Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 15 de 18 · parte 1/3

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Guerra e Paz

Quarta Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

[I] [II][III][IV][V] [VI] [VII][VIII][IX][X][XI] [XII][XIII][XIV][XV] [XVI]

[XVII] [XVIII] [XIX][XX][XXI]

 

[I]

Quando o homem vê morrer um animal, fica aterrorizado. A qualidade de ser vivo de que ele próprio participa desaparece diante dos seus olhos, deixa de existir. Mas quando aquele que morre é um ser humano, e um ser querido, além desse horror perante a vida que desaparece, o homem sente um dilaceramento, uma ferida moral que, como o ferimento físico, em certos casos leva à morte, noutras cura-se e por vezes também continua sensível e receia os contactos exteriores.

Depois da morte do príncipe, Natacha e a princesa Maria passaram ambas por essa experiência. Prostradas moralmente, esmagadas sob a terrível nuvem da morte que se estendera sobre elas, deixaram de ser capazes de olhar a vida cara a cara. Preservavam cuidadosamente a sua ferida, que ainda sangrava, contra qualquer contacto capaz de a irritar. Uma carruagem que passava depressa de mais na rua, o anunciarem estar o jantar na mesa, a pergunta de uma criada relativa ao fato que era preciso preparar, e, ainda mais, uma palavra de simpatia pouco sincera, ou expressa de maneira superficial, tudo lhes irritava dolorosamente a ferida, produzindo-lhes a impressão de um ultraje, rompendo a calma que lhes era necessária para estarem atentas ao coro terrível e severo que não deixava de lhes ressoar na imaginação e as impedia de contemplar as distâncias misteriosas e infinitas que por instantes se haviam desvendado diante delas.

Só quando estavam sós nada as feria ou lhes fazia mal. Trocavam poucas palavras entre si. Quando falavam, era das coisas mais insignificantes. Tanto uma como outra evitavam toda a espécie de alusões ao que pudesse ser o futuro.

Admitirem sequer a possibilidade de um futuro era uma ofensa à sua saudade. E ainda eram mais cautelosas em evitar que nas suas conversas se filtrasse fosse o que fosse alusivo ao defunto. Afigurava-se-lhes que as provas e as impressões por que tinham passado não podiam exprimir-se por meio de palavras.

Parecia-lhes que qualquer alusão a pormenores da sua vida quebrava a majestade e a santidade do mistério que passara diante dos seus olhos.

A discrição que punham rias palavras, o silêncio em relação a qualquer coisa que o pudesse lembrar, a maneira de se manterem sempre na reserva, só concorriam para lhes aguçar a sensibilidade.

Mas é tão impossível uma dor pura e perfeita como uma pura e perfeita alegria, A princesa Maria, de então para cá única senhora do seu destino, tutora e educadora do sobrinho, foi a primeira a ouvir a voz da vida chamando-a para fora dessa atmosfera de tristeza em que vivera as duas primeiras semanas. Teve de responder a cartas de parentes seus. O quarto em que dormia Nikoluchka era húmido e a criança principiou a tossir.

Alpatitch chegou a Iaroslav com as suas contas, propondo e aconselhando o regresso a Moscovo, pois a casa da Vozdvienka ficara intacta e apenas precisava, para ser ocupada, de algumas pequenas reparações. A vida não parava e era preciso viver. Por mais penoso que fosse para ela sair daquela solidão contemplativa em que vivera até aí, por mais escrúpulos e por mais que lhe custasse deixar Natacha sozinha, a vida reclamava-a, e ela não tinha outro remédio se não submeter-se-lhe. Verificou as contas de Alpatitch, aconselhou-se com Dessales a respeito do sobrinho e preparou as coisas para regressar a Moscovo.

Natacha, só, evitava vê-la sequer desde que ela se pusera a preparar a partida.

A princesa Maria pediu licença à condessa para que Natacha a acompanhasse, e o pai e a mãe consentiram da melhor vontade, pois notavam que as forças físicas da filha diminuíam a olhos vistos. Pensavam que uma mudança de ares lhe seria favorável e que podia consultar os médicos de Moscovo.

— Não irei a parte alguma — respondeu Natacha às propostas que lhe fizeram —, só desejo uma coisa, que me deixem em paz — E dizendo isto fugiu, retendo dificilmente as lágrimas menos de dor que de despeito e cólera.

Desde que se sentira abandonada pela companheira e entregue sozinha à sua dor passava a maior parte do tempo no quarto, enterrada no canto do divã, entretendo os dedos finos e ágeis nalgum trabalho maquinal, os olhos fixos obstinadamente, e sem verem, num ponto qualquer na sua frente. Esta solidão esgotava-a, fazia-lhe mal, mas era-lhe necessária. Quando alguém entrava no quarto, levantava-se imediatamente, mudava de atitude, modificava a expressão do olhar e punha-se a ler ou a coser, esperando, impaciente, que o importuno voltasse a sair. Parecia-lhe sempre estar a ponto de compreender e penetrar o terrível e, acabrunhador problema que lhe tomava todas as forças espirituais.

No fim de Dezembro, com um vestido de lã preto, a trança negligentemente amarrada no alto da cabeça, magra e pálida, Natacha estava acocorada no seu divã, desfiando inconscientemente a ponta do cinto, os olhos fitos no àrigulo da porta.

Olhava o ponto donde ele partira para a outra vida. E essa outra vida em que ela não pensara antes, que se lhe afigurava tão distante, tão inverosímil, era-lhe agora próxima e familiar, muito mais inteligível que a vida presente, onde só havia futilidades e ruínas, sofrimento e dor.

Olhava para o ponto onde ela sabia que ele estava, mas não podia vê-lo senão como o vira nos últimos tempos. Via-o como ele estava em Mitichtchi, em Troisa, em Iaroslav.

Via-lhe o rosto, ouvia-lhe a voz, repetia as suas próprias palavras e as que ele lhe dirigia e por vezes imaginava ainda frases que poderiam ter trocado.

Ele ali estava, estendido na poltrona, com o casaco forrado de veludo, a cabeça apoiada na mão magra e pálida. Tem o peito metido para dentro e os ombros salientes, os lábios cerrados, os olhos brilhantes e rugas lhe aparecem e desaparecem na testa pálida. Uma das suas pernas agita-se nervosamente de maneira quase insensível. Natacha pensa que ele está lutando naquele momento contra uma dor pungentíssima. Que dor? Porquê essa dor? Que sente ele? Que espécie de dor é a sua?, pensa Natacha. Ele, porém, reparou que ela está inquieta, ergueu os olhos e pôs-se a falar sem sorrir.

«Que coisa horrível ligar-se uma mulher para toda a vida a um homem doente. É um suplício perpétuo.» E, falando assim, olhava-a escrutadoramente. Natacha, como sempre, responde-lhe sem reflectir no que lhe diz: «Isso não pode continuar assim, não pode ser, há-de recuperar a saúde por completo.»

Só agora podia ler no seu pensamento e reviver os seus sentimentos de então. Lembrava-se do triste e severo olhar que por muito tempo pousara nela quando falara e compreendeu a espécie de reproche e de desespero que esse olhar encerrava.

«Era de considerar», dizia ela agora, «horrível ele permanecer sempre naquele sofrimento. Falei então desse modo porque, efectivamente, seria horrível para ele, mas ele interpretou as minhas palavras de outra maneira. Julgou que eu queria dizer que seria horrível para mim. Nessa altura ainda ele tinha amor à vida, ainda tinha medo de morrer. Fui estúpida, brutal. Falei sem reflectir. Estava a pensar em coisa muito diferente. Se eu me tivesse expressado como realmente pensava, ter-lhe-ia dito que seria feliz vendo-o agonizante, sempre agonizante diante dos meus olhos, que preferia isso a sofrer como hoje sofro. Hoje nada mais existe, ninguém. Teria ele compreendido o fundo do meu pensamento? Não, não o compreendeu nem nunca o poderá conhecer. E agora nunca, nunca mais poderei reparar a falta que cometi.» E lá está ele a dirigir-lhe as mesmas palavras e mental— mente ela a responder-lhe de maneira totalmente diferente. Fá-lo calar e diz-lhe: «Isso é horrível para si, mas não para mim. Sem si, a vida, para mim, não tem sentido, e sofrer consigo seria, para mim, a maior das felicidades.» E ele, então, pega-lhe na mão e aperta-a entre as suas, como nessa medonha noite, quatro dias antes do fim. E imaginava palavras de ternura e amor que então lhe não saíram dos lábios, mas que lhe dizia agora, «Amo-te!... Sim, amo-te, amo-te», repetia ela, juntando convulsivamente as mãos e apertando os dentes uns contra os outros com a maior violência.

E então invadia-a uma dor menos amarga e as lágrimas saltavam-lhe dos olhos. De súbito, porém, perguntava a si própria a quem estava a falar. «Onde está ele e quem é ele agora?» E de novo se sentia submersa numa cruel incerteza, que lhe detinha as efusões, e de sobrancelhas carregadas fixava os olhos no espaço, na direcção onde ele podia estar. E pouco a pouco julgava ter penetrado o mistério... No momento, porém, em que julgava que o incognoscível se lhe ia revelar, um golpe violento no fecho da porta lhe impressiona o ouvido. Sem pedir licença, o rosto pálido e descomposto, entra no quarto Duniacha, a criada.

— Depressa, o pai, depressa — exclama Duniacha vivamente e retendo os soluços. — Uma desgraça, Piotre Ilitch... Uma carta.

 

[II]

A aversão que Natacha sentia por toda a gente ainda era mais acentuada pelas pessoas da família. Todos os seus, o pai, a mãe, Sónia, lhe eram tão próximos, tão familiares, via-os tanta vez, que as suas palavras, os sentimentos que eles exprimiam, lhe pareciam uma ofensa a esse mundo ideal em que vivia naqueles últimos tempos, e testemunhava-lhes não só indiferença, mas uma espécie de hostilidade. Ouviu sem compreender Duniacha, que lhe falava de Piotre Ilitch e de uma desgraça.

«De que desgraça me está ela a falar, que desgraça pode ter acontecido? Para eles, os dias decorrem sempre da mesma maneira, por hábito, tranquilamente», dizia de si para consigo.

Ao entrar no salão viu o pai sair bruscamente do quarto da condessa, o rosto contraído e banhado de lágrimas. Via-se que saíra do quarto contíguo para poder expandir a sua dor. Ao ver Natacha fez um gesto de desespero e soltou uns soluços convulsivos que lhe contraíram a grossa e plácida figura.

— Pétia... Pétia... Depressa... Ela... chama-te. — E, a chorar como uma criança, aproximou-se, em passos miúdos, de uma cadeira, as pernas a tremer. Deixou-se cair nela, cobrindo a cara com as mãos.

De súbito como que uma descarga eléctrica percorreu Natacha dos pés à cabeça. Sentiu um golpe terrível no coração, Julgou que qualquer coisa se rompera nela e que ia morrer. Mas a dor foi imediatamente seguida do sentimento de se haver libertado da interdição de viver que sobre ela pesava. A presença do pai, os gritos medonhos e selvagens da mãe, ressoando no aposento vizinho, fizeram-na esquecer a sua própria dor.

Correu para o pai, mas este, num gesto impotente, indicou-lhe a porta do quarto. A princesa Maria, pálida e trémula, surgiu no limiar da porta, e, pegando na mão de Natacha, disse-lhe qualquer coisa. Natacha, sem a ver, sem a ouvir, encaminhou-se rapidamente para o quarto contíguo, parou, irresoluta, alguns instantes, depois correu para a mãe.

A condessa estava estendida numa poltrona, sacudida por estranhas convulsões nervosas, e batia com a cabeça na parede. Sónia e a criada seguravam-lhe os braços.

— Natacha, chamem a Natacha!... Não é verdade... Mentem... Onde está a Natacha? — gritava, repelindo as pessoas que a rodeavam. — Vão-se todos embora, não é verdade! Mataram-no!... Ah! Ah! Ah!... Não é verdade!

Natacha ajoelhou-se, inclinou-se para ela, tornou-a nos braços, levantou-a com uma força inesperada e, voltando para a sua a cara da mãe, encostou-lhe os lábios.

— Mãe!... Mãezinha!... Estou aqui, minha mãezinha dizia-lhe ela muito baixinho e incessantemente.

Não a deixou um só minuto; lutava ternamente contra ela, pedia almofadas, água, desapertava-lhe o vestido.

— Minha querida mãe!... Minha mãezinha! — continuava, beijando-a na cabeça, nas mãos, nas faces, e sentindo lágrimas inexauríveis correr-lhe, em torrente, pela cara abaixo.

A condessa apertou-lhe a mão, fechou os olhos e serenou por momentos. De súbito ergueu-se com uma energia insuspeitada, lançou à sua volta um olhar esgazeado, e, vendo Natacha, estreitou-lhe com toda a força a cabeça entre as mãos. Em seguida, voltando contra o seu esse rosto contraído pela dor, fitou-o longamente.

— Natacha, gostas de mim? — disse-lhe muito baixinho, num tom confiante — Natacha, tu não me enganas? Vais dizer-me toda a verdade.

Natacha fitou-a com os olhos velados pelas lágrimas. Parecia implorar-lhe o seu perdão e o seu amor.

— Minha querida mãezinha — repetia, dilatando todas as f orças do seu amor, como a tentar chamar a si parte da dor que esmagava a mãe.

E na sua luta impotente contra a realidade, esta, recusando-se a acreditar que pudesse continuar a viver, uma vez que o seu querido filhinho morrera na flor da idade, de novo se evadiu para o mundo do delírio, fugindo, assim, à terrível evidência.

Natacha nunca soube dizer depois o que passara naquele dia, naquela noite, no dia seguinte e na noite do dia seguinte. Não dormiu e não deixou a mãe um só instante. O seu amor obstinado, paciente, que não procurava explicar nem consolar, envolvia-a por todos os lados e a cada momento numa ternura que era como que um apelo à vida.

Na terceira noite a condessa serenou por alguns instantes e Natacha aproveitou a circunstância para fechar os olhos, a cabeça apoiada no braço de uma poltrona. Ao ouvir a cama ranger abriu os olhos e viu a mãe sentada no leito a falar baixo sozinha.

— Como me sinto feliz que tenhas voltado. Estás cansado, meu menino, queres tomar chá?

Natacha, ao ouvir estas palavras, aproximou-se da cama. — Que grande e lindo que tu és! — continuava a condessa, apertando o braço da filha.

— Mãezinha, que estás tu a dizer? — Natacha, acabou-se, acabou-se.

E, abraçando a filha, pela primeira vez rompeu a chorar.

 

[III]

A princesa Maria adiara a partida. Sónia e o conde haviam tentado debalde substituir Natacha. Reconheciam que só ela seria capaz de deter a mãe à beira de um desespero vizinho da loucura. Durante três semanas Natacha manteve-se continua— mente ao lado da condessa; dormia numa poltrona, dava-lhe de comer e beber, falava-lhe constantemente, pois sabia que só a sua voz terna e carinhosa a podia serenar.

A ferida moral da pobre senhora não podia curar-se. A morte de Pétia levara-lhe o melhor da sua vida. Um mês depois de ter conhecimento da terrível notícia, essa mulher de cinquenta anos, ágil e robusta, ao voltar a sair pela primeira vez, não passava de uma velha meio morta, sem o mais pequeno interesse na vida. No entanto a ferida que fulminara a condessa, por sua vez chamara à vida Natacha.

Por estranha que pareça, a verdade é que a ferida moral produzida por um desregramento do espírito cicatriza-se, pouco a pouco, como uma ferida física, renovando ela própria os seus tecidos, graças à força vital que vem de dentro.

Assim cicatrizou a ferida de Natacha. Julgava ela que a vida se lhe acabara. Mas, de súbito, o amor pela mãe deu-lhe a prova de que a essência da sua vida, o amor, continuava a viver dentro dela. Despertando o amor, também despertara a vida.

Os últimos dias do príncipe André já tinham unido Natacha e a princesa Maria. Esta nova desgraça ainda mais as aproximou. Maria adiara para mais tarde a sua partida e durante aquelas três últimas semanas cuidara de Natacha como de uma criança doente. As semanas passadas ao pé da mãe tinham abalado gravemente as forças físicas da jovem.

Certa vez a princesa Maria, ao reparar que Natacha, em pleno dia, tinha arrepios de febre, levou-a para o seu quarto e obrigou-a a deitar-se, mas quando Maria, depois de puxar os estores, ia sair, chamou-a.

— Não me apetece dormir, Maria. Fica ao pé de mim.

— Estás fatigada, procura dormir.

— Não, não. Porque me trouxeste para aqui? Ela vai chamar-me.

— Está muito melhor. Falou hoje com muito juízo — disse Maria.

Natacha, estendida na cama, olhava para Maria na obscuridade do quarto.

«Parece-se com ele?», interrogava-se ela. «Parece-se e não se parece. Há nela qualquer coisa de particular, de estranho, de completamente novo, que eu não conheço. E gosta de mim. Que haverá no seu coração? Nada que não seja de primeira ordem. Mas em que pensa ela? Que opinião tem de mim? Sim. é uma bela alma.»

— Macha — chamou-a timidamente, puxando para si a mão da amiga. — Macha, não vás pensar que sou má. Sim, Macha, minha querida Macha. Gosto muito de ti. Sejamos amigas, amigas completas.

E Natacha, abraçando-a, beijou-lhe o rosto e as mãos. A princesa Maria, um pouco confusa, respondeu, no entanto, com alegria a estas efusões.

A partir daquele dia houve entre elas uma amizade apaixonada e carinhosa, só possível entre mulheres. Beijavam-se a todo o momento, diziam uma à outra palavras ternas e passavam quase todo o tempo juntas. Quando uma se ausentava, logo a outra ficava inquieta e se dava pressa em ir ao seu encontro. Sentiam-se mais em paz consigo próprias juntas que quando separadas e entregues a si mesmas. Um sentimento mais forte mesmo que a amizade as unia: a convicção de não poderem viver uma sem a outra.

Algumas vezes ficavam horas inteiras sem falar; outras, assim que se deitavam, punham-se a tagarelar até de manhã. A princesa Maria falava da sua infância, da mãe, do pai, dos seus sonhos; e Natacha, que outrora se afastara com tranquila indiferença daquela vida de abnegação e submissão, dessa abnegação cristã de que desconhecia a poesia, agora, que estava unida a Maria por laços tão ternos, adorava o seu passado, compreendia uma vida cujo sentido até aí lhe escapara. Não pensava em praticar aquela submissão e aquela abnegação absolutas, pois estava habituada a outras satisfações, mas compreendia e apreciava noutrem virtudes que antes lhe eram inacessíveis. A princesa Maria, ao ouvir a história da infância e da primeira juventude de Natacha, descobriu, pela sua parte, um mundo desconhecido para ela: a fé na vida e nos seus prazeres.

Quase nunca falavam dele, realmente, para não perturbarem, assim pelo menos o supunham, a elevação dos sentimentos que lhes enchiam a alma, e o silêncio que mantinham fizera que elas, Pouco a pouco, sem mesmo darem por isso, acabassem por esquecê-lo.

Natacha estava magra e pálida, e tão fraca que todos se preocupavam com a sua Saúde, o que lhe dava um certo prazer. Outras vezes, porém, sentia-se subitamente dominada, senão pelo medo da morte, pelo menos pelo receio de estar doente, de per— der as forças e a beleza, e surpreendia-se a contemplar espantada as suas mãos descarnadas ou, pela manhã, a mirar no espelho o rosto que se lhe afigurava repuxado e doentio. De si para consigo dizia que assim tinha de ser, mas nem por isso deixava de ser triste e assustador.

Um dia, depois de subir umas escadas apressadamente, sentiu-se sufocar. Acto contínuo imaginou um motivo para voltar a descer as escadas e de novo subi-las, na intenção de observar e medir as suas forças.

De outra vez, ao chamar Duniacha, faltou-lhe a voz. Chamou-a de novo, embora estivesse a ouvir-lhe os passos, com essa voz do peito que usava para cantar e ficou-se à escuta.

Não o sabia nem poderia acreditar que assim fosse, mas a verdade é que sob a espessa camada de húmus que lhe revestia a alma, parecia despontar já uma plantazinha tenra que não tardaria a crescer e a estender os seus vigorosos rebentos sobre a dor que a esmagava, dor que não tardaria muito a não ser visível nem perceptível. A sua ferida cicatrizara pelo interior.

No fim de Janeiro a princesa Maria partiu para Moscovo e o conde insistiu para que Natacha a acompanhasse na intenção de consultar os médicos.

 

[IV]

Depois do choque dos exércitos em Viazma, onde Kutuzov não pudera refrear o desejo das suas tropas ansiosas por aniquilar e cortar a retirada ao inimigo, o movimento de recuo dos Franceses, perseguidos pelos Russos, continuou até Krasnoie sem outra batalha. A fuga era tão rápida que o exército russo não podia acompanhar os Franceses. Havia falta de cavalos na cavalaria e na artilharia e não se sabia com precisão onde o inimigo estava.

Os homens, extenuados por esta marcha ininterrupta, à razão de quarenta verstas em vinte e quatro horas, não podiam andar mais depressa.

Para que possa compreender-se o grau de esgotamento do exército russo basta verificar-se o seguinte: se desde Tarutino esse exército não perdera, entre mortos e feridos, mais de cinco mil homens, além de uma centena de prisioneiros, e se à saída de Tarutino contava cem mil homens, o certo é que, ao chegar a Krasnoie os seus efectivos não iam a mais de cinquenta mil,

A rapidez da perseguição agia sobre o exército russo de maneira tão dissolvente como a fuga no exército francês. A única diferença estava nisto: que o exército russo avançava a seu talante, sem a ameaça que a cada momento pesava sobre o exército francês, que via os retardatários doentes caírem nas mãos do inimigo. Os Russos sempre estavam em sua casa. A causa principal das perdas do exército napoleónico foi a rapidez da sua marcha e a prova incontestável está nas perdas idênticas das tropas russas.

Kutuzov, tanto em Tarutino como em Viazma, fez tudo o que pôde para não entravar a retirada mortífera dos Franceses, como queriam Petersburgo e os generais do exército, antes, pelo contrário, favoreceu-a, facilitando o movimento avante dessas tropas.

Mas, além da lassidão das tropas e das perdas que sofreram, consequência da marcha acelerada. Kutuzov ainda tinha outro motivo para moderar os seus ímpetos e ganhar tempo. Evidentemente que o objectivo dos Russos era perseguir os Franceses. A estrada que estes seguiam não era conhecida daí, quanto mais os Russos lhe seguiam o rastro, mais distanciados eles estavam. Só seguindo-os a uma distância respeitável era possível, metendo por atalhos, cortar os ziguezagues que o inimigo efectuava na sua marcha. As sábias manobras propostas pelos generais traduziam-se em toda a sorte de movimentos de tropas, numa multiplicação das jornadas e a única coisa razoável a fazer era reduzir o número destas marchas. Foi esse o objectivo que Kutuzov procurou realizar energicamente, durante toda a campanha, de Moscovo a Vilna, não temporariamente ou ao acaso, mas com um tal espírito de continuidade que dele se não desviou uma só vez.

Kutuzov, não graças a um esforço de raciocínio ou mercê dos seus conhecimentos militares, mas instintivamente, com todas as fibras do seu ser, sentia que todos os seus soldados acreditavam na derrota dos Franceses, que o inimigo fugia e que era necessário reconduzi-lo. Ao mesmo tempo, porém, tanto ele como os seus homens, davam-se conta do fardo que representava esta campanha inaudita na sua rapidez e na estação do ano em que se realizava.

Quanto aos generais, sobretudo os que não eram russos, e não queriam outra coisa senão distinguir-se, provocar surpresa, aprisionar um duque ou um rei, esses eram de opinião de que, para travar batalha e vencer, o movimento era preciso. E nada teria sido mais absurdo e mais culpável. Kutuzov limitava-se a encolher os ombros quando general após general lhe vinham apresentar os seus planos de movimentos com soldados mal calçados, sem roupas quentes e esfomeados. Num mês, sem travar batalha, o exército russo perdera metade dos seus efectivos, e nas condições mais favoráveis ainda tinha de percorrer até à fronteira uma distancia maior do que a que percorrera já.

Esta ânsia de se distinguirem, de manobrarem, de esmagarem ou cortarem a retirada ao inimigo, manifestava-se sobretudo sempre que os Russos vinham a encontrar-se na presença do exército francês.

Assim aconteceu em Krasnoie, onde julgaram ter pela frente uma das três colunas francesas e onde vieram a defrontar o próprio Napoleão e dezasseis mil homens. Apesar de todos os esforços de Kutuzov para evitar um conflito funesto e poupar os seus homens, as tropas russas extenuadas levaram três dias a aniquilar os bandos franceses.

Toll redigiu o dispositivo: «die erste Kolonne marschirt» (Em alemão no texto original «A primeira coluna marcha, etc.». (N dos T.), etc., E, como sempre, nada se fez segundo o dispositivo. O príncipe Eugénio de Wurtemberg fuzilava do alto de um monte os franceses que fugiam e pedia reforços, que nunca chegaram. Os Franceses, iludindo os Russos, durante a noite, espalharam-se, esconderam-se lias florestas e acabaram por escapar-se-lhes.

Milarodovitch, que dizia não querer saber das necessidades materiais do seu destacamento, e nunca ninguém encontrava onde era preciso, esse «cavaleiro sem medo e sem mácula», como se cognominava a si mesmo, esse amador de entendimentos com os Franceses, enviou-lhes parlamentários com a intimação de se renderem, perdeu o seu tempo e acabou por fazer, precisamente, que lhe não tinham ordenado.

— Rapazes, ofereço-vos esta coluna — dizia ele para os seus soldados de cavalaria, mostrando-lhes os Franceses.

E a cavalaria, em cima de cavalos que mal se podiam mexer, instigados à força de espora e sabre, marchou a trote curto, penosamente, sobre a coluna que ele lhe oferecia, isto é, sobre um bando de homens mortos de fome e enregelados. E a coluna, lançando fora as suas armas, fez o que há muito desejava: rendeu-se.

Em Krasnoie fizeram vinte e seis mil prisioneiros, tomaram centenas de canhões e um bastão, que se dizia ser de marechal, houve discussões sobre quem mais se distinguira, e sentiram-se contentes com isso, lamentando muito, todavia, não terem capturado Napoleão ou outro qualquer herói, um marechal, por exemplo, e disso se acusaram uns aos outros, responsabilizando sobretudo Kutuzov.

Estes homens, que só davam ouvidos às suas próprias paixões, não passavam de cegos instrumentos de uma triste e inexorável fatalidade. Mas estavam convencidos de que eram heróis e julgavam cumprir a mais bela e a mais nobre das missões. Acusavam Kutuzov e diziam que desde que a campanha principiara não fizera outra coisa senão impedi-los de vencer Napoleão, que apenas pensava em satisfazer as suas paixões e não queria abandonar as suas «casas de pano», pois só aí se sentia em sossego: que em Krasnoie detivera o exército, pois, ao saber da presença de Napoleão, perdera por completo a cabeça; que estava em contacto com ele e que fora comprado pelo imperador dos Franceses, etc. (Memórias de Wilson. (Nota de Tolstoi).

Não só os contemporâneos, cegos de paixão, falaram assim. A posteridade proclamou Napoleão grande e os historiadores estrangeiros disseram que Kutuzov era um velho cortesão, débil, manhoso e corrupto. E os Russos, esses, pintaram-no como uma criatura indefinível, espécie de palhaço, apenas útil em determinado momento, graças ao seu nome essencialmente eslavo.

 

[V]

Durante os anos de 1812 e 1813, Kutuzov foi francamente acusado pelos seus erros. O imperador estava descontente com ele. Uma história escrita nessa altura dizia que ele era um cortesão lisonjeador e embusteiro, que tremia só de ouvir o nome de Napoleão e, mercê dos erros que cometera em Krasnoie e no Beresina, privara o exército russo de obter uma completa vitória sobre os Franceses (História do Ano 1812, por Bogdanovitch; retrato de Kutuzov e dissertações sobre os resultados insuficientes da batalha de Krasnoie. (Nota de Tolstoi)..

Tal é o destino dos homens superiores que não se atribuem a si próprios o título de «grandes homens», tão contrário ao temperamento russo, dessas raras e únicas personalidades que, interpretando os desígnios da Providência, a ela submetem os seus próprios. O ódio e o desprezo da multidão castigam estes homens por haverem previsto leis superiores.

Para os historiadores russos, por estranho e penoso que isso pareça, Napoleão, esse insignificante instrumento da história, que nunca e em circunstância alguma, nem mesmo no exílio, deu provas de dignidade humana, esse Napoleão é motivo de entusiasmo e exaltações: é grande. Kutuzov, pelo contrário, ele, que desde o começo, em 1812, até ao fim da sua acção, de Borodino a Vilna, nem uma só vez se contradisse por palavras ou actos, esse homem, que é o exemplo mais notável da história de sacrifício e clarividência do futuro na realidade presente. Kutuzov, aos olhos deles, não passa de qualquer coisa de indefinível e lamentável e parece quase sempre envergonhado de falar de si próprio e dos acontecimentos em que participou.

E no entanto é difícil conceber uma personagem histórica cujos actos tenham sido dirigidos com maior perseverança para um só e único fim. É difícil imaginar escopo mais nobre e mais de acordo com a vontade de todo um povo. E ainda é mais difícil encontrar na história um objectivo de antemão assinalado que haja sido mais completamente realizado que aquele que se propôs Kutuzov em 1812.

Kutuzov nunca falou dos «quarenta séculos que nos contemplam do alto das Pirâmides», dos sacrifícios que fez pela pátria, do que tencionava fazer ou do que realizou; nunca falou propriamente de si próprio, nunca se propôs representar um papel. Sempre teve o aspecto do homem mais simples e mais comum, dizendo as coisas mais simples e mais banais. Escrevia às filhas e a Madame de Staël, lia romances, gostava do convívio das mulheres bonitas, gracejava com os generais, os oficiais e os soldados, e nunca desmentia as pessoas que lhe queriam provar fosse o que fosse. Quando Rostoptchine, na ponte de Iauza, lhe veio fazer censuras pessoais, acusando-o de responsável pela perda de Moscovo e declarando-lhe: «Pois quê, o senhor prometera entregar a cidade sem combate?», ele respondeu-lhe: «Mas não a entregarei sem combate!», quando é certo que a cidade a essa hora já caíra nas mãos dos Franceses.

Quando, tendo-o procurado em nome do imperador, Araktcheiev lhe disse ser preciso nomear Ermolov para o comando da artilharia, ele respondeu-lhe: «Sim, era precisamente isso que eu dizia», embora momentos antes tivesse dito exactamente o contrário. Que lhe importava a ele, a única pessoa no meio daquela gente absurda que o cercava que compreendia então o sentido formidável dos acontecimentos, que lhe importava que a infeliz sorte da capital fosse atribuída a Rostoptchine ou a ele próprio? E se isso lhe não importava, como lhe havia de importar o nome do comandante da artilharia?

Não só nestes casos, mas constantemente, este velho, que adquirira, pela sua experiência da vida, a convicção de que tudo quanto se possa pensar ou dizer está longe de influir na direcção dos homens, apenas dizia palavras insignificantes, as primeiras que lhe vinham à cabeça. Contudo este homem, que tão pouca importância atribuía às suas palavras, nunca em toda a sua vida activa pronunciou uma palavra que não tivesse em vista o objectivo único que se propusera no decurso de toda a guerra. No entanto, a involuntariamente, é certo, apesar de ter a certeza, bem triste, de que o não compreenderiam, mais de uma vez, em circunstâncias muito diferentes, exprimiu o fundo do seu pensamento. Não foi ele, depois da batalha de Borodino, causa inicial das dissensões com os homens que o rodeavam, o único a exprimir a opinião de que aquela batalha constituía uma vitória, opinião que repetiu tanto oralmente como nos seus relatórios e até nos seus relatos, até à sua derradeira hora? Só ele também se atreveu a dizer que a perda de Moscovo não era a perda da Rússia. Na sua resposta a Lauriston, que pedia a paz, não é certo ter afirmado que a paz não era possível porque o povo a não queria? Não foi ele o único, durante a retirada dos Franceses, que garantiu que os movimentos russos eram inúteis, que as coisas se arranjariam por si melhor do que o que se podia desejar, que ao inimigo que foge «ponte de euro», que não tinham sido necessários nem o combate de Tarutino nem os de Viazma ou de Krasnoie, que era preciso atingir a fronteira com forças suficientes, que não daria um soldado russo por dez franceses?

E foi só ele, esse homem que nos pintam como se fosse um cortesão, e que dizem ter mentido a Araktcheiev para agradar ao imperador, foi ele quem ousou, em Vilna, sabendo que desagradava ao seu monarca, afirmar que a continuação da guerra para lá da fronteira seria prejudicial e sem sentido.

Não disse estas palavras apenas para provar que compreendia muitíssimo bem o sentido dos acontecimentos. Os seus actos, todos, sem excepção alguma, visaram este tríplice objectivo: concentrar todas as suas forças no intuito de fazer frente aos Franceses, vencer o, inimigo e por fim expulsá-lo da Rússia, minorando quanto possível os sofrimentos do povo e do exército.

Só ele, Kutuzov, o contemporizador, cujo lema era: «Paciência e Tempo», só ele, o inimigo dos actos decisivos, trava a batalha de Borodino dando aos preparativos dela uma solenidade sem exemplo. Esse Kutuzov, que em Austerlitz previra que a batalha seria perdida em Borodino, a despeito da opinião dos generais que afirmavam certa a derrota, a despeito do exemplo único na história de um exército vitorioso que abandona o campo de batalha, afirma, só e até à morte, contra a opinião de todo o mundo, que essa batalha constitui uma vitória. Só ele, enquanto dura a retirada, insiste para que se não travem novos combates, que eram inúteis, sustentando que se não devia começar nova guerra, nem atravessar a fronteira.

Hoje, desde que se ponham de lado todos esses objectivos que só um reduzido número de homens concebia, é fácil darmo-nos conta dos acontecimentos, pois estão a ver-se agora todas as suas consequências.

Mas como é que esse velho, sozinho contra a opinião de todos os outros, pôde adivinhar tão bem o instinto popular na inteligência dos factos que nunca o atraiçoou?

Essa extraordinária clarividência tinha a sua fonte no sentimento patriótico que nele vibrava em toda a sua força e em toda a sua pureza.

O povo, por estranhas vias, soube reconhecer naquele homem esse sentimento intenso e escolher esse velho, então do desagrado do monarca, contra a vontade do czar, para que fosse ele a, conduzir a guerra patriótica. E só esse sentimento o colocou em tal altura moral e fez que, generalíssimo, empregasse todos os seus esforços, não para que fossem mortos e exterminados os seus homens, mas salvos e poupados.

Esta figura simples, modesta e por conseguinte magna figura, não podia amoldar-se à forma mentirosa do herói europeu, pseudo-dominador dos povos, que a história imaginou.

Não há grandes homens para o seu criado de quarto, porque o criado de quarto tem a sua maneira pessoal de compreender a grandeza.

[VI]

 

O dia 5 de Novembro foi o primeiro dia da batalha conhecida pela «batalha de Krasnoie». Para a noite, depois de muitos debates e de falsas manobras dos generais, após numerosas expedições de ajudantes-de-campo portadores de ordens contraditórias, quando se tornou evidente que o inimigo fugia por todos os lados e que era impossível travar batalha, Kutuzov seguiu de Krasnoie para Dobroie, para onde fora transferido, durante o dia, o quartel-general.

Fazia um tempo claro e frio. Kutuzov, seguido de uma imponente comitiva de generais, que em voz baixa exprimiam o seu descontentamento, dirigia-se para Dobroie, montado no seu bem nutrido cavalo branco. Ao longo da estrada, em volta das fogueiras, juntavam-se os prisioneiros franceses capturados durante o dia, num total de sete mil. A pequena distância da aldeia um grande grupo desses prisioneiros esfarrapados, embrulhados nos primeiros trapos que tinham encontrado à mão, falava em tom elevado, junto de uma longa fila de peças francesas desatreladas. Quando o general-chefe se aproximou, as conversas cessaram e todos os olhares convergiram para Kutuzov, que, com um gorro branco de rebordos vermelhos, embrulhado numa capa almofadada, caminhava lentamente, as costas vergadas e esbarrondado sobre o cavalo. Um general ia-lhe explicando onde tinham sido apreendidas as peças e capturados os prisioneiros.

Kutuzov, preocupado, não ouvia o que lhe diziam. Piscava o seu único olho com uma expressão descontente e observava os prisioneiros, de aspecto particularmente lamentável. A maior parte deles tinham as faces e o nariz gelados e os olhos vermelhos, inchados e lacrimosos.

Um grupo encontrava-se mesmo junto do caminho, e dois soldados, um dos quais com a cara cheia de pústulas, rasgavam à mão um pedaço de carne crua. No olhar furtivo que lançaram aos generais havia qualquer coisa de terrível e bestial e o soldado do rosto em ferida teve uma expressão feroz quando viu Kutuzov, voltando-se em seguida e continuando a sua tarefa.

O general-chefe contemplou por algum tempo esses dois soldados. Com uma expressão cada vez mais preocupada, abanava pensativamente a cabeça. Noutro ponto reparou num soldado russo que, rindo e batendo familiarmente no ombro de um francês, lhe falava amistosamente, Kutuzov teve idêntico abanar de cabeça.

— Que estás tu a dizer? — perguntou ele ao general que continuava a fazer o seu relatório, procurando chamar-lhe a atenção para as bandeiras francesas capturadas que, hasteadas, se encontravam diante do regimento Preobrajenski.

— Ah! As bandeiras! — exclamou Kutuzov, arrancando-se, penosamente, ao curso das suas reflexões.

E lançou à sua roda um olhar distraído. Milhares de olhos, à sua volta, se fixaram nele, aguardando o que ele ia dizer. Diante do regimento Preobrajenski parou, soltou um profundo suspiro e fechou os olhos. Alguém da comitiva fez sinal aos soldados que empunhavam as bandeiras para que se aproximassem e estes agruparam-se em volta do general-chefe, empunhando os estandartes. Kutuzov esteve calado alguns instantes, e, sem grande prazer, apenas como se se submetesse às circunstâncias, ergueu a cabeça e pôs-se a falar. A chusma dos oficiais envolveu-o. Kutuzov percorreu-os atentamente com o olhar, reconhecendo alguns.

— Agradeço-vos a todos! — disse, primeiro virado para os soldados e depois para os oficiais. E no silêncio que reinava as suas palavras destacavam-se nitidamente. — Agradeço-vos o vosso penoso e fiel serviço, A vitória é completa e a Rússia não vos esquecerá. Que a glória seja convosco para sempre!

Calou-se e olhou em volta de si.

— Abaixa-lhe, abaixa-lhe a cabeça! — gritou ele a um soldado que inclinava, sem querer, a águia francesa diante da bandeira do regimento Preobrajenski. — Mais, mais para baixo, assim. Hurra!, rapazes! — gritou, dirigindo-se aos soldados com uma contracção nervosa do queixo.

— Hurra! Hurra! — rugiram milhares de vozes.

Enquanto os soldados gritavam, ele, debruçado sobre a sela, inclinava a cabeça, e pelo seu único olho perpassou-lhe um lampejo ligeiramente trocista.

— Ouçam-me, rapazes — principiou, quando as vozes se calaram.

E de súbito a sua voz e a expressão do rosto mudaram por completo. Já não era o general quem falava, mas um velho, simplesmente, que queria agora comunicar coisas urgentes aos seus camaradas.

Houve uma agitação no meio dos oficiais e nas fileiras dos soldados, todos tentando ouvir o melhor possível o que ele ia dizer.

— Ouçam, rapazes. Eu bem sei que é duro, mas que havemos de fazer? Tenham paciência. Já não é por muito tempo. Vamos acompanhar os nossos hóspedes e depois toca a descansar. O czar não esquecerá os vossos serviços. É duro, mas, seja como for, vocês estão naquilo que vos pertence: em vossa casa. Mas esses, olhem para eles, onde estão eles? — acrescentou, apontando para os prisioneiros. — Estão em pior estado que os mais miseráveis bandidos, Quando eram poderosos, não tínhamos que nos compadecer deles, mas agora também os podemos lamentar. São homens como nós. Não é verdade, rapazes?

Kutuzov olhou à sua volta, e em todos os olhares atentos, respeitosamente interrogadores, fixados nele, havia simpatia pelas suas palavras. O rosto cada vez se lhe iluminava mais do seu bom sorriso de velho, que lhe abria estrelas de rugas nas comissuras dos lábios e no canto dos olhos. Calou-se e baixou a cabeça: dir-se-ia irresoluto.

— Mas, para falar verdade, quem os mandou cá vir? É bem feito, com mil bombas! — disse, de súbito, erguendo a cabeça. Brandindo o látego, abalou a galope, pela primeira vez em toda a campanha, no meio dos risos e dos hurras alegres dos soldados, que principiavam a destroçar.

Evidentemente que nem todos os soldados tinham compreendido as palavras de Kutuzov. Ninguém seria capaz de repetir textualmente este discurso, solene no princípio e de uma simplicidade cheia de bonomia nas suas últimas frases. A verdade, porém, é que o seu sentido íntimo não só foi bem compreendido, mas chegou ao fundo da alma dos soldados. Esses sentimentos de grandeza majestosa aliados à piedade para com o inimigo e à consciência de que a razão estava do seu lado, expressos na imprecação característica do velho, correspondiam ao que eles próprios sentiam, Essa a razão por que soltaram prolongadas e alegres aclamações. Quando em seguida um dos generais veio perguntar ao generalíssimo se ele queria seguir de carruagem. Kutuzov respondeu-lhe com um soluço, tão viva era a emoção que, sentia.

 

[VII]

A 8 de Novembro, último dia dos combates de Krasnoie, já era noite quando as tropas chegaram aos bivaques. O dia fora tranquilo, frio e com alguns raros flocos de neve que esvoaçavam pelo ar. Para a noite o tempo clareou: através da neve ligeira surgiu um céu estrelado, negro-violeta, e o frio tornou-se mais vivo.

O regimento de fuzileiros, que partira de Tarutino com três mil homens e estava agora reduzido a novecentos, foi um dos primeiros a chegar ao ponto indicado, uma aldeia situada na estrada real. Os forrageiros que tinham saído ao seu encontro declararam que todas as isbás estavam ocupadas por doentes ou cadáveres de franceses, a cavalaria e o estado-maior. Apenas restava uma para o comandante do regimento.

Este último dirigiu-se à isbá devoluta. O regimento atravessou a povoação e ensarilhou armas nas últimas casas à beira da estrada.

Como um grande animal de muitos braços, o regimento pôs-se a organizar o seu alojamento e a tratar do rancho. Parte dos soldados, com neve até aos joelhos, dispersou-se pela mata de álamos, à direita da aldeia, e logo se ouviram machados e pederneiras, estalar de ramos quebrados e vozes joviais; outra parte azafamava-se em volta das viaturas regimentais e dos cavalos agrupados no mesmo sítio. Dos carros tiraram marmitas e biscoitos e deram aos cavalos a sua ração. Ainda outros soldados se espalharam pela aldeia em busca de instalações para o estado-maior, retirando os cadáveres dos franceses que atulhavam as isbás, arrastando pranchas, lenha ou palha arrancada dos tectos das casas para alimentar as fogueiras, demolindo os tabiques para com eles arranjar abrigos.

No extremo da povoação, uns quinze homens tratavam de derrubar, no meio de alegre gritaria, o alto tabique de uma granja cujo telhado já fora arrancado.

— Força, força, empurremos todos juntos! — gritavam, e no meio das trevas ouvia-se o ruído seco da divisória que estremecia, completamente coberta de neve. O rangido era cada vez maior e por fim toda aquela massa cedeu com os soldados que a ela se apoiavam. Ouviram-se grandes risadas e altos gritos.

— Agarrem-na os dois. Tragam uma alavanca! Assim! Onde é que te meteste?

— Força! Todos ao mesmo tempo!... Força, rapazes!... Cantem... A compasso!

Todos se calaram: depois uma voz bastante fraca, de timbre agradável, entoou uma canção. No final da terceira estrofe, quando a última nota se extinguiu, vinte vozes gritaram em coro: — Uuupa! — Uuupa! Todos à uma, rapazes! Isto vai!

Apesar dos esforços de todos, o tabique não se movia, e no meio do silêncio que reinou de novo ouviu-se o resfolgar dos peitos cansados.

— E então vocês, os da 6ª! Diabos vos levem! Ajudem aqui!... A gente depois vos ajudará noutra coisa!

Uns vinte homens da 6ª companhia que iam passando juntaram-se aos que faziam força, e daí a pouco o tabique, que tinha cinco sagenas de comprido por uma de altura, seguia aos ombros dos soldados, ajoujados, pelas ruas da povoação além.

— Eh, tu, lá adiante! Porque páras? Assim não. — Os gracejos, as interpelações joviais sucediam-se.

— Que estão vocês a fazer? — gritou, de súbito, um sargento, numa voz de comando, correndo atrás dos homens que levavam às costas o tabique — Estão aí os patrões! Está aí o general! Ah!, seus malandros! Eu ajustarei contas com vocês! — E deixou cair o punho fechado em cima do primeiro soldado que lhe passou à mão. — Não podem fazer menos barulho?

Os soldados calaram-se. Aquele que apanhara o murro do sargento, resmoneando, pôs-se a limpar a cara, que sangrava por ter batido contra o tabique.

— Ah! Raios o partam! Isto é maneira de bater num homem? Pôs-me a cara em lindo estado! — exclamou, sem levantar a voz, quando o sargento se afastou.

— Hem? Não gostaste!? — gracejou um deles. E os soldados prosseguiram a sua marcha, procurando não gritar num tom tão elevado.

A saída da aldeia tornaram de novo à risota e aos ditos inofensivos.

Na isbá diante da qual os soldados tinham passado estava reunido o alto comando, e enquanto bebiam chá os oficiais iam discutindo animadamente o dia que findara e as manobras projectadas para depois. Tinham proposto uma marcha de flanco sobre a esquerda, cortando a retirada ao vice-rei e capturando-o.

Quando os soldados chegaram com o tabique demolido, já por toda a parte estavam acesas as fogueiras do rancho. A lenha estralejava, a neve derretia-se e as sombras negras dos soldados enchiam o espaço coberto de gelo espezinhado.

Por todos os lados se ouviam machados e pederneiras. Tudo se fazia sem ordens de comando. Acumulavam lenha para a noite, levantavam barracas para os comandantes, a sopa cozia nas marmitas, limpavam-se as espingardas e os fardamentos.

O tabique que a 8ª companhia transportara foi colocado em semicírculo do lado do vento, firmado no chão por estacas, e, abrigado por ele, montaram um bivaque. Tocou a recolher, fez-se a chamada, os homens cearam e aninharam-se para a noite diante das fogueiras, uns remendando as botas, outros fumando cachimbo, outros despindo-se para catar os piolhos.

 

[VIII]

Dir-se-ia que nas condições extremamente penosas em que se encontravam naquele momento os soldados russos, sem botas de Inverno nem peliças e acampando a céu aberto, com temperaturas de dezoito graus abaixo de zero, sem mesmo saberem o que era rancho regulamentar, pois a pitança nem sempre chegava a horas, deviam oferecer o mais lamentável e o mais desolador dos espectáculos. E no entanto nunca os soldados tinham estado tão alegres e animados, nem mesmo durante a época em que se encontravam em situação material mais favorável. E isto explica-se, pois, à medida que o tempo ia passando, do meio deles desaparecia tudo quanto era tristeza e fraqueza. Todos os que se haviam debilitado física ou moralmente ficavam para trás. O que estava ali agora era a fina flor do exército, do ponto de vista moral e do vigor físico.

Atrás do abrigo da 8ª companhia abrigara-se uma grande multidão. Tinham-se-lhe juntado dois sargentos e as fogueiras ardiam ali melhor que em qualquer outra parte. Para se ter o direito de estar sentado atrás do tabique era mister fornecer lenha para o fogo.

— Eh! Makaiev, que estás a fazer?... Perdeste-te ou foste comido pelos lobos? Anda, traz-me lenha — gritava um soldado ruivo de ventas iluminadas, com os olhos vermelhos muito piscos por causa do fumo, e que nem assim deixava a fogueira. — Anda, traz lenha, vadio! — dizia ele para o camarada.

Não era sargento nem cabo, mas soldado vigoroso, por isso se dava ao luxo de mandar nos mais fracos. O soldado magro, pequenito, de nariz aguçado, a que ele chamara vadio, ergueu-se docilmente e preparava-se para cumprir a ordem recebida quando surgiu junto da fogueira a silhueta fina e agradável de um moço soldado sobraçando um molho de lenha.

Continuar: parte 2 de 3