: – Quando Antonico morreu...

Provavelmente, ela já possuía um conhecimento sublimi-

nal do falecimento e isso foi a causa do engano. Como quer

que seja, a genitora ficou sinistramente impressionada com

o fato. E quando as pessoas presentes procuravam conven-

cê-la da futilidade do incidente, ouviu-se um ruído no quar-

to, ao lado, como de um objeto que caísse ao chão. Os as-

sistentes correram e encontraram tombado o retrato de An-

tonico.

Note-se que o retrato estava ligado à parede por dois pre-

gos sólidos e que o cordão que o sustentava se achava em

perfeito estado de conservação.

Pouco depois, chegou o telegrama anunciando a morte do

jovem oficial.”

 

No primeiro dos dois casos acima, observarei a promessa que

a velha senhora tinha feito a seu neto, de anunciar-lhe a morte, fazendo cair o seu retrato – circunstância impressionante, que torna muito improvável a hipótese das “coincidências fortuitas”, em favor da espírita.

Com efeito, se nesse episódio o objeto designado caiu con-

forme a vontade manifestada pela senhora, durante a vida, isso constitui razão demais para crer-se que a vontade da morta não era estranha ao incidente; em outros termos, que ela estava presente espiritualmente. Ao demais, a hipótese telepática não poderia explicar um aviso que se manifesta sob uma forma física, assim como não se poderia explicar que uma força física, propagando-se a distância, por ondas concêntricas, pudesse exercer-se sobre um objeto designado.

O fato, pois, só pode ter por origem a intervenção de uma

vontade que houvesse dirigido a força física.

No segundo caso, noto o curioso incidente do lapsus lingæ

sucedido à mãe do falecido, incidente devido provavelmente ao conhecimento subliminal que ela acabava, talvez, de adquirir, da morte do filho, como justamente o disse o professor Alexander.

Nesse caso, o incidente seria de natureza telepática e se teria

realizado simultaneamente com o outro de natureza física, simul-taneidade de realização que tenderia a provar a identidade de origem das duas formas supranormais de avisos de morte.

Como o aviso telecinésico foi, naturalmente, devido à presen-

ça, no momento, da entidade espiritual do morto, disso resulta que a gênese do aviso telepático não poderia ser diferente.

Teremos, aliás, oportuna ocasião de analisar, a esse respeito,

casos bem mais significativos ainda.

 

Caso 4 – Extraio-o da Light (1898, pág. 55).

Por ocasião da morte do General Henry Havelock-Allan, o

Comandante A. Romler, pertencente à brigada comandada por aquele general, narra um caso telepático que lhe sucedeu, com a visão da cena na qual o general achou a morte. Em seguida, acrescenta ele este outro episódio supranormal, coincidindo com a própria morte do general.

“Uma das circunstâncias mais impressionantes que se li-

gam à morte do pranteado General Henry Havelock-Allan –

morte que se deu nos bosques de Afridiland – foi esta mis-

teriosa coincidência acontecida no quartel do 2º Batalhão de

Fuzileiros de Northumberland e precisamente na sala de re-

feições dos suboficiais.

Esse batalhão pertence à brigada dos voluntários do dis-

trito noroeste da Inglaterra, e desde o dia de sua formação

foi sempre comandado pelo lugar-tenente general mencio-

nado. Haviam-se realizado modificações na sala de refei-

ções; depois de restaurada, foi ornada com o retrato do ge-

neral, oferecido pelo Major Dr. H. Frazer Hust. Ora, esse

retrato destacou-se inexplicavelmente da parede, caindo so-

bre o parque, quarta-feira, 29 de dezembro, às 3:40; era a

hora em que o general tinha deixado sua escolta para conti-

nuar, só, o caminho para Jamrud, através de uma região

inimiga.

No dia seguinte foi encontrado o seu cadáver e a nova te-

legrafada para a Inglaterra.

Quando o aviso do seu fim trágico chegou ao batalhão

dos fuzileiros, o sargento-major e os outros militares pre-

sentes não puderam deixar de notar a relação com o inci-

dente que se havia produzido na sala de refeições – inciden-

te tão estranho e tão incompreensível, que as testemunhas

tomaram nota da hora e do dia em que se produzira.

É preciso reconhecer que a coincidência é extraordinária

e inexplicável, pois que a hora em que o general foi massa-

crado pela tribo rebelde é quase a mesma (posto que não se-

ja possível assegurá-lo de maneira absoluta) que a em que o

retrato caía na sala de refeições dos suboficiais.”

 

O caso acima não contém nada de teoricamente novo; mas

ressalta do meio dos outros por seu valor probatório, em conse-qüência das testemunhas em seu apoio e da data na qual o fize-ram conhecer, isto é, imediatamente depois do acontecimento.

E a grande distância existente entre a região onde se produziu

a morte e aquela em que se verificou o fenômeno de telecinesia – da África do Sul à Inglaterra – prestar-se-ia a considerações mais decisivas a favor da hipótese espírita.

Com efeito, como dissemos, pelo que concerne aos fenôme-

nos telepáticos, devemos renunciar à hipótese das vibrações do pensamento indo ao infinito em ondas concêntricas, porque verificamos que esses fenômenos escapam à lei física do quadra-do das distâncias e que sua intensidade não diminui em conse-qüência do afastamento, quando nenhuma espécie de vibrações poderia subtrair-se a esta lei.

Se somos levados a estas conclusões a propósito dos fenôme-

nos telepáticos, em que as supostas vibrações seriam de natureza psíquica, com mais forte razão a elas seremos arrastados no caso dos fenômenos telecinésicos em que as supostas vibrações seriam de natureza física e, por conseqüência, devem incontesta-velmente estar submetidas à lei física do quadrado inverso das distâncias; é evidentemente absurda e anticientífica a hipótese contrária.

Ora, como os fenômenos de que tratamos escapam inteira-

mente àquela lei, não podemos deixar de concluir que sua natu-reza é diferente e que eles pertencem à classe dos fenômenos supranormais – ou, em outros termos – aos fenômenos espíritas.

 

Caso 5 – No exemplo seguinte, que extraio dos Annales des

Sciences Psychiques (1916, pág. 122), o fenômeno telecinésico, em lugar de realizar-se no momento da morte do agente, produz-se no momento em que a percipiente recebe a notícia de morte – o que sugere novos argumentos em favor da hipótese espírita e em contradição com toda e qualquer hipótese naturalista. O redator-chefe da revista, M. C. de Vesme, escreve:

“Uma literata, a Sra. X., muito conhecida nos meios psí-

quicos de Paris, e a quem não faltava, certamente, espírito

crítico, escrevia-nos, a 4 de novembro de 1915, uma carta

na qual nos falava dos pressentimentos e dos “sinais” que

haviam acompanhado a morte de seu jovem filho, tombado

na segunda-feira precedente, 20 de setembro, no campo de

honra.

Deixemos os terríveis pressentimentos, as angústias súbi-

tas, os sonhos temerosos; a pobre mãe sabia que o filho es-

tava na primeira linha; pode-se, pois, de certa forma, ver aí

uma causa natural.

Mas, na noite de 19 para 20 de setembro, a criada da Sra.

S., que estava na casa havia mais de 10 anos, não pôde

dormir, parecendo-lhe sempre ouvir alguém no quarto ou

tocando várias vezes a campainha; espantada, escondia a

cabeça sob os lençóis.

Contou o que se passava à sua patroa, quando esta, que

esteve ausente durante três dias, chegou a casa.

Na quinta-feira, 23, a Sra. S. soube a dolorosa nova; pre-

cisamente nesse instante, um espantoso ruído se fez ouvir

na sala de jantar e todos para ela se precipitaram; acabava

de cair um grande quadro.

A coincidência do instante exato – escreve-nos a Sra. X.

– é já impressionante, mas há melhor: examinando o cordão

que o sustentava, vimos que ele se havia rompido a 4 cen-

tímetros do lugar em que tocava o prego; neste, o cordão

estava completamente usado, enquanto no outro, no lugar

em que se rasgou, o que se deu foi um arrancamento.

Soube depois que, ferido no domingo, 19 – vigésimo ani-

versário do seu nascimento! – tinha meu filho expirado na

segunda-feira, 20, às 8 horas da noite.”

 

No caso acima, faremos sobressair, antes de tudo, o inexpli-

cável incidente comum à maior parte dos episódios deste gênero, do cordão dilacerado em lugar no qual parecia estar em perfeitas condições de conservação, como se o tivessem arrancado à viva força.

Segue-se, pois, que o incidente não pode ser explicado, recor-

rendo-se à hipótese das “coincidências acidentais”, e que nos achamos em face de um episódio de telecinesia autêntico.

É preciso notar, agora, que o acontecimento de que se trata

sucedeu três dias depois da morte do agente, no momento em que a mãe recebia a lúgubre notícia – o que elimina definitiva-mente, também, a hipótese das vibrações físicas que se propa-gam ao infinito, em ondas concêntricas (caso fossem necessárias ainda outras provas para eliminá-la).

Por outra parte, a mesma circunstância serve para mostrar que

a única hipótese capaz de explicar os fatos consiste em supor-se que a entidade espiritual do filho se achava presente, no momen-to em que a mãe recebia o triste aviso, e quis consolá-la, forne-cendo-lhe um sinal palpável de sua própria presença, pela única maneira que lhe era possível.

 

Caso 6 – Neste outro exemplo, que extraio da relação do

Prof. Alexander, citado mais acima (Light, 1898, pág. 443), o fenômeno telecinésico se complica, pois que se realiza por duas vezes e em dias diferentes, após um acontecimento de morte.

Diz o Sr. Alexander:

“A 9 de maio de 1887, à meia-noite, morreu em São Pau-

lo uma personalidade brasileira, o Dr. Alberto Brandão. Seu

genro, Sr. Coelho Neto, escritor e romancista muito conhe-

cido no Brasil, recebeu a notícia da morte no dia seguinte,

mas nada disse à sua mulher, que estava enferma, de cama.

Ela havia tido, entretanto, uma espécie de aviso telepático

do acontecimento, pois que, ao meio-dia de 9 de maio tinha

ouvido um ruído inexplicável, como se houvessem lançado

com força, no soalho do quarto, em cima, um punhado de

areia.

Às 9:30 horas da noite do dia 10, quando o Sr. Coelho

Neto estava no andar superior, conversando com sua mu-

lher e um amigo, ouviu-se grande ruído em um dos quartos

da frente do pavimento térreo. Coelho Neto correu imedia-

tamente e viu que um grande e pesado retrato do Dr. Bran-

dão, pendurado à parede do quarto, se tinha desprendido e

caído sobre uma cadeira de pau.

Às 11 horas da noite um outro quadro a óleo caiu no sa-

lão, arrastando consigo um terceiro quadro pendurado abai-

xo dele e quebrando alguns bibelôs colocados num consolo.

O cordão que o prendia estava intacto; o prego que o sus-

tentava estava em seu lugar.

O Dr. Brandão morrera em condições econômicas muito

difíceis e havia manifestado desejo de que o genro trouxes-

se para sua companhia duas moças, que ainda estavam sol-

teiras.

Quando Coelho neto se decidiu a recebê-las na família, as

manifestações supranormais de natureza diversa, que se

produziam na casa, cessaram logo...”

 

Este caso é análogo a outro que contei no capítulo IV de mi-

nha obra sobre Les Phénomènes de Hantise, e onde se vêem fenômenos muito violentos se produzirem em casa de um senhor que se havia recusado aceitar o encargo de tutorar os filhos de um dos seus parentes.

Tendo morrido este último, começaram logo as manifestações

tumultuosas e duraram até que o proprietário da casa, impressio-nado, decidiu-se a aceitar o encargo ao qual tinha querido, a princípio subtrair-se.

Da mesma forma, no caso acima, os fenômenos supranormais

cessaram quando C. N. se decidiu a satisfazer o desejo do defun-to, acolhendo em sua casa as duas jovens.

Diante de semelhantes circunstâncias, toda pessoa isenta de

idéias preconcebidas deverá logicamente admitir que se as manifestações supranormais, começadas logo após um aconteci-mento de morte, cessam logo que os desejos do defunto são contentados, é que as manifestações estão em relação com o próprio defunto, implicando sua presença espiritual, e são causa-das pelo fato de se lhe não obedecer ao desejo. Em outros ter-mos: as manifestações tinham por fim impressionar os percipien-tes e levá-los a atender os seus votos – fim, aliás, que foi atingi-do.

 

Caso 7 – Este exemplo é também tomado ao relatório do

Prof. Alexander (Light, 1898, pág. 443). É ainda mais notável que o precedente, porque o fenômeno de telecinesia – um retrato que cai – se realiza como conseqüência de haver alguém nomea-do, ou, mais precisamente, evocado o morto representado pelo retrato.

Escreve o Prof. Alexander:

“É preciso notar, de começo, que, em fins de 1896, havia

certa agitação política no Rio de Janeiro, por causa de um

pedido de indenização por parte da Itália.

O protocolo italiano tinha sido aprovado pela Câmara

brasileira em primeira e segunda discussão para ser, em se-

guida, rejeitado na terceira, em virtude da pressão exercida

sobre os deputados pelo elemento militar.

Entre os numerosos cidadãos que acompanhavam a ques-

tão, apaixonadamente, estava o professor X., da Escola Po-

litécnica. Republicano rígido, mostrava-se indignado com a

intromissão do Exército em questões políticas, cuja solução

pertencia ao povo por intermédio de seus representantes, e

não ao Exército.

Um dia, à hora do almoço, quando ele discutia com ani-

mação por causa da interferência anticonstitucional das for-

ças armadas, fez alusão a uma época anterior da história

brasileira (1832), quando o regente de então, o Padre Feijó,

havia despido as vestes sacerdotais, armara os cidadãos e

esmagara inexoravelmente a tropa insubordinada.

Acrescentou que deplorava que o Padre não existisse

mais para sufocar uma vez, ainda, os usurpadores atuais dos

poderes públicos. Enquanto ele assim falava, ouviu-se no

aposento contíguo o ruído da queda de um objeto. Sessenta

quadros de retratos estavam alinhados nas paredes da sala;

representavam as mais ilustres notabilidades políticas, lite-

rárias e científicas do Brasil. Um desses retratos se tinha

desprendido da parede e caído sobre a biblioteca, embaixo:

era o retrato do Padre Feijó.”

 

Sendo indiscutível o fenômeno dos retratos que caem em re-

lação com o óbito daqueles que representam, julgo que não se possa atribuir a uma “coincidência fortuita” o episódio de que se trata, embora apresente caráter excepcional.

Se algum dos 60 retratos que ornavam a sala tivesse tombado

no momento em que o Professor X. falava favoravelmente de uma personagem compreendida na coleção, o acontecimento deveria, então, ter sido encarado como resultante de uma “coin-cidência acidental”. Mas o retrato caído era precisamente o da personagem evocada naquele momento: não é fácil atribuir o acontecimento a simples acaso, sem ultrapassar os limites da verossimilhança. Em todo caso, esta suposição não poderia constituir mais que uma opinião pessoal e não um parecer funda-do sobre o cálculo matemático das probabilidades.

No ponto de vista da hipótese espírita, no entanto, este caso

não ofereceria nada de excepcional nem de inverossímil; com efeito, sabe-se que, conforme esta hipótese, o fato de se pensar intensamente em um morto teria por conseqüência estabelecer instantaneamente uma relação psíquica com seu espírito – o que está provado por numerosos exemplos de natureza telepático-experimental.

No caso vertente dever-se-ia supor que, em virtude da evoca-

ção intensa e simpática da personagem falecida, formou-se uma relação psíquica entre o Prof. S. e o Espírito do eclesiástico, que quis dar um sinal de sua presença e de sua aprovação, provocan-do um fenômeno supranormal ligado a seu retrato.

 

Casos 8 e 9 – Extraio os dois casos seguintes do recente livro

de Camille Flammarion Autour de la Mort (págs. 285 e 349). Não oferecem nada de excepcional, mas me decido a citá-los para retificar uma hipótese proposta por Flammarion para exem-plificação desses acontecimentos.

Mlle. Vera Kunzler, de Nápoles, escreve nestes termos, em

data de 27 de outubro de 1920:

“Em começo do ano de 1917, minha tia, Paulina

Riesbeck, tinha seu marido na carreira das armas; mas, co-

mo ele tivesse mais de 40 anos de idade, acreditavam-no

nas linhas da retaguarda e, por conseguinte, não havia mo-

tivo de preocupações.

Na manhã de 12 de fevereiro, minha tia entrou em seu

quarto, às 10:30, para procurar alguma coisa. No momento

preciso em que ela atravessava a soleira da porta, o retrato

que o representava, em uniforme, destacou-se da parede,

caiu e, resvalando pelo soalho, chegou-lhe até aos pés.

Examinados o prego e a corda que mantinham o quadro,

verificou-se que estavam intactos. Minha tia, muito impres-

sionada, contou esse fato singular a alguns conhecidos, di-

zendo temer que tivesse acontecido alguma desgraça ao

marido.

Naturalmente, responderam-lhe o que é de hábito dizer

nessas ocasiões:

“Meu Deus, senhora, vai tornar-se supersticiosa? Não

creia nessas tolices.”

Mas minha tia, persuadida que tinha sucedido uma des-

ventura, fez, nessa data, uma cruz vermelha em seu calen-

dário e esperou durante três semanas notícias de seu mari-

do.

No começo de março soube que meu tio, Adolfo

Riesbeck, morrera no “campo de honra”, como se diz, com

uma bala na cabeça, isto na manhã de 12 de fevereiro, às

10:30. – Vera Kunzler.

P.S.: Posto que conheçais estes fatos, caro mestre, e que

não duvideis de minha palavra, pedi a minha tia, atualmente

em Nápoles, que confirmasse minha narrativa.

Eis o seu autógrafo:

“Certifico a absoluta exatidão da narrativa acima.”

(Assinado: Paulina Riesbeck, Rua Liotard, em Genebra.)

 

O outro caso citado por Flammarion teve por protagonista a

sua própria mãe, que escreveu ao filho, nos seguintes termos:

“Uma noite, em St. Thiébault, em nosso quarto de dor-

mir, fomos acordados por grande ruído, ouvindo cair um

espelho que estava na chaminé, assim como o porta-relógio

de teu pai. Levantei-me e verifiquei que o espelho tinha ca-

ído sobre o fogão, estando o relógio jogado no chão, de um

lado, e o porta-relógio do outro.

Pensei que estava tudo quebrado e, palavra, muito des-

gostosa, deitei-me sem olhar mais nada.

De manhã, ao levantar-me, verifiquei que não se havia

quebrado coisa alguma...

Nessa mesma manhã o carteiro nos trouxe uma carta

anunciando-nos a morte da tia Boyet, irmã de meu pai, fa-

lecida à noite em Montigny.

A coincidência é pelo menos estranhável. Tu sabes que

tínhamos muito de que nos queixar da conduta de minha

cunhada para conosco.”

 

Flammarion acrescenta a esta narrativa os comentários se-

guintes:

“Nada quebrado! Esses fatos são verdadeiramente singu-

lares.

Tudo se passa como se houvesse o intuito de chamar a

atenção. Não parece, entretanto, que estas manifestações se-

jam voluntárias, conscientes; neste caso não teria significa-

ção nenhuma. A distância de Montigny a St. Thiébault é de

23 quilômetros, em linha reta. Parece-me bem, depois de

centenas de revelações que me têm sido dirigidas, que estas

transmissões são de natureza elétrica.”

 

Mais adiante, às págs. 308 e seguintes, Flammarion explica

melhor seu pensamento, pelos reparos seguintes:

“Para os fenômenos subjetivos não temos outras explica-

ções além das transmissões psíquicas que conhecemos;

mas, para os deslocamentos reais, os movimentos verifica-

dos, é natural que pensemos na eletricidade, tendo o cuida-

do de declarar que ignoramos absolutamente a natureza

dessa força. quantos exemplos poderíamos citar em apoio

dessa assimilação!... Como quer que seja, podemos pensar

que a eletricidade goza de papel importante nos fenômenos

aqui estudados.”

 

Tal é a opinião de Flammarion, que propõe, em suma, uma

hipótese muito semelhante à “vibratória”; acreditamos, por conseqüência, que não será difícil demonstrar que ela não é fundada.

Bastará, com efeito, observar que as ondas elétricas são sub-

metidas à lei física e se propagam em razão inversa do quadrado das distâncias, enfraquecendo à medida que avançam ao espaço, até se extinguirem praticamente; sabe-se, no entanto, que tal não se produz nunca com a energia telecinésica e telepática, que é tão ativa a 5.000 quilômetros de distância como o é a alguns metros somente. Isso prova que na base dos fenômenos de telecinesia deve encontrar-se uma força, ou melhor, uma faculdade, não de natureza física, mas psíquica, pois que se pode transferir instan-taneamente a uma distância qualquer sem se dissolver; essa faculdade deve ser também sensível e consciente, dada a possibi-lidade de utilizar a “energia mediúnica” (subtraída, provavel-mente, de algum sensitivo), para exercê-la sobre determinada pessoa, com um fim geralmente manifesto.

Todas essas considerações obrigam-nos a admitir que esta

“faculdade psíquica, sensorial e consciente” consiste na presen-ça, no lugar, da entidade espiritual do morto, interessado na questão.

Esta conclusão é plenamente imposta pelos fatos expostos até

aqui e ela se imporá, ainda, principalmente, por aqueles que se vão seguir.

Com efeito, muitas vezes os fenômenos telecinésicos, em vez

de se realizarem no momento da morte do agente, produzem-se na ocasião em que seus familiares recebem a notícia, quando, necessariamente, as pretendidas ondas elétricas se deveriam ter perdido desde muito. Em outras ocasiões, os fenômenos, depois de realizados no momento da morte, prosseguem até que haja sido satisfeito o desejo expresso pelo defunto em seu leito de morte – o que torna evidente a intenção do morto de impressio-nar os vivos para os arrastar a cumprir-lhe os votos.

Quanto à objeção de que os meios, pelos mortos adotados,

para atingirem os seus fins, parecem vulgares ou absurdos, é preciso não esquecer que esses mortos se manifestam como podem e não como querem.

Reservo-me para chegar a este ponto nas conclusões desta

obra; mas os reparos que aqui ficam bastam para mostrar que a tese de Flammarion não é sustentável.

Ele se enganou por haver julgado por exemplos não adequa-

dos, realizados a pouca distância do moribundo e sem conter os indícios manifestos de uma intenção diretiva dos fenômenos.

 

Caso 10 – Extraio-o da Revue Scientifique et Morale du

Spiritisme (1906, pág. 742). Em minha coleção é o fenômeno de telecinesia único em seu gênero, provocado por um vivo. O fato foi transmitido ao diretor da Revue, Gabriel Delanne, pelo Dr. Breton, com o pedido de não declarar os nomes dos protagonis-tas, que se acham, aliás, no relato.

“O pintor Dubois Menant, muito conhecido, veio passar

dois meses em Nice. Alojando-o em minha casa, tive o pra-

zer de agradáveis horas de palestra com esse adiantado es-

piritualista, que me contou um fato psíquico. Dou-lhe a pa-

lavra.

“Devia vir ao meu estúdio, em Paris, a 20 de março de

1904, a Sra. J... Fazendo os meus preparativos às 2:35, per-

cebi que o cavalete, que suportava o retrato em pastel da

Sra. V... seria mais cômodo para meu trabalho do que o que

estava disposto para esse fim. Fiz, pois, a mudança.

O retrato estava em um quadro oval e sob um vidro ordi-

nário, esperando seu lugar definitivo. Nesse momento expe-

rimentei sensação estranha, muito forte, com a intuição de

que iria suceder um acidente, qualquer que fosse o meio

que eu empregasse para evitá-lo. Convenço-me que ele vai

rolar até o chão e quebrar-se. Ensaio pô-lo em equilíbrio e

me preparo para apanhar dois calços a fim de assegurar-lhe

a estabilidade; apenas, porém, voltei a cabeça, ouço um

formidável ruído: era o retrato que jazia em terra, sob os

destroços do vidro e do quadro quebrado.

Levantei cuidadosamente todos os pedaços de vidro e ve-

rifiquei, com satisfação, que o retrato tinha apenas um arra-

nhão na maçã da face direita; temendo que o papel estivesse

furado, passei delicadamente o dedo no lugar do acidente, e

foi com grande alívio que pude certificar-me de que essa ar-

ranhadura não ia além da superfície do papel; tudo se redu-

zia, pois, a um simples acidente material do vidro e do qua-

dro, facilmente reparável.

Olho o relógio; são 2:45; o meu modelo chega.

Feito o retrato, a Sra. J... me marca uma reunião às 9 ho-

ras da noite, com alguns amigos.

À minha chegada, dizem esses senhores: – Conhece o endereço da Sra. V...?

– Sim, Rua do Mercado, 43 (Marché), em Newilly.

– Ah! Tanto melhor, não é ela.

– Por que? Que há?

Esses senhores me mostram, então, o número de La Pres-

se, dessa mesma tarde, dando notícia de um acidente acon-

tecido durante o dia, às 2:45 (domingo, 20 de março), no

Metropolitano, e entre os feridos o jornal citava uma Sra.

V... moradora na rua Philippe-le-Boucher, que tinha sido

atingida por pedaços de vidro na face.

O endereço que eu conhecia não correspondia ao dado

pelo jornal e daí concluírem esses senhores que o acidente

nada tinha que ver com a Sra. V..., de nossas relações, mas

com outra pessoa do mesmo nome.

Afirmei, então, que o acidente devia ter acontecido, de

fato, com a Sra. V..., a que conhecíamos, e não a outra, e

indiquei finalmente o lugar da ferida, acrescentando que

iria ver a senhora no dia seguinte.

Diante do espanto geral, não mais insisti, e no dia seguin-

te, segunda-feira, 21 de março, fiz a visita projetada.

Encontrei essa senhora com a cabeça envolvida em atadu-

ras; tinha sido ela mesma a vítima do acidente relatado pelo

jornal; houvera sido atingida na maçã da face direita por um

pedaço de vidro, que lhe dera um talho superficial na pele,

exatamente no ponto do retrato.

O acidente se verificara às 2:45, exatamente no momento

em que o quadro caía do cavalete.

O erro de endereço se devia ao fato de que essa senhora

habita uma casa fazendo ângulo com as duas ruas, do Mer-

cado (Marché), e Philippe-le-Boucher; o repórter tinha in-

dicado a segunda, em lugar da primeira.”

 

Nos comentários que o Dr. Breton aduz a esse respeito, de-

monstra que não se podia tratar de “coincidência acidental” e nota entre outras coisas:

1º) Coincidência de hora – foi às 2:45 que a Sra. V... foi fe-

rida e é nesse momento que o retrato cai do cavalete;

2º) Coincidência do agente vulnerante – vidros dos dois la-

dos;

3º) Coincidência da profundidade da ferida, que só atinge a

parte superficial da pele do rosto da Sra. V..., e no pastel não passou de uma arranhadura;

4º) Coincidência exata de localização, visto como a ferida da

Sra. V... e o arranhão do pastel foram ambos à maçã da face direita.

Eis coincidências. Ora, não parece que essas quatro or-

dens de fatos concordantes possam ser logicamente atribuí-

das a simples coincidência; há outra coisa! há um laço entre

os fenômenos experimentados pela Sra. V... e os fenômenos

produzidos no retrato.

 

Tal é o comentário do Dr. Breton e não se pode desconhecer a

lógica do seu arrazoado. Por conseqüência, se excluirmos a hipótese das “coincidências atuais”, a que outra hipótese pode-mos recorrer para explicar esse episódio excepcional de telecine-sia realizada por um vivo?

Antes de responder a essa questão é útil expor algumas con-

siderações de ordem geral, porque o episódio é teoricamente importante, visto como demonstra que o princípio fundamental em que está baseada a hipótese espírita é justo, também, quando se trata de fenômenos de telecinesia. O mesmo é dizer que todas as manifestações supranormais que se produzem com o auxílio do Espírito desencarnado devem produzir-se também por inter-médio de um Espírito encarnado, posto que de forma mais atenuada e somente em circunstâncias especiais.

Animismo e Espiritismo representam os dois aspectos com-

plementares de uma questão única que não é possível dividir.

Têm-se visto sábios, apesar disso, emitir a opinião de que se

se chegasse a provar a origem positivamente anímica de certos fenômenos mediúnicos, pertencendo a algumas classes especiais consideradas até aqui como tendo origem espírita, a hipótese espírita tornar-se-ia supérflua e deveria cair irreparavelmente. A existência de comunicações mediúnicas entre vivos teria, por exemplo, o poder de opor-se à classe das comunicações mediú-nicas com os mortos.

Nada mais falso que esta conclusão; dever-se-ia, ao contrário,

seguir neste assunto um arrazoado indutor bem diferente.

Com efeito, se o homem possui um espírito que sobrevive à

morte do corpo, é que ele é incontestavelmente provido de sentidos e faculdades espirituais aptos à ambiência que o espera; esses sentidos, essas faculdades devem, pois, existir já em estado latente, na subconsciência humana, esperando surgir e funcionar em uma ambiência espiritual, da mesma forma que os sentidos existem já no embrião, esperando surgir e funcionar na ambiên-cia terrestre.

Ora, se esses sentidos e essas faculdades existem nos escon-

derijos da subconsciência humana – o que se dá realmente – eles deverão, em momentos excepcionais de crise orgânico-funcional, manifestar-se por traços fugitivos no curso da existência terrestre e funcionar pela maneira transcendental pela qual funcionam depois da morte corporal. Se assim acontece, é natural que se produzam, de modo fragmentário, os mesmos fenômenos que se realizariam pela interferência de um Espírito desencarnado.

Se isto não se produzisse no correr da existência terrestre, não

teríamos o direito de afirmar a sobrevivência da alma, mesmo em face das manifestações espíritas, porque estas nada teriam de comum com a natureza humana.

Essa falta de relação entre as duas formas de existência auto-

rizaria, ainda, a atribuir as manifestações mediúnicas a entidades espirituais existentes no espaço; não haveria razão para atribuí-las a Espíritos humanos desencarnados.

Em conclusão: os fenômenos anímicos, longe de poderem ser

opostos à hipótese espírita, a confirmam, a apóiam e lhe são o complemento necessário.

Nessas condições, resta-nos aplicar ao caso referido as dedu-

ções que acabamos de expor, notando que se a Sra. V... chegou a manifestar-se a seu amigo pintor, produzindo um fenômeno de telecinesia análogo ao provocado pelos moribundos e pelos mortos, significa isso que, em conseqüência do acidente ferroviá-rio no qual foi ferida, caiu provavelmente em síncope, por alguns instantes, o que determinou um fenômeno de bilocação: o seu corpo espiritual, orientado por sua vontade, transportou-se ao atelier do seu amigo pintor, ao qual manifestou a sua presença, comunicando-lhe o acidente que lhe tinha acontecido, e exercen-do uma ação supranormal sobre o retrato, como acontece com os moribundos e agonizantes.

Por que não se daria o mesmo nos dois casos? Não são idên-

ticas as condições? Não é a mesma entidade espiritual que age em ambos?

 

Caso 11 – Esta narrativa faz parte de uma carta na qual a

Condessa Elisabeth Beni expõe alguns fenômenos supranormais acontecidos com sua mãe e consigo própria. (Luce e Ombra, 1919, pág. 23.)

“Entre os fenômenos sucedidos comigo, posso citar um.

Em 1900, estava como aluna numa instituição de Chelte-

nham, chamada Ladies College (Colégio das Senhoras).

Uma noite de junho – não me lembra o dia preciso –, en-

quanto eu velava, ouvi cair no chão um livro que se achava

sobre a mesa. Na manhã seguinte, ao apanhá-lo, espantei-

me, porque o livro, estando sobre a mesa, não podia cair, a

menos que fosse deslocado por alguém. Era um presente de

um velho bispo protestante, pai de algumas moças minhas

amigas e autor do livro.

Algumas horas depois, fui à escola e soube que o Bispo

Gott tinha morrido repentinamente em sua casa, em

Trenyton, Cornouaille, na véspera desse dia.”

 

Neste caso, a ação telecinésica da parte do defunto, em lugar

de se exercer sobre um retrato, seria exercida sobre o livro do qual ele era o autor – o que parece muito natural e não modifica, de forma nenhuma, a questão a resolver.

 

Caso 12 – No caso seguinte, vê-se o fenômeno telecinésico

exercer-se sobre um grande balancim de relógio. Encontro-o nos Proceedings of the American S. P. R. (1885-1889, pág. 433).

Os nomes dos protagonistas não são publicados, mas a dire-

ção da Sociedade os conhece.

A Srta. M. O. A. envia esta narrativa em data de 8 de feverei-

ro de 1888:

“Uma noite de outono último, sucedeu-me ter um sonho

estranho e curioso e que, pela coincidência dos aconteci-

mentos, produziu em mim profunda impressão.

Sonhei que meu tio materno tinha morrido, que eu tinha

estado em Brooklyn a fim de assistir-lhe às exéquias e que

tivera o grande pesar de chegar bastante tarde; a cerimônia

já estava terminada e o corpo não estava mais na casa. No

sonho vi minha tia e minhas primas, mas não tive tempo de

conversar com elas, porque fui acordada em sobressalto por

uma pancada muito forte, como de um corpo pesado que

caísse ao chão.

Essa pancada não fazia parte do sonho; era um fato real,

embora eu não pudesse imediatamente perceber a causa de

semelhante ruído.

Na manhã seguinte contei o sonho aos meus parentes e

fiquei com o pressentimento de que não tardaria a receber

más notícias.

Logo depois, percebi que o ruído tinha sido produzido

pela queda de um grande balancim do relógio de parede,

colocado no salão ao lado.

Passaram-se dois dias sem notícias; na manhã do terceiro

dia os jornais anunciaram a morte de meu tio paterno e não

a do materno – morte que se realizara na noite do sonho.

Era bastante tarde para ir às exéquias.

Por motivos que ignoro, a triste notícia não me fora co-

municada; mas o sonho me havia prevenido, talvez na pró-

pria hora do falecimento.”

 

A irmã da percipiente, a Sra. Isabel A., confirma esse aconte-

cimento nos seguintes termos:

“Eu estava, então, em casa de minha irmã e me lembro

perfeitamente do sonho que ela me contou, perguntando-

me, além disso, se não tinha ouvido, durante a noite, um ru-

ído muito forte, como de um objeto muito pesado caído no

solo.”

 

A Sra. Elisabeth B. H. conta:

“Narrou-me a Srta. A... o sonho que acabava de ter em

relação com a morte do tio, a qual se dera na própria manhã

em que sonhara.

Quanto ao ruído produzido, nessa noite, pelo balancim,

também o ouvi.”

 

A circunstância, no caso acima, de haver-se produzido o fe-

nômeno telecinésico simultaneamente com um sonho telepático, anunciando a morte do tio da percipiente e prenunciando que ela não poderia assistir às exéquias do defunto, fortalece a realidade do fenômeno telecinésico, tornando improvável a hipótese das “coincidências fortuitas”.

Quanto ao fenômeno em si próprio, é ele absolutamente aná-

logo, no ponto de vista teórico, aos outros já relatados.

Casos de relógios que param

em relação com acontecimentos de morte

 

Passando agora a examinar os fenômenos de telecinesia que

se manifestam sob a forma de relógios que param, em relação com acontecimentos de morte, torna-se necessário esclarecer que deles há poucos exemplos nas revistas e livros metapsíquicos, embora, ao que parece, essa espécie de manifestações esteja entre as mais freqüentes da fenomenologia de que nos ocupamos.

Isso acontece, provavelmente, por causa do motivo já menci-

onado – o de que, sob o ponto de vista probatório, esta classe de fenômenos pode ser facilmente explicada pela hipótese das “coincidências acidentais”.

Desejo, pois, que minha publicação possa servir para fazer

compreender o interesse teórico que apresentam os casos desta natureza e demonstrar, ao mesmo tempo, que esses incidentes não devem ser tomados separadamente, mas cumulativamente.

Sem dúvida, não se pode conceder valor probatório ao caso

insulado de um relógio que pára em coincidência com um acon-tecimento de morte; mas cem casos de coincidências análogas apresentam valor muito grande, tanto do ponto de vista de sua existência como fatos, como do ponto de vista teórico.

Reportar-me-ei apenas a cinco exemplos desta espécie, por-

que a messe recolhida não é abundante e porque os incidentes são quase sempre contados de forma muito anedótica para que possam ser recebidos em uma classificação de fatos.

 

Caso 13 – Foi publicado pela Light 898, pág. 225). Conta o

Sr. E. B. Mac Mellan:

“Um de meus amigos observou que o velho relógio de

pêndulo, que estava em perfeito estado de conservação e

havia, constante e irrepreensivelmente, preenchido sua tare-

fa de assinalar o tempo, parara havia dois ou três minutos

após a morte da mãe de meu amigo.

Um familiar, presente, notando que a doente estava nos

seus últimos momentos, tinha olhado para a hora, nesse re-

lógio, colocado no quarto contíguo, e percebera-lhe perfei-

tamente o movimento.

Depois que a agonizante entregou a alma, ele voltou a

olhar a hora, a fim de registrar o instante exato do faleci-

mento; com grande surpresa verificou que o relógio tinha

parado nesse curto intervalo de tempo.

Observou-se, ainda, que tinha corda.

A família acreditou que o incidente fosse produzido por

uma inteligência extrínseca, tanto mais quanto a morta era

ardente espírita.”

 

Neste primeiro exemplo, o fenômeno telecinésico realizou-se

na própria casa em que se deu o óbito – o que constitui a regra nessa espécie de fatos.

Devo, entretanto, notar que essa regra comporta exceções

numerosas, nas quais há grandes distâncias entre a casa em que se realiza a manifestação telecinésica e a em que se produz o acontecimento de morte.

Essas exceções, também nestas eventualidades, servem para

eliminar a hipótese de uma força física que se desprende do moribundo e se propaga ao longe por ondas concêntricas, pois que deveria estar então submetida à lei física do quadrado inver-so das distâncias e ser praticamente nula além de certo limite.

Em realidade, tal não se produz no fenômeno de que nos ocu-

pamos, conhecendo-se incidentes realizados dum continente a outro.

Não se pode, pois, desconhecer a existência de uma intenção

nas manifestações dessa outra forma de fenômenos telecinésicos, como não se poderia desconhecer nas manifestações análogas sobre quadros e retratos.

Se o fenômeno dos relógios que param parecesse a alguém

ainda mais banal ou vulgar que o outro, seria bom repetir que a personalidade espiritual dos trespassados se manifesta como lhes é possível e não como quer.

Se eles desejam, por conseqüência, consolar e encorajar as

pessoas que lhes são caras, dando sinal de sua presença, devem sujeitar-se às leis da existência espiritual, que não comportam relações diretas com o mundo dos vivos, e necessariamente recorrer aos meios restritos de que dispõem.

Em qualquer caso, o fenômeno, mesmo vulgar, pode tornar-se

uma demonstração solene da existência e da sobrevivência da alma, se chegar a convencer os que moram aqui na Terra, da presença espiritual do desaparecido.

 

Casos 14 e 15 – Foram recolhidos ambos pelo Senhor Hol-

land, correspondente do jornal Philadelphia Press, e publicados pela Light (1898, pág. 225).

“Há dois dias, na cidade de Filadélfia, produziu-se um in-

cidente supranormal muito bem documentado e que será

comunicado à Sociedade Inglesa de Pesquisas Psíquicas.

Na parte baixa da cidade existe um hotel célebre, porque

há 70 anos aí se reúnem homens muito conhecidos por seu

talento e suas riquezas, e por vezes senhoras de famílias

ilustres. Freqüentavam-no, ultimamente, os membros da

família Vanderbilt, para saborear os famosos bifesteques,

contornados de batatas fritas, em um meio que não mudou

desde o dia em que foi descoberto o lago Erie.

O proprietário, filho do construtor do hotel, morreu há

dois dias e logo depois de sua morte notou-se com surpresa

que o velho relógio, colocado no dia da fundação da sala

principal, tinha parado na hora justa em que o proprietário

morrera.

Como acabo de dizer, este fato será comunicado à Socie-

dade Inglesa de Pesquisas Psíquicas, apoiado com a neces-

sária documentação.

Em todo caso, eis outro acontecimento análogo, de que

não se falou publicamente até aqui e cuja autenticidade é

não menos incontestável.

Ele teve por protagonista o juiz de Washington, Jerry

Wilson, que ninguém acusará de ser supersticioso ou sim-

patizar com os que declaram compreender e explicar as

manifestações supranormais.

Entretanto, ele verificou, recentemente, um acontecimen-

to semelhante ao anterior, que narra algumas vezes, sem lhe

tirar as deduções teóricas.

O Juiz Wilson tinha um amigo íntimo, residente em Wa-

shington, que se habituara a enviar-lhe, todos os anos, um

presente, por ocasião das festas do Natal.

Era ele um colecionador apaixonado de objetos antigos e

mostrava muito bom gosto na escolha.

Em uma dessas ocasiões, enviara ao Juiz Wilson um re-

lógio raro e curioso, que tinha comprado na Europa. O juiz

pendurara-o em seu quarto, colocado no 3º andar da casa, e

lá ficou o relógio muitos anos, regulando sempre perfeita-

mente.

Há algum tempo, sucedeu ao juiz acordar certa noite

bruscamente, quase para verificar que tinha cessado o ale-

gre tique-taque do relógio.

Ele dormiu pouco tempo depois. Na manhã seguinte no-

tou que as agulhas do quadrante haviam parado às 2:10.

Não pôs novamente em marcha o aparelho, acreditando

que, se o mesmo havia parado sem causa especial, é que ti-

nha necessidade de conserto. Mas, ao ir almoçar, foi infor-

mado de que o amigo morrera, nessa mesma noite e preci-

samente às 2 horas.

Ainda hoje o relógio do Juiz Wilson jaz na parede do seu

quarto, marcando constantemente 2:10; seu proprietário não

lhe quis tocar para conservar a lembrança desse memorável

acontecimento.

Quando mostra o relógio a algum amigo, pergunta-lhe:

– Crê que se trata de pura coincidência?”

 

Nos dois casos acima, o primeiro não difere do exposto pre-

cedentemente.

No segundo nota-se esta circunstância: o fenômeno teleciné-

sico produziu-se de uma casa a outra da mesma cidade de Wa-shington; não é indicada a distância exata entre os dois pontos.

Esta circunstância não deixa de ter importância; com efeito,

se é teoricamente admissível que um moribundo desprenda uma força física capaz de fazer parar um pêndulo a pouca distância do leito mortuário, parece absurdo admiti-lo quando o fenômeno se realiza de uma a outra casa.

Para aqueles que forem levados a conceder tal extensão a essa

teoria, faremos seguir um caso no qual o fenômeno se realiza a mil quilômetros de distância – o que equivale a eliminar definiti-vamente a hipótese vibratória, também com relação às pêndulas que param concomitantemente com acontecimentos de morte.

É evidente, entretanto, que se um relógio pára ou se um qua-

dro se destaca da parede sem nenhuma causa natural, isso prova que um centro de força sui generis, dirigido por uma vontade, qualquer que seja, exerceu-se efetivamente sobre esse ponto.

No que concerne ao problema da vontade dirigente, não pare-

ce que seja possível imaginar outra hipótese que não a espírita.

Quanto ao outro problema, que diz respeito à gênese do cen-

tro de força à disposição da vontade dirigente, chegaríamos a resolvê-lo por duas hipóteses, provavelmente tão bem fundadas uma como a outra, e que podemos aplicar aos casos, segundo as circunstâncias.

A primeira é que o corpo espiritual conserva, durante um cur-

to espaço de tempo, uma força suficiente para a produção dos fenômenos telecinésicos; a segunda é que o defunto subtrai, por vezes, dos organismos dos assistentes a força física necessária.

 

Caso 16 – Extraio-o dos Proceedings of the American S. P.

R. (1882-1889, pág. 429).

É um incidente rigorosamente examinado, no qual o fenôme-

no telecinésico se produz simultaneamente com outro de nature-za telepática.

O percipiente, G. W. Fry, empregado da estrada de ferro, es-

creve:

“Eu morava há muito tempo com meu irmão Gedeon, ha-

vendo por isso, entre nós, relações de associação íntima,

como não podiam existir entre outros membros da família.

Na sexta-feira, 2 de dezembro de 1887, recebi um tele-

grama proveniente de Big Rapids, no qual se me anunciava

que ele estava gravemente enfermo, e que não viveria, pro-

vavelmente, mais 24 horas ainda.

Eu bem sabia dos seus sofrimentos, mas ignorava que se

encontrasse em tão desesperadora condição.

Como não podia abandonar minhas funções para correr à

sua cabeceira, sentia-me profundamente abatido, pensava

nele constantemente, e no domingo, 4 de dezembro, fui à

igreja para orar em sua intenção.

Na tarde de domingo, depois de ter assistido, na igreja, à

cerimônia religiosa, achei-me na obrigação de escrever-lhe.

Enquanto estava ainda na minha escrivaninha, percebi que

o relógio, pendurado na parede em frente – e que lhe per-

tencia – havia parado.

Levantei-me para certificar-me e, olhando a hora no meu,

verifiquei que a parada se dera havia alguns minutos so-

mente. Ao introduzir a chave no quadrante para dar corda,

observei que ela já estava dada. Dispus-me, então, a pôr os

ponteiros na hora, quando luz estranha se desprendeu do

mostrador, parecendo-me ter ouvido estas palavras, proferi-

das muito nitidamente, com o timbre de voz de meu irmão:

– Para mim está acabado! Para mim está acabado!...

Fiquei profundamente impressionado e convencido de

que meu irmão estava morto e que as palavras que eu tinha

ouvido eram as últimas que havia ele pronunciado; pus de

lado a carta que lhe tinha escrito e não a enviei.

Na manhã seguinte, antes de ir para o trabalho, contei o

incidente à minha mulher. Às 11:30 da noite deram-me um

telegrama recebido por meu irmão Daniel e assim concebi-

do: “Gedeon morreu. Vem imediatamente a Montagne.”

O telegrama estava assinado por minha irmã Lizzie. Re-

cebi pouco depois uma carta na qual minha irmã dizia que

Gedeon morrera às 8:45 da noite de 4 de dezembro, domin-

go, e que suas últimas palavras tinham sido: – Para mim es-

tá acabado! Para mim está acabado!...

Eu tinha ouvido a voz no relógio às 9:45, mas a diferença

de tempo é justificada pela distância existente entre Oil

City e Big Rapids.”

(A esposa do narrador, Sra. Kate J. Fry, a irmã Lizzie Fry

e o amigo S. W. Turner confirmam o que precede.)

 

A propósito do caso acima, repito que a simultaneidade da

realização das duas manifestações supranormais de ordem dife-rente é interessante e significativa, visto como implica ter sido o agente que provocou a alucinação telepática o que determinou, também, a parada do relógio de pêndula.

Como a distância entre Oil City e Big Rapids é de mais de

1.000 quilômetros, daí resulta, de maneira incontestável, que o agente causador da parada do relógio não podia consistir em uma força física desprendida do organismo do moribundo, sob uma forma vibratória.

Não nos resta, pois, para a explicação dos fatos, senão recor-

rer à hipótese da presença espiritual do morto; e, nestas condi-ções, o próprio fenômeno telepático deveria ser atribuído à mesma causa.

Estas conclusões mostram o valor teórico dos fenômenos te-

lecinésicos, os quais, pertencendo à ordem física, se prestam a fazer sobressair o infundado da hipótese vibratória, muito mais claramente do que o fariam os fenômenos telepáticos, cujas pretendidas vibrações seriam de ordem psíquica. Donde se segue que somos levados a recorrer à hipótese espírita para explicar os fenômenos telecinésicos e se os telepáticos se realizam, por vezes, simultaneamente com os primeiros, seremos forçados a deduzir que parte considerável das manifestações telepáticas deve ser explicada pela mesma hipótese.

Deveríamos, assim, circunscrever em limites mais modestos a

outra explicação em voga, segundo a qual todas as manifestações englobadas hoje sob o nome geral de telepatia se reduziriam a um fenômeno de transmissão do pensamento entre um cérebro e outro.

Caso 17 – Encontra-se na obra de Flammarion, Autour de la

Mort (pág. 351).

O Dr. Weil, rabino em Strasburgo, comunica o episódio se-

guinte:

“Minha avó morreu em 1913.

Na hora de sua morte, o relógio, que estava no seu quar-

to, parou e ninguém conseguiu repô-lo a trabalhar.

Alguns anos depois, morreu o filho de minha avó e, no

dia do seu falecimento, o relógio continuou a andar, sem

que ninguém lhe tivesse tocado.”

 

Flammarion escreve a esse respeito:

“É certamente estranho que um Espírito (um moribundo

ou morto) tenha meios de parar um relógio ou pô-lo em

movimento. Como pode ele agir sobre a mola? Vimos mais

acima, entretanto, que o raio pode fazê-lo.”

 

Como se pode ver, Flammarion torna à sua hipótese favorita

(que já discuti em meus comentários ao Caso 9), isto é, a de uma força elétrica que, desprendendo-se do organismo de uma pessoa moribunda ou já defunta, é a causa do arresto no movimento de um relógio, fora de qualquer intenção da parte do moribundo ou do morto.

Notarei a esse respeito que não existe, em realidade, analogia

com os fenômenos do raio. Com efeito, se o raio é capaz de parar um relógio, é que lhe toca, ao passo que se trata aqui de paradas que se produzem a qualquer distância do agente.

No caso que acabamos de relatar pôde-se ver que a parada se

tinha realizado a mil quilômetros da residência do morto.

Não temos, por conseqüência, mais que repetir o que disse-

mos nos comentários ao Caso 9, isto é, que as “ondas elétricas”, estando submetidas à lei do quadrado inverso das distâncias e enfraquecendo à medida que se propagam no espaço – até se esgotarem – praticamente não podem explicar as manifestações telecinésicas que se realizam a uma distância qualquer, sem nenhuma atenuação da força atuante.

Isto basta para mostrar que nada existe de comum entre os

fenômenos de telecinesia e os gestos do raio, além de uma ana-logia inteiramente superficial.