Folhas Caídas

Almeida Garrett · Capítulo 32 de 44

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Folhas Caídas

VI - Retrato (Num Álbum)

Ah! despreza o meu retrato

Que lhe eu queria aqui pôr!

Tem medo que lhe desfeie

O seu livro de primor?

Pois saiba que por despique

Eu sei também ser pintor:

Co esta pena por pincel,

E a tinta do meu tinteiro,

Vou fazer o seu retrato

Aqui já de corpo inteiro.

Vamos a isto. – Sentada

Na cadeira moyen-âge,

O cabelo en châtelaines,

As mangas soltas. – É o traje.

Em longas pregas negras Caía o veludo e arraste;

De si com desdém régio

Com o pezinho o afaste...

Nessa atitude! Está bem:

Agora mais um jeitinho;

A airosa cabeça a um lado

E o lindo pé no banquinho.

Aqui estão os contornos, são estes,

Nem Daguerre lhos tira melhor.

Este é o ar, esta a pose, eu lho juro,

E o trajar que lhe fica melhor.

Vamos agora ao difícil:

Tirar feição por feição;

Entendê-las, que é o ponto,

E dar-lhe a justa expressão.

Os olhos são cor da noite, Da noite em seu começar,

Quando inda é jovem, incerta,

E o dia vem de acabar;

Têm uma luz que vai longe,

Que faz gosto de queimar:

É uma espécie de lume

Que serve só de abrasar.

Na boca há um sorriso amável.

Amável é... mas queria

Saber se é todo bondade

Ou se meio é zombaria.

Ninguém mo diz? O retrato

Incompleto ficará,

Que nestas duas feições

Todo o ser, toda a alma está.

Pois fiel como um espelho É tudo o que nele fiz;