Folhas Caídas

Almeida Garrett · Capítulo 12 de 44

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Folhas Caídas

XI - Perfume da Rosa

Quem bebe, rosa, o perfume

Que de teu seio respira?

Um anjo, um silfo? Ou que nume

Com esse aroma delira?

Qual é o deus que, namorado,

De seu trono te ajoelha,

E esse néctar encantado

Bebe oculto, humilde abelha?

– Ninguém? – Mentiste: essa frente

Em languidez inclinada,

Quem ta pôs assim pendente?

Dize, rosa namorada.

E a cor de púrpura viva

Como assim te desmaiou?

E essa palidez lasciva

Nas folhas quem ta pintou?

Os espinhos que tão duros

Tinhas na rama lustrosa,

Com que magos esconjuros

Tos desarmaram, ó rosa?

E porque, na hástia sentida

Tremes tanto ao pôr-do-Sol?

Porque escutas tão rendida

O canto do rouxinol?

Que eu não ouvi um suspiro

Sussurrar-te na folhagem?

Nas águas deste retiro

Não espreitei a tua imagem?

Não a vi aflita, ansiado...

– Era de prazer ou dor?

– Mentiste, rosa, és amada,

E também tu amas, flor.

Mas ai! se não for um nume

O que em teu seio delira,

Há de matá-lo o perfume

Que nesse aroma respira.