Folhas Caídas

Almeida Garrett · Capítulo 5 de 44

Páginas do PDF

Folhas Caídas

IV - Aquela Noite!

Era a noite da loucura,

Da sedução, do prazer,

Que em sua mantilha escura

Costuma tanta ventura,

Tantas glórias esconder.

Os felizes... e ai! são tantos!...

– Eu por tantos os contava!

Eu que o sinal de meus prantos

Do aflito rosto lavava –

Os felizes presunçosos

Iam nos coches ruidosos

Correndo aos salões doirados

De mil fogos alumiados,

Donde em torrentes saía

A clamorosa harmonia

Que à festa, ao prazer tangia.

Eu sentia esse ruído

Como o confuso bramar

De um mar ao longe movido

Que à praia vem rebentar:

E disse comigo: «Vamos,

Os lutos d'alma dispamos,

À festa hei de ir também eu!»

E fui: e a noite era bela,

Mas não vi a minha estrela

Que eu sempre via no céu:

Cobriu-a de espesso véu

Alguma nuvem a ela,

Ou era que já vendado

Me levava o negro fado

Onde a vida me perdeu?

Fui; meu rosto macerado,

A funda melancolia

Que todo o meu ser revia, Qual o ataúde levado

A egípcio festim, dizia:

– Como vós fui eu também;

Folgai, que a morte aí vem!

– Dizia-o, sim, meu semblante,

Que, onde eu chegava, o prazer

Cessava no mesmo instante;

E o lábio que ia a dizer

Doçuras de amor, gelava;

E o riso que ia a nascer

Na face linda, expirava.

Era eu – e a morte em mim,

Que só ela espanta assim!

Quantas mulheres tão belas

Ébrias de amor e desejos,

Quantas vi saltar-lhe os beijos

Da boca ardente e lasciva!

E eu, que ia chegar-me a elas...

Para logo a fronte esquiva De recatos se envolvia

E, toda pudor, tremia.

Quantas o seio anelante,

Nu, ardente e palpitante

Andavam como entregando

À cobiça mal desperta,

Gasta já e desdenhosa,

Dos que as estavam mirando

Com vaga luneta incerta

Que diz: – «Aquela é formosa,

Não se me dava de a ter.

E esta? É só baronesa,

Vale menos que a duquesa:

Não sei a qual atender.»

E a isto chamam prazer!

A grande ventura é esta?

Vale a pena vir à festa

E vale a pena viver.

Como então quis à tristura Do meu viver isolado!

Fique-se embora a ventura,

Que eu quero ser desgraçado.

Levantei alto a cabeça,

Senti-me crescer – e a frente

Desanuviar-se contente

Do feio negrume espesso

Que assustava aquela gente.

Logo os sorrisos caíam

Para o meu lado também;

Já como um dos seus me viam,

Que em mim não viam ninguém.

Eu, de olhos desencantados,

A elas, como as eu via!

Meus entusiasmos passados,

Oh! como eu deles me ria!

Frio o sarcasmo saía

De meus lábios descorados, E sem dó e sem pudor

A todas falei de amor...

Do amor bruto, degradante,

Que no seio palpitante,

Na espádua nua se acende...

Amor lascivo que ofende,

Que faz corar... Elas riam

E oh que não, não se ofendiam!

Mas a orquestra bradou alta:

«Festa, festa! e salta, salta!»

Os seus guizos delirantes

Sacode louca a Folia...

Adeus, requebros de amantes!

Suspiros, quem nos ouvia?

As palavras meias ditas,

Meias nos olhos escritas,

Voavam todas perdidas

Dispersas, rotas no ar;

Que se foram almas, vidas, Tudo se foi a valsar.

Quem é esta que mais voltas

Gira, gira sem cessar?

Como as roupas leves, soltas,

Aéreas leva a ondular

Em torno à forma graciosa,

Tão flexível, tão airosa,

Tão fina! – Agora parou,

E tranquila se assentou.

Que rosto! Em linhas severos

Se lhe desenha o perfil;

E a cabeça, tão gentil,

Como se fora deveras

A rainha dessa gente,

Como a levanta insolente!

Vive Deus! que é ela... aquela,

A que eu vi na tal janela,

E que triste me sorria Quando passando me via

Tão pasmado a olhar para ela.

A mesma melancolia

Nos olhos tristes – de luz

Oblíqua, viva mas fria;

A mesma alta inteligência

Que da face lhe transluz;

E a mesma altiva impaciência

Que de tudo, tudo cansa,

De tudo o que foi, que é,

E na ermo vida só vê

O raio da vaga esp'rança.

«Pois isto sim que é mulher»,

Disse eu – «e aqui há que ver.»

Já vinha a pálida aurora

Anunciando a manhã fria,

E eu falava e eu ouvia

O que até àquela hora

Nunca disse, nunca ouvi...

Toda a memória perdi

Das palavras preferidas...

Não eram destas sabidas,

Nem quais eram não no sei...

Sei que a vida era outra em mim,

Que era outro ser o meu ser,

Que uma alma nova me achei

Que eu bem sabia não ter.

E daí? – Daí, a história

Não deixou outra memória

Dessa noite de loucura,

De sedução, de prazer...

Que os segredos da ventura

Não são para se dizer.