Folhas Caídas

Almeida Garrett · Capítulo 41 de 44

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Folhas Caídas

XV - os Exilados

(À Senhora Rossi-Caccia 1)

Eles tristes, das praias do desterro,

Os olhos longos e arrasados de água

Estendem para aqui... Cravado o ferro

Da saudade têm n'alma; e é negra mágoa A que lhes rala os corações aflitos,

É a maior da vida – são proscritos,

Dor como outra não há, é a dor que os mata! Dizer eu: «Essa terra é minha... minha,

Que nasci nela, que a servi, a ingrata!

Que lhe dei... dei por ela quanto tinha,

Sangue, vida, saúde, os bens da sorte...

E ela, por galardão, me entrega à morte!»

Morte lenta e cruel – a de Ugolino!2 Bem lhes quiseram dar...

Mas não será assim: sopro divino

De bondade e nobreza

Não o pode apagar

Nos corações da gente portuguesa

Esse rancor de fera

Que em almas negras, negro e vil impera.

Tu, génio da Harmonia,

Tu solta a voz em que triunfa a glória,

Com que suspira amor!

Bela de entusiasmo e de fervor,

Ergue-te, ó Rossi, tua voz nos guia:

A tua voz divina

Hoje um eco imortal deixa na história.

Inda no mar de Egina

Soa o hino de Alceu;

E atravessaram séculos

Os cantos de Tirteu.

Mais poderosa e válida

A tua voz será;

A tua voz etérea,

Tua voz não morrerá.

Nós no templo da pátria penduramos

Esta c'roa singela

Que de mirto e de rosas entrançamos

Para essa fronte bela:

Aqui, de voto, ficará pendente,

E um culto de saudade

Aqui, perenemente,

Lhe daremos no altar da Liberdade.

 

1 Cantando em um baile de subscrição que se deu em Lisboa em 29 de Março de 1845 a favor dos que nesse ano estavam emigrados por fugir às perseguições do Governo.

2 Foi morto à fome com os filhos.