Folhas Caídas
XV - os Exilados
(À Senhora Rossi-Caccia 1)
Eles tristes, das praias do desterro,
Os olhos longos e arrasados de água
Estendem para aqui... Cravado o ferro
Da saudade têm n'alma; e é negra mágoa A que lhes rala os corações aflitos,
É a maior da vida – são proscritos,
Dor como outra não há, é a dor que os mata! Dizer eu: «Essa terra é minha... minha,
Que nasci nela, que a servi, a ingrata!
Que lhe dei... dei por ela quanto tinha,
Sangue, vida, saúde, os bens da sorte...
E ela, por galardão, me entrega à morte!»
Morte lenta e cruel – a de Ugolino!2 Bem lhes quiseram dar...
Mas não será assim: sopro divino
De bondade e nobreza
Não o pode apagar
Nos corações da gente portuguesa
Esse rancor de fera
Que em almas negras, negro e vil impera.
Tu, génio da Harmonia,
Tu solta a voz em que triunfa a glória,
Com que suspira amor!
Bela de entusiasmo e de fervor,
Ergue-te, ó Rossi, tua voz nos guia:
A tua voz divina
Hoje um eco imortal deixa na história.
Inda no mar de Egina
Soa o hino de Alceu;
E atravessaram séculos
Os cantos de Tirteu.
Mais poderosa e válida
A tua voz será;
A tua voz etérea,
Tua voz não morrerá.
Nós no templo da pátria penduramos
Esta c'roa singela
Que de mirto e de rosas entrançamos
Para essa fronte bela:
Aqui, de voto, ficará pendente,
E um culto de saudade
Aqui, perenemente,
Lhe daremos no altar da Liberdade.
1 Cantando em um baile de subscrição que se deu em Lisboa em 29 de Março de 1845 a favor dos que nesse ano estavam emigrados por fugir às perseguições do Governo.
2 Foi morto à fome com os filhos.