Folhas Caídas

Almeida Garrett · Capítulo 43 de 44

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Folhas Caídas

XVII - no Lumiar

Era um dia de abril; a primavera

Mostrava apenas seu virgíneo seio

Entre a folhagem tenra; não vencera,

De todo, o Sol o misterioso enleio

Da névoa rara e fina que estendera

A manhã sobre as flores; o gorjeio

Das aves inda tímido e infantil...

Era um dia de abril.

E nós íamos lentos passeando

De vergel em vergel, no descuidado

Sossego d'alma que se está lembrando

Das lutas do passado,

Das vagas incertezas do porvir.

E eu não cansava de admirar, de ouvir,

Porque era grande, um grande homem deveras Aquele Duque – ali maior ainda,

Ali no seu Lumiar, entre as sinceras Belezas desse parque, entre essas flores, A qual mais bela e de mais longe vinda

Esmaltar de mil cores

Bosque, jardim, e as relvas tão mimosas,

Tão suaves ao pé – muito há cansado

De pisar alcatifas ambiciosas,

De tropeçar no perigoso estrado

Das vaidades da terra.

E o velho Duque, o velho homem de estado,

Ao falar dessa guerra

Distante – e das paixões da humanidade,

Sorria malicioso

Daquele sorrir fino sem maldade,

Que tão seu era, que, entre desdenhoso

E benévolo, a quanto lhe saía

Dos lábios dava um cunho de nobreza,

De razão superior.

E então como ele a amava e lhe queria

A esta pobre terra portuguesa!

Velha tinha a razão, velha a experiência,

Jovem só esse amor.

Tão jovem, que inda cria, inda esperava,

Inda tinha a fé viva da inocência!...

Eu, na força da vida,

Tristemente de mim me envergonhava.

– Passeávamos assim, e em reflectida

Meditação tranquila descuidados

Íamos sós, já sem falar, descendo

Por entre os velhos olmos tão copados,

Quando sentimos para nós crescendo

Rumor de vozes finas que zumbia

Como enxame de abelhas entre as flores, E vimos, qual Diana entre os menores

Astros do céu, a forma que se erguia,

Sobre todas gentil, dessa estrangeira

Que se esperava ali. Perfeita, inteira

No velho amável renasceu a vida

E a graça fácil. Cuidei ver o antigo

O nobre Portugal que ressurgia

No venerado amigo;

E na formosa dama que sorria,

O génio da subida,

Rara e fina elegância que a nobreza,

O gosto, o amor do Belo, o instinto da Arte Reúne e faz irmãos em toda a parte;

Que afere a grandeza

Pela medida só dos pensamentos.

Do 'stilo de viver, dos sentimentos,

Tudo o mais como fútil desprezando.

Pensei que a saudar o velho ilustre

Em seus últimos dias

E a despedir-se, até Deus sabe quando,

De nossas praias tristes e sombrias,

Vinha esse génio... Tristes e sombrias,

Que o sol lhe foge, lhe esmorece o lustre, E onde tudo o que é alto vai baixando...

O triste, o que não tem já sol que o aqueça Sou eu talvez – que, à míngua de fé, sinto O cérebro gelar-me na cabeça

Porque no coração o fogo é extinto.

Ele não era assim,

Ou sabia fingir melhor do que eu!

– Como o nobre corcel que envelheceu

Nas guerras, ao sentir o áureo telim

E as armas sobre o dorso descarnado,

Remoça o garbo, em juvenil meneio

Franja de espuma o freio,

E honra os brasões da casa em que foi nado.

Nunca me há de esquecer aquele dia!

Nem os olhos, as falas, e a sincera

Admiração da bela dama inglesa

Por tudo quanto via;

O fruto, a flor, o aroma, o sol que os gera, E esta vivaz, veemente natureza,

Toda de fogo e luz,

Que ama incessante, que de amar não cansa,

E contínua produz

Nos frutos o prazer, na flor a esp'rança.

Ali as nações todas se juntaram,

Ali as várias línguas se falaram;

A Europa convidada

Veio ao festim – não ao festim, ao preito. Vassalagem rendida foi prestada

Ao talento, à beleza,

A quanto n’alma infunde amor, respeito,

Porque é deveras grande: – que a grandeza

Os homens não a dão;

Põe-na por sua mão

Naqueles que são seus,

Nos que escolheu – só Deus.

Oh! minha pobre terra, que saudades

Daquele dia! Como se me aperta

O coração no peito coas vaidades,

Coas misérias que aí vejo andar alerta,

À solta apregoando-se! Na intriga, Na traição, na calúnia é forte a liga,

É fraca em tudo o mais...

Tu, sossegado

Descansa no sepulcro; e cerra, cerra

Bem os olhos, amigo venerado,

Não vejas o que vai por nossa terra.

Eu fecho os meus, para trazer mais viva

Na memória a tua imagem

E a dessa bela Inglesa que se esquiva

De nós entre a folhagem

Dos bosques de Parténope. Cansado,

Fito nesta miragem

Os olhos d'alma, enquanto que arrastado,

Vai o tardio pé

Por este que inda é,

Que cedo não será, bem cedo – em mal!

O velho Portugal!1

1 Estes versos foram inspirados pela visita da celebrada Mrs. Norton à quinta do Lumiar, onde o falecido duque de Palmela reuniu, para a festejar, alguns poucos amigos escolhidos. Foi nos últimos tempos de sua vida. Mrs. Norton reside atualmente em Nápoles, a Parténope de que fala o texto.