Folhas Caídas

Almeida Garrett · Capítulo 25 de 44

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Folhas Caídas

XXIV - Anjo És

Anjo és tu, que esse poder

Jamais o teve mulher,

Jamais o há de ter em mim.

Anjo és, que me domina

Teu ser o meu ser sem fim;

Minha razão insolente

Ao teu capricho se inclina,

E minha alma forte, ardente,

Que nenhum jugo respeita,

Cobardemente sujeita

Anda humilde a teu poder.

Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és. Mas que anjo és tu?

Em tua frente anuviada

Não vejo a c'roa nevada

Das alvas rosas do céu.

Em teu seio ardente e nu

Não vejo ondear o véu

Com que o sôfrego pudor

Vela os mistérios de amor.

Teus olhos têm negra a cor,

Cor de noite sem estrela;

A chama é vivaz e é bela,

Mas luz não tem. – Que anjo és tu?

Em nome de quem vieste?

Paz ou guerra me trouxeste

De Jeová ou Belzebu?

Não respondes – e em teus braços

Com frenéticos abraços

Me tens apertado, estreito!...

Isto que me cai no peito

Que foi?... Lágrima? – Escaldou-me...

Queima, abrasa, ulcera... Dou-me,

Dou-me a ti, anjo maldito,

Que este ardor que me devora É já fogo de precito,

Fogo eterno, que em má hora

Trouxeste de lá... De donde?

Em que mistérios se esconde

Teu fatal, estranho ser!

Anjo és tu ou és mulher?