Guerra e Paz
Primeira Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Bom, agora vamos fazer uma saúde às mulheres bonitas — tornou Dolokov, muito sério, embora com um sorriso nos cantos da boca, dirigindo-se a Pedro.
— A saúde das mulheres bonitas. Petrucha, e daqueles que gostam das mulheres bonitas — Insistiu.
Pedro, de olhos baixos, bebeu sem olhar para Dolokov e sem lhe responder. Um lacaio que andava a distribuir exemplares da cantata de Kutuzov, entregou um a Pedro na sua qualidade de convidado de distinção. E Pedro dispunha-se a pegar-lhe quando Dolokov se debruçou para ele, lhe arrancou o papel das mãos e se pôs a ler. Pedro relanceou-o com um olhar e as pálpebras abaixaram-se-lhe. Os pensamentos terríveis e maus que o haviam atormentado durante o repasto tumultuaram de novo no seu íntimo e apossaram-se dele por completo. Estendeu o corpo obeso por cima da mesa.
— Com licença! — gritou.
Ao ouvirem esta voz estridente e ao perceberem a quem ela se dirigia. Nesvitski e o seu vizinho da direita, assustados, deram-se pressa em serenar Bezukov.
— Então, calma, que é isso? — murmuraram-lhe, baixinho, assustadíssimos.
Dolokov fitou Pedro com os seus olhos cintilantes, alegres e cruéis, sorrindo, como se dissesse: «Eh!, gosto disso!»
— Larga — disse ele acentuando a palavra.
Pedro, muito pálido, os lábios trémulos de cólera, arrancou-lhe o papel das mãos.
— O senhor.., o senhor é um miserável!... Exijo-lhe satisfações — balbuciou, repelindo a cadeira e erguendo-se.
No mesmo instante em que Pedro fazia este gesto e pronunciava estas palavras, veio-lhe a sensação nítida de que o problema da culpabilidade da mulher, que tão poderosamente o atormentara naqueles últimos dias, se encontrava definitiva e incontestavelmente resolvido pela afirmativa. Sentiu que a odiava e que para sempre estava separado dela. Embora Denissov lhe pedisse que o não fizesse. Rostov anuiu em servir de testemunha a Dolokov, e depois do banquete teve uma conversa com Nesvitski, a testemunha de Bezukov, sobre as condições em que se realizaria o duelo. Pedro voltou para casa, e Rostov, na companhia de Dolokov e de Denissov, ficou no clube até muito tarde, a ouvir os ciganos e os cantores militares.
— Bom, então é amanhã, em Sokolniki (Grande mata a noroeste de Moscovo. (N, dos T.) — frisou Dolokov, ao despedir-se de Rostov nos degraus do clube.
— E tu estás calmo? — perguntou Rostov. Dolokov parou.
— Olha, em duas palavras vou revelar-te o segredo do duelo. Se na véspera de um duelo escreveres o teu testamento e redigires cartas emocionantes aos teus parentes, se pensares na hipótese de poderes ser morto, é que és um imbecil e estás perdido. Se, pelo contrário, fores para esse duelo com firme intenção de matar o teu adversário, e o mais cedo e o melhor que puderes, tudo correrá às mil maravilhas. Era o que me dizia o nosso matador de ursos de Kostroma. «Quem é que não há-de ter medo de um urso?», dizia ele. «Mas quando a gente põe os olhos no bicho, adeus medo, e aí estamos nós prontos a fazer tudo para que a fera se nos não escape.» Pois bem, eu, nestes casos, é o que costumo fazer. Até amanhã, meu caro!
No dia seguinte, às oito horas da manhã. Pedro e Nesvitski chegaram ao bosque de Soko1niki, onde já encontraram Dolokov. Denissov e Rostov. Pedro dava a impressão de estar preocupado fosse com o que fosse menos com o que ia passar-se. Estava amarelento de tez e os traços eram fatigados. Via-se que não pregara olho em toda a santa noite. Olhava distraidamente em tomo de si e piscava os olhos como se estivesse um sol muito forte. Duas coisas o preocupavam exclusivamente: a culpabilidade da mulher, de que não tinha a mais pequena dúvida após aquela noite de insónia, e a inocência de Dolokov, sem razão alguma para poupar a honra de um homem, tanto mais quando esse homem lhe era, em verdade, um estranho. «Sem dúvida que eu, no seu lugar, teria feito o mesmo», dizia Pedro de si para consigo. «Sim, é mais do que certo que teria feito o mesmo; e então, a que propósito este duelo, este assassinato? Ou sou eu quem o mata, ou então será ele quem me atingirá na cabeça, num braço, num joelho. Se eu pudesse ir-me embora, fugir, esconder-me em qualquer parte!» E precisamente no momento em que estes pensamentos lhe vinham à cabeça perguntava, com um ar especialmente sereno e desprendido, coisa que impressionou os que o observavam: — Está tudo pronto?
Quando tudo estava em ordem, enterrados na neve os sabres que mareavam o limite que não poderia transpor-se, e as pistolas carregadas. Nesvitski aproximou-se de Pedro.
— Faltaria ao meu dever, conde — disse-lhe com voz tímida —, e não justificaria a confiança e a honra que me deu escolhendo-me para sua testemunha se neste grave, gravíssimo momento, não lhe dissesse toda a verdade. Sou de opinião de que esta pendência não tem motivos bastante importantes que a justifiquem e que não merece que se derrame sangue por ela ...
O conde teve culpa, não tem inteira razão, deixou-se exaltar ...
— Ah!, sim, é espantosamente estúpido... — disse Pedro.
— Nesse caso, deixe que eu transmita o seu pesar, e estou persuadido de que o seu adversário aceitará as suas desculpas prosseguiu Nesvitski, que, como todos os circunstantes e em geral todos os que testemunham casos do mesmo género, não podia acreditar que as coisas fossem até ao duelo, — Não preciso dizer-lhe, conde, que é muito mais nobre reconhecermos os nossos erros do que praticarmos um acto irreparável. Não houve ofensa grave nem de uma nem da outra parte. Consinta que eu vá parlamentar.
— Não, para quê? — disse Pedro. — Isto não tem importância... Então! Está tudo pronto? Diga-me apenas onda é que eu devo colocar-me para disparar — acrescentou com uma doçura um pouco afectada.
Pegou na pistola e perguntou como se disparava. Era a primeira vez que pegava numa pistola, mas não o queria confessar.
— Ah! Sim, bem sei, não sabia, tinha-me esquecido.
— Nada de desculpas, absolutamente — disse Dolokov a Denissov, que por seu lado fazia tentativas de conciliação, e também ele se aproximou do local designado.
O duelo ia travar-se a uns oitenta passos da estrada onde tinham ficado os trenós, numa clareirazinha de um pinheiral coberto de neve que o degelo dos dias anteriores principiava derreter. As testemunhas, ao procederem à medição do terreno, haviam deixado impressos na neve mole os contornos dos pés desde o ponto em que estavam até aos sabres de Nesvitski e de Denissov, que delimitavam o campo, cravados a dez passos um do outro. Tudo estava pronto há uns três minutos, e no entanto uma hesitação qualquer impedia o começo do duelo. O silêncio era geral.
[V]
— Bom! Vamos a isto — disse Dolokov.
— Vamos — tornou Pedro, sem deixar de sorrir.
A situação tornava-se grave. Era evidente que aquele caso, principiado tão à ligeira, ninguém já o podia deter, e ia seguir o seu curso à margem da vontade dos homens. Tinha de ir até ao fim.
Denissov foi o primeiro a avançar até à marcação e declarou: — Visto os adversários se terem recusado à conciliação, não acham ser tempo de começar? Peguem nas pistolas e quando ouvirem dizer «três» principiem a avançar.
— Um! Dois! Três! — gritou violentamente e afastou-se. Os dois homens aproximaram-se, seguindo o caminho aberto, vendo-se pouco a pouco melhor através do nevoeiro. Os adversários tinham o direito, ao avançarem para o limite fixado, de disparar quando quisessem. Dolokov caminhava em passos lentos, fixando Pedro com os seus olhos azuis, claros e brilhantes. Na sua boca, como sempre, desenhava-se um sorriso.
«Então, quando me apetecer, posso disparar», disse Pedro para si mesmo ao ouvir a palavra «três!», e pôs-se a andar, a passos rápidos, afastando-se do caminho batido e seguindo em plena neve. Tinha a pistola na mão, no extremo do braço estendido, como se receasse ferir-se a si próprio com aquele engenho. Mantinha o braço esquerdo estudadamente à retaguarda, pois o seu desejo seria servir-se dele para firmar o direito, e sabia que isso não era permitido. Depois de ter dado cinco ou seis passos, como se afastasse do caminho traçado, olhou para os pés, lançou um rápido olhar a Dolokov e disparou, puxando o gatilho como lhe tinham ensinado. Como não esperava ouvir uma detonação tão forte, estremeceu, depois sorriu com a impressão que experimentara e ficou imóvel. O fumo, que o nevoeiro ainda tomou mais espesso, não o deixou ver fosse o que fosse nos primeiros momentos; mas não teve a percepção da segunda detonação, que ele esperava. Ouviram-se apenas os passos precipitados de Dolokov e a sua silhueta desenhou-se através do nevoeiro. Tinha uma mão apoiada no flanco esquerdo e com a outra segurava a pistola descaída. Estava pálido. Rostov correu para ele disse-lhe qualquer coisa.
— Não... — respondeu Dolokov, de dentes cerrados. — Não.., ainda não acabou. — E dando ainda alguns passos titubeantes e, trôpegos, até junto do sabre, caiu no chão ao lado deste. Tinha a mão esquerda ensanguentada, que limpou ao uniforme, apoiando-se nela. O rosto estava pálido, sombrio e todo trémulo.
— Façam fa... — principiou ele, sem poder concluir a frase. Façam fa... — articulou com esforço,
Pedro, com um soluço, precipitou-se e ia a ultrapassar o espaço marcado como limite quando Dolokov gritou: — Na baliza! — e Pedro, percebendo do que se tratava, deteve-se junto do sabre. Não havia mais de dez passos a separá-los. Dolokov meteu a cabeça na neve e encheu a boca avidamente, em seguida soergueu o busto, endireitou-se e sentou-se, procurando um ponto de apoio. Continuava a mastigar e a chupar a neve que metera na boca. Os lábios tremiam-lhe, mas não deixava de sorrir, e os olhos brilhavam-lhe com a força que fazia e com o exaspero que sentia no meio da luta que travava consigo próprio. Levantou a pistola e esforçou-se por apontar.
— Ponha-se de perfil, cubra-se com a pistola — disse Nesvitski.
— Proteja-se! — não pôde deixar de gritar o próprio Denissov, testemunha do adversário.
Pedro, com o seu afável sorriso de piedade e de pesar, sem defesa, estendia os braços e as pernas, oferecendo precisamente de frente a Dolokov o seu largo peito, enquanto o fitava com tristeza. Denissov. Rostov e Nesvitski fecharam os olhos. Ao mesmo tempo que a detonação ouviu-se Dolokov:
— Errei o alvo! — gritou com cólera, voltando a deixar-se cair, sem forças, a cara de rojo na neve.
Pedro apertou a cabeça entre as mãos, voltou costas e desapareceu no meio do pinheiral, dando grandes passadas em plena neve e dizendo em voz alta palavras sem sentido:
— Estúpido... Estúpido! A morte... Mentira repetia ele, o rosto descomposto.
Nesvitski foi ao seu encontro, deteve-o, e reconduziu-o a casa. Rostov e Denissov levaram o ferido.
Dolokov, de olhos fechados, estava estendido no trenó e nada respondia ao que lhe perguntavam. No entanto, ao chegarem Moscovo, veio repentinamente a si, e, erguendo penosamente cabeça, pegou na mão de Rostov, que estava a seu lado. Este sentiu-se impressionado pela fisionomia completamente transformada e pelo ar ao mesmo tempo solene e enternecido de Dolokov.
— Então, como te sentes? — perguntou-lhe Rostov.
— Mal! Mas não é disso que se trata, meu amigo — disse-lhe ele, numa voz entrecortada, — Onde estamos? Em Moscovo, bem sei. Eu, não é nada, mas ela, matei-a, matei-a... Ela não vai suportar isto. Ela não o suportará...
— Quem? — perguntou Rostov.
— Minha mãe, minha mãe, o meu anjo, o meu anjo adorado, minha mãe...
E Dolokov chorava, apertando a mão do amigo.
Quando se sentiu mais calmo explicou a Rostov que vivia com a mãe, e que se a mãe o visse assim moribundo não suportaria o golpe. Suplicou-lhe que a fosse preparar.
Rostov cumpriu a sua missão, e assim veio a saber, com grande surpresa sua, que Dolokov, essa peste do Dolokov. Esse brigão do Dolokov, vivia em Moscovo na companhia de sua velha mãe e de sua irmã corcunda e que era o mais carinhoso dos filhos e dos irmãos.
[VI]
Pedro, nesses últimos tempos, raramente se encontrava sozinho com a mulher. Tanto em Petersburgo como em Moscovo, a casa estava sempre cheia de gente. Na noite que se seguiu à do duelo, como lhe acontecia muitas vezes, não se retirou para o seu quarto de cama, mas ficou no imenso gabinete do pai, nesse mesmo gabinete onde este falecera. Deitou-se num divã, disposto a dormir, a fim de esquecer tudo que acontecera, mas não lhe foi possível. Elevou-se dentro de si subitamente uma tal tempestade de sentimentos, de pensamentos, de recordações as mais diferentes, que não só lhe não foi possível passar pelo sono, como não pôde sequer estar deitado, e teve de erguer-se do divã para percorrer a sala de um lado para outro, em grandes passadas. Lembrava-se dela nos primeiros tempos de casados, os ombros nus, os olhos pisados de paixão, e imediatamente via a seu lado o bonito e cínico rosto de Dolokov, atrevido e escarninho, exactamente como no dia do banquete, e logo em seguida se lhe deparava esse mesmo rosto pálido, trémulo, doloroso, o rosto que tinha quando rodopiou e caiu, pesado, sobre a neve.
«Que aconteceu?», perguntava a si mesmo. «Matei o amante, sim, matei o amante de minha mulher. Eis o que se passou. E porquê? Como é que eu desci a isto? Mas porque casaste com ela?», respondeu-lhe uma voz íntima.
«Mas em que é que procedeste mal?», perguntava ele a si próprio. «Nisto apenas: em seres casado sem amor; em que a enganaste enganando-te a ti próprio.» E esse instante em que, depois do jantar, em casa do príncipe Vassili, ele lhe dissera, finalmente, aquelas palavras que se recusavam a sair-lhe da boca: «Amo-a», represento u— se-lhe vivo na sua memória. «É dai que vem todo o mal.»
«Eu sentia então», continuou ele de si para consigo, «eu bem sentia então que não era isso que eu lhe devia ter dito, que eu não tinha o direito de falar assim. E, no entanto, nem por isso deixou de acontecer o que aconteceu.»
Lembrava-se da lua-de-mel, e esta recordação fazia-o corar. Um incidente, sobretudo, o humilhava e o enchia de vergonha: pouco tempo depois do casamento, viera uma manhã ao seu gabinete, com um roupão de seda, ao sair do quarto de cama. Encontrara aí o seu intendente principal, que respeitosamente lhe fizera uma vénia, e que, ao vê-lo naquele traje íntimo, se permitira um ligeiro sorriso, como a testemunhar-lhe a parte que tomava na felicidade do seu amo.
«E quantas vezes me senti orgulhoso dela, orgulhoso da sua altiva beleza, do seu tacto mundano», pensava. «Sentia-me orgulhoso de a ver tão inacessível. E havia razões de sobra para me sentir orgulhoso! De mim para comigo dizia que não a compreendia. Quantas vezes, ao pensar no seu carácter, eu supunha que a culpa era minha, que era eu quem não compreendia a sua serenidade perpétua, o seu ar sempre satisfeito, a ausência de toda a espécie de preferências ou desejos, quando a solução do enigma consistia apenas em que ela era uma mulher dissoluta. E quando encontrei a solução, tudo se tomou claro! Anatole ia procurá-la para lhe pedir dinheiro emprestado e beijava-lhe os ombros nus. Ela não lhe dava dinheiro, mas consentia que ele lhe beijasse os ombros. Se o pai, gracejando, lhe excitava o ciúme, ela respondia-lhe, sorrindo, tranquila, não ser tão parva que estivesse disposta a sentir ciúmes. Pedro pode fazer o que quiser, dizia ela de mim. E um dia em que eu lhe perguntei se não sentia qualquer indício de gravidez, pôs-se a rir com um ar distante, dizendo-me não ser tão parva que estivesse disposta a ter filhos, e que, fosse como fosse, filhos meus é que ela nunca teria.»
Lembrou-se depois da trivialidade das suas ideias, da vulgaridade das expressões que lhe eram familiares, não obstante a educação que tivera num meio altamente aristocrático: «Não sou tão parva como isso... Experimenta e verás... Ora vai passear.» Muitas vezes, considerando o êxito de que ela gozava junto das pessoas dos dois sexos, jovens e velhos. Pedro não podia compreender porque a não amava. «Não, nunca a amei», dizia para consigo. «Eu sabia muito bem que ela era uma mulher dissoluta, mas nunca tive coragem de o reconhecer. E agora, lá estava Dolokov, meio deitado na neve, procurando sorrir, talvez a morrer, respondendo com uma falsa bravata às minhas palavras de arrependimento!»
Pedro fazia parte do número das pessoas que, apesar da fraqueza natural do seu carácter, nunca procuram confidentes dos seus desgostos. Ruminava-os sempre consigo próprio.
«Ela, só ela, só ela é culpada de tudo», prosseguia para consigo mesmo. «Mas que hei-de fazer? Porque é que me prendi a ela? Porque é que lhe disse ‘Amo-a’, quando era mentira, e, pior ainda, porquê essa mentira? A culpa é minha e devo aguentá-la... Eh! O quê? A desonra do meu nome, uma vida infeliz? Eh!, que vem a ser tudo isto? A vergonha do nome, a honra, tudo isso é relativo, tudo isso depende do meu próprio ser.»
«Eles executaram Luís XVI», reflectia, «porque eles eram de opinião de que ele tinha faltado à sua palavra e que era um criminoso, e eles tinham razão do seu ponto de vista, como tinham razão igualmente os que sofreram por ele o martírio e lhe deram um lugar ao lado dos santos. Depois executaram Robespierre, porque era um déspota. Quem é que tinha razão? Quem é que estava em erro? Ninguém. Vive enquanto estás vivo: amanhã morrerás, como eu podia ter morrido há uma hora. Valerá a pena atormentar-se uma pes3oa quando a vida não é mais que um segundo relativamente à eternidade?»
Precisamente nesse instante, quando ele se sentia calmo com todos estes raciocínios, surgiu ela, de súbito, na sua imaginação, e precisamente tal como era nesses momentos em que lhe testemunhava o seu mentiroso amor. Sentiu o sangue afluir-lhe ao coração e de novo se viu obrigado a levantar-se, a caminhar, a partir e a dilacerar tudo o que lhe caia nas mãos. «Porque é que eu lhe disse: amo-a?», repetia a todo o momento. E ao formular-se pela décima vez, pelo menos, esta interrogação, pôs-se a rir sozinho, lembrando-se da frase de Molière: «Mas em que vespeiro, cos diabos, se havia de meter!»
Durante a noite tocou a campainha para chamar o criado de quarto e mandou-o preparar as bagagens, a fim de partirem Para Petersburgo. Pensava ser-lhe impossível voltar a encontrar-se frente a frente com a mulher. Resolveu partir no dia seguinte e deixar-lhe uma carta onde lhe diria estar na intenção de se separar dela para sempre.
Pela manhã, quando o criado de quarto entrou no seu gabinete com o café. Pedro, estendido na otomana, dormia, com um livro aberto na mão. Acordou sobressaltado e esteve muito tempo assustado antes de perceber onde se encontrava.
— A senhora condessa manda perguntar se Vossa Excelência a pode receber — disse o criado de quarto.
Ainda Pedro não tivera tempo de pensar na resposta e já a condessa em pessoa, num roupão de cetim branco, bordado a prata, e em cabelo, com o lindo rosto coroado em diadema pelas suas duas espessas tranças, penetrava no gabinete com um ar tranquilo e imponente. No entanto, na sua fronte de mármore, ligeiramente arqueada, havia uma ruga de cólera. Com a sua calma soberana não quis falar diante do criado de quarto. Ouvira falar do duelo e viera para conversar sobre o caso. Esperou que o criado pousasse a bandeja e saísse. Pedro olhava-a timidamente através das lunetas, e, tal qual uma lebre rodeada por uma matilha de cães que se mantém de orelha murcha, diante do inimigo. Pedro fingiu continuar a ler. Depois, sentindo o absurdo e a impossibilidade da sua atitude, lançou-lhe ainda um olhar tímido. Ela não se sentou, mas olhando-o e sorrindo com, desdém, aguardou que o criado saísse.
— Que vem a ser isto agora? Que fez? Estou a perguntar-lhe! — disse-lhe ela severamente.
— Eu? Que fiz eu? — balbuciou Pedro.
— Ora aqui está o grande valente! Então, diga alguma coisa, que significa esse duelo? Que quis provar com isso? Então? Estou falar consigo!
Pedro revolveu-se pesadamente no divã, abriu a boca, mas não pôde articular palavra.
— Visto que não responde, sou eu quem vai falar — prosseguiu Helena. — Acredita em tudo o que lhe dizem. Contaram-lhe... — Despediu uma gargalhada. — que Dolokov era meu amante.— Falava francês e disse a palavra sem qualquer embaraço, com o seu cinismo de linguagem habitual.— E acreditou no que lhe disseram! E agora que provou com isto? Que provou com este duelo? Isto apenas: que o senhor é um asno: coisa que toda a gente já sabia. E para chegar a que conclusão? Para fazer de mim a mofa de toda Moscovo; para fazer com que se diga que, em estado de embriaguez, fora de si, provocou em duelo um homem de quem tinha ciúmes sem razão... — Helena ia erguendo a voz progressivamente e ia aquecendo.—, um homem que vale mais do que o senhor de todos os aspectos...
— Hem!... Hem!... — regougou Pedro, piscando os olhos, sem a olhar e sem fazer um movimento.
— E que o leva a pensar que ele é mexi amante?... Diga! É por me agradar a companhia dele? Se o senhor fosse mais espirituoso e mais amável, talvez preferisse a sua.
— Basta.., peço-lhe — exclamou Pedro, em voz anelante.
— E porque é que eu me hei-de calar? Nada me impede de falar e de proclamar que deve haver muito poucas mulheres com um marido como o senhor que não tivessem arranjado amantes, coisa que aliás não fiz.
Pedro quis dizer uma palavra e olhou-a com uma expressão tão estranha que ela não a compreendeu, depois voltou a deitar-se. Sofria fisicamente naquele momento: tinha o peito opresso e não podia respirar. Dava-se conta de que era preciso fazer fosse o que fosse para pôr ponto final àquele sofrimento, mas ao mesmo tempo o que ele Queria fazer era terrível de mais.
— É melhor que nos separemos — disse ele, numa voz entrecortada.
— Separemo-nos, se assim o quer, mas com a condição de me dar com que viver... — disse Helena. — Separarmo-nos, como se isso me metesse medo!
Pedro saltou do divã e lançou-se, cambaleante, sobre ela.
— Eu mato-te! — gritou, e, agarrando, com uma força que ele próprio desconhecia, no tampo de mármore da mesa, deu um passo para ela, agitando-o no ar.
Helena teve uma expressão de terror: soltou um grito agudo e atirou-se para trás. O sangue do pai tinha falado no íntimo de Pedro. Sentia a embriaguez e o prazer da raiva. Atirou com o tampo de mármore, que se partiu em pedaços, e, de punhos cerrados, caminhou para ela, gritando: — Sai! — numa voz tão terrível que toda a casa a ouviu repassada de terror. Só Deus sabe o que ele teria sido capaz de fazer naquele momento se Helena não tivesse fugido.
Uma semana mais tarde Pedro deu à mulher uma procuração para a administração de todos os seus bens na Grande Rússia, isto é, mais de metade da sua fortuna, e sozinho dirigiu-se a Petersburgo.
[VII]
Dois meses tinham decorrido desde que se soubera em Lissia Gori da batalha de Austerlitz e do desaparecimento do príncipe André. Apesar de todas as cartas recebidas por intermédio da Embaixada e de todos os inquéritos, o seu corpo não fora encontrado e o seu nome não figurava na lista dos prisioneiros. O pior para a família era que não deixava de subsistir a esperança de que ele tivesse sido recolhido no campo de batalha pelos habitantes e de que talvez se encontrasse algures, curado ou moribundo, só, no meio de estranhos, impossibilitado de dar notícias. Os jornais, por intermédio dos quais o velho príncipe tivera conhecimento da derrota, tinham mencionado, e, como sempre, demasiado lacónica ou vagamente, que os Russos, depois de brilhantes combates, haviam sido obrigados a bater em retirada e que esta se efectuara em boa ordem. Ele compreendera, através desta versão oficial, que os Russos tinham sido batidos. Uma semana depois das notícias dos jornais recebera uma carta de Kutuzov informando-o do destino do filho.
«O seu filho» — escrevia ele — «diante de mim, com a
bandeira na mão, à frente do seu regimento, caiu como um herói digno de seu pai e da sua pátria. Muito lamentamos, tanto eu como todo o exército, não podermos confirmar ainda se morreu ou se está vivo. Ainda se não perdeu a esperança de que o seu filho esteja vivo, pois a verdade é que de outro modo seria de esperar que o seu nome viesse mencionado entre os dos oficiais
cujos corpos foram encontrados no campo de batalha, e cuja lista me foi entregue.»
Tendo recebido estas notícias já tarde, pela noitinha, quando estava só no seu gabinete, o velho príncipe, no dia seguinte, deu, como de costume, o seu passeio matinal; mas conservou-se taciturno diante do intendente, do jardineiro e do arquitecto, e, posto tivesse aspecto de encolerizado, não disse uma palavra a ninguém.
Quando, à hora habitual, entrou a princesa Maria no seu gabinete, estava ele ao tomo, como de costume, e não voltou sequer a cabeça.
— Ah!, princesa Maria! — exclamou subitamente, numa voz que não era a sua voz habitual, atirando fora a goiva. A roda continuou a girar, graças à velocidade adquirida. Por muito tempo Maria se lembrou do estridor da roda que lentamente se desvanecia e que para ela passou a fazer parte de tudo o que depois se seguiu.
Aproximou-se, viu a expressão do rosto do pai e sentiu-se de repente desfalecer. Pelos seus olhos perpassou como que uma nuvem. Aquele rosto, não propriamente triste nem abatido, mas mau e como que reflectindo uma luta sobre-humana, fazia-lhe adivinhar uma tremenda desgraça suspensa sobre ela e prestes a esmagá-la, a maior desgraça que ainda conhecera, uma desgraça irreparável, inconcebível, a morte dum ser amado.
— Meu pai! André! — exclamou a desajeitada e desgraciosa princesa, mas com um tal encanto indizível de dor e de esquecimento de si própria que o pai pão pôde suportar o seu olhar e se afastou para chorar.
— Tenho notícias. Não está nem entre os prisioneiros nem entre os mortos. Se Kutuzov escreve — prosseguiu com violência e numa voz forte, como se, por esta violência, quisesse afastar a filha —, é que foi morto.
A princesa não caiu nem desmaiou. Estava já pálida, mas quando soube a notícia o seu rosto transformou-se e raios emanaram dos seus belos olhos luminosos. Dir-se-ia que uma alegria, uma alegria superior, independente das tristezas e das alegrias deste mundo, submergia a poderosa dor que sentia. Esqueceu todo o medo que tinha do pai, aproximou-se dele, pegou-lhe nas mãos, puxou-o para si e passou-lhe um braço pelo pescoço seco e nodoso.
— Meu pai — disse ela. — Não se afaste de mim, choremos os dois juntos.
— Os miseráveis, os brigões! — exclamou o velho, afastando dela a cara — Perdem o exército, fazem morrer homens! E para quê? Bom, vai prevenir a Lisa.
A princesa deixou-se cair sem forças numa poltrona, junto do pai, e rompeu em soluços. Via outra vez naquele momento o irmão no instante em que ele se fora despedir de ambas, dela e de Lisa, o seu ar carinhoso e ao mesmo tempo altivo. E via-o de novo no momento em que dependurava ao pescoço, gracejando, mas muito comovido no fundo, a pequena imagem que ela lhe dera. «Teria fé? Ter-se-ia arrependido da sua incredulidade? Estará ele agora na mansão do repouso e da felicidade eternas?», dizia de si para consigo.
— Meu pai, diga-me, como foi? — perguntou, no meio das suas lágrimas.
— Vai, vai, ficou na batalha em que foram mortos os melhores soldados russos, onde pereceu a glória russa. Vai, princesa Maria. Previne a Lisa. Eu também vou, também vou contigo.
Quando a princesa Maria voltou dos aposentos do pai, a princesinha estava à sua mesa de costume e olhou para a cunhada com esse seu ar concentrado, misto de contentamento e de tranquilidade íntima, peculiar às mulheres no período da gravidez. Percebia-se bem que os seus olhos não viam a princesa Maria, mas se fixavam no mais profundo dela própria, no acontecimento feliz e misterioso que estava a preparar-se.
— Maria — disse ela, pousando o seu bordado e recostando-se na poltrona —, deixa ver a tua mão.
Pegou na mão da princesa e pousou-a no seu ventre. Os olhos sorriam-lhe enquanto esperavam, o lábio sombreado por um ligeiro buço soergueu-se-lhe e assim ficou, como se fosse uma criança feliz.
Maria ajoelhou diante dela e escondeu o rosto nas pregas do vestido da cunhada.
— Aqui, aqui? Sentes? Que engraçado! E sabes. Maria, vou gostar tanto dele — dizia Lisa, os olhos cintilantes de felicidade. Maria não podia erguer a cabeça. Chorava.
— Que tens tu. Macha?
— Nada... Senti-me triste.., sim, ao pensar no André — disse ela, sufocando as lágrimas nos joelhos da cunhada.
Por várias vezes durante aquela manhã tentou prepará-la e de cada vez que o tentou as lágrimas não a deixaram falar. Esse pranto, que a princesinha não percebia, atormentava-a, apesar de pouco perspicaz. Nada disse, mas teve um olhar inquieto, como quando se espera qualquer coisa. Antes da refeição, viu entrar o velho príncipe, que sempre lhe metera medo, o qual, desta vez, trazia uma cara especialmente má e inquieta e voltou a sair sem dizer palavra. Ela pousou os olhos em Maria, depois quedou-se pensativa, com essa expressão recolhida em si própria tão vulgar nas mulheres grávidas, e de súbito rompeu a chorar. — Por certo têm notícias do André — disse ela.
— Não, bem sabes que ainda não houve tempo para isso, mas meu pai anda inquieto e eu atormentada.
— Então, não se sabe nada?
— Não, nada — respondeu Maria, olhando firmemente com os seus luminosos olhos.
Estava resolvida a nada lhe dizer e a persuadir o pai a que ocultasse a recepção das más notícias até ao momento do parto da princesinha, para muito breve. Tanto Maria como o velho príncipe, cada um a seu modo, lá iam suportando e escondendo a sua dor. O príncipe não queria esperar: decidira que André estava morto, e, posto houvesse enviado à Áustria um dos seus subordinados, com a incumbência de descobrir o rasto do filho, já encomendara em Moscovo um monumento que pensava mandar erigir no parque e dizia a toda a gente que ele fora morto. Procurava fazer a vida de sempre, sem alterar coisa alguma aos seus hábitos, mas as forças atraiçoavam-no: os seus passeios eram menos longos, comia e dormia menos e tornava-se mais fraco de dia para dia. Quanto à princesa Maria, essa continuava a ter esperança. Rezava pelo irmão como se ele estivesse vivo e a todo o momento esperava a nova do seu regresso.
[VIII]
— Minha boa amiga — dizia a princesinha na manhã do dia 19 de Março, depois do almoço, e o seu lábio, sombreado por um ligeiro buço, solevava-se, como de costume. Mas, como desde a chegada da terrível nova tanto os sorrisos como o tom das vozes e até o próprio andar das pessoas em casa só acusavam aflição, dir-se-ia que também ela, desta vez, afinara pelo tom geral, sem, aliás, perceber qual a razão daquela tristeza comum, e o seu sorriso reflectia a mágoa de todos.
— Minha boa amiga, estou com medo de que o fruschtique (A palavra frichtik (do alemão frukstuck) é muitas vezes Usada pelo povo em vez da palavra russa Zavtrak (pequeno-almoço). (N, dos T.) como diz o nosso cozinheiro Foka, desta manhã, me tenha feito mal.
— Que tens, minha pomba? Estás tão pálida! Ah! Que pálida estás! — disse, assustada, a princesa Maria, aproximando-se, no seu passo lento e mole, da jovem princesinha.
— Excelência, não seria melhor mandar chamar Maria Bogdanovna? — perguntou-lhe uma das criadas de quarto então presentes. Maria Bogdanovna era a parteira do sítio, que há quinze dias se instalara em Lissia Gori.
— Realmente — replicou Maria — talvez seja necessário. Eu vou. Coragem, meu anjo! — E deu um beijo a Lisa, disposta a sair.
— Ah!, não, não! — exclamava a princesinha, e no seu rosto, além da palidez e da dor física, reflectia-se a infantil apreensão pelas dores inevitáveis.
— Não, é do estômago... Dize que é do estômago, dize Maria, dize...— E pôs-se a chorar como uma criança caprichosa que sofre e contorce os braços com certo exagero.
Maria saiu a correr em busca de Maria Bogdanovna.
— Meu Deus! Meu Deus! Oh! — continuava a gemer a paciente.
No caminho encontrou a parteira, que vinha ao seu encontro, esfregando as mãos nédias e brancas, com uma expressão importante e serena.
— Maria Bogdanovna! Parece-me que começou — disse Maria fixando a parteira com os olhos assustados e muito abertos.
— Pois ainda bem — volveu-lhe Maria Bogdanovna, sem alterar o passo. — Isto são coisas, menina, são coisas de que as meninas não entendem.
— E o médico de Moscovo sem chegar! — suspirou a princesa. Para dar satisfação aos desejos de Lisa e do príncipe André, tinham mandado vir, para aquele transe, um médico parteiro de Moscovo, e a todo o momento esperavam a sua chegada.
— Não é nada, princesa, não se apoquente — disse Maria Bogdanovna —, mesmo sem o médico tudo há-de correr bem. Maria, dos seus aposentos, ouviu, cinco minutos depois, que transportavam qualquer coisa pesada. Viu os criados levar para c, quarto de cama o divã de couro habitualmente no gabinete do príncipe André. Os homens que o levavam tinham um aspecto calmo e solene.
Maria, sozinha no seu quarto, era toda ouvidos para o que estava a ocorrer em casa, abrindo a porta de quando em quando, sempre que alguém passava perto, e observando o movimento do corredor. Várias mulheres passaram e voltaram a passar, num passo tranquilo; olhavam para a princesa e afastavam-se. Mari, não teve coragem de as interrogar, voltou a fechar a porta, recolheu-se outra vez aos seus aposentos, tomou a sentar-se na sua poltrona, pegou no seu livro de orações e ajoelhou-se diante das imagens. Infelizmente, com grande surpresa sua, verificou que a oração lhe não trazia sossego. De súbito, a porta do quarto abriu-se, e no limiar, com um lenço pela cabeça, surgiu a velha ama de Maria. Praskovia Saviclona, que, por ordem expressa do príncipe, quase nunca entrava nos aposentos da princesa.
— Vim fazer-te companhia. Machenka — disse a ama — e aqui tens as velas do casamento dos príncipes que eu trouxe comigo para as acender diante dos Santos, meu anjo — acrescentou, num suspiro,
— Ah, como eu gosto de te ver, ama.
— Deus é misericordioso, minha querida menina.
A ama acendeu, diante do oratório, as velas, envoltas em papel dourado, e sentou-se à porta a fazer meia. Maria pegou num livro e pôs-se a ler. Quando se ouviam passos ou vozes, a princesa e a ama olhavam uma para a outra, aquela com olhos assustados e de quem interroga, esta com urna expressão serena. As impressões que a princesa Maria estava a sentir eram as mesmas que a pouco e pouco se iam apoderando de toda a gente da casa. Dando ouvidos à crendice segundo a qual quanto menos as pessoas atentarem nos sofrimentos da parturiente tanto melhor ela passa, toda a gente fingia ignorar o que sucedia. Ninguém falava no parto mas todo o pessoal da casa, além da sua gravidade costumada e das boas maneiras habituais entre a gente do príncipe, traía um ar preocupado, modos carinhosos, como se aguardassem um grande e incompreensível acontecimento que iria realizar-se dentro de instantes.
Na grande quadra destinada à criadagem tinham deixado de se ouvir risos. No vestíbulo, os lacaios, calados, estavam prontos para tudo. No compartimento dos servos haviam-se acendido as lutchines e as candeias e ninguém dormia. O velho príncipe, no seu gabinete, andava de um lado para o outro na ponta dos pés e enviara Tikon colher informações junto de Maria Bogdanovna.
— Diz-lhe apenas: o príncipe mandou-me perguntar-te o que há de novo, e vens logo contar-me o que ela te disser.
— Comunica ao príncipe que os trabalhos de parto já principiaram — respondera Maria Bogdanovna, olhando significativamente para o mensageiro.
Tikon foi transmitir o recado ao príncipe.
— Está bem — tomou-lhe este, fechando a porta, e Tikon, cá fora, não voltou a ouvir o mais pequeno ruído no gabinete.
Pouco depois voltou a entrar no aposento sob o pretexto de arranjar as velas. Ao ver o amo estendido no divã ficou um instante a observar-lhe o rosto desassossegado, abanou a cabeça, aproximou-se dele, sem dizer palavra, beijou-o no ombro, e saiu sem tocar nas velas nem dizer porque havia entrado no gabinete. O mais solene dos mistérios deste mundo continuava a decorrer. A tarde passou, veio a noite. O sentimento de expectativa e de enternecimento de todos perante o incompreensível, em vez de se atenuar aumentou. Ninguém tinha vontade de dormir.
Era uma daquelas noites de Março em que o Inverno parece querer recuperar os seus direitos, desencadeando, com uma fúria desenfreada, as suas últimas tempestades de neve. Ao encontro do médico de Moscovo, esperado a todo o momento, fora mandado um trenó à estrada real, e alguns homens a cavalo, munidos de lanternas, haviam sido colocados à entrada do caminho vicinal com a missão de o guiarem através dos atoleiros e das poças de neve fundida.
A princesa Maria há muito já que pousara o livro que estava lendo. E ali continuava sentada, sem dizer nada, os olhos luminosos fitos no rosto enrugado da ama, que ela conhecia em seus mais pequeninos detalhes, nas madeixas dos seus cabelos brancos, que lhe saíam do lenço amarrado à cabeça, e nos refegos do seu queixo.
A ama Savichna, sempre a fazer meia. Ia contando, na sua voz tranquila, sem que ela própria ouvisse ou entendesse o que estava a dizer, uma história que cem vezes narrara já, isto é, a maneira como a falecida princesa mãe dera à luz a princesa Maria, em Kichiniev, assistida apenas por uma matrona da Moldávia.
— Deus é misericordioso; não são precisos doktures (Nesta época, os médicos da Rússia eram quase todos estrangeiros, especialmente alemães, (N, dos T.) para nada.
De súbito um golpe de vento veio sacudir o caixilho da janela (em obediência às ordens do príncipe, assim que chegavam as andorinhas eram retirados os duplos caixilhos das janelas), e, abalando o fecho mal premido, afastou os cortinados de seda e apagou a vela, ao mesmo tempo que o frio e a neve penetravam no quarto. A princesa Maria estremeceu; a ama pousou a meia e, aproximando-se da janela, debruçou-se e segurou o caixilho aberto. O vento frio açoitava-lhe as pontas do lenço da cabeça e os caracóis brancos dos cabelos.
— Princesa, minha filha, vem alguém pela avenida! — exclamou ela, segurando o caixilho sem o fechar. — E traz lanternas. Naturalmente é o doktur...
— Ah!, meu Deus! Louvado seja Deus! — exclamou Maria.— É preciso ir ao seu encontro; não sabe russo.
Atirou um xale para os ombros e saiu ao encontro dos visitantes. Ao atravessar o vestíbulo viu, através da janela, uma carruagem, de lanternas acesas, parada diante da escadaria. Foi até à escada. No corrimão havia uma lanterna cuja luz o vento agitava. Filipe, o criado, de aspecto alterado, estava em baixo, no patamar, com uma lanterna na mão. Mais abaixo ainda, no cotovelo da escadaria, ouviam-se passos abafados. E uma voz falava, não fie todo desconhecida da princesa Maria.
— Louvado seja Deus! — dizia a voz. — E meu pai?
— Foi-se deitar — respondia a voz de Demiane, o mordomo, que descia até ao fundo da escadaria.
A voz ainda pronunciou mais algumas palavras, a que Demian,, respondeu e os passos abafados aproximaram-se do cotovelo invisível da escadaria.
«É o André!», exclamou para si mesma a princesa Maria. Não, não pode ser, seria realmente extraordinário!», e no mesmo momento em que estes pensamentos lhe atravessavam o espírito surgiu no patamar onde estava o criado com a luz a silhueta do príncipe André, com a gola da peliça toda salpicada de neve. Sim, era ele, mas pálido e emagrecido, o rosto mudado, os traços alterados e estranhamente amaciados. Galgou a escada e abraçou-se à irmã.
— Não receberam a minha carta? — perguntou, e sem aguar— dar resposta, que lhe não dariam, naturalmente, pois a princesa estava incapaz de falar, voltou-se para o médico, que encontrara na última muda, e na sua companhia continuou a subir P, escada, tomando outra vez a irmã nos braços.
— Que estranho acaso! — exclamou ele .— Macha, minha querida! — e depois de tirar a peliça e as botas, penetrou nos aposentos da esposa.
[IX]
A princesinha, de touca branca, estava reclinada num monte de almofadas. As dores tinham diminuído. As madeixas de seus cabelos negros emolduravam-lhe as faces febris e cobertas de suor. Na sua encantadora boquinha rosada e entreaberta, com o lábio sombreado pelo ligeiro buço, havia um sorriso alegre.
O príncipe André entrou e parou diante dela, junto do divã sobre o qual jazia. Os olhos dela, com uma expressão infantil, detiveram-se nele, perturbados e cheios de susto, sem mostrar qualquer nova expressão. «Gosto de toda a gente, nunca fiz mal, a ninguém, porque é que sofro assim? Ajudem-me!», diziam os seus olhos,
Via o marido, mas não podia compreender o que significava aquela aparição súbita. O príncipe André contornou o divã e depôs-lhe um beijo na testa.
— Minha adorada — disse-lhe ele, usando uma palavra que nunca costumava empregar. — Deus é misericordioso...
A princesinha interrogou-o com os olhos, num momo de criança mimada. «Esperava que me ajudasses, e nada, nada. És como os outros!», diziam os olhos dela. Não estava admirada de o ver: não compreendia porque é que ele tinha aparecido. A chegada dele não tinha a mais pequena relação com os sofrimentos que a torturavam e com o consolo que esperava. As dores recomeçaram, e Maria Bogdanovna pediu ao príncipe que saísse.
O médico entrou no quarto. O príncipe André saiu e dirigiu-se ao quarto da irmã. Ali começaram a falar em voz baixa, mas a conversa interrompia-se a todo o momento. Escutavam e esperavam.
— Vá, meu amigo — disse-lhe a princesa Maria.
André voltou para os aposentos da mulher e sentou-se no quarto contíguo ao dela, disposto a esperar. Uma mulher com o rosto transtornado saiu do quarto e ao ver o príncipe André ficou perturbada. Este apertou a cabeça nas mãos e assim esteve alguns minutos. Queixumes que faziam lembrar gemidos de um animal ferido ouviram-se através da parede. André levantou-se e aproximou-se da porta, na intenção de a abrir. Alguém a segurava pela parte de dentro.
— Não pode entrar, não pode entrar! — arquejou uma voz assustada.
Pôs-se a andar no quarto de um lado para o outro. Os gemidos cessaram: decorreram ainda alguns segundos. De repente ouviu-se um grito pavoroso, que nada tinha de humano: não era ela quem assim podia gritar.
André acorreu precipitadamente: o grito extinguira-se; agora era um vagido de criança que se ouvia.
«A que propósito esta criança?», disse André de si para consigo no primeiro momento. «Uma criança? Que criança?... Porque é que está aqui uma criança? Será um recém-nascido?»
De súbito compreendeu a alegria que este grito significava; os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, e apoiado ao parapeito da janela principiou a soluçar como se fosse uma criança. A porta abriu-se. O médico, com as mangas arregaçadas, sem redingote, pálido e um estremecimento nervoso na cara, entrou no quarto onde estava o príncipe André. Este quis interrogá-lo, mas ele olhou-o com um ar alucinado e voltou a sair sem dizer palavra. Depois apareceu uma mulher, mas, ao ver o príncipe, quedou-se, indecisa, no limiar da porta. André entrou no quarto. A mulher estava estendida, morta, na mesma posição em que ele a vira cinco minutos antes, e a mesma expressão, não obstante a fixidez do olhar e a palidez das faces, estampava-se naquele encantador rosto infantil com o lábio sombreado por uma ligeira penugem.
«Gosto de todos e não fiz mal a ninguém, que é que fizeram de mim?», dizia aquele encantador e lastimoso rosto de morta. A um canto qualquer coisa de ínfimo e vermelho rosnava e choramingava entre as mãos brancas e trémulas de Maria Bogdanovna.
Duas horas mais tarde o príncipe André entrava, em lentos passos, no gabinete do pai. O velho não dormia. Estava à porta, e assim que esta se abriu tomou entre as suas mãos rudes e secas, como se fossem tenazes, o pescoço do filho e soluçou como uma criança.
No dia seguinte, pela manhã, foi o enterro da princesinha, e, para lhe dizer adeus. André subiu os degraus do catafalco e olhou-a dentro do ataúde. Ela tinha a mesma cara, mas de olhos fechados. «Ali!, que é que fizeram de mim?», continuava a dizer, e André sentiu no seu íntimo como que uma laceração e confessou-se a si próprio culpado de um pecado irreparável e inesquecível. Não podia chorar. O velho também se aproximou e beijou a mãozinha de cera da defunta, sossegadamente estendida, e o seu rosto pareceu-lhe dizer também: «Ah!, porque é que me tratou assim?» E o velho, ao ver a expressão deste rosto, voltou a cara, iracundo.
Passaram-se cinco dias, e foi o baptizado do principezinho Nicolau Andrelevitch. A parteira segurava com o queixo as roupinhas da criança, enquanto o sacerdote, com uma pena de pato, ungia as palmas das mãos e as plantas dos pés vermelhas e enrugadas da criança.
O padrinho, que era o avô, todo trémulo, com receio de o deixar cair, deu a volta à velha pia baptismal com o neófito nos braços e foi entregá-lo à madrinha, a princesa Maria. André, tremendo de susto, com receio de que afogassem a criança, ficara na sala contígua, aguardando o fim da cerimónia. Foi com alegria que o olhou quando a ama lho trouxe, e abanou a cabeça satisfeito quando esta lhe disse que o pedaço de cera com cabelos da criança lançado na pia não fora ao fundo, mas ficara à tona de água.
[X]
A participação de Nicolau no duelo Dolokov— Bezukov fora abafada, graças ao velho conde, e em vez de ser degradado, como se esperava. Rostov foi nomeado ajudante-de-campo do general governador de Moscovo. Por causa disso não lhe fora possível ir para o campo com toda a família e passara todo o Verão no desempenho das suas novas funções. Dolokov restabeleceu-se, e Rostov, durante a convalescença, tomou-se seu amigo. Dolokov, enquanto doente, foi tratado em casa da mãe, que o amava apaixonadamente. A velha Maria Ivanovna, que se afeiçoara a Rostov em virtude da amizade deste pelo seu Fédia, falava-lhe muitas vezes do filho:
— Sim, conde, o meu filho é nobre de mais, tem uma alma pura de mais — dizia ela — para o século em que vivemos. Ninguém gosta da virtude, que ofusca toda a gente. Mas diga-me, conde, acha que foi justo, acha que foi digno o que fez Bezukov? Fédia, com toda a sua nobreza de alma, era-lhe afeiçoado e ainda agora mesmo nunca diz mal dele. Pois não é verdade que fizeram juntos muitas partidas, por exemplo aquela ao polícia em Petersburgo? E a verdade é que Bezukov nada sofreu com isso, enquanto que Fédia pagou as favas. E o que ele sofreu! Sim, voltaria a dar-lhe os galões, mas como não o fazerem? Ah!, sim, bravos, filhos da pátria como ele não andam por aí aos pontapés. E esse duelo? Ouça o que eu lhe digo. Terá essa gente coração, honra? Sabendo que ele é filho único, provocaram-no e dispararam contra ele à queima-roupa. Felizmente Deus teve pena de nós E porquê? Sim, quem é que no nosso tempo não é vítima de intrigas? Há o direito de uma pessoa ser ciumenta àquele ponto? Ainda podia compreender se ele lhe tivesse dito antes alguma coisa, mas há um ano que aquilo durava. E, ouça, ele desafiou-o pensando que Fedia não se quereria bater com ele porque lhe devia dinheiro. Que baixeza! Que vilania! Bem sei, o senhor compreendeu o Fédia, meu caro conde, por isso eu gosto tanto de si, creia. São poucos os que o compreendem. É uma alma tão elevada, tão pura!