Folhas Caídas

Almeida Garrett · Capítulo 3 de 44

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Folhas Caídas

II - Adeus!

Adeus! para sempre adeus!

Vai-te, oh! vai-te, que nesta hora

Sinto a justiça dos Céus

Esmagar-me a alma que chora.

Choro porque não te amei,

Choro o amor que me tiveste;

O que eu perco, bem no sei,

Mas tu... tu nada perdeste:

Que este mau coração meu

Nos secretos escaninhos

Tem venenos tão daninhos

Que o seu poder só sei eu.

Oh! vai... para sempre adeus!

Vai, que há justiça nos Céus.

Sinto gerar na peçonha

Do ulcerado coração Essa víbora medonha

Que por seu fatal condão

Há de rasgá-lo ao nascer:

Há de sim, serás vingada,

E o meu castigo há de ser

Ciúme de ver-te amada,

Remorso de te perder.

Vai-te, oh! vai-te, longe, embora,

Que sou eu capaz agora

De te amar – Ai! se eu te amasse!

Vê se no árido pragal

Deste peito se ateasse

De amor o incêndio fatal!

Mais negro e feio no Inferno

Não chameja o fogo eterno.

Que sim? Que antes isso? – Ai, triste!

Não sabes o que pediste.

Não te bastou suportar

O cepo-rei; impaciente Tu ousas a Deus tentar

Pedindo-lhe o rei-serpente!

E cuidas amar-me ainda?

Enganas-te: é morta, é finda,

Dissipada é a ilusão.

Do meigo azul de teus olhos

Tanta lágrima verteste,

Tanto esse orvalho celeste

Derramado o viste em vão

Nesta seara de abrolhos,

Que a fonte secou. Agora

Amarás... sim, hás de amar,

Amar deves... Muito embora...

Oh! mas noutro hás de sonhar

Os sonhos de oiro encantados

Que o mundo chamou amores.

E eu réprobo... eu se o verei?

Se em meus olhos encovados Der a luz de teus ardores...

Se com ela cegarei?

Se o nada dessas mentiras

Me entrar pelo vão da vida...

Se, ao ver que feliz deliras,

Também eu sonhar... Perdida,

Perdida serás – perdida.

Oh! vai-te, vai, longe, embora!

Que te lembre sempre e agora

Que não te amei nunca... ai! não;

E que pude a sangue-frio,

Cobarde, infame, vilão,

Gozar-te – mentir sem brio,

Sem alma, sem dó, sem pejo,

Cometendo em cada beijo

Um crime... Ai! triste, não chores.

Não chores, anjo do Céu,

Que o desonrado sou eu.

Perdoar-me tu?... Não mereço.

A imundo cardo voraz

Essas pérolas de preço

Não as deites: é capaz

De as desprezar na torpeza

De sua bruta natureza.

Irada, te há de admirar,

Despeitosa, respeitar,

Mas indulgente... Oh! o perdão

É perdido no vilão,

Que de ti há de zombar.

Vai, vai... para sempre adeus!

Para sempre aos olhos meus

Sumido seja o clarão

De tua divina estrela.

Faltam-me olhos e razão

Para a ver, para entendê-la:

Alta está no firmamento

De mais e de mais é bela Para o baixo pensamento

Com que em má hora a fitei;

Falso e vil o encantamento

Com que a luz lhe fascinei.

Que volte a sua beleza

Do azul do céu à pureza,

E que a mim me deixe aqui

Nas trevas em que nasci,

Trevas negras, densas, feias,

Como é negro este aleijão

Donde me vem sangue às veias,

Este que foi coração,

Este que amar-te não sabe

Porque é só terra – e não cabe

Nele uma ideia dos céus...

Oh! vai, vai; deixa-me, adeus!