Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 9 de 18 · parte 1/5

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Guerra e Paz

Primeira Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

LIVRO TERCEIRO

[I] [II][III][IV][V] [VI] [VII][VIII][IX][X][XI] [XII][XIII][XIV][XV] [XVI]

[XVII] [XVIII] [XIX][XX][XXI] [XXII] [XXIII]

 

[I]

Em fins de 1811 principiaram os armamentos intensivos e a concentração das forças da Europa ocidental e, em 1812, estas forças, ou seja, milhões de homens, no número das quais se contava transportes e abastecimentos, puseram-se em marcha do ocidente para o oriente, em direcção às fronteiras da Rússia, para onde se encaminhavam, igualmente, a partir de 1811, os exércitos russos. No dia 12 de Junho, os exércitos da Europa ocidental atravessaram a fronteira e a guerra principiou, isto é, produziu-se então um acontecimento em desacordo completo com a razão e a própria natureza do homem. Estes milhões de homens praticaram, em relação uns aos outros, tão grande número de abominações, de fraudes, de traições, de roubos, de falsificações de moeda, de pilhagens, de incêndios e de morticínios como não há exemplo nos arquivos dos tribunais do mundo inteiro, funcionando há séculos, e sem que, no entanto, durante todo este período, aqueles que cometeram tais crimes fossem considerados, realmente, criminosos.

Que produziu tão monstruoso acontecimento? Quais as suas causas? Os historiadores, com uma segurança ingénua, foram buscá-las ao insulto de que foi vítima o duque de Oldemburgo, não observância do bloqueio continental, à ambição de Napoleão, à resistência de Alexandre, aos erros da diplomacia, etc. Por conseguinte, teria bastado que Metternich, Rumiantsov ou Talleyrand, entre uma recepção na corte e uma reunião política, conviessem em redigir com arte uma nota bem cozinhada ou que Napoleão pegasse na pena para escrever a Alexandre: «Senhor meu irmão, consinto em devolver o ducado ao duque de Oldemburgo», para que não tivesse havido guerra.

É natural que fosse este o ponto de vista dos contemporâneos. Concebe-se que Napoleão tivesse atribuído a guerra às intrigas da Inglaterra, como declarou na ilha de Santa Helena. Admite-se que os membros do Parlamento inglês pensassem que deveriam ir buscar-se-lhe as causas à ambição de Napoleão; que o duque de Oldemburgo as tivesse visto na violência de que fora vítima; o comércio no bloqueio que arruinava a Europa; que os velhos militares e os generais tenham dado como pretexto do conflito a necessidade de ocupar os seus homens; os legitimistas da época a urgência em restabelecer os bons princípios, enquanto os diplomatas pensavam que tudo provinha de a aliança da Prússia com a Áustria em 1809 não ter sido habilmente escondida de Napoleão e de o memorando nº 178 haver sido mal redigido. Compreende-se que os contemporâneos tenham invocado estas e ainda outras razões, tantas ou tão poucas que o número delas pode variar consoante os numerosos pontos de vista.

Para nós, a posteridade, que contemplamos em toda a sua amplitude este acontecimento considerável e que penetramos o seu sentido simples e terrível, todas elas são, evidentemente, insuficientes. Não podemos conceber como milhões de cristãos puderam matar-se uns aos outros e torturar-se mutuamente só porque Napoleão era ambicioso, Alexandre firme, a política da Inglaterra tortuosa e o duque de Oldemburgo se sentia ofendido. Não é possível compreender a ligação que existe entre todas estas circunstâncias e as violências e os morticínios propriamente ditos.

Para nós, a posteridade, nós, que não somos historiadores, nem nos deixamos levar pelo entusiasmo das investigações, e examinamos, por conseguinte, com um bom senso imperturbável os acontecimentos, as causas aparecem-nos em número incalculável. Quanto mais nos enfronhamos na investigação dessas causas mais numerosas elas se nos revelam e cada uma em si ou uma série delas se nos afiguram igualmente justas, embora falsas também, dada a sua insignificância quando comparadas com a imensidade do acontecimento, e igualmente falsas pela sua insuficiência, independentemente de todas as demais causas concordantes poderem ter produzido o resultado encarado, Uma delas, por exemplo, o facto de Napoleão se ter recusado a retirar as suas tropas para o outro lado do Vístula e restituir o ducado de Oldemburgo, parece-nos valer tanto como a recusa de um primeiro-cabo francês a realistar-se, pois a verdade é que, se este não tivesse querido voltar à actividade e o seu exemplo houvesse sido seguido por milhares de soldados, teria havido muito menos homens no exército de Napoleão e este ver-se-ia impossibilitado de declarar a guerra.

Se Bonaparte se não houvesse sentido ofendido ao receber a comunicação em que se lhe pedia que se retirasse para a outra margem do Vístula e não tivesse dado às suas tropas ordem de marcha, não teria havido guerra. Mas se todos os seus sargentos se houvessem recusado a realistar-se também a agressão não se daria. Fosse como fosse, não se teria dado se não tivesse havido intrigas da Inglaterra, se não existisse o príncipe de O1demburgo, se Alexandre não fosse tão susceptível, se a Rússia não tivesse um governo autocrático, se não tivesse havido a Revolução Francesa e assim por diante. Sem qualquer destas causas nada teria acontecido. É muito possível que para que o acontecimento se produzisse tivesse sido preciso o encontro de todas estas causas, de milhares de causas, o que só quer dizer não haver causas exclusivas e que as coisas acontecem porque têm de acontecer.

Milhões de homens, repudiando todo o sentimento humano e toda a espécie de razões, tinham de marchar do Ocidente para o Oriente dispostos a matar os seus semelhantes, tal qual, séculos antes, massas de homens tinham marchado do Oriente para o Ocidente matando igualmente o seu semelhante.

Os actos de Napoleão e de Alexandre, cuja palavra, na aparência, só por si podia impedir ou desencadear os acontecimentos, eram tão pouco livres e arbitrários como os do simples soldado destinado pela sorte ou o recrutamento a tomar parte na campanha.

As coisas não podiam passar-se de outra maneira, pois, para que fosse cumprida a vontade de Napoleão ou de Alexandre, na aparência senhores omnipotentes, era absolutamente necessária a concordância de numerosas circunstâncias, e bastava faltar uma só que fosse para nada vir a produzir-se. Era necessário que milhões de homens entre cujas mãos se encontrava a força actuante — soldados para disparar e transportar abastecimento,, e canhões— estivessem de acordo para cumprir a vontade daqueles dois fracos indivíduos, se isolados, e que a tal fossem conduzidos por um número infinito de razões, tão complicadas quão diversas.

A intervenção do fatalismo na história é inevitável para explicar estas manifestações desprovidas de sentido, ou, antes, cujo sentido nos não é dado compreender. Quanto mais procuramos explicá-las logicamente tanto mais desarrazoadas e incompreensíveis se nos apresentam.

O homem vive para si mesmo, goza de liberdade para alcançar os seus objectivos particulares; todo o seu ser lhe diz que pode realizar ou não imediatamente este ou aquele acto; mas assim que age, realizado que seja o seu acto em tal ou qual momento da continuidade temporal, ei-lo que passa a ser irrevogável e a pertencer daí para o futuro à história, perdendo o seu carácter de acto livre para ocupar um lugar que lhe é previamente designado.

A vida do homem tem duas faces. Há, em primeiro lugar, a vida individual, tanto mais livre quanto mais gerais os seus interesses, quanto mais abstractos; e depois a vida como um elemento social, a vida do cortiço humano, em que o homem tem inevitavelmente de se submeter às leis que lhe são prescritas.

O homem vive conscientemente a sua vida individual, servindo de instrumento inconsciente à realização dos fins históricos da humanidade inteira. O acto realizado torna-se irrevogável, e, graças à sua concordância com os milhões de outros actos realizados ao mesmo tempo, assume valor histórico. Quanto mais alto o homem está colocado na escala da humanidade, quanto mais importantes as personagens com quem entra em contacto, tanto maior, igualmente, o seu poder sobre os outros homens e mais evidente o carácter de predestinação e de fatalidade de cada um dos seus actos.

«O coração dos reis está na mão de Deus.» «O rei é escravo da história.»

A história, quer dizer, a vida inconsciente, geral, elementar, da humanidade serve-se de todos os minutos da vida dos reis para alcançar os seus objectivos.

Embora então, em 1812, Bonaparte estivesse mais do que nunca convencido de que não dependia senão dele «fazer ou não verter o sangue dos povos», como dizia Alexandre na última carta que lhe escreveu, a verdade era mais do que nunca encontrar-se sujeito a essas leis fatais que, enquanto lhe davam a ilusão de agir por si, segundo o seu próprio capricho, o compeliam o, colaborar na obra comum, a história, realizando o que necessariamente tinha de realizar-se.

Os homens do Ocidente puseram-se a caminho do Oriente para se chacinarem uns aos outros. E, segundo a coincidência das causas, colaboraram neste acontecimento e encontraram-se em correlação com ele milhares de pequenas causas desse movimento e dessa guerra, entre as quais a violação do bloqueio continental, a ofensa ao duque de Oldemburgo, os deslocamentos de tropas na Prússia, realizados, segundo pensava Napoleão, com o único fim de se conseguir uma paz armada; o amor da guerra do imperador dos Franceses e o hábito em que estava de a fazer, de acordo com as disposições particulares do seu povo; o entusiasmo a que levavam os preparativos grandiosos; as despesas que estes preparativos determinaram; a necessidade de conseguir vantagens que compensassem tais despesas; as honrarias inebriantes que recebera em Dresde; as conversações diplomáticas que, de acordo com a opinião dos contemporâneos, haviam sido realizadas com o sincero desejo de alcançar a paz e que no fim de contas só serviram para irritar o amor-próprio de parte a parte; milhões de milhões de outras causas, enfim, que concorreram para a realização do acontecimento ou que coincidiram com ele.

Uma maçã cai quando está madura. Porquê? É o peso que a faz cair? Ou porque se lhe seca o pé, porque o sol a queima, porque se tornou pesada de mais, porque o vento a sacudiu ou, muito simplesmente, porque um garoto junto da árvore morria por comê-la?

Nenhuma destas causas é a válida. Não há mais que uma concordância de condições favoráveis na realização de qualquer dos acontecimentos elementares da vida orgânica. O botânico que descobre que a maçã cai como consequência da decomposição do tecido celular ou qualquer coisa semelhante não tem mais razão que o garoto dizendo que a maçã caiu porque ele a desejava comer e nesse intuito rezou a Deus. Igual razão ou sem-razão terá aquele que vier dizer que Napoleão entrou em Moscovo por ser esse o seu desejo e que aí se perdeu por ser essa a decisão de Alexandre. Igualmente estará em erro e terá razão aquele que disser que uma montanha de milhões de puds que acabou por se desmoronar minada na base caiu graças ao último golpe de picareta do último dos sapadores. Nos factos históricos, esses a quem se dá o nome de grandes homens não passam, no fundo, de etiquetas para designar o acontecimento. Aqueles têm tão pouca relação com tais factos como as próprias etiquetas que lhes põem.

Nenhum dos seus actos que a eles se lhes afigurem produto do livre arbítrio podem considerar-se em verdade voluntários no sentido histórico da palavra, pois estão relacionados com a marcha geral da história, onde o seu lugar se encontra assinalado para toda a etcrnidade.

 

[II]

No dia 29 de Maio, Napoleão abandonou Dresde, onde passara três semanas, rodeado por uma corte de príncipes, de duques, de reis e até por um imperador. Antes da sua partida, agradecera aos príncipes, aos reis e ao imperador que mereceram os seus elogios, dera uma lição aos reis e aos príncipes de quem tinha razões para estar descontente, presenteara com pérolas e diamantes do seu próprio escrínio, isto é, roubados a outros reis, a imperatriz da Áustria, e, depois de estreitar amorosamente nos braços Maria Luísa, deixara-a, assim dizia um historiador, profundamente dorida com uma despedida que, ao que parece, esta Maria Luísa muito sentia, considerando-se já esposa de Bonaparte apesar da outra esposa que ficara em Paris.

Não obstante a confiança dos diplomatas na manutenção da paz, para que trabalhavam com afinco, não obstante a carta autógrafa de Napoleão a Alexandre, em que o tratava por Senhor meu irmão e lhe dava a sincera garantia de não querer a guerra e de nunca vir a deixar de lhe consagrar estima e amizade, não obstante tudo isso, pôs-se em marcha, em seguimento do exército, dando as suas ordens, em cada muda, para se activar o movimento das tropas para oriente. Numa sege de viagem tirada por seis cavalos, rodeado de pajens, de ajudantes-de-campo e seguido de uma escolta, ei-lo que toma a estrada de Posen Thorn, Danzigue e Conisberga. Milhares de pessoas vieram ao seu encontro em cada uma destas cidades movidas por um entusiasmo a que se misturava algum terror.

O exército deslocava-se para oriente e após ele o levava aquela sege tirada por seis cavalos mudados em cada nova posta. A 1O de Junho alcançou o exército e passou a noite em plena floresta de Wilkowyski, na propriedade de um conde polaco, onde lhe haviam reservado aposentos.

No dia seguinte ultrapassou o exército, seguindo de sege até às margens do Niémen, e, disposto a estudar um local propício à passagem das suas tropas, envergou um uniforme polaco e apeou-se do cavalo para examinar o rio.

Ao ver os cossacos na outra margem, as estepes perdendo-se na distância, no meio das quais estava Moscovo, a cidade santa, a capital desse mesmo império dos Citas por onde passara Alexandre da Macedónia, Napoleão, com espanto de todos, e contrariamente a todas as considerações, quer estratégicas quer diplomáticas, deu ordem para avançar, e no dia seguinte as suas tropas atravessaram o Niémen.

A 12, de madrugada, saiu da tenda armada sobre uma eminência da margem esquerda e pôs-se a observar com o óculo a vaga das tropas que saíam da floresta de Wilkowyski e enfiavam pelas três pontes que mandara lançar sobre o rio. Os soldados, sabendo que o imperador estava presente, procuravam-no com os olhos, e quando o descobriram sobre a escarpa, diante da tenda, afastado do resto da comitiva, de redingote e chapéu, lançaram ao ar as barretinas de pêlo, gritando: «Viva o imperador!» E, inesgotável, lá continuava a correr, da enorme floresta em que se ocultava, aquela torrente de homens que, dividindo-se pelas três pontes, inundava a margem oposta.

«Desta é que vamos longe. Quando ele próprio intervém no assunto a coisa aquece... Com mil demónios!... Ei-lo!... Viva o imperador!... São estas, pois, as estepes da Ásia! De qualquer modo, uma terra feia. Adeus, Beauché; reservo-te o mais belo palácio de Moscovo. — Adeus, boa sorte.— Viste o imperador? Viva o imperador... rador...! — Se me nomearem governador das índias, Gérard, faço-te ministro de Caxemira, fica combinado. — Viva o imperador! Viva! Viva! Viva! — É ver como eles fogem, esses marotos dos cossacos. Viva o imperador! Ei-lo! Viste-o? Vi-o duas vezes tal como te estou a ver a ti. O pequeno cabo... Vi-o dar a cruz a um dos velhos... Viva o imperador!...»

Eis o que diziam velhos e novos, homens de todos os feitios e posições sociais. Em todos os rostos se reflectia a mesma alegria por verem iniciada uma campanha tão ardentemente esperada e o mesmo entusiasmo e a mesma dedicação pelo homem do redingote cinzento que lá estava em cima naquela eminência.

A 13 de Junho trouxeram a Napoleão um cavalinho árabe, puro-sangue, que ele montou, e a galope despediu em direcção a uma das pontes de Niémen, sempre no meio do mesmo clamor, clamor que ele apenas tolerava, via-se bem, por não ser possível impedir os seus soldados de assim exprimirem o amor que lhe tinham. Esses gritos que o perseguiam por toda a parte fatigavam-no e distraíam-no das preocupações militares que o assoberbavam desde que se juntara ao exército. Atravessou uma das oscilantes pontes de barcas e, embrenhando-se na outra margem, meteu à esquerda, e a galope seguiu na direcção de Kovno, precedido pelos caçadores da Guarda, que, loucos de alegria, lhe abriam caminho por entre os soldados. Quando chegou junto do curso do grande Vístula, parou ao pé de um regimento de ulanos polacos que estacionava ali.

«Viva!», gritavam os polacos com não menor entusiasmo que os próprios franceses, rompendo fileiras e acotovelando-se para melhor o verem.

Napoleão examinou o rio, desmontou e foi sentar-se num tronco de árvore junto das águas. A um seu gesto, trouxeram-lhe o óculo, que ele apoiou no ombro de um pajem, contentíssimo, que logo aparecera, e pôs-se a olhar para a margem oposta. De— pois enfronhou-se no estudo do mapa aberto sobre o tronco da árvore. Sem erguer a cabeça, pronunciou duas ou três palavras e imediatamente dois dos seus ajudantes-de-campo despediram a galope em direcção aos ulanos polacos.

«Que foi? Que disse ele?», ouvia-se nas fileiras, à medida que se aproximava o ajudante-de-campo.

Fora dada ordem para se procurar um vau por onde passar à margem oposta. O coronel dos ulanos, homem idoso, mas de bela presença, corando e com a língua entaramelada pela emoção, perguntou ao oficial se lhes seria permitido, a ele e aos seus homens, atravessarem o no a nado, sem se darem ao trabalho de procurar um vau. Receoso que lhe recusassem o que pedia, como um garoto que pede para montar a cavalo, solicitou autorização para atravessar o no na presença do imperador, o ajudante-de-campo replicou ser muito natural que este excesso de zelo não deixasse de ser agradável ao imperador.

Ao ouvir estas palavras, o velho oficial de grande bigodeira, felicidade no rosto e os olhos cintilantes, puxou do sabre, gritando: «Viva!» Depois, dando ordem aos seus ulanos para que o seguissem, esporeou o cavalo e meteu-se ao rio. Fustigando, colérico, o animal, que vacilava, entrou na água, dirigindo-se para um local profundo onde a corrente era impetuosa. Atrás dele iam centenas de homens. Lá para o meio do rio, o frio principiou a apoquentá-los. Os soldados tropeçavam uns nos outros e caíam das montadas. Houve cavalos que se afogaram e alguns soldados também, enquanto outros procuravam nadar, agarrando-se às selas ou às crinas dos animais. Embora a meia versta apenas houvesse um vau, eles, procurando alcançar a outra margem, mostravam-se orgulhosos de nadar e morrer afogados à vista daquele homem sentado num tronco de árvore que nem sequer olhava para eles. Quando o ajudante-de-campo voltou para junto do imperador e, aproveitando um momento favorável, se permitiu chamar-lhe a atenção para a prova de lealdade dos polacos, o homenzinho do redingote cinzento levantou-se, chamou Berthier e pôs-se a passear com ele de um lado para o outro, ao longo da margem, dando-lhe ordens e lançando de tempos a tempos um olhar descontente para aqueles homens que se afogavam, distraindo-lhe a atenção.

Não era a primeira vez que podia convencer-se de que bastava a sua presença, em qualquer parte do mundo, da África às estepes da Moscóvia, para despertar nos homens como que a loucura do sacrifício. Mandou que lhe trouxessem o cavalo e regressou ao acantonamento.

Quarenta ulanos se afogaram, apesar das barcaças que foram socorrê-los. A maior parte dos corpos foi arrastada para a cidade que acabavam de deixar. O coronel e alguns soldados atravessaram o no e com grande dificuldade conseguiram escalar a margem. Assim que lá chegaram, com os uniformes a pingar, gritaram: «Viva!», procurando com os olhos o local onde se devia encontrar Napoleão, que já lá não estava, e nesse momento sentiram-se plenamente felizes.

Pela noite, após ter tomado duas decisões, a primeira no sentido de apressar o envio de notas de banco eslavas falsificadas com destino à Rússia e a segunda de se executar um saxão em poder do qual se haviam encontrado informes relativos à situação do exército francês, ainda tomou uma terceira, mandando que fosse condecorado com a Legião de Honra, de que era chefe supremo, o coronel polaco que, sem necessidade, se precipitara no rio.

Quos vult perdere dementat...

 

[III]

Entretanto havia mais de um mês que o imperador da Rússia se encontrava em Vilna, onde passava revista às tropas e assistia às manobras. Nada estava disposto para a guerra que toda a gente esperava e para a preparação da qual o imperador deixara Petersburgo. Não havia qualquer plano geral para as operações. As dúvidas e hesitações sobre o plano a seguir ainda eram maiores um mês depois de o imperador se achar no quartel-general. Cada um dos três corpos de exército tinha um general-chefe, mas não havia generalíssimo e o imperador não queria assumir semelhantes funções.

À medida que o tempo ia passando em Vilna mais atrasados estavam os preparativos. Toda a gente se sentia cansada de esperar. Dir-se-ia que a maior preocupação do séquito de Sua Majestade era fazer que ele passasse agradavelmente o seu tempo e esquecesse a guerra iminente.

Depois de muitos bailes e festas oferecidos pelos magnates polacos, personagens da corte e pelo próprio imperador, um dos generais polacos ajudante-de-campo teve a ideia de organizar um jantar e um baile oferecidos pelos seus colegas. Esta ideia obteve o mais jovial acolhimento. O próprio imperador lhe deu o seu apoio. Os generais ajudantes-de-campo abriram uma subscrição. A senhora que gozava de maior prestígio junto do imperador aceitou desempenhar o papel de anfitrião. O conde de Bennigsen, proprietário na província de Vilna, pôs o seu castelo de Zakreta, nos arredores da cidade, à disposição dos organizadores da festa, e 13 de Junho foi a data marcada para o festival, que se compunha de banquete, baile, passeio no rio e fogo de artifício.

No mesmo dia em que Napoleão dera ordem para se atravessar o Niémen e em que as guardas avançadas do seu exército, repelindo os cossacos, atravessavam a fronteira da Rússia, encontrava-se Alexandre no festival promovido pelos seus ajudantes-de-campo na propriedade de Bennigsen.

A festa foi alegre e brilhante; os entendidos opinaram que raramente se tinha visto um conjunto de tão lindas mulheres. A condessa Bezukov, que, na companhia de outras senhoras russas, seguira o imperador até Vilna, assistiu à festa eclipsando com a sua beleza tipicamente russa, um pouco pesada, a das mais airosas polacas. Chamou as atenções e o imperador concedeu-lhe a honra de a ir buscar para dançar.

Bóris Drubetskoi, de novo solteiro, como ele dizia, deixara a mulher em Moscovo, e também assistiu ao baile. Embora não fosse ajudante-general, contribuíra com uma bonita soma para a colecta. Agora era o que se chama um homem rico, dado ao culto de honrarias de toda a espécie, sem precisar já de protecções e tratando de igual para igual as mais altas personalidades do tempo. Encontrou-se com Helena em Vilna; não a via há muito e não lhe lembrou o passado, mas, como ela estava nas graças de uma personalidade muito importante, desde logo passaram a ser velhos amigos.

A meia-noite ainda se dançava. Helena, que não via à sua volta par digno de si, propôs a Bóris que a fosse buscar para a mazurca. Bóris,, indiferente aos resplandecentes ombros nus de Helena, que emergiam de um corpinho de gaze escura bordado a ouro, falava de pessoas conhecidas sem deixar de seguir com os olhos, como que inconscientemente, o imperador, que se encontrava no mesmo salão. Este não dançava; estava de pé junto de uma porta e ora detinha este ora aquele, dirigindo a cada um a sua palavra amável como só ele sabia fazer.

No princípio da mazurca Bóris notou que o general ajudante-de-campo Balachov, um dos íntimos do imperador, se aproximou do monarca e esperava a seu lado, numa atitude inteiramente contrária ao protocolo, enquanto este conversava com uma senhora polaca. Quando a conversa acabou, o imperador interrogou-o com a vista e, compreendendo que Balachov não teria procedido daquela maneira se não fosse por qualquer grave motivo, fez uma mesura à senhora e voltou-se para o general. Poucas palavras ele dissera ainda e já no rosto do imperador se pintava um profundo espanto. Travou do braço de Balachov e atravessou com ele a sala, sem prestar a mais pequena atenção às pessoas presentes, que abriram largas alas para o deixar passar. Bóris reparou que Araktcheiev, ao ver o imperador com Balachov, mostrara certa perturbação. O ministro, olhando para o monarca com olhos baixos e resfolgando pelo afogueado nariz, destacara-se da multidão, como que à espera que o imperador lhe dirigisse a palavra. Bóris percebeu que Araktcheiev sentia ciúmes de Balachov e estava contrariado com o facto de uma notícia, sem dúvida importante, não ser transmitida por ele.

No entanto, o imperador e Balachov atravessaram o salão sem o ver e penetraram no jardim iluminado. Araktcheiev, com mão na bainha da espada e olhares coléricos, seguiu-os a uns vinte passos de distância.

Enquanto durou a marcação da mazurca, Bóris deu voltas à imaginação para descobrir o que teria dito Balachov ao imperador e a maneira de o vir a saber antes de mais ninguém.

Como naquele momento lhe competia escolher outro par, murmurou ao ouvido de Helena que ia tirar a condessa Potochka, o qual, segundo pensava, saíra para a escada. Deslizando pelo parquet, precipitou-se para a porta que dava para o jardim e ao ver o imperador e Balachov entrarem no terraço deteve-se. Ambos se encaminhavam para a porta. Bóris, pressuroso, como se não tivesse tido tempo de se afastar, colou-se, respeitosamente, contra o alizar, numa grande vénia.

O imperador, com a expressão de um homem pessoalmente ofendido, pronunciava estas palavras:

— Entrar na Rússia sem declaração de guerra! Só assinarei a paz no dia em que não houver sobre o meu território um único inimigo armado.

Afigurou-se-lhe, a Bóris, que Alexandre punha uma espécie de satisfação em exprimir-se daquela maneira: a forma que dera ao pensamento agradava-lhe. No entanto, pouco satisfeito se mostrou pensando ter sido ouvido.

— É preciso que ninguém saiba! — acrescentou, franzindo o sobrolho. Bóris percebeu que aquela advertência lhe dizia respeito e, baixando os olhos, vergou a cabeça. O imperador voltou ao salão e permaneceu no baile ainda cerca de meia hora.

Foi assim que Bóris veio a saber antes de mais ninguém que os Franceses haviam atravessado o Niémen e deste modo lhe foi possível mostrar a algumas altas personalidades que tinha conhecimento do que os outros ignoravam. E isto tornou-o aos seus olhos maior ainda.

A notícia de que os Franceses haviam atravessado o Niémen caía de improviso no meio do baile depois de um mês de expectativa! O imperador, no primeiro momento de indignação e de cólera, encontrara a fórmula, mais tarde célebre, que a ele próprio agradara, e que em verdade exprimia plenamente os seus sentimentos. No regresso do baile, às duas horas da madrugada, mandou chamar o seu secretário, Chichkov, a quem ditou uma ordem do dia dirigida às tropas e um rescrito com vista ao príncipe Soltikov. Teve o cuidado de transcrever a frase célebre em que declarava só assinar a paz no dia em que não houvesse um único francês armado sobre a terra russa.

No dia imediato dirigiu a Napoleão a carta que se segue:

«Senhor meu irmão. Soube ontem que, apesar da

lealdade com que mantive os meus compromissos para com Vossa Majestade, as suas tropas atravessaram as fronteiras da Rússia, e acabo de receber de Petersburgo uma nota em que o conde Lauriston, por causa dessa agressão, anuncia que Vossa Majestade se considerou em estado de guerra para comigo desde o momento em que o príncipe Kurakine fez o pedido dos seus passaportes. Os motivos em que o duque de Bassano fundamentava a recusa de lhos passar nunca me fariam supor que essa diligência viria alguma vez a servir de pretexto para a agressão. Com efeito, o embaixador não fora a tal autorizado, como ele próprio o declarou, e logo que fui disso informado comuniquei-lhe quanto desaprovava essa deslocação, dando-lhe a ordem de

se manter no seu posto. Se Vossa Majestade não tem a intenção de fazer verter o sangue das nossas gentes por um mal-entendido desta espécie e se consentir em retirar as suas tropas do território russo, encararei o que se passou como se nada fosse, e será possível as coisas comporem-se entre nós. No caso contrário, Vossa Majestade, ver-me-ei forçado a repelir um ataque que nós não provocámos. Depende ainda de Vossa Majestade evitar à humanidade as calamidades de uma nova guerra.

Sou, de Vossa Majestade, etc.

ALEXANDRE»

 

[IV]

No dia 13 de Junho, às duas horas da madrugada, o imperador mandou chamar Balachov, leu-lhe a carta que acabara de escrever a Napoleão, dando-lhe ordem para que a fosse entregar pessoalmente ao imperador dos Franceses. Ao despedir-se dele repetiu as palavras que pronunciara no baile, ordenando-lhe que as repetisse fielmente a Napoleão. Não as transcrevera na sua carta, pois sentia, com o seu tacto habitual, que seriam ali deslocadas, visto tratar-se de uma última tentativa de conciliação. No entanto, ordenou a Balachov que lhas repetisse textualmente.

Tendo partido na noite de 13 para 14, Balachov, acompanhado de um trombeta e de dois cossacos, chegou de madrugada à aldeia de Rykonty, guarda-avançada dos Franceses nessa margem do Niémen. As sentinelas da cavalaria francesa detiveram-no.

Um sargento de hússares, de uniforme amaranto e barretina de pêlo, gritou-lhe que parasse. Balachov não obedeceu imediatamente e prosseguiu a passo.

De sobrancelhas franzidas e soltando palavrões, o sargento atravessou-se na estrada com o seu cavalo, fazendo parar o general russo. Depois desembainhou o sabre e perguntou-lhe grosseiramente se era surdo, pois não parecia entender o que ele dizia. Balachov declinou a sua identidade. O francês deu ordens a um soldado para que fosse chamar um oficial.

Indiferente ao enviado russo, o hússar pôs-se a conversar com os seus camaradas sobre assuntos que lhes diziam respeito, sem se dignar pousar nele os olhos.

Estranha impressão causou isto a Balachov. Ele, que estava em comunicação contínua com o poder supremo e as autoridades, ele que, algumas horas antes, falava com o imperador, ele, que no desempenho das suas funções estava habituado a ser tratado com todas as honras, via-se agora, em terra russa, tratado como um inimigo e, pior ainda, sem qualquer respeito, por semelhantes representantes da força bruta.

O sol principiava a romper as nuvens; o ar era fresco e repassado de humidade. Um rebanho ia da aldeia a caminho dos montes. As andorinhas, umas após outras, como bolhas que rompem à superfície de água, saíam das sebes, soltando trinados.

Balachov olhava à sua roda enquanto aguardava o oficial que haviam ido buscar à aldeia. Os cossacos e o trombeta, em silêncio, de tempos a tempos, trocavam olhares com os hússares franceses.

O coronel dos hússares, que naturalmente acabara de saltar da cama, apareceu montado num belo cavalo cinzento, bem tratado, escoltado por dois dos seus homens. O oficial, os soldados, os seus próprios cavalos, respiravam contentamento e abastança.

Estava-se no princípio da guerra, nesse momento em que as tropas, de ponto em branco, parecem preparadas para uma parada do tempo da paz, apenas com qualquer coisa de mais bélico no equipamento e esse matiz de jovialidade e animação, traço característico de um exército quando principia uma nova campanha.

Só muito a custo o coronel francês reprimiu o bocejar, mas mostrou-se polido e percebeu, evidentemente, a importância da missão de que Balachov vinha incumbido. Fê-lo atravessar as linhas e garantiu-lhe que o desejo manifestado de ir à presença do imperador seria imediatamente satisfeito, visto o quartel-general, assim o supunha pelo menos, estar situado ali perto.

Atravessaram a aldeia de Rykonty pelo meio dos piquetes de hússares, de sentinelas e de soldados que faziam continência ao seu coronel e olhavam curiosos para o uniforme russo, e assim atingiram a outra extremidade da povoação. Segundo dizia o coronel, a dois quilómetros dali estava o comandante da divisão, que receberia Balachov e o conduziria ao seu destino.

O Sol surgira no horizonte e brilhava alegremente sobre os campos muito verdes.

Mal ultrapassaram a estrada do monte viram surgir diante de si, descendo a encosta, um grupo de cavaleiros, à frente dos quais, montado num cavalo preto, cujos arreios brilhavam ao sol, cavalgava um homem de grande estatura, de chapéu emplumado, com os negros cabelos encaracolados caindo-lhe pelas costas, embrulhado numa capa vermelha e as pernas estendidas para a frente, característica maneira de montar dos Franceses. Este homem galopava ao encontro de Balachov, e a sua pluma, as suas pedras preciosas, os seus galões dourados ondulavam e brilhavam ao ardente sol de Junho.

Estava Balachov a menos de dois cavalos daquele cavaleiro em atitude solene e teatral, coberto de cordões, de plumas, de colares e de galões dourados, quando Ulner, o coronel francês, lhe segredou ao ouvido respeitosamente: «O Rei de Nápoles.» Era, efectivamente, Murat, a quem chamavam então rei de Nápoles. Embora fosse absolutamente impossível saber porquê, o certo é que era rei de Nápoles, assim lhe chamavam, e ele próprio disso estava convencido, circunstância que lhe dava um aspecto mais imponente e solene. Tão persuadido estava da situação que na véspera da sua partida de Nápoles, andando a passear com a mulher nas ruas da cidade e ouvindo alguns italianos aclamá-lo, gritando «Viva il re!», se voltou para a mulher com um triste sorriso e disse: «Desgraçados! Ignoram que os deixo amanhã!»

Apesar da sua íntima convicção de ser realmente rei de Nápoles e de que os seus súbditos suspiravam por ele, naqueles últimos tempos, depois de receber ordem para regressar ao serviço do exército, principalmente após a sua entrevista com Napoleão em Danzigue, quando ouviu o seu augusto cunhado dizer-lhe: «Eu tornei-o rei para que reinasse à minha maneira, não à sua», confiou-se alegremente ao seu mister familiar e como um cavalo bem tratado e sem gorduras em excesso, que, sentindo-se atrelado, brinca entre os varais, arreado com as cores mais vistosas e as mais preciosas jóias, ei-lo que vai caracolear, sem que ele próprio saiba muito bem aonde nem porquê, pelas estradas da Polónia.

Ao ver o general russo, atirou majestosamente para trás, numa atitude verdadeiramente real, a sua cabeça ornada de compridos cabelos encaracolados, e interrogou com os olhos o coronel francês. Este informou respeitosamente Sua Majestade da identidade de Balachov, cujo nome não conseguia pronunciar.

— De Bal-Machève! — articulou o rei, superando com decisão a dificuldade que o coronel não soubera vencer — muito prazer em conhecê-lo, general — acrescentou com um gesto de condescendência verdadeiramente augusto.

Assim que ergueu a voz e principiou a falar depressa, toda a, sua dignidade real desapareceu como por encanto e, em vez dela, surgiu, sem que ele próprio desse por isso, um tom de bonomia familiar. Passou a mão pela crina do cavalo de Balachov.

— Pois bem, general, estamos então em guerra, ao que parece — disse, como se lamentasse uma circunstância de que se não sentia responsável.

— Sire — replicou Balachov — o imperador, meu senhor, não deseja a guerra, como Vossa Majestade pode verificar. — Para o que desse e viesse, Balachov resolvera tratar Murat por Majestade, evidente despropósito, visto que se dirigia a alguém para quem esse título constituía uma novidade.

O rosto do rei de Nápoles todo se abriu numa estúpida satisfação enquanto lhe dirigia a palavra Monsieur de Balachoff. Mas, realeza obriga, teve de reconhecer ser indispensável abordar negócios de Estado com o enviado de Alexandre, uma vez que era rei e aliado. Desmontando, pegou no braço de Balachov, afastou-se alguns passos da comitiva, que aguardava numa atitude respeitosa, e pôs-se a passear com ele de um lado para o outro, procurando imprimir autoridade às mais pequenas palavras que pronunciava. Lembrou que o imperador Napoleão ficara ofendido com o pedido que lhe fora dirigido no sentido de retirar as suas tropas da Prússia, sobretudo porque essa intimação fora divulgada por toda a parte, ferindo assim a dignidade da França.

Balachov replicou-lhe não haver a mais pequena ofensa num tal pedido, uma vez que.— Murat interrompeu-o.

— Com que então, na sua opinião, o instigador não é o imperador Alexandre? — exclamou, de chofre, com o seu estúpido sorriso bonacheirão.

Balachov explicou-lhe porque entendia ser, de facto, Napoleão o causador da guerra.

— Eh!, meu querido general — interrompeu de novo Murat —, desejo de todo o coração que os imperadores cheguem a um acordo e que esta guerra de que eu não sou responsável ter— mine o mais cedo possível. — Dizendo o que, assumiu o tom dos criados que conversam entre si, querendo continuar bons amigos, embora os amos andem desavindos.

Em seguida quis saber como ia de saúde o grão-duque, recordando os agradáveis momentos que haviam passado juntos em Nápoles.

E de súbito, como se se tivesse lembrado da sua dignidade real, empertigou-se majestosamente, tomou a atitude que assumira por altura da coroação e com um gesto da mão direita:

— Não o retenho mais, general, e desejo-lhe o êxito da sua missão — exclamou, e, resplandecente no seu manto vermelho bordado a ouro, as plumas do chapéu a esvoaçar, as jóias faiscantes, encaminhou-se ao encontro da comitiva que o aguardava respeitosamente.

Balachov prosseguiu o seu caminho, supondo, de acordo com o que lhe dissera Murat, que não tardaria a encontrar-se na presença de Napoleão. Mas, em vez disso, as sentinelas do corpo de infantaria de Davout detiveram-no ainda na localidade próxima, como acontecera na primeira linha, e um ajudante-de-campo conduziu-o à aldeia, à presença do marechal Davout.

 

[V]

Davout era o Araktcheiev do imperador Napoleão, Araktcheiev em tudo menos na covardia, como ele meticuloso e cruel e incapaz de provar a dedicação que tinha ao amo de outra maneira que não fosse pela crueldade.

Nas engrenagens de um Estado, homens assim são tão necessários como os lobos na natureza. Existem sempre, aparecem sempre e mantêm-se, por mais absurda que a sua presença possa parecer, junto do chefe do Estado ou na sua intimidade. Graças à fatalidade desta lei se pode explicar que este cruel Araktcheiev, habituado a arrancar com as próprias mãos os bigodes aos granadeiros, e de resto incapaz, por fraqueza nervosa, de enfrentar o menor perigo, que este homem sem cultura e sem educação tivesse podido manter uma tal influência sobre a natureza nobre, cavalheiresca e doce de um Alexandre.

Balachov encontrou o marechal Davout na isbá de um aldeão, sentado num barril e ocupado a verificar umas contas. A seu lado, de pé, estava um ajudante-de-campo. Ter-lhe-ia sido possível arranjar uma instalação mais própria, mas Davout pertencia ao número dos homens que gostam de viver nas mais difíceis condições de vida para terem o direito de se conservar tristes e severos. E é por isso também que tais homens andam sempre apressados e esmagados com trabalho. «Como se há-de pensar nas coisas agradáveis da vida quando, como vocês estão a ver, uma pessoa tem de sentar-se em cima de um barril numa isbá sórdida, sempre que precisa de trabalhar?» Eis o que parecia ler-se-lhe na cara. O maior prazer, a necessidade capital destas pessoas quando em presença de alguém contente de viver é atirar-lhes à cara o seu trabalho obstinado e taciturno. Eis a satisfação que sentiu Davout com a chegada de Balachov. Ainda mais se enfronhou nas suas contas ao ver aparecer o general russo, e, depois de lançar um olhar por cima das lentes àquela figura animada pela corrida matinal e a conversa que tivera com Murat, sem se erguer, sem fazer um movimento, ainda franziu mais as sobrancelhas, com um sorriso mau.

Vendo a impressão desagradável que o acolhimento provocava no recém-chegado, acabou por levantar a cabeça e perguntar-lhe friamente o que desejava.

Como Balachov só podia atribuir aquela recepção ao facto de Davout ignorar a sua dupla qualidade de general ajudante-de-campo e de enviado, junto de Bonaparte, do imperador Alexandre, tratou de declinar a sua identidade e de enunciar o objectivo da sua missão. Ao contrário, porém, do que esperava, Davout ainda se mostrou mais rude e severo.

— Onde está a sua mensagem? — interrogou ele. — Dê-ma, que eu envio-a ao imperador.

Balachov replicou que recebera ordens para a entregar pessoalmente ao imperador.

— As ordens do seu imperador só têm curso no exército dele; aqui o senhor tem de fazer o que se lhe diz.

E, como que para fazer compreender ao general russo que estava na dependência de uma força brutal, mandou um ajudante-de-campo procurar o oficial de serviço.

Balachov sacou do invólucro que continha a carta do imperador e pousou-o em cima da mesa, a qual era formada por uma porta donde pendiam ainda os gonzos, assente sobre dois barris. Davout pegou no sobrescrito e leu o endereço.

— É consigo tratar-me ou não com respeito — disse Balachov —, mas permita que lhe observe que tenho a honra de pertencer ao número dos generais ajudantes-de-campo de Sua Majestade.

Davout olhou-o sem dizer palavra e a irritação que se lia no rosto do oficial russo foi para ele evidente motivo de satisfação.

— Será tratado com as honras devidas — replicou, e, metendo a mensagem na algibeira, saiu da cabana.

Um minuto mais tarde entrou o ajudante-de-campo do marechal, o Sr. De Castries, que conduziu Balachov ao alojamento que lhe fora destinado.

Balachov jantou nesse dia com o marechal, na choupana, em cima da mesa de barris.

No dia seguinte Davout partiu logo de madrugada, depois de haver convocado Balachov e de lhe ter ordenado que permanecesse onde estava, que apenas se afastasse com o comboio, no caso de este receber instruções para se deslocar, e que não falasse fosse com quem fosse, à excepção de Castries.

Depois de quatro dias de tédio e solidão, agravados pelo sentimento de sujeição e de impotência, tanto mais impressionantes para ele quanto acabava de abandonar um meio onde era todo poderoso, após várias etapas com as bagagens pessoais do marechal e as tropas francesas que ocupavam toda a região, Balachov entrou em Vilna, então ocupada pelos Franceses, pela mesma porta da cidade por onde havia saído quatro dias antes.

No dia seguinte, o camareiro do imperador, Monsieur de Turenne, veio anunciar-lhe que o imperador Napoleão lhe concedia uma audiência.

Quatro dias antes, sentinelas do regimento de Preobrajenski estavam de guarda à porta da casa onde conduziram Balachov; no lugar delas, agora, havia dois granadeiros franceses, de uniforme azul com largas bandas e barretinas de pêlo, uma escolta de hússares e de ulanos, uma brilhante comitiva de ajudantes-de-campo, pajens e, generais, que aguardavam a saída de Napoleão à roda do cavalo do imperador, mantido pela arreata pelo mameluco Roustan. Napoleão recebeu Balachov na mesma casa de Vilna em que Alexandre lhe entregara a mensagem.

 

[VI]

Embora Balachov estivesse muito habituado às magnificências da corte, o luxo e o fausto da de Napoleão impressionaram-no.

O conde de Turenne introduziu-o numa grande antecâmara onde esperavam muitos generais, camareiros e magnates polacos, a maior parte dos quais ele vira já na Rússia. Duroe veio anunciar que Napoleão receberia o general russo antes do passeio habitual,

Após alguns minutos de espera, apareceu o camareiro de serviço, que, com uma polida reverência a Balachov, o convidou a segui-lo.

Balachov entrou numa salinha cuja porta dava para um gabinete, para esse mesmo gabinete em que recebera as últimas ordens do imperador da Rússia. Esperou dois ou três minutos. Atrás da porta ouviram-se passos precipitados. Os dois batentes foram bruscamente abertos, toda a gente se calou, e novos passos firmes e enérgicos ressoaram no gabinete: era Napoleão. Acabava de vestir-se para o seu passeio a cavalo, Envergava um uniforme azul, cujas bandas abertas deixavam ver o colete branco que lhe moldava a rotundidade do ventre, e calções brancos também cingindo-lhe as coxas gordas e as curtas pernas metidas em botas altas, de montar. Via-se que acabara de pentear os cabelos curtos, mas uma madeixa se lhe derramava pela ampla testa. O branco e anafado pescoço ressaltava da gola negra do uniforme; rescendia a água-de-colónia. Em seu rosto cheio, ainda novo, de queixo proeminente, pintava-se a benevolência e a majestade de um acolhimento imperial.

Entrou apressado, uma espécie de estremecimento nervoso a cada passo que dava, a cabeça ligeiramente atirada para trás. Toda a sua figura, repleta e curta, de ombros largos e espessos, o ventre e o arcabouço do peito fugindo-lhe para avante, davam-lhe esse aspecto representativo e imponente próprio dos quarentões que sempre viveram vida folgada. E, depois, via-se que nesse dia estava muito bem disposto.

Com uma ligeira inclinação de cabeça respondeu à profunda e respeitosa saudação de Balachov, depois aproximou-se dele e imediatamente se pós a falar como um homem para quem todos os minutos são preciosos, que não se dá sequer ao trabalho de preparar os seus discursos, persuadido de que dirá sempre o que é preciso.

— Bons dias, general! — exclamou. — Recebi a carta, que me trouxe, do imperador Alexandre e tenho muito prazer em vê-lo. — Fitou Balachov com os seus grandes olhos, desviando-os, porém, imediatamente.

Era evidente que a personalidade de Balachov o não interessava: o que tinha interesse para ele era o que se passava na sua própria alma. Tudo o que lhe era exterior não tinha qualquer importância, uma vez que no mundo — pensava ele — tudo dependia da sua vontade.

Continuar: parte 2 de 5