Folhas Caídas

Almeida Garrett · Capítulo 17 de 44

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Folhas Caídas

XVI - os Cinco Sentidos

São belas – bem o sei, essas estrelas,

Mil cores – divinais têm essas flores;

Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:

Em toda a natureza

Não vejo outra beleza

Senão a ti – a ti!

Divina – ai! sim, será a voz que afina

Saudosa – na ramagem densa, umbrosa, Será; mas eu do rouxinol que trina

Não oiço a melodia,

Nem sinto outra harmonia

Senão a ti – a ti!

Respira – n'aura que entre as flores gira,

Celeste – incenso de perfume agreste.

Sei... não sinto: minha alma não aspira,

Não percebe, não toma

Senão o doce aroma

Que vem de ti – de ti!

Formosos – são os pomos saborosos,

É um mimo – de néctar o racimo:

E eu tenho fome e sede... sequiosos,

Famintos meus desejos

Estão... mas é de beijos,

É só de ti – de ti!

Macia – deve a relva luzidia

Do leito – ser por certo em que me deito. Mas quem, ao pé de ti, quem poderia

Sentir outras carícias,

Tocar noutras delícias

Senão em ti – em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos

Todos num confundidos, Sentem, ouvem, respiram;

Em ti, por ti deliram.

Em ti a minha sorte,

A minha vida em ti;

E quando venha a morte,

Será morrer por ti.