Fenômenos de Telecinesia em Relação aos Acontecimentos de Morte
Terceira categoria
Música transcendental devida a assombrações
Esta categoria, como a que lhe antecedeu, não é rica de
exemplos, o que se deve atribuir ao mesmo fato, isto é, que nos fenômenos de assombração, como nos de telepatia, nota-se uma relação constante, direta ou indireta, de simbolismo manifesto ou velado, com os agentes ou causas que determinaram as “assom-brações”.
Para que as manifestações pudessem, pois, realizar-se em lu-
gares “assombrados”, seria preciso que estes fossem, em algum tempo, destinados a audições musicais ou que o agente assom-brador possuísse também, quando vivo, a qualidade de músico.
Compreende-se, igualmente, que estas espécies de caracterís-
ticas pessoais ou locais não devem encontrar-se muitas vezes entre os elementos de um caso de assombração.
Caso 3 – Em minha obra sobre os Fenômenos de Assombra-
ção, ocupei-me longamente de um caso curioso e interessante, no qual duas sensitivas, Miss Lamont e Miss Morisson, quando visitavam, pela primeira vez, o parque de Versalhes e o Petit Trianon, tiveram a visão dos lugares, tais como eles foram ao tempo de Luís XIV, aí compreendidas as figuras de Maria Anto-nieta e muitas outras personagens dessa época.
Miss Lamont percebera, ainda, o som de uma orquestra de
violinos, que ali não existiam, e chegou a apanhar doze compas-sos, que mais tarde se verificou serem escritos em estilo seme-lhante ao do século XVIII.
Eis o que se lê à pág. 94 do livro An Adventure (Uma Aven-
tura ), no qual as duas sensitivas narram os resultados de um inquérito que fizeram para verificar o que tinham visto e ouvido, inquérito em que prosseguiram durante 9 anos:
“Quando Miss Lamont se achava no bosquezinho, perce-
beu a música de uma orquestra composta de violinos; essa
música parecia vir do lado do palácio; eram ondas intermi-
tentes de sons muito doces e a tonalidade mais baixa que a
empregada hoje. Miss Lamont pôde apanhar doze compas-
sos.
Imediatamente depois, quis assegurar-se – e o conseguiu
– de que nenhuma peça musical havia sido tocada nos arre-
dores. Era, aliás, uma tarde de rígido inverno, pouco indi-
cada para semelhantes audições, em tal lugar.
Em março de 1907, os doze compassos apanhados foram
submetidos ao exame de um perito em música, o qual, nada
sabendo sobre o caso de sua origem, notou que eles não ti-
nham ligação entre si, que não constituíam um trecho musi-
cal completo, e mais, que sua feitura era antiga, devendo
remontar ao ano de 1780. Além disso, assinalou-se um erro
de harmonia num dos compassos.
Uma vez pronunciado esse juízo, disseram ao perito qual
a origem dos referidos compassos; declarou ele, então, que
as orquestras da época mencionada tocavam, efetivamente,
em tonalidade mais baixa que a atual; em seguida, sugeriu o
nome de Sacchini como o autor provável do trecho.
Em março de 1908, as duas sensitivas vieram a Versalhes
e foram informadas de que, no inverno de 1907, música de
espécie alguma havia sido tocada no parque.
Puderam verificar, além disso, que não havia nada seme-
lhante à música ouvida nas obras de data posterior a 1815.
Esses trechos constituíam parte integrante de certos trechos
de Sacchini, Philidor, Montigny, Grétry e Pergolesi. Erros
de harmonia idênticos aos assinalados pelo perito foram en-
contrados em Montigny e Grétry.”
Tal é o trecho inicial da narrativa, no que concerne ao inci-
dente do qual nos ocupamos.
Pode-se ver no An Adventure a citação das óperas e das cenas
nas quais foram descobertos os diferentes compassos musicais percebidos e copiados por Miss Lamont. Mais adiante (pág. 115), a mesma sensitiva assinala o fato, muito interessante, de que os compassos por ela percebidos, em sucessão contínua, representavam, em sentido inverso, um resumo dos principais motivos melódicos de diversas óperas do século XVIII; isso confere ao episódio, não somente um valor de percepção supra-normal verídica, mas ainda deixa supor a existência de uma intenção qualquer na causa dos fatos, o que equivale afirmar a existência de um agente transmissor inteligente.
Neste caso, para explicar o episódio não seria permitido lan-
çar mão da hipótese de uma reprodução psicométrica de aconte-cimentos passados; há que recorrer à hipótese telepático-espírita.
Com o fim de afastar uma possível objeção, a da dificuldade
de apanhar e transcrever doze compassos após uma única audi-ção, notarei que a percipiente se achava em estado de sonambu-lismo velado, estado em o qual se vencem muitas outras dificul-dades.
Há exemplos: o de uma sonâmbula que repete verbalmente
uma longa conferência ouvida, começando pela última palavra e prosseguindo em sentido inverso, como se tivesse diante dos olhos o texto impresso.
Caso 4 – A Sra. Nita O’Sullivan-Beare, compositora e execu-
tante, conta em The Occult Review (março de 1921), como foi composta uma de suas últimas romanzas. Ela escreve:
“Há quinze anos, encontrava-me em Paris e, uma tarde, já
ao cair da noite, fui à igreja da Madalena. Lá não havia
mais de uma dúzia de fiéis e eu me ajoelhei ao lado de uma
mulher do povo, que trazia um cesto de legumes.
De repente, ouvi um canto muito melodioso, composto
somente de vozes, mas eu não conseguia determinar-lhe a
proveniência. Era uma melodia que parecia formar-se ali
mesmo e elevar-se em ondas que enchiam a ambiência sa-
grada; uma bela voz, cheia de sentimento, dominava todas
as demais.
Não conseguindo orientar-me, perguntei à mulher, minha
vizinha, donde vinha esse canto. Ela olhou-me com espanto
e respondeu-me em francês:
– Perdão, senhora, a que música se refere? – Pois não ouve esse coro?
A vizinha abanou a cabeça, negativamente, e disse:
– Não ouço absolutamente nada.
Não tardou a retirar-se e outra mulher veio sentar-se ao
pé de mim. Aproveitei para fazer-lhe a mesma pergunta.
Respondeu-me laconicamente:
– Não há música.
Como eu continuasse, porém, a escutar o mesmo cântico,
resolvi indagar timidamente da minha nova vizinha se ela
ouvia pouco. Pareceu ofender-se com a pergunta e replicou
bruscamente:
– De forma alguma, senhora.
Entretanto, o coro continuava a ressoar sob a vasta abó-
bada da igreja. E eu continuei a escutar; apressei-me em se-
guida a ir para o meu hotel, onde transcrevi imediatamente
os compassos principais que constituem o tema do meu úl-
timo romance para canto: Love’s Fadeles Rose.”
Relativamente a esta curiosa e interessante narrativa da Sra.
O’Sullivan-Beare, é útil notar que a eletividade do canto, perce-bido distintamente por uma pessoa e não percebida por outra, não deve surpreender, porque constitui a regra nas manifestações dessa espécie. Prova essa regra, unicamente, que a Sra. O’Sullivan-Beare era uma sensitiva e que esse canto coral não existia sob uma forma de vibrações acústicas, mas era percebido subjetivamente.
Isso não significa, de forma alguma, que se tratasse de um fe-
nômeno alucinatório, na significação patológica do termo, mas, apenas, que a sensitiva percebia subjetivamente uma modalidade supranormal do canto, conforme o que se produz em qualquer outra forma de percepções telepático-auditivas. Nessas condi-ções, a que hipótese recorrer para a explicação dos fatos? Seria um fenômeno de origem telepático-espírita ou seria psicométri-co?
No primeiro caso, tornava-se preciso supor que o agente fosse
o Espírito de um artista defunto, cujo pensamento era orientado, naquele momento, com intensidade monoideísta, para um episó-dio de sua existência terrestre, durante a qual ele tivesse cantado nas massas corais da igreja da Madalena; e, assim, teria determi-nado um fenômeno de transmissão telepática na ambiência em que pensava.
No segundo caso, o fenômeno reduzir-se-ia à percepção psi-
cométrica de cantos que se desenrolaram, outrora, na menciona-da igreja e que eram percebidos pela sensitiva, em virtude da relação que se teria estabelecido entre suas faculdades supranor-mais subconscientes e as vibrações musicais, em estado poten-cial na existência em que ela se encontrava.
As duas hipóteses são igualmente legítimas, pois que se
apóiam ambas em bons argumentos: no caso de que nos ocupa-mos não é fácil pronunciar-nos por qualquer delas, preferindo uma à outra, visto a insuficiência de dados fornecidos pela Sra. O’Sullivan.
Caso 5 – Extraio-o do Journal of the S. P. R., pág. 118, do
vol. XVII. É um episódio rigorosamente documentado, no qual quatro personagens perceberam coletivamente um canto de igreja, de origem transcendental, executado numa abadia da Idade Média. Cada um dos quatro percipientes entregou o seu testemunho escrito à Sociedade Inglesa de Pesquisas Psíquicas.
Miss Ernestine Anne escreve nestes termos, em data de 28 de
julho de 1915:
“Visitei as ruínas da abadia de Jumièges, na França, no
domingo, 6 de julho de 1913, com meu pai, minha mãe e
um de meus irmãos. Aí chegamos às 3 horas da tarde e logo
começamos a percorrer as grandiosas ruínas da igreja mo-
nacal de Nossa Senhora. São os restos mais vastos e impo-
nentes que já vi da arquitetura normanda.
É uma construção em forma de cruz; o braço direito liga-
se a outra igreja menor, chamada São Pedro, e que servira
de paróquia. As paredes desta última ficaram quase intac-
tas, enquanto que da igreja monacal só existe a nave central
com alguns outros vestígios, mostrando onde estava o coro.
Árvores e espinheiros cobrem o local em que se elevava o
presbitério.
Depois de por muito tempo haver contemplado as ruínas
da igreja de Nossa Senhora, passamos para a de São Pedro,
admirando esses belos restos góticos do século XIV.
Afastara-me um pouco dos outros, quando ouvi, de re-
pente, ressoar um coro composto de numerosas vozes de
homens, que pareciam vir de um espaço livre à nossa es-
querda, onde alguns pedaços de muro indicavam o lugar em
que outrora estivera o coro.
Era um canto melodioso e solene, que me era familiar.
Lembro-me de haver logo pensado: Trata-se, necessaria-
mente, de um ludibrio de minha imaginação. Procurava,
pois, desviar as minhas idéias, quando ouvi meu pai excla-
mar:
– Olhe os monges cantando em coro!
Imediatamente cessou a música, que só teve para mim a
duração de instantes.
Fiquei de tal modo impressionada com o estranho fato,
que preferia convencer-me de que nada tinha ouvido; isso,
porém, não era possível, porque os que me acompanhavam
tinham ouvido como eu. Todos reconhecemos haver perce-
bido um coro de vozes cantando as Vésperas, isto é, salmos
em latim.
Procuramos resolver o mistério, recorrendo a uma expli-
cação natural; inutilmente, porém, porque o guarda nos dis-
se que a atual igreja paroquial se encontrava a um quilôme-
tro e meio de distância. Além disso, se o eco desse canto
coral nos tivesse chegado da igreja paroquial, tê-lo-íamos
ouvido durante certo tempo e não somente por alguns minu-
tos.
Era um belo dia sem vento. Ficamos, ainda, ali, durante
meia hora, sem nada mais notar de extraordinário.
Tomei nota imediatamente desse fato estranho e me servi
das notas para redigir essa narrativa.” (Assinado: Ernestine
Anne.)
Só reproduzo a passagem seguinte do chefe da família:
“Estávamos em meio das ruínas havia alguns minutos,
quando ouvi melodioso canto coral que parecia surgir da-
quele lugar, a pouca distância de nós. Cantavam-se os sal-
mos das Vésperas, de maneira harmoniosa e solene. Poderia
quase afirmar haver apanhado as palavras latinas.
Exclamei:
– Como! Os monges cantando em coro!... Mas, assim falando, não supunha absolutamente que o
acontecimento não fosse real; não tivera tempo de refletir
que me não achava em uma igreja aberta ao culto, mas em
meio às ruínas de antiga abadia.
Um de nós fez reparo no caso e logo o canto se extinguiu
docemente, como tinha começado. Entramos a explorar os
arredores e verificamos que lá não se encontrava ninguém.
Observei que o canto coral era superior a tudo o que eu
tinha ouvido de análogo, durante minha existência, e sobre-
tudo em França.” (Assinado: Ernest L. S. Anne.)
Eis agora uma passagem do testemunho da genitora:
“Estávamos todos quatro a pouca distância um dos ou-
tros, contemplando essas maravilhosas ruínas, quando ouvi
muito distintamente um coro de vozes masculinas que can-
tavam salmos. No momento em que escrevo estou em con-
dições de rememorar esse coro; eram vozes melodiosas e
experimentadas que cantavam em perfeito acordo. Discer-
niam-se os diversos timbres, admiravelmente.
Supus a princípio que era um coro real de igreja, sem
suspeitar que se tratava de um caso de audição supranor-
mal. O conjunto coral ressoava como se fora cantado sob a
abóbada de vasta igreja; fiquei escutando-o, como que fas-
cinada.” (Assinado: Edith Anne.)
Do testemunho do irmão extraio esta última passagem:
“Lembro-me de que contemplava uma antiga pedra se-
pulcral, abandonada em um canto, quando ouvi ressoar um
coro de vozes masculinas que cantavam as Vésperas. Disse
um de nós:
– Olhe os monges cantando em coro!...
Esse canto teve a duração de cerca de meio minuto; tal-
vez de um minuto.” (Assinado: E. Edward Anne.)
Neste caso, como no precedente, a hipótese telepático-espírita
e a psicométrica parecem igualmente admissíveis e não é fácil nos pronunciarmos a respeito.
A única objeção contrária à explicação psicométrica consisti-
ria no fato de que as impressões psicométricas são invariavel-mente pessoais e nunca coletivas: o sensitivo só percebe, tendo sido posto em relação com o objeto psicometrizável; as visões-audições, às quais é submetido, não são transmissíveis a tercei-ros.
É verdade que no caso acima não se teria agido precisamente
com um objeto psicometrizável, mas numa ambiência psicome-trizada, com a qual todas as pessoas presentes se achavam em relação. Mas, como os sensitivos dotados de faculdades psicomé-tricas são muito raros, é pouco verossímil que no caso vertente as quatro pessoas presentes fossem todas sensitivo-psicômetras.
Essas dificuldades não existiriam para a hipótese telepático-
espírita, uma vez que para experimentar um influxo telepático – provenha ele de um vivo ou de um morto – não são indispensá-veis faculdades especiais de sensitivos. Qualquer pessoa, ainda que psicometricamente negativa, pode estar sujeita a esse influ-xo, em certos momentos da vida, como o provam inumeráveis exemplos de alucinações telepáticas coletivas.
No caso que se segue, análogo aos últimos que acabamos de
expor, não são possíveis perplexidades desta espécie. Nele se encontram circunstâncias que conduzem logicamente a favor da hipótese telepático-espírita.
Caso 6 – Apareceu na Light (1919, pág. 310).
Escreve Archer Sheper, vigário de Avenbury (Condado de
Herefordshire):
“Por estranha e inexplicável causa, na igreja da qual sou
vigário percebe-se o som prolongado de um órgão. Conhe-
ço três casos desta audição.
No primeiro a música foi percebida por muitos membros
da família do Coronel Frosser, de Bromyard, quando eles
passavam na ponte reservada aos peões, contígua à igreja.
todos a ouviram e supuseram que o organista da igreja fazia
exercícios no instrumento; mas, pouco depois, souberam
que nem ele nem ninguém tinha penetrado a igreja, nesse
dia.
O órgão era americano e fora depois substituído pelo atu-
al harmônio.
Ora, na tarde de um sábado, quando me achava no jardim
do vicariato, ouvi o harmônio tocar e, supondo que a mu-
lher encarregada da limpeza da igreja tivesse permitido ao
filho divertir-se com o instrumento, apressei-me a entrar no
templo para proibir a brincadeira.
Enquanto atravessava o jardim continuei a ouvir a músi-
ca, que cessou bruscamente quando cheguei a alguns passos
do cemitério contíguo à igreja. Encontrei a porta desta de-
vidamente fechada a chave; entrei e não vi ninguém.
Outra vez, ouvi o som do harmônio quando atravessava, a
cavalo, o prado d’Avenbury. Tocava-se música sagrada,
que continuei a ouvir durante o tempo gasto em percorrer,
na minha montaria, uma centena de metros. A música ces-
sou, repentinamente, quando cheguei junto à igreja.
Uma senhora, que viveu muito tempo perto da igreja, es-
creveu-me de Leamington:
“Decidi contar-lhe um incidente que sucedeu com meu
marido e eu, relativo à sua igreja, em uma noite de Natal.
Quando entramos em nossa casa, soava meia-noite. Ne-
vava muito. De repente ouvimos muitas vozes humanas, em
animada palestra. Elas vinham do interior da igreja e mistu-
ravam-se com sons e ruídos de regozijo. Mas, distinguindo
as diferentes vozes que conversavam, não conseguimos
apanhar uma única palavra do que diziam.
Procuramos, naturalmente, penetrar no templo, mas vi-
mos que a porta estava fechada a chave. Demos-lhe então a
volta e verificamos que ele estava mergulhado em obscuri-
dade. Essas vozes, esses ruídos vinham, entretanto, do inte-
rior.
Nada compreendendo desse mistério, dele trouxemos
ambos profunda impressão, motivo pelo qual o incidente fi-
cou indelevelmente gravado em nossa memória.”
Estas últimas informações, fornecidas por pessoas que habita-
ram por muito tempo perto da igreja de Avenbury, mostram-nos que esse lugar, por uma razão ignorada, era “assombrado”.
A circunstância de serem os ruídos, as vozes e a música per-
cebidos do exterior, mesmo a distância de algumas centenas de metros, e o fato de cessarem quando os percipientes se aproxi-mavam da igreja, tenderiam a afastar a explicação psicométrica para dar lugar à da “assombração”; primeiro porque, de acordo com a hipótese psicométrica, as percepções deveriam realizar-se quando o sensitivo se encontrasse no meio psicométrico e não em seus arredores; em seguida, porque o fato de cessarem, desde que os percipientes se aproximavam da igreja, não é conciliável com a hipótese encarada. Com a aproximação da ambiência psicométrica, as percepções dos sensitivos deveriam reforçar-se, ao invés de desaparecer; a circunstância de desaparecerem sistematicamente sugere a idéia de uma intenção vigilante à testa das manifestações – o que também é inconciliável com a hipóte-se psicométrica , mas conforme à hipótese telepático-espírita, pois que a existência de uma intenção vigilante supõe um agente inteligente.
Caso 7 – Em minha obra sobre Les Phénomènes de Hantise
(cap. III, págs. 86-92), cito um caso muito interessante, que tinha extraído dos Proceedings of the S. P. R. (volume III, pág. 126), no qual um grupo de crianças, com seus pais, viam passear na casa um fantasma de uma velhinha. Percebiam-se também sons e ruídos de toda espécie, entre os quais uma voz de mulher que cantava uma ária muito triste.
Coloco esta passagem da descrição na presente categoria.
Narra a Sra. Vata-Simpson:
“Além do fantasma da velha franzina, que tem o hábito
de circular no andar superior, e outro fantasma de homem
que aparece na escada, há visões diversas e ouvem-se vá-
rios sons e ruídos. Muito freqüentemente se escutam na co-
zinha vagidos comoventes de recém-nascidos e nós os per-
cebemos no próprio dia em que entramos na casa.
Todos acreditamos que se tratava de um recém-nascido
autêntico, supondo que os vagidos provinham de uma casa
vizinha. Mas como eles se repetissem e perpetuassem sem
nunca mudar de tom, logo nos enchemos de espanto e en-
tramos a fazer pesquisas até o dia em que nos persuadimos
de que não se originavam de um recém-nascido vivo.
Além disso, no ângulo vizinho da porta de meu quarto, se
fazem ouvir as notas de um canto extremamente melancóli-
co; são notas reais, muito suaves e penetrantes; chega um
momento, entretanto, em que as últimas notas se prolongam
e transformam-se em gemidos desesperados de agonia. De-
pois, o silêncio. E todos esses sons e ruídos se produzem
perto de alguma divisão entre os quartos e nunca perto das
paredes mestras ou exteriores da casa.”
Esta narrativa não contém esclarecimentos ou tradições de
acontecimentos dramáticos em relação com a “assombração”; mas, como a narradora diz que a casa era muito antiga e tinha a reputação de ser assombrada, dever-se-ia deduzir que a falta de informações sobre o assunto se explica pela vetustez do imóvel e pela intermitência de assombração – circunstância que pode ter trazido o esquecimento das causas.
Em todo caso, a análise comparada dos fenômenos de “as-
sombração”, como foi exposta na obra citada, deixa supor que o fenômeno dos vagidos dolorosos do recém-nascido, combinados com o triste canto de uma voz de mulher, tem sua origem em um drama de sangue, que se teria produzido dentro daquelas pare-des... Um infanticídio, talvez, para ocultar uma queda.
Caso 8 – Vemo-lo no VII volume dos Proceedings of the S.
P. R. (pág. 304), sendo recolhido e examinado por Podmore.
Suprimem-se os nomes dos protagonistas, que foram, no en-
tanto, comunicados à direção da S. P. R.
Podmore observa:
“Raramente sucede que um caso de música fantasmagóri-
ca tenha valor probatório; e é, com efeito, muito difícil
qualquer suposição de origem física nos fenômenos de or-
dem auditiva.
Não obstante, no caso seguinte a natureza alucinatória da
música percebida parece absolutamente provada, tanto no
caso do Sr. B... como no da Sra. Z... Os primeiros esclare-
cimentos sobre este fato me foram enviados pelo vigário de
S..., pequena região do sul da Escócia.
Escreve o Sr. B...:
“Em resposta à sua carta de 20 de julho de 1889, tenho o
prazer de fornecer-lhe os informes pedidos sobre o caso da
música que ouvi no bosque de D... e que não podia ter cau-
sas normais.
Nas duas ou três primeiras vezes, a música que percebi
era fraca, posto que bastante distinta para que lhe pudésse-
mos seguir os ritmos melódicos. Não saberia dizer por que,
mas nunca me ocorreu ao pensamento que fosse música re-
al, embora não me parecesse diferente da comum, salvo
quanto à tonalidade, que tinha qualquer coisa de etérica.
Passaram-se alguns anos e eu havia tudo esquecido,
quando, há poucos meses, ouvi a música de novo.
Não esqueceria tão facilmente esta última audição. Ti-
nha-me dirigido para a região de X., onde havia um jogo de
tênis; assim que cheguei à localidade habitual, ouvi repen-
tinamente uma onda de música sonora e brilhante, como
sons de metais, flautas e clarinetas, que ressoavam do lado
do cemitério. Não me lembrei imediatamente do que tinha
ouvido outrora e acreditei que se tratasse de música real.
Meu primeiro pensamento foi o de que o proprietário da
localidade, Sir J. Z., tivesse cedido o parque a um grupo
excursionista de alunos em férias, e o segundo, de que a
música era muito boa para semelhante circunstâncias.
Prosseguindo no caminho, escutava o concerto com vivo
prazer, sempre sem duvidar que fosse outra coisa que um
concerto real, quando me veio a idéia de que música tocada
nos arredores do cemitério não poderia ser ouvida do lugar
em que me achava, por causa da colina de S..., que está si-
tuada entre essa localidade e a em que eu me encontrava na
ocasião.
Lembrei-me, então, das outras audições musicais perce-
bidas no mesmo lugar e fiquei convencido de que o fenô-
meno não era de natureza a ser explicado por mim.
Ignorava, então, que outras pessoas tinham ouvido a
mesma música, no mesmo local; sabe-se agora que o Sr.
M... e a Senhora Z... a perceberam muitas vezes.
A escutada pela Sra. Z... era coral, sem nenhum acompa-
nhamento de instrumentos, enquanto que, no meu caso, não
havia música vocal.” (Assinado com todas as letras: J. L.
B.)
Podmore dirigiu-se à Sra. Z..., que respondeu nestes termos:
“Na tarde de 18 de julho de 1888, com uma atmosfera té-
pida e tranqüila, estava eu assentada, com uma senhora de
idade, perto da capela de nosso pequeno cemitério, encra-
vado em nossas propriedades da Escócia e muito longe dos
caminhos comunais.
Em meio à conversa, interrompi-me, dizendo: – Quem é que está cantando, não ouve?
Era um coro de muito belas vozes, como nunca ouvi; dir-
se-ia o coro sagrado de uma catedral, mas só teve a duração
de alguns segundos.
A velha nada ouvira e eu não insisti, supondo que ela não
fosse forte de ouvido.
Não fui mais aí até à noite, quando perguntei a meu ma-
rido, por acaso:
– Quem cantava quando estávamos perto da capela?
Esperava que ele me dissesse: “Eram camponeses.” Ao
contrário, com grande espanto meu, respondeu ele:
– Eu tenho ouvido muitas vezes esse canto: é um canto
que costumo ouvir.
Ora, esta resposta é interessante, porque eu não havia dito
que ouvira um coro de vozes, mas, unicamente, que tinha
ouvido cantar.
E foi somente então que me veio a idéia de que essas vo-
zes não deviam ser humanas.
Nunca escutara nada semelhante, era qual música do pa-
raíso (é a única expressão adequada); e eu não renunciaria,
por todo o ouro do mundo, à satisfação de tê-la ouvido.
Quando isso se produziu não me achava de forma alguma
em condições sentimentais de alma e conversava com mi-
nha amiga sobre assuntos comuns.
O que escrevi é, escrupulosamente, a verdade.” (Assinado
com todas as letras: Senhora A. Z.)
O marido da Sra. Z..., Sir J. Z., escreve:
“Muitas vezes, quando me achava só, no cemitério, ouvi
uma música coral proveniente do interior da capela.” (Assi-
nado com todas as letras: Sir J. Z.)
Enfim, a Sra. Z..., em data de 21 de janeiro de 1891, volta ao
assunto, nos seguintes termos:
“Eu, abaixo assinada, certifico que, a 15 de novembro de
1890, quando me achava na capela de nosso cemitério par-
ticular, ouvi de novo a mesma música coral que descrevi
nos Proceedings de junho de 1890. O canto prolongou-se
cerca de meio minuto. Eu estava com três pessoas (uma das
quais meu marido), e logo lhes disse que escutassem; elas,
porém, nada ouviram.
Da mesma forma que à primeira vez, a música consistia
em um coro de muitas vozes, não me sendo possível distin-
guir as palavras.” (Journal of S. P. R., vol. V, pág. 42.)
Podmore, de quem se conhece a aversão irredutível pela hipó-
tese espírita, faz acompanhar essas narrativas de alguns comentá-rios:
“Entre as histórias tradicionais de gestos e aparições de
fantasmas, como nas obras do gênero da de Crowe, The Ni-
ghtside of Nature, encontra-se grande número de casos aná-
logos ao de que tratamos. Duvido que em nossa coleção de
fatos possa encontrar-se outro do mesmo tipo, mais bem au-
tenticado que este.
O acontecimento deixa supor, primeiramente, que a mú-
sica do paraíso, percebida, fosse o eco de algo que tivesse
sobrevivido ao túmulo. O próprio meio em que se produzia
a harmonizaria com essa explicação; por outra parte, encon-
trar-se-ia certa relação razoável no fato de que o Requiem
dos mortos só era perceptível para os representantes vivos
da sua descendência, mesmo quando se realizava em pre-
sença de terceiros.
Mas, se assim é, como explicar o que percebeu B...? E
que significação atribuir ao caráter diferente da música que
ressoava para uns como um canto coral e para o outro como
música militar?
Reconheço que isso não constitui um obstáculo intrans-
ponível para a admissão da hipótese espírita; mas, enfim,
para explicar esses fatos não é mister recorrer a causas não
naturais.
A imaginação, alimentada por tradições de família ou por
meditação sobre o Além, sugeridas pela ambiência, poderi-
am bastar para fazer com que fossem percebidas harmonias
musicais nos sons produzidos pelo vento nos bosques; uma
idéia alucinatória pode também enxertar-se com um fenô-
meno real.
A idéia alucinatória, uma vez engendrada, poderia trans-
mitir-se a outras pessoas sensitivas, em condições que pre-
dispõem ao fenômeno; neste caso, a idéia em questão pode-
ria revestir-se de formas diferentes em relação com as idi-
ossincrasias dos percipientes e a ambiência na qual eles se
encontravam.
Assim, para a Sra. Z..., sentada perto dos túmulos de fa-
mília, a alucinação primitiva tenderia a reproduzir-se sem
modificações, enquanto que, para um transeunte que per-
corre uma estrada donde normalmente não se poderia ouvir
um canto coral a três quartos de milha, a idéia alucinatória
se adaptaria às circunstâncias, sem perder sua natureza fun-
damental.
Com isso declaro que estou pronto a reconhecer que o ca-
so parece muito notável e sugestivo, qualquer que possa ser
a causa.”
Não me parece necessário refutar as afirmações de Podmore,
de tal forma elas são especiosas e absurdas.
Limitar-me-ei a observar que, sem dúvida, no caso vertente,
não nos podemos dar pressa em concluir a favor da origem espírita dos fatos, pois que estes nada contêm que seja de molde a fornecer-nos uma prova. Mas daí a recorrer-se à hipótese alucinatória – como o faz Podmore – há um abismo. E tanto mais quanto, propondo esta hipótese, Podmore esquece que M. B. declara que “nesse momento ignorava tivessem outras pessoas percebido a mesma música, no mesmo local”, declaração que basta para afastar a hipótese alucinatória.
Com efeito, M. B. não conhecia a existência dos fatos; logo,
não podia ser vítima de uma alucinação por auto-sugestão origi-nada de fatos por ele ignorados.
Pode-se acrescentar que deveríamos fazer a mesma observa-
ção a propósito dos dois outros percipientes, visto como ressalta nitidamente, da narrativa da Sra. Z..., que esta nada sabia das audições análogas de seu marido, J. Z., e que este ignorava a experiência análoga de sua mulher.
Segue-se daí que a hipótese alucinatória cai irrevogavelmente
e que o fenômeno de audição musical ao qual foram sujeitos os três percipientes deve ser considerado de natureza supranormal ou extrínseca.
Seria, porém, imprudente querer ir mais longe em busca das
causas, dada a insuficiência das informações fornecidas, o que não significa que os episódios análogos aos de que acabamos de descrever sejam desprovidos de valor científico. Eles podem adquirir indiretamente a importância teórica que lhes falta se os examinarmos cumulativamente com outros episódios da mesma natureza, melhor circunstanciados.