Guerra e Paz
Segunda Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
[I] [II][III] [IV][V] [VI][VII] [VIII][IX][X] [XI][XII]
[I]
O objecto da história é a vida dos povos e da humanidade. Mas abarcar com palavras, sem outros intermediários, descrever, em suma, não a vida da humanidade, mas a de um único povo, pode parecer tarefa impossível.
Todos os historiadores antigos, para descreverem e abarcarem a vida de um povo e conseguirem isso, que parece impossível, adoptam um único e mesmo processo, Descrevem os actos dos indivíduos que governam esse povo, e esses actos para eles é como se fossem os actos desse povo inteiro.
Quando se lhes perguntava como podiam esses indivíduos separados fazer agir os povos a seu talante e quem dirigia a vontade desses indivíduos, respondiam que a vontade divina submetia os povos à vontade de um homem eleito e depois Que esta mesma divindade dirigia a vontade desse homem para um objectivo previamente estabelecido.
Para os antigos, portanto, a, questão ficava resolvida pela fé numa intervenção imediata da divindade nas acções humanas. A história moderna rejeitou estas duas afirmações.
Pareceria que ao rejeitar a crença dos antigos na subordinação dos homens à vontade divina e a um objectivo determinado para o qual são conduzidos, a história moderna, em vez de estudar as manifestações da autoridade, devia investigar as causas do seu estabelecimento. No entanto, eis o que a história moderna não faz. Rejeitando, em teoria, os pontos de vista dos historiadores antigos, na prática segue-lhes os passos.
No lugar dos indivíduos dotados de poder divino e guiados pela vontade divina coloca ou heróis providos de qualidades extraordinárias e sobre-humanas ou simplesmente indivíduos de méritos muito diversos, quer sejam monarcas, quer simples jornalistas, dirigindo as massas. No lugar dos fins instituídos outrora pela divindade a certos povos, Judeus, Gregos ou Romanos, arrastando a humanidade, coloca o bem do povo francês, alemão ou inglês, ou ainda, mercê de uma generalização mais abstracta, o bem da civilização em geral, representado, vulgarmente, pelos povos que habitam o pequeno recanto noroeste do grande continente.
A história moderna desprezou as teorias dos antigos sem as substituir na realidade por outras novas, e a lógica obrigou os historiadores, que por assim dizer renegaram o poder divino dos reis e o /atum dos antigos, a admitirem por uma outra via uma conclusão semelhante, qual seja, primeiro, que os povos são conduzidos por indivíduos particulares, e, segundo, que existe um objectivo para o qual se encaminham as nações e a humanidade. Todos os historiadores modernos, de Gibbon a Buckle, apesar do seu desacordo aparente, não obstante a dessemelhança dos seus pontos de vista, reconhecem, no fundo, estes dois princípios inevitáveis:
Em primeiro lugar, o historiador não tem que descrever senão os actos dos indivíduos separados que, na sua opinião, dirigem a humanidade. Para uns, esses indivíduos são os monarcas, os grandes capitães, os ministros; para outros, além dos monarcas, os oradores, os sábios, os reformadores, os filósofos, os poetas. Em segundo lugar, o historiador conhece o objectivo para o qual a humanidade se encaminha: para uns, é a grandeza de Roma, da Espanha, da França: para outros, a liberdade, a igualdade, a civilização, de um certo género, desse pequeno recanto do mundo que se chama Europa.
Em 1789 estalou uma revolução em Paris; essa revolução cresceu, alastrou e tornou-se por fim num movimento dos povos do Ocidente para Oriente. Por várias vezes esse movimento se produz e vem a chocar com um movimento contrário de Oriente para Ocidente. Em 1812 o referido movimento chegou ao seu ponto extremo, Moscovo: depois, um movimento perfeitamente simétrico com o primeiro se realiza em sentido contrário, arrastando consigo, tal qual como da primeira vez, os povos centro-europeus. Este segundo movimento atinge o seu ponto de origem, Paris, e apazigua-se,
Durante este período, que abrange quase vinte anos, uma grande superfície de terra fica em pousio, casas são queimadas, o comércio muda de direcção: milhões de indivíduos se arruinam, enriquecem, emigram, e milhões de cristãos que professam a lei do amor do próximo matam-se mutuamente.
Que significam estes factos? Donde veio tudo isto? Quem levou esta gente a queimar as casas e a matar os seus semelhantes? Quais as causas destes acontecimentos? Que força obrigou os homens a agir deste modo? Eis as simples, ingénuas e mais que legítimas perguntas que a humanidade formula quando encontra diante de si os monumentos e as tradições deste movimento pretérito.
Para resolver essas questões, o bom senso dirige-se à ciência histórica, cujo objectivo é o estudo dos povos e da humanidade.
Se a história ainda admitisse as teorias dos historiadores antigos, responderia que a divindade, para recompensar ou castigar o seu povo, deu a Napoleão o poder e dirigiu-lhe a vontade no sentido de atingir os seus fins divinos. E a resposta seria completa e clara. Pode crer-se ou não na missão divina de Napoleão; para aquele que acredita, porém, tudo se torna inteligível na história desse tempo e nada há nela que surpreenda.
Mas os historiadores modernos não podem responder desta forma. A ciência já não admite, como os antigos, a intervenção da divindade; por isso as suas respostas têm de ser outras.
Dizem eles então: se quereis saber o que significa este movimento, donde saiu e qual a força que produziu esses acontecimentos, escutai:
«Luís XIV era muito orgulhoso e autoritário; tinha estas e aquelas amantes e estes e aqueles ministros e governou mal a França. Os seus sucessores eram criaturas fracas, que por sua vez também governaram mal. Tiveram estes favoritos e aquelas amantes. Além disso, por esse tempo homens houve que escreveram livros. No fim do século XVIII reuniram-se em Paris algumas dúzias de indivíduos que principiaram a dizer que todos os homens eram iguais e livres. E isto fez que em toda a França os homens principiassem a matar-se uns aos outros. Foram eles quem mandou matar o rei e muito mais gente. Nessa mesma altura havia em França um homem de génio, Napoleão, Por toda a parte saía vitorioso, quer dizer, fazia que se matasse muita gente e isso lhe conferia o génio. Não se sabe porque carga de água foi, inclusivamente, matar africanos e tão bem lhes tratou da pele, tão manhoso e inteligente era, que no regresso a França submetia todo o mundo à sua vontade. E todo o mundo lhe obedecia. Depois de se ter proclamado imperador, foi de novo matar gente na Itália, na Áustria e na Prússia, E aqui matou mesmo muita gente. Na Rússia vivia então o imperador Alexandre, que decidira restabelecer a ordem na Europa, e por esse motivo travava luta com Napoleão. De súbito, porém, no ano de, 1807, tornou-se seu amigo, embora em 1812 de novo se zangue com ele e ambos recomecem a matar muita gente. E Napoleão levou consigo seiscentos mil homens até a Rússia e conquistou Moscovo, fugindo, em seguida, repentinamente, desta cidade, e foi então que o imperador Alexandre, graças aos conselhos de Stein e de outros, soube unir a Europa e armá-la contra o perturbador da sua tranquilidade. Todos os aliados de Napoleão se tornaram, subitamente, inimigos seus e toda essa gente marchou contra as novas forças reunidas por ele. Os aliados venceram Napoleão, entraram em Paris, obrigaram-no a renunciar ao trono e mandaram-no para a ilha de Elba, sem o privarem do titulo de imperador e dando-lhe as maiores provas de consideração, quando cinco anos antes e um ano mais tarde o considerariam um bandoleiro fora da lei. E Luís XVIII principiou a reinar, esse mesmo rei de quem os Franceses e os aliados até então sempre haviam troçado, Quanto a Napoleão, depois de chorar diante da sua velha guarda, abdicava e partia para o exílio. Em seguida hábeis estadistas e diplomatas, principalmente Talleyrand, que, conseguindo sentar-se primeiro que ninguém em certa poltrona, pudera por esse meio fazer recuar as fronteiras da França, conferenciaram em Viena, e esta conferência tornou os povos felizes ou infelizes. E eis que de um momento para o outro diplomatas e monarcas principiam a guerrear-se e estão de novo prestes a dar ordens aos seus soldados para voltarem a matar-se uns aos outros. É então que Napoleão desembarca, com um batalhão de soldados, e os Franceses, mesmo os que o odiavam, se lhe submetem todos. Os monarcas aliados zangam-se e mais uma vez marcham para a guerra a combater os Franceses. E venceram esse génio que era Napoleão e levaram-no para a ilha de Santa Helena, proclamando, de súbito, que ele era um bandoleiro. Ali, o exilado, longe dos seus dilectos e da sua bem-amada França, morre aos poucos, legando os seus grandes feitos à posteridade. E na Europa produziu-se uma reacção e todos os soberanos recomeçaram a oprimir os seus povos.»
Seria erróneo pensar que estamos brincando e que acabamos de fazer uma caricatura da história. Pelo contrário, apenas demos uma pálida imagem das explicações absurdas e incoerentes que nos proporcionam todos os historiadores sem excepção, desde os autores de memórias e de histórias dos diversos povos até aqueles que escreveram histórias universais ou tratados de um novo género acerca da evolução das civilizações.
O que há de estranho e de cómico em semelhantes deduções resulta do facto de a história moderna ser semelhante a um homem surdo que responde a perguntas que ninguém lhe faz.
Se o objectivo da história está nas descrições dos movimentos da humanidade e dos povos, a primeira pergunta que se lhe deve fazer, e à qual deve responder, para que tudo o mais se torne inteligível, é a seguinte: qual a força que move os povos? A esta pergunta a história moderna dá-se pressa em responder dizendo-nos ou que Napoleão era um homem de génio ou então que Luís XIV era muito orgulhoso, ou ainda que vários escritores escreveram certos livros.
Tudo isto é muito possível e a humanidade está pronta a aceitar que assim seja, mas não é isso que ela quer saber. Tudo isso poderia ser interessante se admitíssemos que um poder divino, que só de si dependesse e que fosse sempre igual a si mesmo, governasse os povos por intermédio dos Napoleões, dos Luíses XIV ou destes ou daqueles escritores. Nós, porém, não admitimos um poder desse género. Por isso, antes de se falar hoje de todos estes grandes homens, é preciso mostrar as relações que existem entre eles e o movimento dos povos.
Se em lugar deste poder divino aparece uma força nova, é preciso explicar em que consiste essa nova força, pois é ela que confere todo o seu valor à obra da história.
Os historiadores parecem supor que esta força se explica por si mesma e é conhecida de todos. No entanto, apesar do desejo que se possa ter de a supormos conhecida, o leitor de grande número de obras históricas será levado a duvidar de que esta força, compreendida de maneira tão diferente pelos próprios historiadores, seja, de facto, de todos conhecida.
[II]
Qual é então a força que move os povos?
Os autores de biografias individuais e os historiadores dos povos tornados separadamente admitem que essa força seja como que um poder inerente aos heróis e às grandes personalidades. Segundo eles, os acontecimentos produzem-se exclusivamente graças à vontade dos Napoleões, dos Alexandres ou de cada uma das personagens de que a história escreve a vida. As respostas que eles dão às perguntas formuladas são satisfatórias, mas apenas quando consultamos um historiador para— cada acontecimento.
Assim que os historiadores das diversas nacionalidades ou de diferentes opiniões se põem a descrever um mesmo acontecimento, as suas afirmações perdem imediatamente todo o valor, pois a verdade é que a força em causa cada um deles a interpreta não só de maneira diferente, mas, por vezes, de maneira absolutamente oposta. Este sustenta que determinado acontecimento foi provocado pela força de Napoleão, aquele pela de Alexandre e um terceiro pela de uma terceira personalidade, seja ela qual for. Além disso, os historiadores desta categoria opõem-se uns aos outros inclusivamente para explicarem a força sobre a qual repousa o poder de uma só e mesma personalidade. Thiers, que é bonapartista, afirma que o poder de Napoleão se fundava nas suas virtudes e no seu génio: Lanfrey, que é republicano, afirma que era baseada no bandoleirismo e na mentira, E, assim, ao mesmo tempo que invalidam, mutuamente, as suas asserções, destroem pela mesma razão esta noção de uma força causa de acontecimentos, não proporcionando resposta alguma ao problema essencial da história.
Os historiadores da história universal, que têm de se ocupar de todos os povos, parecem combater os pontos de vista dos historiadores da história particular no que respeita à força que conduz os acontecimentos. Para eles esta força não é o poder inerente aos heróis e aos potentados, mas a resultante de muitas outras forças dirigidas em sentidos diversos. Quando descrevem uma guerra ou uma conquista, procuram as causas dos acontecimentos não no poder de um único indivíduo, mas nas mútuas reacções de grande número de pessoas ligadas a esses acontecimentos.
De acordo com esta teoria, sendo o poder das personagens históricas a resultante de muitas forças, não poderia ser considerado, ao que parece, como uma força que por si mesma, e só por si, conduzisse os acontecimentos tendo com eles uma relação de causa e efeito. Ora pensam que a personagem histórica é o produto do seu tempo e que o seu poder não é mais que o resultado de forças diferentes, ora que o seu poder é essa mesma força que conduz os acontecimentos. Gervinus, Schlosser, por exemplo, e outros, ora demonstram que Napoleão é produto da Revolução Francesa, das ideias de 1789, etc., ora afirmam terminantemente que a campanha de 1812 e outros acontecimentos com que não simpatizam apenas são o resultado da vontade de Napoleão falsamente dirigida e que as ideias de 1789 foram detidas no seu desenvolvimento pela arbitrariedade do imperador. As ideias da Revolução Francesa e a predisposição geral dos espíritos produziram o poder de Napoleão. E este mesmo poder abafou as ideias e essa corrente geral.
Esta estranha contradição não é acidental. Não só se encontra a cada passo, como de uma longa série de semelhantes contradições é feita a história escrita pelos autores de que falámos. Essa contradição provém de que, ao entrarem na análise, os historiadores universais se detêm a meio caminho.
Para se encontrarem resultados iguais às forças componentes ou que fazem as suas vezes é necessário que a soma das resultantes seja igual à das componentes. Eis uma das condições que nunca é realizada pelos historiadores universais, pois, para explicar a força que lhes serve de componente, devem necessariamente admitir, além das resultantes insuficientes, uma força ainda inexplicada agindo como componente.
O historiador particular, ao descrever, quer a campanha de 1813, quer a restauração dos Bourbons, afirma claramente que esses acontecimentos foram provocados apenas pela vontade de Alexandre, Mas o historiador universal Gervinus, para contrabalançar semelhante opinião, esforça-se por mostrar que estes dois acontecimentos são devidos, não só a Alexandre, mas à acção de Stein, de Metternich, de Madame de Staël, de Talleyrand, de Fichte, de Chateaubriand e de outros. Sem dúvida, o historiador subdividiu o poder de Alexandre nos seus componentes: Talleyrand. Chateaubriand, etc.: a soma destes componentes, a saber, a acção mútua de Chateaubriand, de Talleyrand, de Madame de Staê1 e de outros não é, evidentemente, igual à resultante ou ao que faz as suas vezes, isto é, ao facto de, milhões de franceses se terem submetido aos Bourbons. Do facto de Chateaubriand, Madame de Staël e outros terem trocado entre si tais ideias resulta apenas que entre eles havia essas relações, mas não que milhes de homens tenham obedecido a este ou àquele. E a fim de explicar como esta submissão de tanta gente é uma consequência das relações entre si destas personagens, ou seja, que os componentes iguais a A dão um resultado igual a mil A, o historiador vê-se obrigado a, admitir a forca do poder que ele nega, visto que a considera apenas como o resultado de outras forças, quer dizer, deve admitir uma força inexplicável que actua segundo a resultante. E é o que fazem, efectivamente, os historiadores universais. E por esse motivo não só contradizem os historiadores particulares como se contradizem também a si mesmos.
A gente do campo, consoante quer que chova ou faça bom tempo, como não faz ideia clara do que se passa na atmosfera, diz que o vento dissipa as nuvens ou que o vento as concentra. Agem da mesma maneira os historiadores universais. às vezes quando estão para aí virados, quando isso está de acordo com as suas teorias, afirmam que o Poder é uma consequência dos acontecimentos: outras, quando têm necessidade de provar qualquer outra coisa, sustentam que, pelo contrário, é o Poder que os produz.
Uma terceira categoria de historiadores, os que se consideram historiadores das civilizações, acertando o passo pelos historiadores da história universal, que consideram, por vezes, os escritores, senhoras mesmo, como forças conduzindo os acontecimentos, compreendem, no entanto, essa força de maneira completamente diferente. Encontram-na naquilo a que chamam civilização, numa actividade moral dos povos.
Estes historiadores são partidários decididos dos seus predecessores, os historiadores da história universal. Com efeito, se se podem explicar os acontecimentos históricos pelas relações que existem entre estes ou aqueles indivíduos, porque não explicá-los pelo facto de Sicrano ou Beltrano ter escrito este ou aquele livro? Esses historiadores elegem, entre os numerosos indícios que acompanham cada fenómeno humano, aqueles que têm valor moral e sustentam que esses indícios são a causa deles. Mas, apesar de todos os esforços neste sentido. é preciso muito boa vontade para se admitir que exista alguma coisa de comum entre a acção moral das ideias e o movimento dos povos. Pode dizer-se mesmo que em caso nenhum é de admitir que essa acção dirija os actos dos homens. Fenómenos tais como as chacinas da Revolução Francesa, consequência da propagação das ideias de igualdade, as guerras cruéis e as execuções, resultado da predicação da lei do amor, contradizem uma tal suposição.
Admitamos mesmo que todas as dissertações confusas e subtis que as histórias nos proporcionam são exactas. Admitamos que os povos são conduzidos por essa força indefinível a que se chama ideia, o problema essencial da história fica, não obstante, sem solução, ou, então, ao antigo poder dos monarcas, à influência já admitida dos conselheiros e outras personalidades virá justificar-se a nova força da ideia, cuja relação com as massas se torna necessário explicar. Pode admitir-se que, tendo Napoleão o Poder, determinado acontecimento se haja dado: pode admitir-se, com, um pouco de boa vontade, que Napoleão tenha sido, simultaneamente com outras forças actuantes, a causa dos acontecimentos; mas que um livro como o Contrato Social tenha compelido os Franceses a matarem-se uns aos outros, eis o que se não pode compreender sem se explicar a causa da relação desta força nova com o próprio acontecimento.
Não ha dúvida de que existe uma relação entre todos os que vivem numa mesma época, e que, portanto, pode estabelecer-se uma certa relação entre a acção intelectual dos indivíduos e os movimentos históricos, da mesma maneira que se pode estabelecer relação entre os movimentos da humanidade e o comércio, os misteres, a arte da jardinagem e tudo quanto se quiser. Mas como pode esta actividade intelectual surgir aos olhos dos historiadores da civilização como a causa ou a expressão de todo um movimento histórico, eis o que é difícil compreender. Só é possível explicar essa conclusão da maneira seguinte: em primeiro lugar, a história é obra dos sábios e por isso lhes é natural e agradável pensar que graças a eles e aos da sua classe a humanidade inteira se agita, como seria natural e agradável aos comerciantes, aos agricultores, aos soldados, pensarem a mesma coisa, embora estes nada digam porque não escrevem história; em segundo lugar, a acção moral, a actividade espiritual, a civilização, a cultura, o poder das ideias, todas estas coisas são noções obscuras e indeterminadas. à sombra das quais é muito cómodo empregar palavras que têm uma significação ainda menos definida e que por isso mesmo estão aptas a servir a qualquer teoria.
Mas sem falar já da qualidade intrínseca da história deste género, pois será útil sem dúvida a alguém ou servirá para qualquer coisa, a história da civilização, com que principiam a estar cada vez mais de acordo as histórias universais, é notável pelo facto de, ao estudar detalhadamente as diferentes doutrinas religiosas, filosóficas e políticas, tomando-as como causa dos acontecimentos, de cada vez que tem de escrever um facto verdadeiramente histórico, como, por exemplo, a campanha de 1812, o relata, a seu pesar, como o produto do Poder, dizendo abertamente que a referida campanha é uma consequência da vontade de Napoleão. E, ao falarem deste modo, os historiadores, inconscientemente, mostram-se em contradição consigo mesmos ou admitem que esta força histórica nova que imaginaram não dá a explicação dos fenómenos e que a única maneira de os compreender e admitir o poder de um só que eles parecem não reconhecer.
[III]
Urna locomotiva movimenta-se. Pergunta-se porquê. O camponês diz que é o Diabo que a empurra Outro que ela se desloca porque as rodas giram. Um terceiro afirma que a causa do movimento é o fumo que o vento leva.
Nada há a objectar ao camponês. Para isso seria preciso demonstrar-lhe que o Diabo não existe ou que outro da sua classe lhe explicasse que não é o Diabo, mas um alemão que a põe em marcha. Só assim, mercê da contradição, se daria conta de que nem um nem outro tem razão. No que diz respeito ao que atribui o movimento ao girar das rodas contradiz-se a si próprio, pois, uma vez no campo da análise, será obrigado a avançar um pouco mais: ser-lhe-á necessário explicar o movimento das rodas. E só terá o direito de se deter na busca dos motivos quando tiver chegado à última causa do movimento da locomotiva, ao vapor comprimido dentro do êmbolo. Para aquele que explica o movimento pelo fumo que o vento leva, ao notar que a explicação pelas rodas nada explica, lançará mão do primeiro indício que lhe apareceu para apresentá-lo como uma causa.
A única noção capaz de explicar o movimento da locomotiva é a de uma força igual ao movimento visível.
A única noção por meio da qual se pode explicar o movimento dos povos é a de uma força igual a esse movimento geral dos povos.
No entanto, os diversos historiadores compreendem neste conceito forças muito diversas e em nenhum caso iguais ao movimento verificado. Uns falam de uma força inerente aos heróis, da mesma maneira que o camponês fala no Diabo no caso da locomotiva; outros, de uma força que na realidade é produzida por diversas outras forças, como aquele que invoca o movimento das rodas: outros, por fim, a influência moral, como acontece com aquele que alude ao fumo que o vento leva.
Enquanto se não escreverem senão histórias particulares, a dos Césares, dos Alexandres, dos Luteros ou dos Voltaires, e não a de todos os indivíduos, sem excepção alguma, que tomaram parte num acontecimento, não haverá possibilidade de descrever os movimentos da humanidade sem a noção de uma força compelindo-os para um fim. E a única noção no género que os historiadores conhecem é a do Poder.
Esta noção é o único mecanismo que permite manipular os materiais da história no seu estado actual e aquele que o quis quebrar, como Buckle, sem nada ter para o substituir, mais não fez que privar-se a si mesmo do último expediente ao seu alcance para desempenhar o seu papel. A noção do Poder na explicação dos fenómenos da história é indispensável e a melhor prova disso está no facto de os autores da história universal ou da civilização que pretendem renunciar a ela, a ela recorrem, inevitavelmente, a todo o instante.
Até agora, as obras históricas, no que diz respeito às questões que interessam a humanidade, parecem-se muito com a moeda corrente: notas de banco e moeda sonante. As biografias e histórias dos povos parecem-se com as notas de banco. Podem circular e cumprir a sua função, sem prejuízo seja para quem for, e até com vantagem, enquanto não se põe o problema de quem garante o seu valor. Basta pormos de lado o que dizem a propósito da intervenção da vontade dos heróis nos acontecimentos, e as histórias de Thiers são interessantes, instrutivas, e terão, inclusivamente, uma certa poesia. Mas da mesma maneira que se põe em dúvida o valor real das notas de banco quando se diz que a facilidade com que são fabricadas dá lugar a que se façam em grande número, ou quando chega o momento de as converter no ouro que representam, também se duvida do valor exacto das histórias deste género quando se considera que há realmente demasiadas ou quando nos perguntamos com ingenuidade qual poderá ter sido a força que fez que Napoleão fizesse tudo isso, isto é, quando se quer trocar essas notas de banco em circulação pelo ouro puro das realidades.
Os autores de histórias universais ou da civilização assemelham-se às pessoas que, para ocorrer aos inconvenientes das notas de banco, decidissem fabricar moeda sonante, e apenas sonante. As notas de banco ainda podem induzir em erro aqueles que nada conhecem; a moeda sonante, mas sem valor real, a ninguém pode enganar. Da mesma maneira que o ouro só é verdadeiramente ouro quando pode ser empregado, além de moeda de troca, como valor intrínseco, assim os autores de histórias universais não disporão de um valor ouro senão quando forem capazes de responder a esta questão essencial: que poder é esse? Esses historiadores respondem contraditoriamente a essa pergunta, enquanto os que escrevem sobre a civilização a eliminam inteiramente e falam de outra coisa. E da mesma maneira que as moedas que se parecem com o ouro se não podem usar senão entre as pessoas que consentem em aceitá-las nessas condições ou entre as que ignoram o que vale o ouro, assim os historiadores referidos, sem responderem aos Problemas essenciais da humanidade, procuram, por fins particulares, essa moeda corrente para as universidades e a uma quantidade de leitores amadores de livros sérios, como eles costumam dizer.
[IV]
Ao repelir o critério dos antigos sobre a submissão divina da vontade do povo a um ser eleito e sobre a submissão desta vontade à divindade, o historiador não pode dar um passo sem se contradizer, caso não escolha uma destas duas alternativas: regressar à crença dos antigos na participação directa da divindade nas obras humanas ou explicar concretamente a significação da força que produz os acontecimentos históricos e a que se dá o nome de, Poder.
Regressar à primeira alternativa é impossível. A crença está destruída: e eis porque é necessário explicar o que significa o Poder.
Napoleão ordenou que se reunisse um exército e que se marchasse para a guerra. Tão habituados estamos a formular as coisas desta maneira, de tal modo penetrou nos hábitos semelhante pensamento que se nos afigura mesmo absurdo perguntarmos como estes seiscentos mil homens pegaram em armas pelo facto de Napoleão ter pronunciado estas ou aquelas palavras. Napoleão dispunha do Poder, por isso as suas ordens foram cumpridas.
Semelhante resposta é satisfatória se acreditarmos que o Poder lhe foi dado por Deus. Mas desde que não admitamos semelhante hipótese torna-se necessário definir o que vem a ser este Poder de um único homem sobre todos os demais.
Esse Poder não pode consistir numa superioridade física do ser forte sobre o fraco, superioridade esta baseada na aplicação ou na ameaça de aplicação da força física: por exemplo, o caso de Hércules. Tão-pouco se pode basear na preponderância da força moral, como pensam, na sua ingenuidade, certos historiadores ao afirmarem que as personagens históricas são os heróis, isto é, criaturas dotadas desse poder particular da alma e da inteligência a que se dá o nome de génio. Não pode basear-se nesta superioridade porque, sem nada dizer acerca desses heróis, como Napoleão, cujas qualidades morais são muito discutíveis, a história não prova que os Luíses XI ou os Werniches, que tiveram à sua mercê milhões de homens, possuírem qualquer qualidade moral particular, pois a verdade é terem sido geralmente inferiores, no ponto de vista moral, a qualquer dos milhões de indivíduos a quem governaram.
Se a origem do Poder não reside, portanto, nem nas qualidades físicas nem nos méritos morais da pessoa detentora do Poder, torna-se evidente ser preciso procurá-la, fora dessa pessoa, nas suas relações com as massas.
Assim interpreta o Poder a ciência do direito, essa caixa de cambio da história, a qual oferece ouro puro em troca da concepção histórica do Poder.
O Poder é a soma das vontades das massas transportada, graças a um consentimento tácito ou explícito, para os governantes eleitos por aquelas.
No domínio da ciência jurídica, em que se raciocina de maneira puramente abstracta sobre a forma de pôr de acordo o Estado e o Poder, tudo isso é muito fácil; mais, quando aplicada à história, esta definição exige esclarecimentos.
A ciência do direito considera o Estado e o Poder da mesma maneira que os antigos consideravam o fogo, como uma coisa que existe em si mesma. Para a história, pelo contrário, o Estado e o Poder não passam da essência de um fenómeno, tal como para a física moderna o fogo já não é um elemento, mas um fenómeno.
Desta diferença fundamental da concepção da história e da ciência do direito resulta que esta pode dissertar livremente sobre a maneira como se deve, segundo ela, organizar o Poder e sobre o que é esse Poder considerado fora do tempo, mas não pode dar solução alguma aos problemas históricos relativos ao Poder quando submetido às flutuações da temporalidade.
Se o Poder é a soma das vontades transmitida ao governo, representará Pugatchev a vontade das massas? E, se assim não é, porque havia de a representar Napoleão I? Porque é que Napoleão III, ao ser preso em Bolonha, foi considerado um criminoso e porque foram dados como criminosos também, mais tarde, todos aqueles que o prenderam?
Nas revoluções palacianas, em que se encontram envolvidas, por vezes, apenas duas ou três pessoas, a vontade das massas também é transmitida a nova personagem? Quando se trata de conflitos internacionais, é a vontade das massas transmitida ao conquistador? Teria sido transferida, em 1808, a Napoleão a vontade da Liga do Reno? E a vontade do povo russo também lhe teria sido transferida, igualmente, em 18O9, quando as tropas russas, aliadas às francesas, marcharam contra a Áustria?
Todas estas perguntas admitem uma tríplice resposta, Primeira. Reconhecendo que a vontade das massas é sempre incondicionalmente transmitida àquele ou aqueles que elas escolheram como governantes e que, por conseguinte, toda a intervenção de um novo poder, toda a luta contra o poder transmitido, não deve ser considerada como uma violação do poder verdadeiro.
Segunda. Reconhecendo que a vontade das massas se transmite aos governantes sob determinadas condições e mostrando que toda a restrição, e inclusivamente a anulação do Poder, provém das infracções cometidas pelos governantes relativamente às condições sob as quais lhe foi outorgado o Poder.
Terceira. Reconhecendo que a vontade das massas se transmite aos governantes condicionalmente, mas segundo condições desconhecidas e indefinidas, e que a aparição de vários poderes, as suas lutas e as suas derrotas provêm tão-só de um maior ou menor cumprimento pelo governante dessas condições desconhecidas, segundo as quais a vontade das massas se transmite de um a outro indivíduo.
Os historiadores explicam de uma destas três maneiras a relação das massas com os seus governantes.
Certos historiadores não compreendem a significação do Poder por razões de ingenuidade. Os mesmos historiadores particulares e biógrafos de que falámos anteriormente parecem reconhecer que a soma da vontade das massas se transmite incondicionalmente às personagens históricas. Por isso, ao descreverem um só poder qualquer, supõem que é esse o absoluto e verdadeiro, e que qualquer outro que o contradiga não é um poder, mas um atentado, isto é, uma violência.
A sua teoria, boa para os períodos primitivos e pacíficos da história, aplicada aos períodos complicados e tempestuosos da vida dos povos, durante os quais surgem outros poderes, que lutam entre si, apresenta um inconveniente, por exemplo: o historiador legitimista tratará de demonstrar que a Convenção, o Directório e Bonaparte apenas eram violações do Poder, enquanto o republicano e o bonapartista quererão provar, aquele, que o verdadeiro Poder reside na Convenção e, este, que se radica no Império e que tudo o mais não passa de violação. É evidente que, perante todas estas contradições, as explicações dadas pelos historiadores apenas podem convir a crianças muito crianças.
Reconhecendo o erro de semelhante concepção, outros historiadores dizem que o Poder é fundado sobre a transmissão condicional aos governantes da soma das vontades das massas e que as personagens históricas só dispõem desse Poder nas condições necessárias à execução do programa que a vontade do povo lhes prescreve por acordo tácito. Mas em que consistem estas condições, eis o que eles não dizem e, se porventura o fazem, é contradizendo-se mutuamente a cada instante.
Cada historiador, segundo a opinião que tem acerca do que constitui o objectivo do movimento dos povos, representa essas condições na grandeza, na riqueza, na liberdade, na instrução dos cidadãos franceses ou de outra nação. Mas, sem falar das contradições dos historiadores em relação a estas condições, e admitindo, inclusivamente, a existência de um programa comum a todos, veremos como os factos históricos contradizem quase sempre essa teoria. Se as condições segundo as quais o Poder é transmitido consistem na riqueza, na liberdade e na instrução do povo, porque reinaram felizes Luís XIV ou Ivan IV até ao fim dos seus reinados e Luís XVI e Carlos I foram sentenciados pelo povo? A esta pergunta os historiadores respondem que a actividade de Luís XIV, contrária ao programa traçado, veio a reflectir-se em Luís XVI. Mas porque não ter-se reflectido em Luís XIV ou em Luís XV? Porque havia de reflectir-se precisamente em Luís XVI? Qual o prazo em que se exerce essa reflexão? No há nem pode haver resposta para estas perguntas. De acordo com este critério, tão-pouco é possível explicar como a soma das vontades permanece durante séculos nas mãos de determinados governantes e cios seus herdeiros e depois, repentinamente, pelo espaço de cinquenta anos, se transmite à Convenção, ao Directório, a Napoleão, a Alexandre, a Luís XVIII, de novo a Napoleão, a Carlos X, a Luís Filipe, ao governo republicano e a Napoleão, o Pequeno. Ao explicar estas transferências, que se cumprem tão rapidamente, das vontades de uma personagem a outra personagem, e sobretudo as relações internacionais, as conquistas, as alianças, os historiadores devem reconhecer, a seu pesar, que uma parte desses acontecimentos não é já a essência da transferência regular das vontades, mas apenas o azar, que depende ora da astúcia, ora do erro, ora da perfídia ou da debilidade de um diplomata, de um monarca ou de um chefe de partido. De maneira que a maior parte dos fenómenos históricos, os distúrbios, as revoluções e as conquistas não se apresentam aos olhos desses historiadores como transferências livres de vontades, mas como o resultado da vontade falsamente dirigida de uma ou várias pessoas, isto é, ainda uma transgressão do Poder. Eis porque os acontecimentos históricos são infracções à teoria dos historiadores referidos.
Estes historiadores são no género desses botânicos que, tendo observado que certas plantas nascem das sementes de dois cotilédones, sustentam que tudo quanto cresce sai de dois cotilédones e que a palmeira, o cogumelo e até o carvalho, quando em sua plena florescência, já sem duas folhas iguais, são excepções à regra.
Os historiadores da terceira categoria reconhecem que a vontade das massas se transmite condicionalmente às personagens históricas, mas que desconhecemos essas condições. Dizem que essas personagens históricas têm o Poder apenas por serem portadoras da vontade das massas, a qual lhes é transmitida-
Mas, então, se a força que move os povos não está nas personagens históricas, mas no próprio povo, em que consiste a importância dessas personagens?
Os historiadores dizem que são eles quem exprime a vontade das massas, que os seus actos representam exactamente a vontade do povo.
Neste caso, porém, surge a seguinte pergunta: são todos os actos destas personagens ou só uma parte da sua actividade que exprimem a vontade das massas? Se toda a actividade destes homens é o reflexo dessa vontade, como pensam alguns, as biografias de Napoleão e de Catarina II, cheias de pequeninas intrigas de corte, serão a expressão da vida dos povos, o que é, evidentemente, uma insensatez, Mas se é apenas um parte dos seus actos que representa a vida dos povos, como pensam outros historiadores mais filósofos, então, para se definir qual o lado da actividade da personagem histórica que exprime a vida do povo. é preciso saber antes em que consiste essa vida.
Ao defrontarem-se-lhes estas dificuldades, os historiadores referidos inventam uma espécie de entidade muito vaga e inconsistente, dentro da qual pode classificar-se grande número de acontecimentos possíveis, e sustentam que esta pura abstracção é, o objectivo do movimento da humanidade, As abstracções mais vulgares admitidas por quase todos os historiadores são a liberdade, a igualdade, a instrução, o progresso, a civilização, a cultura. Admitindo como objectivo do movimento da humanidade qualquer destas abstracções, pegam nas pessoas que deixaram atrás de si maior nomeada, os reis, os ministros, os grandes capitães, os grandes escritores, os reformadores, os papas, os jornalistas, e estudam-nos na medida em que eles teriam, na sua opinião, favorecido ou combatido esta ou aquela entidade reconhecida. Mas como não esta provado que o objectivo da humanidade consiste na liberdade, na igualdade, na instrução ou na civilização, e já que o vínculo entre as massas e os governantes ou os propagadores da cultura se baseia apenas na suposição arbitrária de que a vontade das massas se transmite sempre às personagens de primeira plana, a actividade de milhões de homens que emigram, incendeiam as suas casas, abandonam o cultivo das terras e se matam uns aos outros nunca se explica pelos actos de uma dezena de personagens que não queimam as suas casas, não se dedicam à agricultura e não matam o seu semelhante.
A história demonstra isto cada passo. Porventura o movimento dos povos do Ocidente, nos fins do século XVIII, e a sua marcha para o Oriente, se explica pela actividade de Luís XIV, Luís XV, Luís XVI ou das suas amantes, dos seus ministros, ou pela vida de Napoleão, de Rousseau, de Diderot, de Baumarchais e de outros? Porventura o movimento do povo russo para Oriente — para Kazan ou para a Sibéria — se explica pelos pormenores que se conhecem do carácter doentio de Ivan IV e pela sua correspondência com Kursbski?
Porventura pode explicar-se o movimento dos povos durante as cruzadas pela vida dos Godofredos, dos Luíses e das suas esposas? Para nós, o movimento dos povos para Oriente permanece incompreensível, sem qualquer objectivo, sem chefe, com uma multidão de vagabundos, e Pedro, o Eremita, à frente. E ainda é mais incompreensível a cessação desse movimento na altura em que as personagens históricas activas lhe tinham encontrado um fim razoável e santo: a libertação de Jerusalém. O papa, os reis e os cavaleiros incitavam o povo a libertar a Terra Santa, mas o povo negava-se a fazê-lo, pois a causa desconhecida que o havia impulsionado antes já não existia. A história dos Godofredos e dos trovadores não pode englobar a vida dos povos. Esta história continua a ser o que foi, e a vida dos povos, as suas aspirações, permanecem desconhecidas.
A história dos escritores e dos reformadores explica-nos ainda menos a vida dos povos.
Uma história da civilização pode proporcionar-nos esclarecimentos sobre as aspirações, a vida ou as ideias de um escritor ou de um reformador. Sabemos que Lutero tinha, um feitio assomadiço e pronunciou estas e aquelas palavras: sabemos que Rousseau era desconfiado e escreveu estes e aqueles livros; mas não podemos saber porque, depois da Reforma, os povos se mataram uns aos outros e porque, depois da Revolução Francesa, fizeram o mesmo.
Unir estas duas histórias, como o fazem os historiadores modernos, é escrever a história de monarcas e escritores, mas não a história dos povos.
[V]
A vida dos povos não pode confundir-se com a de um reduzido número de indivíduos, uma vez que se não conhece o vínculo que une uns aos outros. A teoria segundo a qual este vínculo se baseia na transmissão da sorna das vontades às personagens históricas é uma hipótese que a experiência histórica não confirma.
Esta teoria pode, sem dúvida, explicar muita coisa no domínio jurídico; é talvez necessária para os seus próprios fins, mas aplicada à história, assim que surgem revoluções, conquistas, guerras civis, logo que aparece a verdadeira história, nada mais explica.
Esta teoria parece irrefutável precisamente porque o acto da transmissão da vontade do povo não pode ser verificado, visto nunca ter existido.
Seja qual for o acontecimento que se realize, seja qual for a personagem que o dirige, a teoria está sempre a tempo de dizer que esta personagem veio a encontrar-se à frente do acontecimento porque a soma das vontades lhe foi transmitida-
As soluções que esta teoria traz aos problemas históricos parecem-se com o que diria um homem que, ao ver um rebanho em marcha, sem se preocupar com as diversas condições do pastoreio, os diferentes lugares do campo ou a direcção dada pelo pastor, atribuísse a causa desta ou daquela direcção que o rebanho tome ao animal que vai adiante.
«O rebanho caminha nesta direcção porque o animal que vai à frente o conduz e a soma das vontades de todos os outros é transferida para esse chefe.» Assim falam os historiadores da primeira categoria, os que admitem a transferência absoluta do Poder.
«Se os animais que caminham na vanguarda do rebanho porem substituídos, é porque a soma das vontades de todos os animais passa de um dirigente para outro, desde que esse animal os conduz na direcção que todo o rebanho escolheu.» Assim se exprimem os historiadores que admitem que a soma da vontade das massas é transferida aos dirigentes em condições que eles julgam conhecer. Nesse caso acontece multas vezes que o historiador observador do movimento, ao encarar a direcção escolhida, considera como guias aqueles que, no momento da mudança de direcção das massas, já não se encontram à cabeça, mas ao lado, e algumas vezes mesmo atrás.
«Se os animais que vão à frente mudam a todo o momento e se a direcção seguida pelo rebanho muda também constantemente, isso é o resultado do facto de os animais, para tomarem a direcção que antecipadamente conhecemos, transmitirem as suas vontades a certos animais mais em evidência do que outros. Por isso, para se estudar o movimento do rebanho, temos de observar todos os animais que vemos e que seguem em qualquer parte do rebanho.» Assim falam os historiadores da terceira categoria, que reconhecem como expressão de uma certa época todas as personagens históricas, desde os monarcas aos jornalistas. A teoria da transferência da vontade das massas a uma personagem histórica não passa de uma perífrase, quer dizer, a repetição da mesma pergunta por outras palavras.
Qual a causa dos acontecimentos históricos? O Poder. Que é o Poder? O Poder é a soma das vontades transferidas para uma só personagem. Em que condições se transmitem as vontades das massas a uma única personagem? Quando essa personagem exprime a vontade de todos os outros. Por outras palavras, o Poder é o Poder, Como quem diz: o Poder não é mais que o Poder. Por outras palavras ainda, o Poder não é mais que uma palavra cujo significado nos é desconhecido.
Se o domínio do conhecimento se limitasse às noções abstractas, submetendo ao exame do espírito crítico a explicação que a ciência nos dá do Poder, concluiríamos que o Poder mais não é que uma palavra e que na realidade esse Poder não existe. Mas para o conhecimento dos fenómenos possui o homem, além das noções abstractas, a arma da experiência, com a qual comprova os resultados das suas ideias puras. E a experiência proclama que o Poder não é uma palavra, mas um fenómeno que realmente existe.
Sem falar que nenhuma descrição da actividade colectiva se pode fazer sem compreender o Poder, a existência do Poder fica demonstrada tanto pela história como pela observação dos acontecimentos contemporâneos.
Cada vez que tem lugar um acontecimento histórico, aparecem um ou vários homens graças à vontade dos quais esse acontecimento se realiza. Sob o mando de Napoleão III, os Franceses vão ao México. O rei da Prússia e Bismark ordenam, e o exército dirige-se para a Boémia. Napoleão I dá as suas ordens e os exércitos marcham contra a Rússia. Alexandre I faz um gesto e os Franceses submetem-se aos Bourbons. A experiência mostra-nos que, seja qual for o acontecimento que se produz, esse acontecimento depende sempre da vontade de uma ou de várias pessoas que o ordenaram.
Segundo o velho costume de se reconhecer a participação divina nas obras humanas, os historiadores querem ver a causa do acontecimento na expressão da vontade da personagem investida do Poder; mas esta conclusão não está confirmada nem pelo raciocínio nem pela experiência.
Por um lado, o raciocínio demonstra que as expressões da vontade do homem, as suas palavras, não são mais que, uma parte da actividade geral que se exprime mediante um acontecimento, como, por exemplo, uma guerra ou uma revolução. Por isso, desde que se não admite uma força incompreensível e sobrenatural, um milagre, também se não pode admitir que as palavras sejam a causa directa do movimento de milhões de homens, Por outro lado, se se admite, inclusivamente, que as palavras não são a causa de um acontecimento, a história demonstra que, em muitas ocasiões, a expressão da vontade das personagens históricas não produz qualquer efeito, quer dizer que, com frequência, não só se não cumprem as suas ordens como também que às vezes sucede o contrário do que se ordenou.
Sem admitir a participação divina nas obras da humanidade, não podemos aceitar o Poder como causa dos acontecimentos.
Do ponto de vista da experiência, o Poder não é mais que uma dependência entre a expressão da vontade de uma personagem e o cumprimento dessa vontade por outros homens.
Para explicarmos as condições desta dependência, antes de mais nada devemos restabelecer o conceito da expressão da vontade, relacionando-o com o homem e não com a divindade.
Se a divindade dá ordens e, exprime ,a sua vontade, como nos mostra a história dos antigos, então a expressão dessa vontade não depende do tempo e não é provocada por coisa alguma, uma vez que a divindade não se encontra em relação com o acontecimento. Mas, ao falar-se de ordens, quer dizer, da expressão da vontade dos homens que actuam no tempo e estão vinculados entre si, para explicarmos o vínculo existente entre as ordens e os acontecimentos devemos estabelecer o seguinte:
Primeiro: as condições de todos os acontecimentos que se realizam, a continuidade do movimento ininterrupto no tempo, assim como a da pessoa que dá as ordens. Segundo: a condição do vínculo necessário em que se encontra a pessoa que, dá as ordens em relação àqueles que as cumprem.
[VI]
Só a expressão da vontade da divindade, que não depende do tempo, pode relacionar-se com uma série de acontecimentos que devem realizar-se dentro de alguns anos ou de alguns séculos, e só a divindade, que não é provocada por coisa alguma, pode determinar, por sua própria vontade, a direcção do movimento da humanidade, enquanto o homem actua sempre no tempo participando ele próprio no acontecimento.
Restabelecendo a primeira condição admitida, a condição do tempo, veremos que nem uma única ordem pode cumprir-se sem outra precedente que torne possível a execução da última.
Nunca ordem alguma aparece arbitrariamente, sem conter em si mesma toda uma série de acontecimentos. Cada ordem dada deriva de outra e nunca está relacionada com um conjunto de acontecimentos, mas sempre com um só momento do acontecimento.
Quando, por exemplo, dizemos que Napoleão ordenou ás suas tropas que marchassem para a guerra, unimos, numa mesma ordem expressa, uma série de ordens consecutivas dependentes umas das outras. Napoleão não podia ordenar a marcha sobre a Rússia e nunca fez semelhante coisa. Um dia deu ordem para se escreverem estes ou aqueles documentos destinados a Viena, a Berlim e Petersburgo; no dia seguinte publicou este ou aquele decreto ou ordem do dia ao exército, à armada, à intendência, etc. Deu milhares de ordens, as quais formaram uma série de acontecimentos que conduziram as tropas francesas à Rússia.
Durante todo o seu reinado, Napoleão foi dando ordens relativas à expedição a Inglaterra. A nenhum outro empreendimento consagrou tantos esforços nem tanto tempo e, no entanto, nem uma só vez tentou levar a cabo o seu projecto. Em compensação, organizou a marcha sobre a Rússia, país com o qual, repetira várias vezes, considerava vantajoso aliar-se. Isto quer dizer que a suas primeiras ordens não correspondem a uma série de acontecimentos, coisa que sucede às segundas.
Para que se cumpra com toda a segurança o que o homem ordena, tem de tratar-se de uma ordem susceptível de ser executada. No entanto, é impossível saber de antemão o que pode e o que não pode executar-se, não só num acontecimento tão complicado como a campanha da Rússia, em que tomaram parte milhões de, homens, mas, inclusivamente, num acontecimento mais simples, pois quer num quer no outro podem surgir sempre numerosos obstáculos. Por cada ordem executada há sempre numerosas ordens que o não chegam a ser. As ordens impossíveis não estão vinculadas ao acontecimento e não podem ser cumpridas. Só se levam a cabo as que são possíveis, as que se encadeiam na série consecutiva de ordens que correspondem a uma série de acontecimentos.
A ideia falsa de que a ordem que precede o acontecimento é a causa desse mesmo acontecimento deriva do facto de, no momento em que o acontecimento se produz, as únicas ordens entre os milhares de ordens dadas de acordo com o acontecimento foram executadas e esquecemos as que o não foram porque o não podiam ser. Além disso, a fonte principal do nosso erro a este respeito provém de que, nos relatos históricos, toda uma série inumerável de pequenos e muito variados factos, como, por exemplo, tudo que podia atrair as tropas francesas à Rússia, se confunde num acontecimento único, segundo o resultado que produziu, e para responder a esta confusão toda uma série de ordens igualmente se funde na expressão única de uma vontade.
Diremos: quis fazer a campanha da Rússia e fê-la. Na realidade, nunca encontrámos nos seus actos fosse o que fosse de parecido com a expressão de semelhante vontade, enquanto descobrimos séries de ordens ou de expressões da sua vontade dirigidas da maneira mais diversa e mais indeterminada. Da soma de ordens de Napoleão não cumpridas derivou uma série levada a cabo na campanha de 1812, não porque estas ordens se distinguissem das outras, das não cumpridas, mas porque coincidiam com uma série de factos que conduziram as tropas francesas à Rússia. Quando se pinta com um modelo à vista, o pintor não tem de se preocupar com a maneira de usar as tintas e o sitio do que as há-de aplicar, pois as tintas se encontram colocadas de acordo com os contornos da figura desenhada do modelo.
Da mesma maneira, ao examinar, no tempo, a, relação existente entre as ordens e os acontecimentos, vemos que em nenhuma circunstância podem ser aquelas as causas dos acontecimentos, apenas existindo entre umas e outras certa dependência.
Para se compreender em que consiste essa dependência é, necessário restabelecer-se a outra condição omitida de cada ordem, que não provém da divindade, mas do homem e se estriba no facto de que aquele que ordena participa pessoalmente no acontecimento.
A relação entre o que ordena e os que recebem as ordens, eis, precisamente, o que se chama Poder. Esse Poder consiste no seguinte:
Para uma acção comum, os homens formam sempre certos grupos nos quais, apesar da diferença dos objectivos visados por cada um na acção conjunta, as relações entre os que nela tomam parte são sempre as mesmas.
Ao unirem-se desta maneira têm sempre em si relações tais que o maior número deles toma a maior parte da participação directa no empreendimento e o menor numero a mais pequena De todos os agrupamentos formados pelos homens para realizar actos colectivos, um dos mais concretos e definidos é o exército.