Folhas Caídas

Almeida Garrett · Capítulo 39 de 44

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Folhas Caídas

XIII - Adeus, Mãe

Adeus, mãe! adeus, querida,

Que eu já não posso coa vida,

E os anjos chamam por mim.

Adeus, mãe, adeus!... Assim,

Junta os teus lábios aos meus,

E recebe o último adeus

Neste suspiro... Não chores,

Não chores: aquelas dores

Já sinto acalmar em mim.

Adeus, mãe, adeus!... Assim,

Junta os teus lábios aos meus...

Um beijo – um último... Adeus!

E o corpo desanimado

No colo da mãe caía;

E ela o corpo... só pesado,

Só mais pesado o sentia!

Não se lamenta, não chora

E quase a sorrir, dizia:

– Que tem este filho agora,

Que tanto pesa? Não posso... –

E uma a uma, osso por osso,

Com a mão trémula tenta

As mãozinhas descarnadas,

As faces cavas, mirradas,

A testa inda morna e lenta.

– Que febre, que febre! – diz;

E em tudo pensa a infeliz,

Tudo que há mau lhe ocorreu,

Tudo – menos que morreu.

Como nos gelos do Norte

O sono traidor da morte

Engana o desfalecido

Que imagina adormecer,

Assim cansado, esvaído

De tão longo padecer, Já não há no coração

Da mãe força de sentir;

Não tem já lume a razão

Senão só para a iludir.

Acorda, ó mãe desgraçada,

Que é tempo de despertar!

Anda ver a eça armada,

As luzes que ardem no altar.

Ouves? É a rouca toada

Dos padres a salmear!...

Vamos, que a hora é chegada,

É tempo de o amortalhar.

E os anjos cantavam:

– Aleluia!

E os santos clamavam:

– Hossana!

Ao triste cantar da Terra Responde o cantar do Céu;

Todos lhe bradam: – Morreu!

E a todos o ouvido cerra.

E os sinos a tocar,

E os padres a rezar,

E ela ainda a acalentar

Nos braços o filho morto,

Que já não tem mais conforto,

Mais sossego neste mundo

Que o jazigo húmido e fundo

Onde há de ir a sepultar.

Levai, ó anjos de Deus,

Levai essa dor aos Céus.

Com a alma do inocente

Aos pés do Juiz Clemente

Aí fique a santa dor

Rogando à Eterna Bondade

Que estenda a imensa piedade A quantos pecam de amor.